__________ * PREVARICAÇÃO de Bolsonaro É 'um FATO. __________ * SAIBA o que FAZER caso tenha recebido VACINA contra a Covid VENCIDA
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__________ * PREVARICAÇÃO de Bolsonaro É 'um FATO, diz o senador Omar Aziz (PSD-AM) presidente da CPI da Covid

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BRASÍLIA - Para o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), “é um fato” que Jair Bolsonaro prevaricou ao deixar de comunicar às autoridades a denúncia de suspeitas no contrato da vacina indiana Covaxin. O caso foi levado ao conhecimento do presidente no Palácio da Alvorada no dia 20 de março deste ano pelo servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda e pelo seu irmão, o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF). Nesta sexta-feira, a Procuradoria-Geral da República (PGR) anunciou que instaurou um inquérito para apurar os fatos.
Aziz garante que a CPI ainda tem muito a investigar e que o presidente pode ser responsabilizado por outros crimes. O senador amazonense afirma que Bolsonaro está incomodado com o trabalho da comissão -- que mostrou “a ineficiência” da gestão atual. “Uma coisa que deixa o presidente com urticária é a gente mostrar que o governo dele é corrupto também. Estamos com fortes indícios disso”, disse o parlamentar ao GLOBO. Confira os principais trechos da entrevista.
Recentemente, o presidente disse que tem "sete bandidos" na CPI. Como o o senhor recebeu essa declaração?
O presidente, quando acuado, reage dessa forma. É o modus operandi dele. Agredindo, tentando desqualificar as pessoas que se contrapõem a ele. Ele faz isso com todos. Ele precisa dar uma resposta para o eleitorado dele. E a resposta é desqualificar os membros da CPI. Mas ele não consegue desmentir o deputado Luis Miranda. Você vê que está ficando ruim, porque para qualquer pessoa um pouco racional, mesmo fã dele, persiste a dúvida: será que o deputado Miranda falou isso e o presidente não fez nada? Veja o limite que nós chegamos, o presidente dizer que não sabe do que acontece nos ministérios. Mas sabe, através de WhatsApp, de compadre, de amiguinho, de não sei o quê.
Há uma preocupação de que a CPI vire um instrumento de confronto contra o governo Bolsonaro?
A minha posição é clara desde o primeiro momento. Estou ali para investigar. Não vou passar a mão na cabeça de ninguém. Essa CPI é diferente. Não é abstrata. Ela está na casa de todos os brasileiros: ou a pessoa perdeu um parente ou perdeu um vizinho, um amigo, um conhecido da escola (na pandemia). Virou uma rotina não poder velar seus mortos, não poder abraçar as pessoas que estavam ali com o coração partido. Quando a CPI entra na casa das pessoas, a gente começa a debater. Quando o debate começa, quando a gente se contrapõe e não somos “cancelados” pela rede bolsonarista, a gente enfrenta a rede bolsonarista e empata o jogo que estava perdendo de sete a um. Empatamos o jogo. E a gente está conseguindo virar isso, porque as pessoas agora têm uma perspectiva de se fazer justiça a milhões de brasileiros que estão chorando os seus mortos. Essa é a grande diferença dessa CPI.
Por que o senhor acha que o presidente está incomodado com a CPI?
O presidente está incomodado porque a CPI mostrou a ineficiência da administração dele. Mas não só. Uma coisa que deixa o presidente com urticária é a gente mostrar que o governo dele é corrupto também. Estamos com fortes indícios disso. Isso aí deixa ele com urticária. Ele fica louco. E ele não consegue debater... Ele vai debater com a ema? Não vai, né? Então, sobe no palanque. O negócio é restrito a ele, já preparado, está me entendendo? É base militar, é área de motociata e tal. É o habitat, né. Não é uma universidade.
Há indícios claros de que o presidente prevaricou diante da denúncia apresentada pelos irmãos Miranda?
Isso não é indício. Isso é um fato. Ele não desmente. Ele não encaminhou (a denúncia) para a Polícia Federal. A Polícia Federal abriu nessa quarta-feira esse inquérito. Depois de quantos meses? É um fato. Ele não encaminhou nem para a CGU, nem para a Abin. É um fato. E o deputado Luis Miranda ainda disse: “Eu espero que ele não me desminta, porque senão…”. É um fato. Ele teve a oportunidade de encaminhar para a Polícia Federal ou para o Ministério da Saúde. Aí inventaram que deram para o ministro Pazuello, que sai dois dias depois (da Saúde). Pazuello já sabia que seria exonerado, porque ninguém é exonerado no dia. E o coronel Elcio Franco (ex-secretário executivo da Saúde) também já ia no bolo. Então, nenhum dos dois investigou nada. Não falou nada. Então, isso aí incomoda Bolsonaro. Ele recebe na residência oficial dele um deputado federal da base dele, que levou essas denúncias, e ele não tomou providência. Então, isso aí qualquer servidor público diria que é prevaricação.
O contrato da Precisa com o ministério da Saúde para vender a Covaxin levanta suspeitas?
Houve um empenho de todo o governo para isso. Foram quase 100 e-mails entre Pfizer e governo, mas não houve nenhuma vontade de comprar a vacina. Aí você vê que na Precisa houve um empenho muito grande nas tratativas. De conversar, de acionar o embaixador. Era para isso ter sido feito com todas as vacinas no fim do ano passado. Agora, em vez de chegar a cem milhões de doses de vacinas aplicadas, teríamos duzentos milhões de vacinados.
Há como responsabilizar o presidente Jair Bolsonaro também pela gestão de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde?
O Pazuello foi a pessoa que mais tempo passou no ministério. Ele disse na CPI que falava quinzenalmente com o presidente. Até questionei. E o Pazuello foi mais de uma vez foi desmentido pelo presidente. Em relação à Coronavac, Bolsonaro diz “quem manda sou eu, não vai comprar, acabou, o presidente mandou”. O Brasil não pode se esquecer desses fatos. Porque vai chegar o momento em que o Brasil vai se vacinar, não graças a esse cara (Bolsonaro), e ele vai querer cantar de galo.
O senhor acha que a CPI teve efeito prático na postura do governo?
No discurso, não. Mas na prática sim. Correram atrás da vacina, começaram a se preocupar mais. Você não vê mais o Bolsonaro falar em tratamento precoce, imunização de rebanho...Todos (os aliados) foram negar essas teses lá na CPI, depois da CPI, todos negaram, você não vê mais e às vezes é uma voz isolada.
Mesmo assim, o presidente disse recentemente que era melhor se expor ao vírus do que se vacinar. O que o senhor acha disso?
Não me peça para fazer uma análise sobre esse tipo de coisa, porque para mim o que não tem lógica a gente não perde o tempo. Então, eu não vou mais perder tempo com ele. O povo brasileiro todo sabe que isso não é verdade. Cada vez mais, ele fala pra menos gente.
O discurso de Bolsonaro atrapalhou o combate à pandemia?
A ciência evoluiu muito e a única pessoa que não acredita na ciência é o Presidente da República. Esse foi o grande problema que tivemos. Você tem uma pessoa que, em vez de acreditar na ciência, acreditou em pitaqueiros do lado e deu no que deu, porque ele pensava o seguinte: ‘Pô, se a economia cair eu vou me lascar politicamente’. Ele não pensou na vida. Ele pensou no eleitorado dele. A economia sobrevive, e a vida não tem volta, né? Morreu, acabou.
O que o senhor achou do depoimento do policial militar Luiz Paulo Dominguetti, que tentou vender vacinas ao Ministério da Saúde?
Ele não mentiu. Ele foi usado. O Cristiano (Carvalho, representante da empresa americana Davati no Brasil) usou ele. Ele ganha um dinheirinho vendendo ali alguns medicamentos do representante da Davati no Brasil. Aí, surge uma oportunidade dessas...Como é que o governo senta com um cara desses para conversar sobre vacina sem nunca ter visto ele na vida? Um negócio incrível. Para você ver como é que o governo trabalha. O cara chega dentro do ministério e ainda vai conversar com o Élcio (Franco, então secretário executivo) através de um reverendo aí, que hoje teve uma foto ao lado do Flávio Bolsonaro.
Há uma preocupação com a CPI perder o foco com muitos assuntos?
O nosso foco agora é por que o Brasil não teve vacina. Antes, tivemos dois focos arrematados: o “tratamento precoce”, que ajudou a matar muita gente, e a “imunização de rebanho”, que é crime contra a vida. Funciona assim: vai lá, se contamina, e os fortes sobreviverão. Além da vacina, agora estamos com uma assessoria boa para a questão das fake news, o nosso quarto foco.
Como o senhor avalia a estratégia dos senadores governistas de desviar o foco da CPI?
A estratégia é a gente perder a cabeça. Quanto mais bate boca, menos se investiga, se tira o foco. Tem dia que a gente aguenta, outros não. Eu respeito cada pensamento. É um direito que eles têm.
__________ * Bolsonaro terá de lidar com DUAS FRENTES de investigação SIMULTÂNEAS

