_______________ * Brasil NÃO PODE ser SUBMETIDO à CHANTAGEM PERMANENTE dos MILITARES - Paulo Pimenta _______________ * A ASCENSÃO GLOBAL do TerraPLANISMO: COMO chegamos AQUI ? - Rodrigo Quinan
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_______________ * Brasil NÃO PODE ser SUBMETIDO à CHANTAGEM PERMANENTE dos MILITARES - Paulo Pimenta
_______________ * A ASCENSÃO GLOBAL do TERRAPLANISMO: COMO chegamos AQUI ? - Rodrigo Quinan
_______________ * Classe C vai perder R$ 10 BI-LHÕES por ano com Reforma Tributária
_______________ * Guedes vai dar facada de R$ 10 bilhões na classe C, avisa Miriam Leitão
_______________ * Ministros militares DESVIRTUAM o SENTIDO do Ministério da Defesa
_______________ * O caminho da CPI para chegar à família Bolsonaro | Bela Megale - O Globo
_______________ * Armínio Fraga vê instituições ameaçadas e defende impeachment de Jair Bolsonaro
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_______________ * Classe C vai perder R$ 10 BI-LHÕES por ano com Reforma Tributária
Por Míriam Leitão

A proposta de reforma tributária vai tirar R$ 10 bilhões por ano da classe C. A afirmação é do ex-secretário da Receita Everardo Maciel, ao analisar o projeto da mudança no Imposto de Renda. O deputado Celso Sabino (PSDB-PA) melhorou vários pontos da reforma, na avaliação de economistas e do mercado financeiro, mas esse ponto que atinge uma parcela dos contribuintes da classe média não foi retirado. “Cortar as unhas do demônio não o transforma em anjo não”, diz Maciel, que discorda das mudanças, mesmo na versão do substitutivo:
— O desconto padrão pode ser usado por qualquer um, mas ele é mais vantajoso para quem ganha até R$ 83.777 por ano. Agora, a faixa entre R$ 40 mil e R$ 83 mil não poderá fazer o desconto padrão. Se eles fazem hoje é porque é a melhor opção, então todos nesse grupo terão aumento de carga. Quem é essa faixa? O IBGE a classifica como classe C. O projeto tira R$ 10 bi da classe C e acaba com o vale-alimentação.
Esse é de fato o pior defeito do projeto. Ele saiu do governo tão feio que foi imediatamente abandonado. Ontem, em live no “Valor”, o ministro Paulo Guedes se comportou como se não tivesse saído da equipe dele, e com a sua chancela, o projeto que agora o Congresso tenta consertar. “Tinha coisa que estava guardada no armário aqui há 10 anos, esperando a hora de ser usada. Aí foram lá e jogaram. Nós removemos.” Essa é uma versão delirante dos fatos. O Ministério da Economia colocou os erros no projeto e o ministro é o responsável.
Sabino defende a manutenção da limitação da declaração simplificada, que vai atingir a classe média, porque diz que só afetará mesmo quem não tiver filho, INSS, plano de saúde para descontar. O fato é que se a Receita prevê arrecadação extra de R$ 10 bi com essa medida é porque há aumento da carga para esse grupo.
Everardo Maciel discorda da taxação de dividendos, que, no entanto, o mercado já está aceitando. Maciel explica que, na sua visão, já existe essa taxação na prática:
— Dividendo é tributado na empresa. Quando você investe numa empresa espera retorno, porque é investimento e não doação. Esse retorno é traduzido em dividendo. É a materialização do retorno que já é tributado na Pessoa Jurídica. Pode-se tributar só na empresa, só na distribuição ou nos dois. Quando o Brasil tributava dividendo, surgiu uma coisa difícil de fiscalizar que era a distribuição disfarçada de lucro.
Isso acontece quando as contas pessoais dos sócios são pagas pela empresa, e de forma disfarçada está se fazendo distribuição de lucro. Fiscalizar isso é uma trabalheira. Maciel acha também que na prática acaba o lucro presumido, porque essa empresa terá que pagar dividendo. Ele acha injusto pela comparação entre as duas formas de pagamento de imposto, mas o lucro presumido tem duas vantagens: simplicidade e segurança jurídica.
— No lucro real, você não paga se der prejuízo. No presumido, paga de qualquer jeito. O que for prejuízo vira crédito no lucro real. No presumido, nada pode ser compensado. No lucro real pode ter incentivo fiscal, no presumido, não. E por que muita gente escolhe o presumido? Porque é simples e não tem litígio. Todos os litígios hoje estão no lucro real — explicou.
No mercado financeiro há muita gente aliviada depois do substitutivo de Sabino, porque “muitos bodes saíram da sala”, como me disse um operador. O maior bode saiu com a forte redução do IRPJ. Na versão do governo haveria um brutal aumento de carga tributária. Agora, o relator falou em perda de R$ 30 bilhões de arrecadação. Isso, por outro lado, acendeu a luz amarela entre os economistas fiscalistas. Como aceitar um rombo no orçamento já do ano que vem, que está em discussão no Congresso?
Na conta de Everardo a carga aumenta para as empresas.
— Uma empresa no lucro real paga hoje 34%. Baixa a alíquota padrão de 15% para 2,5%. Tem o adicional de 10% e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido de 9%. Já deu 21,5%. Sobraram 78,5% depois do pagamento de impostos. Pega isso e distribui de lucro, aplica a alíquota de 20%, aí dá 15,7% que somado ao 21,5% dá 37,2%. Isso é mais do que 34% — diz o ex-secretário.
O relator fez um esforço para falar com o máximo de gente possível e tirou alguns pontos bem controversos do projeto, mas não todos. Ele tentou consertar a proposta desequilibrada que saiu do Executivo. A grande dúvida é como o Ministério da Economia errou no seu core business. Nada é mais fazendário do que a estrutura de impostos. Ontem, Paulo Guedes admitiu ter errado na “dosimetria”. Não foi apenas isso. Errou redondamente.
_______________ * Guedes vai dar facada de R$ 10 bilhões na classe C, avisa Miriam Leitão

247 – "A proposta de reforma tributária vai tirar R$ 10 bilhões por ano da classe C. A afirmação é do ex-secretário da Receita Everardo Maciel, ao analisar o projeto da mudança no Imposto de Renda. O deputado Celso Sabino (PSDB-PA) melhorou vários pontos da reforma, na avaliação de economistas e do mercado financeiro, mas esse ponto que atinge uma parcela dos contribuintes da classe média não foi retirado", informa a jornalista Miriam Leitão, em sua coluna no Globo,
"O desconto padrão pode ser usado por qualquer um, mas ele é mais vantajoso para quem ganha até R$ 83.777 por ano. Agora, a faixa entre R$ 40 mil e R$ 83 mil não poderá fazer o desconto padrão. Se eles fazem hoje é porque é a melhor opção, então todos nesse grupo terão aumento de carga. Quem é essa faixa? O IBGE a classifica como classe C. O projeto tira R$ 10 bi da classe C e acaba com o vale-alimentação", explica Everardo Maciel.
Guedes vai dar facada de
R$ 10 BI-LHÕES na classe C, avisa Miriam Leitão
Classe C vai perder R$ 10 BI-LHÕES por ano com Reforma Tributária
Guedes vai dar facada de R$ 10 BI-LHÕES na classe C, avisa Miriam Leitão
Classe C vai perder R$ 10 BI-LHÕES por ano com Reforma Tributária
Bem-feito! Quem mandou dar o fiofó pro inimigo? NÃO foi por falta de AVISO.

