______ * Avanço da CPI indica CONSÓRCIO entre CENTRÃO e MILITARES na área da SAÚDE. "NÃO fica UM, meu irmão!" ______ * O bolsonarismo é a ESTUPIDEZ no ESTADO da ARTE ______ * Chegou a hora dos PIXULEQUEIROS FARDADOS
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Huawei Band 6 Imagem: Divulgação
____________________ * Por R$ 549, Huawei lança relógio fitness Band 6 com bateria de 2 semanas
____________________ * As denúncias de corrupção na compra de vacinas têm conexão entre si e levam a Bolsonaro | Míriam Leitão
____________________ * Avanço da CPI indica consórcio entre Centrão e militares na área da Saúde. __________ "Não fica um, meu irmão!"
____________________ * Sobre 'picaretas' e CPIs: escândalos não são denunciados por santos | Vera Magalhães
____________________ * Vacinação pode domar epidemia até o fim do ano, dizem especialistas, mas distanciamento ainda é vital
____________________ * Eu adorava o domingo porque tinha a coluna do Xexéo, o melhor e mais divertido de nós
____________________ * A bagunça revelada a cada momento | Merval Pereira
____________________ * Acuado, Bolsonaro ataca: 'Não vai ser com mentiras ou com CPI integrada por SETE BANDIDOS que vão nos TIRAR daqui'
____________________ * EUA podem antecipar saída do Afeganistão, e Talibã se prepara para retomar o poder
____________________ * DIRETOR FINANCEIRO da Organização TRUMP se entrega à Justiça horas antes de ser formalmente ACUSADO
____________________ * E se o Iraque atacasse o Texas? | Guga Chacra
____________________ * BIDEN NÃO CANSA de BOMBARDEAR e MATAR CIVIS no Oriente Médio | Guga Chacra
____________________ * Irã, a história recente de uma Revolução - Lejeune Mirhan
____________________ * BALUARTE da LIBERTAÇÃO nacional, do SOCIALISMO e da PAZ MUNDIAL - José Reinaldo Carvalho
____________________ * DEMOCRACIA e SOCIALISMO na CHINA - Elias Jabbour
____________________ * Xi Jinping defende firme adesão à liderança do Partido Comunista da China
____________________ * Bolsonaro: genocídio e corrupção! - Paulo Pimenta
____________________ * O bolsonarismo é a estupidez no estado da arte
____________________ * Chegou a hora dos pixulequeiros fardados
____________________ * Governo mortífero e corrupto
____________________ * Desafios atuais do pensamento político brasileiro - Bernardo Ricupero
____________________ * Sobre a teoria do valor e o debate atual da esquerda - Leda Paulani
____________________ * Carlos Wizard - covarde, canalha e cúmplice do genocídio
____________________ * Wizard, na CPI: frouxidão e desonra elevadas a um novo grau
____________________ * Frota diz que mudou para centro-esquerda e pode votar em Lula contra Bolsonaro
____________________ * Merval Pereira diz que "é evidente que Bolsonaro prevaricou"
____________________ * Será difícil mostrar a lisura dos contratos da Saúde - Os rastros - Merval Pereira
____________________ * Augusto Nunes diz que Bolsonaro foi mais perseguido do que Getúlio Vargas (vídeo)
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____________________ * Por R$ 549, Huawei lança relógio fitness Band 6 com bateria de 2 semanas

Guilherme Tagiaroli
De Tilt, em São Paulo
01/07/2021 08h00
Ainda que tenha interrompido a venda de smartphones no Brasil, a Huawei continua trazendo dispositivos de outras linhas para o mercado local. Nesta quinta-feira (1º), a empresa chinesa começa a vender a Huawei Band 6, um relógio fitness de tela grande, monitoramento cardíaco e que aguenta até duas semanas sem precisar carregá-lo.
O preço convencional do relógio é R$ 549. No entanto, até o dia 14 de julho, ele estará disponível por R$ 349 no Submarino, Shoptime e Americanas.
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Huawei Band 6: pulseira ou relógio?
Havia uma divisão clara entre smartwatches e pulseiras fitness. Os primeiros têm tela redonda ou retangular (como o Apple Watch), enquanto os segundos costumam ser finos e com uma tela discreta, geralmente da mesma largura da pulseira, para mostrar informações básicas (como contagem de passos, horário ou notificações).
Com o Band 6, a Huawei manteve o nome que a caracteriza como pulseira ("band", em inglês), mas colocou uma "telona retangular" de 1,47 polegada Amoled, que o deixa mais parecido com um relógio inteligente (smartwatch) convencional.
O vestível não conta com GPS para monitorar corridas, no entanto, ele vem com monitoramento contínuo de SpO2 (saturação de oxigênio) - nos gadgets anteriores da Huawei, a medição só era feita quando a pessoa quisesse. Esta funcionalidade ajuda a pessoa que se exercita a entender melhor sua capacidade cardiopulmonar.
Nesses tempos de covid-19, a medida também ajuda a saber se o pulmão de uma pessoa pode estar com algum problema. Mesmo assim, a Huawei ressalta que seu dispositivo não é um equipamento médico, e que se as pessoas suspeitam que podem ter algum problema de saúde, que procure a ajuda apropriada.
O Huawei Band 6 ainda conta com monitoramento contínuo de batimento cardíaco e análise de sono, indicando as diferentes fases (leve, pesado e REM).
Para quem curte se exercitar, o vestível suporta até 96 modos de exercício, que vai de spinning a boxe. Automaticamente, ele consegue detectar quatro atividades físicas: caminhada, corrida, remada e elíptico.
Diferente de outros relógios, com autonomia de até dois dias, o Huawei Band 6 aguenta, segundo a empresa, até 14 dias de uso moderado. Em uso intenso, a fabricante fala em até 10 horas.

Dá para usar o dispositivo enquanto toma banho tranquilamente, pois ele é à prova d'água. De acordo com a Huawei, ele suporta até 5 ATM, ou até 50 metros submerso.
O Huawei Watch 6 será disponibilizado em duas cores no Brasil: preto (grafite black) e rosa (sakura pink).
____________________ * As denúncias de corrupção na compra de vacinas têm conexão entre si e levam a Bolsonaro | Míriam Leitão - O Globo

Parecem casos isolados, mas se ligam. Hoje está depondo na CPI o empresário Luiz Paulo Dominguetti que denunciou ter ouvido pedido de propina. E quem fez o pedido foi o diretor do departamento de Logística, Roberto Ferreira Dias. Esse Roberto Dias foi também indicado como um dos responsáveis pelas pressões atípicas no caso Covaxin pelo servidor Luis Ricardo Miranda.
Esse Roberto Dias foi indicado pelo líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, o mesmo do qual o presidente Bolsonaro suspeitou logo que foi informado de que havia irregularidades na compra da Covaxin. O presidente Bolsonaro não só não mandou investigar, como em seguida nomeou a mulher de Barros para um cargo na Itaipu. Esse mesmo Dias foi indicado por Bolsonaro para uma diretoria da Anvisa e só não foi nomeado porque o TCU mostrou que ele estava ligado ao caso de corrupção da Global que já estava sendo investigado e que vem do governo Temer. E essa Global é do mesmo dono da Precisa, do caso Covaxin, Francisco Maximiano.
Dias quase foi exonerado, mas houve pressão política para que ele ficasse. Já o Maximiano, a PF abriu uma investigação sobre ele só agora, mas a tempo de fortalecer seu argumento de que deveria permanecer em silêncio na CPI. Ele pediu e o STF deu o direito. Hoje o senador Otto Alencar acha que foi aberta essa investigação de propósito para ele ter o direito de ficar em silêncio. As peças vão se juntando nessa linha de investigação que mostra claramente uma rede de corrupção e na qual o próprio presidente tem um papel importante por ação ou omissão.
Os casos estão conectados e o presidente tem muito a explicar, tanto em relação a Covaxin como a Astrazeneca. Na outra trilha de investigação da CPI, dos erros e omissões do governo federal, ele também deve explicações. O comportamento de Bolsonaro de disseminação deliberada do vírus, com o combate às medidas de proteção, levou à morte de centenas de milhares de pessoas, dizem os especialistas. Mortes que poderiam ter sido evitadas.
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, ainda não decidiu pela prorrogação da CPI. Ele não tem razão para ter adiado esta decisão. Os membros da comissão precisam de horizonte. Lembrando que Pacheco tentou engavetar o máximo que pode a própria CPI. Só leu o requerimento de abertura quando o ministro Luís Roberto Barroso mandou cumprir a lei, já que tinha a assinatura de 1/3 dos senadores.
____________________ * Avanço da CPI indica consórcio entre Centrão e militares na área da Saúde. ____________________ * Não fica um, meu irmão

Foi o general Augusto Heleno quem aplicou ao Centrão a trilha sonora celebrizada pelo Exporta Samba na convenção que escolheu Jair Bolsonaro candidato a presidente da República pelo PSL. “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, cantou o general, todo animadinho, ao microfone. A plateia veio abaixo. Eu estava lá para fazer uma reportagem e vi, mas não seria preciso ter testemunhado para citar a cena de memória. Está no YouTube para quem quiser conferir.
É uma lembrança do tempo em que os bolsonaristas se sentiam no direito de gritar “eu vim de graça” num centro de convenções lotado, promovendo a arauto da verdade e da ética um grupo de militares que louvava a ditadura e hostilizava a imprensa, as minorias e os adversários.
No meio do povo, muitos dos que entrevistei se diziam arrependidos de ter votado em Lula e Dilma, sentindo-se traídos pelos escândalos de corrupção dos governos petistas. Achavam, então, que votando em Bolsonaro acertariam a mão.
Esses arrependidos estavam entre os que mais aplaudiam Heleno quando ele disse: “O Centrão é a materialização da impunidade. O primeiro ato do presidente que for eleito carimbado de Centrão vai ser uma anistia ampla, geral e irrestrita”.
E eis que chegamos a 2021 no seguinte cenário: o maior líder do Centrão, Arthur Lira (PP-AL), é presidente da Câmara dos Deputados com o apoio empenhado de Bolsonaro, que liberou bilhões em emendas parlamentares para elegê-lo. Há poucos dias, Lira comandou na Câmara a votação de mudanças que restringem o alcance da Lei de Improbidade Administrativa ao ponto de ela ter sido apelidada de “lei da impunidade”.
Outro chefe desse conglomerado político-fisiológico, o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR) — que já apoiou Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff, foi ministro de Michel Temer e agora é líder de Jair Bolsonaro — está enredado até o último fio de cabelo nas denúncias de cobrança e oferta de propina nas negociações para compra de vacina pelo governo.
Jair Bolsonaro foi avisado há três meses da pressão mais do que suspeita que os apadrinhados de Barros e os coronéis do Ministério da Saúde faziam sobre o servidor público Luis Ricardo Miranda. Quem estourou tudo não foi nenhum oposicionista, e sim o bolsonarista inveterado, irmão do servidor e também deputado Luis Miranda (DEM-DF).
E o presidente que combateria a corrupção? Mandou apurar o caso? Chamou Ricardo Barros à fala? Demitiu seus apadrinhados? Nada disso. Mesmo deixando claro que sabia que aquilo tudo era “rolo” de seu líder na Câmara, Bolsonaro o presenteou com um mimo: a nomeação da mulher, Cida Borghetti, para um cargo no conselho de Itaipu.
"Eu sei me defender", diz Ricardo Barros
Mas não acabou aí. Nesta semana, vieram à tona novas denúncias. Nelas, fica ainda mais claro que o grupo de Barros na Saúde não era composto apenas de seus apadrinhados, como o diretor de logística Roberto Dias, mas também de vários militares, fardados e ex-fardados, como Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro.
Segundo um intermediário que ofereceu ao governo 400 milhões de doses de AstraZeneca contou à repórter Constança Rezende, da Folha de S.Paulo, no mesmo encontro em que Dias cobrou propina de US$ 1 por vacina estava um tenente-coronel chamado Marcelo Blanco, anotando números e fazendo contas.
Os Mirandas já haviam comprometido em seus relatos outro tenente-coronel, Alex Lial Marinho, também nomeado por Pazuello para o ministério. Elcio Franco, ex-secretário executivo, se apressou a negar que houvesse qualquer irregularidade e a jogar a sujeira para debaixo do tapete.
Quanto mais a CPI avança, mais fica claro que o Centrão formou um consórcio com os militares na Saúde, agindo como se não houvesse amanhã enquanto milhares de pessoas sucumbiam à Covid-19 em hospitais Brasil afora.
O general Heleno é hoje ministro no Palácio do Planalto. O que será que pensa disso tudo? No fim de maio, ele desdisse na Câmara dos Deputados tudo o que falara lá atrás sobre o Centrão: “Naquela época era uma situação. A evolução de opinião faz parte da vida do ser humano. Isso aí faz parte do show, do show político”.
No show político de Jair Bolsonaro, é normal aceitar cheque de acusado de rachadinha, acobertar ministro investigado por autorizar exportação de madeira ilegal, fechar os olhos para denúncias de corrupção em compra de vacinas, preocupar-se mais em perseguir quem aponta o malfeito do que quem o pratica.
No show político do governo Bolsonaro, a morte de quase 520 mil brasileiros é mero efeito colateral. No show político de Jair Bolsonaro, nenhuma trilha sonora cai tão bem quanto a do general Heleno de 2018.
____________________ * Sobre 'picaretas' e CPIs: escândalos não são denunciados por santos | Vera Magalhães - O Globo

Uma das cartadas clássicas de governantes, ministros, parlamentares ou quaisquer autoridades acusadas por suspeitas graves de corrupção é apontar a ficha corrida dos denunciantes. Agora mesmo, o atravessador de vacinas Luiz Paulo Dominghetti Pereira, que denunciou em entrevista à Folha de S.Paulo uma tratativa nada republicana com um funcionário de médio escalão do Ministério da Saúde para embutir propina numa compra esquisita de vacinas no mercado negro, é o "picareta" da vez, e com base em seu histórico tentam desqualificar seu depoimento logo mais na CPI.
Escândalos de corrupção, por óbvio, não são trazidos à tona por santos. Para que ocorram tentativas de achaque, combinações de propina, caixa dois, superfaturamento e outras modalidades de corrupção é preciso que haja duas partes numa conversa: o disposto a pagar e o ávido por receber. E oportunidade de negócios.
O grave nesse capítulo descortinado a partir da compra da Covaxin pelo governo é que, em dado momento do início de 2021, um governo até então desinteressado em vacinas já certificadas, com eficácia comprovada, vendidas diretamente por fabricantes internacionais e com reputação ilibada, viu no clamor nacional por imunizantes uma chance de transformar o Ministério da Saúde num feirão de vacinas obtidas através de intermediários nada confiáveis, com preços bem maiores, se preciso driblando e pressionando a Anvisa, mexendo na lei para permitir a compra privada, com ampla participação de políticos e sua ligação providencial com servidores designados por eles mesmos.
Nesse capítulo da traficância da vacina, o caso Covaxin é o principal: ali se cumpriram todas as etapas da compra efetiva e bilionária da vacina indiana por intermédio de uma empresa enrolada até a medula, há provas de pressão política documentadas fartamente e o presidente da República em pessoa foi avisado de que uma corrupção corria solta em seu ministério mais importante no momento, com a suspeita de participação de seu líder na Câmara, e nada fez por três longos meses. Círculo completo do malfeito.
O caso da tentativa de vender vacina da AstraZeneca numa praça de alimentação é uma versão não concretizada da corrupção, mas que tem os mesmos elementos, ainda mais caricatos. Agora, a empresa Davatti Medical Supply tenta se desvencilhar da figura de Dominghetti Pereira, mas ela mesma já foi denunciada por oferecer esquemas idênticos a prefeituras, na mesma época, ali no primeiro quadrimestre do ano, quando o comércio privado de vacinas parecia um veio portentoso a ser explorado (depois, o projeto aprovado a toque de caixa na Câmara escancarando tudo foi freado no Senado).
A reportagem da Folha é impecável: o jornal comprovou o encontro de Dominghetti com o servidor Roberto Ferreira Dias, que, aliás, já figurava com destaque no caso Covaxin, como um dos que pressionaram o servidor Luis Miranda para aprovar o negócio a toque de caixa. Há e-mails do ministério confirmando o interesse num negócio nada transparente. O encontro dos dois para jantar está documentado.
Há quem argumente que a CPI pode se desmoralizar ouvindo tipos como Dominghetti. A lista de figuras do gênero que já abasteceram investigações que de fato apontaram malfeitos é interminável. Vai de Roberto Jefferson, o mais conhecido, a figuras como Rogério Buratti, que entregou a "mansão do lobby" e implicou Antonio Palocci em 2008, e o lobista Rubnei Quicoli, que precipitou a queda de Erenice Guerra, então ministra da Casa Civil de Dilma Rousseff, em 2010.
Desmoralização completa, neste caso da Davatti, não é a CPI ouvir o lobista, e sim o governo ter negociado oficialmente com alguém desse naipe, com uma oferta desse tipo, e propondo propina de U$ 1 por vacina.
Cabe à comissão investigar a fundo as suspeitas e, se for o caso, separar o trigo (caso Covaxin) do que possa vir a se revelar joio. Ainda assim, o modus operandi de aproveitar uma pandemia para fazer negócios aparece em todo o seu esplendor nesse caso de negociação de imunizantes com propina numa praça de alimentação de shopping quando o país já chorava 250 mil mortos. Picaretas são todos, e a apuração precisa ser feita.
____________________ * Vacinação pode domar epidemia até o fim do ano, dizem especialistas, mas distanciamento ainda é vital

