______________________________* Sem ÁGUA, sem ENERGIA e sem GESTÃO o Brasil empaca ______________________________* "O nome atual de BORBABORBA_GATO é JAIR BOLSONARO", diz Altman

________________________________________

////////////////////////////////////////////////////////////////////////////// *
////////////////////////////////////////////////////////////////////////////// *

Ueslei Marcelino/Reuters

__________* Sem ÁGUA, sem ENERGIA e sem GESTÃO o Brasil EMPACA 

__________* O que cidades que já vivem RACIONAMENTO revelam sobre FUTURO da CRISE da ÁGUA 


________________________________________///////////////////////////////////////////////////////

///////////////////////////////////////////////////////////////////////


*

///////////////////////////////////////////////////////////////////////

///////////////////////////////////////////////////////

__________* 

Ginasta diz que era humilhado por Ângelo Assumpção desde os 9 anos

O ginasta brasileiro Ângelo Assumpção, acusado de humilhar um colega de clube mais novo - Esporte Clube Pinheiros/Divulgação
O ginasta brasileiro Ângelo Assumpção, acusado de humilhar um colega de clube mais novo Imagem: Esporte Clube Pinheiros/Divulgação

Demetrio Vecchioli

Do UOL, em Tóquio (Japão)

25/07/2021 17h11

O ginasta Gabriel Alves, de 17 anos, acusou o ex-colega Ângelo Assumpção de humilhá-lo durante anos com comentários homofóbicos quando os dois treinavam no Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo. Em 2015, Ângelo foi vítima de racismo do ginasta olímpico Arthur Nory.

As trajetórias de Gabriel e Ângelo são parecidas. Os dois são negros, da Zona Leste de São Paulo e crias do Pinheiros. Gabriel conta que, por muitos anos, desde quando era uma criança de apenas 9 anos, foi tratado por Ângelo, já adulto, por dois apelidos pejorativos: Rebeca Blackout e Leona, ambos fazendo referência a um garoto negro, gay, que se prostituía nas ruas de Salvador e cujos vídeos viraram memes em 2010.

"Eu acho que ele quis mesmo que eu fosse humilhado e passasse vergonha na frente dos outros. Na frente dos meus companheiros, meus colegas. Comecei a ficar com vergonha, me sentia muito mal. Eu era o único diferente, porque para ele zoar só comigo alguma coisa tinha", conta o ginasta de 17 anos.

Essas acusações foram relatadas ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) da Federação Paulista de Ginástica, no processo que investigou as acusações de racismo na demissão de Ângelo pelo Pinheiros. O Olhar Olímpico noticiou isso em outubro do ano passado, mas só agora a vítima resolveu falar publicamente sobre o assunto, fazendo uma série de posts no Twitter.

Gabriel disse que sentiu necessidade de expor o caso depois de acompanhar as críticas a Arthur Nory, que praticou racismo contra Ângelo em 2015. O caso voltou à tona após a participação de Nory nas Olimpíadas de Tóquio-2020. "Percebi que o Nory estava sendo acusado de várias coisas. Sou contra racismo e contra homofobia, mas isso me trouxe gatilhos de coisas que eu já sofri. Me fez lembrar do que eu já passei, pela mesma pessoa, e isso me deixava mal", continuou.

A reportagem procurou Ângelo neste domingo para ele comentar as acusações, mas ele afirmou que só poderia falar na segunda-feira.

Os relatos de Gabriel, feitos também por telefone à reportagem do UOL, vão ao encontro do que já havia publicado a coluna Olhar Olímpico no ano passado, a partir de fontes que preferiam não dar as caras. Na época, a reportagem teve acesso a um vídeo, enviado por Ângelo a colegas de clube e treinadores, em que ele trancava um garoto menor de idade dentro de um armário e depois o fazia "sair do armário" — um eufemismo para se assumir gay.

"Ele falava que eu parecia o menino do vídeo, não só na aparência, mas no jeito de viado. Que ia demorar pouco para eu descobrir sobre ser viado. Ele começou a me chamar sempre por esses nomes. Nunca era meu nome de verdade, sempre pelos apelidos. A impressão que eu tenho é que ele fazia para me diminuir. Para se aparecer na frente dos outros e me diminuir", diz Gabriel.

O relato bate com o que apurou o Olhar Olímpico no ano passado: Ângelo costumava "crescer" sobre os garotos mais novos, inclusive na república onde ele morou com outros ginastas, incluindo Gabriel, no bairro de Pinheiros.

"Ele nunca pediu desculpas. Já cheguei para conversar com ele muitas vezes, ele dizia que eu precisava passar por isso, que estava me ajudando a me descobrir. Falei várias vezes, várias vezes. Ele dizia que eu precisava ser humilhado para me descobrir", diz Gabriel.

O ginasta afirma que não levou as queixas ao Pinheiros, de forma que essas ofensas, especificamente, não influenciaram na decisão do clube de demitir (ou não renovar o contrato de) Ângelo, no fim de 2019. Mas Gabriel afirma que não havia clima para Ângelo continuar no grupo.

"A gente evitava ao máximo o Ângelo. Ele causava muito dentro do ginásio. O ambiente ficava muito tóxico com ele lá dentro. Ele cobrava muito e não fazia. A gente estava parado descansando e ele vinha gritar, dizendo que a gente não ia ser nada. Ele sempre foi muito mal educado, indisciplinado, queria bater boca com os treinadores. Ele sempre queria ser o dono do razão", diz.

Desde o ano passado, quando passou a alegar publicamente que foi demitido do Pinheiros por reclamar de atos racistas, Ângelo repete que gostaria de saber por que nenhum clube o contrata. Gabriel tem uma opinião: "Se ele tivesse nível de atleta olímpico que agora dizem que ele tem, alguém já tinha procurado ele. Ninguém ia jogar fora o talento que dizem que ele tem. As pessoas da ginástica sabem sobre esses acontecimentos, que ele era desrespeitoso, tinha falta de educação, falta de comprometimento."

Dispensado do Pinheiros no fim de 2019, Ângelo está há um ano e meio sem clube e, consequentemente, sem um local para treinar adequadamente, uma vez que, na ginástica, as estruturas de treinamento ficam dentro de clubes.

__________* 

Fauci: 'Alguns americanos poderão precisar de dose adicional da vacina'

Fauci disse que as autoridades de saúde dos Estados Unidos estão revisando os dados para determinar quando reforços podem ser necessários - Reuters
Fauci disse que as autoridades de saúde dos Estados Unidos estão revisando os dados para determinar quando reforços podem ser necessários Imagem: Reuters

25/07/2021 15h09

Atualizada em 25/07/2021 15h30

Anthony Fauci, principal autoridade em doenças infecciosas dos Estados Unidos, disse hoje que os americanos com imunidade comprometida podem acabar precisando de doses de reforço contra a covid-19.

"Aqueles que são pacientes que fizeram transplante, quimioterapia, têm doenças autoimunes, estão em regimes imunossupressores, são o tipo de indivíduo que, se houver uma terceira dose, o que provavelmente acontecerá, estariam entre os primeiros (elegíveis)", disse Fauci durante uma entrevista à CNN.

Relacionadas

EUA encomendam mais 200 milhões de doses da vacina da Pfizer contra a covid

Citando estudos que mostram que pode haver diminuição da imunidade nas pessoas vacinadas, Fauci disse que as autoridades de saúde dos Estados Unidos estão revisando os dados para determinar quando reforços podem ser necessários.

A reunião ocorreu dias depois que a farmacêutica e sua parceira BioNTech anunciaram intenção de buscar a aprovação regulatória dos EUA e da Europa para uma terceira dose da vacina contra a covid, em meio à disseminação de variantes. Segundo as empresas, há evidências de risco elevado de infecção seis meses após a inoculação inicial.

As autoridades de saúde dos Estados Unidos reagiram com cautela, declarando que as pessoas "que já tiverem sido totalmente imunizadas não precisam de reforço neste momento".

Disseram, no entanto, que estão prontos "para administrar doses de reforço, quando a ciência tiver demonstrado que são necessárias".

O CEO da Pfizer, Albert Bourla, já disse que as pessoas provavelmente precisarão de uma dose de vacina da empresa a cada 12 meses — semelhante a uma vacina anual contra a gripe. Mas alguns cientistas questionam quando, ou se, tais doses serão realmente necessárias.

O governo norte-americano encomendou 200 milhões de doses extras da vacina produzida pelos laboratórios da Pfizer-BioNTech, além de abrir a opção de compra para novas versões do imunizante que sejam eficazes contra as variantes do coronavírus.

* Com informações da Reuters

__________* 

Vale do Anhangabaú é reaberto com opiniões divididas entre beleza e utilidade

Vale do Anhangabaú, no centro da cidade de São Paulo, é reaberto neste domingo,  25 de julho de 2021 - Nelson Antoine/Estadão Conteúdo
Vale do Anhangabaú, no centro da cidade de São Paulo, é reaberto neste domingo, 25 de julho de 2021 Imagem: Nelson Antoine/Estadão Conteúdo

Gilberto Amendola

São Paulo

25/07/2021 13h16

Com 80% da população elegível vacinada com pelo menos uma dose da vacina contra à covid-19, Prefeitura de São Paulo reabriu, neste domingo, 25, o Vale do Anhangabaú, no centro da cidade. Primeiros visitantes dividiram-se sobre a beleza e utilidade do novo espaço.

Ao menos neste primeiro dia, o Vale esteve cercado por grades. Mesmo sem restrições explícitas à entrada, elas criaram uma fronteira entre os moradores em situação de rua e o espaço. A princípio, a ideia é que as grades sejam retiradas quando a operação do novo Vale estiver normalizada. A presença da Guarda Civil Metropolitana no entorno foi bastante ostensiva.

Frio: especialistas alertam para os cuidados com o ato de aquecer ambientes

Novidades

Entre as novidades, o vale ganhou 850 jatos d'água (com água de reuso), 13 quiosques, assentos, novos pontos de iluminação e pista de skate (para prática de street - modalidade que rendeu a primeira medalha olímpica brasileira em Tóquio).

No primeiro dia de abertura, algumas pessoas foram flagradas sem máscara - inclusive uma funcionária terceirizada. Também faltaram totens com álcool em gel, bebedouros e fiscais para garantir a obediência às normas sanitárias. Para evitar aglomerações, as atividades abertas ao público também serão graduais e ainda com restrições de horário.

Entre as novidades dessa reinauguração está a exposição "Olhares da linha de frente", com retratos dos profissionais da saúde que combateram à pandemia. Além disso, os grupos teatrais Satyros e Pia Fraus organizam visitas guiadas lúdicas ao Vale.

Opiniões de quem foi

Mas o que os primeiros visitantes acharam do novo Vale do Anhangabaú? " Um cimentadão sem expressão. Não entendi o que eles estão pensando aqui", comentou o aposentado Dante Tridico, 89 anos. Apaixonado pela cidade, Tridico garante que já viu melhores versões do Vale.

Outro olhar crítico foi do bombeiro aposentado Claudio Silvano, 49 anos. " Achei que falta verde. Falta vida e alegria. Imagino que será um ótimo espaço para eventos grandes, como Copa do Mundo e Shows. Apesar disso, se cuidarem da segurança, penso em trazer a família para um passeio", falou.

Opiniões mais positivas também apareceram entre os novos usuários. " Sinto que o espaço será democrático. Espero ver outros espaços no centro restaurados. É importante que lugares como esse sejam melhorados", disse o enfermeiro Luciano Clemente Siboldi, 42 anos. "Mas espero que olhem também para o que está acontecendo com a população de rua e a miséria ao redor", completou.

Mas a mais animada era a aposentada Maria Rita Sobreiro, 67 anos. "Foi a melhor coisa que aconteceu. O centro é um grande museu. Adorei o espaço e pretendo frequentar", disse.