Paulo Guedes AMACIA os SUPER-RICOS ___________________ e baixa o cacete na classe média baixa.
Os POBRES de DIREITA fizeram por MERECER isso daí ao votar no capetão BUNDA-SUJA.
REDONDAMENTE.
_______________ * Ministros militares DESVIRTUAM o SENTIDO do Ministério da Defesa
A aventada convocação do ministro da Defesa, general Braga Netto, para depor na CPI da Covid não deveria, mas pode causar mais atrito entre as Forças Armadas e o Senado. Os militares estão muito suscetíveis porque militarizaram o Ministério da Saúde, que está tendo problemas com corrupção. Foi um erro participarem do governo neste nível. Bolsonaro é o principal incentivador dessa participação e recentemente mudou a legislação para permitir que militares da ativa possam participar de governos sem limite de tempo. Antes, o Estatuto dos Militares exigia que fossem para a reserva depois de dois anos em cargos civis.
Braga Netto, por exemplo, assumiu o cargo de chefe do Gabinete Civil e participou de negociações políticas nessa condição, não como ministro da Defesa. Se um general da ativa, como Pazuello, pode depor na CPI da Covid por ter sido ministro da Saúde, por que Braga Netto não poderia?
É verdade que, na época, quando Pazuello foi chamado a depor na CPI sobre sua gestão na Saúde, ele ameaçou comparecer fardado, numa clara tentativa de constranger seus inquisidores. Não era o general da ativa que estava sendo convocado, assim como não é o ministro da Defesa no caso de Braga Netto.
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que não permite que militares da ativa permaneçam em funções civis sem se afastar de suas atividades militares, ou os obriga a ir para a reserva no caso dos que têm mais de dez anos de serviço — como Pazuello —, foi considerada por ex-ministros da Defesa como um avanço institucional.
O interessante é que todos os ex-ministros que assinaram a nota de apoio são civis — Aldo Rebelo, Celso Amorim, Jaques Wagner, Nelson Jobim e Raul Jungmann —, o que traz à lembrança um dos pontos capitais da criação do Ministério da Defesa: submeter os militares ao poder civil, não para desmerecê-los, mas para fortalecer a democracia.
A intenção do então presidente Fernando Henrique ao criar esse ministério foi reafirmar “uma política democrática e inteligente”. Foi Michel Temer quem nomeou o primeiro militar para a pasta da Defesa, o general Joaquim Silva e Luna, hoje presidente da Petrobras. No governo Bolsonaro, somente militares ocuparam o cargo, distorcendo o sentido do ministério. Essa submissão ao poder civil não significa desapreço pelos militares. Ao contrário, significa isolá-los de ações políticas para que possam cuidar de suas Forças.
Os comandantes das três Forças Armadas continuam sendo personagens fundamentais na construção de uma nação democrática, e a Constituição mantém seus papéis de garantidores da “defesa da Pátria”, dos “poderes constitucionais” e “da lei e da ordem”, quando acionados por um dos três Poderes da República. O presidente Bolsonaro teima em misturar as funções e deu curso a uma interpretação do artigo 142 que permitiria, nessa visão, uma intervenção militar. Foi desmentido cabalmente pelo Supremo Tribunal Federal.
O estado de saúde do presidente apanhou-o em momento difícil de pressão política, devido principalmente à CPI da Covid. Bolsonaro está muito preocupado com a queda de popularidade, especialmente por causa das revelações de corrupção, incompetência e outras irregularidades no Ministério da Saúde. E está certo de que, no final, será acusado formalmente de prevaricação e culpado pela morte de milhares de brasileiros.
Internado às pressas, Bolsonaro não se descuidou de politizar a própria doença. Colocou no Twitter uma foto no hospital, cheio de fios de eletrocardiograma e um tubo de oxigênio no nariz, e relembrou que estava naquela situação devido à facada que recebeu, fazendo questão de repetir a versão de que o atentado foi praticado por um antigo filiado do PSOL, “o braço esquerdo do PT”.
Em que pesem a ameaça do ato para a democracia e a gravidade das sequelas deixadas no corpo de Bolsonaro, diversas investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal descartaram que Adélio Bispo fizesse parte de uma conspiração política. Médicos o consideraram desequilibrado mental.
_______________ * O caminho da CPI para chegar à família Bolsonaro | Bela Megale - O Globo

As perguntas do relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL) já dão a senha. Senadores da comissão traçaram uma estratégia para tentar chegar ao presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, em especial o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), por meio das empresas envolvidas na investigação. Além disso, entraram na mira da CPI nomes próximos ao clã, como o do advogado Frederic Wassef. O grupo suspeita que Wassef e outras pessoas ligadas aos Bolsonaro podem ser o elo entre essas companhias e a família do presidente.
Hoje um dos principais focos da CPI é se debruçar sobre as quebras de sigilo da Precisa Medicamentos e das organizações sociais que atuam em hospitais do Rio de Janeiro. O objetivo é encontrar, em meio a esses dados, conexões com o clã Bolsonaro. Para isso, os senadores avaliam, inclusive, usar as duas semanas do recesso parlamentar para fazer diligências no Paraguai e no Rio de Janeiro.
A ação no país vizinho envolveria uma companhia que teve relação com a Precisa e a negociação da vacina Covaxin. Já no Rio, as medidas focariam as organizações sociais listadas pelo ex-governador Wilson Witzel e que, segundo ele, têm relação direta com Flávio.
Os parlamentares também planejam pedir as quebras de sigilo de Wassef, advogado de Flávio Bolsonaro. Hoje, porém, a avaliação é de que a comissão não tem elementos para embasar a solicitação. Os senadores acreditam que informações provenientes das empresas podem trazer elementos que justifiquem medidas relacionadas a Wassef. No mês passado, o advogado foi ao Senado no dia do depoimento dos irmãos Miranda, que denunciaram o caso Covaxin. A presença dele foi interpretada como uma tentativa de intimidação por parte dos senadores.
Os parlamentares também querem saber mais sobre as conexões entre Flávio Bolsonaro e a Precisa. Como informou a revista “Veja”, Flávio chegou a intermediar um encontro do dono da empresa, Francisco Maximiano, com representantes do BNDES. Segundo o senador, a reunião era para tratar de empréstimo envolvendo outra companhia do empresário que trabalha com instalação de fibra óptica no Nordeste. A justificativa não convenceu boa parte dos senadores.
_______________ * Armínio Fraga vê instituições ameaçadas e defende impeachment de Jair Bolsonaro

247 – O economista Armínio Fraga, que presidiu o Banco Central durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, defendeu o impeachment de Jair Bolsonaro, em entrevista concedida ao jornal Valor Econômico. "Alguns dizem que não é bom fazer impeachment de presidente toda hora. Tenho uma posição diferente. Para mim, o que não é bom é termos presidentes acusados de crime de responsabilidade a toda hora. Vamos amadurecer encarando esses assuntos, e não enterrando eles. Para mim é uma questão de princípio. Posso estar sendo ingênuo, mas o fato é que eu não teria medo do processo. Espero que encaremos isso com firmeza. As instituições estão ameaçadas e precisam se defender", afirmou aos jornalistas César Felício e Lucinda Pinto.
"As lições desse século que dizem respeito à democracia mostram que ela não morre de infarto fulminante.
Vai morrendo aos poucos.
A qualidade e a forma do debate importam.
Isso tudo vai corroendo a democracia.
A sensação que se tem é que a ameaça é real", ponderou ainda Armínio.
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Brasil não pode ser submetido à chantagem permanente dos militares - Paulo Pimenta
Por Paulo Pimenta