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SÃO PAULO — Os números da Covid-19 no Brasil neste ano ainda estão em níveis acima do pior visto em 2020, mas a queda nos dados de mortes e de internações pela doença sugere que há uma perspectiva de, com a vacinação em massa, controlar a pandemia até o fim do ano.
Epidemiologistas entrevistados pelo GLOBO afirmam que abrir mão das medidas de distanciamento agora é algo que ainda implicaria muitas mortes adicionais, e o receio de novas variantes do vírus comprometerem a imunidade construída pelas vacinas é real.
Guardadas essas importantes ressalvas, porém, os especialistas já veem a perspectiva de o país começar o próximo ano numa situação com o vírus domado.
— Nós estamos vivendo agora um momento em que dá para ver uma luz no fim do túnel — afirma Paulo Petry, professor de epidemiologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. — As quedas de internações, de ocupação de leitos de UTI e de mortes podem ser atribuídas principalmente à vacinação, porque os grupos prioritários, com maior risco, em geral já receberam a vacina. Mas, na população, a parcela de vacinados ainda é baixa.
O Brasil atingiu nesta semana a marca de 12% da população totalmente imunizada (com duas doses); 22% tomaram apenas uma dose de imunizante. A fatia necessária para frear a pandemia só com vacinação, porém, é estimada em cerca de 70% da população plenamente vacinada.
Isso significa que, se o país continuar abrindo mão de medidas rígidas de distanciamento, o número de mortos até a campanha de vacinação chegar a um limiar razoável será muito maior.
Otimismo com cautela
Para Márcio Bittencourt, médico do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP, a queda no número de internações observada ao longo de junho é uma boa notícia, mas inspira mais cautela que otimismo.
— Apesar de a situação estar melhor, a gente ainda está muito longe de estar bem. Se a gente estivesse no primeiro ano da pandemia, hoje a gente estaria no pior dia do ano — diz o cientista.
Bittencourt ressalta que, apesar de o Brasil não ver mais 3.000 mortes por Covid-19 por dia, as cerca de 1.600 que ocorrem agora mostram que o vírus ainda está fora de controle.
— Depois de uma queda aguda no número diário de mortes, a velocidade com que a queda ocorre está diminuindo — diz o médico.
Essa é a tendência mostrada pelo sistema Sivep/Gripe, do Ministério da Saúde, que contabiliza os casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), o diagnóstico de sintomas que caracterizam a Covid-19.
Após picos de internações (em março) e mortes (em abril), na média nacional a curva de óbitos se interrompeu em um platô (veja mais acima).
Essa é a situação observada em São Paulo, por exemplo. Mas há estados um pouco melhores, como o Rio, ou piores, como o Paraná. Quando os números são separados por idade , a presença da vacina (e a ausência das medidas de distanciamento) ficam claras.
— Quando olhamos os dados por faixa etária, nos grupos mais velhos os números estão caindo, mas nos grupos mais jovens os casos estão até subindo. Em alguns lugares, as hospitalizações também sobem nesse grupo — diz Leonardo Bastos, epidemiologista da Fiocruz. — Foi um acerto o país priorizar a vacinação das pessoas mais vulneráveis, mas a gente errou ao não cuidar das medidas para reduzir a transmissão dos casos mais leves.
Os especialistas também criticam no Brasil a ausência de um plano nacional de vigilância epidemiológica para a Covid-19.
Segundo Gulnar Azevedo, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o emprego de testes e de agentes comunitários de saúde para isolar pacientes e rastrear seus contatantes faria grande diferença na taxa de contágio.
— O problema é que o Brasil nunca fez isso em escala nacional, como fizeram a Inglaterra e outros países — diz Azevedo.
Para ela, mesmo com a vacinação avançando, existe o risco de uma nova variante da Covid-19 (como a delta, importada da Índia) sabotar a imunidade coletiva promovida pelas vacinas.
— Continua importante controlar portos e aeroportos para a chegada de nova variantes e investigar as cadeias de transmissão — diz.
____________________ * Eu adorava o domingo porque tinha a coluna do Xexéo, o melhor e mais divertido de nós
Um dia eu estava na redação do Globo conversando com Artur Xexéo quando um estagiário se aproximou de nós. Estava morrendo de medo — aquele medo que a gente tem dos dinossauros, e que nós dois tínhamos tido também, um dia, dos jornalistas mais velhos. Acho que o medo era mais do Xexéo do que de mim. O Xexéo tinha um mau humor que espantava os incautos, que não sabiam que aquilo era parte do charme. O rapaz perguntou há quanto tempo nós nos conhecíamos. Nós respondemos, ele pediu desculpas por ter interrompido a conversa, e foi embora, visivelmente assombrado. Não me lembro mais qual teria sido a nossa resposta àquela altura, mas nós já nos conhecíamos há mais tempo do que ele tinha de vida.
— A gente não pode mais responder a esse tipo de pergunta — observou o Xexéo. — Isso assusta as crianças.
Decidimos então que, daí em diante, cada vez que nos perguntassem há quanto tempo nós nos conhecíamos, responderíamos “sete anos”. Sete é um número bonito, e sete anos são uma enormidade para quem tem vinte — mas cabem na imaginação e no tempo da vida. Ficamos bem combinados, mas a pergunta só foi repetida uma vez, numa palestra da qual estávamos participando. Aí, diante da plateia de muitas idades, contamos essa historinha. <SW>
Na verdade, não sei dizer há quanto tempo nós nos conhecíamos. Precisaria fazer uma pesquisa para ter a resposta exata, para saber se as datas em que começamos a trabalhar no Jornal do Brasil coincidiam, mas odeio fazer contabilidade emocional.
O fato é que Xexéo é parte do mundo que vivi e sou.
Durante alguns anos, fomos vizinhos no Bairro Peixoto. Nossos prédios ficavam quase de frente um para o outro, e podíamos nos avistar pela janela. Rachamos alguns táxis até a Avenida Brasil, onde ficava a redação, mas, naquele tempo, os nossos salários não nos permitiam muito esse luxo.
Eram as viagens mais divertidas. Conversávamos sobre o jornal e sobre o mundo, sobre o Rio, sobre as pessoas que conhecíamos e não conhecíamos, sobre as trivialidades do cotidiano. Uma vez fomos da Décio Vilares até o túnel Santa Bárbara rasgando elogios a Zuenir Ventura, o nosso querido Mestre Zu, e nunca me esqueci dessa conversa porque ambos devíamos tanto a ele, e o nosso sentimento era tão profundo e parecido.
Xexéo foi o primeiro dos meus amigos — e durante muitos anos, o único — a se preocupar com a aposentadoria: não tínhamos nem 30 anos e ele já se afligia com o futuro. Eu achava engraçado, porque eu mal me dava conta de que, um dia, ficaríamos velhos.
Pois é.
Como tanta gente, eu também era leitora empolgada e devota do Xexéo. Eu adorava o domingo porque tinha a coluna dele, o melhor e mais divertido de nós, o almanaque das nossas lembranças.
No domingo passado, quando não encontrei a sua coluna aqui, o dia ficou quebrado, como ficava sempre que ele estava de férias.
Nunca mais vai existir um domingo inteiro.
____________________ * A bagunça revelada a cada momento | Merval Pereira - O Globo
A bagunça do governo federal vai sendo revelada a cada momento. A mais recente denúncia sobre a tentativa de propina na compra de vacina é impressionante. E dessa vez, o governo foi rápido, demitiu imediatamente o servidor denunciado. Evidentemente, já tinha alguma suspeita sobre ele, mas é sinal de que estão querendo se livrar das pessoas e dos problemas. Como se demitir um servidor corrupto fosse a solução para o caso, que é muito mais grave. Mostra que há uma indústria de propinas para compra de insumos médicos dentro do ministério da Saúde, que precisa sofrer uma ampla devassa. Pelo visto, a passagem do deputado Ricardo Barros por lá continua deixando seus rastros. Todos os servidores envolvidos nessas falcatruas foram nomeados no tempo dele e, pela denúncia de diversas pessoas, montaram um esquema que viu a chance de ganhar muito dinheiro com a pandemia. As explicações que o governo vai dando são ridículas e o papel do senador Fernando Bezerra para defender o presidente é lamentável. Bastava fazer uma investigação para saber que o documento que eles alegaram ser falso, naquela “palhaçada” na televisão, era verdadeiro. Há um esforço para tirar Bolsonaro da história, mas todos os presidentes dizem que não têm nada a ver com o que aconteceu. Lula disse que não sabia do mensalão, que mandou apurar, até chorou na frente do Roberto Jefferson; depois veio o petrolão, e ele também não sabia de nada, não era dono de nada, não fez nada. Agora a história se repete, com Bolsonaro dizendo não saber de nada do que acontece nos ministérios. Mas, diante do que está sendo revelado, é difícil tirar Bolsonaro disso. Se ele recebeu a denúncia e não fez nada, e ao contrário, manteve Ricardo Barros na liderança do governo e nomeou a mulher dele em Itaipu, é evidente que, no mínimo, ele prevaricou.
____________________ * Acuado, Bolsonaro ataca: 'Não vai ser com mentiras ou com CPI integrada por SETE BANDIDOS que vão nos TIRAR daqui'

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BRASÍLIA — Acuado por investigações da CPI da Covid, o presidente Jair Bolsonaro subiu o tom nesta quarta-feira contra membros da comissão. Bolsonaro afirmou que a CPI é formada por "sete bandidos", em referência à ala majoritária da comissão, e disse que não será retirado do cargo por "mentiras".
— Não conseguem nos atingir. Não vai ser com mentiras ou com CPI integrada por sete bandidos que vão nos tirar daqui — disse o presidente, durante evento em Ponta Porã (MS) de inauguração de uma estação radar da Força Aérea Brasileira (FAB).
Nos últimos dias, a CPI tem focado em apurar a compra de vacinas. Nesta quarta-feira, a CPI da Covid aprovou a convocação do líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros. A aquisição da Vacina Covaxin é investigada pelo Ministério Público Federal (MPF), que viu indícios de crime. Na terça-feira, o Ministério da Saúde suspendeu o contrato, atendendo a recomendação da Controladoria-Geral da União (CGU).
A dose do imunizante negociada pelo governo foi a mais cara entre todas as que foram contratadas pelo Ministério da Saúde, e o processo de aquisição foi o mais célere de todos. O valor total do contrato é de R$ 1,6 bilhão. O montante foi empenhado, isto é, reservado pela Saúde, mas ainda não foi pago.
Nesta quarta-feira, foi publicada a exoneração de Roberto Ferreira Dias do cargo de diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde. A medida foi tomada após as denúncias de que Dias teria pressionado pela aprovação célere da Covaxin. O ex-diretor também foi acusado por um empresário de ter pedido propina para facilitar contratos de vacina com o ministério, segundo o jornal "Folha de S. Paulo".
O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), rebateu Bolsonaro na sessão desta quarta-feira:
— Presidente, pare de olhar no espelho e falar com ele. Quando fala para o espelho, dá nisso.
Elogios a Forças Armadas e Legislativo
No evento desta quarta, que contou com a participação do comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, Bolsonaro disse tem "paz e tranquilidade" por ter Forças Armadas "comprometidas com a democracia":
— Só tenho paz e tranquilidade por sei que, além do povo, eu tenho as Forças Armadas comprometidas com a democracia e com a nossa liberdade.
O presidente também disse o Legislativo tem dado um "grande apoio" ao governo federal:
— Pode ter certeza que temos uma missão pela frente e vamos cumprí-la da melhor maneira possível tendo, além do Poder Executivo, obviamente, os nossos amigos do poder Legislativo, que têm nos dado um grande apoio em todas as propostas que temos apresentado para o bem do nosso Brasil.
____________________ * EUA podem antecipar saída do Afeganistão, e Talibã se prepara para retomar o poder

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A menos de três meses do prazo anunciado para a retirada dos militares estrangeiros do Afeganistão, países como a Itália e a Alemanha anteciparam seus cronogramas e já não têm mais soldados nas bases locais — segundo afirmaram nesta semana à Reuters fontes do governo americano, os EUA podem seguir o mesmo caminho, e pôr fim a duas décadas de presença em solo afegão daqui a alguns dias. Apesar das promessas de apoio internacional, seja ele político ou militar, os afegãos se veem diante da ameaça do retorno do Talibã ao poder, o mesmo cenário do início da intervenção da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em outubro de 2001.
A decisão de retirar as tropas internacionais do Afeganistão foi tomada ainda no governo de Donald Trump, após um acordo com o Talibã em fevereiro de 2020, cujos detalhes até hoje são pouco claros e apontados como extremamente favoráveis à milícia extremista.
Pelo texto, os militares partiriam caso o Talibã evitasse que ataques contra os EUA e a Otan fossem organizados a partir do território afegão — o que o grupo de certa forma fez ao combater células locais do Estado Islâmico. Os talibãs deveriam também se engajar em negociações de paz com as autoridades de Cabul. Este processo começou em setembro do ano passado e hoje está estagnado, com questões como a troca de prisioneiros e o sistema político a ser adotado no futuro em aberto.
— Foi uma boa escolha fechar esse acordo, mas foi uma decisão terrível cumprir apenas nossa parte enquanto o outro lado não seguiu suas obrigações — disse ao GLOBO Annie Pforzheimer, ex-vice-secretária assistente para o Afeganistão no Departamento de Estado.
A data prevista por Trump para a retirada dos cerca de 3.500 soldados americanos restantes no país, 1º de maio deste ano, acabou adiada por Joe Biden até o dia 11 de setembro, quando os EUA marcam os 20 anos dos atentados da al-Qaeda contra Nova York, Washington e um avião na Pensilvânia, que deixaram quase 3 mil mortos e motivaram o início da mais longa guerra com participação americana da História. O Pentágono não divulga quantos militares estão no país da Ásia Central no momento, e diz que 650 deles permanecerão depois da retirada oficial para a proteção de diplomatas.
Ao mesmo tempo em que Biden declarava concluído o objetivo de evitar novos ataques em solo americano, o Talibã dava início a uma de suas maiores ofensivas militares. Em questão de semanas, a milícia tomou o controle de boa parte do território afegão, e a cada dia amplia sua área de influência. Em março, relatório do centro de estudos Conselho de Relações Internacionais apontava que, em termos militares, o grupo está mais forte do que em outubro de 2001, quando ainda governava o Afeganistão.
— Eu vejo isso como um mau sinal para o futuro próximo. E seus ataques são constantes e amplos, de forma que pressionam as forças do governo — pontuou Annie Pforzheimer. — Acho que é previsível que, ao longo do verão no Hemisfério Norte e diante da retirada americana, eles tentem uma vitória militar. Se conseguirem, isso será um golpe contra o processo de paz e podemos dizer que não haverá mais negociações.
Mesmo com o apoio internacional aos esforços de paz, a recente mudança de foco da política externa do governo americano trouxe um elemento a mais de indefinição: em abril, ao anunciar a retirada, Biden sinalizou que os EUA “deveriam lutar as batalhas dos próximos 20 anos, não dos últimos 20 anos”.
— O governo afegão e o Talibã continuarão a se enfrentar da mesma maneira de sempre, não importando a transição dos EUA para outras prioridades de política externa. O que precisamos ver é como o governo afegão vai se adaptar e o quão resiliente será sem o fator psicológico da presença americana e do apoio no país — disse Andrew Watkins, analista sênior do centro de estudos International Crisis Group, ao GLOBO.
Impactos da retirada
Annie Pforzheimer, que hoje é ligada ao Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, baseado em Washington, aponta que a declaração de Biden desconsidera a importância do Afeganistão para tópicos “prioritários” da agenda do Departamento de Estado, como a segurança regional da Ásia, novo eixo estratégico para Washington.
— Eu vi essa posição como um cálculo infeliz. Não existe isso de decidir qual guerra você vai lutar — declarou.
No Paquistão, vizinho à Índia, aliada de primeira hora da Casa Branca, a intensificação da violência em solo afegão pode fortalecer grupos radicais em áreas de fronteira, levando a instabilidade para o lado de Islamabad. Há o risco, em caso de ampliação da guerra civil, de um grande fluxo de refugiados — hoje, há 1,7 milhão de pessoas nesta situação vivendo em território paquistanês, de acordo com números do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. As turbulências locais poderiam impactar também nações como o Irã e a China, que têm fronteiras com o Afeganistão e aparecem entre as prioridades dos EUA.
Há ainda um fator que remete à própria ideia que norteou a intervenção, o combate ao terrorismo global. Hoje, há células ativas do grupo Estado Islâmico dentro do Afeganistão, e embora não controlem mais territórios, foram responsáveis por massacres recentes: no dia 8 de maio, um ataque do grupo contra uma escola de meninas em Cabul deixou 85 mortos, em sua maioria jovens entre 11 e 15 anos.
— Eles não funcionam mais como uma força paramilitar, mas passaram a atuar como células secretas e com ataques assimétricos. Elementos afiliados agora operam nas províncias de Cabul, Parwan e Baghlan, e talvez ao redor do país — aponta Watkins. — O grupo agora se beneficia com a decisão do Talibã de não mais assumir a autoria de atos de violência contra civis. O Estado Islâmico também começou a não reivindicar alguns dos atos, confundindo ainda mais a situação de segurança.
Apesar de verem como possível um acordo entre o governo afegão e o Talibã em médio prazo, incluindo em ações contra o Estado Islâmico, analistas ouvidos pelo GLOBO apontam que a intensificação da atual guerra civil é certa no curto prazo — e desse conflito poderá sair a ideia de como será o país depois da retirada das forças internacionais.
— Acredito que os dois lados no conflito têm pontos em comum. E se o Talibã, que quer obter uma vitória militar depois da saída americana, perceber que o governo e o povo do Afeganistão podem lutar contra eles, penso que eles podem optar por atingir alguns de seus objetivos através de negociações — pontuou Pforzheimer.
____________________ * Diretor financeiro da Organização Trump se entrega à Justiça horas antes de ser formalmente acusado

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NOVA YORK — O diretor financeiro da Organização Trump, Allen Weisselberg, se entregou na manhã desta quinta-feira à Procuradoria de Manhattan, horas antes dele e da empresa do ex-presidente americano Donald Trump serem formalmente acusados pela Justiça americana. O teor das denúncias só será anunciado durante a tarde, mas está no âmbito de uma extensa investigação criminal sobre possíveis delitos fiscais.
Weisselberg, de 73 anos, trabalha com o ex-presidente desde a década de 1970 e teve papel central para seu sucesso e fama, que em 2016 ajudaram a catapultá-lo ao Salão Oval. Trump não deverá ser pessoalmente alvo de denúncias, mas a notícia aperta ainda mais o cerco contra ele e sua família, complicando não só negócios futuros, mas também seus planos para um retorno político em meio a sua turnê de vingança contra os republicanos que votaram pelo seu impeachment.
Weisselberg e a Organização Trump, que compreende mais de 500 companhias e projetos, serão os primeiros indiciados na investigação de três anos para apurar se a empresa cometeu fraude na negociação de empréstimos e de benefícios fiscais. O inquérito, contudo, continua, e poderá resultar em outras acusações no futuro.
Há meses, os investigadores vinham apresentando suas descobertas a um grande júri, que nos EUA decidem se as evidências sustentariam a abertura de um processo. O grupo concluiu na quarta que a Procuradoria tinha provas suficientes — segundo a imprensa local, devido a suspeitas de que executivos não pagaram impostos sobre benefícios que receberam da Organização Trump.
Pessoa mais influente da empresa depois do ex-presidente e de seus filhos, Weisselberg era investigado por suspeitas de não declarar dezenas de milhares de dólares em anuidade de escolas particulares para ao menos um de seus netos, um apartamento gratuito em Manhattan e carros da Mercedes-Benz, todos custeados pela companhia. Nos EUA, benefícios corporativos são habitualmente tributáveis, mas há exceções e as regras não são muito claras.
Braço-direito
Os advogados de Weisselberg, Mary Mulligan e Bryan Skarlatos, afirmaram que ele irá enfrentar as acusações no tribunal, sem se declarar culpado ou firmar um acordo. A alternativa seria potencialmente danosa para Trump, que já afirmou ter "100% de confiança" de que não seria traído por seu braço direito, cuja carreira começou há 48 anos como contador de seu pai, Fred Trump.
O executivo foi um dos responsáveis por tocar os negócios ao lado de Eric Trump e Donald Trump Jr. nos últimos quatro anos, enquanto Trump esteve na Casa Branca. Em resposta às notícias desta quinta, a Organização Trump afirmou que Weisselberg está sendo usado como "um peão em uma tentativa de terra arrasada para prejudicar o ex-presidente": "O promotor está abrindo um processo envolvendo benefícios trabalhistas que nem a Receita ou outros promotores abririam. Isso não é justiça, é política", diz a nota.
As investigações foram originalmente abertas em 2018 pelo promotor de Manhattan, Cyrus Vance, um democrata, para examinar alegações de que duas mulheres que supostamente tiveram casos amorosos com Trump foram pagas para que permanecessem em silêncio durante a campanha presidencial de 2016.
O objetivo era apurar como a Organização Trump prestou contas de US$ 420 mil pagos ao advogado e hoje inimigo do ex-presidente Michael Cohen, para reembolsá-lo pelo pagamento a uma das mulheres, a atriz pornô Stormy Daniels. Cohen, que admitiu em 2018 ter violado regras de financiamento de campanha e foi condenado a três anos de prisão domiciliar, colabora com as autoridades.
Suspeitas fiscais
O inquérito rapidamente ganhou um escopo maior, focando em suspeitas de que a companhia do ex-presidente teria inflado os valores de suas propriedades para obter mais crédito, enquanto os reduzia para se beneficiar de deduções fiscais. As suspeitas têm como foco duas das propriedades mais emblemáticas do ex-presidente: a Torre e o Hotel Internacional Trump em Chicago, além da emblemática Trump Tower, no centro de Nova York.
Os promotoes investigam também uma propriedade de 85 hectares em Westchester, ao norte de Manhattan, comprada em 1995. Desde maio, Vance trabalha em conjunto com a Procuradoria Geral de Nova York, comandada pela também democrata Letitia James, que conduzia um inquérito paralelo, na esfera civil, sobre possíveis delitos fiscais.
As primeiras acusações vêm pouco mais de quatro meses após a Suprema Corte rejeitar o recurso final de Trump para proteger seus registros financeiros referentes aos últimos oito anos — segundo Weisselberg disse em 2015, ele ajudava o ex-presidente com suas declarações de Imposto de Renda desde a década de 1990. Os documentos foram solicitados por Vance e alvos de um longo imbróglio judicial que foi parar duas vezes na instância mais alta da Justiça.
Em setembro de 2020, o New York Times teve acesso a mais de duas décadas de declarações de renda do ex-presidente e de sua empresa. Os documentos constataram uma série de manobras fiscais que lhe permitiram não pagar Imposto de Renda em dez dos 15 anos anteriores à sua eleição, em 2016.
Quando a reportagem foi divulgada, Trump disse se tratar da "maior caça às bruxas da História" americana. Mais cedo nesta semana, disse ainda que os benefícios que sua empresa fornecia aos funcionários são "práticas comuns na comunidade empresarial americana e, de jeito nenhum, um crime", chamando as investigações de "sem sentido" e Vance e James, ambos democratas, de "promotores da esquerda radical de Nova York que vêm atrás de mim".
— Você precisa sempre lutar — disse ele em uma entrevista à Fox News na quarta. — Você precisa continuar a lutar.
'Caça às bruxas'
De todas as investigações das quais Trump e seus aliados mais próximos são alvos — dois processos de impeachment, um inquérito especial sobre elos com o suposto envolvimento russo nas eleições de 2016, e acusações criminais contra vários de seus conselheiros — apenas a conduzida por Vance conseguiu implicar de fato a Organização Trump.
O promotor anunciou que não irá concorrer à reeleição (o cargo nos EUA é escolhido pelo voto popular), de modo que o resto do processo deverá ser conduzido por seu sucessor. Como Manhattan é uma região maciçamente democrata, a tendência é que seu sucessor também seja crítico ao ex-presidente.
Trump teria considerado conceder um perdão antecipado a Weisselberg quando estava de saída da Casa Branca, mas não o fez. A medida, de qualquer modo, só vale para crimes cometidos no âmbito federal — excluindo, por tanto, o processo atual, que corre na Justiça estadual nova-iorquina.
O executivo é conhecido por seu perfil reservado, que contrasta com o do chefe. Uma das poucas vezes que apareceu sob os holofotes foi durante uma participação especial no programa "O Aprendiz", o reality show apresentado por Trump, em que discutiu a tosa de cachorros.
Os vínculos com o ex-presidente também se estendem por sua família: um de seus filhos, Barry, administra o rinque de patinação do gelo da Organização Trump no Central Park. Outro, Jack, trabalha na Ladder Capital, empresa financeira que é uma das maiores credoras de Trump e cujos negócios também foram investigados por Vance. Não há indícios, contudo, de que a Promotoria tenha suspeita sobre ambos.
____________________ * E se o Iraque atacasse o Texas? | Guga Chacra - O Globo
Por Guga Chacra