A CPI da Covid, mesmo após o polêmico depoimento do policial miltar Luiz Dominguetti, segue, e mais um estrago à imagem do presidente Jair Bolsonaro já surgiu, com a decisão da Procuradoria-Geral da República de abrir um inquérito para averiguar se ele prevaricou por não ter mandado investigar a denúncia de irregularidades na negociação de vacinas indianas Covaxin.
A PGR saiu chamuscada com a demora em tomar a medida. A investigação só foi determinada após a ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber não aceitar que se esperasse a conclusão da CPI para realizar o inquérito a partir da notícia-crime protocolada por três senadores contra o presidente.
Agora, Bolsonaro está exposto a duas frentes de investigação e a desgastes simultâneos em torno do desempenho do governo no enfrentamento da Covid-19 no Brasil. O presidente terá de encontrar estratégias de defesa em duas trincheiras. Há uma terceira possível, dependendo de como a Justiça Eleitoral irá tratar a disposição de Bolsonaro em se recusar a apresentar provas das acusações que faz de fraudes em urnas eletrônicas para defender a volta do voto impresso.
Tentar usar trechos do depoimento de Dominguetti que foram desmentidos na própria sessão da CPI em que ele foi ouvido, como fez Bolsonaro na live de quinta-feira, pode ser útil para mobilizar a base de apoiadores mais fieis. Mas também acirra a vontade dos senadores da comissão dispostos a descobrir o que está por trás do policial militar que divulgou uma gravação para tentar desmoralizar o deputado Luis Miranda (DEM-DF), que denunciou as suspeitas relacionadas à Covaxin, e depois recuou. E é mais um episódio que pode ser investigado pela PGR. O presidente deve acabar no meio de um fogo cruzado para o qual não para de fornecer munição.
__________ * DERRUBADA de redes sociais: governos da África usam estratégia AUTORITÁRIA diante de CRISES

Períodos eleitorais e momentos de instabilidade política foram o pano de fundo da derrubada total ou parcial de redes sociais ou serviços de internet em ao menos 12 países africanos nos últimos dois anos. No episódio mais recente, em 4 de junho, o presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, baniu o Twitter do país, dois dias após a rede derrubar uma publicação dele contra um grupo separatista da região de Biafra por supostamente ferir as políticas de uso.
Levantamento feito pelo #KeepItOn, movimento internacional que monitora a suspensão de internet e redes sociais por governos, mostra que, entre janeiro e maio de 2021, serviços foram derrubados em 21 países, dos quais oito na África. Em 2020, o levantamento apontou a derrubada em 13 países do continente, em um total de 29 países.
Apenas neste ano, além da Nigéria, interferências no uso das redes sociais ou da internet ocorreram outros sete países em momentos de instabilidade política, entre eles o Gabão e Nigéria, ou perto de eleições, caso de Uganda, República do Congo, Chade, Níger e Senegal. Em 2020, os episódios de suspensão das redes às vésperas das eleições ocorreram em Tanzânia, Togo, Burundi e Guiné.
A derrubada dos serviços em períodos decisivos para a política de algumas nações africanas não é coincidência, para o professor de África do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, Alexandre dos Santos. Segundo ele, a prática é característica de governos com arroubos autoritários.
— Geralmente, esses bloqueios são justificados pela proteção da segurança nacional, lutar contra a divulgação de notícias falsas, de discurso de ódio, mas é tudo balela — afirma o professor.
Nos últimos dois anos, o Twitter se tornou um problema para o presidente Buhari, da Nigéria, em dois episódios emblemáticos.
Em janeiro de 2020, parte da população foi às redes para comemorar os 50 anos da autoproclamação da República do Biafra, no Sudeste do país. O episódio, logo depois da independência nigeriana do Reino Unido, provocou uma guerra civil que deixou milhares de mortos entre 1967 e 1970.
Em outubro do mesmo ano, manifestantes criticaram a brutalidade policial do Esquadrão Especial Anti-Roubo (SARS, em inglês), e a hashtag #EndSARS foi um dos tópicos mais comentados no Twitter à época, com endosso dos cantores Beyoncé e Kanye West.
A relação entre poder e Forças Armadas na Nigéria ajuda a explicar os impulsos autoritários de Buhari, segundo o pesquisador associado do Programa de África da ONG Chatham House, Matthew Page.
— Ele e as elites políticas que comandam a Nigéria não estão confortáveis com o nível de liberdade e escrutínio viabilizado pelas redes sociais. Com a proibição do Twitter, o país foi de uma democracia em ascensão para ser visto pela comunidade internacional e pela própria população como uma democracia em declínio, em direção ao autoritarismo — afirma Page.
O coordenador do grupo de Direitos e Tecnologia do ITS (Instituto Tecnologia e Sociedade) do Rio, Christian Perrone, explica que, hoje, há um movimento de tentativa de moderação do conteúdo feito pelas redes, visando em especial discursos de incitação à violência e ao ódio.
— Nesse contexto, existe também a dinâmica de maior presença da função do governo na governança da internet, sobretudo em relação às plataformas, e isso casa com uma tendência mais autoritária de algumas formas de governo — explica Perrone.
O coordenador do ITS acredita que os constantes embates entre governantes autoritários e as "big techs" causam tensões a partir do momento em que as redes sociais não aceitam seguir as políticas implementadas no país por ferir suas práticas de uso, e são atacadas por governos por derrubadas e restrições de acesso a posts.
Na Guiné e na Tanzânia, em 2020, o bloqueio das redes atingiu líderes da oposição às vésperas de processos eleitorais. Na Etiópia, o acesso às redes sociais foi suspenso na província de Tigré em novembro de 2020, durante o conflito entre o governo central e as forças que governavam a região. O propósito, segundo o professor Alexandre dos Santos, era evitar a transmissão de informações sobre a crise humanitária provocada pela guerra para o Ocidente.
Outros países adotam políticas autoritárias nas redes para evitar o questionamento do resultado de eleições, como é o caso da República do Congo que, em março deste ano, suspendeu a internet durante as eleições, até que o resultado fosse anunciado, levando à recondução do presidente Denis Sassou Nguesso ao cargo que ocupa desde 1997. O mesmo ritual ocorreu no pleito passado, em 2016.
Segundo Perrone, há dois objetivos principais por trás da derrubada total ou parcial de redes sociais e da internet: reduzir a nfluência das plataformas para evitar a violência direcionada ao governo e dificultar trocas de informação para manipular o discurso político. Ele aponta que, nos dois casos, trata-se de uma “agenda de preservação de poder”.
O especialista aponta ainda que as consequências diretas dessas medidas para a liberdade de expressão estão associadas a três pilares: acesso à informação, liberdade de comunicação e manipulação do debate sobre determinados temas e contextos.
Para o professor Alexandre dos Santos, a derrubada das redes e da internet visa minar seu potencial de ferramenta para “aglutinar insatisfações contra o governo”. Ele lembra que esse movimento é observado não apenas no continente africano, mas também na América Latina, na Europa e na Ásia, onde governos tentam controlar a narrativa “a todo o custo”:
— As redes sociais são uma mídia narrativa muito forte, então ou você faz uma pororoca de informações falsas, ou tenta controlar a narrativa, como fazem alguns governos autoritários no continente africano.
*Estagiária sob supervisão de Claudia Antunes
__________ * Canadá: As ondas de calor no Hemisfério Norte e como alguém morre por causa disso | Blog do Acervo - O Globo