As Forças Armadas começam a colher os frutos amargos de sua adesão ao projeto neofascista encarnado por Bolsonaro.
Foram precedidos pelos doces benefícios salariais, previdenciários e aqueles expressos nos números no orçamento destinado às corporações. Além, é claro, do breve momento de prestígio, para alguns generais apoiadores, por terem retornado ao poder pelo voto.
O fato de o adversário principal ter sido arbitrariamente afastado da disputa foi apenas um detalhe.
Agora, a velocidade dos meios digitais contemporâneos de informação e os mecanismos institucionais de controle da própria democracia liberal, especificamente a CPI da Covid, no Senado, batem à porta para entregar os frutos amargos da promiscuidade com o submundo das milícias, das quadrilhas de vendedores de vacinas e oportunidades de negócios individuais.
A maior parte da sociedade brasileira está estupefata com a adesão militar ao discurso obscurantista da extrema-direita mais tosca, com a completa renúncia a um projeto nacional de desenvolvimento e subserviência a um psicopata escatológico, subproduto dos porões da ditadura que protagonizaram entre 1964 e 1985.
Aventura neofascista
A opção por embarcar na aventura neofascista liderada por Bolsonaro, alojando milhares de oficiais, muitos deles da ativa, em espaços da administração pública civil, cobra um preço elevado das instituições que, por definição constitucional, são instituições nacionais permanentes, de Estado e não de governos que se renovam a cada quatro anos.
Os recém-chegados do ambiente de casta que é prevalecente na caserna e que se percebem acima da sociedade dos paisanos apresentam dificuldade para entender e aceitar que ninguém está acima das normas, nem isento da fiscalização dos órgãos de controle, como o Parlamento (CPI), Tribunal de Contas da União, Polícia Federal e o Ministério Público Federal.
Banda podre das Forças Armadas
Os democratas brasileiros devem reconhecimento ao general Santos Cruz por seu corajoso posicionamento crítico ao governo Bolsonaro, desde que foi afastado da Secretaria de Governo, em 13 de junho de 2019.
Lamento, porém, contrariar sua excelência quando afirma que “não existe banda podre nas Forças Armadas“.
Os fatos revelados à CPI nos depoimentos mais recentes estão expondo não apenas a existência, mas o curso da ação da “banda podre” das Forças Armadas no Ministério da Saúde.
Os fatos não foram contestados até o momento, seja na nota assinada pelo ministro da Defesa, general Braga Netto, e pelos comandantes militares com o objetivo de intimidar a CPI, e assim proteger eventuais criminosos fardados, seja ainda nos atentados semanais do presidente da República contra a Constituição e a democracia.
A nota assinada pelos militares fere frontalmente a legalidade democrática que prescreve a subordinação das Forças Armadas ao poder civil e veda pronunciamentos públicos de militares da ativa sobre temas políticos.
O ministro da Defesa e os comandantes concluem a nota tomando-se a si mesmos como instituições que defendem a democracia: “As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”.
Militares e golpes
Convenhamos, qualquer aluno de curso médio interessado na história do Brasil saberá que, desde a proclamação da República, nenhum atentado à democracia e à liberdade do povo brasileiro – e eles não foram poucos – ocorreu sem a participação explícita ou indireta das Forças Armadas.
A nota dos comandantes atenta contra princípios basilares como a hierarquia.
É, portanto, por todos os títulos, inaceitável, por se constituir numa chantagem contra a sociedade brasileira.
O famoso tuíte do general Villas-Boas endereçado ao STF, em 2018, não pode servir de exemplo e fazer escola nas relações entre o braço armado do Estado – as Forças Armadas – e as instituições, num regime que se pretende democrático.
A nação não pode permanecer permanentemente submetida à chantagem.
Está inscrito no Art. 142 da Constituição Federal de 1988 – “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República e destinam-se à defesa da pátria, à garantia dos poderes institucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei da ordem”.
As Forças Armadas, portanto, não podem nem devem ameaçar os poderes republicanos que deveriam proteger.
Seria mais útil para o fortalecimento das próprias corporações punir exemplarmente um general da ativa, exibido como um símbolo da transgressão da disciplina num palanque de campanha política, do que dar-lhe um tapinha nas costas e acobertá-lo com um carimbo de 100 anos de silêncio.
O general Góis Monteiro, uma das mais expressivas e poderosas personalidades do Exército brasileiro na primeira metade do século XX, insuspeito de má vontade com relação à corporação que ajudou a modelar, fez num comentário sobre certo momento de turbulência da vida nacional: “a revolução paulista (de 1932) trouxe essa consequência boa: restabeleceu a disciplina no Exército, que estava, realmente, ao sabor das conveniências de alguns elementos agitadores e exploradores da farda.”
Um convite à reflexão para os comandantes embalados pelo ímpeto de autoproteção corporativa que acaba por erguer um escudo em defesa do indefensável.
Droga no avião
Alguém se lembra do teor da nota dos comandantes das Forças Armadas quando um sargento da Aeronáutica foi flagrado com 39 kg de cocaína num avião da FAB que compunha a comitiva presidencial numa viagem oficial ao exterior?
Não. Porque não lançaram nenhuma nota, nenhuma explicação.
Então, para quem deseja contribuir com a estabilidade política do País, num momento tão grave como o que vivemos, convém moderar o impulso corporativo e cultivar mais apreço pelas instituições democráticas.
Se o presidente escatológico se evadiu para seu universo paralelo e imagina que o País é apenas o cercadinho montado em frente ao Palácio da Alvorada, os dirigentes das Forças Armadas não podem marchar sobre seus passos na mesma toada. Pois correm o risco de ver as instituições que comandam confundidas com a conduta vexaminosa que o ex-capitão protagoniza.
O Brasil não pode ir a lugar nenhum e se ver respeitado como uma nação enquanto for formalmente dirigido por um personagem grotesco que poderia resumir seu governo com uma frase: “vou ali ao banheiro dar uma declaração…”
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Randolfe Rodrigues: TODA a CADEIA de COMANDO do Ministério da Saúde teve contato com a FRAUDE 9

247 com Agência Senado - O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), alertou para uma rede paralela de comércio de vacinas no Ministério da Saúde, com após questionamentos ao vendedor Cristiano Carvalho, representante da empresa Davati no Brasil.
Em depoimento à CPI, Cristiano Carvalho disse que a Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), ONG presidida pelo reverendo Amilton Gomes, utilizou o Instituto Força Brasil como “intermediário” para chegar ao alto escalão do Ministério da Saúde. "O Instituto Força Brasil foi o braço que a Senah utilizou para chegar frente a frente com Élcio Franco", afirmou Cristiano.
"O que o senhor Cristiano traz aqui é gravíssimo. Toda cadeia de comando do Ministério da Saúde teve contato com esta fraude. Pode inclusive ter sido encaminhado um processo de aquisição por um golpe paralelo, uma ação de golpe paralela à que estava ocorrendo. Mais do que isso, as duas intermediadoras, Semar e Instituto Força Brasil tiveram contato direto com a base de apoio do governo Bolsonaro", afirmou Randolfe Rodrigues. Segundo Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o Instituto Força Brasil patrocina redes que divulgam fake news sobre o enfrentamento à pandemia.
Cristiano Carvalho relatou também à CPI que, no dia 12 de março, quando esteve no Ministério da Saúde, comunicou ao então secretário-executivo Elcio Franco que já vinha negociando as vacinas com o então diretor do Departamento de Logística, Roberto Dias. Entretanto, Franco, que era a maior autoridade da pasta depois do ministro Eduardo Pazuello, desconhecia tal fato, disse Carvalho.
Após questionamentos de Humberto Costa (PT-PE), Cristiano Carvalho informou que outra oferta de compra de vacinas por meio da Davati foi registrada em 9 de março diretamente ao então ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Segundo o vendedor, o processo foi registrado no ministério por um representante chamado Júlio Adriano Caron, coincidindo com o mesmo período em que Cristiano e Dominguetti tentavam vender 400 milhões de doses da AstraZeneca à pasta.
Cristiano Carvalho apontou o tenente-coronel Marcelo Blanco, ex-diretor-substituto de Logística do Ministério da Saúde, como elo importante entre a Davati e a pasta. Ele disse que Blanco teria continuado a exercer influência sobre o diretor de Logística, Roberto Dias, mesmo depois de deixar o cargo, como um "assessor oficioso". Segundo Carvalho, Blanco chegou a ele no dia 1º de março e se apresentou como um funcionário "recentemente exonerado" da Saúde que teria passado a trabalhar como representante de vendas de insumos hospitalares, com negócios no Ministério.
Carvalho disse que não chegou a acertar com Blanco nenhum valor de comissionamento pela venda de vacinas à Saúde, mas informou ao tenente-coronel que a empresa ficaria com 20 centavos de dólar por dose de vacina. Munido dessa informação, Blanco teria respondido que levaria o assunto a Roberto Dias.
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Jones Manoel vai processar Mario Frias: “não podemos perder a capacidade de indignação”

247 - O professor e historiador Jones Manoel afirmou que irá processar o secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, Mario Frias, após ter sido alvo de um comentário racista de Frias no Twitter.
Ao comentar uma postagem de Jones de que já havia comprado fogos diante da notícia de que Jair Bolsonaro havia sido transferido de Brasília para São Paulo, o secretário escreveu: “Realmente eu não sei. Mas se eu soubesse diria que ele precisa de um bom banho”.
“Tenho uma reunião ainda hoje com advogados do partido que integro, o PCB [Partido Comunista Brasileiro] para traçar uma estratégia judicial. Prestaremos queixa e entraremos com um processo contra o secretário”, disse Jones em entrevista à página Splash, do UOL. “Não podemos perder a capacidade de indignação, mas não fiquei surpreso”, comentou o militante e youtuber comunista.
Depois da publicação racista de Mario Frias, o Twitter puniu o secretário, deletando sua postagem. E diversas pessoas foram às redes em solidariedade a Jones Manoel.
“O que chama a atenção é que no Brasil existe um discurso —que considero equivocado — de polarização. O que existe é um esgoto fascista, e por consequência racista, que veio a público e quer lutar pelo 'direito' de ser racista na esfera pública. O Mario Frias faz parte disso. Ele integra um governo racista”, disse ainda Jones Manoel na entrevista.
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Aziz exige demissão do coronel Elcio Franco da Casa Civil: 'Um cidadão como ele não pode estar na antessala do presidente'

247 - O presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), exigiu nesta quinta-feira (15), a exoneração de Elcio Franco, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, hoje assessor especial da Casa Civil, lotado no gabinete da Presidência da República. Ele exigiu a demissão depois de o representante da Davati Cristiano Carvalho afirmar que se reuniu com o coronel Elcio Franco para negociar imunizantes que não existiam.
“Estamos discutindo algo muito mais grave. Que a Davati não tem uma vacina para vender nós já sabemos. O coronel Elcio Franco ainda está no gabinete do presidente. Ele não está mais no ministério, não. Ele está lá no gabinete do presidente. Um cidadão como Elcio Franco não pode estar mais na antessala do presidente”.
Aziz defendeu ainda que “não se pode passar a mão na cabeça de uma pessoa que negociou vacina fantasma.”
Em seu depoimento, Carvalho confirmou que houve pedido de propina para as negociações envolvendo doses da vacina Astrazeneca. "Mas não se falava de propina. Falava-se de comissionamento. Quem pediu foi o grupo do Blanco", afirmou.
O senador Rogério Carvalho (PT-SE) trouxe à tona durante a sessão a lista de militares citados até o momento, todos coronéis do Exército: “tem o coronel Boechat, que era coordenador de Planejamento do Ministério da Saúde, coronel Guerra, coronel Blanco, Elcio Franco, agora Hélcio Bruno… ou seja, temos uma associação de vários coronéis em torno dessa operação tabajara”.
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Digam alô ao diplo-Talibã - Pepe Escobar