Nenhum sírio ou iraquiano esteve envolvido nos atentados terroristas de 11 de Setembro. Nenhum sírio ou iraquiano atacou o território americano em toda a História. Jamais os governos do Iraque, mesmo quando governado pela ditadura de Saddam Hussein, e da Síria bombardearam os EUA ou realizaram ações militares contra o país. Nunca ocuparam o Texas, a Califórnia e Ohio. Tampouco armaram milícias opositoras extremistas religiosas americanas.
Em alguns momentos, precisamos olhar para o absurdo das “intervenções militares” americanas no Oriente Médio e tentar refletir como seria o inverso — se o que os EUA fazem nesses países fosse feito no território americano. Nesta semana, Joe Biden, visto como bonzinho em alguns setores da opinião pública internacional, bombardeou pela segunda vez a Síria e o Iraque em seu primeiro ano de mandato.
Não adianta argumentar que milícias iraquianas, aliadas ao Irã, teriam usado drones para atacar interesses americanos no Iraque. Primeiro, o que os EUA ainda fazem no território iraquiano há 18 anos? Não bastam duas décadas de guerras, com a morte de centenas de milhares de pessoas, fortalecimento de grupos como a al-Qaeda e o Estado Islâmico, além dessas milícias pró-Irã?
Em segundo lugar, se são “milícias aliadas do Irã”, por que não responder diretamente no território iraniano? Os EUA são inimigos há quatro décadas do regime de Teerã. Mas jamais bombardearam o território iraniano. Nesse sentido, até com uma certa razão. Uma guerra contra os iranianos seria o caos total, além de injustificada pela legislação internacional, uma vez que o Irã nunca atacou os EUA diretamente.
Fico pensando no que passa pela cabeça de Biden (e de seus antecessores Trump, Obama, Bush e Clinton) quando ordena esses bombardeios. Se realmente pensa no futuro do Oriente Médio, na estabilidade da região, na paz, ou se apenas ve sírios e iraquianos como seres inferiores. Já pensou se fosse o inverso, com o Iraque voando caças militares e bombardeando o Oregon ou o Arizona, além de manter bases militares em Utah e Michigan e fornecendo armas para os Proud Boys, que invadiram o Capitólio?
Há três décadas, os EUA se tornaram viciados em guerras no Oriente Médio, e escrevi um texto no GLOBO em março sobre como um iraquiano de 30 anos terá visto cinco presidentes na sequência bombardearem o seu país. Sempre arrumam uma desculpa para lançar bombas contra países da região, mesmo que o resultado quase sempre seja o fracasso total e mortes de inocentes, com a rara exceção da Guerra do Golfo em 1991, quando a ação tinha um objetivo claro — forçar Saddam a se retirar do Kuwait.
Ser uma ditadura como a de Bashar al-Assad nunca foi problema para os EUA, que apoiam regimes ditatoriais como o do Egito, dando uma mesada bilionária, além de vender armas para a ultraextremista Arábia Saudita, terra de Bin Laden e de onde partiram 15 dos 19 terroristas do 11 de Setembro.
Por trás desses bombardeios americanos está a influência da indústria bélica dos EUA, independentemente de o país ser governado por democratas ou republicanos. Curiosamente, a ajuda para o Egito vai para a compra de armas. E a Arábia Saudita é um cliente fiel dos armamentos americanos.
____________________ * Biden não cansa de bombardear e matar civis no Oriente Médio | Guga Chacra - O Globo

Joe Biden ordenou mais uma vez bombardeios à Síria e ao Iraque com o argumento de que forças americanas no território iraquiano teriam sido alvejadas por drones de milícias iraquianas pró-Irã. A ação americana foi condenada tanto pelo governo de Bagdá como pelo de Damasco. Há acusação de que ao menos uma criança, entre outros civis, teria morrido no ataque dos EUA.
Note que observamos inúmeras condenações internacionais pelos bombardeios israelenses à Faixa de Gaza em resposta a ataques de foguetes do Hamas. Mas pouco se condena mais uma série de bombardeios americanos aos territórios sírios e iraquianos. Parece que os EUA estão sempre certos, ainda mais quando governados por democratas, e a Síria e o Iraque seriam habitadas apenas por terroristas.
Os EUA são diretamente responsáveis pela situação que o Iraque vive há duas décadas. Destruíram o país com base em mentiras, como a inexistente ligação entre o regime de Saddam Hussein com a al-Qaeda ou a posse nunca provada de armas de destruição em massa. Centenas de milhares de civis morreram nesta guerra levada adiante por George W. Bush, mas que teve o voto favorável do senador democrata Joe Biden.
O surgimento do Estado Islâmico está diretamente relacionado às ações americanas. Estas operações bélicas abriram espaço para a criação da al-Qaeda no Iraque, que viria a mudar o nome para Estado Islâmico. Além disso, na Síria, armas fornecidas pelo governo Obama (de quem Biden era vice-presidente) para grupos supostamente rebeldes acabaram nas mãos tanto do Estado Islâmico como de organizações ligadas à al-Qaeda, como o Hayet Tahrir al-Sham, além de outros grupos jihadistas como o Jaish al Islam.
Não adianta usar argumentos de que as milícias iraquianas pró-Irã atacaram forças americanas. O que os 2,5 mil militares dos EUA fazem no Iraque? Lutam contra o Estado Islâmico? Se sim, por que bombardear as milícias pró-Irã, que também são adversárias do Estado Islâmico — e foram fundamentais para derrotar o grupo? Até o governo do Iraque, eleito democraticamente, acusou os EUA de ferirem a soberania territorial do país com o bombardeio.
Não podemos esquecer que estas milícias pró-Irã existem também por culpa dos EUA. Afinal, os americanos derrubaram Saddam, que era o maior inimigo do regime de Teerã no Oriente Médio, basicamente aumentando a influência iraniana no Iraque. Sim, Saddam era um ditador. Mas os EUA apoiavam e ainda apoiam uma série de ditaduras árabes, como a Arábia Saudita e o Egito. Este último recebe uma mesada bilionária americanas paga com os impostos dos contribuintes americanos. E tem mais — Saddam foi apoiado pelos EUA nos anos 1980 na Guerra Irã- Iraque, na qual os americanos também vendiam armas clandestinamente para o regime de Teerã.
Biden é somente mais um presidente americano a bombardear o Oriente Médio, tratando os habitantes locais como seres inferiores na prática. Foi assim com Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho, Obama, Trump e agora Biden, conforme escrevi aqui semanas atrás. Por algum motivo, acham Biden "bonzinho" e as condenações internacionais são quase inexistentes, especialmente se compararmos a Israel e o Hamas.
Lembrando que jamais em toda a história um país do Oriente Médio atacou os EUA, embora cidadãos da Arábia Saudita tenham realizado o 11 de Setembro. Nenhum iraniano, sírio ou iraquiano participou dos atentados terroristas da al-Qaeda.
____________________ * Irã, a história recente de uma Revolução - Lejeune Mirhan
Por Lejeune Mirhan