Enquanto boa parte dos brasileiros lidam com uma semana fria do inverno, o verão do Hemisfério Norte vem mostrando sua face mais cruel. No Canadá, uma onda de calor sem precedentes no país já causou dezenas de mortes. Os termômetros também já atingiram recordes em locais como Oregon, nos EUA, e Moscou, na Rússia. Nos últimos anos, sequências de dias com temperaturas muito acima do normal vêm se repetindo na Europa e na América do Norte entre os meses de maio e agosto, levando a milhares de óbitos. Mas quais as causas dessas ondas de calor extremo? E como uma pessoa morre devido às altas temperaturas?
Saltos de temperatura são registrados, esporadicamente, desde o início do século XX, mas a frequência com que ocorrem teve um aumento acentuado nas últimas duas décadas. Cientistas que estudam as mudanças climáticas já diziam que esse problema seria cada vez mais recorrente, conforme a temperatura média do planeta sobe ano após ano. Ainda assim, as autoridades de países europeus ficaram surpresas quando, no início do século XXI, milhares de pessoas começaram a morrer devido às altas temperaturas. Em agosto de 2003, o governo francês estimou que o calor foi a causa direta ou indireta de mais de 3 mil óbitos no país, que, na época, adotou medidas típicas de uma crise sanitária.
- Acho que agora podemos qualificar o que está acontecendo como uma autêntica epidemia - disse o então ministro da Saúde francês, Jean-François Mattei, que mandou interromper as férias dos médicos para reforçar os hospitais, principalmente na capital, Paris.

O drama das mortes por calor é mais frequente em metrópoles do Hemisfério Norte, onde as variações de temperatura se tornaram amplas. São cidades com estruturas e populações pouco adaptadas a essa realidade. As vítimas são, em maioria, idosos que padecem de males como hipertermia e desidratação. O quadro é agravado porque, no verão, muitas famílias viajam de férias e deixam seus parentes mais velhos sozinhos. Em 2003, a polícia de Paris pediu ajuda para remover cadáveres de pessoas que morreram dias antes, sozinhas em seus apartamentos.
- No último verão, a situação foi catastrófica, e, este ano, está pior. Não estávamos preparados, o sistema hospitalar está em colapso - lamentou o médico Muriel Chaillet, em 2003.
No mês passado, um estudo publicado no períodico científico "Nature Climate Change" mostra que 37% das mortes causadas por calor não teriam acontecido se não fossem as mudanças climáticas provocadas pela ação do ser humano. A equipe de epidemiologistas investigou dados de temperatura e mortes no verão de 732 localidades em 43 países, de 1991 a 2018.

Manter uma temperatura corporal constante em torno dos 36 graus é essencial para as funções biológicas de uma pessoa. A exposição ao calor extremo interfere nessa capacidade e, se um indivíduo não consegue controlar sua temperatura interna, ele corre o risco de experimentar uma série de adversidades. Cãimbras de calor, exaustão e insolação grave são condições médicas diretamente ligadas a altas temperaturas. Mas o calor extremo também pode levar, indiretamente, a problemas cardiovasculares, o que aumenta a incidência de enfartes.
As câimbras de calor causam forte dor e até mesmo espasmos em músculos das pernas e abdôme, além de intensa sudorese. Já a exaustão pode levar a intensa sudorese, enjoo, fraqueza, pulso fraco e até mesmo desmaios. E a insolação grave gera alterações do estado mental, dor de cabeça, náusea e tonteira, além de aceleração da circulação sanguínea, sudorese e perda de consciência. Dessas três consequências do calor extremo, a insolação é a mais séria e, normalmente, gera a necessidade de atendimento médico.
— Nosso organismo é programado para funcionar numa faixa de temperatura. Quando a temperatura aumenta por causa de febre (quando há agente infeccioso) ou por hipertermia, as proteínas e enzimas do corpo se desnaturam, ou seja, perdem a sua forma, e também a sua função. Mesmo que o corpo chegue a 39°C, ele funciona ainda, pois o nosso mecanismo regulador consegue diminuir a temperatura. Quando alcança 40°C, pode chegar ao coma e, com 42°C, a pessoa morre — explicou a médica Ana Sodré, em entrevista ao GLOBO no ano passado.
Outro problema que pode ser provocado pela exposição ao calor excessivo é a desidratação. Por isso, nos dias mais quentes, é imprescindível manter-se bem hidratado.
— A melhor maneira de avaliar o nível de hidratação da pessoa é analisando a cor do xixi. O ideal é que ele esteja com uma coloração amarelo claro. Se ele estiver alaranjado significa que está muito concentrado, o que pode indicar hidratação baixa — disse a nutróloga Adilia Altgauzen, do grupo Iron.

O número de óbitos ligados a altas temperaturas na Europa e na América do Norte já vinha causando sustos desde os anos 1980, mas essas ondas de calor se tornaram cada vez mais frequentes e intensas. Em 28 de agosto de 2003, O GLOBO noticiou que quase 20 mil pessoas haviam morrido no verão europeu, sendo que mais da metade desses óbitos ocorreram na França. Apenas três anos depois, uma nova onda de calor levou causou um recorde na média de temperatura para o mês de julho. Mais de mil pessoas morreram apenas na Holanda.
Também em 2006, uma onda de calor causou mais de 220 nos Estados Unidos, cujo governo registra um total de mais de 11 mil óbitos relacionados ao calor entre 1979 e 2018. Segundo estimativas de 2016, nos 60 anos anteriores, o número de mortes devido a altas temperaturas havia se tornado três vezes maior em 50 cidades americanas.
O problema afligia o Canadá com pouca intensidade, mas cenário começou nos últimos dez anos. Com boa parte de seu território situada no Círculo Polar Ártico, o país registrou ondas de calor em 2011, 2013, 2017 e em 2018, quando 74 pessoas morreram apenas na cidade de Qebec. Em 2020, o governo local registrou o maio mais quente de sua história. E, nas últimas semanas,