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) chegou por volta das 10h para uma vistoria. Em entrevista coletiva, ele comemorou a taxa de vacinados e prometeu acertar questões como a falta de bebedouros e falta de totens com álcool em gel.

Reconstrução começou em 2019

A reconstrução do Vale teve início em 2019. O projeto foi desenhado pelo escritório dinamarquês de arquitetura Jan Gehl, contratado ainda durante a gestão de Fernando Haddad (PT) na Prefeitura. Com prazos que não se cumpriram e reinaugurações adiadas, a administração pública diz ter investido R$ 105,6 milhões na requalificação da área.

As obras do Vale foram finalizadas em outubro do ano passado. Naquela época, a licitação da área foi vencida por uma oferta de R$ 6,5 milhões do Consórcio Viaduto do Chá, que não entregou os documentos dentro do prazo necessário. Em março deste ano, a administração municipal convocou a Viva Vale, segunda colocada no processo de concessão, para gerir o novo Anhangabaú (pelos próximos 10 anos).

__________* 

Quem foi Borba Gato? Estátua de bandeirante foi alvo de ataque em 2016

Estátua do Borba Gato em chamas na tarde de hoje; incêndio já foi controlado - Gabriel Schlickmann/Ishoot/Estadão Conteúdo
Estátua do Borba Gato em chamas na tarde de hoje; incêndio já foi controlado Imagem: Gabriel Schlickmann/Ishoot/Estadão Conteúdo

Do UOL, em São Paulo*

25/07/2021 10h09

Atualizada em 25/07/2021 15h13

Inaugurada em 1963, a estátua de Manuel de Borba Gato, instalada na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, é um dos monumentos mais controversos do país

Ontem, a obra assinada por Júlio Guerra foi incendiada por manifestantes

Não houve feridos, e uma pessoa foi detida neste domingo.

Um grupo intitulado Revolução Periférica assumiu a autoria do incêndio. 

Em seu perfil no Instagram, os membros compartilharam uma ação em que colaram lambe-lambes em postes da capital com a questão "Você sabe quem foi Borba Gato?"

Incêndio no Borba Gato em São Paulo acirra a disputa política

Genro de Fernão Dias, ele foi um dos bandeirantes paulistas que, segundo estudos como o do livro "Vida e Morte do Bandeirante", de Alcântara Machado, lançado em 1929, exploraram territórios no interior do país, capturando e escravizando indígenas e negros encontrados pelo caminho, quando não os matavam em confrontos sangrentos, dissipando etnias entre os séculos 16 e 17.

Também estupraram e traficaram mulheres indígenas, além de roubar minas de metais preciosos nos arredores da aldeia.

Estátua do Borba Gato em chamas em São Paulo - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Estátua do Borba Gato em chamas em São Paulo Imagem: Reprodução/Twitter

Em um texto no próprio site da prefeitura, é afirmado sem as devidas explicações que se trata de uma homenagem polêmica desde sua inauguração, quando houve desfile com "populares vestidos de bandeirantes, índios e damas antigas".

Em 2016, a estátua de Borba Gato foi atacada com um banho de tinta. A mesma intervenção também não perdoou o Monumento às Bandeiras, imponente obra de Victor Brecheret localizada no Parque do Ibirapuera, na capital paulista.

30.set.2016 - Estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, também foi vandalizada - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Em 2016, a estátua de Borba Gato foi atacada com um banho de tinta Imagem: Reprodução/Twitter

Na época, o jornalista, cientista político e colunista do UOL Leonardo Sakamoto foi uma das pessoas que vieram a público propor a remoção da obra

Três anos antes, aconteceu no mesmo local um protesto da Comissão Guarani Yvyrupa

Em uma carta aberta, disseram: "a tinta vermelha, que para alguns de vocês é depredação, já foi limpa e o monumento já voltou a pintar como heróis os genocidas do nosso povo".

No ano passado, a subprefeitura de Santo Amaro solicitou a instalação de gradis em torno da estátua e ela passou a ser vigiada 24 horas pela Guarda Civil Metropolitana por um período depois que a obra voltou a ser alvo de grupos nas redes que defendem a derrubada desses monumentos.

Na ocasião, o debate foi intensificado em razão dos protestos antirracistas após a morte do norte-americano George Floyd, em 25 de maio. 

Em 7 de junho, manifestantes derrubaram e jogaram no rio a estátua de um traficante de escravos em Bristol, no Reino Unido.

Polícia investiga incêndio

Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) afirmou que a polícia está realizando diligências para encontrar imagens e informações que possam ajudar na identificação e localização dos autores da ação.

"De acordo com as primeiras informações, por volta das 13h30, um grupo desembarcou de um caminhão e espalhou pneus pela via e nos arredores do monumento, ateando fogo na sequência. 

Policiais militares e bombeiros chegaram rapidamente ao local e controlaram as chamas e liberaram o tráfego".

O caso está sendo registrado no 11º Distrito Policial (Santo Amaro) que ficará responsável pelas investigações.

A Prefeitura de São Paulo informou hoje a técnica especialista do DPH (Departamento de Patrimônio Histórico) está acompanhando a limpeza da obra com a empresa responsável, e dando continuidade à análise dos danos.

"A partir desta semana, ainda será realizada uma nova perícia com especialista técnico para análise mais profunda da estrutura da obra.

O boletim de ocorrência, que já foi iniciado no sábado, será finalizado na segunda-feira, após término do levantamento de todas as informações", diz o comunicado.

Com informações da reportagem de Brunella Nunes, colaboração para o TAB

__________* 

Jamil Chade - Ameaças sobre 2022 ampliarão isolamento político e econômico do Brasil

25/07/2021 04h00

Atualizada em 25/07/2021 16h34

As ameaças feitas por membros do governo de Jair Bolsonaro em relação às eleições presidenciais de 2022 vão ampliar o isolamento político, diplomático e econômico do Brasil, com um impacto importante para a credibilidade do país no cenário internacional.

Num cenário extremo de ruptura democrática no próximo ano, atores externos não descartam avaliar a imposição de sanções contra membros do governo e a suspensão de dezenas de acordos.

O dia em que meu amigo foi fantasiado de Besuntado de Tonga no Carnaval

Nas últimas semanas, as declarações do Palácio do Planalto questionando as eleições do próximo ano acenderam um sinal de alerta em alguns dos principais órgãos internacionais e em capitais pelo mundo.

Na ONU, o tema passou a ser avaliado por relatores, posicionando o Brasil num grupo de países onde a democracia já não seria uma garantia. Nos departamentos políticos da instituição, o risco avaliado é de que uma turbulência política no país instauraria um "terremoto" na América Latina, com repercussões que poderiam ir muito além das fronteiras nacionais.

O tema também desembarcou na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, onde as ameaças começam a ser monitoradas.

Pelo menos três embaixadores brasileiros consultados pela coluna admitiram que, nos últimos dias, foram questionados por membros de governos estrangeiros sobre a situação institucional do país e a solidez do processo eleitoral. "Há uma grande preocupação", afirmou um deles, na condição de anonimato.

"Quando algo assim ocorre na Bolívia, não se enxerga isso como uma preocupação internacional. Mas quando ocorre no Brasil, o temor é o de que uma nova área de instabilidade se crie num país com um peso geopolítico relevante no Atlântico Sul", explicou outro diplomata.

A crise brasileira ainda é tratada distante dos holofotes, diante do temor de governos estrangeiros de serem acusados de ingerência em assuntos internos de um país. Mas existe um consenso de que qualquer passo na direção de uma suspensão das eleições ou da recusa de Bolsonaro de deixar o cargo geraria uma reação internacional de condenação imediata.

Com sua imagem internacional já debilitada por conta do desmatamento e das mais de 500 mil mortes na covid-19, Bolsonaro corre o risco de se ver completamente isolado.

Poucos são hoje os presidentes de grandes potências dispostos a colocar encontros com Bolsonaro numa agenda de reuniões públicas nos próximos meses.

Políticos estrangeiros destacam como, já em 2016 nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, poucos foram os líderes internacionais que aceitaram ir até o Brasil por convite do então presidente Michel Temer. O motivo: a hesitação em se associar à turbulência política no país.

Naquele mesmo momento, mesmo líderes da ONU que foram ao Rio, se recusaram a encontrar membros do governo ou viajar até Brasília.

Cenário de suspensão de projetos de cooperação, sanções e enterro de acordos comerciais

Mas, hoje, uma ruptura diplomática transformaria o presidente numa figura "tóxica". No exterior, governos admitem que dezenas de projetos de cooperação em diferentes setores seriam suspensos, como no caso de programas de bolsas de educação, transferência de pesquisas científicas, financiamentos externos e mesmo no setor ambiental.

Dependendo da dimensão da ruptura, países Ocidentais admitem que o "arsenal" de medidas que poderiam adotar iria incluiria uma avaliação sobre instaurar uma recusa em receber ministros e o presidente em viagens no exterior, bloquear repasses de fundos internacionais ou, em casos extremos, sanções específicas contra membros do governo. Tampouco estaria excluído do cenário um embargo na venda de armas e munições.

Oficialmente, a UE garante que não existe neste momento qualquer estudo ou preparação de listas de eventuais embargos que poderiam ser adotados contra o Brasil, seu maior parceiro comercial na América Latina.

Hoje, porém, a UE mantém sanções contra o governo de Nicolas Maduro, na Venezuela, contra as autoridades bielorussas, nicaraguenses e turcas. No total, Bruxelas mantém medidas de restrição ou sanções contra grupos em mais de 30 países.

Um dos golpes mais diretos, porém, viria no setor econômico. Para diplomatas, uma ameaça autoritária no Brasil seria o "último prego" no caixão de um acordo comercial entre Mercosul e UE: O tratado foi negociado por 20 anos e, em 2019, os dois blocos chegaram a um entendimento para a abertura das fronteiras aduaneiras.

Mas, para entrar em vigor, o tratado precisa ser ratificado por todos os parlamentos europeus e, hoje, a resistência é grande de dar a Bolsonaro um "reconhecimento" internacional. Com o risco de uma ruptura democrática, o projeto inteiro seria abandonado.

Acordos que estão sendo negociados com outros parceiros, como no caso do Canadá, seriam duramente abalados, enquanto os cenários desenhados pelos próprios diplomatas brasileiros é de uma avalanche de denúncias de violações de direitos humanos, a imagem de exilados brasileiros no exterior e o fim do papel do país como um interlocutor legítimo. .

Não por acaso e temendo esse isolamento ainda maior, o bolsonarismo tem ampliado seus contatos com grupos políticos de extrema-direita pelo mundo, incluindo membros de partidos como o Vox (Espanha), o governo de Viktor Orbán (Hungria) ou recebendo representantes do grupo Alternativa pela Alemanha, sob suspeita por parte das autoridades alemãs de difundir ódio e ideologia extremista.

Auditoria da OEA já alertou para tentativa de deslegitimar as eleições

Para a comunidade internacional, o Brasil tem sido transparente suficiente em relação às suas eleições e aceito inclusive um monitoramento de órgãos estrangeiros.

Em 2018, a própria OEA enviou uma delegação internacional para monitorar as eleições no Brasil. Em 2020, uma vez mais, houve um acordo com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luis Roberto Barroso, para que as votações municipais contassem com o acompanhamento de observadores internacionais.

Com 14 especialistas de nove nacionalidades, o grupo fez uma análise substantiva sobre aspectos técnicos relacionados com o processo eleitoral, financiamento político, justiça, participação política das mulheres, participação dos povos indígenas e dos afrodescendentes.

Um capítulo inteiro foi destinado à tecnologia eleitoral. Em seu informe final, a OEA constatou que "o calendário eleitoral prevê vários mecanismos para testar e auditar o sistema de votação eletrônica".

"Entre eles está o Teste de Segurança Pública, para o qual o TSE convida especialistas externos em tecnologia a testar as barreiras de proteção do sistema", constatou a OEA.