Por Lejeune Mirhan
Pretendo neste pequeno e novo ensaio, contar a história recente da República Islâmica do Irã, tendo como linha de corte o episódio do golpe contra Mossadeh em 1953. Relatarei o movimento amplo que uniu forças de esquerda e os muçulmanos para derrubar uma ditadura fascista pró-EUA, em fevereiro de 1979. Por fim, chegarei aos dias atuais, comentando, mais uma vez em detalhes, os resultados das eleições iranianas do dia 18 de junho.
Há um episódio na história recente do Irã que é a de uma primeira experiência adotada pela Agência de Inteligência Americana-CIA, no sentido de mexer com a cabeça do povo para derrubar o governo. Foi ali que tudo começou. Depois disso, houve as revoluções coloridas no leste europeu e também a Revolução Árabe, chamada de primavera por alguns e de inverno pelos árabes.
Em 1951 foi eleito como primeiro-ministro, Mohammed Mossadegh, nacionalista, patriota, não era de esquerda nem socialista, que fez algo inaceitável para o imperialismo, tanto o inglês, quanto o estadunidense: ele nacionalizou o petróleo do Irã, que passou para o controle do Estado, que era governado por uma monarquia reacionária, de direita, pró-Estados Unidos, que era o Xá Reza Pahlev. Era um primeiro Ministro extremamente popular. A mobilização em favor do primeiro-ministro era tão grande que o Xá chegou a sair do país, pois o clima ficou ruim para ele.
Passaram-se dois anos e Mossadeh ainda era extremamente popular. Num certo momento, agosto de 1953, a opinião pública se voltou contra ele. A CIA gastou milhões de dólares, comprou entidades, subornou parlamentares que eram incitados a serem contra o primeiro Ministro.
O cenário inverteu-se e ele sofreu um golpe. Um general iraniano o derrubou e prendeu o primeiro-ministro. Ele morreu em casa, de morte natural, mas amargou longo período na prisão. O Xá retornou do exílio e o petróleo voltou para as mãos de Inglaterra e EUA. Esse episódio é importante termos em mente, porque, esta técnica, o laboratório original, de onde tudo começou, foi no Irã.
O Aiatolá Ruhollah Khomeini teve que se exilar em 1963 ou seria assassinado, porque fazia oposição ao Xá. Ele passou 15 anos exilado, sendo que os últimos ele viveu em Paris. Ele mandava fitas gravadas, que eram reproduzidas para centenas de milhares de pessoas que ouviam no Irã. Era a forma como ele organizava a oposição ao regime do Xá.
No meu último ano de faculdade, em 1979, nós fundamos um Comitê de Apoio à Revolução Iraniana. Essa revolução, em um primeiro momento, é bom que fique registrado, foi bastante ampla, reunindo comunistas, socialistas, junto com os muçulmanos que ajudaram a derrubar o Xá. Mas, em determinado momento, o setor mais da esquerda perdeu o comando do processo. Eu diria que perdeu o comando da direção e o poder.
A revolução então, assume um caráter mais religioso e islâmico. Khomeini desembarca no país, no dia primeiro de fevereiro. As manifestações duram 10 dias. No aeroporto, há livros de história que registram que havia dois milhões de pessoas à sua espera. Um apoio em massa impressionante. Esta foi uma revolução feita sem dar nenhum tiro.
Nós que temos formação marxista clássica, leninista, acreditamos em tomada do poder pela revolução armada. Por isto estudamos a revolução iraniana, que é um modelo de revolução chamado insurrecional. O povo todo se levanta e enfrenta de peito aberto a força do exército oficial. Morreram muitos iranianos nos confrontos. A partir de um certo momento, os soldados começaram a perceber que podiam estar matando seus próprios irmãos, primos e já não atiravam mais. Houve a sublevação das Força Armadas.
E, no dia 10, o Xá, definitivamente, sai do país e se exila nos Estados Unidos. Eles sempre deram toda proteção para os ditadores que apoiaram no mundo inteiro. E eles ainda tem a cara de pau de bater na tecla da defesa dos direitos humanos. Eles não respeitam os direitos humanos nem dentro do país e fecham os olhos para os seus ‘amigos’ que cometem violações.
Eles têm uma indignação seletiva, eles só ficam indignados pela violação dos direitos humanos que são governados por pessoas que não gostam dos EUA. Por aí percebe-se que, quando cobram direitos humanos, na China ou na Rússia, isto nada tem a ver com direitos, mas sim com a intenção de desgastar o governo.
O Xá morreu no exílio, sem nunca ter retornado ao Irã. E iniciam um processo que, até hoje, eles chamam, de Processo Revolucionário Islâmico. Isso acarreta mudanças na estrutura de poder iraniana, de forma substancial, jamais vista em toda a história mais recente do país.
O período pós revolucionário no Irã
Em 1979 eles fizeram uma nova Constituição no Irã, de forma que o sistema adotado havia sido o parlamentarismo. Após isso, em 1989, com a morte de Khomeini, alteraram o modelo para parlamentarista, que vigora até os dias atuais. O parlamento ficou unicameral, que é chamado de Majlis, composto por 290 deputados.
O Parlamento tem poder consultivo e não deliberativo. Existem outras instâncias que podem legislar no Irã. Lembremo-nos que o Irã é um Estado Teocrático. Quando aprendemos na escola sobre o iluminismo, especialmente, na Europa, ou na França, sobre a separação dos poderes, por certo estranhamos o fato de, em pleno século XXI ainda vermos estados teocráticos. Sobre essa separação de poderes pela primeira vez foi Montesquieu (1), que escreveu o livro O Espírito das Leis, onde defende que a melhor forma é a separação de poderes.
Na Comuna de Paris, que durou 75 dias, o Poder Legislativo Municipal era também Executivo, não havendo essa separação. O vereador fazia as leis ao mesmo tempo em que governava a cidade, como se não houvesse prefeito, como é no Irã.
O Estado Teocrático não separa as questões religiosas (espirituais) das seculares (temporais). Não vamos entrar nesse mérito, porque cada povo tem a sua forma de se organizar e de como governar seu país e não cabe a nós julgarmos. Aliás, Xi Jinping e Vladimir Putin têm falado muito nos últimos tempos, que não existe um modelo único de democracia.
Quando George Bush (Júnior) invadiu o Iraque em 2003, foi com o pretexto de levar a ‘democracia’ ao mundo árabe. Como se isso fosse possível. Mas, não era para todo o mundo árabe, mas para alguns países em que eles tinham interesse. Na Arábia Saudita, por exemplo, não tem democracia nenhuma. Não tem partido funcionando, parlamento, nem Constituição eles têm, pois para eles uma constituição é desnecessária quando se tem o Livro Sagrado, que é o Alcorão.
No Irã, o livro sagrado tem um poder muito forte, mas eles têm a sua Constituição. Aliás, Israel também não tem Constituição e, de certa forma, é também um Estado Teocrático. Tem um caráter judeu e religioso. O fato de o Irã ser um Estado Teocrático, não lhe torna um país antidemocrático, ao contrário, foi a partir da Revolução Islâmica que o país foi democratizado.
As últimas eleições presidenciais iranianas, ocorridas em 18 de junho, que contou com a participação de quatro candidatos, foi a 13ª eleição, em 42 anos, do qual este atual eleito será o 8º presidente do país. Vários deles foram reeleitos para um segundo mandato de quatro anos. Inclusive o atual, Hassan Rohani, que encerra em agosto, também foi reeleito.
A democracia do Irã, do meu ponto de vista, tem uma peculiaridade. O maior poder lá é o religioso, encarnado na figura de um líder espiritual que, atualmente, é Ali Khamenei. Ele assumiu em 1989 depois da morte de Khomeini e continua até hoje, pois é um cargo vitalício. Mas, quem escolhe a pessoa para este cargo?
A Constituição do Irã prevê a existência de um Conselho de Especialistas – espertos, em espanhol. Se for pesquisar em alguns livros ou sites na Internet, eles traduzem como Conselho de Peritos, cujo termo acho inapropriado. Especialista significa que a pessoa é ‘fera’ naquele assunto que, no caso, é o Islã, a Sharia, a lei islâmica.
Os 88 membros do Conselho, sabem recitar o alcorão inteiro de memória. Esta é uma das condições para integrar. Eles são eleitos pelo povo em uma disputa que é mais acirrada que a do Parlamento. Porque, este é o órgão de poder espiritual mais importante, que elege o Aiatolá. São pessoas de reputação ilibada e alto saber jurídico dentro da legislação corânica, claro.
Portanto, o poder do Aiatolá, tem uma derivação indireta. O poder originário, do povo, vai para o Conselho, que, por sua vez, elege o líder de forma indireta. Isso lhes concede ampla representatividade. E completamente diferente das monarquias, quando o rei continua e não tem nenhum critério, nenhuma votação. O papa também é eleito. A igreja católica é monarquista, do tipo imperial, mas o papa é eleito, pelo colégio de cardeais. No caso do Irã, o Aiatolá é eleito por esse Conselho de Especialistas.
O papel do Aiatolá, em alguns aspectos, é mais importante do que o do presidente, porque ele comanda as Forças Armadas e a política externa. É uma outra esfera de poder no Irã. Tem a Presidência da República e o Parlamento Nacional; tem o Conselho de Especialistas e tem o Aiatolá. Entre o Aiatolá e o Conselho, tem um outro órgão, chamado Conselho dos Guardiões, formado por 12 pessoas. Desses, seis são indicados pelo Aiatolá e os outros seis pelo Poder Judiciário.
Quem venceu esta última eleição foi o advogado, doutor em Direito, professor Ebrahim Raisi. A Guarda Revolucionária Islâmica, que é como se fosse uma Internacional Revolucionária, está sob o comando desse órgão de Guardiões. Não conhecemos no Ocidente nada que se assemelhe a isso em qualquer outra parte do mundo. Por mais que eu estude os países e suas estruturas, não conheço. Eles criaram o seu modelo e vem dando certo.
Sobre as eleições e a vitória de Raisi
O voto no Irã é facultativo, não é obrigatório. Na maioria dos países onde o voto é facultativo, o índice de abstenção é altíssimo. Normalmente, na casa dos 40 a 50%. Quando a eleição é muito acirrada, como nos Estados Unidos, o índice cai para 20 a 40%, que ainda é alto. Na Venezuela foi perto dos 50%. E, nessa última eleição no Irã, foi de 51,02%. Mesmo no Brasil com a obrigatoriedade, temos algumas eleições que chegam perto de 30% de abstenção.
As últimas eleições do Irã sofreram uma particularidade. No início eram sete candidatos, e chegaram a fazer três debates. Mas, faltando dois dias para as eleições, três deles desistiram. As pesquisas indicavam dr. Ebrahim disparado na frente. Na última pesquisa publicada ele tinha 58%. E, a soma dos outros seis, antes dos três se retiraram, dava 16%. Era mais do que o triplo da votação somada.
Mas, houve um ataque externo, numa tentativa de interferência no processo eleitoral. A Arábia Saudita, dizem os jornais iranianos e também alguns amigos com quem converso lá no Irã, me informaram que foram jogados milhões de dólares com dois objetivos: o primeiro era apoiar as campanhas dos adversários para tentar impedir a vitória de Raisi. E, o segundo objetivo era convencer as pessoas a não saírem de casa para votar. O processo de pandemia influenciou a baixa votação.
Esta interferência externa tinha objetivos claros de fortalecer os adversários, as candidatura que não eram do ‘stablishment’ iraniano. A candidatura que venceu é da estrutura do poder espiritual, do clero. Lembrando que o clero seja ele xiita, seja sunita, é sempre horizontal no Islã. Não existe papa, cardeal ou bispo. Existe o Sheik e mais nada. No judaísmo também é assim. Cada rabino cuida de uma sinagoga e não vem orientação de lugar nenhum. Porque tem os livros sagrados que eles seguem e não precisam de mais nada.
Portanto, desacreditar o processo eleitoral iraniano era o máximo que essas monarquias feudais, pró-Estados Unidos poderiam fazer. Invadir o país eles não podem e não conseguem, então, tentam interferir de fora para dentro. Mas, perderam fragorosamente.
O resultado saiu no mesmo dia 18 de junho, e compareceram cerca de 30 milhões de eleitores. Talvez tenha dado um pouco mais, porque os votos brancos e nulos são muito poucos. E, o dr. Ebrahim teve 17,9 milhões de votos, equivalente a 62% do total dos votos válidos. Foi uma vitória espetacular. Não foi como a que o dr. Bashar obteve na Síria, onde ele venceu dois candidatos com 95,1%. Ele é muito querido pelo povo sírio.
Quem é o dr. Ebrahim Raisi e qual é o seu plano de governo.
Ele é promotor de Justiça de primeira instância desde a década de 1980. A partir daí, ocupou cargos importantes como os de procurador geral da República e também vice-chefe do Poder Judiciário. E, a partir de 2019, ele foi nomeado pelo atual Aiatolá Ali Khamenei, chefe do Poder Judiciário.
Ele fez doutorado em Direito Privado. No Irã há duas estruturas de Poder Judiciário, o Poder espiritual, a Sharia, que é uma consolidação das leis originadas do Livro Sagrado. E tem o Poder normal, o temporal, secular, que é o direito tradicional. Por exemplo, se você quer se divorciar, pode optar pelo julgamento da justiça islâmica. A documentação e todas as certidões são consideradas oficiais em ambas as formas. Raisi, então, exerceu a chefia do Poder Judiciário.
O Irã é muito temido, tanto quanto se fosse um país comunista, mas não é. O Irã exporta revolucionários para onde houver luta anti-imperialista. No entanto, é um país capitalista, ainda que de certa forma keynesiano. Existe muita participação do Estado na economia. É um Estado provedor, um Estado de bem-estar, que cuida da sua população. Mas, existe a propriedade privada dos meios de produção, tem burguesia iraniana. Mas, todos estão no mesmo projeto.
É igual à China, por exemplo. Tenho visto vários vídeos do Partido Comunista Chinês, que no dia 1º de julho, completou 100 anos. E, foi esse Partido que levou a China a ser o que ela é hoje. Ela tem uma estação espacial internacional sozinha. A outra estação que ela participava era um projeto que envolvia oito países. Neste exato momento que escrevemos este pequeno ensaio, temos três astronautas morando lá, onde ficarão por 90 dias.
Eu assisto todos os dias a TV chinesa CGTN, que veicula notícias em espanhol. Por esses dias, Xi Jinping falou com os astronautas por teleconferência. É uma estação maravilhosa tendo inclusive quartos de dormir individuais. Esta é a grande China. E ela tem propriedade privada dos meios de produção, mas tem também a propriedade coletiva e muitas empresas estatais.
Sobre a mulher no Irã podemos dizer que ela é muito respeitada, porque eles têm que cumprir o que está escrito no Alcorão. O profeta, Mohammed, conhecido no Ocidente como Maomé, foi um revolucionário para o seu povo. Nasceu em 571 e morreu em 632. Ele aboliu a escravidão. O Mundo Árabe era apenas a Península Arábica, onde é hoje a Arábia Saudita. Todos os escravos foram libertados, porque o Alcorão proíbe esta exploração humana. Seu escravo pessoal chamava-se Bilal e foi nomeado o chamador da reza, cinco vezes ao dia. Uma tarefa importante para um ex-escravo.
O Alcorão tem muitas passagens sobre as mulheres, de proteção, garantia de direitos, mas, especialmente, o direito ao divórcio e à herança. Isto não se encontrava em nenhum outro povo ou país. O conceito de país, na época, não existia como nós conhecemos hoje. Maomé estabelece uma religião, de certa forma, revolucionária para a sua época, muito avançada.
No Irã a gente vê mulheres que cobrem quase todo o rosto. Isso não é obrigatório, mas uma opção que elas fazem. O que é obrigatório no Irã é a cobertura do cabelo e está em alguma passagem do livro. Nas fotos que eu vi da votação, a maioria das mulheres não cobre o rosto todo. Nem usam roupas inteiramente pretas. Existem muitas mulheres deputadas no Irã em uma proporção quatro vezes maior do que no Brasil. Aqui tem uns 10%, cerca de 50 mulheres deputadas.
As mulheres são maioria no Irã, são pesquisadoras e professoras universitárias. O número de mulheres doutoras, PhD é o maior ou mais elevado de todo o Oriente Médio. Aliás, o nível de escolaridade também é mais elevado por lá. Trata-se, portanto de um povo com história milenar, bastante culto. E, a Revolução Islâmica cuidou desse assunto: direito das mulheres, dos trabalhadores, e a elevação da consciência.
Em um dos meus livros eu estudei aquela região. Chamei de Oriente Médio expandido que envolve todos os 22 países árabes e mais a Turquia e o Irã. Há um capítulo em que eu escrevo que os xiitas no mundo são 500 milhões, os sunitas, 1,5 bi, mais ou menos. Eu costumo dizer que: todos os xiitas que eu conheci na vida – e não são poucos –, são anti-imperialistas (2).
Não conheço na atualidade nenhum xiita que seja amigo do imperialismo, amigo do sionismo, amigo de Israel. Mas, conheci muitos sunitas amigos dos Estados Unidos. As sete monarquias do Golfo são todas pró-Estados Unidos, são traidores do povo árabe e não defendem seus interesses.
A Arábia Saudita é uma base militar dos Estados Unidos. Ela é inteiramente ocupada. Os muçulmanos do mundo inteiro têm vergonha disso, porque, o rei da Arábia Saudita é o guardião das mesquitas sagradas, de Meca e Medina. E o país está ocupado por forças militares de potência estrangeira. A terceira mesquita mais sagrada é Al-Aqsa, em Jerusalém.
Jerusalém é a terceira cidade mais importante para o Islã, porque Maomé esteve ali, pessoalmente. No período de expansão do império, do qual ele foi chefe e não apenas líder de uma religião. Ele passou ali e diz a tradição, que daquele local onde hoje existe essa mesquita, ele ascendeu aos céus em seu cavalo branco e esteve com Deus. Então, eles erigiram ali uma mesquita.
É uma cidade sagrada para metade do planeta, dois bilhões de cristãos e dois bilhões de muçulmanos. Israel quer transformar essa cidade sagrada em capital do seu Estado judeu e sionista. Isto é uma violação ao direito internacional. A ONU proíbe isso. Nenhum país pode instalar por lá a sua embaixada. Donald Trump fez isso e o Brasil quase fez, mas a pressão dos países árabes impediu.
O programa de governo do novo presidente
O ponto central de seu programa é a resistência anti-imperialista. Esta será a sua política externa. É por isso que eu digo que os xiitas no mundo inteiro são revolucionários. São nossos aliados. Eles não são socialistas, mas isso não é um problema. Eles convivem conosco em uma aliança política e, lá no Oriente Médio, isso é chamado de Eixo da Resistência, que é liderado pelo Irã, porque hoje não tem um país árabe capaz de fazer isso.
Dr. Bashar, na Síria é um grande estadista, mas de um país de 20 milhões de habitantes, do tamanho de Cuba, dos quais cinco milhões estão deslocados por causa da agressão dos terroristas financiados pela Arábia Saudita, que destruiu quase toda a Síria, que está sendo reconstruída. Todo o seu território já foi reconquistado, faltando apenas 5% em mãos da Turquia que invadiu o Noroeste do país.
O tamanho do território e o da população jogam peso na geopolítica mundial. É por isso que o Brasil, mesmo sendo governado por um agente do imperialismo, um subalterno, um capitalista neoliberal, sionista cristão, mesmo ele sendo tudo isso, o Brasil é grande, tem uma população numerosa e, mesmo caindo para a 13ª economia, é uma boa posição no ranking mundial com 200 outras economias. O Irã tem grande território e sua população é de quase 100 milhões de habitantes, maior que o Egito, que é o maior país árabe.
Eu falei da guarda revolucionária que exporta militantes para lutar onde haja necessidade e, no caso da Síria, houve esta necessidade e eles foram para lá. Foi o caso do Iraque também, para expulsar os estadunidenses que agora estão saindo com o rabo entre as pernas. Estão abandonando suas últimas cinco bases militares.
Os muçulmanos são hoje internacionalistas e os comunistas já o foram nas décadas de 1930 e 1940. Nessas décadas, houve a Revolução Espanhola, onde comunistas brasileiros lá estiveram para dar a sua vida para aquela revolução. Na Segunda Guerra Mundial, os partigiani (3), que eram a resistência antifascista, também muitos brasileiros foram lutar na Itália. Hoje não tem mais isso. Os muçulmanos, desse destacamento, fazem isso. A consciência política deles é muito elevada.
Mas, poderemos ter surpresa. Espera-se que a Arábia Saudita, por exemplo, possa, em algum momento, voltar a ter relações diplomáticas com o Irã. É possível, no limite que os Estados Unidos também voltem a ter relação, mas em uma outra conjuntura.
O programa interno do dr. Ebrahim defende o desenvolvimento nacional; a diminuição das desigualdades; uma grande assistência social (ele quer triplicar a ajuda às famílias mais necessitadas); o fortalecimento da indústria nacional e; algo que foi mais destaque na campanha, o combate à corrupção. Mesmo sendo um Estado Islâmico, onde as pessoas são muito respeitadoras das leis e muito devotas, lá tem corrupção. Onde tem dinheiro, tem corrupção. E, ele combateu a corrupção, tendo visitado todas as 24 capitais das províncias. Aliás, em todas essas capitais, o voto nessas eleições foram 100% eletrônicos. No restante ainda não.
Na política externa, além de combater o imperialismo estadunidense e reforçar o campo da resistência, eles vão combater o sionismo internacional, que governa Israel e que influencia a política externa de muitos países, especialmente dos Estados Unidos. Não por acaso Israel está desesperado com a vitória do Dr. Ebrahim Raisi.
Quando me perguntam: quando é que o Estado da Palestina será construído? Eu costumo responder assim: quando o sionismo internacional enfraquecer, quando modificar a correlação de forças no mundo hoje, de maneira a ter um mundo mais multipolar do que unipolar, ou seja, com a perda da hegemonia dos EUA. Nessa nova situação eu vislumbraria a possibilidade de ter um cenário de paz, que poderá vir a ser mediada pelos Estados Unidos.
Dois ex-presidentes dos EUA têm o trunfo de ter mediado algum tipo de paz no Oriente Médio: Jimmy Carter (em 1979) e Bill Clinton (1993). Ambos ainda estão vivos. Carter mediou a paz entre Israel e Egito e Clinton, os acordos de Oslo, entre Yasser Arafat e Itzshak Rabin, que reconheceu a Autoridade Nacional Palestina, que é quase um Estado. Em setembro de 1993. Mas, apenas dois anos depois, Itzshak Rabin foi assassinado por um fundamentalista judeu chamado Ygal Amir, que não aceitava a paz com a Palestina (4).
No dia 15 de junho houve uma passeata de fundamentalistas em Jerusalém chamada de Marcha das Bandeiras. Eles cantavam: “Morte aos árabes”. Eles não usam nem o termo palestinos. Eles não aceitam viver em paz com os palestinos. Os sionistas e o sionismo moderno, que é uma nova forma de colonização, querem expulsar todos os palestinos das suas próprias terras (5).
Acabo de lançar pela minha Editora Apparte, a segunda edição do meu livro Palestina, história, sionismo e suas perspectivas, prefaciado pelo embaixador da Palestina, Dr Ibrahim Alzeben. Tem um capítulo grande sobre o sionismo, e sobre o sionismo cristão, que na atualidade é muito forte, em especial entre os evangélicos neopentecostais (6).
O Irã vai combater esse movimento e é por isso que ele está sendo odiado por Israel e pela mídia dos Estados Unidos. O Biden, propriamente, não fez o pronunciamento lamentando a eleição, ele não é tosco para chegar nesse nível. Provavelmente não cumprimentou o vitorioso Dr. Raisi, pois os EUA e o Irã não têm nenhuma relação.
Donald Trump, em quatro anos, baixou mais de mil sanções contra o Irã. Contra Cuba foram mais de 250, e são dezenas contra a Venezuela. É impressionante que os Estados Unidos usem ainda hoje a força do seu poder econômico e militar, como potência mundial, para impor sanções contra os governos. Querem impor a sua vontade, através das sanções. Cuba, inclusive, sofre o embargo econômico desde 1962, o que é pior do que uma sanção, pois nada pode ser comercializado com Cuba (7).
Mas, os Estados Unidos não suspendem essas sanções que impõe imenso sacrifício ao aguerrido povo cubano, que jamais se dobrou a essas pressões. Quem vive à margem do direito internacional, como os Estados Unidos, tem um nome: são considerados estados bandidos ou párias, que é a situação do Brasil hoje, onde somos considerados um pária diplomático.
O Dr. Ebrahim é um homem de bem, um clérigo pacifista. Os xiitas são pacifistas. É bom que se saiba, espero que os leitores nunca mais falem: “aquela pessoa é xiita”, como sinônimo de radical, está enganado. O radical é o sunita. Os cortadores de cabeça de cristãos, lá na Síria, são todos sunitas. O xiita é quietista, reflexivo.
Eu já não uso esse termo para designar “radicais” há mais de dez anos. É comum ouvirmos coisas como “aquele é da ala xiita, do PT”. Como assim, ele é radical? Não, radicais e fundamentalistas são os sunitas. E a história mostra isso. É só ver a que corrente pertencem os cortadores de cabeça de cristãos na Síria do chamado Estado Islâmico, bem como todas as monarquias feudais do Golfo.
Aliás, a violência é proibida. Deus não perdoa os agressores. Há uma passagem que diz que, no entanto, que Deus aceita que você aja em legítima defesa. É diferente do cristão que leva um tapa e mostra o outro lado da face. O muçulmano não toma a iniciativa de agredir. Mas, se forem para cima dele, ele tem todo o direito de responder, com base na religião. E precisa ter religião? Dependendo da circunstância, alguém te agride e você responde.
Então, o muçulmano xiita tem este elevado grau de consciência política. Isso eu atesto, em qualquer lugar. Já publiquei artigo, já escrevi capítulo de livro em que digo isso, sem medo de errar. Esse xiita que ganhou a eleição no Irã, o Dr. Ebrahim Raisi é claramente anti-imperialista.
A imprensa ocidental, em especial a israelense, o está chamando de “ultraconservador”. Meus amigos iranianos me explicam que o que é direita aqui, é esquerda lá e o que é esquerda lá, é direita aqui. É invertido.
Ser conservador lá, é ser de esquerda, mas eles não usam essa terminologia. O que eu sei é que ele é ultra-antiimperialista. A primeira entrevista que ele deu, na segunda-feira, dia 21 de junho, ele disse que não vai procurar o Joe Biden para o diálogo, enquanto os Estados Unidos não voltarem para o Acordo Nuclear, que é a bandeira principal do seu programa.
O programa está em andamento e tem sete assinaturas, originalmente tinha os cinco membros do Conselho de Segurança: Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e China, mais a Alemanha. Os Estados Unidos saíram do acordo, mas o programa continuou. Eles têm que voltar e, eu acho, que vão voltar.
Mas, existe uma forte pressão para que não voltem. E isso vem de Israel que não aceita o programa nuclear iraniano, que é para fins pacíficos. Israel que tem 200 bombas nucleares e jamais admitiu isso. Não permite que um país soberano desenvolva sua energia nuclear para fins energéticos, científicos, medicinais. Aí dizem que o Irã quer construir a bomba. Não quer e não irá construir. Construir armas que matam muitas pessoas é vedado no Islã. O Irã quer a paz no mundo, desenvolvimento, igualdade, harmonia e soberania.
Na semana passada, para minha surpresa, os EUA deram um palpite sobre a eleição do Peru e, pela primeira vez, eu fiquei satisfeito com o palpite. A chancelaria dos Estados Unidos emitiu uma nota saudando, não a eleição do Prof. Pedro Castillo, que foi um processo limpo, ou seja, não houve fraude, e que o Peru é um exemplo de democracia para o Ocidente.
Todos os jornais de Israel estão dizendo que as forças armadas israelenses, que lá eles não chamam de exército, mas de Forças de Defesa de Israel-FDI (Israel Defense Forces-IDF na sigla inglesa) que Israel só se defende, eles nunca atacam. Israel é um país ocupante, ocupa a Palestina que não pertence historicamente àquelas pessoas que estão lá, que são forasteiras. Isso é a colonização da Palestina. Em Israel diz-se que estão preparando um ataque ao Irã.
Como Israel poderia atacar o Irã hoje? Por terra, é impossível. Teria que passar por dentro da Síria, do Iraque e não consegue. Mas, teria a possibilidade de atacar pelo ar. Eles têm uma força aerea de 700 aviões, tudo da linha dos F-16 ou superiores, fornecidos pelos Estados Unidos.
A autonomia de voo de um F16 é de quatro mil km. Em linha reta, a distância entre Teerã e Tel Aviv é de três mil Km. Então daria? Não, porque eles teriam que passar no espaço aéreo da Síria e do Iraque, que são países do Eixo da Resistência e isso não seria permitido. As baterias antiaéreas da Síria e do Iraque, ao detectarem aviões violando seu espaço aéreo, sabendo que eles estariam indo em direção ao Irã, eles reagiriam. Isso não aconteceria.
Assim, eles teriam que dar uma volta muito grande pelo Mar Mediterrâneo. Mas, teriam que passar pelo espaço aéreo da Turquia também. Por isso avalio como muito difícil de ser concretizado esse ataque. Mas, tudo é possível na atualidade.
As consequências políticas, caso isto venha acontecer, são incalculáveis. Por causa dos mísseis, e aí me refiro mesmo a mísseis e não simples foguetes que o Hamas faz, que são bombas de fabricação caseira. Qualquer nerd de ensino médio faz em casa, na garagem. Têm pequeno poder destrutivo. A cratera que abre no solo quando um desses cai é pouco maior do que uma bola de futebol.
Eu temo por isso e, se isso acontecer, inclusive neste momento que se encerrou a era Nethanyahu, nefasta, com mais um fascista saindo de cena com a formação de um novo governo, ainda que cheio de polêmica, cheio de contradições.
Qual é o objetivo de Israel hoje? Fazer tudo para que os Estados Unidos não voltem ao acordo nuclear, assinado pelo Obama, quando o Biden era o seu vice. Não há por que não voltar, mas eles querem discutir algumas cláusulas. Isso não está certo. Eles têm que voltar de forma incondicional. Você só pode discutir alguma cláusula de um acordo se estiver no acordo. Então, tem que voltar e tomar assento à mesa. Aí sim você levanta e apresenta sua proposta para qualquer cláusula que ache que não esteja certa.
Neste momento, o Irã não fará concessão alguma, até porque, os outros membros do acordo não estão reclamando. O acordo está em andamento e a Agência Internacional de Energia Atômica tem seus fiscais que atuam quando requisitados. Quando vai fazer o aumento do enriquecimento do urânio, o Irã comunica. O Irã cumpre o acordo.
Algumas conclusões
Vejo com otimismo a posse em agosto do novo presidente do Irã, Dr. Ebrahim Raisi. Ele reforçará o eixo da Resistência. Apoiará todas as lutas de libertação nacional e anti-imperialistas. Terá relações de amizade e de cooperação com a China e a Rússia, cujos laços serão aprofundados. Bem como com a República Bolivariana da Venezuela.
Acho que, mais dia menos dia, haverá por parte da comunidade internacional dos países, um reconhecimento e reatamento de plenas relações com o país persa, de história milenar. O Irã não quer exportar a sua revolução. O Irã quer a soberania nacional e o seu direito à autodeterminação, sem que qualquer país do mundo lhes diga o que deve ser feito. Eles sabem o que deve ser feito e o que é melhor para o Irã.
Como venho dizendo, vivemos em um mundo que caminha cada dia mais e de forma mais acelerada, para a multipolaridade, abandonando a unipolaridade advinda do fim da URSS em dezembro de 1991. Os países com governos reacionários e de direita vão caindo um a um. E isso já é possível vislumbrar na atualidade.
Notas
1. Charles-Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu que viveu entre 1689 e 1755;
2. Reflexões sobre o Oriente Médio, para entender a Geopolítica, daquela região, Editora Apparte, 2019, 514 páginas e que pode ser adquirido a partir deste endereço: ;
3. Partigiani – Partisans. A Resistência italiana foi um movimento armado de oposição ao fascismo e à ocupação da Itália pela Alemanha Nazista, bem como à República Social Italiana - fundada por Benito Mussolini;
4. Vejam informações sobre um filme excepcional sobre esses acordos, intitulado Oslo, da HBO neste link: ;
5. Vejam mais detalhes dessa notícia neste link: ;
6. Maiores detalhes sobre como adquirir este livro pode ser obtidos neste link: ;
7. Na Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 23 de junho, por uma esmagadora maioria de 184 votos pelo fim do embargo contra apenas dois votos a favor (EUA e Israel) e três abstenções (Brasil, Colômbia e Ucrânia), veja mais detalhes neste link: .
* Sociólogo, professor universitário (aposentado) de Sociologia e Ciência Política, escritor e autor de 17 livros (duas reedições ampliadas), é também pesquisador e ensaísta. Atualmente exerce a função de analista internacional, sendo comentarista da TV dos Trabalhadores, da TV 247, da TV DCM entre outros canais, todos por streaming no YouTube. Publica artigos e ensaios nos portais Vermelho, Grabois, Brasil 247, DCM, Outro lado da notícia, Vozes Livres, Oriente Mídia e Vai Ali. Todos os livros do Professor Lejeune podem ser adquiridos na Editora Apparte (www.apparteditora.com.br). Leia os artigos do Prof. Lejeune em seu site www.lejeune.com.br. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br e Zap é +5519981693145. Youtube: https://www.youtube.com/c/CanaldaGeopolítica; Facebook: https://www.facebook.com/ApparteLivrariaEditora; Facebook: https://www.facebook.com/professorlejeunemirhan/?ref=pages_you_manage; Twitter: https://twitter.com/lejeunemirhan?s=11; Instagram: https://instagram.com/lejeunemirhan?utm_medium=copy_link;
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Bolsonaro está desenganado - Mauro Lopes

Por Ricardo Bruno
Romperam-se os três pilares de sustentação do projeto de poder de Jair Bolsonaro, com base nos quais montou a bem sucedida estratégia para se catapultar do semianonimato do baixo clero à Presidência da República, nas eleições de 2018.
O presidente não consegue mais ser minimamente convincente ao falar sobre o combate à corrupção. Soa falso, é postiço. Sabe-se que não há consistência tampouco sinceridade na pregação por moralidade. Bolsonaro, seus amigos e seus aliados têm trajetórias pontuadas por casos de malversação de recursos públicos – uns mais, outros menos, mas todos com alguma passagem incômoda pelo tema.
O Governo Bolsonaro também já não representa qualquer sinal de mudança nas práticas nocivas ao interesse coletivo que capturaram a máquina pública do Estado brasileiro. Incorporou à rotina da administração métodos sabidamente inadequados, antirrepublicanos - reprovados amplamente pela sociedade. Até mesmo na relação político-parlamentar cedeu aos ensinamentos franciscanos, entoando com desembaraço as palavras de ordem do centrão, notadamente o “é dando que se recebe”.
Aos poucos, os slogans de campanha – éticos e atraentes - sucumbiram, fazendo tombar a ideia de que representava uma troca de paradigmas na administração pública. O fim do que vagamente definiu como velha política. No poder, Bolsonaro se aclimatou ao ambiente insalubre da negociação escusa. Aliou-se aos piores quadros do Congresso Nacional na tentativa de erguer sua base de sustentação. A amálgama perfeita da aliança mostrou a natureza única das partes. Não há distinção ética entre bolsonarismo e fisiologismo. São partes de um mesmo corpo, uma estrovenga a serviço quase sempre do atraso nos costumes e das espertezas comuns à corrupção no serviço público.
Se a CPI não resultar na aprovação do impeachment de Jair Bolsonaro, terá ao menos contribuído para assentar o conceito de que ele repete práticas perniciosas, contra as quais se dizia implacável combatente. A narrativa de que seu governo, autocrático na forma e caótico nos resultados, seria incorruptível acabou. A venda da carteira do Banco do Brasil, de R$ 3 bilhões por R$ 271 milhões; as denúncias de contrabando envolvendo o ex-ministro Salles, e, agora, a propina na compra de vacinas são os casos mais vistosos a ilustrar a corrupção governamental. Se o discurso era de mudança, a prática é de mais do mesmo. Perpetuam-se vícios e métodos do que há de pior na política nacional.
O exercício do poder contribuiu para revelar a verdadeira e única face de Jair Bolsonaro. Grande parte dos que se enganaram em 2018, hoje está convencida de que fora vítima de um embuste. Coube a seu próprio governo provar a empulhação. O candidato manipulou a realidade para tentar pespegar no principal partido da oposição – o PT - a pecha de radical, intransigente - uma ameaça às instituições a partir, supostamente, do avanço de um projeto de poder nitidamente de esquerda, a tal venezuelização. Alguns incautos acreditaram e lhe emprestaram apoio nas urnas. Estão frustrados e arrependidos.
Hoje, ele, Bolsonaro, representa a maior ameaça à democracia brasileira. Menoscaba as instituições, menospreza as minorias e achincalha o estado democrático de direito com assaques pérfidos e autoritários. Sem êxito, traveste-se diariamente de ditador na esperança de incorporar o personagem na vida real. Vigilantes, as instituições não permitem: enquadram-no; retiram-lhe a fantasia, trazendo-o de volta à práxis democrática.
Quando disputam pela primeira vez eleições majoritárias, os candidatos vencem pela esperança que despertam. O pleito contrasta valores abstratos do opositor com a realidade do mandatário de plantão. Bolsonaro traiu seu próprio ideário. Não inspira mais confiança nos estratos médios da sociedade, como em 2018.
Na reeleição, há mais pragmatismo. O que prevalece é o resultado, o saldo objetivo dos avanços do primeiro mandato. Não há como inspirar confiança diante de um governo rotundamente falido.
Com a administração maculada pela corrupção, a economia em frangalhos, desemprego galopante, e sem realizações a mostrar, Bolsonaro dá sinais de exaustão. Acuado com os casos de corrupção, não lhe restam muitas saídas. Daí a destemperança, os gritos, as bravatas cada vez mais intensas. A fúria dos ataques do presidente à CPI é um sintoma patológico, uma espécie de convulsão catatônica que prenuncia a falência terminal das forças daquilo que se conhece como bolsonarismo. Não por acaso, Carla Zambelli, expoente do grupo no parlamento, pede orações. Bolsonaro está desenganado.
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____________________ * Baluarte da libertação nacional, do socialismo e da paz mundial - José Reinaldo Carvalho
Por José Reinaldo Carvalho