__________ * CPI quer avançar em denúncia de propina de US$ 1 por dose e focar jantar envolvendo ex-diretor da Saúde
Cúpula da comissão considera grave caso da Davati e tenta blindar esse front de polêmicas como áudio de vendedor de vacina com deputado
A cúpula da CPI da Covid pretende aprofundar a investigação envolvendo o pedido de propina de US$ 1 por dose de vacina no governo Jair Bolsonaro para a compra de vacina contra a Covid-19.
A comissão quer focar a apuração nos fatos e personagens que estavam presentes no jantar ocorrido em 25 de fevereiro em que o assunto teria sido tratado entre um vendedor da empresa Davati Medical Supply e Roberto Ferreira Dias, então diretor de Logística do Ministério da Saúde.
"A história da propina é intacta. É importante aprofundar a investigação, ouvir os outros personagens citados e manter o foco nessa denúncia", disse o relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL).
Um primeiro passo nesse sentido será o depoimento na próxima semana, provavelmente na quarta-feira (7), de Roberto Dias.
Antecipando que Dias vá negar todos os fatos, os senadores da CPI se preparam para votar um dia antes um pedido de acareação entre todos os personagens que participaram daquele jantar.
A CPI entrou nas duas últimas semanas em uma nova fase das investigações, que foca a apuração em possíveis irregularidades e casos de corrupção na aquisição de imunizantes.
A suspeita sobre a compra de vacinas veio à tona em torno do contrato de aquisição da indiana Covaxin, quando a Folha revelou no último dia 18 o teor do depoimento sigiloso do servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda ao Ministério Público Federal, que relatou pressão "atípica" para liberar a importação da Covaxin.
A partir do episódio da Covaxin, a Folha chegou a outro caso de suspeitas de irregularidades, envolvendo a empresa Davati Medical Supply. A reportagem localizou Luiz Paulo Dominguetti Pereira, que se apresentou como vendedor da empresa.
Na quinta-feira (1º), Dominguetti prestou depoimento à CPI e reafirmou as denúncias que havia feito à Folha. Em mais uma manifestação oficial, a Davati afirmou nesta sexta-feira (2) desconhecer o pedido de propina. "A Davati jamais participou de qualquer negociação ilícita”, afirmou Herman Cardenas, CEO da empresa.
A oitiva de Dominguetti, no entanto, foi marcada por um momento polêmico, quando o depoente divulgou um áudio contendo diálogo entre representante da Davati e o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), irmão do servidor do Ministério da Saúde e que afirmou ter levado suspeitas sobre a Covaxin diretamente a Bolsonaro.
Dominguetti, que também é policial militar, afirmou que se tratava de uma negociação envolvendo vacinas contra a Covid, mas acabou desmentido posteriormente.
O fato provocou desconfiança de que o depoente tivesse sido “plantado” na comissão para tirar a credibilidade de Miranda. Governistas, por sua vez, usaram esse episódio para tentar enfraquecer as denúncias.
A cúpula da CPI, no entanto, considera grave a denúncia sobre cobrança de propina e por isso quer aprofundá-la. Para isso, buscam blindar esse front de apurações para que não seja atingida pelas polêmicas presentes no depoimento.
Na mesma linha, o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), tem dito que o depoimento de Dominguetti foi importante porque confirmou que recebeu um pedido de propina e porque trouxe um novo nome que estaria presente no jantar, o do coronel Alexandre Martinelli.
Ao Painel, Martinelli negou que estivesse presente no jantar e avalia ir à Justiça por conta da menção a seu nome no depoimento.
Uma das formas avaliadas pelo grupo majoritário da CPI, formado por senadores independentes e oposicionistas, de tentar blindar a denúncia de propina seria deixar de lado momentaneamente a polêmica referente ao áudio.
Por isso há a possibilidade de segurar temporariamente a convocação —cujo requerimento já foi aprovado—do representante da Davati no Brasil, Cristiano Carvalho. Dominguetti disse na sessão que foi Carvalho quem repassou a ele a gravação.
Os parlamentares querem indagar Dias sobre o pedido de propina e também questioná-lo em relação à participação dos dois outros, ambos militares. Além de supostamente Martinelli, teria participado do encontro o tenente-coronel Marcelo Blanco, ex-diretor substituto de logística da Saúde. Os dois não faziam mais parte do ministério quando participaram do encontro.
Blanco também já é alvo de requerimento aprovado na CPI para prestar depoimento. Conforme revelou o Painel, ele abriu uma empresa de representação na véspera do jantar.
A cúpula da CPI também pretende não desviar o foco da investigação envolvendo a Covaxin, que consideram mais consolidada e adiantada. Os senadores avaliam inclusive que o anúncio da suspensão do contrato com a Precisa Medicamentos seria um “reconhecimento de culpa”.
Para eles, dois depoimentos na próxima semana serão importantes para esclarecer os procedimentos dentro do Ministério da Saúde.
Para o senador Humberto Costa (PT-PE), a CPI continua com dois focos. O primeiro seria esgotar o assunto sobre os erros na condução da pandemia no ponto de vista da saúde pública, como a imunidade de rebanho. Já o outro é identificar se houve corrupção com o dinheiro destinado ao combate da pandemia.
Em relação às vacinas, o petista disse que a intenção é ouvir as pessoas relacionadas ao caso da Covaxin, mas a comissão também continuará investigando o pedido de propina no caso da Davati.
Avaliou ainda que é perceptível como o governo federal trabalhou com mais agilidade em algumas negociações que o interessava, como a Covaxin, e demorou a conduzir outras, citando as tratativas com a Pfizer e o Instituto Butantan.
“Isso aconteceu porque há grandes interesses envolvidos. A minha suposição é de que há uma disputa de organizações criminosas no Ministério da Saúde.”
Na próxima terça-feira (6), deve comparecer Regina Célia Silva Oliveira, que teria autorizado a importação da Covaxin apesar de problemas no contrato.
Dois dias depois, será ouvida a diretora de Integridade do Ministério da Saúde, Carolina Palhares, que deve falar sobre seus relatórios de fiscalização. Senadores querem saber se ela fez pareceres sobre os contratos com a Precisa e, se sim, querem acesso aos documentos.
Embora não divulgue publicamente, a cúpula da CPI pretende avançar na investigação das ligações existentes entre a Precisa e personagens ligados ao presidente Bolsonaro, em especial ao senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ).
A CPI evita um confronto direto com requerimentos autorizando a quebra de sigilos de pessoas ligadas ao filho mais velho do presidente. Por isso investe em requerimentos ordinários, que não precisam ser votados, para obter dados da Receita Federal de personagens como os advogados Frederick Wassef e Willer Tomaz, esse último apontado como amigo de Flávio.
Em relação ao sócio-administrador da Precisa, Francisco Emerson Maximiano, os senadores pretendem segurar o reagendamento do seu depoimento. Só querem marcar uma nova data após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre o recurso apresentado pela CPI para reverter o habeas corpus que garantiu o direito de Maximiano ficar em silêncio ao depor.
__________ * Saiba o que fazer caso tenha recebido vacina contra a Covid vencida
Segundo documento, quem tomou imunizante vencido deve tomar nova dose pelo menos 28 dias após ter recebido a que foi administrada equivocadamente
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Quem tomou a vacina da AstraZeneca contra Covid-19 fora da validade de um dos oito lotes que já perderam a validade deve se revacinar —na prática, é como se a pessoa não tivesse sido imunizada.
O Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra Covid-19 define que quem tomou imunizante vencido precisa tomar nova dose pelo menos 28 dias depois de ter recebido a que foi administrada equivocadamente.
Não há, porém, notificação de efeitos adversos por causa da vacina recebida fora do prazo.