Por Pepe Escobar, para o Asia Times
Tradução de Patricia Zimbres, para o 247
Uma reunião muito importante e praticamente secreta teve lugar em Moscou, na semana passada. Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança russo, recebeu Hamdullah Mohib, consultor de segurança nacional do Afeganistão.
Não houve vazamentos significativos. Uma declaração bastante branda apontou o óbvio: Eles "focaram na situação de segurança no Afeganistão durante a retirada dos contingentes militares ocidentais e a escalada da situação militar-política na região norte do país".
A história real é muito mais nuançada. Mohib, representando o tão criticado Presidente Ashraf Ghani, fez todo o possível para convencer Patrushev de que o governo de Cabul representa a estabilidade. Isso não é verdade, como demonstraram os avanços subsequentes do Talibã.
Patrushev sabia que Moscou não poderia oferecer qualquer apoio significativo ao atual sistema de Cabul porque isso queimaria as pontes que os russos teriam que cruzar no processo de engajar o Talibã. Patrushev sabe que a permanência da Equipe Ghani no poder seria absolutamente inaceitável para o Talibã - qualquer que venha a ser a configuração de um futuro acordo de divisão do poder.
Por essa razão, Patrushev, segundo fontes diplomáticas, decididamente não se deixou impressionar.
Nesta semana, conseguimos entender por quê. Uma delegação do setor político do Talibã foi a Moscou principalmente para discutir com os russos a rápida evolução do mini-tabuleiro de xadrez do norte do Afeganistão. O Talibã já havia estado em Moscou quatro meses antes, para debater com troika ampliada (Rússia, Estados Unidos, China e Paquistão) a nova equação do poder afegão.
Nesta viagem mais recente, eles garantiram enfaticamente a seus interlocutores que o Talibã não tem qualquer interesse em invadir o território de seus vizinhos da Ásia Central.
Não seria exagero, tendo em vista o quanto eles vêm sendo hábeis no jogo político, chamar o Talibã de raposas do deserto. Eles entenderam perfeitamente bem o que o Chanceler Sergey Lavrov vem repetindo: qualquer turbulência vinda do Afeganistão será recebida com uma reação direta partindo da Organização do Tratado de Segurança Coletiva.
Além de enfatizar que a retirada dos Estados Unidos - que na verdade é um reposicionamento - representa o fracasso de sua "missão" no Afeganistão, Lavrov tocou nos dois pontos realmente importantes:
- O Talibã vem aumentando sua influência nas áreas de fronteira do norte do Afeganistão e
- O fato de Cabul se recusar a formar um governo de transição vem "gerando uma solução beligerante" para uma situação já dramática. O que implica que Lavrov espera muito mais flexibilidade tanto de Cabul quanto do Afeganistão na sisífica tarefa de divisão de poder que ambos têm pela frente.
E então, aliviando a tensão, quando perguntado por um jornalista russo se Moscou irá enviar tropas ao Afeganistão, Lavrov transformou-se no Mr. Cool: "A resposta é óbvia".
Shaheen fala
Mohammad Suhail Shaheen é o articulado porta-voz do setor político do Talibã. Ele afirma categoricamente que "tomar o Afeganistão com força militar não é nossa política. Nossa política é encontrar uma solução política para a questão afegã, como vem ocorrendo em Doha". Resumindo: "Reconfirmamos, aqui em Moscou, nosso compromisso com uma solução política".
Isso é absolutamente correto. O Talibã não quer um banho de sangue. Eles querem ser aceitos. Como enfatizou Shaheen, seria fácil conquistar as maiores cidades - mas haveria derramamento de sangue. Nesse meio tempo, o Talibã já controlou praticamente toda a fronteira com Tajiquistão.
O Talibã de 2021 tem muito pouco em comum com sua encarnação terrorista do pré-guerra de 2001. O movimento evoluiu, de uma insurreição guerrilheira rural, em grande parte pashtun ghilzai, a um acordo mais inter-étnico, que inclui tajiques, uzbeques e até mesmo hazarasa xiitas – este último um grupo impiedosamente perseguido nos anos 1996-2001 pelo Talibã.
São raras as figuras confiáveis, mas 30% do Talibã, hoje, talvez seja formada por não-pashtuns. Um dos principais comandantes é um tajique étnico, o que explica a "brandura" da rapidíssima blitzkrieg no norte do Afeganistão, em território tajique.
Visitei muitos desses lugares geologicamente espetaculares em inícios da década de 2000. Os habitantes, todos primos entre si e de língua dari, estão hoje entregando suas aldeias e cidades ao Talibã tajique por uma questão de confiança. Muito poucos - ou talvez nenhum - pashtuns de Kandahar ou Jalalabad estão envolvidos, o que ilustra o absoluto fracasso do governo central de Cabul.
Os que não se juntam ao Talibã simplesmente desertam - como fizeram as tropas de Cabul que controlavam o posto de checagem próximo à ponte sobre o rio Pyanj, às margens da rodovia Pamir. Eles escaparam sem luta para território tajique, usando a própria rodovia Pamir. O Talibã hasteou sua bandeira sem disparar um único tiro.
O comandante do Exército Nacional Afegão, General Wali Mohammad Ahmadza, que acaba de assumir o cargo por nomeação de Ghani, tenta manter as aparências: a prioridade do ENA é proteger as principais cidades (até agora, tudo bem, porque o Talibã não está atacando nenhuma delas), a travessia de fronteiras (isso já não está indo tão bem) e as rodovias (com resultados mistos, até agora).
Essa entrevista com Suhail Shaheen é bastante esclarecedora – na medida em que ele se sente obrigado a ressaltar que "não temos acesso à mídia", lamentando a "injustificada" artilharia cerrada de propaganda disparada contra nós", o que implica que a mídia ocidental deveria admitir que o Talibã mudou.
Shaheen aponta que "não seria possível tomar 150 distritos em uma semana com luta", o que se conecta ao fato de que as forças de segurança "não confiam no governo de Cabul". Ele jura que em todos os distritos conquistados "as tropas vieram ao Talibã de forma voluntária".
Shaheen faz uma declaração que poderia ter vindo diretamente do Ronald Reagan de meados da década de 1980: O "Emirado Islâmico do Afeganistão" é o verdadeiro combatente pela liberdade". Isso pode se converter em objeto de infindáveis debates por todas as terras do Islã.
Mas um fato é inegável: O Talibã está se atendo ao acordo assinado com os Estados Unidos em 29 de fevereiro de 2020. O que implica uma total retirada norte-americana: "Se eles não cumprirem os compromissos assumidos, temos o claro direito de retaliação".
Antevendo o tempo "em que um governo islâmico estiver instalado", Shaheen insiste em que haverá "boas relações" com todos os países e que embaixadas e consulados não serão atacados.
O "objetivo do Talibã é claro: por fim à ocupação". O que nos leva à manobra esperta das tropas turcas incumbidas da "proteção" do aeroporto de Cabul. Shaheen é meridianamente claro: "Não haverá tropas da OTAN - o que significaria a continuidade da ocupação", proclama ele. "Quando tivermos um país islâmico independente, então assinaremos com a Turquia qualquer acordo que for mutuamente benéfico".
Shaheen participa das complicadíssimas negociações atualmente em curso em Doha, de modo que ele não pode se permitir assumir, em nome do Talibã, compromissos relativos a futuros acordos de divisão de poder". O que ele afirma, embora os avanços em Doha ocorram com muita lentidão, é que, ao contrário do que foi previamente noticiado pela mídia de Qatar, o Talibã não irá apresentar uma proposta formal por escrito a Cabul ao final do mês. As conversações continuam.
Ficando híbrido?
Digam o que disserem as negativas não-negativas de "Missão Cumprida" divulgadas pela Casa Branca, algumas coisas já estão claras no front da Eurásia.
Os russos, por um lado, já estão conversando detalhadamente com o Talibã, e é possível que logo venham a retirá-los de sua lista de organizações terroristas.
Os chineses, por outro, estão seguros de que, se o Talibã se comprometer a permitir o ingresso do Afeganistão na Iniciativa Cinturão e Rota, conectando-o ao Corredor Econômico China-Paquistão, o ISIS-Khorasan não terá permissão para intensificar sua atuação no Afeganistão, incentivados pelos jihadis uigur atualmente em Idlib.
E, quando se trata de sabotar a ICR, nada está fora de questão para Washington. Silos de importância crucial espalhados pelo Deep State já devem estar em funcionamento para substituir a guerra eterna do Afeganistão por uma guerra híbrida, como a da Síria.
Lavrov tem pleno conhecimento de que os mercadores de poder de Cabul não diriam "não" a um novo acerto de guerra híbrida. Mas o Talibã, por seu lado, vem sendo muito eficiente na tarefa de evitar que as diversas facções afegãs deem apoio à Equipe Ghani.
Quanto aos "istãos" da Ásia Central, nenhum deles quer guerras, nem eternas nem híbridas, num futuro próximo.
Apertem os cintos: a estrada é acidentada.
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A delação do general golpista da Bolívia que se acovardou - Moisés Mendes
Por Moisés Mendes