Por José Reinaldo Carvalho - Transcorre neste 1º de julho o centenário da fundação do Partido Comunista da China, festejado com grande alegria pelo povo chinês e seu governo.
A fundação do Partido Comunista da China foi o passo inicial para reverter o trágico destino do povo chinês e lançou as bases para que eles pudessem desfrutar de seus direitos básicos.
Os primeiros marxistas na China, incluindo Chen Duxiu, Li Dazhao e Mao Zedong, compreenderam naquele ato fundador a estreita conexão entre libertação, independência e os interesses do povo. Eles sabiam bem que somente por meio da revolução o povo chinês poderia estabelecer e manter seus direitos, e que somente por meio da revolução da nova democracia e posteriormente o socialismo a China poderia se reerguer e seu povo sair da pobreza e da humilhação a que tinha submetida pelo regime semicolonial e semifeudal.
Ao celebrar este aniversário, o povo chinês comemora o surgimento da vanguarda política dos trabalhadores e de todo o povo chinês, que ao longo dos anos desempenhou papel decisivo na luta de libertação nacional e em seguida na construção do socialismo na grande nação asiática.
Os comunistas chineses souberam interpretar e incorporar o espírito e os valores nacionais da luta pela República Democrática liderada pelo Dr. Sun Yatsen. Souberam unir esses valores ao pensamento socialista científico próprio do Partido Comunista China.
Foi a fundação do Partido Comunista da China, a 1º de Julho de 1921, que criou as condições subjetivas para abrir perspectivas históricas ao povo chinês e levar adiante o desenvolvimento da revolução. Nessa luta foi decisivo o papel criador das massas, a direção política e ideológica, organizativa e militar dos comunistas e o papel do Grande Líder Mao Tsetung.
O surgimento do Partido Comunista da China foi um acontecimento histórico, a partir do qual a história da China alterou o seu curso.
A geração que celebra o primeiro centenário do Partido Comunista da China é legatária do pioneirismo, da audácia, da lucidez, do heroísmo, da originalidade e criatividade daqueles que o fundaram em 1921, características marcantes que estão presentes nos atuais membros e dirigentes do Partido Comunista da China.
O Partido Comunista da China foi fundado como resultado de um processo de fusão entre o marxismo-leninismo e o movimento popular e operário da época. Guiado por uma teoria de vanguarda, o Partido Comunista da China assumiu a direção do processo revolucionário e desbravou caminhos desconhecidos.
Uma grande virtude do Partido Comunista da China foi conduzir a revolução tendo o marxismo-leninismo como referência teórica e tomando em consideração as peculiaridades nacionais, a particularidade de cada momento e etapa. A liderança do Partido Comunista da China teve larga visão estratégica, flexibilidade tática e capacidade de condução da luta. Tamanha habilidade e discernimento fizeram com que o Partido unisse o povo chinês e formasse a grande coalizão de forças políticas para enfrentar o inimigo comum, sobretudo nas condições especiais da ocupação japonesa.
Com espírito inovador, o Partido analisou em profundidade a formação social concreta da China e elaborou a estratégia da revolução em etapas, a primeira das quais foi a Revolução da Nova Democracia, por meio da guerra popular prolongada, cuja característica peculiar foi o cerco das cidades pelo campo. Este foi um importante aporte teórico dos comunistas chineses ao desenvolvimento criador do marxismo-leninismo e uma experiência prática que deixou marcas indeléveis na história da China.
A vitória da Revolução Chinesa, obra do povo e do Partido, foi um grande acontecimento histórico na trajetória do povo chinês rumo à sua emancipação nacional e social. Realizada no âmbito da guerra de resistência contra o Japão, constituiu também uma importante contribuição à luta antifascista mundial e à vitória da democracia e da paz no mundo.
Um dos aspectos mais destacados da linha política do Partido Comunista da China durante a revolução, para além da originalidade na formulação de uma orientação própria, e que persistiu nos períodos seguintes, de acordo com os novos desafios, é a linha de massas. Durante a revolução, enfrentando poderosos inimigos, foi a ligação com as massas que assegurou a força do Partido e do Exército Popular. As complexas condições em que se desenvolveu a revolução só puderam ser enfrentadas desenvolvendo indissolúveis laços com as massas populares.
Este princípio e método permaneceram como traço distintivo do exercício do papel de vanguarda do Partido Comunista da China durante a construção do socialismo. Uma das chaves do sucesso do Partido foi manter-se enraizado nas massas populares. Foi a chave do sucesso durante a revolução e continua sendo na construção do socialismo em todas as suas etapas e até o presente. Esta prática se baseia no princípio marxista-leninista de que as massas populares desempenham o papel fundamental nas transformações revolucionárias, de que o povo é o verdadeiro herói, o criador dos bens materiais e espirituais da sociedade e a força decisiva para a realização de transformações políticas e sociais.
Este é outro grande aporte do Partido Comunista da China à teoria e à prática da revolução e construção do socialismo, de grande valor para o Movimento Comunista Internacional.
A vitória do povo chinês sob a direção do Partido Comunista da China foi uma importante viragem histórica. O povo chinês venceu a guerra de libertação, derrocou o imperialismo, o feudalismo e a burguesia compradora, conquistou a independência nacional, fundou a República Popular da China e realizou a maior, mais importante e mais profunda transformação social em sua história milenar. Foi o marco inicial da realização do sonho chinês. Este é um grande mérito histórico do Partido Comunista da China.
A partir desta vitória, foi possível estabelecer o sistema socialista básico e iniciar a construção do socialismo. Foi a partir deste triunfo que começou a construção do socialismo com as características chinesas, lançando as bases fundamentais para o desenvolvimento da causa popular e nacional. Este foi o primeiro passo para introduzir a China na senda do progresso. É outro grande mérito histórico e outra demonstração de originalidade e criatividade. Tal como não copiou modelos teóricos nem experiências de outras latitudes, o Partido Comunista da China formulou uma política própria consoante sua realidade nacional.
Os primeiros anos após o triunfo da revolução constituíram um caminho complexo e desafiador na busca dos meios e modos mais adequados para construir a nova sociedade. Foi uma transição penosa que o novo poder popular percorreu para transformar o país, passar à etapa da construção do socialismo e fazer da China parte integrante indispensável do campo socialista mundial. Sob a direção do Partido Comunista da China, o povo mergulhou profundamente na tarefa de construir o socialismo. Em pouco tempo, foi possível empreender profundas transformações, edificar um sistema econômico nacional independente nas condições específicas da China e soerguer as instituições do poder político popular e socialista.
Em momento histórico posterior, com a aplicação da política de Reforma e Abertura, no quadro da etapa primária do socialismo, a nação chinesa floresceu ainda mais e conheceu um período de impetuoso desenvolvimento, que prossegue até os dias de hoje.
A Reforma e Abertura iniciada por Deng Xiaoping levou a China ao atual grau de desenvolvimento impetuoso, com importantes reflexos na elevação do nível de bem-estar do povo chinês e na transformação do país num ator de primeira ordem no cenário internacional.
Desenvolvimento, poder nacional, progresso social e socialismo aparecem, assim, como três fatores entrelaçados, no processo de construção do socialismo com características chinesas. Como disse Deng Xiaoping em 1992: “Se nós desistirmos do socialismo, não aplicarmos a política de reforma e abertura, não desenvolvermos a economia, nem melhorarmos a vida do povo, estaremos num beco sem saída”. Este é outro aporte do Partido Comunista da China à teoria e à prática do socialismo científico que beneficiam enormemente o acervo do Movimento Conunista Internacional.
Contemporaneamente, a China vive, sob a direção do Partido Comunista da China, um extraordinário desenvolvimento das forças produtivas, um vertiginoso progresso econômico, uma veloz mobilidade social e a acelerada redução da pobreza. A China é hoje uma das principais economias do mundo e em todos os sentidos pode ser chamada de potência emergente, uma fase esplêndida de sua milenar história, em que dá gigantescos saltos em seu desenvolvimento econômico, consolidando o poderio nacional, fortalecendo sua independência e avançando irreversivelmente na unificação e integridade territorial. É notável o avanço rumo à realização do Sonho Chinês de construir um país socialista poderoso, próspero, socialmente avançado, civilizado e culto. São marcos do socialismo da nova era, proclamado pelo Presidente Xi Jinping. Esta é outra importante demonstração da originalidade do Partido Comunista da China e um aporte que dá o Presidente Xi Jinping ao enriquecimento da teoria do Marxismo-Leninismo e à experiência do Movimento Comunista.
Se durante a Revolução da Nova Democracia e no início da construção do socialismo com peculiaridades chinesas foi fundamental a contribuição teórica do líder Mao Tsetung na aplicação do marxismo-leninismo à realidade concreta da China, foi o gênio de Deng Xiaoping que vislumbrou o caminho pioneiro de seguir na construção do socialismo por meio da Reforma e Abertura. Agora, a construção do socialismo na China ingressa numa nova era: “Mediante os esforços feitos durante um longo período de tempo, o socialismo com características chinesas já entrou numa nova era, que confirma a nova posição histórica do desenvolvimento da China”, afirmou o Presidente Xi Jinping em seu Relatório ao 19º Congresso do Partido Comuista da China.
Ao celebrar o centenário do Partido Comunista da China o povo e o governo chineses têm presente que o mundo vive um período histórico marcado por instabilidade, incertezas, ameaças à paz mundial, a tentativa de uma superpotência para impor a ferro e fogo sua hegemonia planetária. Ao fazê-lo essa superpotência viola a soberania das nações e tenta negar aos povos o direito de construir seu próprio caminho e realizar suas aspirações ao progresso social.
Hoje a China tem como princípios de sua política externa a defesa da paz e do desenvolvimento, a criação de um ambiente internacional pacífico, estabelecendo relações diplomáticas amplas e diversificadas e atuando na cena internacional como defensora do multilateralismo e do papel da ONU como eixo do sistema internacional, mantendo-se consequente e fiel aos cinco princípios de coexistência pacífica que formulou há mais de seis décadas: respeito mútuo à soberania e integridade nacional; não agressão; não intervenção nos assuntos internos de um país por parte de outro; igualdade e benefícios recíprocos e coexistência pacífica entre Estados com sistemas sociais e ideológicos diferentes.
Ativa e assertiva no exercício de sua política externa, a China contribui para a paz mundial, ao esforçar-se pela prosperidade comum, preservar sua independência, defender o princípio da autodeterminação e da soberania dos povos e nações, participando ativamente na diplomacia multilateral.
A história provou que sem o Partido Comunista, sem a aplicação criadora do marxismo-leninismo à realidade peculiar da China, sem o pensamento de Mao Tsetung, sem a teoria e a prática da revolução chinesa, não teria sido possível a fundação da República Popular, iniciar a construção do socialismo e abrir o caminho histórico de construir uma nação próspera, independente e socialista, processo no qual o povo chinês e o Partido Comunista da China se fortaleceram e se tornaram uma força imbatível.
Igualmente, a história demonstrou a vitalidade do pensamento de Deng Xiaoping sobre a construção do socialismo com peculiaridades chinesas e a política de Reforma e Abertura.
Hoje, o Partido Comunista da China e o povo encontram-se imersos na batalha pela realização do Sonho Chinês, sob o pensamento guia do Presidente Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para a Nova Era, que é a atual orientação para o desenvolvimento e o progresso do Partido e do país.
Como a história e o presente demonstram, a questão em foco não é se a China é exemplo ou modelo a ser seguido por outros países, mas se as políticas levadas a efeito pelo centenário partido que dirige a sociedade chinesa cumpriram os objetivos propostos e credenciam o país para novas conquistas.
____________________ * Democracia e socialismo na China - Elias Jabbour
Por Elias Jabbour

*Artigo produzido em colaboração com o Grupo de Mídia da China
Não existe um único modelo padrão de sociedade, sistema econômico e muito menos de democracia. O que se chama de “democracia” no Ocidente deve ser vista não como uma religião a ser seguida por todos os países. Mas como uma construção histórica baseada nas condições, circunstâncias e características de cada povo e nação. Isso significa que a China não pratica um tipo de democracia reconhecida pelo Ocidente, mas tem construído uma forma particular de democracia que espelha tanto suas condições histórico-sociais, quanto do sistema socialista em permanente evolução no país desde 1949.
O que seria essa democracia socialista chinesa? Tem eleições na China? Tratam-se de duas questões legítimas cujas respostas são desconhecidas do grande público. A democracia socialista chinesa é uma democracia construída de “baixo para cima” com poderes cada vez mais concentrados no nível de base e onde os princípios de livre manifestação e opinião – diferentemente das democracias ocidentais – não são influenciados pelo poder econômico de alguns bilionários e milionários. Trata-se de uma “democracia não-liberal” sob comando do Partido Comunista da China (PCCh) em conjunto com outras forças vivas da sociedade chinesa, dentre os quais outros oito partidos políticos.
Essa democracia que se desenvolve desde o nível da base (condado, aldeia, distrito, bairro) elege seus representantes a cada cinco anos elege seus representantes locais. De forma indireta chega-se aos níveis mais altos da legislatura chinesa, incluindo o Congresso Nacional do Povo (CNP). O CNP ao lado do Conselho Consultivo Político do Povo Chinês (CCPPCh) são os dois órgãos legislativos máximos da China, sendo o CCPPCh uma espécie de “câmara alta” onde as grandes personalidades do país se reúnem para opinar e discutir sobre os rumos do país. A atual legislatura do CNP foi eleita em 2018 com mandato até o ano de 2023. O CNP é composto por 2980 representantes. Destes 2094 são membros do PCCh e os 886 dos outros partidos políticos e sem partido que formam a Frente Unida.
É atributo de cada Conselho do Povo (CP), desde o nível de aldeia, eleger os cargos de presidente da República, governador, prefeito e líder de condado, distrito, município e cidade. Como a China não é uma democracia liberal, onde existe a chamada “separação de poderes”, cada CP também é responsável por eleger Presidentes dos Tribunais do Povo e procuradores-chefes das Procuradorias do Povo.
Neste sentido, qual particularidade desta democracia chama mais atenção? Quão democrático é um parlamento cujos membros são eleitos de forma indireta e não direta como no Ocidente? Interessante notar que na China as duas casas legislativas do país reúnem-se por apenas 15 dias por ano na capital do país, Pequim. Isso significa que nos outros 350 dias do ano os representantes eleitos ao CNP vivem, militam e trabalham nas bases. Isso garante um controle político do representante por parte da base que não existe no Ocidente. No Ocidente, os deputados são eleitos de forma direta e somente voltam às suas bases nas épocas de eleições.
A democracia socialista chinesa, neste aspecto, é uma forma superior de representação popular em relação às democracias liberais. Esse controle sobre o representante à CNP permite maior fiscalização sobre seu desempenho refletindo uma rotatividade de membros da CPN que não existe em outras democracias liberais onde deputados são “eleitos” de forma contínua. E a representação feminina tem aumentado, alcançando 24,9%. No Brasil, uma “democracia”, as mulheres compõem somente 15% da Câmara dos Deputados.
Enfim, como classificar a democracia socialista chinesa? Trata-se de uma construção histórica ainda dando seus primeiros passos. Busca raízes nas antigas comunidades camponesas e suas milenares práticas democráticas. É socialista, não liberal, pois o poder do dinheiro não garante influência na eleição de representantes e o controle político do país e dos representantes dos CP, do CNP e do CCPPCh não ser exercido por lobbies privados e interesses individuais. Como já posto, é algo em construção e ainda em seu início. O socialismo é um sistema social muito novo em relação ao capitalismo e ao feudalismo. Está dando, ainda, seus primeiros passos na história e ainda busca construir suas formas políticas e de representação.
Mas não resta dúvidas que em relação à “democracia ocidental”, cada vez mais decadente, a democracia construída na China é a semente de formas avançadas de representação política popular. O socialismo com características chinesas é a engenharia humana e social mais avançada do mundo. A democracia que deriva desta experiência certamente deverá inspirar os povos do mundo a ter maior fé em seu destino e na própria política.
____________________ * Bolsonaro: genocídio e corrupção! - Paulo Pimenta
Por Paulo Pimenta

A agenda que Jair Bolsonaro cumpriu neste primeiro semestre de 2021 nos informa que o presidente da República emprega parte substancial do seu tempo na busca de atalhos que o livrem da prisão.
A rigor, quem governa o Brasil, hoje, é o Centrão de Arthur Lira e Ricardo Barros. São eles que tentam barrar a oposição parlamentar para “passar a boiada” e impor a agenda neoliberal ao País, com as privatizações, a alteração das normas de proteção ambiental e o esbulho das terras indígenas, para citar três exemplos recentes.
Mussolini de moto - Enquanto isso Bolsonaro realiza motociatas, para animar sua squadra paramentada de negro para projetá-la na esfera digital. Reproduz a coreografia de Mussolini, buscando exibir uma força que já lhe escapa, agita em comício a figura lamentável de Eduardo Pazuello, general da ativa, e, quando interpelado, agride repórteres, particularmente mulheres.
O poder corrosivo das revelações da CPI da Covid-19 produz resultados visíveis na erosão da imagem do governo. O mais significativo – e espantoso – é ouvir de parlamentares da base de sustentação de Bolsonaro – os quais não se comoveram com mais de meio milhão de brasileiros mortos pela pandemia -- confessarem sua decepção com o governo a que servem por se tornar alvo de denúncias de corrupção.
Nervosismo do genocida - Bolsonaro percebe inconformado, e aparentemente com surpresa, que os amigos vão se tornando ex-amigos. Os aliados, ex-aliados ou inimigos. Todos sabemos que não há pior inimigo que um ex-aliado, como assistimos na última semana com os irmãos Miranda prestando depoimento na CPI.
Talvez por tudo isso o presidente venha mostrando, em suas aparições públicas, um crescente nervosismo e agressividade.
As manifestações de 29 de maio e 19 de junho introduzem um fator que andava ausente da disputa política: a presença massiva nas ruas das oposições lideradas pelas esquerdas. Foram dois momentos fortes e o quadro de desgaste do governo estimulou a antecipação da próxima mobilização para sábado, 3 de julho.
Povo nas ruas - A mídia, hoje dividida em dois campos -- de um lado empresas que recebem os generosos estímulos da Secretaria de Comunicação de Bolsonaro e, de outro, as que estão sendo estranguladas por ele -- modificou a cobertura das manifestações. De uma atitude inicial de desdém, em 29 de maio, quando noticiaram o ato só dois dias depois, para uma cobertura mais digna do que se define como jornalismo, em 19 de junho, mais ampla e com repercussão mais significativa para o conjunto do país. Não há como ignorar o peso das duas manifestações sobre a complexidade e o ritmo da conjuntura.
É perceptível que os blocos de sustentação do governo Bolsonaro se movem. diante das manifestações e das primeiras pesquisas – presenciais – publicadas nos últimos dias. As pesquisas dão notícia da curva declinante das avaliações sobre o desempenho do governo e apontam, nesse momento, um forte crescimento das opções eleitorais em favor do seu principal adversário, o ex-presidente Lula.
Abandono do genocida - Particularmente o segmento mais popular que ainda apoia Bolsonaro – os eleitores evangélicos – tido e havido como seu reduto cativo, dá mostras de que escapou do redil, informam as pesquisas, para apoiar Lula, que já ultrapassa o atual ocupante do Palácio do Planalto. Esse segmento passará a pressionar seus líderes, pastores e bispos no sentido contrário ao visto até agora, desde a eleição de 2018.
No topo da pirâmide, parte do grande capital se move no sentido de abandonar o presidente depois da proposta de reforma tributária apresentada pelo ministro Paulo Guedes, que retoma a taxação de lucros e dividendos.
Os movimentos do vice-presidente, general Hamilton Mourão, deixam escapar que, entre os fardados, a aparente unanimidade do apoio ao governo esconde uma crise real. O escândalo da Covaxin que explodiu na última semana aprofunda as contradições entre parcelas importantes das três armas, insatisfeitas com a identificação da imagem das instituições que representam com um governo declinante, mergulhado em crises sucessivas.
As mais recentes delas, revelada pela CPI, articula a condução desastrosa das políticas de saúde pública frente à pandemia da Covid-19 com escândalos de corrupção que envolvem o próprio líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (Progressistas-PR), bem como o envolvimento do diretor de Logística do Ministério da Saúde em processo suspeito de aquisição da AstraZeneca, envolvendo proposta inicial de propina de U$1,00 por dose adquirida.
Frente a este cenário, só há uma forma de barrar o disparate de um governo genocida e corrupto: a força dos setores democráticos e populares organizados nas ruas.
Nesta quarta-feira (30) será protocolado na Câmara dos Deputados o superpedido de impeachment de Bolsonaro. Um documento que vai aglutinar todos os crimes de Bolsonaro contido em 120 pedidos de impeachment. .
No sábado (3), as Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, junto com a Coalizão Negra, centrais sindicais, partidos políticos, igrejas, movimentos sociais e populares, voltam às ruas para defender o direito do povo brasileiro à vida!
Vamos juntos!
#VacinanoBraçoComidaNoPrato
Fora, Bolsonaro! Impeachment Já!
____________________ * O bolsonarismo é a estupidez no estado da arte - Gilvandro Filho
Por Gilvandro Filho