De acordo com Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin, datas de expiração são baseadas na estabilidade e na degradação dos componentes da vacina. "Após o prazo, alguns dos ingredientes podem perder a ação, diminuindo a proteção da vacina e deixando as pessoas vulneráveis."
A Folha identificou pelo menos 26 mil doses vencidas da vacina AstraZeneca foram aplicadas em diversos postos de saúde do país até 19 de junho. Os dados constam de registros oficiais do Ministério da Saúde. Os imunizantes com o prazo de validade expirado haviam sido utilizados em 1.532 municípios brasileiros.
Vacina ministrada fora da validade é considerada erro vacinal, assim como doses aplicadas de fabricantes diferentes ou vacina ministrada em grupos etários que ainda não têm aprovação para receber as doses (como crianças). Erros vacinais precisam ser oficialmente registrados pelos municípios para acompanhamento.
Cada pessoa vacinada no país é oficialmente identificada com um código individual, acompanhado do lote da imunização recebida, o produtor da vacina, a dose aplicada e a data de aplicação. Isso é feito justamente para acompanhamento do Ministério da Saúde e eventual identificação de erros vacinais.
Para Paulo Lotufo, médico da USP, para reverter esse tipo de erro vacinal é preciso "refazer a vacinação, sem estresse." Ele reforça, ainda, que quanto maior o número de vacinados em massa, mais seguros estarão aqueles nos quais a vacina não gerou imunidade contra o coronavírus ou quem tenha tomado vacinas vencidas.
O erro, no entanto, pode e deve ser evitado. "Um dos requisitos para administração da vacina é a checagem da data de validade. Existe um protocolo, é preciso checar três vezes: na hora que prepara, que aspira e que aplica", explica a epidemiologista Ethel Maciel, da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo). "É lamentável, em uma campanha com tanta dificuldade que a gente tenha ações como essas. É uma falha grande, que pode levar as pessoas a mais uma hesitação sobre as vacinas."
A vacina da AstraZeneca tem validade de seis meses, assim como a da Pfizer. Esses prazos são definidos a partir das evidências disponíveis e podem sofrer alterações. A vacina da Janssen, por exemplo, ganhou um mês e meio adicional de validade recentemente —hoje, dura até quatro meses e meio.
O Canadá anunciou em maio deste ano que estendeu a validade de dois lotes de vacinas da AstraZeneca para sete meses. O órgão de saúde do país disse que recebeu um documento da farmacêutica que incluía "estabilidade do material e modelagem matemática que demonstravam qualidade, segurança e eficácia para que os dois lotes fossem mantidos por um mês a mais, num total de sete meses". O mesmo não ocorreu no Brasil.
De acordo com Garrett, do Sabin, a maioria das vacinas existentes tem validade média de dois anos. "Esses prazos são revistos à medida em que novos dados de estabilidade se fazem disponíveis", explica.
Procurada pela Folha, a AstraZeneca não quis se posicionar sobre as vacinas ministradas após validade no país. A empresa informou que responde pela produção dos imunizantes, mas sua distribuição é de responsabilidade do PNI (Plano Nacional de Imunização).
__________ * Países que acreditavam ter superado pior fase da Covid-19 vivem novo pesadelo
Impulsionada por variantes, mais contagiosas e mais letais, pandemia segue em ascensão em diferentes regiões
O pesadelo está voltando.
Na Indonésia, coveiros trabalham até de noite, e os estoques de oxigênio e de vacinas estão muito baixos. Na Europa, países fecham as portas de novo, impõem quarentenas e proíbem algumas viagens. Em Bangladesh, trabalhadores de confecções que fugiram de um lockdown iminente quase certamente estão semeando mais um surto de coronavírus em suas aldeias pobres.
E em países como Coreia do Sul e Israel, que pareciam ter amplamente vencido o vírus, novos núcleos da doença proliferaram. As autoridades de saúde chinesas anunciaram na segunda-feira (28) que construirão um centro de quarentena gigante, com até 5.000 quartos, para abrigar viajantes internacionais. A Austrália ordenou que milhões de pessoas fiquem em casa.
Um ano e meio desde que começou a percorrer o mundo com eficácia cada vez maior, a pandemia está aumentando de novo em vastas áreas do mundo, impelida sobretudo por novas variantes, especialmente a muito contagiosa variante delta, identificada primeiro na Índia.

Da África à Ásia, países sofrem com números recordes de novos casos e mortes por Covid-19, enquanto países mais ricos, com altos índices de vacinação, baixaram a guarda, dispensando o uso obrigatório de máscaras e desfrutando uma vida próxima da normalidade.
Cientistas dizem acreditar que a variante delta pode ser duas vezes mais transmissível que o coronavírus original, e seu potencial de infectar algumas pessoas parcialmente vacinadas alarmou as autoridades de saúde pública. Populações não vacinadas, seja na Índia ou em Indiana, podem servir como incubadoras de novas variantes que podem evoluir de maneiras surpreendentes e perigosas, como a delta, que originou o que pesquisadores indianos estão chamando de delta plus. Há também as variantes gama e lambda.
"Estamos em uma corrida contra a disseminação das variantes do vírus", disse o professor Kim Woo-joo, especialista em doenças infecciosas na Universidade Hospital Guro em Seul, na Coreia do Sul.
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As discussões políticas que se travam da Malásia às Ilhas Seychelles —se é necessário impor lockdowns e o uso de máscaras— começam a ecoar em países com muito mais recursos, incluindo grande número de vacinas. Na segunda, autoridades de Los Angeles, onde as infecções pela variante delta estão crescendo, pediram aos residentes, mesmo os já vacinados, que usem máscaras em ambientes fechados. (Muitos cientistas, porém, disseram que elas não são necessárias em áreas onde o vírus não está disseminado.)
Enquanto novas imagens do Nepal ou do Quênia de UTIs lotadas e médicos morrendo trazem memórias terríveis para o Ocidente, não está claro se também oferecem uma percepção do futuro.
A maioria das vacinas existentes parece ser eficaz contra a variante delta, e pesquisas iniciais indicam que os infectados provavelmente desenvolverão formas brandas ou assintomáticas da doença. Mas mesmo nos países mais ricos —exceto em um punhado deles com populações pequenas—, menos da metade das pessoas está totalmente imunizada. Especialistas dizem que com as variantes se espalhando são necessários índices de vacinação muito maiores e precauções continuadas para controlar a crise.
A fumaça que voltou a se erguer dos crematórios em países menos ricos salientou o abismo entre os que têm e os que não têm. Vastas desigualdades em desenvolvimento econômico, sistemas de saúde e —apesar das promessas de líderes mundiais— acesso às vacinas tornaram o último surto muito maior e mais mortífero. "Os países desenvolvidos usaram os recursos disponíveis porque eles possuem os recursos e querem proteger suas populações primeiro", disse Dono Widiatmoko, palestrante em saúde e assistência social na Universidade de Derby e membro da Associação de Saúde Pública da Indonésia. "É natural, mas, se olharmos de um ponto de vista de direitos humanos, toda vida tem o mesmo valor."
E, como as autoridades de saúde pública continuam repetindo e a pandemia continua provando, enquanto uma região estiver afetada, nenhuma parte do mundo estará segura.
Enquanto a variante delta provocou o caos na Índia, quando a pandemia matou mais de 200 mil pessoas —contagem oficial que é amplamente considerada abaixo da realidade— e paralisou a economia, também saltou fronteiras nacionais, infectando escaladores no monte Everest, manifestantes pró-democracia em Mianmar e viajantes que chegaram ao aeroporto internacional de Londres. Hoje, ela foi detectada em ao menos 85 países e é a variante que predomina em partes da Europa, da Ásia e da África.
A transmissibilidade feroz da variante ficou totalmente evidente na Indonésia, o quarto país mais populoso do mundo. Em maio, as infecções lá estavam em seu nível mais baixo desde que o país foi atacado pela pandemia no ano passado. No final de junho, a Indonésia sofria um número recorde de casos, porque a variante delta predominou depois de um feriado religioso que espalhou viajantes pelo arquipélago. Na terça-feira (29), o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho advertiu que o país está "à beira da catástrofe".
Menos de 5% dos indonésios foram totalmente vacinados, e profissionais médicos da linha de frente foram imunizados com a Coronavac, fabricada pela Sinovac, vacina chinesa que pode ser menos eficaz que outras. Pelo menos 20 médicos indonésios que receberam as duas doses da Sinovac morreram. Mas, com os países ocidentais acumulando vacinas que parecem ser mais potentes, países como Indonésia e Mongólia não tiveram opção além das abundantes alternativas chinesas.
Na semana passada, as autoridades de Hong Kong suspenderam voos de passageiros da Indonésia, e estão fazendo o mesmo com viagens originárias do Reino Unido desde quinta-feira (1º).
Em maio, Portugal tentou ressuscitar sua indústria de turismo, recebendo novamente os turistas britânicos, ávidos por sol, apesar de registros da disseminação da variante delta no país. Algumas semanas depois, o governo britânico instituiu a quarentena para viajantes que chegavam de Portugal, incluindo os britânicos que voltavam de férias.
Com os casos da variante delta aumentando acentuadamente, Lisboa entrou em lockdown de fim de semana, e a Alemanha considerou Portugal uma "zona de variante de vírus". Agora Portugal recuou em suas boas-vindas aos turistas e está exigindo que britânicos não vacinados fiquem em quarentena.
Em Bangladesh, cientistas descobriram que quase 70% das amostras de coronavírus na capital, Daca, colhidas entre 25 de maio e 7 de junho, eram da variante delta. Os índices de positividade dos testes de coronavírus nesta semana ficaram em torno de 25%, comparados com 2% nos Estados Unidos.
Na quarta, Bangladesh registrou sua mais alta contagem diária de casos. Os números parecem destinados a subir mais, pois trabalhadores migrantes retornaram a suas aldeias antes do lockdown nacional em 1º de julho, potencialmente expondo essas comunidades ao vírus.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves
__________ * Indígenas no Rio lutam para reverter séculos de "apagamento"
Karla Mendes
Da Mongabay, no Rio*
Resumo da notícia
- Rio de Janeiro abriga a quarta maior população indígena do país em área urbana
- Presença e a história dos povos originários, porém, foram deliberadamente ?apagadas?
- Muitos pontos turísticos da cidade têm raiz indígena
- Isso porque foram construídos com trabalho forçado dos povos originários ou foram erguidos sobre territórios indígenas
- A palavra carioca também tem origem indígena
Maracanã, Ipanema, Arcos da Lapa, Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro? Milhões de turistas brasileiros e estrangeiros que visitam a cidade mais famosa do Brasil todos os anos conhecem esses lugares. Mas o que a maioria dos visitantes — e mesmo os cariocas — não sabe é que todos esses lugares têm uma raiz indígena, seja por terem sido construídos com trabalho forçado dos povos originários ou por terem sido erguidos sobre territórios indígenas. A palavra carioca também tem origem indígena.
Os arcos, no boêmio bairro da Lapa, na região conhecida como Rio Antigo, foram construídos nos séculos 17 e 18 para dar sustentação ao Aqueduto da Carioca, que trazia água do Rio Carioca para o centro da cidade. Hoje, a Lapa é o coração da vida noturna da cidade e, em vez de água, a estrutura serve de passagem para o popular bondinho de Santa Teresa. Mas aqueles que trabalharam para construí-lo ficaram esquecidos, afirma a historiadora Ana Paula da Silva, doutora em memória social.