No informe, os monitores internacionais destacam como a autoridade eleitoral concebeu um método empírico para testar o funcionamento do sistema de votação eletrônica.

"Embora tais procedimentos tragam confiança e transparência ao processo, o grupo de monitoramento internacional recebeu novamente, tal como em 2018, preocupações de alguns eleitores solicitando a existência da cédula de papel", disse.

Para a OEA, porém, houve uma expansão dos testes realizados entre 2018 e 2020 e indicou que suas recomendações apresentadas há três anos foram implementadas.

O problema, segundo a missão da OEA, seria a falta de publicidade sobre as atividades realizadas durante a fase de a auditoria do dia da eleição. "Ao mesmo tempo, é recomendável garantir a presença de partidos políticos, até agora escassos, nas diferentes instâncias de auditoria e controlo das urnas de voto", sugeriu.

Outro problema destacado pela OEA é a "crescente circulação de notícias falsas, em particular as que visavam desacreditar e minar a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro durante os períodos eleitorais".

Para a missão da OEA, os "esforços feitos pela TSE que envolveram diferentes atores, incluindo os meios de comunicação social, instituições governamentais, organizações da sociedade civil e os meios de comunicação social" devem ser aplaudidos.

"As ações promovidas pela autoridade eleitoral têm sido fundamentais para minimizar o impacto da circulação de notícias falsas", completou a OEA.

__________* 

Opinião - Elio Gaspari: O Haiti não é aqui

Natalia Viana disseca processos que acabam arquivados e conta como ressurgiu a participação militar na segurança

Está nas livrarias "Dano Colateral - A intervenção dos Militares na Segurança Pública", da repórter Natalia Viana, diretora da Agência Pública de Jornalismo Investigativo. É um mergulho na gênese e nos resultados do reaparecimento dos militares na política. Ela foi do andar de baixo, falando com soldados, policiais, vítimas e camelôs, ao de cima, ouvindo ex-ministros, magistrados e generais. Leu processos e presenciou audiências. Desse acervo resultou o livro, uma reportagem que dá vida a siglas como GLO (Garantia da Lei e da Ordem) e Apop (o "agente perturbador da ordem pública"). Se, durante uma GLO, a tropa mata um Apop, isso resulta num "dano colateral".

Ela conta histórias como a de Evaldo, que, num domingo de 2019, ia com a mulher e o filho de sete anos a um chá de bebê e morreu quando soldados atiraram contra seu carro. Luciano, que estava por perto e tentou socorrê-lo, também foi baleado e acabou morrendo. Foram 62 tiros. O julgamento da patrulha que confundiu o carro de Evaldo com o de bandidos, e Luciano sabe-se lá com o que, poderá acontecer em julho.

Natalia Viana seguiu 34 outras histórias. Elas têm um padrão de acobertamento e impunidade. Num caso surgiu a figura da "legítima defesa imaginária".

Presidentes com origens tão diversas como Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro recorreram às GLOs. A mais espetaculosa (e inútil) foi o "golpe de mestre" de Temer com a intervenção na segurança do Rio de Janeiro. Nela apareceu a estrela do general Braga Netto, atual ministro da Defesa.

Natalia Viana disseca processos que acabam arquivados e conta como ressurgiu a participação militar na segurança. Daí para a política foi um pulo.

Houve uma mudança na atividade do Exército e ela começou com a ida da tropa brasileira para a força de paz da ONU ao Haiti. Entre 2004 e 2017 passaram por lá 37 mil militares das três Forças. Se no século passado houve a FEB na Itália, neste há a Minustah do Haiti. Seis de seus nove comandantes foram para o governo de Jair Bolsonaro. Na Itália a FEB combateu um exército. No Haiti buscava-se manter a ordem. Coisas que se fizeram em Port au Prince, quem sabe poderiam ser feitas no Brasil. Deu no que deu e os próprios generais admitiram que as GLOs enxugam gelo. Do Haiti, nem se fale.

O dispositivo constitucional que permitiu a militarização de atividades policiais foi concebido pelo general Leônidas Pires Gonçalves em 1988. Cabe contudo uma ressalva. Leônidas deixou o Ministério do Exército em 1990 e morreu em 2015. Por experiência própria, não gostava da ideia de envolver o Exército em atividades policiais. Ele conhecia o perigo dessa mistura e avisava: "Quartel não tem algemas".

__________* 

Opinião: Opinião - 7 coisas que ajudam em conversas difíceis

Kamilla Camilo - Nicole Avelino
Kamilla Camilo Imagem: Nicole Avelino
Kamila Camilo

25/07/2021 06h00

Num país onde a polarização se tornou a regra, onde preferimos buscar concordância ao invés de convergências, quem é que terá suas necessidades atendidas? Na semana em que bilionários escolhem viajar para o espaço em vez de investirem seu tempo e recursos em reduzir as desigualdades, de que lado estamos? Se o muro das desigualdades não existisse, haveria lado para estar?

Faço parte de um grupo que semanalmente discute política e expansão de consciência, é um espaço para ser vulnerável, aprender com o diferente e sobretudo escutar. Com os ânimos em relação a Cuba aquecidos começamos expor no WhatsApp nossas visões até que um dos membros propôs que fizéssemos o diagrama de Nolan para observarmos como estavam nossas posições políticas e se, desde que passamos a pensar no tema, nossas crenças e percepções mudaram.

Curiosamente todas as pessoas estavam em uma posição mais progressista da matriz, uns mais à esquerda e outros mais ao centro. Compartilhamos os resultados e, quando nos encontramos, o Pedro Ivo (diretor de Desenvolvimento Humano na prefeitura de Mogi das Cruzes) fez uma provocação: E se ao invés de pensarmos em direita e esquerda, progressista e conservado,r nossa matriz fosse: JUSTIÇA - PROSPERIDADE e SEGURANÇA E LIBERDADE? Ou então, se a matriz fosse dos arquétipos: PAI - MÃE e VELHO E JOVEM.

Incendiar a democracia é bem mais grave do que incendiar Borba Gato. Mas...

Alguém é contra ter prosperidade? Alguém é contra justiça? Quem não deseja em algum nível segurança e liberdade? Não é função dos pais cuidarem e proverem? Se nos conectarmos com nossos ancestrais e não negligenciarmos a força, vitalidade e vida dos jovens, será que não aumentaremos nossas chances de mudar aqui e agora?

Sei que não é fácil pensar em co-criar presentes melhores num país com 14 milhões de pessoas sem emprego, onde uma mulher é assassinada por hora, onde a violência policial é constante, onde mesmo com abundância de terra, alimento e água as pessoas ainda morrem de fome. Mas certa vez ouvi que o Brasil era um terra onde tudo que se planta dá e hoje quero te convidar a recomeçar. Te convidar a se atrever a pensar um presente melhor para as pessoas e para natureza, a partir das suas atitudes, crenças e visão de mundo.

Comentei que estávamos todas nos quadrantes libertários da matriz e conclui, e peço licença poética para uma metáfora que é: liberdade e justiça, segurança e prosperidade são necessidades que todas as pessoas terão ao longo da vida e que cada figura no sistema complexo que vivemos tem seu papel para suprir.

Quando atribuímos ao Estado o papel de provedor da segurança não devemos nos eximir de termos atitudes seguras, se dissermos que ao mercado cabe o fomento à prosperidade, o que nós fazemos como indivíduos para que o mundo seja mais próspero? É mesmo melhor dar do que receber? Se queremos um mundo mais equitativo e justo, porque tratamos as pessoas que amamos com injustiça?

Não tenho as respostas, mas como vocês, estou buscando essa construção e quero incluir mesmo as pessoas com quem não concordo, porque elas também estão no mundo, e para isso acredito que podemos fazer algumas coisas que ajudam tanto nas conversas difíceis ´quanto na formação de pessoas que estão mais abertas ao diálogo:

  1. educar as meninas: reduzir a desigualdade de gênero reduz a pobreza e ajuda o meio ambiente

  2. escuta ativa: crescemos lutando para nos fazer ouvir, mas escutar com atenção é o segredo para falar com intenção e tocar mais corações

  3. cuidar da saúde mental: se a gente se ocupar das próprias neuras não teremos tempo para ficar apontando a dos outros, se tiver acesso seja rede de apoio pra quem não tem

  4. praticar empatia: não quer dizer se colocar no lugar do outro, isso é impossível, mas busque sentimentos em você que te ajudem a compreender melhor a necessidade não atendida do outro

  5. abraçar: 20 segundos e seu cérebro vai estar tão alegrinho que nem vai dar mais vontade de "tretar"

  6. respirar: responder na ânsia só para vencer uma discussão não vai funcionar, respira e NÃO PIRA

  7. cuidar de uma planta: qualquer uma, vale até um matinho desses que crescem na calçada, a natureza é uma bela professora de paciência

Tenta colocar qualquer uma dessas coisas em prática nos próximos dias e me conta o que aconteceu.

__________* 

Sem água, sem energia e sem gestão o Brasil empaca

Ueslei Marcelino/Reuters
Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

Gustavo Veronesi, Cesar Pegoraro e Marcelo Naufal

09/07/2021 06h00

Rios e reservatórios não são extensão da tomada elétrica e dependem diretamente das florestas naturais para a sua sustentabilidade. Da mesma forma, o desmatamento, as mudanças climáticas e o fenômeno natural La Niña não são os únicos fatores de agravamento da crise hídrica, considerada a mais drástica dos últimos cem anos.

Reservatórios à beira do colapso, risco iminente de apagão no abastecimento de água e na energia elétrica são, na verdade, reflexo da má gestão pública do país, com alto impacto nas atividades econômicas e na vida da população.

Alertas de especialistas, da ciência e de órgãos públicos de referência, como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a ANA (Agência Nacional de Água e Saneamento), vêm apontando dados alarmantes de desmatamento e do impacto da perda de florestas nativas no equilíbrio dos recursos hídricos. Porém, o governo ruma na contramão e propôs como solução uma medida provisória que enfraquece a ANA e ainda mais o Ibama, órgãos estratégicos do Sistema Nacional de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Esta solução é mais uma tentativa de acabar com a gestão ambiental integrada, sendo um desrespeito à legislação vigente.

A medida provisória pode tirar da ANA a atribuição de regular o uso da água e, do Ibama, o controle dos ecossistemas. A mudança repassa a um novo comitê, presidido pelo Ministério de Minas e Energia, o poder para definir a vazão dos rios e reservatórios de usinas hidrelétricas. O objetivo do governo é criar uma Câmara de Regras Operacionais Excepcionais para usinas hidrelétricas, em detrimento dos demais usos da água garantidos na lei vigente.

Em contraponto, tramita na Câmara dos Deputados, sem prioridade, o projeto aprovado no Senado Federal de emenda à Constituição que inclui o acesso à água potável como direito fundamental dos brasileiros. A Lei das Águas do Brasil já estabelece como prioridade da Política Nacional de Recursos Hídricos o uso múltiplo da água, ou seja, que a gestão e a governança desse recurso natural essencial à vida devem garantir todas as atividades humanas e dos ecossistemas. E, em caso de escassez ou falta d'água, a prioridade legal é para o consumo humano e a dessedentação de animais.

Vale relembrar que a ONU (Organização das Nações Unidas) declara que o acesso à água e ao saneamento são direitos humanos e que o Brasil é signatário da Declaração dos Direitos da Água desde a Eco-92. Portanto, diante desse quadro crítico, passar a boiada sobre as políticas públicas capazes de fazer enfrentamento à emergência climática e à solução de conflitos por uso da água é agravar ainda mais o problema.

O Sistema Nacional de Meteorologia (SNM) emitiu alerta de emergência hídrica para o período de junho a setembro para a Bacia do Rio Paraná, que abrange os estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. É a primeira vez que o órgão emite um alerta desta natureza, com reforço de outros centros internacionais de análise climática. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) e o Ministério de Minas e Energia também apontaram que essa é a pior seca da série histórica dos últimos 111 anos.