Por Gilvandro Filho, para o Jornalistas pela Democracia
Escancararam a corrupção e a boiada está passando. Com a segunda e (cada vez mais) grave denúncia de falcatrua financeira no escândalo da Covaxin, a máscara de honestidade e incorruptibilidade do presidente da República se contamina de vez. Nunca foi algo pelo qual se pusesse a mão no fogo, tudo bem. É mais uma evidência de que o bolsonarismo flertava com a desonestidade e o desapreço à decência. Mas, roubar, armar esquema e cobrar propina em cima de uma tragédia colossal como a pandemia da Covid-19, aí já é crime hediondo contra uma humanidade da qual, muito provavelmente, esse grupo não faz part
Eleito à luz da mentira, do discurso de ódio e das notícias falsas, Jair Bolsonaro chegou ao comando do país sem a menor adequação para o cargo. Não tinha, como não tem cada vez mais, as condições políticas, intelectuais e morais para ser presidente de qualquer republiqueta, muito menos de um país continental e politicamente complexo como o Brasil. Mas, não enganou ninguém, sejamos justos. Sempre disse a que se propunha. E propunha dar o que tinha de pior.
Desde a campanha de 2018 que o candidato “anti-Lula” anunciava o caos e o terror que seria um governo seu. Prometeu perseguir oposicionistas, atirar contra adversários, distribuir arma de fogo a mancheias entre seus apoiadores visando sabia-se lá o que (hoje se sabe), inflar o governo de militares e de calhordas de vários matizes e crenças religiosas, acabar com a fiscalização ambiental, destruir o ensino através da ideologia de extrema direita, aprofundar a agressão aos direitos humanos, à imprensa e a quem não tem na testa o carimbo de “gado”.
Mas, o discurso anticorrupção estava lá, como atrativo, sobretudo, para os liberais de direita que espumam uma neutralidade que não existe. Já se disse que os tais “isentos”, ou “isentões”, são os piores dos criminosos, pois trazem na mochila não apenas a sua culpa, como mas, como plus, a covardia da omissão. Acreditar na futura conduta ilibada e sem mácula do então candidato Bolsonaro, só estando embalado pela má-fé ou pela covardia. Dois traços de personalidade deploráveis.
O bolsonarismo traduz o que de pior já se juntou numa mesma tendência política. Da ideologia atrasada à violência explícita dos seus quadros e dos seus simpatizantes. Do seu permanente estado de golpe, contra a democracia e contra o bom senso, até a corrupção que, agora, se junta abertamente ao seu prontuário. É a estupidez em seu nível mais avançado. O estado da arte da estultice e da quebra de condições mínimas de convivência democrática. Daí ser tão difícil dialogar com os bolsonaristas, a começar pelo seu “mito”, para quem este verbo não existe. A saída é o seu afastamento do poder, de imediato. A única, hoje, para o Brasil.
____________________ * Chegou a hora dos pixulequeiros fardados - Moisés Mendes
Por Moisés Mendes

Por Moisés Mendes, do Jornalistas pela Democracia
Se formassem e dividissem ao meio uma bancada de interrogados com passagem pelo governo, na CPI do Genocídio, com civis subalternos de um lado e militares de outro, é provável que os fardados já tivessem maioria.
A grande imprensa vem escondendo os militares que prestam ou prestaram serviços a Bolsonaro, com a desculpa de que precisa pegar antes os civis de Ricardo Barros. Mas os civis da facção do Paraná são bagres, todos mandaletes sem relevância.
São úteis no esforço para incriminar o líder de Bolsonaro na Câmara e o próprio Bolsonaro, mas ninguém se lembrará deles depois de amanhã.
Podem juntar dezenas de civis do Ministério da Saúde, todos envolvidos com propinas de vacinas, cloroquina, testes, máscaras e seringas, mas eles não valerão uma dúzia de oficiais do time de Pazuello.
Os peões de Ricardo Barros trabalhavam com um coronel a tiracolo. Estão sendo fortalecidos os indícios de que os coronéis de Pazuello e de Bolsonaro davam legitimidade aos negócios.
A corrupção precisava se fardar para assumir ares de sobriedade e oferecer segurança à clientela. O coronel Marcelo Blanco da Costa, que apareceu agora, na denúncia de propina do homem da Davatti, é uma cara nova em meio a caras já manjadas.
Blanco da Costa participou do jantar em que o então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, pediu a um pretenso emissário da Astrazeneca US$ 1 dólar de gorjeta por dose de vacina comprada.
Já se sabe que o coronel criou uma empresa, dias antes do jantar no dia 25 de fevereiro, a Valorem Consultoria em Gestão Empresarial, para representar outras empresas da área de medicamentos e materiais da área da saúde.
É talvez o mais empreendedor de todos e se preparava para atuar como intermediário. Como era assessor de Ferreira Dias na área de logística, seria, pelo que se deduz da denúncia, o candidato a atravessador na compra com propina de US$ 1 por dose.
Blanco da Costa se junta a outros coronéis. Élcio Franco, o ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, era o poderoso centralizador das compras de vacinas no tempo de Pazuello.
Os irmãos Miranda temiam Franco, porque ele mandava em todos os envolvidos na tentativa de compra apressada e superfaturada da Covaxin.
Sob as ordens de Franco, que estava abaixo apenas de Pazuello, trabalhavam os coronéis Marcelo Pires, ex-diretor de Programa do Ministério da Saúde, e Alex Lial Marinho, ex-coordenador-geral de Logística e Aquisições de Insumos Estratégicos para Saúde.
Todos foram denunciados pelos irmãos Miranda na CPI por participação na estrutura montada para fazer pressão na compra da Covaxin.
Temos ainda o coronel Roberto Criscuoli, que já admitiu ter facilitado os contatos que levaram Luiz Paulo Dominguetti, da Davati, a Roberto Ferreira Dias.
O servidor Luís Ricardo Miranda chegou a sugerir, sem citar o nome, que o coronel seria o lobista que pediu propina a um colega seu no Ministério da Saúde para intermediar a venda de vacinas.
Criscuoli é apontado como membro do que chamam de Abin paralela, que dá suporte de “inteligência” a Bolsonaro. Claro que só atua nessa tarefa especial por ser próximo de Bolsonaro.
Tem mais militar em situação ruim, em outras periferias dos negócios proporcionados pela chegada de Eduardo Pazuello com seus coronéis ao Ministério da Saúde.
Tem o coronel George Divério, ex-superintendente do Ministério da Saúde no Rio, que contratou sem licitação as reformas no prédio do órgão avaliadas em superfaturados R$ 28,9 milhões.
Se aparecerem mais nomes, é possível formar logo um batalhão só de suspeitos de envolvimento em negócios da pandemia.
Pazuello se queixava das tentativas de pixuleco e disse aos irmãos Miranda que trabalhava sob pressão dos pixulequeiros. Todos certamente seus conhecidos e muitos deles fardados.
A CPI terá feito um trabalho pela metade se conseguir derrubar Ricardo Barros por cima de Bolsonaro, mas deixar intacta a estrutura de poder e de negócios montada com suporte militar.
São esses os mais protegidos pela grande imprensa e tratados como se fossem coadjuvantes ou figurantes. As evidências são de que eles eram protagonistas da pixulecagem.
____________________ * Governo mortífero e corrupto - Jeferson Miola

Por Jeferson Miola
O governo militar está cada vez mais afogado num mar de corrupção e mortes [aqui]. Além de causar o morticínio de dimensões catastróficas, também operou um macabro e bilionário esquema de corrupção na negociação de vacinas.
A incrível velocidade de tramitação e as condições fraudulentas negociadas para a compra da Covaxin contrastam com a lentidão governamental nas tratativas com fornecedores de outras vacinas. O fator que explica este contraste, mais além da visão anti-ciência e da incompetência oficial, sabe-se agora, chama-se propina.
Como escreveu Tereza Cruvinel, “Bolsonaro pessoalmente embarreirou o quanto pode a compra da Coronavac. E agora podemos pensar que o problema não era pela origem chinesa ou pelo protagonismo do governador João Dória no acordo inicial com o fabricante Sinovac”.
O representante da empresa Davati Medical Supply, Luiz Paulo Dominguetti, declarou ao jornal Folha de São Paulo ter sido achacado a pagar 1 dólar por dose a título de propina para conseguir fechar contrato de fornecimento de 400 milhões de doses de AstraZeneca.
À cotação do dia, significa um assalto de 2 bilhões de reais aos cofres públicos – o suficiente para a concessão de auxílio emergencial de 600 reais a 3,3 milhões de pessoas necessitadas.
A propina foi pedida por Roberto Ferreira Dias, o diretor de logística do ministério da Saúde indicado para o cargo pelo líder do governo Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros/PP, que estava acompanhado pelo coronel da reserva Marcelo Blanco da Costa, que às vésperas do encontro com Dominguetti [25/2] “coincidentemente” abriu empresa de representação comercial de medicamentos e produtos médico-hospitalares e odontológicos.
Dominguetti explicou que “aí depois nós tentamos por outras vias, tentamos conversar com o Élcio Franco [coronel da reserva do Exército], explicamos para ele a situação também, não adiantou nada. Ninguém queria vacina” – salvo, claro, se tivesse pagamento de propina!
Como afirmou Tereza Cruvinel, “Roubar na compra de vacinas não é só roubar dinheiro público. É matar brasileiros com a demora na aquisição, em busca de negócios sujos”.
Se a postura do governo nas negociações entabuladas a partir de maio/2020 para a compra de outras vacinas tivesse sido a mesma que a adotada nas negociatas da Covaxin, a imunização da população brasileira teria iniciado bem antes, e o país estaria em estágio avançado de cobertura vacinal.
Isso significa, portanto, que milhões de pessoas não teriam sido contaminadas e centenas de milhares de mortes teriam sido evitadas. Epidemiologistas estimam que cerca de 390 mil das 516 mil vidas perdidas [3 a cada 4 delas] até hoje poderiam ter sido preservadas.
Este é o governo mais mortífero da história; é responsável por perdas humanas equivalentes às baixas do Brasil em 10 guerras do Paraguai. É, também, o mais corrupto da história.
O esquema bilionário de corrupção no ministério da Saúde sob a gestão militarizada de Eduardo Pazuello, o general da ativa do “um manda, o outro obedece”, pode ser indicativo de lógicas corruptas disseminadas na administração federal.
A sociedade brasileira ainda precisa conhecer outras “tenebrosas transações” que possam estar ocorrendo também em outras esferas do governo no marco deste brutal processo de dissolução e liquidação nacional executado pelo governo militar.
Os militares estão perdendo o discurso falso-moralista contra a corrupção que bradavam para conspirar e tomar o poder. Por outro lado, aumenta a crise de legitimidade do regime e diminui sensivelmente a confiança da população nas Forças Armadas.
As mobilizações populares e democráticas de rua, retomadas massivamente em 29 de maio e 19 de junho, são o combustível decisivo para obrigar o presidente da Câmara a autorizar o processo de impeachment do Bolsonaro no Senado e o julgamento dele por crimes comuns no STF.
O impeachment do Bolsonaro, esta grande urgência nacional, é um passo fundamental a ser dado para se deter a escalada militarista e se dar início à reconstrução do Estado de Direito e da democracia no Brasil.
____________________ * Desafios atuais do pensamento político brasileiro - Bernardo Ricupero
Por Bernardo Ricupero

Por Bernardo Ricupero
A história da Ciência Política no Brasil é uma história extremamente curta. Como é amplamente sabido, a disciplina da maneira que a conhecemos é um produto do golpe de 1964. A relação da ciência política com o autoritarismo não deixa, porém, de ser ambígua, já que deseja explicá-lo e é, ao mesmo tempo, beneficiária do sistema de pós-graduação produzido pela modernização autoritária brasileira.
Exemplo da preocupação com o golpe é a afirmação que abre a tese de Wanderley Guilherme dos Santos, The calculus of conflict: impasse in Brazilian politics and the crisis of 1964, defendida na Universidade de Stanford: “a tomada de poder militar em 1964 foi uma surpresa para muitos, um choque para outros e um alívio para aqueles que acreditavam que o presidente João Goulart havia comprometido seriamente seu governo em uma aventura populista de tipo radical”. Nessa referência, o autor de Quem dará o golpe no Brasil? convida “aqueles que estão insatisfeitos com suas avaliações anteriores a repensarem a política do período e a buscar uma explicação mais aprofundada para este evento decisivo” (SANTOS, 1979: V).[1]
Pouco antes, Bolívar Lamounier, também na sua tese de doutorado, Ideology and authoritarian regimes: theoretical perspectives and a study of the Brazilian case, defendida na Universidade da Califórnia/Los Angeles, argumentara, em sentido semelhante, que o golpe evidenciara que “nossas referências teóricas fornecem pouca orientação em situações concretas” (LAMOUNIER, 1974: 13).[2]
Por outro lado e de maneira complementar, o autoritarismo brasileiro também foi modernizador, promovendo o estabelecimento de um sistema de pós-graduação, cujo marco é a Reforma Universitária, de 1968. Assim, os primeiros mestrados em ciência política foram criados na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1965, e no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), em 1969, experiência da disciplina que, em boa medida, contrasta com a anterior como se teve, por exemplo, na cadeira de Política da USP. Concomitantemente, a afirmação da ciência política como disciplina se beneficia de uma atuação agressiva da Fundação Ford que, desde a Revolução Cubana, se envolveu numa disputa pela hegemonia cultural na América Latina, promovendo a vinda de professores norte-americanos e concedendo bolsas para que estudantes brasileiros realizassem pós-graduação nos EUA.
É verdade que a preocupação com o autoritarismo está presente no conjunto das ciências sociais produzidas no Brasil depois de 1964. Não por acaso, como indicou Luiz Werneck Vianna (1997), as ciências sociais do período voltaram-se prioritariamente para interpretar o que foi caracterizado como modernização conservadora brasileira, como se percebe em A economia brasileira: crítica da razão dualista (1972), de Francisco de Oliveira; São Paulo e o Estado nacional (1973), de Simon Schwartzman; Politique et dévéloppement économique:strutcturs de pouvoir et systéme de décision au Brésil (1973), de Luciano Martins; A revolução burguesa no Brasil (1975), de Florestan Fernandes; Elite and state-building in imperial Brazil (1975), de José Murilo de Carvalho; Capitalismo autoritário e campesinato (1976), de Otávio Velho; Liberalismo e sindicato no Brasil (1976), do próprio Werneck Vianna; The agrarian roots of modernization in Brazi : 1880 – 1930 (1979), de Elisa Reis.
No entanto, o desafio foi especialmente relevante para a ciência política até em razão de tradicionalmente seu objeto privilegiado ser o Estado. Talvez ainda mais importante, o golpe acaba representando uma oportunidade para se afirmar a autonomia da política diante de outras esferas, como a social e a econômica. Na afirmação da especificidade da política e, junto com ela, da ciência política, os praticantes da disciplina voltam-se especialmente contra a sociologia e o marxismo, que tinham uma posição de destaque nas ciências sociais brasileiras antes do golpe.
Em termos contrastantes com a orientação até então dominante, valorizam a pesquisa empírica diante da preocupação conceitual. Nessa orientação, é possível tanto destacar o peso dos processos políticos como variáveis independentes para a quebra da democracia, como faz Santos (1979), como indicar que desafios políticos poderiam atrapalhar a consolidação do arranjo autoritário, como faz Lamounier (1974). Em termos mais amplos, depois de 1964 o Estado assume uma importância ainda maior no desenvolvimento do país, que estimula o estudo dos processos a ele associados.
Num certo contraste com a agenda de “aggionarmento”, tanto Santos (1978) como Lamounier (1982), ao pensarem a ciência política brasileira, valorizam a anterior tradição ensaística como elemento próprio e distintivo da disciplina no país. O pensamento produzido no Brasil sobre questões políticas antes da institucionalização da disciplina funcionaria mesmo, segundo Lamounier (1982), como uma espécie de “estoque” de temas e problemas disponível para os posteriores cientistas políticos. Nessa referência, o pensamento político seria constitutivo da própria ciência política tal como entendida no Brasil.
Por outro lado, apesar do notável crescimento nos últimos anos do que passou a ser uma subárea, é questionável que o conjunto da comunidade de cientistas políticos brasileiros compartilhe da crença na importância do pensamento político. Mesmo assim, por vezes inconscientemente, continua-se a fazer uso do “estoque” fornecido por essa tradição. Cria-se, assim, uma situação curiosa; em que o pensamento político é parte constitutiva, mas desprezada da ciência política brasileira.
Voltando à breve reconstituição histórica, é possível assinalar que se a ciência política brasileira se ocupa privilegiadamente, nos anos 1960 e 1970, do autoritarismo, a disciplina passa a tratar, na década de 1980 e 1990, sobretudo da transição, consolidação e qualidade da democracia. Como na primeira situação, a orientação teórica não deixa de estar relacionada com desenvolvimentos políticos mais amplos, em especial, a progressiva retirada dos militares do poder. Concomitantemente, o interesse pelo Estado vai cedendo espaço para a sociedade civil, categoria que, durante a transição, assume um significado bastante específico.
Particularmente influentes no período é a literatura que passou a ser conhecida como “transitologia”. Na defesa da democracia, estes trabalhos assumem claramente uma posição normativa. Ao mesmo tempo, se mostram bastante pessimistas em relação ao funcionamento das “novas” democracias. Guillermo O´Donnell – importante cientista político argentino que morou diversos anos no Brasil – considerou, por exemplo, que estas democracias não seriam consolidadas ou institucionalizadas, mesmo que passassem a ser duradouras. Nessa referência, chegou a defender que a melhor caracterização para elas não seria como democracias representativas, mas como “democracias delegativas”, em que quem “ganha uma eleição presidencial é autorizado a governar o país como lhe parece conveniente” (O´Donnell 1991: 30).
Em sentido oposto, desde meados dos anos 1990, a ciência política brasileira passa a tratar não mais da consolidação da democracia, mas de como nossa democracia funcionaria. O motivo mais profundo para que se assumisse tal perspectiva seria a crença de que o Brasil seria uma democracia estável, o que poderia ser averiguado usando os mais diferentes critérios. Junto com a mudança de avaliação sobre o desempenho da democracia no Brasil, há também um certo deslocamento analítico: de um enfoque mais global, preocupado com questões mais amplas, como o Estado e regimes políticos, passa-se para abordagens mais específicas, que lidam com Estudos Legislativos, Políticas Públicas, Controles Democráticos e mesmo com Pensamento Político.
Nos últimos anos, ou melhor, desde pelo menos desde o golpe parlamentar de 2016, certezas recentes foram ou, ao menos, deveriam ter sido abaladas. Antes de mais nada, o pressuposto de que o Brasil seria uma democracia consolidada já não se sustenta. A posterior eleição de um presidente de extrema-direita que cotidianamente desafia as bases da nossa democracia sem que haja maior reação aos seus atos mostra como é urgente repensar a ciência política brasileira.
Para tanto, o pensamento político brasileiro pode ter um papel importante, até porque, diferente de boa parte da disciplina no país, nunca teve uma visão naturalizada do que é a democracia brasileira. Isso talvez até ocorra, em parte, devido à sua origem ser, de certa forma, prévia à institucionalização das ciências sociais. Além do mais, o fato de seu material ser basicamente a história faz com que desconfie das certezas da época, espero, que qualquer que ela seja. Essas condições também facilitam que transite mais livremente entre as diferentes áreas da ciência política e das ciências sociais em geral. Em suma, tem uma maior predisposição para uma perspectiva crítica, que transcenda as condições de um momento ou outro.
De maneira sugestiva, se a reação ao golpe de Estado de 1964 foi de surpresa e de inquietação, tais sentimentos voltam a aparecer hoje. Os jovens cientistas sociais de um passado já aparentemente longínquo perceberam que não possuíam instrumentos analíticos para entender a situação que o país vivia depois do golpe militar. As ciências sociais brasileiras, e mais especificamente, a ciência política, tais como a conhecemos, são, em grande medida, o resultado da busca de respostas a essa apreensão. Mesmo que a atual crise política seja muito diferente de 1964, até porque vivemos num contexto posterior à guerra fria, em que a corrosão da democracia ocorre por dentro dela, também não dispomos de ferramentas conceituais para compreendermos o que ocorre nesses dias no Brasil. Até porque, de um momento para outro, se desfizeram boa parte das crenças que se formaram nas últimas décadas sobre a democracia brasileira, para as quais a contribuição da ciência política não foi desprezível.
Em suma, se coloca hoje um desafio cuja resposta determinará a própria relevância da ciência política brasileira. Para enfrentá-lo, o Pensamento Político pode desempenhar um papel importante.[3]
Referências
LAMOUNIER, B. 1974. Ideology and authoritarian regimes: theoretical perspectives and a study of the Brazilian case. PhD Thesis. University of California/Los Angeles, 1974.
O’DONNELL, G. 1991. “Democracia delegativa?” Novos Estudos CEPRAP. n. 31, pp. 25-40.
SANTOS, W. G. 1979. The calculus of conflict: impasse in Brazilian politics and the crisis of 1964, PhD Thesis, Stanford.
VIANNA, L. W. 1997. A revolução passiva no Brasil: iberismo e americanismo no Brasil. Rio de Janeiro: Revan.
Notas
[1] Santos procura demonstrar que a crise que produziu 1964 seria uma crise de paralisia decisória, gerada no contexto de um sistema partidário caracterizado pelo que o cientista político italiano Giovanni Sartori chamou de pluralismo polarizado.
[2] Lamounier, defende que uma ideologia autoritária, criada na década de 1920 e 1930, funcionaria como uma verdadeira tecnologia política para os estratos superiores da burocracia militar e civil, preparando 1964.
[3] Texto baseado em apresentação nas IV Jornadas de Pensamento Político
____________________ * Sobre a teoria do valor e o debate atual da esquerda - Leda Paulani
Por Leda Paulani