'Ainda tem índio que aceita espelho': Zé Urutau resiste na Aldeia Macaranã
Muitas pessoas passam pelos Arcos da Lapa, mas não imaginam que aquele monumento que hoje é um patrimônio, um símbolo da cidade do Rio de Janeiro, foi construído por mão de obra escrava indígena"Ana Paula da Silva, pesquisadora do Programa de Estudos dos Povos Indígenas (Pro Índio) da UERJ

"E hoje a gente não tem essa memória, [essa] história nos livros, na mídia", disse a historiadora em frente ao Paço Imperial, no centro do Rio — outra estrutura icônica construída com trabalho escravo indígena.
Outro aspecto oculto da história da cidade, segundo a historiadora, encontra-se debaixo da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro.
Popularmente conhecida como Igreja da Glória ou simplesmente Outeiro, foi construída sobre território indígena tupinambá disputado por colonizadores franceses e portugueses e povos indígenas durante as batalhas de reconquista do século 16. Segundo relatos da expedição francesa, aos pés da atual igreja ficava uma aldeia tupinambá chamada Kariók ou Karióg, nome que provavelmente deu origem à palavra carioca.
Inúmeros nomes e expressões que fazem parte do cotidiano carioca derivam da língua tupinambá. Ipanema, significa "água inapropriada" na língua tupinambá. Maracanã é o nome de um pássaro parecido com uma arara, que emite um ruído que parece um chocalho; também deu nome a um rio e ao bairro do Maracanã onde fica o icônico estádio. A palavra carioca refere-se ao nome de um rio e de uma aldeia que, segundo alguns especialistas, significa a moradia dos indígenas carijó; outros interpretaram como a casa do homem branco.

Ana Paula da Silva explica que o significado desses nomes pode ter variado ao longo do tempo; estima-se que haja cerca de 40 mil verbetes indígenas no dicionário brasileiro.
Muitos turistas e cariocas também desconhecem muitos hábitos indígenas que hoje fazem parte do estilo de vida brasileiro, como tomar banho todos os dias, dormir em redes e comer aipim.
Com quase 7.000 habitantes, o Rio tem a quarta maior população indígena brasileira em números absolutos, de acordo com o censo de 2010 (o próximo censo será realizado em 2022). Mas essa presença está diluída em uma população total de 7 milhões. (Veja os mapas interativos que mostram onde os indígenas moram na cidade, suas etnias e condições de vida na reportagem publicada no site da Mongabay)
O censo de 2010 foi o primeiro da história do Brasil a identificar a presença indígena em Terras Indígenas, áreas rurais e também nas áreas urbanas de todo o território brasileiro. O censo lista 127 grupos étnicos no Rio que falam 26 línguas. O povo guarani ocupa o topo da lista com 261 habitantes, seguido pelos grupos étnicos tupiniquim (171), guarani kaiowá (144) e tupinambá (136).

O bairro carioca com o maior número de indígenas é Campo Grande; em 2010, o bairro abrigava 373 indígenas. Em Copacabana, residiam 222 indígenas — a quarta maior população entre todos os bairros do Rio — com predominância tupiniquim, guarani e terena. Também havia 123 indígenas no bairro histórico de Santa Teresa, 42 em Ipanema e 30 no Leblon.
Nascida no Rio, a professora de história Marize Vieira de Oliveira Guarani, 62, só se reconheceu indígena há 16 anos, apesar de ter uma avó da etnia guarani.
Eu não me declarava indígena, eu não me declarava nada porque... não existia nem o quesito indígena para as cidades. Você não podia colocar indígena como alguém que morasse na cidade"Marize Vieira de Oliveira Guarani, professora de história
De fato, a opção de se autodeclarar indígena só apareceu nos censos de 1991 e 2000, mas ficou restrita a uma amostra da população; somente no censo de 2010 foi estendido a todos os cidadãos brasileiros.
Uma década depois, declarar-se indígena ainda é "doloroso", disseram os entrevistados à Mongabay, citando o preconceito arraigado entre os cariocas e na sociedade brasileira como um todo.
Quando cursava o mestrado em educação, relata Marize Guarani, uma professora do curso perguntou se ela era "uma indígena de verdade"; ela também conta ter sido chamada de "índia do Paraguai".
Um dos símbolos-destaques da resistência indígena no Rio é a chamada Aldeia Maracanã, um prédio a poucos metros do mundialmente famoso estádio do Maracanã, na zona norte da cidade, que abrigou o antigo Museu do Índio até o final da década de 1970. Em 2006, o edifício foi ocupado por um grupo de indígenas que pretendia criar um centro cultural no local.