Por Moisés Mendes, para o Jornalistas pela Democracia
A sensação na imprensa e nas redes sociais bolivianas no momento é a lavação de farda suja dos militares que aplicaram o golpe em Evo Morales em novembro de 2019. Se prestarmos atenção no que acontece lá, poderemos prever o que pode acontecer aqui, se o blefe de Bolsonaro for levado adiante.
Relembremos antes que os ex-chefes das três armas estão presos em La paz. O general Jorge Mendieta, ex-comandante do Exército, foi encarcerado em março.
O também general Jorge Gonzalo Terceros Lara, ex-comandante da Força Aérea, e o vice-almirante Palmiro Gonzalo Jarjuri Rada, da Marinha, foram presos agora, no início de julho.
Os três caíram porque, depois da vitória dos golpeados na eleição do ano passado, subestimaram o Ministério Público e a Justiça e não fugiram. O único fardado que fugiu (e pode estar no Brasil) é o ex-chefe das Forças Armadas Williams Kaliman.
O general foragido é agora o alvo dos depoimentos e dos recados dos que estão presos. O que eles dizem é deduragem contra os ex-parceiros e funciona como uma delação, mesmo que não tenha sido formalizada.
Jorge Santistevan, advogado de Mendieta e Terceros, tem contado que os dois não tiveram participação na redação do manifesto dos chefes militares de 10 de novembro.
O documento, lido por Kaliman em vídeo depois transmitido pelo Twitter, sugeria que Morales deveria renunciar. Além dos generais Mendieta e Terceros, o almirante Flavio Arce San Martin, ex-chefe do Estado Maior, diz a mesma coisa.
Todos aparecem, fardados e em pose militar, na famosa cena da leitura do documento. No depoimento que deu como investigado por motim e pelo golpe, Tercero disse, a respeito da encenação: “Somente posei para a foto”.
O general assegura que a nota foi redigida pela equipe de comunicação de Kaliman. O chefe de todos eles chamou os comandantes à sua sala, naquele dia 10 de novembro, e anunciou que iria ler o manifesto sugerindo a Morales que renunciasse. Um detalhe: seria uma sugestão.
O jornal Pagina Siete contou tudo em detalhes, a partir das queixas dos delatores. O que eles dizem é que os cinco participantes subalternos da cena, que estão em volta de Kaliman, não deram nenhum palpite na redação do comunicado.
Terceros e Arce asseguram que a nota lida por Kaliman teria sido um truque, por dois motivos. Como a pressão para o golpe havia sido das polícias, e não dos militares, que foram levados a apoiar o motim, era preciso marcar posição.
Com o comunicado sendo redigido pouco antes de Evo Morales anunciar que deixaria o governo, as Forças Armadas estavam tentando dizer que eram protagonistas do golpe.
O segundo motivo é derivado do primeiro. Os dois delatores dizem que Kaliman sabia que Morales iria renunciar. A nota teria o objetivo de pegar carona no que já sabiam que aconteceria.
É possível aprender muito com o golpe boliviano. Primeiro, é preciso prestar atenção em notas que tentam transmitir consensos, como aconteceu há pouco no Brasil com o comunicado em que o ministro da Defesa, Braga Netto, e os comandantes das três armas enquadram o presidente da CPI do Genocídio, Omar Aziz.
Também é educativo prestar atenção nos traumas provocados por um fracasso, quando todos os chefes militares golpistas (com exceção de um, foragido) estão na cadeia junto com os seus cúmplices civis.
Jorge Gonzalo Terceros Lara não assume seu protagonismo e delata Kaliman, mas se sabe que foi o mais furioso de todos os comandantes manobrados pelos civis da extrema direita e pelos policiais amotinados.
Terceros é acusado de tentar reter no aeroporto, sem apoio dos demais comandantes, o avião que iria levar Evo Morales para o exílio no México.
Também era Terceros quem negociava ajuda externa ao golpe com a Argentinha e, possivelmente, segundo suspeitas levadas à Câmara dos Deputados da Bolívia, com o Brasil e o Chile. Pois Terceros se revela agora o mais acovardado de todos os militares golpistas.
Se colocassem todos eles na mesma sala hoje, como fizeram em 10 de novembro de 2019, teríamos uma batalha entre inúteis que nem golpe sabem aplicar.
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O desafio chinês - Thomas Piketty