Por Leda Maria Paulani
A Mario Duayer (in memoriam)
Neste início de século XXI, o pensamento progressista e de esquerda, sobretudo aquele de inspiração marxista, vê a intensificação de um debate que opõe, de um lado, a agenda tradicional da luta de classes (trabalhadores x capitalistas) e, de outro, as chamadas “pautas identitárias”, que vão colocar seu foco na opressão sofrida por grupos específicos (mulheres, não brancos, não heteronormativos etc.) e que, não raro, vêm acompanhadas da discussão sobre a crescente degradação ambiental.
Em março de 2018, o famoso marxista inglês David Harvey publicou em seu blogue um artigo provocativo intitulado “A recusa de Marx da teoria do valor-trabalho”,[1] provocação rapidamente respondida por outro marxista inglês, Michael Roberts, em seu próprio blogue,[2] tendo tal resposta ganhado uma tréplica de Harvey, acolhida por Roberts no mesmo espaço. O que uma coisa tem que ver com a outra?
No número de inverno do ano passado (n.o 34), a revista de estudos socialistas Outubro montou um dossiê sobre a referida contenda em torno do valor, convidando marxistas brasileiros a comentar o debate. Assim, o dossiê saiu com cinco textos: o original de Harvey mais réplica e tréplica, um texto dos professores Eleutério Prado (USP) e José Paulo G. Pinto (UFABC) e mais um dos professores Mario Duayer (UFF) e Paulo Henrique F. de Araújo (UFF).
Mario Duayer, marxista de quatro costados, refinado leitor de Marx, tradutor dos Grundrisse para a edição brasileira lançada pela Boitempo em 2011, grande professor e grande figura humana, deixou-nos em janeiro deste ano, levado pela covid. No declinado dossiê, é justamente seu texto que estabelece a ligação entre os dois temas acima mencionados. Aproveito a boa iniciativa da Outubro para, com este artigo, prestar minha homenagem ao professor Duayer, desaparecido precocemente junto com mais de meio milhão de brasileiros graças à incúria e omissão criminosas de um governo para o qual já não se tem adjetivos.
Os dois lados na interpretação da teoria do valor
A provocação de David Harvey começa pela observação de que Marx não é herdeiro, como pensam muitos, da teoria ricardiana do valor-trabalho e lembra que, ao tocar no assunto, Marx fala sempre em “teoria do valor”, não em “teoria do valor-trabalho”. Isto porque, em sua leitura, o valor tem existência objetiva, mas é imaterial, não existindo sem o dinheiro, que é sua representação. Este último, por seu lado, só existe plenamente quando circula como capital, de modo que é só aí “que se consolidam as condições para que a forma valor característica do capital se constitua enquanto norma regulatória” (p.14).
Em outras palavras, não existe sociedade mercantil que não seja capitalista, pois o que impulsiona as trocas é a busca de mais valor, movimento que, de seu lado, promove e sustenta a própria forma valor. A circulação do capital, entretanto, pressupõe a existência da mercadoria força de trabalho e é principalmente aí que o trabalho entra na história, já que segundo nosso autor, “a formulação do valor no primeiro capítulo de O Capital é revolucionada por aquilo que vem em seguida” (p.17-18).
Assim, para Harvey, o que Marx buscava, diferentemente de David Ricardo, não era uma teoria que fornecesse uma base para explicar os preços (base esta que estaria no trabalho), mas uma teoria capaz de explicar as consequências, para todos aqueles condenados a trabalhar para o capital, da operação do valor como norma de regulação social.
Na sequência, Harvey vai afirmar que existe uma unidade contraditória entre valor definido no mercado e valor reconstruído pelas transformações no processo de trabalho que é central no pensamento de Marx. Desse modo, o que está em jogo na teoria do valor não se reduz às experiências no interior do processo de trabalho, ou seja, no âmbito da produção, mas atinge também tudo aquilo que se relaciona à reprodução social que o valor erigido em norma de regulação produz (e a reprodução social no capitalismo, como se sabe, ainda que não se restrinja a isso, passa inescapavelmente pelo mercado).
As condições deteriorantes da reprodução social, impulsionadas pela concorrência capitalista e por seus efeitos sobre as condições de vida da classe trabalhadora, se chocam assim, constantemente, com a necessidade perpétua do capital de expandir o mercado. Nesse sentido, Harvey vai observar, por exemplo, que “tanto a elevação dos salários como forma de garantir ‘consumo racional’ do ponto de vista do capital quanto a colonização da vida cotidiana como arena para o consumismo são cruciais para a teoria do valor” (p. 21). Tudo isso, conclui Harvey, “está muito além do que Ricardo tinha em mente e é igualmente distante da concepção de valor que geralmente se atribui a Marx” (p. 22).
Reagindo à provocação, Roberts vai afirmar, logo de início, que a interpretação de Harvey acerca da teoria de Marx parte do princípio de que o valor é criado/realizado apenas na troca (o que seria uma heresia e associaria a teoria marxista às leituras da economia convencional, que não relacionam de modo substantivo trabalho e valor), chegando a sugerir que, para ele, o valor seria uma criação do dinheiro e não, como seria o correto, a representação monetária do trabalho despendido na produção.
Roberts assevera, então, existir uma razão para tal interpretação equivocada da teoria do valor de Marx. É que, em sua visão, valendo os princípios apresentados por Harvey, “será a demanda (efetiva) que irá decidir se o capitalismo pode acumular de maneira regular, sem incorrer em crises” (p. 32). Em outras palavras, o autor, com sua teoria do valor, estaria defendendo uma “teoria subconsumista grosseira – mais grosseira que Keynes” (p. 36) e não aquilo que Marx propôs. O incômodo de Roberts aqui é principalmente com o fato de esse tipo de leitura não dar tanta importância, e, menos ainda, exclusividade, à famosa e controversa lei da queda tendencial da taxa de lucro como indutora das crises, lei da qual Roberts é entusiasmado defensor.
Harvey não se sai mal em sua defesa. Começa esclarecendo que o valor, claro, é sempre criado no ato da produção, mas só é realizado na troca, ou seja, é apenas valor potencial até o momento em que ocorra sua realização. Daí que demanda insuficiente dos consumidores pode sim ser uma das causas da crise, junto com outras, como crises comerciais ou estritamente financeiras e mesmo a famosa queda da taxa de lucro.[3]
Para Harvey, interpretações como a de Roberts podem ser consideradas “produtivistas excludentes”, pois deixam de lado, na história da acumulação de capital, uma série de outros elementos, indicados pelo próprio Marx, dentre eles, os associados ao processo de criação de vontades, necessidades e desejos, com a respectiva ênfase nos mecanismos para garantir capacidade de pagamento (p. 44). Ele indica, com isso, que é preciso atentar também ao que se passa na esfera da circulação, pois vários dos fenômenos diretamente associados à produção em si (a luta pela duração da jornada de trabalho, o impulso permanente à evolução tecnológica etc.) dependem das leis compulsórias da concorrência, mobilizadas e percebidas no mercado, e aparecendo em pontos chave do argumento de Marx.
Tal tipo de leitura, para Harvey, exige a correta compreensão da abstração que, para Marx, caracteriza o valor (compreensão que, presume-se, Roberts não teria). Ela não decorre de ser o valor um produto do pensamento, mas sim “o produto de um processo material histórico” que, a partir da generalização das trocas, fundamenta sua ascensão “como uma norma regulatória operando no mercado”, norma tal que passa a “dominar comportamentos não só no próprio mercado, mas também nos reinos da produção e da reprodução social” (p. 45).
A dialética ausente
Harvey poderia ter economizado palavras se tivesse dito simplesmente que a abstração que está aí em jogo é uma abstração real. O trabalho abstrato que constitui a substância do valor é resultado do cotidiano das trocas, que ininterruptamente reduz trabalhos concretos dos mais variados tipos e complexidades a tempo de trabalho simples socialmente necessário.
Um dos argumentos fortes de Roberts contra Harvey desponta quando ele, para enfatizar que o valor carregado pelas mercadorias é por elas adquirido no processo de produção antes que cheguem ao mercado, traz à cena a seguinte frase de Marx no capítulo 4 do Livro I: “O valor das mercadorias é expresso em seus preços antes de elas entrarem em circulação, sendo, portanto, o pressuposto, e não o resultado desta última” (MARX, 2013, p. 233). Aqui, ajudaria Harvey em seu argumento contra Roberts lembrar que, se Marx diz que o valor é pressuposto (Voraussetzung), então está dizendo que o valor não está posto… nem estará, pois o que estará posto, desde que a realização (venda) ocorra, é o preço de produção. Em outras palavras, o valor existe como uma negação.
O que quero dizer com os dois últimos parágrafos é que um pouco de dialética auxiliaria Harvey em sua disputa com Roberts. Abstração real é algo que só faz sentido num mundo onde se recuse a partição kantiana entre o sujeito e o objeto, onde seja possível admitir que a realidade pode, enquanto tal, produzir abstrações (e não apenas o pensamento).[4] Do mesmo modo, para entender o sentido da pressuposição que constitui o valor, é preciso admitir uma existência negada – o que não lhe retira a importância como forma social (ou norma de regulação, como quer Harvey), antes o contrário.[5] O mundo que faculta transgressões tais é o da dialética de Hegel, de capital importância na formação de Marx.[6]
Mas, como bem observam Prado e Pinto, em seu texto no dossiê, “esses dois marxistas impenitentes não são bons amigos da dialética” (p. 55). Esse é, aliás, o ponto principal de seu comentário crítico tanto à leitura de Harvey quanto à de Roberts sobre a lei do valor. Depois de mencionar vários pontos dos textos onde fica evidente a fragilidade, dentre eles a questão da abstração real presente na posição do trabalho como valor, os autores ponderam, não sem razão, que, no concernente às crises, os dois marxistas se atêm à causalidade eficiente, a qual, “para a dialética que vem de Hegel e de Marx, é aquele operar raciocinativo que estabelece conexões externas entre os fenômenos” (p. 58). Assim, nem um nem outro, segundo eles, parecem conceber os fatores desencadeadores das crises como momentos de um todo em processo de desenvolvimento, ou seja, que há aí uma ação recíproca ancorada na natureza contraditória do objeto. De modo sintético, que “a crise, para Marx, já está presente como possibilidade na contradição entre valor de uso e valor e, mais precisamente, na contradição entre a mercadoria e o dinheiro” (p. 59).
O valor como forma de mediação e dominação social (e o sujeito revolucionário)
Não resta dúvida que assinalar a ausência de dialética é um fértil veio para comentar a contenda em questão, pois, como já indicado, um pouco dela ajudaria Harvey, por exemplo, a se defender das críticas não muito fundamentadas que lhe faz Roberts. Contudo, o leitor pode justificadamente se perguntar para que serve tudo isso, por que razão uma querela de perfil quase metafísico teria alguma relevância para além daqueles envolvidos no debate.
Eis justamente o mérito do texto seguinte do dossiê. O objetivo de Duayer e Araújo é mostrar que, por trás das duas diferentes leituras de Marx, há posições distintas com relação à crise atual do capitalismo e às possibilidades de transformação. Segundo os autores, é a preocupação em identificar um sujeito revolucionário que orienta tanto uma quanto outra interpretação.
De fato, em sua resposta a Roberts, Harvey pontua que, insistindo na necessidade de se atentar também para as questões relativas à circulação/realização do valor, não quer com isso minimizar, negar ou refutar “todo o esforço que está sendo feito quanto ao processo de trabalho e a importância da luta de classes que tem ocorrido e continua a ocorrer na esfera da produção” (p. 44). Mas, continua ele, é preciso que tais lutas estejam relacionadas àquelas sobre “a realização, a distribuição (por exemplo, extrações de renda, execuções de dívidas hipotecárias), a reprodução social, o gerenciamento da relação metabólica com a natureza e as dádivas da cultura e da natureza”, conjunto de lutas “amplamente representado nos recentes movimentos anticapitalistas” – os quais, repisa Harvey, devem ser levados tão a sério quanto “o foco mais tradicional da esquerda marxista, favorecendo a luta de classes no âmbito da produção como um momento chave da luta” (p. 44).
Em seu texto original, não havia menção a isso, a não ser muito brevemente, quando, ao observar que no capítulo 23 do livro I Marx abre a perspectiva de uma teoria do valor da reprodução social, lembra Harvey que não foi outro o alvo das feministas marxistas, as quais teriam trabalhado assiduamente durante os últimos 40 anos para construir tal teoria.[7] Assim, ao que parece, a reação de Roberts fez seu oponente abordar explicitamente o assunto.
A esta altura, já temos alguns tijolos com que construir certo esquema (que corre o risco de ficar um pouco caricato, mas penso que vale a pena). Temos, de um lado, a posição 1 (de Roberts): Marx constrói uma teoria do valor-trabalho, coloca o trabalho e a exploração dele no centro da arena, botando o foco na produção e derivando daí sua teoria revolucionária, a qual atribui à classe proletária o papel de transformar a história; a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção se manifesta fundamentalmente por meio de crises decorrentes da queda tendencial da taxa de lucro (que é fenômeno gestado no âmbito da produção).
De outro lado, temos a posição 2 (de Harvey): Marx constrói uma teoria do valor e demonstra que o trabalho abstrato é sua substância, mas sua ênfase não é na vinculação valor-trabalho, e sim na forma valor, que no capitalismo se impõe como norma social regulatória e opera através do mercado; é essa forma abstrata, mas objetiva, que ele põe no centro da arena, botando seu foco na unidade contraditória de produção e realização e considerando, portanto, também o âmbito da reprodução social; assim, o papel de sujeito revolucionário não se reduz ao proletariado, mas envolve todos os grupos oprimidos e a preservação da natureza; as crises têm múltiplas causas, oriundas das várias instâncias (produção, reprodução, mercado), inclusive aquelas derivadas do processo de criação de vontades, necessidades e desejos, tão crucial à sobrevivência do valor como norma de regulação.
Contudo, para Duayer e Araújo, nem a interpretação de Harvey nem a de Roberts logram apreender a natureza historicamente específica do trabalho no capitalismo. Inspirados na famosa obra do historiador canadense Moishe Postone, Tempo, trabalho e dominação social, argumentam ambos que, enquanto conjunto dos vários e distintos tipos de trabalho concreto, “trabalho em geral” existe em todas as formações sociais, sendo essa existência que lhes confere sua função social; porém ocorre o inverso no capitalismo, pois aí é a função social do trabalho que o torna geral (p. 78).
Vale dizer, é o trabalho determinado pelas mercadorias que opera como objetivação dos laços sociais, colocando-o necessariamente como abstrato e produtor de valor. Para eles, embora a abordagem de Harvey lembre em alguns momentos tal leitura, nem ele nem Roberts teriam se dado conta da especificidade histórica da inversão. Apesar do evidente paralelo entre alguns de seus argumentos e a interpretação de Postone,[8] dizem os autores, Harvey não se dá conta de que, na exposição de Marx, o valor surge imediatamente como forma de mediação social, isto é, já na seção I do Livro I (portanto, não apenas com a entrada em cena da mercadoria força de trabalho na seção II, como sugere). Já para Roberts, tal como no marxismo tradicional, garantem eles, o trabalho abstrato consiste apenas no desgaste fisiológico da mercadoria força de trabalho, que ocorre ao longo do processo de produção. Assim, sua leitura fica ainda mais distante (que a de Harvey) da concepção do valor como forma de mediação social.
Para Duayer e Araújo, o resultado desses equívocos é que “a controvérsia entre os autores não tem como vislumbrar uma emancipação da formação social capitalista, pois os sujeitos da emancipação presumivelmente identificados jamais poderão imaginar um mundo […] sem a centralidade do trabalho” (p. 65-66). Dito de outro modo, nos dois casos trata-se de crítica ao capitalismo do ponto de vista do trabalho, não de crítica ao trabalho no capitalismo. Assim, nem na posição 1, nem na posição 2, há o correto reconhecimento de que o trabalho social não é apenas objeto de exploração e, portanto, de dominação, mas, como quer Postone, é “o fundamento essencial da dominação” (p. 80) – dominação que vai muito além de mera dominação de classe. Trata-se de dominação superior, operada que é abstratamente pela forma valor.
Compreendendo embora a crítica dos autores a ambos os lados do debate, é imperativo perceber que a interpretação de Harvey, como eles mesmos reconhecem, é a que mais se aproxima de uma abordagem que centra na forma valor o cerne da questão e, dessa forma, entende que há que ter amplo escopo a luta de classes.
Sobretudo num país como o Brasil, parece fazer pouco sentido contrapor o costumeiro enfrentamento capitalistas x trabalhadores às pautas identitárias e à luta pela preservação do meio ambiente. Como demonstra com fartura de argumentos Silvio Almeida, em livro de 2020, é apenas aparente a contradição entre uma razão universal que ascende desde o final do século XVIII e o ciclo de morte e destruição produzidos por colonialismo e escravidão, pois ambos operam simultaneamente como fundamentos da sociedade contemporânea. O racismo é por isso estrutural e não há como se livrar dele sem transformar a sociedade como um todo.
O projeto de uma civilização iluminista baseada na liberdade e igualdade de todos é a variável dependente de uma razão “abstrata” que se movimenta através do globo no compasso da acumulação. A circulação do valor como capital de modo cada vez mais abrangente e universalizado vai reforçando seu poder de mediação e domínio, e reproduzindo devastação e opressão. Um sebastianismo de classe não ajuda em nada a superação dessa dominação de tipo superior, naturalizada, reificada e, por isso mesmo, extremamente poderosa.
Referências
ALMEIDA, S. L. Racismo Estrutural. São Paulo: Editora Jandaíra, 2020
DUAYER, M, e ARAÚJO, P. H. F. Desventuras do marxismo tradicional. Outubro, n.o 34, p. 63-86, 2020
FAUSTO, R. Marx — Lógica & Política, tomo II. São Paulo: Brasiliense, 1987
FEDERECI, S. O Patriarcado do Salário. São Paulo: Boitempo, 2021
HARVEY, D. Limits to Capital. Londres: Verso, 2.a edição, 2006
HARVEY, D. A recusa de Marx da Teoria do Valor Trabalho. Outubro, n.o 34, p. 11-24, 2020.
HARVEY, D. As incompreensões de Michael Roberts. Outubro, n.o 34, p. 39-48, 2020
HEINRICH, M. Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna. São Paulo: Boitempo, 2018
MARX, K. O Capital — Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013
POSTONE, M. Tempo, trabalho e dominação social. São Paulo: Boitempo, 2014
PRADO, E. F. S e PINTO, J. P. G. Do valor em Marx: Harvey e Roberts. Outubro, n.o 34, p. 49-62, 2020
ROBERTS, M. A incompreensão de David Harvey sobre a lei do valor de Marx. Outubro, n.º 34, p. 25-38
SCHOLZ, R. O valor é o homem. Novos Estudos (Cebrap), n.o 45, 1996
Notas
[1] “Marx’s refusal of the labour theory of value”. Disponível no blogue do autor www.davidharvey.org. Uma versão em português do artigo foi publicada pela revista Margem Esquerda n.o 31, de 2018, e, na sequência, pela revista Outubro n.o 34, de 2020.
[2] “David Harvey’s misunderstanding of Marx’s law of value”. Disponível no blogue do autor thenextrecession.wordpress.com
[3] Em seu livro já clássico de 1982, Limits to Capital (London: Verso, 2006), Harvey considera vários recortes possíveis para uma teoria das crises em Marx e lista questões irresolvidas deixadas por ele. De qualquer modo dá a entender que se poderia deduzir, do Livro I, crises decorrentes diretamente do embate entre trabalhadores e capitalistas pela apropriação do excedente, alguma coisa na linha do profit squeeze que já atormentava Ricardo; do Livro II, crises de desproporção associadas com a questão da demanda efetiva; e, do Livro III, crises relacionadas à queda da taxa de lucro, decorrente da concorrência intercapitalista.
[4] Hegel diria que a realidade tem a textura do conceito.
[5] Tais reflexões partem das observações de Ruy Fausto no ensaio “Dialética e significações obscuras” (Marx — Lógica & Política, tomo II).
[6] Não ignoramos a existência de diversas leituras da teoria marxiana, inclusive aquelas que não admitem qualquer influência de Hegel no Marx maduro. Na defesa da posição contrária há, porém, as palavras do próprio Marx, por exemplo, no prefácio à segunda edição do Livro I de O Capital. A qualificada biografia de Marx escrita pelo cientista político alemão Michael Heinrich (Boitempo, 2018) a partir de pesquisas totalmente novas, embasadas na utilização de materiais inéditos no âmbito da edição da Mega (sigla alemã para a edição das obras completas de Marx e Engels), adiciona novos elementos à compreensão da importância de Hegel. Heinrich apresenta, por meio das palavras do próprio Marx, o enorme impacto que as obras do filósofo da Fenomenologia do Espírito exerceram sobre o jovem revolucionário, a luta que travou consigo mesmo para tentar derrotar esse “inimigo” (a palavra é dele). Depois de ler tais páginas, fica difícil ignorar a sombra de Hegel no Marx materialista.
[7] Realmente, se tomarmos os trabalhos, por exemplo, de Roswhita Scholz ou de Silvia Federici, veremos que Harvey está certo em fazer a associação. A primeira, em artigo de 1996, lembra que nem todas as atividades humanas responsáveis pela produção material da vida social são passíveis de serem subordinadas à forma valor, e que sendo as tarefas que resistem a essa submissão (cuidados com o lar, educação dos filhos etc.) essenciais à reprodução social, era preciso garantir sua execução, de modo que se impôs como necessidade a mulher apartada da esfera pública. Noutras palavras, a divisão tida por natural entre trabalho masculino e tarefas femininas, supostamente vinculada a distinções de natureza biológica, não tem nada de natural, resultado que é das exigências do processo de constituição do modo de produção capitalista. Já Silvia Federici, em livro de 2021, avisando que busca as condições para um diálogo entre marxismo e feminismo, observa que Marx, tão arguto em tantas outras premonições, falhou em perceber as transformações que estavam sendo gestadas no seio das famílias proletárias ao longo do século XIX, com a criação da dona de casa e do trabalho doméstico em si, encarregado da reprodução da mão de obra. Para ela, esse desenvolvimento teórico insatisfatório de Marx no que tange à reprodução social teve consequências políticas importantes, como a cisão entre os movimentos feminista e socialista que estavam surgindo no final do século 19 na Europa.
[8] Um exemplo é a observação de Harvey de que a relação contraditória entre um valor definido no mercado e um valor reconstruído pelas transformações no processo de trabalho está no centro do pensamento de Marx. Postone alude a um treadmill effect, que seria, para ele, a determinação inicial da lei do valor de Marx. O citado efeito relaciona-se justamente à inter-relação entre, de um lado, as alterações ocorridas no processo concreto de trabalho na busca de maior produtividade e, de outro, os efeitos desse movimento na determinação do valor através do tempo de trabalho socialmente necessário, ou, nos termos de Postone, da “hora de trabalho social”. O exemplo é citado por Duayer e Araújo, mas achei interessante reproduzi-lo aqui, porque a importância que os dois marxistas dão à esfera da circulação é distinta. Enquanto para Harvey, como vimos, não se pode deixar de considerar essa esfera e sua unidade contraditória com a esfera da produção, para Postone “o fato de essa generalização [da nova produtividade] resultar em um retorno da quantidade do valor ao seu nível original não é uma função do mercado; é uma função da natureza do valor como uma forma de riqueza” (p. 335).
____________________ * Carlos Wizard - covarde, canalha e cúmplice do genocídio - Carlos Hortmann
Por Carlos Hortmann
A tragédia brasileira de 515.985 vítimas da Covid-19, sem contar a subnotificação, está cada dia mais caracterizada e comprovada como um GENOCÍDIO. Todos/as nós perdemos um parente ou um amigo próximo. Isso é não uma obra exclusivamente do genocida-mor, mas de um projeto político da classe dominante brasileira. O ocupante da cadeira presidencial só é o representante bonapartista que a burguesia encontrou para tocar a espoliação, exploração e expropriação da classe trabalhadora brasileira. Os militares (o Partido Fardado) cumprem papel fundamental e decisivo nesse processo.
Dito isso, caro leitor/a, recuperamos a frase do senador Otto Alencar na CPI da Covid na inquirição do charlatão Carlos Martins (Wizard é uma invenção dele para parecer “gringo”): “No Brasil nenhuma riqueza ou fortuna é inocente”. Peço licença ao senador para retificar a frase: No Brasil e no mundo TODA, repito, TODA riqueza, fortuna e grandes propriedades é fruto de séculos de exploração, sangue, suor e mortes de muitos homens e mulheres trabalhadores/as. Por isso que nenhuma fortuna (acumulação) é inocente, pois ela traz consigo o sofrimento e assassinatos (sociais) de milhares e milhares de vidas. Por outras palavras, o capitalismo é um sistema (modo de produção) que produz assassinatos sociais em alta escala.
Muitos leitores/as podem ficar espantados/as com a minha afirmação. Entretanto, assim como o colonialismo negava a humanidade dos povos colonizados, ou seja, considerava-os “sub-humanos”, “bárbaros” ou “não-civilizados” e afins; o capitalismo, em nome de uma “liberdade” abstrata (sem conteúdo determinado) nega o direito a uma moradia digna (basta ver quem vive nas periferias) e a soberania alimentar (pelo menos 3 refeições por dia); priva as pessoas de terem uma saúde preventiva, universal e de qualidade; poderia continuar a enumerar uma quantidade de coisas que esse sistema nega para a maioria esmagadora da humanidade, só para que 1% da população mundial possa ter quase 60% de toda a riqueza existente no planeta terra. O capitalismo é um sistema destrutivo, visto que em última instância ele priva do direito à vida de todos/as aqueles/as que não pertencem a sua classe ou não são produtivos aos capitalistas ou legitimadores dos seus interesses.
Esse é um dos motivos que o genocida-mor adora dizer: “há algo mais importante do que a nossa vida, a nossa liberdade”. Mas ele não fala que é a liberdade dos capitalistas (não é você que tem uma loja ou pequeno comércio, mas os grandes bilionários monopolistas e banqueiros). Todo burguês/capitalista/banqueiro (bilionário ou multimilionário) tem sangue e mortes nas mãos. Repito. O capitalismo e os capitalistas são assassinos sociais.
Você poderá estar a perguntar: “por que eles não são punidos ou não tipificados como criminosos?”. Porque o Estado de configuração liberal-capitalista (nas suas estruturas) serve aos capitalistas e não a nós da classe trabalhadora. O Direito e as formas jurídicas e políticas vigentes servem essencialmente para garantir a propriedade privada dos meios de produção (que é diferente de propriedade pessoal), a circulação das mercadorias (garantir contrato e dinheiro) e punir todos/as aqueles e aquelas que coloquem em causa esses valores que só beneficiam as pessoas como Carlos Wizard.
O patife cagão que ficou em silêncio hoje diante dos inúmeros crimes contribuiu de forma efetiva para o genocídio no Brasil. Ele consegue encarar (no sentido ser) sem cinismo a essência (história) do que é a classe dominante. Ele tem a desfaçatez de rir das mortes de vítimas da Covid-19. Essa é a face fascista/racista da burguesia liberal-capitalista, a outra ri-se no privado e continua a ganhar rios de dinheiro com a morte de milhares de pessoas todos os dias em todo o mundo.
Todas as pessoas que morreram porque não tiveram o que comer ou um tratamento de saúde mínimo são vítimas desse sistema. Ele tem nome e sobrenome: capitalismo! O nosso sofrimento é só mais uma forma de acumulação dos capitalistas. O bolsonarismo fascista só é a face mais autoritária e visível desse sistema. Carlos Wizard é a síntese e a essência do capitalismo. Eles nos odeiam, é um ódio de classe, eles levam a sério a luta de classes. Escrevi recentemente sobre “ódio de classe”!
Por isso companheiros e companheiras convoco a todos/as: que a injustiça não nos entristeça, mas nos radicalize. Derrubemos esse sistema de assassinato social de pobres, negros, mulheres e indígena trabalhadores/as – entre outros inúmeros tipos de opressão. Somente esmagando a cabeça do liberal-capitalismo-e-fascismo nas suas entranhas é que conseguiremos fazer nascer uma nova sociedade livre desses parasitas.
____________________ * Wizard, na CPI: frouxidão e desonra elevadas a um novo grau - Homero Gottardello
Por Homero Gottardello
O empresário Carlos “Wizard” Martins protagonizou, nesta tarde, um dos episódios mais desqualificantes da história republicana. Outrora arrojado e resoluto, o empresário conhecido pelo pseudônimo do curso de inglês que criou, no final dos anos 80, se revelou o mais indigno dos seres, o mais vergonhoso dos convocados pela CPI e o mais ordinário dos “cidadãos de bem” do país. Ao se calar, apoiado no habeas corpus do Supremo Tribunal Federal (STF) que lhe garantiu o direito de ficar em silêncio, falou muito mais sobre si do que os nove livros de autoajuda que, supostamente, escreveu. Confirmou aquilo de que os menos ingênuos já sabiam: que é um sujeito muito diferente do empresário destemido, do líder nato, cristão abnegado, do filantropo caridoso que dedica “100% do seu – precioso – tempo às causas sociais”. Hoje, até os paralelepípedos das ruas – parafraseando o imortal Nelson Rodrigues – sabem que, se estivesse a bordo do Titanic no momento do naufrágio, Wizard se conduziria da mesma maneira que o personagem Cal Hockley, o aristocrata assustado e sem caráter que, para conseguir um lugar no bote salva-vidas onde eram embarcadas apenas mulheres e crianças, toma um garoto perdido e o apresenta como seu filho a um marinheiro, para conseguir escapar.
Na CPI, Carlos “Wizard” Martins pouco disse e, após sua fala inicial, em que negou a existência, bem como sua participação em um gabinete paralelo, afirmou que, a partir dali, ficaria em silêncio. Foi desancado, espinafrado nas horas seguintes, sem esboçar a revolta daquele que está sendo caluniado, a inquietação de quem é detratado, a insurreição daquele que, injustamente, é injuriado e maldito. Aguentou tudo com semblante tranquilo, como é próprio a quem não tem hombridade, como ocorre a quem só conhece a dignidade quando paga para um biógrafo lhe atribuí-la. Até mesmo os moradores de rua, os desvalidos, são tomados de uma força extraordinária, ao serem acusados imerecidamente. Mas este não foi o caso…
Hoje, qualquer brasileiro que se preze, que tenha o mínimo de dignidade e entendimento da corrupção que se instaurou com este desgoverno, desde o seu início, gostaria de fazer como a personagem Rose DeWitt Bukater, noiva de Hockey no filme “Titanic”. Ela põe fim ao relacionamento com o frouxo, quando este tenta subornar um oficial no desespero do naufrágio, lançando-lhe uma escarrada épica na face. Nesta noite e amanhã pela manhã, todo cidadão íntegro, toda mulher distinta, todo indivíduo decente deste país irá dormir e/ou acordar com um desejo incontido de cuspir na cara de Wizard, de desferir-lhe o mais degradante insulto que existe, o pior agravo de que se tem notícia, desde que o mundo é mundo.
E o que mais inspira esse anseio é o fato de todos saberem que, da mesma forma que ocorreu com o personagem fanfarrão de “Titanic”, o empresário não esboçaria a menor reação. Ao contrário, viveria os anos que lhe restam com a cusparada ainda escorrendo pelo rosto, porque é assim que ocorre com os pulhas: eles sabem que aquilo – aquele cuspe – os atinge por merecimento, que aquela afronta lhes é condigna e, mais do que isso, lhes é justíssima. Se vivêssemos em um país de gente esclarecida, ninguém mais, em hipótese alguma, compraria qualquer produto ou serviço que remetesse a Wizard – nominalmente, os produtos da marca Mundo Verde, os cursos de inglês das redes Wise Up e Number One, os lanches de lojas das redes Pizza Hut, Taco Bell e KFC que o têm por trás.
Trata-se, repito, do capítulo mais aviltante, mais infame, desonroso e degradador de que se tem notícia, nos quase 132 anos de Brasil republicano. Até mesmo uma figura inominável como o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, um marginal de altíssima periculosidade que, para a paz da sociedade, habita as profundezas do inferno há mais de cinco anos, teve comportamento mais digno ao ser inquirido pela Comissão da Verdade. Não negou o pacto do demônio da ditadura, não se calou e enfrentou as acusações sem se esconder, sem se esquivar. Por pior que Ustra tenha sido, como cidadão brasileiro e ser humano, teve uma condução infinitamente superada em relação à palhaçada, à molecagem, à truanice de Carlos “Wizard” Martins. Este último passa à posteridade como uma vergonha, uma desgraça, uma lástima para esposa e filhos – se estes tiverem caráter e discernimento, é claro.
Vendo seu papel, hoje, na CPI da Covid, não há quem o prefira em relação a Lázaro Barbosa. Se um Pôncio Pilatos contemporâneo juntasse o povo na praça, amanhã, entregando à turba a escolha entre Lázaro e Wizard, a multidão pediria a soltura do primeiro. O silêncio pusilânime de Wizard elevou a desonra a um novo patamar e será uma cruz que ele terá de carregar para sempre, enquanto existir um homem de virtude que lembre do quão reles e vil ele foi, diante de um país inteiro, de mais de 200 milhões de pessoas. De todos os miseráveis que esta nação viu nascer, morrer ou apenas passar por suas terras, este é, sem dúvidas, o mais baixo de todos.
____________________ * Frota diz que mudou para centro-esquerda e pode votar em Lula contra Bolsonaro
Alexandre Frota vota no ex-presidente Lula contra Bolsonaro —mas, segundo sua assessoria, espera que surja uma terceira via para ter outra opção