A ocupação ganhou manchetes internacionais em 2013, quando o governo do estado do Rio de Janeiro tentou despejar o grupo para construir um estacionamento para a Copa do Mundo do ano seguinte, desencadeando uma batalha judicial fundiária que continua até hoje.
Ao longo dos anos, ocorreram vários ciclos de ocupação e despejo -- e até prisão de lideranças indígenas -- na Aldeia Maracanã, onde hoje vivem cinco famílias de sete etnias. Na Aldeia Maracanã, o líder indígena José Urutau Guajajara ensina línguas indígenas de vários troncos, principalmente as línguas do tronco tupi e das famílias tupi-Guarani.
"[Meu sonho] é de ver isso aqui transformado em uma universidade para todos os parentes, mas é uma universidade pensada, gerida e administradas por indígenas, não pelo estado"José Urutau Guajajara, líder indígena

José Urutau se refere à batalha judicial travada pelo grupo para a demarcação da área como Terra Indígena para criação da universidade indígena. Nascido na aldeia Lagoa Comprida, no Maranhão, ele é mestre em linguística pela UFRJ e doutorando em linguística pela Uerj.
*Leia a íntegra da reportagem originalmente publicada e com mapas e gráfios interativos no site da Mongabay.
*Esta reportagem faz parte do especial Indígenas nas Cidades do Brasil e recebeu financiamento do programa de jornalismo de dados e direitos fundiários do Pulitzer Center on Crisis Reporting.
* Infográficos: Ambiental Media / Laura Kurtzberg.
* Pesquisa e análise de dados: Yuli Santana, Rafael Dupim e Ambiental Media.
__________ * Leite rebate Bolsonaro e o chama de IMBECIL após ataque homofóbico, mas DEFENDE VOTO de 2018 CONTRA o PT
Governador gaúcho diz não ter tratado antes sobre sexualidade 'porque não queria ser resumido como o candidato gay'
Na tarde desta sexta-feira (2), dia em que ocupou boa parte das manchetes no país e dominou os assuntos nas redes sociais, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), aguardava no aeroporto de Florianópolis um voo para Curitiba enquanto falava com a Folha por telefone.
Uma resposta do governador foi interrompida por uma pessoa que o abordou pedindo uma foto. “Prazer te conhecer. Que massa a tua entrevista, cara”, disse. A menção era à entrevista para a TV Globo na qual o governador gaúcho falou pela primeira vez abertamente que é gay, algo que ele diz nunca ter escondido.
No dia seguinte à transmissão, o WhatsApp de Leite ficou abarrotado de mensagens —550 não lidas, segundo ele. O tucano diz que esperava uma oportunidade que se mostrasse adequada para falar de sua orientação sexual. Com ataques homofóbicos crescendo à medida que vai se tornando um nome nacional, sentiu que o momento era esse.
O presidente Jair Bolsonaro reagiu à declaração de Leite nesta sexta e afirmou que o gaúcho estava usando a questão como "cartão de visita" para uma candidatura presidencial e que “ninguém tem nada contra a vida particular de ninguém, agora, querer impor seu costume, seu comportamento para os outros, não”.
À Folha Leite diz que o presidente é um imbecil. Ele falou ainda sobre ser um homem gay na política, ataques homofóbicos que já sofreu e 2022.
Como foi acordar com a repercussão da sua fala?
Especialmente emocionado com o tanto de relatos que tenho recebido de pessoas, manifestando carinho, me cumprimentando, mas além de todas as manifestações de carinho de pessoas que gostam de mim, de adversários que me respeitam e que manifestaram também o seu apreço pelo gesto que fiz, mas especialmente me tocou e me tocam as inúmeras mensagens de pessoas, por exemplo, uma delas com mais de 50 anos, que é homossexual, me disse como a vida dela teria sido mais fácil se quando ela tivesse 18 anos um governador tivesse feito isso.
Aí você projeta o quanto isso pode estar tocando na vida de outras pessoas que aproveitam essa oportunidade para resolver os seus conflitos, suas próprias questões e se sentirem seguras para conversar com suas famílias, seus amigos. Outra pessoa me relatou ter se reconciliado com um irmão, com quem não conversava mais por conta da sexualidade.
Estou na política pelo que eu entendo que posso fazer para tocar a vida das outras pessoas. A minha orientação sexual toca na minha vida, mas na medida em que sou governador e alcancei alguma visibilidade, declarar a minha orientação toca também na vida das pessoas. Isso me emociona, me sensibiliza.
Estou feliz, independentemente dos resultados que isso proporcionará do ponto de vista eleitoral, positivos ou negativos, me sinto realizado por ter de alguma forma colaborado para liderar em uma direção que eu entendo que é a correta, que é da igualdade, do respeito.
O senhor falou que nunca escondeu quem é, sua orientação, mas era um assunto que o senhor não tratava. O que o levou a falar agora?
Em um primeiro momento, teve a minha própria aceitação comigo mesmo. Eu me aceitei gay quando tinha 25 anos de idade. Fui criado nessa sociedade que me fez acreditar que isso é errado. Eu, como qualquer outro ser humano nessa condição, também tive os meus questionamentos até me aceitar.
Eu já estava na política, já era vereador em Pelotas. Isso foi sendo deixado para não falar, não tratar desse tema. Eu nunca tive medo que me trouxessem essa questão. Até aconteceu, quando eu era vereador e estava para me lançar candidato a prefeito, um assessor me falou que na Câmara diziam que eu, em algum momento, desistiria, porque era gay e teria uma foto minha beijando outro homem. Falaram isso ao meu assessor, para tentar me intimidar.
Eu falei: primeiro lugar, essa foto não existe; se existir, não é um problema. Tive momentos, receber em dias de debates mensagens de números desconhecidos dizendo que iriam publicar foto minha com alguém, alguma foto comprometedora, tentando me gerar apreensão. Nunca atingiram o objetivo deles fazendo isso, porque era uma não questão.
Agora virou um tema, no Brasil de hoje, mas mais do que o tema da sexualidade eu quis trazer o tema da integridade. O Brasil carece de integridade —ser íntegro é ser por inteiro. No momento em que eu vou dando passos em direção a um projeto nacional, se intensificam ataques homofóbicos, com insinuações que eu teria algo a esconder.
Quero deixar claro que eu não tenho nada a esconder. Tantos outros políticos que escondem coisas erradas, mensalão, petrolão, "rachadinha", superfaturamento de vacina. Ao me apresentar nessa inteireza, fico feliz de inspirar outras pessoas para que não cortem mais um pedaço de si, por conta de bullying pela orientação sexual.
Durante as eleições de 2018 o senhor foi alvo de ataques devido a sua sexualidade, com piadas e fotos de família tiradas de contexto. O senhor falou de outras campanhas com ataques. Como lida com isso
Lamento profundamente esses ataques. Nunca me desestabilizaram porque, desde o momento em que eu me aceitei gay, nunca achei que fosse uma coisa errada, nunca me recriminei ou entendi que deveria me envergonhar.
Não tratei publicamente do tema porque não queria ser sintetizado, resumido como o candidato gay. Acho que uma grande colaboração que eu possa dar à causa da igualdade, da diversidade, é justamente por estar aqui, sendo reconhecido pelo que fiz até hoje na vida pública e ser gay. Espero que no futuro um candidato possa, desde o início, ser gay, e chegar onde eu cheguei. Que bom que a gente possa abrir caminhos, que não seja um obstáculo isso.
Como sua família e seu namorado reagiram à decisão de falar sobre essa questão abertamente?