Por Thomas Piketty
O Partido Comunista Chinês (PCCh) já celebra seu centenário e os países ocidentais ainda não conseguiram definir sua atitude em relação ao regime de Pequim. Sejamos diretos: a resposta passa pelo fim da arrogância ocidental e pela promoção de um novo horizonte emancipatório e igualitário em escala mundial – uma nova forma de socialismo democrático e participativo, ecológico e pós-colonial. Se insistirem em sua postura moralista habitual e em um modelo hipercapitalista datado, os países ocidentais correrão o risco de encontrar grandes dificuldades no enfrentamento do desafio chinês.
Autoritário e opressor, o regime chinês certamente possui muitas fragilidades. De acordo com o jornal Global Times, seu diário oficial, a democracia à chinesa seria superior ao supermercado eleitoral ocidental pois confia os destinos do país a uma vanguarda motivada, determinada, selecionada, representativa da sociedade – o PCC conta com cerca de 90 milhões de membros –, e muito mais implicada a serviço do interesse geral do que o eleitor médio, versátil e influenciável.
Na prática, porém, o regime assemelha-se cada vez mais a uma ditadura digital tão perfeita que ninguém deseja imitá-lo. O modelo de deliberação do PCC é ainda menos convincente, uma vez que não deixa qualquer rastro ao exterior. Enquanto isso, tornam-se cada vez mais claras a instauração de uma vigilância generalizada sobre as redes sociais, a repressão de dissidentes e de minorias, a brutalização do processo eleitoral em Hong Kong e as ameaças à democracia em Taiwan.
A capacidade de um tal regime de seduzir as opiniões de outros países (e não apenas de seus dirigentes) parece limitada. É preciso incluir nesta lista o forte aumento das desigualdades, o envelhecimento acelerado, a opacidade extrema que caracteriza a divisão das riquezas, e o sentimento de injustiça social que dela decorre e que não poderá ser eternamente apaziguado por alguns ocultamentos.
Economia mista
Apesar de suas fragilidades, o regime chinês dispõe de vantagens sólidas. Quando as catástrofes climáticas vierem, ele facilmente responsabilizará as antigas potências que, apesar de sua população limitada (o conjunto que inclui os Estados Unidos, o Canadá, a Europa, a Rússia e o Japão concentra cerca de 15% da população mundial), representam cerca de 80% das emissões de carbono acumuladas desde o começo da era industrial.
De forma geral, a China não hesita em lembrar que se industrializou sem valer-se da escravidão nem do colonialismo, dos quais ela mesma sofreu as consequências. Isso a permite ganhar alguns pontos face ao que se percebe como a eterna arrogância dos países ocidentais, sempre dispostos a dar lições a todo o planeta quando se trata de justiça e democracia, enquanto se mostram incapazes de enfrentar as desigualdades e as discriminações que os minam; pactuando com todos os poderosos e oligarcas que lhes beneficiam.
No plano econômico e financeiro, o Estado chinês dispõe de ativos consideráveis, muito superiores às suas dívidas, o que lhe oferece os meios para uma política ambiciosa, tanto no nível doméstico quanto no plano internacional, particularmente no que diz respeito aos investimentos em infraestrutura e na transição energética. O poder público detém, hoje, cerca de 30% daquilo que se pode possuir na China (10% do setor imobiliário, 50% das empresas), o que corresponde a uma estrutura de economia mista que não é totalmente distinta daquela que se encontrava no Ocidente dos “trinta gloriosos”.
Por outro lado, é chocante constatar em que ponto os Estados ocidentais se encontram, no começo dos anos 2020, com posições patrimoniais quase nulas ou negativas. Por não terem equilibrado as contas públicas, estes países acumularam dívidas, colocando, ao mesmo tempo, uma parte crescente de seus ativos à venda, de modo que as primeiras acabaram ultrapassando a segunda.
Países ricos, Estados pobres
Sejamos bem claros: os países ricos o são no sentido de que os patrimônios privados nunca foram tão elevados; seus Estados é que são pobres. Se persistirem nessa via, poderão terminar com um patrimônio público cada vez mais negativo, numa situação em que os detentores dos títulos da dívida possuirão não apenas o equivalente a todos os ativos públicos (edifícios, escolas, hospitais, infraestruturas etc), mas também o direito de sacar uma parte crescente dos impostos dos futuros contribuintes. Ao contrário, seria possível, como se fez no pós-guerra, reduzir a dívida pública de forma acelerada absorvendo parte dos maiores patrimônios privados, assim aumentando as margens de manobra do poder público.
É a este custo que reestabeleceremos uma política ambiciosa de investimento em educação, saúde, meio ambiente e desenvolvimento. É urgente que se suspendam as patentes das vacinas, que se compartilhem as receitas das multinacionais com os países do Sul e que se coloquem as plataformas digitais a serviço do interesse geral. De forma mais ampla, é preciso promover um novo modelo econômico fundado no compartilhamento do saber e do poder em todos os níveis, nas empresas e nas organizações internacionais.
O neoliberalismo, abandonando o poder aos mais ricos e enfraquecendo o poder público, no Norte como no Sul, apenas reforçou o modelo chinês – da mesma forma que o fez com patético neonacionalismo trumpista ou modista.
Chegou a hora de passar para a próxima.
Tradução: Daniel Pavan.
(Publicado originalmente no jornal Le Monde.)
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Israel e o mito da “única democracia” do Oriente Médio - Sayid Marcos Tenório
Por Sayid Marcos Tenório
É comum ver os apologistas de Israel retratando o estado judeu como "a única democracia” do Oriente Médio, uma espécie de oásis de democracia num deserto autoritário e ditatorial, uma democracia no estilo ocidental assentada em valores democráticos liberais e da herança judaico-cristã que Israel compartilha com as democracias liberais do Ocidente.
Tais afirmações não passam de uma cortina de fumaça para esconder a exclusividade étnico-religiosa judaica inerente à ideologia racista sionista, as desigualdades estruturais e as práticas discriminatórias que o Estado de ocupação israelense realiza contra seus cidadãos não judeus.
Um apartheid consolidado pelo parlamento israelense
Desde a declaração de independência, em 14 de maio de 1948, Israel dispensou um tratamento diferenciado aos palestinos no novo Estado, através da adoção de pelo menos 60 legislações discriminatórias em favor da população judaica, em detrimento da não judaica, conferindo aos árabes – cristãos e muçulmanos – uma condição diferenciada, tornando-os cidadãos de segunda classe na sociedade israelense. Desde 1948, esses cidadãos sofrem restrições democráticas observadas em outras regiões do mundo, como dos direitos de mobilidade, reunião, expressão e manifestação.
Uma das primeiras legislações aprovadas pelo parlamento do recém-criado Estado de Israel (Knesset), em 1950, foi a Lei do Retorno, que permite a qualquer judeu, de qualquer parte do mundo, o direito de imigrar para Israel e tornar-se cidadão com plenos direitos. A mesma legislação barrou o direito dos palestinos atingidos pela Nakba regressarem às casas de onde foram expulsos desde 1948. No dia 6 de maio deste ano, o Knesset revogou a lei segregacionista que os sionistas denominavam de Lei da Cidadania, segundo a qual o cônjuge árabe que optasse por viver em Israel teria que renovar todos os anos o pedido de residência temporária.
Duas outras legislações draconianas são a Lei do Knesset e a Lei da Reunificação Familiar. A primeira, Lei do Knesset, aprovada em 1958 e alterada em 1985, estabelece o impedimento de candidatura ao parlamento de qualquer candidato que negue a essência judaica do Estado de Israel. É evidente que essa legislação visa impedir candidatos palestinos e antissionistas, além de estabelecer uma cláusula de barreira de 3,5% de votos para o partido eleger deputado para o Knesset.
A segunda, a chamada Lei da Reunificação Familiar, de 2003, impossibilita cidadãos de Israel de conviver com seus cônjuges oriundos dos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia ou Gaza, mas permite que os cidadãos judeus possam viver em Israel com seus cônjuges estrangeiros.
Não foi à toa que, em 19 de julho de 2018, o Knesset aprovou a chamada Lei Básica do Estado-Nação, por meio da qual Israel passa a ser legalmente um Estado exclusivo para judeus. A adoção dessa legislação discriminatória representou uma vitória da extrema-direita sionista que governa Israel e uma derrota do resto do mundo, onde não há nenhum precedente dessa natureza, além de contrariar a quase totalidade dos países membros da Organização das Nações Unidas, que reconhece o direito dos palestinos ao seu estado independente e soberano.
Etnocracia israelense é o oposto de uma democracia
Como podemos observar, o chamado Estado de Israel é o oposto de uma democracia, sendo na verdade uma etnocracia – muito embora judeus não constituam um grupo étnico, mas seguidores da fé judaica – que incorpora alguns elementos de uma democracia liberal ocidental, como eleições e sistemas de votação, pluralidade política, imprensa livre e até reconhecimento das relações homoafetivas.Etnocracia é um regime que surge quando membros de um determinado grupo étnico-nacional – os judeus no caso de Israel, os brancos na África do Sul do apartheid ou os supremacistas brancos cristãos nos EUA – assumem o controle do governo e das forças armadas para impor um regime de exclusividade e privilégio sobre outros grupos étnicos ou religiosos, sobre o que é de fato uma sociedade multiétnica ou multireligiosa.
Ao contrário das democracias liberais dos EUA e da Europa Ocidental, nas quais um modelo de nacionalismo civil e democracia inclusiva é implementado, Israel continua ligado a um paradigma nacionalista étnico em que o país não pertence a todos os seus cidadãos, mas a um particular grupo étnico-religioso.
A proclamação de Israel como "Estado judeu" é um absurdo, na melhor das hipóteses, e racismo, na pior. Imagine se a Inglaterra ou os EUA decidissem se chamar “Estado Protestante”, tornando automaticamente todos os não protestantes cidadãos de segunda classe, negando-lhes plena cidadania e direitos? É isso o que acontece com Israel.
Os árabes palestinos que vivem em Israel, ao receberem cidadania israelense, tecnicamente desfrutam de algum nível de liberdade de língua, religião e cultura e têm direito a voto e representação no Parlamento de Israel. Apesar de uma fachada de governança democrática, Israel continua a negar aos seus cidadãos árabes direitos políticos iguais, discriminando-os em diferentes esferas, como cidadania, saúde, educação, casamento, financiamento municipal, habitação, propriedade da terra etc.
Embora essa população árabe tenha participação em partidos no âmbito da configuração política israelense e tenha conseguido eleger representantes para o Parlamento, eles não chegam a ter influência relevante sobre o estado. Nenhuma decisão do governo é considerada legítima a menos que goze de uma "maioria judaica”, ou seja, do apoio da maioria dos judeus no Parlamento ao invés do de uma maioria parlamentar, porque isso requer considerar os votos dos parlamentares árabes.
Que democracia é essa que se vale do poderio militar e da omissão dos organismos internacionais para perpetuar um estado que não respeita o Direito Internacional, que não dispõe de uma Constituição e em que a base jurídica da autoridade estatal é um conjunto de “leis básicas” que tratam de diversos ramos jurídicos sem fronteiras definidas? Que democracia é essa na qual a base jurídica é alterada sempre que os dirigentes da ocupação acham necessário, no sentido de ampliar o regime de apartheid e a negação dos direitos dos palestinos?
_______________ * A ascensão global do terraplanismo: como chegamos aqui? - Rodrigo Quinan
Por Rodrigo Quinan