A imagem mais emblemática da gravidade desta crise hídrica está nas Cataratas do Iguaçu, praticamente secas, com apenas 308 mil litros de água por segundo, ou 20% da vazão considerada normal. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) mostram que a média histórica de chuvas entre janeiro até o fim de junho em Foz do Iguaçu também diminuiu drasticamente.

Ainda no Paraná, a Região Metropolitana de Curitiba vem sofrendo os efeitos da estiagem desde 2020, quando foi implantado o rodízio no abastecimento de água. No último dia 14, o nível dos reservatórios do Sistema de Abastecimento de Água Integrado de Curitiba e Região Metropolitana chegou a 51,82%.

No estado de São Paulo a crise no abastecimento público afetou drasticamente a população nos anos de 2014 e 2015. No ano anterior o volume de água armazenado nos reservatórios para enfrentar a estiagem era de 65%. Agora, já chegamos a 50% e os dados de precipitação nas bacias hidrográficas que abastecem o Sistema Cantareira, responsável por 70% do abastecimento público na Região Metropolitana de São Paulo, foram os mais baixos registrados desde 2016.

Apesar do risco de racionamento de água e do grave impacto à saúde da população, ironicamente foi o setor de energia que deu o alarme, por meio da mudança na "bandeira tarifária" e o aumento nas contas dos consumidores por acionamento das termoelétricas. Vale lembrar que as termoelétricas resultam em emissão de gases de efeito estufa e intensificação das mudanças climáticas, o que piora ainda mais a situação para o futuro.

E não há até o momento uma campanha para a redução no consumo de água e de energia dirigida aos grandes usuários e à população em geral. Para lembrar, um dos primeiros atos do atual Governo Federal foi acabar com o horário de verão no Brasil, dando um falso sinal à população de que medidas educativas de economia e uso sustentável não são necessárias.

Agora é urgente combater as causas dessa crise com soluções integradas, valorizando a governança, a participação da sociedade, os órgãos técnicos e a ciência. A gestão integrada da água e da floresta é estratégica para o país. Sem floresta não há água. Combater o desmatamento na Amazônia e restaurar a Mata Atlântica - florestas que mantêm o equilíbrio do ciclo hidrológico, é o caminho que o Brasil deve trilhar para minimizar os impactos do clima sobre os recursos hídricos.

Gustavo Veronesi, Cesar Pegoraro e Marcelo Naufal integram a equipe da causa Água Limpa para Todos na Fundação SOS Mata Atlântica.


__________* 

O que cidades que já vivem racionamento revelam sobre futuro da crise da água

Baixo nível de represas que abastecem Curitiba tem limitado a oferta de água aos moradores - Agência de Notícias do Paraná
Baixo nível de represas que abastecem Curitiba tem limitado a oferta de água aos moradores Imagem: Agência de Notícias do Paraná

João Fellet - @joaofellet

Da BBC News Brasil em São Paulo

24/07/2021 08h40

Atualizada em 24/07/2021 09h32

Com ao menos dois meses de período seco ainda pela frente, pelo menos oito cidades nas regiões Sul e Sudeste já estão limitando a oferta de água à população para lidar com a baixa dos reservatórios.

Estão sendo implantados esquemas de rodízio de água em Curitiba (PR), Santo Antônio do Sudoeste (PR), Pranchita (PR), Itu (SP), Salto (SP), São José do Rio Preto (SP), Bauru (SP) e Bagé (RS).

Em Curitiba, que está sob racionamento desde março de 2020, órgãos estaduais chegaram a contratar aviões para induzir precipitações sobre a cidade.

Consumidores devem pagar R$ 13,1 bi por uso de energia de térmicas em 2021

As medidas emergenciais são adotadas enquanto muitos reservatórios nas regiões Sul e Sudeste registram seus menores índices em várias décadas.

O quadro afeta tanto a distribuição de água quanto a produção de eletricidade, pois as hidrelétricas respondem por cerca de 60% da capacidade de geração do país.

Com os reservatórios das usinas também em baixa, o governo recorre a termelétricas, que são mais caras, elevando o preço da energia para os consumidores.

E o cenário tende a se agravar, já que o período chuvoso não costuma se iniciar antes de outubro.

Em maio, o SNM (Sistema Nacional de Meteorologia) emitiu um alerta de emergência hídrica para a região hidrográfica da Bacia do Paraná entre junho e setembro de 2021.

A bacia abarca boa parte dos estados de Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná, além do Distrito Federal.

Ações de curto e longo prazo

Várias cidades já têm adotado medidas pontuais para lidar com a crise — como obras em reservatórios e a busca por outras fontes de água.

Em Curitiba, a companhia paranaense de saneamento testou um método ainda pouco usado no Brasil.

Um avião passou a borrifar água em nuvens para induzir precipitações nos reservatórios da cidade. A empresa não informou se a estratégia teve sucesso.

Para Angelo Lima, secretário-executivo do Observatório da Governança das Águas — entidade formada por 60 instituições e 17 pesquisadores que acompanham a gestão hídrica no Brasil —, o cenário exige ações tanto emergenciais quanto de médio a longo prazo.

Ele diz que, no curto prazo, os órgãos que compõem o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, como os comitês de bacias hidrográficas, deveriam se reunir para debater soluções para a crise.

Comparação mostra impacto da seca no Lago das Brisas (MG): a imagem à esquerda foi registrada em 12 de junho de 2019 e a imagem à direita, em 17 de junho deste ano - NASA - NASA
Comparação mostra impacto da seca no Lago das Brisas (MG): a imagem à esquerda foi registrada em 12 de junho de 2019 e a imagem à direita, em 17 de junho deste ano Imagem: NASA

As medidas emergenciais, segundo Lima, devem garantir a oferta de água para a população e para a alimentação de animais — ações que devem ser priorizadas em situação de escassez, conforme determina a Lei das Águas, de 1997.

No entanto, no fim de junho, o governo federal publicou uma MP (Medida Provisória) que dá ao Ministério de Minas e Energia peso maior de decisão sobre as ações a serem tomadas para lidar com a crise hídrica.

A MP 1055 tem como fim "garantir a continuidade e a segurança do suprimento eletroenergético no país".

A medida criou um grupo interministerial, chefiado pelo Ministério de Minas e Energia, para coordenar a resposta do governo à crise.

Para Lima, ao colocar o Ministério de Minas e Energia na liderança do grupo, o governo sinaliza que priorizará a geração de eletricidade, o que pode prejudicar ainda mais o abastecimento da população.

Ele afirma que nem mesmo a ANA (Agência Nacional de Águas), órgão federal responsável por regular os serviços de abastecimento, foi colocada no grupo.

A composição do grupo pode ter cálculo eleitoral. Analistas consideram que um apagão no sistema elétrico brasileiro seria uma grande ameaça à candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição.

Lima afirma, porém, que o setor elétrico não aprendeu com crises anteriores e deixou de adotar medidas que poderiam atenuar a emergência atual, como aprimorar a rede de distribuição para reduzir as perdas de energia.

Em 2019, segundo um relatório da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), as perdas representaram 13,8% de toda energia consumida.

Metade das perdas se deveu a falhas técnicas, e a outra metade, a furtos (ligações clandestinas e desvios da rede).

O índice de perdas tem se mantido estável nas últimas décadas. Em 2008, segundo a ANEEL, as perdas respondiam por 13,6% da energia consumida.

As Cataratas do Iguaçu foram impactadas pela baixa vazão dos rios na Bacia do Paraná - Karine Felipe/BBC - Karine Felipe/BBC
As Cataratas do Iguaçu foram impactadas pela baixa vazão dos rios na Bacia do Paraná Imagem: Karine Felipe/BBC

Conflitos por água

Angelo Lima diz que também são necessárias medidas para garantir a oferta de água no médio e longo prazo.

Uma das ações prioritárias, segundo Lima, é zerar o desmatamento na Amazônia para assegurar a manutenção do fenômeno conhecido como "rios voadores".

O fenômeno se deve à àgua que as árvores da floresta bombeiam na atmosfera por meio da evapotranspiração. Segundo especialistas, parte dessa água se transforma em chuva e ajuda a irrigar o centro-sul do Brasil.

Conforme a floresta é derrubada, no entanto, os "rios voadores" escasseiam, reduzindo as chuvas ao sul do bioma.

Lima defende ainda a preservação das florestas no próprio centro-sul do país — neste caso, para garantir o bom funcionamento do sistema hídrico local.

Quando a floresta está preservada, diz ele, a água das chuvas tende a infiltrar no solo e a alcançar depósitos subterrâneos, os lençóis freáticos e aquíferos.

São esses depósitos que alimentam as nascentes dos rios durante o ano todo, inclusive no período seco.

Já quando a floresta é derrubada, e o solo fica desprotegido, a água tem mais dificuldade para penetrar no solo, o que dificulta a recarga dos depósitos e diminui a vazão dos rios na seca.

Outra ação importante, diz Lima, é despoluir rios e cuidar de suas margens para evitar assoreamento.

O caso de duas cidades hoje sob racionamento mostra como essas ações poderiam ter impactos benéficos.

Itu e Salto são atravessadas pelo Tietê, um dos maiores rios de São Paulo. Mas, como o rio chega às duas cidades poluído por dejetos despejados em sua maioria na Grande São Paulo, o aproveitamento das águas para o abastecimento público fica prejudicado.

Despoluição do rio Tietê, na Grande São Paulo, poderia atenuar falta de água em cidades ao longo de seu curso, como Itu e Salto - Agência Brasil - Agência Brasil
Despoluição do rio Tietê, na Grande São Paulo, poderia atenuar falta de água em cidades ao longo de seu curso, como Itu e Salto Imagem: Agência Brasil

O que leva a outro ponto importante: para Lima, a gestão das águas (e dos rios) deve ser feita de modo integrado.

Cidades que poluem um rio prejudicam não só seus moradores, como também os que estão rio abaixo. Por isso todas as prefeituras deveriam se sentar à mesma mesa para discutir como gerenciá-lo, diz ele.

Lima afirma que já existem instâncias aptas a lidar com questões desse tipo e mediar conflitos por água: os comitês de bacias hidrográficas.

Os comitês reúnem representantes da comunidade e do poder público (inclusive prefeituras) para deliberar sobre a gestão das águas em cada bacia.

Porém, Lima afirma que muitas vezes faltam recursos para implantar as ações definidas pelos grupos.

"Acredito que a gente precisa discutir a garantia de um orçamento mínimo para esses órgãos, assim como já existe para a Saúde e a Educação", defende.

Também é importante, segundo ele, que a questão hídrica se torne uma agenda política permanente — e não só nos períodos de escassez.

Lima afirma que, se o país continuar a empurrar o problema com a barriga, os conflitos por água tendem a se agravar — especialmente à medida que as mudanças climáticas mudarem os padrões de chuvas no país, como previsto.

O número de conflitos já está em alta. Em 2020, segundo um relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT), havia 350 conflitos por água no país.

O número é quase cinco vezes maior do que em 2011 (68), quando o órgão começou a monitorar o tema.

__________* 

Análise: Página Cinco - Dragões de Rubião sofreriam ainda mais com o atraso dos nossos costumes

Murilo Rubião - Arquivo
Murilo Rubião Imagem: Arquivo
Página Cinco

Colunista do UOL

26/07/2021 10h04

"Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes. Receberam precários ensinamentos e a sua formação moral ficou irremediavelmente comprometida pelas absurdas discussões surgidas com a chegada deles ao lugar.

"Poucos souberam compreendê-los e a ignorância geral fez com que, antes de iniciada a sua educação, nos perdêssemos em contraditórias suposições sobre o país e a raça a que poderiam pertencer".