247 - O deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) diz estar satisfeito ao se reposicionar, no espectro político, da direita para a centro-esquerda. “Ao longo da vida, a gente amadurece, reconhece alguns erros cometidos e procura se acertar”, afirmou o parlamentar à jornalista Mônica Bergamo, em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo.
“Eu acho que a parte social é fundamental, coisa que eu não enxergo na direita. Não tem esse olhar para o próximo, estender a mão para aquele que precisa. Eu estou muito feliz assim.”
Segundo a jornalista, a revelação foi feita durante reunião sobre o superpedido de impeachment contra Jair Bolsonaro (sem partido), protocolado na quarta (30). Frota corrigiu sua colega Joice Hasselmann (PSL-SP) ao ser identificado por ela como alguém de direita —e surpreendeu a todos.
Frota vota em Lula contra Bolsonaro —mas, segundo sua assessoria, espera que surja uma terceira via para ter outra opção.
____________________ * Xi Jinping defende firme adesão à liderança do Partido Comunista da China
Xi Jinping, secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh), proferiu um importante discurso em uma cerimônia de celebração do centenário da fundação da organização política dirigente do povo chinês

Rádio Internacional da China - Em seu discurso nesta quinta-feira (1º/7), durante a comemoração do centenário do Partido Comunista da China (PCCh), o secretário-geral do Partido, Xi Jinping, enfatizou que nos últimos cem anos esse Partido levou adiante o grande espírito fundador, construiu a genealogia espiritual dos comunistas e refinou um caráter político distinto, que deve ser sempre herdado e levado adiante.
Ele apontou que a fonte do espírito do Partido é defender a verdade e os ideais, se manter fiel à aspiração original e à missão, lutar corajosamente sem medo de sacrifícios e permanecer leal ao Partido e fiel ao povo.
O líder chinês disse ainda que os membros do PCCh, que têm o camarada Mao Zedong, o camarada Deng Xiaoping, o camarada Jiang Zemin e o camarada Hu Jintao como representantes, estabeleceram um mérito histórico para a grande revitalização da nação chinesa. Xi Jinping prestou uma alta homenagem a eles e também as lembranças profundas à velha geração de revolucionários e mártires que deram grandes contribuições para a revolução, construção e reforma da China e para o estabelecimento, consolidação e desenvolvimento do PCCh, bem como aqueles que lutaram tenazmente pela independência nacional e pela libertação do povo desde os tempos modernos.
Em nome do Comitê Central do PCCh, Xi Jinping, também prestou alta homenagem ao povo chinês, cumprimentou sinceramente os compatriotas de Hong Kong, Macau e Taiwan, e expressou sincera gratidão a todos os povos e amigos de vários países que são corteses com o povo chinês e se preocupam e apoiam a causa da revolução, construção e reforma da China.
Xi Jinping salientou que, sem o Partido Comunista da China, não haveria uma nova China e não haveria uma grande revitalização da nação chinesa. A história e o povo escolheram o PCCh e a forte liderança do Partido deve ser mantida.
____________________ * Merval Pereira diz que "é evidente que Bolsonaro prevaricou"
O articulista do Globo diz que é difícil desvincular Bolsonaro do escândalo das vacinas

247 - "A bagunça do governo federal vai sendo revelada a cada momento. A mais recente denúncia sobre a tentativa de propina na compra de vacinas é impressionante", escreve Merval Pereira.
Para ele, a demissão de Roberto Dias "é sinal de que estão querendo se livrar das pessoas e dos problemas".
O colunista do Globo opina que há "uma indústria de propinas para compra de insumos médicos dentro do ministério da Saúde, que precisa sofrer uma ampla devassa".
Há um esforço para tirar Bolsonaro da história, mas diante do que está sendo revelado, é difícil tirar Bolsonaro disso, escreve Merval. “Se ele recebeu a denúncia e não fez nada, e ao contrário, manteve Ricardo Barros na liderança do governo e nomeou a mulher dele em Itaipu, é evidente que, no mínimo, ele prevaricou”.
____________________ * Será difícil mostrar a lisura dos contratos da Saúde ____________________ * Os rastros | Merval Pereira
Por Merval Pereira
O superpedido de impeachment, entregue ontem por um grupo suprapartidário de parlamentares, não terá o condão de convencer o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mas coloca mais pressão sobre o presidente Jair Bolsonaro. As manifestações de rua devem recrudescer à medida que a CPI da Covid for evoluindo.
O silêncio comprometedor do empresário Carlos Wizard ontem na CPI demonstra que ele tem muito o que esconder. A permissão do Supremo para que ficasse calado se referia às perguntas que pudessem fazê-lo incriminar-se. Como se recusou a responder a todas as perguntas, vê-se que qualquer passo em falso poderia tê-lo prejudicado.
(Um parêntese para chamar a atenção, mais uma vez, para a atitude arrogante e prepotente do senador Otto Alencar, que exorbita de seus poderes de xerife na CPI. A possibilidade, embora remota, de vir a ser aventado como candidato à Presidência da República por seu sucesso midiático parece que lhe subiu à cabeça).
Voltando ao caso em si, a narrativa desconexa do governo sobre a compra da vacina Covaxin, cujo contrato foi suspenso três meses depois da primeira denúncia de irregularidade (que, segundo a primeira versão, não existia), é a prova evidente de que não há caminho fácil para demonstrar a lisura dos contratos do Ministério da Saúde.
A mais recente denúncia sobre a tentativa de propina na compra de vacina é impressionante. Mais de 250 mil mortes, e um funcionário público negociava US$ 1 por dose de um contrato de compra de 400 milhões de vacinas AstraZeneca. Desta vez, o governo foi rápido, demitiu imediatamente o servidor, diferentemente da primeira denúncia, que até agora tenta negar.
Sinal de que estão querendo se livrar das pessoas que podem trazer mais problemas, mas não conseguem se livrar de outras, como o deputado Ricardo Barros, que já avisou que sabe se defender. O caso é muito mais grave, pois mostra que há uma indústria de propinas para a compra de insumos médicos dentro do Ministério da Saúde, que precisa sofrer uma ampla devassa.
Pelo visto, a passagem do deputado Ricardo Barros por lá deixou rastros difíceis de apagar. Todos os servidores envolvidos nessas falcatruas foram nomeados no tempo dele e, pela denúncia de diversas pessoas, montaram um esquema que viu a chance de ganhar muito dinheiro com a pandemia.
As explicações que o governo vai dando são ridículas, e o papel do senador Fernando Bezerra para defender o presidente é lamentável. Como é possível sustentar uma versão tão frágil quanto a que ele apresentou, e em seguida o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello confirmou?
Se houve uma investigação, teriam tido tempo para investigar corretamente uma denúncia de fraude num contrato de R$ 1,6 bilhão em tão pouco tempo? Claro que não. Pazuello ficou um dia no cargo depois do suposto pedido do presidente para averiguar, e seu sub, o coronel Elcio Franco, mais três ou quatro. A maior prova é a primeira reação pública do governo, quando o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, chorou, clamou pela justiça divina e disse que o documento apresentado pelo deputado Luis Miranda havia sido falsificado.
Tivesse havido uma investigação, ele saberia que o documento de compra não só não era fraudado, como estava no site do ministério. Além disso, o responsável pela suposta investigação, o coronel Elcio, estava a seu lado e não deu uma palavra sobre essa investigação que ele teria feito, mas que, na verdade, é uma estratégia para tentar evitar que o presidente Bolsonaro seja acusado de prevaricação.
Há um esforço para tirar o presidente da história, mas não há um só documento que prove que a investigação realmente foi pedida e realizada. Diante do que vem sendo revelado, é difícil tirar Bolsonaro disso. Se ele recebeu a denúncia e não fez nada — e, ao contrário, manteve Ricardo Barros na liderança do governo e nomeou a mulher dele para o conselho de Itaipu—, é evidente que, no mínimo, prevaricou.
____________________ * Augusto Nunes diz que Bolsonaro foi mais perseguido do que Getúlio Vargas (vídeo)
Um dos maiores defensores do bolsonarismo na mídia, Augusto Nunes criticou o superpedido de impeachment e a cobertura da imprensa corporativa dada a Jair Bolsonaro, ignorando as denúncias de corrupção e as mais de 518 mil mortes pela covid

247 - O jornalista Augusto Nunes, um dos maiores defensores do bolsonarismno na imprensa, criticou o superpedido de impeachment de Jair Bolsonaro, protocolado nesta quarta-feira (30) na Câmara por vários partidos de oposição, movimentos sociais e organizações da sociedade.
Durante participação em programa da rádio Jovem Pan, Augusto Nunes afirmou que Bolsonaro foi "mais perseguido" do que o presidente Getúlio Vargas, ao criticar a cobertura dada pela imprensa corporativa a Bolsonaro.
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