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. No século passado, a vitória da Ciência como pensamento racional legitimado, autoridade máxima sobre a verdade, parecia incontestável. O homem havia rompido a fronteira final e pisado na Lua, a vacinação aumentava a expectativa de vida em décadas, testes de DNA impactavam a sociedade, a psicologia e a psiquiatria prometiam também tratar problemas mentais e até impotência sexual parecia superada com a chegada da pílula azul da sildenafila – a viagra – aprovada para comercialização em 1998. Todo esse desenvolvimento seria consolidado de vez com o lançamento da Internet em 1993, que enfim democratizaria todo o acesso a ele em uma construção, quase utópica, de espaço informacional horizontal, desprovido de hierarquias.
Mas na virada do milênio, as esperanças lentamente azedaram como leite fora da geladeira em dia de verão. Um estudo fraudulento, mas codificado na linguagem acadêmica o suficiente para passar pelos pareceristas da grande revista científica The Lancet, apontou vacinação como causadora de autismo e iniciou o impensável: a volta do movimento anti-vacina, versão Era da Informação. Uma série de estudos pagos impulsionou o negacionismo do aquecimento global. A Internet foi de utopia a distopia, democratizando também o caos ao trazer à tona perigosos tratamentos milagrosos (inclusive o da substância MMS, encontrada em alvejantes, para o autismo) dando voz também a uma nova ascensão de movimentos políticos extremistas, antes desorganizados, que resultariam numa ascensão de uma nova extrema-direita pelo mundo.
O mundo parecia de cabeça para baixo e, como uma cereja no bolo, o impensável aconteceu: pessoas voltaram a acreditar que a Terra é plana, uma crença tão deslocada dos tempos modernos que não é possível ser ligada nem mesmo a estudos pagos ou acadêmicos fraudulentos. Canais conspiracionistas surgiam aos montes no Youtube, buscando contradições absurdas como vídeos em aviões que acusavam ver a borda da Terra ou a farsa hollywoodiana, ao melhor estilo “homem na Lua”, produzida em vídeos oficiais da NASA – organização que, para eles, existiria apenas para fins obscurantistas. Com vários destes canais brasileiros, uma pesquisa na Isto É, realizada em 2021, afirmava que um assustador número de 11 milhões de brasileiros acreditam que a Terra era plana. Em 2019, o programa de auditório The Noite, de Danilo Gentili, recebeu o grupo terraplanista Flatcon, divulgando seu primeiro encontro nacional, que seria realizado na cidade de São Paulo para cerca de 400 pessoas. Veículos como a Folha e a Veja também deram atenção aos grupos.
Como chegamos até aqui? A resposta está não apenas na retórica conspiracionista dos terraplanistas, mas numa série de mudanças sofridas pelos meios de comunicação nas últimas décadas – e numa notável falta de regulação destes, com permissivas políticas neoliberais em nome de uma suposta “liberdade de expressão” ajudando os terraplanistas e outros grupos extremistas à obterem atenção.
O terraplanismo pelo Globo
A crença em que a Terra é plana chegou a estar presente em séculos de dominância em um mundo cristão de literalismos bíblicos, mas em uma série de revisionismos de historiadores, se acredita que até mesmo a prevalência do pensamento neste período foi exagerada, com a educação de que a Terra é plana praticamente não-existente na história ocidental a partir da Alta Idade Média. Teorias de que a Terra era esférica, afinal, já existiam em peso desde a Antiguidade, com passagens de pensadores como Platão e Aristóteles argumentando pelo tamanho redondo.
Estudos pseudocientíficos obscuros seguiram nos séculos seguintes, mas nunca deixando às margens para obter qualquer tipo de relevância. No Séc. XX, o britânico Samuel Shenton, até então uma pessoa comum, se aprofundou em antigos escritos do Arquebispo Stevens (1835-1917) encontrados na Biblioteca Britânica em Londres, instantaneamente se convencendo da ideia. O mergulho de Shenton a um mundo obscuro de literalismos bíblicos e teorias da conspiração o fez fundar a International Flat Earth (1956), mas os anos seguintes não foram favoráveis a organização: a corrida espacial explodiu na década de 1960, com a imagem da Terra esférica vista do espaço logo aparecendo em cada jornal ao lado de temas como satélites e a ida do homem à Lua. Até mesmo a religião abraçou a corrida espacial, com o Papa Paulo abençoando os astronautas do vôo Apollo 11. Nem mesmo os mais reacionários religiosos pareciam dispostos a cogitar o terraplanismo e a organização de Shenton ficou relegada ao ostracismo, nunca passando de 3000 membros. Seu líder faleceu em 1971. Até o fim do século o movimento parecia morto e enterrado, apenas piadas preservando sua memória
Ressurgindo na globalização
Corta para a virada do milênio: a Internet representava uma esperança utópica de que todo o terreno conquistado pela Ciência seria, enfim, democratizado e tornado acessível à grande maioria da população. “Você”, alcunha para o colaborador anônimo de sites como YouTube e Wikipedia, foi eleito a pessoa do ano da revista Time em 2006, mas a cobertura empolgada deixou passar movimentos que começavam a se (re)organizar nas margens da Web, entre eles o terraplanismo. O Flat Earth Society reapareceu em 2004, lançado como fórum de discussões sobre as teorias, se apresentando como “bem-vindo à crentes e céticos”. Segundo registros do Web Archive, em 2005 o site contava com 388 usuários registrados, com o número chegando a 19 mil em 2009. Em 2021, o fórum ainda existente tem 28 mil membros registrados. Capturas de 2007 mostram a movimentação na plataforma:
O sucesso do fórum levou a criação de um site no mesmo domínio, em 2009. Registrando oficialmente novos membros desde 2001, a Flat Earth Society lançou sua página autoproclamando como “a maior coleção pública de literatura sobre o tema”. Além textos, newsletters e fóruns de discussão, a organização agora contava com uma enciclopédia editável, aos moldes da wikipedia, onde seu coletivo organizaria teorias na sua própria plataforma. O novo líder, Daniel Shenton (incrivelmente sem parentesco com o Shenton original), daria no press release do lançamento do site devidos créditos pela ressurgência: “Tecnologia evoluiu e estamos empolgados de atingir uma grande audiência com nossa mensagem. A Internet é uma ferramenta fantástica para comunicação.”
Os anos seguintes mostraram que nem mesmo sites tradicionais com conteúdo centralizado eram necessários para a propagação de teorias da conspiração como o terraplanismo: plataformas como o Youtube, Facebook, Twitter e Reddit deram ferramentas para mesmo os usuários mais simples produzirem e propagarem conteúdo. Os algoritmos entraram em ação para circular conteúdo entre usuários com interesses em comum, com matérias como How Youtube Radicalized Brazil, no New York Times, analisando seu potencial de conectar usuários comuns ao discurso de ódio. Logo, o terraplanismo estaria desfragmentado, espalhado por diversas páginas e canais nestas redes sociais, alguns grandes e estilizados, outros de alcance médio ou pequeno, com construção mais genérica e pouco destaque midiático – mas integrantes de um enorme exército de colaboradores que pode ser tão ou mais prejudicial. Os canais empacotam o terraplanismo entre outros discursos conspiracionistas, de ódio, de criacionismo e outros literalismos bíblicos.
O grupo brasileiro por trás da Flatcon, por exemplo, conquistou atenção mainstream ao ganhar palco no The Noite, de Danilo Gentili, divulgando o evento denominado “Primeira Convenção Nacional da Terra Plana, que em 2019 reuniu 400 pessoas em São Paulo. Como de esperado, o terraplanismo também marcou presença no bolsonarismo, com o guru Olavo de Carvalho saindo em defesa do movimento:
O problema da regulação
A respostas dos grandes conglomerados de mídias sociais, beneficiados financeiramente com o enorme engajamento gerado pelo conteúdo conspiracionista, foram evasivas: sob a defesa de uma suposta “liberdade de expressão”, que aparentemente protegeria também discursos de ódio, empresas como o Google estrategicamente dão ênfase à alcunha de “plataforma”, tentando transferir a responsabilidade pelo conteúdo aos usuários que o publicaram. Durante momentos distintos nos últimos anos o Google anunciou, de forma vaga, mudanças de políticas de conteúdo no YouTube, com bem publicizadas exclusões de canais como do conspiracionista Alex Jones, fundador do site InfoWars.
Durante 2020, com o Covid-19 e a campanha de Donald Trump repleta de tentativas de deslegitimar a eleição, os conglomerados deram passo a frente na regulação, incluindo avisos com links para Wikipedia ou outros sites informativos ao lado de conteúdo problemático e até mesmo deletando a conta de Donald Trump na reta final das eleições estadunidenses. O regulamento ainda é tímido e mantém tanto conteúdo problemático no ar: o canal Professor Terra Plana, que analisei em um estudo publicado há quase 3 anos, segue ativo para mais de 30 mil inscritos, e diversos canais relacionados formam uma rede de apoio – isso apenas contando o terraplanismo, com diversas outras teorias da conspiração também presentes na plataforma.
É extremamente suspeito que grandes conglomerados como Google e Facebook regulem a si próprios. O The Wall Street Journal, em 2020, apurou que, sob ordem de Mark Zuckerberg, o Facebook favorece a visibilidade de conteúdo conservador. O The Verge apurou, no mesmo ano, que a rede social prejudica o tráfego para veículos progressistas desde 2017. O bilionário teve uma série de reuniões com líderes conservadores nos últimos anos, e parece entender bem o potencial de engajamento que a plataforma tem com esses demográficos. Estes desenvolvimentos revelam que, embora esses conglomerados busquem reputação de cumpridores de dever cívico, com banimentos pontuais e atitudes para inglês ver, o interesse financeiro em conteúdo conspiracionista conservador está entre suas prioridades. Desta forma, é difícil crer que conteúdo pseudocientífico como o terraplanismo, ou mesmo outros discursos de ódio, voltem tão cedo para as margens de onde nunca deveriam ter saído.
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Mercado financeiro teme milícias bolsonaristas na disputa eleitoral em 2022 - César Fonseca
Por César Fonseca
Dois expoentes do mercado financeiro - Paulo Marinho e Armínio Fraga -, na Folha e no Valor, respectivamente, deixaram claro que estão com medo das ameaças às instituições pelos milicianos aliados do presidente que viram inimigos da democracia; afinal, as instituições estão sob ataques do próprio presidente da República, cuja base de apoio político são as milícias; o presidente do STF, ministro Luís Fux, preocupado com o assunto, chamou o titular do Planalto para reclamar da postura dele, de claras ameaças fascistas que se acumulam em formas de seguidos crimes de responsabilidade; a sociedade civil, como destaca Paulo Marinho, ex-coordenador de campanha eleitoral de Bolsonaro, recua-se diante dos fascistas milicianos que demarcam terrenos nas favelas cariocas para atuarem de forma sempre ameaçadora.
Ele relata que quem tem negócios nas favelas, especialmente, no campo da educação, de modo a se viabilizarem eleitoralmente em decorrência de inserção da classe na sociedade, está borrando de medo; se tentarem entrar na política, seus negócios vão para o brejo; do mesmo modo, Armínio, vocalizador do mercado financeiro, teme que a escalada política bolsonarista, que se ancora em pressões ameaçadoras, afaste a sociedade civil dos termos constitucionais que marcam processos político-eleitorais; eles deixam de valer diante do direito da força que anula a força do direito. A milicialização política bolsonarista abafa política democrática institucional; diante de tal quadro político em completa deterioração, os mercadores financeiros temem que está chegando a hora de eles, como o Congresso conservador neoliberal, terem que pedir benção aos milicianos para fazer seus negócios, por meio dos poderosos fundos de investimentos que estão avançando no processo de privatização da economia; por que os milicianos, ganhando o poder pelo direito da força sobre a força do direito, não iriam querer, também, participar do butim trilhonário privatista, atendo-se, apenas, às oportunidades que já exploram ao arrepio da lei, se estão protegidos pelo poder maior do executivo militarizado?
Do ponto de vista das milícias, os homens do mercado financeiro são tão bandidos quanto os milicianos, ainda, em escala maior, porque impõe à sociedade o modelo neoliberal cujos efeitos são aprofundamento do desemprego, da miséria, fome, concentração de renda, desigualdade social, desequilíbrio fiscal, instabilidade cambial etc? Configura-se, portanto, pressão dos mais ricos e poderosos em favor do que jamais se imaginaria, ou seja, derrubada de Bolsonaro por impeachment antes que eles, os poderosos, sejam removidos pelas milícias. Eis o abismo horroroso no qual o bolsonarismo ultradireita radical neoliberal jogou o Brasil. A elite está tremendo diante do que ela mesma aprontou ao apoiar o golpe de 2016 para derrubar Dilma e inviabilizar Lula em 2018; agora, corre atrás de não sabe quem pois não tem alternativa para 2022, onde o espaço, parece, está tomado por Lula, como anunciam pesquisas de opinião.
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As urnas e a democracia: o que revela a demanda bolsonarista pelo voto impresso - Tânia Maria de Oliveira
Por Tânia Maria de Oliveira
Entes soluços e ameaças, Jair Bolsonaro segue testando a estabilidade das instituições no Brasil. Não de hoje vem questionando a lisura do sistema eleitoral, fórmula bastante comum usada por perdedores para instigar ações antidemocráticas, cujo exemplo mais recente ocorreu em janeiro deste ano nos Estados Unidos da América quando, estimulados pelo derrotado Donald Trump, extremistas invadiram o Capitólio na tentativa de barrar a posse do presidente eleito, Joe Biden.
Bolsonaro segue à risca a estratégia adotada pela extrema-direita norte-americana, insistindo na alegação de fraude na votação que o elegeu presidente em 2018, que afirma ter vencido no primeiro turno e nas eleições de 2014. Com o reiterado discurso busca impulsionar aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 135/2019, conhecida como PEC do Voto Impresso, de autoria da deputada bolsonarista Bia Kicis.
Intimado pelo Tribunal Superior Eleitoral a apresentar provas de fraude nas eleições de 2018, Bolsonaro não respondeu, mas segue ameaçando o tribunal e seus ministros, afirmando que não haverá a realização das próximas eleições caso não se implemente o voto impresso, o que levou o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso a declarar que qualquer atuação no sentido de impedir as eleições configura crime de responsabilidade.
Diferente do que alguns imaginam, voto impresso no Brasil após implementação das urnas eletrônicas não é uma novidade.
De fato, a impressão do voto foi testada no pleito de 2002, instituída pela Lei nº 10.408/2002, em procedimento similar à proposta que tramita agora na Câmara dos Deputados.
O eleitor deveria fazer uma conferência visual do voto, sem ter contato com sua versão impressa. Se os dados fossem confirmados, o voto seria depositado em uma urna lacrada. Naquele ano 6,18% do eleitorado brasileiro teve seu voto impresso. No Distrito Federal e no estado de Sergipe todas as seções eleitorais contaram com urnas com módulo de impressão externo.
De acordo com o relatório oficial das eleições de 2002, além dos custos altos para implantação do sistema de urnas com voto impresso, houve diversos tipos de problemas, como número significativo de eleitores que saíram da cabine sem confirmar o voto impresso, demora na votação, necessidade de procedimentos de transporte, de guarda e de segurança física das urnas de lona com os votos impressos, treinamento mais complexo para os mesários.
Na prática, a orientação geral de simplificação do processo eleitoral ficou totalmente comprometida e, algumas questões de ordem graves se apresentaram: a ocorrência de problemas técnicos nas impressoras, o que a deixou vulnerável a tentativas de fraude, a quebra do sigilo constitucional do voto em algumas seções eleitorais, já que foi necessária ação humana para resolver problemas de travamento de papel na impressora, o que acarretou, também, perda de alguns votos em determinadas seções, possibilitando a ocorrência de divergência entre o resultado da urna eletrônica e o da urna de lona.
Por experiência, fácil perceber que a implementação em todo o país desse sistema traria o caos às eleições.
Reunidos um mês após o segundo turno do pleito de 2002, o Colégio de Presidentes e o Colégio de Corregedores da Justiça Eleitoral, concluíram a necessidade de eliminação do voto impresso no processo de votação. Em outubro de 2003, foi sancionada pelo então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei nº 10.740, que revogou os dispositivos da Lei nº 10.408 que determinavam a impressão do voto.
A tentativa de deslegitimação do sistema eletrônico de votação que é operada por Jair Bolsonaro e seus seguidores aproveita-se da desconfiança comum da sociedade em relação aos processos e às instituições, sem que haja, contudo, nos mais de vinte anos em que são usadas as urnas eletrônicas, qualquer prova que justifique a dúvida.
Importa lembrar que no processo eleitoral atual, urnas e softwares são monitorados e passam por testes e por controle público em todas as etapas até o momento em que o programa é instalado e a urna é lacrada. O TSE realiza diversos procedimentos de auditoria tanto antes quanto durante as eleições, envolvendo representantes de partidos políticos, juízes eleitorais, servidores, membros do Ministério Público, bem como entidades como a OAB.
Antes da votação é emitido um boletim em que se atesta que a urna está zerada. Após a conclusão das eleições, um boletim de urna é emitido, a partir do qual qualquer cidadão tem acesso ao resultado. Ainda, durante a votação, algumas urnas são escolhidas por sorteio para passar por votação paralela, em que votos em papel são registrados na urna eletrônica para posterior conferência e sempre na presença de auditores e de fiscais indicados pelos partidos ou coalizões.
Ainda que, por livre suposição, houvesse motivos para desconfiar da lisura do processo de votação, a simples impressão do voto não garantiria que as eleições brasileiras sejam auditáveis, pois o voto é impresso pelo mesmo software que atualmente conta digitalmente os votos colhidos nas urnas eletrônicas brasileiras.
Mesmo que possua apoio em poucos setores políticos de boa-fé, a proposta de voto impresso defendida por Bolsonaro e seus asseclas possui o objetivo único de tumultuar o processo eleitoral de 2022, a partir da promoção de uma desconfiança infundada, e diante do evidente temor de ser democraticamente derrotado.
_______________ * Ex-BBB Arthur critica quem deseja morte de Bolsonaro e ganha apoio do PT
O ex-BBB Arthur Picoli criticou as pessoas que desejaram a morte de Jair Bolsonaro e ganhou apoio do PT em São Paulo