As primeiras linhas de "Os Dragões" dão uma boa ideia do que os leitores encontram nos contos de Murilo Rubião. São os seres fantásticos que se surpreendem ao chegar na cidade e encontrar um povo com práticas que deveriam estar enterradas no passado. As pessoas, por sua vez, não exibem nenhum tipo de espanto. Parecem imediatamente normalizar os dragões e os colocam no centro numa discussão ordinária, buscando enquadrá-los ao que já está estabelecido sabe-se lá desde quando.

Relacionadas

A raiva mata, o ódio ressuscita e o machão vira comida de urubu

Os dragões se surpreendem com o atraso daqueles costumes. Os atrasados nos costumes, por sua vez, olham para os dragões e reagem da mesma forma como reagiriam à chegada de qualquer ser um pouco diferente, mas que não merece a exaltação de ninguém. Chegassem hoje, esses dragões se surpreenderiam e sofreriam ainda mais com o contraditório avanço dos retrocessos.

Uma normalidade que segue perturbadoramente inabalável mesmo diante de um acontecimento fantástico é uma das principais marcas da literatura de Rubião. Em seus contos encontramos um sujeito que convive com um coelho que curte um cigarro e gosta de se metamorfosear em outros bichos, um camarada que ninguém sabe muito bem se morreu ou não, um homem cujos poderes mágicos esmaecem num mundo apático e tacanho. Nada disso deslumbra ninguém.

Deslumbra ninguém dentro das histórias, digo. Com o leitor é diferente. Menos reconhecido do que merecia, o contista dificilmente desaponta quem lhe dá uma chance. Rubião escreveu um tanto, reescreveu muito e publicou com parcimônia. Foram pouco mais de meia dúzia de livros em vida (nasceu em 1916, morreu em 1991). Produziu cerca de cinquenta contos que, em certos casos, lhe consumiram anos ou décadas de trabalho. Publicou 33 dessas narrativas breves, todas elas reunidas pela Companhia das Letras num volume de bolso, com 232 páginas, que recebe o nome de "Obra Completa". Uma obra tão breve quanto marcante.

Mineiro, Rubião cursou direito, trabalhou como jornalista e foi um dos responsáveis pela criação do importante Suplemento Literário do Diário Oficinal de Minas. Traços da carreira como funcionário público estão presentes em seus contos. Aqui e ali encontramos situações e alusões à burocracia que nos remetem a Herman Melville e seu Bartleby e também a Franz Kafka, apontado como chave para entender o brasileiro desde que suas primeiras ficções começaram a chegar aos leitores.

Rubião, no entanto, dizia só ter conhecido a obra do tcheco após a publicação de seus trabalhos inaugurais. Assumia, isso sim, a influência da faceta mais fantástica da obra de Machado de Assis. E também da não menos fantástica "Bíblia", tanto que usa citações do livro mitológico como epígrafes de boa parte de suas histórias.

Há ainda quem aponte o contista como um elo possível da literatura brasileira com o realismo fantástico que marcou o boom da literatura latino-americana na segunda metade do século 20. É uma aproximação válida, ainda que a fantasia em Rubião apareça de forma bem diferente do que encontramos em "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez, por exemplo. Uma, apesar de ser tratada com indiferença, é estranha ao universo em que aparece, a outra é parte indissociável de seu universo e uma chave fundamental para aquela forma de compreender o mundo.

__________* 

Reinaldo Azevedo - Incendiar a democracia é bem mais grave do que incendiar Borba Gato. Mas...

Colunista do UOL

26/07/2021 09h08

Enquanto milhares de pessoas pediam o seu impeachment país afora, no sábado, o presidente Jair Bolsonaro voltava a ameaçar as eleições de 2022. Afirmou àquela gente estranha que fica às portas do Palácio da Alvorada:

"Na quinta-feira, vou demonstrar em três momentos a inconsistência das urnas, para ser educado. Não dá para termos eleições como está aí".

Haverá eleições em 2022. E, tudo indica, como está aí — vale dizer: sem voto impresso. E, nota-se, o presidente agora não se limita a contar mentiras. Ele marca data para a lorota. Não vai provar nada. Mas a reiteração da ameaça indica que ele não desistiu de atear fogo às instituições.

Na Folha: Se Aras se omitir diante de ameaça golpista, que Senado o rejeite

CRIME MAIS GRAVE
Incendiar a Constituição é crime bem mais grave do que meter fogo na estátua de Borba Gato, é claro! Nesse caso, estamos diante de uma estupidez de meia-dúzia de cretinos que, na prática, fazem o jogo do bolsonarismo. É gente que não aprendeu nada com 2013 -- QUANDO BOLSONARO COMEÇOU A SER ELEITO -- e que, incapaz de entender a política no Brasil e suas vicissitudes, resolve importar dos EUA modelos de contestação. Mais ou menos como Sergio Moro importou daquele país uma legislação anticorrupção.

Felizmente, representam uma minoria espalhafatosa e irrelevante. Mas o bolsonarismo, é certo, saberá usar o seu "juveniilismo" incendiário a seu favor. Não! Essa gente nada tem a ver com o povo. Como não tinham os violentos de 2013. E não porque esse povo seja bom e cordial... Isso é besteira. É que os pobres precisam ganhar a vida. Não têm tempo de fazer barricadas de desejos vagos e burros de reparação.

Não creio que prosperem desta vez. De todo modo, não lhes faltam pneus e disposição para a burrice. Torçamos para que prospere o bom senso — muito especialmente nos setores da esquerda capazes de pensar e ponderar. A ver. Parece que será assim. Quem tem miolos está ocupado em fazer alianças contra o governo, não em assustar a população.

De resto, as iniquidades que temos como herança têm de ser corrigidas por políticas públicas, não com extremismo minoritário para sair nas redes sociais.

DE VOLTA A BOLSONARO
As manifestações contra Bolsonaro deste sábado, embora menores do que as anteriores -- e convém pensar se o excesso de protestos não acaba por banalizá-los -- foram notícia mundo afora. As tentações golpistas do presidente e o papel das Forças Armadas no país foram destaques, entre outros, no The Guardian, no Le Monde e no Washington Post. Este último foi o mas claro ao abordar o eventual risco que a democracia corre no país.

É certo que a piromania institucional de Bolsonaro é, por si, perigosa — e se destaque que queimar a estátua de Borba Gato, ainda que uma burrice, não é tão grave como a morte de 550 mil pessoas —, mas também de difícil realização, não é? Já vimos que não lhe faltam setores obtusos da caserna, ainda que de pijama, mas também é preciso considerar que, para sobreviver, ele teve de buscar a saída na política. E se ajoelhou no altar que, durante a campanha de 2018, jurou destruir: o centrão.

Nesta segunda, ele se encontra com o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, que vai assumir a Casa Civil. Qualquer pessoa que se acerque de maneira fria e objetiva do quadro há de reconhecer que o acordo torna mais distante a hipótese de impeachment, o que não quer dizer que as forças que se opõem à sua permanência no poder devam deixar de evidenciar a delinquência do seu governo. O nome disso é luta política. Penso, no entanto, não ser o caso de convocar novo protesto para daqui duas ou três semanas. O que o segura no cargo também o desgasta. E é preciso que se dê o devido tempo para metabolizar a operação. Bolsonaro vai insistir na retórica incendiária porque o seu público quer ouvir suas teorias conspiratórias. Mas observem que seus blindados estão no centrão.

HORA DA POLÍTICA
E, parece-me, é mesmo da política que devem cuidar os que anseiam, para o bem da democracia, a cadeira hoje mal ocupada por Bolsonaro. Reportagem publicada pelo Globo informa que José Dirceu, por exemplo, já se encontrou com José Sarney, com Gilberto Kassab, com dirigentes da Força Sindical...

Ele não exerce cargo no partido, e sua influência não é nem sombra do que já foi, mas tem dito que o PT deve se aproximar de setores de centro, buscar interlocução com os evangélicos, dialogar com forças que não são de esquerda. Na sua visão, é preciso conversar com os que não querem Bolsonaro na Presidência, deixando a eleição para 2022. Vale dizer: a frente antibolsonarista é distinta de uma aliança eleitoral. A tese está correta.

E é, diga-se, o que Lula vem fazendo. Não existe interdição para o diálogo. Não se vence uma eleição no Brasil sem conquistar o eleitorado de centro e centro-direita — anda que as pessoas não se identifiquem por esses nomes. E também não se governa sem uma aliança com esses setores no Congresso. Daí que o ex-presidente converse com quem quer conversar. E isso não exclui nem o centrão. Como ele disse na entrevista que me concedeu no dia 1º de abril, aqueles parlamentares foram eleitos pelo povo.

Lula não é idiota e nunca foi do tipo que incendeia estátuas. Nem navios.

E A TERCEIRA VIA?
Por enquanto, a possibilidade de um único candidato da chamada "terceira via" parece difícil. E, com isso, não estou a dizer que uma postulação com essas características -- tão logo sejam definidas -- seja impossível. Mas é preciso não cair em certas ilusões.

A rejeição a Bolsonaro (59%) é alta, mas ela carrega, por óbvio, o eleitorado lulista. A de Lula é bem mais baixa, embora significativa (37%), mas ela carrega o eleitorado bolsonarista. Ocorre que as de outros postulantes, segundo o Datafolha, especialmente quando confrontadas com as diminutas intenções de voto, não são assim tão baixas: João Doria (37%), Ciro Gomes (31%), Luiz Henrique Mandetta (23%) e Eduardo Leite (21%). Note-se à margem: a baixa rejeição também pode ser falta de conhecimento, o que é um problema. Mais: por enquanto, novos pré-candidatos vão chegando para disputar o voto nem-nem — nem Lula nem Bolsonaro.

Também nesse caso, é hora da política, não é? Eu não acredito na construção do que chamo de "candidaturas negativas" — que representem só o repúdio à mal chamada "polarização". Para ser competitivo em 2022, é preciso criar uma identidade: bem ou mal — e eu acho malíssima e maligna —, Bolsonaro tem a sua. Ainda que acene com isso ou aquilo na economia, insistirá na guerra de valores. Lula retomará a bandeira do social e destacará a resposta necessária às iniquidades, que cresceram na gestão Bolsonaro. E, por óbvio, vai apelar à memória ainda bastante presente de seus anos de governo.

Como é que o candidato (ou candidatos) de um caminho alternativo a esses dois fala ao imaginário do eleitorado, afirmando a própria voz? Antes que alguém se consolide como "a" terceira via, convenham, é preciso que ganhe uma identidade.

Não adianta acusar Lula e Bolsonaro de tentarem sabotar esse nome alternativo porque não cabe a eles criá-lo, ora. É incorreto acusar a dupla de tentar tornar o país refém da polarização. A ideia de uma "terceira via", por si, é refém voluntária dessa construção. E precisa sair desse lugar.

CONCLUO
Ah, sim: teremos eleições no ano que vem. Nem o piromaníaco das instituições, que lidera um governo fanaticamente homicida, nem seus aliados objetivos -- os gatos-pingados que querem brincar de incendiar estátuas -- vão impedir.

__________* 

"O nome atual de Borba Gato é Jair Bolsonaro", diz Altman

Jornalista Breno Altman e um incêndio da estátua de Manuel de Borba Gato

247 - O jornalista Breno Altman chamou Jair Bolsonaro de  "Borba Gato" da atualidade, uma referência a Manuel de Borba Gato (1649-1718), integrante de um movimento de bandeirantes que escravizava índios e negros no Brasil Colonial. 

"O nome atual de Borba Gato é Jair Bolsonaro. Trata-se do legado da elite latifundiária e escravocrata, depois também burguesa e financeira, que liderou a formação do país e do Estado nacional, contra o povo. Bolsonaro representa essa canalha, sem disfarces. Como Borba Gato", escreveu o jornalista no Twitter.

Manifestantes incendiaram nesse sábado (24) a estátua de Borba Gato, inaugurada em 1963 e instalada na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. 

Algumas lideranças se pronunciaram sobre a iniciativa dos participantes do protesto, como o presidente nacional do Psol, Juliano Medeiros. "O que significa QUEIMAR a ESTÁTUA de um ASSASSINO diante do ato de ERGUER uma ESTÁTUA para um ASSASSINO?", escreveu ele no twitter. 

__________* 

Mídia internacional alerta para ameaça de "tomada militar do poder" no Brasil

Brasil chega aos 500 mil mortos pela Covid-19 com um governo negacionista e vacinação atrasada

247 - As manifestações de 24 de Julho com a bandeira Fora Bolsonaro tiveram ampla repercussão na mídia internacional. Essas manifestações "ecoaram do telejornal da rede pública alemã, Tagesschau, ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, do inglês The Guardian ao argentino La Nación e ao canal qatari Al Jazeera", informa o jornalista Nelson de Sá.

Também dos diários franceses Le Figaro e Le Monde ao semanal Le Journal du Dimanche, este com os protestos e um texto mais extenso, perguntando no título: "Jair Bolsonaro pode torpedear a eleição presidencial brasileira?".

O Washington Post chegou a publicar que "Bolsonaro disse que montaria uma tomada militar do poder. Agora, os brasileiros temem que ele possa estar lançando as bases", escreve o jornalista da Folha de S.Paulo.

A CNN, por sua vez, entrevistou uma "ex-fã" de Bolsonaro, Isa Soares, que agora diz: "Foi um erro. Foi o maior erro da minha vida".

Lula voltou a dar entrevista à televisão europeia, agora ao canal de notícias France24, que destacou sua declaração de que "Jair Bolsonaro é um presidente genocida". 

__________* Militares, PEÇO: simplesmente PENSEM

Meia-volta, volta e meia, os militares no Brasil

Civis que ocuparam o cargo de ministro da Defesa garantem que as Forças Armadas não embarcam numa aventura golpista. Eles sabem mais do que eu. No entanto tenho algumas dúvidas.

Não são dúvidas turbinadas pelo preconceito ou pelo ressentimento. 

Como jornalista, sempre destaquei ações positivas dos militares; no Congresso, mantive as melhores relações com assessores parlamentares das Forças Armadas, entre eles o general Villas Bôas.

Os FATOS ABALAM qualquer CERTEZA.

Desde a NÃO punição do general Pazuello até as recentes notícias sobre ameaças do ministro da Defesa, o curso dos acontecimentos nos leva à desconfiança. 

É difícil imaginar como uma sucessão de pequenas atitudes autoritárias pode conduzir a uma firme decisão democrática, no dia D e na hora H, como diz Pazuello.

Outro dia, um general ficou bravo comigo porque critiquei Pazuello por sua audácia ao assumir um cargo para o qual não tinha a mínima competência. 

Mencionei sua obediência cega a Bolsonaro, e o general entendeu minha crítica como uma tentativa de minar o conceito de disciplina dos militares.

E disse que era capaz de matar ou morrer pela pátria.

Na verdade, peço muito menos que matar ou morrer: simplesmente pensar. 

Bolsonaro não merece uma obediência cega.

Ninguém merece. 

O que está em jogo é uma noção de dignidade dos militares, discussão importante, pois, do seu prestígio, depende parcialmente a consistência da defesa nacional.

O perigoso esporte de humilhar generais, título do artigo que provocou a ira dos generais, continua a ser praticado.

O general Ramos soube de sua saída da chefia da Casa Civil pela imprensa e confessou que se sentiu atropelado por um trem.

O general Mourão é enviado numa missão a Angola para defender, em nome do Brasil, a política da Igreja Universal do Reino de Deus. 

Isso não é política de Estado, e a tarefa não deveria ser aceita por um general.

Tenho muita tranquilidade em discutir o conceito de obediência na política. 

NÃO acho que seja uma EXTENSÃO do CONCEITO de DISCIPLINA militar. 

Nisso, sempre discordarei dos generais da direita, assim como discordei dos generais da esquerda nos longos debates sobre o chamado centralismo democrático.

O melhor instrumento que a sociedade tem para tratar da questão militar que aparece volta e meia é precisamente determinar uma meia-volta: 

aprovar o projeto que impede militares da ativa de ocupar cargos civis no governo.

Votar logo essa proposta de voto impresso, decidir democraticamente se o teremos ou não.

Isso não basta. 

Concordo com o ex-ministro da Defesa Raul Jungmann: 

o Congresso é omisso ao não discutir os grandes temas da defesa nacional. 

A omissão dos parlamentares passa aos militares uma sensação de irresponsabilidade ou mesmo de ignorância em relação à dimensão do tema. 

Impede que a variável ambiental tenha a importância estratégica que merece, atrasa uma solução negociada para o futuro da Amazônia.

A fragilidade da representação política contribui também para que os militares tenham uma visão resignada do Congresso. 

Nos Anos de Chumbo, seus aliados eram da Arena, partido dos coronéis nordestinos; na eleição indireta à Presidência, o candidato dos militares era Paulo Maluf.

Não me espanta que o governo atual tenha se transformado numa associação entre militares e o Centrão.

A escolha ideológica sempre foi mais importante que uma sempre anunciada recusa à corrupção.

Durante a Guerra Fria, a ideia de se unir com qualquer um para evitar o comunismo tinha um poder maior de atração. 

De lá para cá, a sociedade brasileira evoluiu, o comunismo fracassou, apesar da sobrevivência autoritária do PC chinês.

Resistir aos impulsos autoritários de Bolsonaro dará à sociedade brasileira mais força contra qualquer nova ameaça aos fundamentos da democracia. 

O argumento ganha um peso maior se for aceito pelos militares. Ele é a base real da conciliação (¿•?).

Fernando Gabeira - assinatura

Por Fernando Gabeira

__________* 

Ditadura 'casou' Nara Leão com o sogro | Ancelmo - O Globo

Por Ancelmo Gois

Documento confidencial durante a ditadura

O bloco das trevas costuma ser meio tosco e apurar mal. Veja este documento (foto), de maio de 1975, em que o Estado Maior das Forças Armadas traz uma ficha do sociólogo Manuel Diegues Junior (1912-1991), católico praticante, então diretor do Departamento de Assuntos Culturais (DAC) do Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Diz lá que ele "é comunista" e casado com... Nara Leão. Na verdade, quem foi casado com a grande cantora foi o filho do sociólogo, o querido cineasta Cacá Diegues.
A descoberta foi feita por José Pedro, neto de Cacá e de Nara, que está dando uma assistência na produção de um documentário sobre a avó que ajudou a moldar a bossa nova.

__________* 

Organizadores avaliam que atos contra governo Bolsonaro perderam tração

Recesso da CPI da Covid, sem novas denúncias, seria uma das explicações. No entanto, manifestações chegaram a mais cidades do que no início do mês, ponderam
Manifestação de sábado na Avenida Paulista: menos participantes Foto: Agência O Globo/Edilson Dantas/24-7-2021
Manifestação de sábado na Avenida Paulista: menos participantes Foto: Agência O Globo/Edilson Dantas/24-7-2021

SÃO PAULO —As manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro, realizadas no último sábado perderam tração. Organizadores admitem que o número de pessoas nas ruas foi menor e avaliam que essa queda pode ser um efeito do recesso nos trabalhos da CPI da Covid no Congresso.

Apesar disso, tanto os organizadores, quanto cientistas políticos destacam um ponto positivo nos atos do fim de semana: uma maior capilaridade dos protestos, que foram registrados em mais cidades do que havia sido visto no início do mês.

Segundo Josué Rocha, da Frente Povo sem Medo, sem fatos novos vindos das audiências da Comissão Parlamentar de Inquérito, houve uma redução no número de pessoas que vão para as manifestações impulsionadas pelas notícias da semana.

Mas Rocha acredita que é preciso considerar o fato de os protestos terem se espalhados por mais cidades.

— A manifestação foi muito positiva na medida em que ampliou a capilaridade pelo país — afirmou Rocha, ao lembrar que houve registro de atos em 508 municípios, contra 408 no início do mês.

Para o cientista político Ricardo Antunes, professor de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, a presença de representantes de legendas fora da esquerda tradicional mostra que há espaço para um avanço das demandas apresentadas nas ruas.

Na avaliação do sociólogo, a vacinação anti-Covid-19 deve impulsionar a participação em protestos, e a tendência é que a pressão passe a ser dirigida ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), que detém o poder de decidir sobre a discussão do impeachment.

Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), uma das organizadoras do ato, acredita numa atuação mais coesa dos sindicatos, depois da divisão vista no governo Michel Temer.

As bandeiras de luta, diz Patah, são muito claras e elas estão se estruturando para manter uma única voz.

No sábado, manifestantes foram às ruas em todo o país para pedir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro, a aceleração da vacinação contra a Covid-19 e o aumento do valor do auxílio emergencial, hoje entre R$ 150 e R$ 375. Eles também protestavam contra supostas irregularidades nos contratos de vacinação negociados pelo governo federal e a participação dos militares na política.

__________* 

Número de mortes por Covid-19 mais que triplica entre adultos de 30 a 49 anos e afeta pessoas no auge da carreira profissional

Aumento de óbitos nessa faixa etária foi o maior nos primeiros sete meses deste ano comparado a todo 2020, aponta levantamento de Época; especialistas destacam impacto da vacinação em idosos
Paciente em UTI de hospital na cidade de Ribeirão Preto (SP) Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Paciente em UTI de hospital na cidade de Ribeirão Preto (SP) Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Receba notícias em tempo real no app.

RIO - Embora tenham aumentado em quase todas as faixas etárias ao longo de sete meses de 2021, as mortes por Covid-19 no Brasil cresceram mais entre grupos que geralmente estão no auge da carreira profissional, quando comparadas ao número de vítimas da doença em todo o ano passado. Os óbitos de adultos com idades entre 30 a 49 anos em decorrência ou por suspeita da doença mais que triplicaram nesse período, segundo levantamento feito por Época baseado no portal da transparência de registro civil, com dados de todos os cartórios brasileiros.

O número de vítimas da doença também foi maior que o dobro em outras duas faixas etárias levando em conta o mesmo período. Adultos entre 50 a 59 anos morreram 170,5% a mais, enquanto aqueles de 20 a 29 anos, 152,4%. A partir dos 60 anos, a alta começa a ser bem menor, o que atesta o impacto da vacinação nesses grupos. Entre os acima de 90 anos, houve queda na quantidade de mortes.

Especialistas apontam que o cenário é reflexo do recrudescimento da pandemia, que atingiu sua fase mais crítica no último semestre, e consequentemente, da falta de acesso ao sistema de saúde em meio a seu colapso. Segundo eles, apesar da alta generalizada de mortes, o impacto foi menor em idosos devido à vacinação, já que este grupo foi o primeiro a ser imunizado.

A faixa etária em que se observou aumento mais significativo foi a de 30 a 39 anos, cujos óbitos por Covid-19 cresceram 219,2% até o último dia 23. Entre 40 a 49 anos, o salto foi de 207% no mesmo período comparado com os números contabilizados desde março do ano passado, quando foi registrada a primeira morte por coronavírus no Brasil. Juntos, esses grupos correspondem a pouco menos de um terço dos habitantes do país e integram a população economicamente ativa (PEA), que vai dos 15 aos 65 anos, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Flourish logo

Maior exposição

De acordo com a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas, essa faixa etária foi mais afetada em termos proporcionais devido à maior circulação do vírus somado ao fato de essa parcela da população estar sendo vacinada somente a partir dos últimos meses. Além disso, ela explica que é um grupo mais exposto no dia a dia.