247 - O ex-BBB Arthur Picoli criticou as pessoas que desejaram a morte de Jair Bolsonaro (sem partido), que foi internado ontem em São Paulo. A informação é do portal UOL.
Em seu perfil no Twitter, o instrutor físico disse que discordar da gestão de Bolsonaro é uma coisa, mas que, desejar "o pior" para o presidente chega a ser "doentio".
"Não concordar com a atual gestão do nosso país é uma coisa, desejar o pior para o presidente já é doentio, deseje saúde pois no momento é o que todos nós queremos e precisamos. Que todos fiquem bem, amigos e família", escreveu Arthur.
Nos comentários, o perfil oficial do PT São Paulo respondeu ao ex-BBB, e disse querer "derrotar o Bolsonaro sim, mas na política. Independente das divergências políticas que são enormes, somos humanos".
_______________ * Dominada por ironias, hashtag #OremPeloPresidente vira assunto mais comentado no Twitter
"Torço para saúde do Bolsonaro pois quero vê-lo apodrecendo na cadeia por tudo de ruim que ele fez", escreveu um usuário da rede social

247 - Nesta quarta-feira (14), dia em que Jair Bolsonaro foi internado no Hospital das Forças Armadas (HFA) em Brasília em decorrência de uma suposta obstrução intestinal e de uma crise de soluços, internautas fizeram da hashtag #OremPeloPresidente o assunto mais comentado do Twitter no Brasil.
As postagens - irônicas -, porém, não expressam um real desejo de melhora para o chefe do governo federal. "#OremPeloPresidente mesmo, porque ele tem que estar vivo para pagar por tudo o que fez", escreveu uma usuária. "Torço para saúde do Bolsonaro pois quero vê-lo apodrecendo na cadeia por tudo de ruim que ele fez", escreveu outro.
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