— A maioria dessa população tem que sair de casa, tem que trabalhar, pegar transporte público. Então essa exposição acaba sendo maior e em locais de alta circulação viral, onde tem mais oportunidade de entrar em contato com o vírus. Tem a ver com o vírus circulando e com o fato de essa população não ter sido vacinada, o que está acontecendo agora — disse Richtmann.

— Muitas mortes poderiam ter sido evitadas se a gente tivesse uma assistência melhor. Tem gente que não conseguiu nem ter assistência. Isso tem a ver também com toda a infraestrutura nacional.

Piora da pandemia

Em meados de março, o Brasil começou a entrar em sua fase mais crítica da pandemia, com recordes diários de infecções e óbitos por Covid-19. Impulsionada pelo surgimento da variante gama, também identificada como P.1, a segunda onda no país resultou no colapso da rede de saúde em meio à sobrecarga das UTIs, que operavam além da capacidade. Até o final de abril, menos de 14% da população brasileira havia sido vacinada com pelo menos uma dose, segundo dados da plataforma Our World in Data.

Para o infectologista Julio Croda, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e pesquisador da Fiocruz, o excesso de mortes está associado ao sistema de saúde combalido e à falta de gestão da pandemia. Ele ressalta que não há estudos que comprovem que a variante agrave as infecções, embora seja mais transmissível.

— O excesso de óbito é isso: quando você tem um colapso do sistema de saúde e as pessoas que poderiam ser salvas inclusive de outras doenças não têm acesso. É por conta da tragédia que a gente viveu. A variante gama ajudou por ser mais transmissível, mas foi a nossa falta de políticas públicas para a contenção do vírus que favoreceu isso. Faltou gestão da pandemia — afirmou Croda.

Flourish logo

Vacinação dos mais jovens

Entre os adolescentes, o aumento também foi menos acentuado, da ordem de 62,2% na faixa etária de 10 a 19 anos. Para os especialistas, tal dado comprova que esse grupo deve ser imunizado por último, após o término da vacinação nos maiores de 18 anos. Já os menores de 9 anos morreram 55% a menos esse ano, segundo o painel do registro civil, cujos dados são atualizados diariamente, conforme prazos estipulados por lei e sujeitos a correções.

— Crianças e adolescentes têm representado uma fração sempre muito menor, são menos acometidos proporcionalmente em comparação às outras idades. Provavelmente por terem menos receptores ao vírus. Essa razão não é muito clara, mas é provável que tenha a ver com essa adesão do vírus nas vias respiratórias que na criança é menor — explica o infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

— Esses dados demonstram que esse grupo deve ser o último a ser vacinado. É o que menos aumenta, confirmando que é menos acometido.

Mesmo no final da fila da imunização, não se exclui a necessidade de os adolescentes serem vacinados. Isso porque eles contribuem para a transmissão do vírus. A proteção desse grupo contra a doença, portanto, representaria uma ação importante no controle da pandemia.

— É indiscutível que o impacto nessa faixa etária é bem diferente do impacto nas demais. Vai chegar a hora desse pessoal se vacinar. E precisa. Há estudos mostrando que adolescente é bom transmissor do vírus. Não é só pensando na proteção do adolescente, mas em termos de controle da pandemia. A prioridade, porém, é acabar toda a população acima de 18 anos — defende Richtmann.

__________* 

Escravidão e revisão do passado abrem uma guerra nas escolas dos Estados Unidos

Estados republicanos impõem leis para proibir o que consideram um ensino que culpa os brancos e descreve o racismo como um problema sistêmico
Amanda Mars, de El País
26/07/2021 - 06:00 / Atualizado em 26/07/2021 - 10:03
Manifestantes comemoram decisão do júri do lado de fora de tribunal, após condenação de Derek Chuavin pela morte de George Floyd Foto: CHANDAN KHANNA / AFP
Manifestantes comemoram decisão do júri do lado de fora de tribunal, após condenação de Derek Chuavin pela morte de George Floyd Foto: CHANDAN KHANNA / AFP

Receba notícias em tempo real no app.

WASHINGTON — O condado de Loudoun, o mais rico dos Estados Unidos, um subúrbio perto de Washington, exemplifica a tensão que assola os Estados Unidos sobre como lidar com o racismo nas escolas. Um aspecto fundamental é o ensino de história. A escravidão é um acidente, uma mancha em um passado de grandeza, ou um elemento fundador dos EUA? O legado dessa mancha explica as desigualdades atuais? Os pais fundadores da nação eram pessoas boas, com alguma contradição ou atormentado por elas?

Como resultado das mobilizações contra o racismo após a morte de George Floyd, em 2020, muitas escolas têm reforçado suas palestras e programas educacionais contra a discriminação e o racismo sistêmico. Com isso, a reação conservadora também aumentou, com movimentos como o de Scott Mineo, um analista de segurança branco de 49 anos, que começou uma cruzada parental contra o que ele vê como doutrinação racial nas escolas e ressentimento contra crianças brancas.

Além disso, uma série de estados republicanos — Texas, Idaho, Oklahoma E Tennessee, entre outros — introduziram ou aprovaram regulamentos para restringir a forma como a História é contada.

Mineo lançou um site chamado “Pais contra a teoria crítica” e criou um espaço anônimo para que os alunos possam fazer upload de gravações do que os professores dizem em sala de aula.

— Vamos expor todos que fazem isso — diz Mineo.

Em maio, a Assembleia do Tennessee aprovou um projeto de lei que proíbe as escolas de ensinar que um indivíduo deve se sentir “responsável” por ações passadas de membros de sua raça; ou que alguém, por causa de sua raça, “é inerentemente privilegiado” ou promove “ressentimento”.

Ohio usa linguagem idêntica em várias partes de seu projeto de lei e proíbe os professores de ensinar que a escravidão foi qualquer coisa diferente de “uma traição ou falha dos verdadeiros princípios fundadores dos EUA, que incluem liberdade e igualdade”.

O historiador branco David Blight, professor de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Yale, alerta que todo país tem um passado que incomoda seus cidadãos.

— O movimento conservador vem tentando há meio século, de forma intermitente, reverter o ensino da parte mais incômoda de nossa História, porque acredita que nosso dever é formar patriotas, mas não educamos os jovens para serem apenas patriotas, nós os educamos para que entendam melhor a sociedade em que vivem, e isso pode torná-los melhores patriotas —  diz Blight.

Para ele, as leis em vigor “são horríveis, anti-intelectuais e antidemocráticas, um mau uso da História para produzir um certo tipo de cidadão”.

O debate de fundo é sobre se a escravidão — abolida em 1865, quase 100 anos após a fundação do país — deve ser tratada como mais um capítulo da História americana ou um elemento básico dela.

— Eles não querem enfrentar que [a escravidão] foi fundamental para a identidade da nação americana, seu desenvolvimento e crescimento, na Guerra Civil — afirma.

Um dos elementos centrais dessa disputa é a chamada Teoria Racial Crítica, cujo significado foi distorcido, como acontece em toda boa controvérsia intelectual e política. Hoje, ela pode ser usada, especialmente por parte da direita, para identificar qualquer análise que trate o racismo como um problema sistêmico nos Estados Unidos —  não individual, ou específico —  e, no ambiente escolar, qualquer atividade ou matéria que enfoque a discriminação por motivos raciais.

Outro dos protagonistas dessa briga é o Projeto 1619, uma análise histórica de como a escravidão moldou as instituições americanas nos campos político, social e econômico. Publicado no jornal americano New York Times em agosto de 2019, e idealizado pela repórter Nikole Hannah-Jones, o nome refere-se à data em que os primeiros africanos chegaram a solo americano, questiona se essa não deveria ser considerada a fundação dos Estados Unidos e reivindica as contribuições dos negros americanos para a formação do país.

Educação patriótica

Na ocasião de sua publicação, em meio a protestos pela morte de Floyd, o então presidente Donald Trump citou o projeto como exemplo da “propaganda tóxica” que dividiu o país e anunciou a criação do a Comissão de 1776 para promover uma “educação patriótica”.

Marvin Lynn, professor de Educação da Universidade de Portland, aplicou a Teoria Crítica Racial ao sistema educacional como forma de abordar as desigualdades nesse sistema, mas rejeita que a teoria esteja sendo ensinada em sala de aula. Lynn, um homem negro de 50 anos, lamenta a forma como o passado lhe foi contado.

— Eles me ensinaram que a América é um grande país e que os pais fundadores foram homens honestos e de grande integridade. Não soube nada sobre Sally Hemmings, que era escrava de Thomas Jefferson e tinha filhos com ele que também eram escravos, até que me tornei adulto — explica.

Lynn é pai de três meninos de 19, 15 e 13 anos, que frequentaram escolas públicas na maior parte do tempo e “nada aprenderam sobre sua história de negros, ou do passado na África”.

— Esse movimento quer restringir ainda mais o currículo, é realmente um movimento racista.

No condado de Loudoun, a luta vai muito além da História. Um grupo de pais, que inclui Mineo, processou o Conselho Escolar do condado alegando que os professores incorporaram “teorias políticas radicais e polêmicas” no currículo e estão pedindo às crianças que os apoiem sob pena de retaliação, além de criarem sistemas de denúncias de discriminação que fazem deles “policiais contra a liberdade de expressão”.

Os últimos encontros com os pais viraram brigas, e as ameaças chegaram ao Facebook. Num grupo denominado Pais Antirracistas de Loudoun, de 600 membros, os que se opunham aos programas foram citados com nomes e sobrenomes e falava-se em expô-los. As imagens chegaram à mídia e a grupos conservadores, que as divulgaram como prova de assédio. Vários membros do grupo antirracista receberam ameaças.

Mineo, que diz em duas ocasiões que sua filha tem um namorado de origem latina e, no passado, namorou um negro, afirma que não é contra ensinar a escravidão nas escolas, mas “a história toda, não apenas partes selecionadas”. Por exemplo, ele sente falta da conversa de “figuras negras muito proeminentes que tinham escravos”, sem citar números ou nomes:

— Hoje há muito mais escravos do que há séculos e ninguém fala deles: escravos sexuais, tráfico de seres humanos, escravos médicos, usados para pesquisa....

O professor Blight aponta que os Estados Unidos têm uma História de “tragédia e conflito, como qualquer outro país”, mas os americanos sempre tiveram a ideia de que a História deve ser progresso.

— Queremos pensar que estamos sempre melhorando, que sempre resolvemos nossos problemas, e às vezes temos, até ajudamos o mundo, como na Segunda Guerra Mundial. Mas há outros que não resolvemos e devemos confrontar —  acrescenta.

__________* 

Escravidão e revisão do passado abrem uma guerra nas escolas dos Estados Unidos

Estados republicanos impõem leis para proibir o que consideram um ensino que culpa os brancos e descreve o racismo como um problema sistêmico
Amanda Mars, de El País
26/07/2021 - 06:00 / Atualizado em 26/07/2021 - 10:03
Manifestantes comemoram decisão do júri do lado de fora de tribunal, após condenação de Derek Chuavin pela morte de George Floyd Foto: CHANDAN KHANNA / AFP
Manifestantes comemoram decisão do júri do lado de fora de tribunal, após condenação de Derek Chuavin pela morte de George Floyd Foto: CHANDAN KHANNA / AFP

Receba notícias em tempo real no app.

WASHINGTON — O condado de Loudoun, o mais rico dos Estados Unidos, um subúrbio perto de Washington, exemplifica a tensão que assola os Estados Unidos sobre como lidar com o racismo nas escolas. Um aspecto fundamental é o ensino de história. A escravidão é um acidente, uma mancha em um passado de grandeza, ou um elemento fundador dos EUA? O legado dessa mancha explica as desigualdades atuais? Os pais fundadores da nação eram pessoas boas, com alguma contradição ou atormentado por elas?

Como resultado das mobilizações contra o racismo após a morte de George Floyd, em 2020, muitas escolas têm reforçado suas palestras e programas educacionais contra a discriminação e o racismo sistêmico. Com isso, a reação conservadora também aumentou, com movimentos como o de Scott Mineo, um analista de segurança branco de 49 anos, que começou uma cruzada parental contra o que ele vê como doutrinação racial nas escolas e ressentimento contra crianças brancas.

Além disso, uma série de estados republicanos — Texas, Idaho, Oklahoma E Tennessee, entre outros — introduziram ou aprovaram regulamentos para restringir a forma como a História é contada.

Mineo lançou um site chamado “Pais contra a teoria crítica” e criou um espaço anônimo para que os alunos possam fazer upload de gravações do que os professores dizem em sala de aula.

— Vamos expor todos que fazem isso — diz Mineo.

Em maio, a Assembleia do Tennessee aprovou um projeto de lei que proíbe as escolas de ensinar que um indivíduo deve se sentir “responsável” por ações passadas de membros de sua raça; ou que alguém, por causa de sua raça, “é inerentemente privilegiado” ou promove “ressentimento”.

Ohio usa linguagem idêntica em várias partes de seu projeto de lei e proíbe os professores de ensinar que a escravidão foi qualquer coisa diferente de “uma traição ou falha dos verdadeiros princípios fundadores dos EUA, que incluem liberdade e igualdade”.

O historiador branco David Blight, professor de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Yale, alerta que todo país tem um passado que incomoda seus cidadãos.

— O movimento conservador vem tentando há meio século, de forma intermitente, reverter o ensino da parte mais incômoda de nossa História, porque acredita que nosso dever é formar patriotas, mas não educamos os jovens para serem apenas patriotas, nós os educamos para que entendam melhor a sociedade em que vivem, e isso pode torná-los melhores patriotas —  diz Blight.

Para ele, as leis em vigor “são horríveis, anti-intelectuais e antidemocráticas, um mau uso da História para produzir um certo tipo de cidadão”.

O debate de fundo é sobre se a escravidão — abolida em 1865, quase 100 anos após a fundação do país — deve ser tratada como mais um capítulo da História americana ou um elemento básico dela.

— Eles não querem enfrentar que [a escravidão] foi fundamental para a identidade da nação americana, seu desenvolvimento e crescimento, na Guerra Civil — afirma.

Um dos elementos centrais dessa disputa é a chamada Teoria Racial Crítica, cujo significado foi distorcido, como acontece em toda boa controvérsia intelectual e política. Hoje, ela pode ser usada, especialmente por parte da direita, para identificar qualquer análise que trate o racismo como um problema sistêmico nos Estados Unidos —  não individual, ou específico —  e, no ambiente escolar, qualquer atividade ou matéria que enfoque a discriminação por motivos raciais.

Outro dos protagonistas dessa briga é o Projeto 1619, uma análise histórica de como a escravidão moldou as instituições americanas nos campos político, social e econômico. Publicado no jornal americano New York Times em agosto de 2019, e idealizado pela repórter Nikole Hannah-Jones, o nome refere-se à data em que os primeiros africanos chegaram a solo americano, questiona se essa não deveria ser considerada a fundação dos Estados Unidos e reivindica as contribuições dos negros americanos para a formação do país.

Educação patriótica

Na ocasião de sua publicação, em meio a protestos pela morte de Floyd, o então presidente Donald Trump citou o projeto como exemplo da “propaganda tóxica” que dividiu o país e anunciou a criação do a Comissão de 1776 para promover uma “educação patriótica”.

Marvin Lynn, professor de Educação da Universidade de Portland, aplicou a Teoria Crítica Racial ao sistema educacional como forma de abordar as desigualdades nesse sistema, mas rejeita que a teoria esteja sendo ensinada em sala de aula. Lynn, um homem negro de 50 anos, lamenta a forma como o passado lhe foi contado.

— Eles me ensinaram que a América é um grande país e que os pais fundadores foram homens honestos e de grande integridade. Não soube nada sobre Sally Hemmings, que era escrava de Thomas Jefferson e tinha filhos com ele que também eram escravos, até que me tornei adulto — explica.

Lynn é pai de três meninos de 19, 15 e 13 anos, que frequentaram escolas públicas na maior parte do tempo e “nada aprenderam sobre sua história de negros, ou do passado na África”.

— Esse movimento quer restringir ainda mais o currículo, é realmente um movimento racista.

No condado de Loudoun, a luta vai muito além da História. Um grupo de pais, que inclui Mineo, processou o Conselho Escolar do condado alegando que os professores incorporaram “teorias políticas radicais e polêmicas” no currículo e estão pedindo às crianças que os apoiem sob pena de retaliação, além de criarem sistemas de denúncias de discriminação que fazem deles “policiais contra a liberdade de expressão”.

Os últimos encontros com os pais viraram brigas, e as ameaças chegaram ao Facebook. Num grupo denominado Pais Antirracistas de Loudoun, de 600 membros, os que se opunham aos programas foram citados com nomes e sobrenomes e falava-se em expô-los. As imagens chegaram à mídia e a grupos conservadores, que as divulgaram como prova de assédio. Vários membros do grupo antirracista receberam ameaças.

Mineo, que diz em duas ocasiões que sua filha tem um namorado de origem latina e, no passado, namorou um negro, afirma que não é contra ensinar a escravidão nas escolas, mas “a história toda, não apenas partes selecionadas”. Por exemplo, ele sente falta da conversa de “figuras negras muito proeminentes que tinham escravos”, sem citar números ou nomes:

— Hoje há muito mais escravos do que há séculos e ninguém fala deles: escravos sexuais, tráfico de seres humanos, escravos médicos, usados para pesquisa....

O professor Blight aponta que os Estados Unidos têm uma História de “tragédia e conflito, como qualquer outro país”, mas os americanos sempre tiveram a ideia de que a História deve ser progresso.

— Queremos pensar que estamos sempre melhorando, que sempre resolvemos nossos problemas, e às vezes temos, até ajudamos o mundo, como na Segunda Guerra Mundial. Mas há outros que não resolvemos e devemos confrontar —  acrescenta.

__________* 

Quem foi Borba Gato, o bandeirante que teve estátua incendiada em São Paulo

Paulista integrava grupo de exploradores que desbravaram interior do país, capturaram e escravizaram indígenas e negros
Manuel de Borba Gato foi um bandeirante paulista Foto: reprodução
Manuel de Borba Gato foi um bandeirante paulista Foto: reprodução

Receba notícias em tempo real no app.

Quando a imagem da estátua de Borba Gato coberta pelo fogo tomou conta do noticiário e das redes sociais neste sábado (24), muita gente se perguntou: afinal, quem foi esse personagem capaz de provocar uma atitude tão radical quanto incendiar um monumento cravado na Zona Sul da cidade de São Paulo? 

Pois bem. Manuel de Borba Gato (1649 - 1718) foi um bandeirante paulista. Os bandeirantes desbravaram o interior do país, capturaram e escravizaram indígenas e negros. Segundo historiadores, eles são responsáveis por exterminar etnias em confrontos. Quando morreu, aos 69 anos de idade, Borba Gato ocupava o cargo de juiz ordinário da vila de Sabará.

Estátua de Borba Gato na Zona Sul de São Paulo antes de ser incendiada Foto: Reprodução
Estátua de Borba Gato na Zona Sul de São Paulo antes de ser incendiada Foto: Reprodução

Um movimento pela derrubada da estátua de Borba Gato começou no ano passado pelas redes sociais e inspirou o jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor de uma trilogia sobre a escravidão no Brasil, a fazer um fio no Twitter. Deixando clara a sua posição contra a possível derrubada do monumento ("estátuas, prédios, palácios e outros monumentos são parte do patrimônio histórico, devem ser preservados como objetos de estudo e reflexão", disse o autor), Laurentino explicou detalhadamente, em diversos tuítes, a trajetória de Borba Gato:

"O paulista Manuel de Borba Gato era genro de Fernão Dias Paes Leme e fez fama e fortuna na segunda metade do século XVIII percorrendo os sertões brasileiros à caça de indígenas para escravizar. Era também um fugitivo da lei e contrabandista de ouro. Acusado de matar dom Rodrigo de Castelo, fidalgo português administrador-geral das Minas, em 28 de agosto de 1682, Borba Gato tinha se acobertado com seu bando na região dos Rio das Velhas, em Minas Gerais. Nas vizinhanças do refúgio de Borba Gato estava localizada a Serra de Sabarabuçu, atualmente no município de Sabará, a 23 quilômetros de Belo Horizonte, de onde brotariam as primeiras pepitas de ouro por volta de 1694. Hoje acredita-se que, por mais de uma década, Borba Gato tenha mantido segredo da descoberta, para não atrair a cobiça de concorrentes, os cobradores de impostos da coroa portuguesa e, em especial, obter perdão real para o crime que havia cometido. Foi, de fato, o que aconteceu. Em troca da localização das minas, o rei de Portugal não apenas anistiou o bandeirante como lhe cumulou cargos e honrarias. Num piscar de olhos, Borba Gato deixou de ser um criminoso fugido da lei e foi imediatamente promovido a fígado e guarda-mor das Minas de Caetés".

Por causa deste passado, alguns projetos de lei pedem a proibição e retirada de monumentos que homenageiam escravocratas. O assunto é discutido na Câmara dos Vereadores da cidade de São Paulo, na Assembleia Legislativa do Estado e na Câmara dos Deputados, em Brasília.

__________* 

Sem Aliança pelo Brasil, fechou-se sólida aliança pela corrupção

Tendo PARASITADO todos governos desde Sarney, centrão deve, finalmente, chegar ao PODER com Ciro Nogueira na Casa Civil

Tendo parasitado todos os governos da República desde o presidente José Sarney, o centrão deve, finalmente, chegar ao poder com a nomeação de Ciro Nogueira a ministro-chefe da Casa Civil.

Escanteado para um ministério de menor relevância, o general Ramos se disse surpreso e insatisfeito com a sua substituição. Afirmou, entre submisso e queixoso, que não sabia, estava em choque, mas que soldado não escolhe missão. E desabafou: “Se eu estivesse sendo trocado por alguém formado em Oxford ou Harvard, tudo bem, poderiam dizer que falhei. Mas é por um político aliado do presidente, é assim que funciona”.

Ciro Nogueira não foi diplomado em Harvard, mas, para dirigir a República da impunidade que se tornou o Brasil, ele tem credenciais: é réu no STF por organização criminosa, denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução da justiça. Foi acusado de ter recebido R$ 2,5 milhões de propina da JBS para assegurar apoio do seu partido a Dilma em 2014 e acusado pelo MPF de ter recebido R$ 7,3 milhões de propina da Odebrecht. É diplomado em politicagem e foi aprovado com louvor por seus pares.

Para o deputado Rodrigo Maia, Ciro Nogueira é “muito competente e muito articulado” e levará a chance de impeachment de Bolsonaro a zero (Maia é um animador da candidatura de Lula e daqueles a quem interessa que Bolsonaro ‘sangre’ até outubro de 2022). O deputado Ricardo Barros, por sua vez, tuitou que estava “entusiasmado com a escolha de Bolsonaro” e que Ciro Nogueira “emprestará ao governo sua longa experiência na articulação política”.

O presidente Bolsonaro gosta de mandar, mas já não governa. O centrão agora tem completo domínio da máquina a partir da Casa Civil. A chave do cofre está entregue; o Brasil foi rifado. Em troca, Arthur Lira e Ciro Nogueira evitam o impeachment e garantem a Bolsonaro uma legenda para tentar a reeleição. Não deu certo a tal Aliança pelo Brasil, mas fechou-se sólida aliança pela corrupção.

/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////


*

*

/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

________________________* QUARKS, LÉPTONS e BÓSONS ________________________* COMUNISMO de DIREITA e NAZISMO de ESQUERDA. É o FIM da PICADA...! ________________________* http://www.nano-macro.com/?m=1

9