Com absoluta tranquilidade. Tenho esse privilégio de ter ao meu lado pessoas que têm a mente e o coração abertos, então não foi nenhum problema. Sei que sou privilegiado, tantas pessoas sofrem agressões físicas pela sua orientação sexual, gays negros da periferia sofrem vários estigmas e agressões que não é nada comparável a qualquer sofrimento que eu tenho tido.
Sendo cotado como presidenciável, houve quem cogitasse sua fala como jogada para acenar à esquerda, a um eleitorado mais progressista. O senhor pretende ser um político que irá carregar essa bandeira?
Sempre defendi a causa LGBT, nunca precisei falar da minha sexualidade para defender. Quando era vereador em Pelotas, os organizadores da Parada LGBT queriam apoio público para fazer um seminário e eu fui o único que os recebeu, dei ajuda e fui à parada, sem tratar da minha orientação. Não é por minha causa própria, simplesmente acreditar que a diversidade nos torna como sociedade mais ricos. Vou continuar nessa mesma linha, defendendo como sempre defendi.
Outro questionamento foi o fato de o senhor, um homem gay, ter apoiado a candidatura de Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018. O presidente tem um histórico de declarações homofóbicas desde os tempos de deputado. O senhor se arrepende desse apoio? Houve uma contradição?
Eu não declarei apoio. Apoio é pedir votos, é fazer campanha junto, isso eu não fiz. Eu declarei o voto, com uma crítica contundente, num vídeo que está na internet.
Saiu no programa eleitoral a minha crítica, que eu não me sentia representado naquele clima de ódio, que eu daria o voto na expectativa de que pudesse ser diferente do que o histórico dele apresentava, porque do outro lado estava o partido que tinha levado o Brasil a 14 milhões de desempregados, uma recessão econômica profunda e uma crise moral e ética gravíssima, com casos de corrupção comprovados e muito fortes.
Claro que a eleição do Bolsonaro foi um erro. Um erro que cometemos eu e milhões de brasileiros, mas que se deu em função de no outro lado haver um partido que errou na corrupção, errou na condução da economia. Estávamos diante de uma situação de escolher entre dois caminhos. Erramos. Mas não é sobre discutir erros do passado, é sobre construir caminhos para o futuro. Esse é o ponto objetivo para o Brasil.
Bolsonaro também comentou sua entrevista. O que o senhor tem a dizer sobre essa declaração?
O presidente é um imbecil. Onde está a tentativa de imposição de qualquer coisa para qualquer pessoa? Uma declaração sobre a minha orientação sexual. Não resta outra coisa a dizer senão que o presidente é um imbecil.
Hoje o senhor é um crítico ao governo dele, tendo assinado cartas de governadores na pandemia e levando ao STF os questionamentos que ele levantou sobre os gastos do seu governo. Em que momento sua posição mudou?
A eleição do segundo turno é uma eleição de rejeição, você escolhe o que você não quer. A candidatura do Bolsonaro não tinha nenhuma expectativa que pudesse significar alguma coisa positiva, como eu esperava que fosse um governo, mas diante da outra alternativa, o PT voltar ao poder, parecia naquele instante algo muito ruim.
Restou, no momento em que Bolsonaro foi eleito, pelo bem do país, trabalhar para que desse certo. No início, apresentou medidas, retomando a reforma da Previdência, uma expectativa de modernização da economia conduzida pelo ministro Paulo Guedes, gerava expectativa de que pudesse ter algum elemento que gerasse crescimento econômico e emprego.
Ninguém tinha no script uma pandemia, como essa, que colocou nas mãos dos governantes tanta responsabilidade para salvar vidas. A liderança do presidente, não só ele se omitiu, como ele foi líder na direção contrária. Sua atuação na pandemia foi momento de revelação de caráter de crueldade do presidente, pelo seu absoluto desprezo pelas vidas humanas.
Senadores governistas na CPI da Covid defendem que os governadores deveriam ser chamados para prestar contas. O que o senhor acha?
Não há possibilidade de convocação por respeito ao pacto federativo e à estrutura constitucional que a gente tem. Mas já deixei nas mãos do relator da comissão um relatório com toda a especificação de onde os recursos foram empregados. O Rio Grande do Sul tem a terceira menor taxa de excesso de óbitos entre os estados brasileiros. Estou absolutamente tranquilo com relação a forma como gerenciei a pandemia.
Como o senhor vê as denúncias levantadas nas últimas semanas na CPI, sobre a Covaxin e tentativa de cobrança de propina?
Graves, merecem rigorosa apuração, devem ser analisadas com profundidade para que, se forem comprovadas, seja dada a devida consequência aos envolvidos.
Qual a sua posição sobre o superpedido de impeachment de Bolsonaro apresentado nesta semana, assinado por partidos de oposição, mas também nomes da direita?
É um movimento legítimo diante das circunstâncias e que deve receber a análise, de acordo com a Constituição, do presidente da Câmara dos Deputados, à luz dos fatos que estão sendo apurados.
Mas qual a sua posição sobre o impeachment hoje?
O impeachment não pode ser banalizado, mas a Presidência da República também não pode ser banalizada. Tem fatos graves, merece a investigação e, eventualmente, se revelar inevitável, ser conduzido o processo de impeachment. Eu guardo cautela a respeito das minhas manifestações, porque sou governador para todos os gaúchos, a favor e contra, e estou dentro de uma relação institucional de governo.
O senhor disse que é um pré-candidato a pré-candidato. O que o instigou a pensar na Presidência, ao invés de tentar uma reeleição no Rio Grande do Sul?
A manifestação de deputados do meu partido. Não foi um movimento que eu tenha feito. Fui provocado por parlamentares do PSDB para que me apresentasse nas prévias e me sinto em condições de dar colaboração a partir da nossa experiência na gestão do Rio Grande do Sul, enfrentando dificuldades, mas equilibrando as contas do estado, abrindo espaço para investimentos.
Tradicionalmente, os presidenciáveis do PSDB são de Minas Gerais ou São Paulo. Há espaço para um tucano gaúcho?
Eu acredito nisso, por isso estou me lançando neste processo. Me sinto acolhido, estou no PSDB há 20 anos.
Qual a posição do PSDB hoje no espectro político? Qual deve ser a cara do partido nas eleições de 2022?
Uma agenda que reconhece a necessidade de modernização do Estado, de enfrentamento dos problemas crônicos da máquina pública, que podem ajudar a destravar o crescimento econômico, para uma taxa de crescimento de longo prazo mais forte e sustentável. De outro lado, uma agenda social, de inclusão, que combate à desigualdade.
As pesquisas indicam Lula e Bolsonaro à frente. Qual o espaço para a terceira via?
As pesquisas indicam também elevadíssimo nível de rejeição aos dois nomes. Então, a pesquisa, neste momento, tem que ser lida nas suas diversas informações, uma vez que não há candidaturas postas.
Mas para um candidato da terceira via ser viável, o que precisa?
Se conectar com o sentimento do eleitor. O eleitor sabe o que ele não quer, ele demonstra a partir do nível de rejeição que a gente vê nos dois candidatos que ele não quer mais do mesmo. Então, tem que poder representar o encerramento desse capitulo de divisão dos brasileiros. O Brasil não precisa ficar discutindo o que fomos e o que fomos, mas o que podemos ser e recuperar a esperança no futuro do país.
Em um cenário de segundo turno, entre os dois, quem o senhor rejeitaria, já que segundo turno é rejeição?
Nós trabalharemos para que esse segundo turno não aconteça, até o último momento. Se acontecer, discutiremos lá na frente, mas confio que não acontecerá.
Bolsonaro deve ir ao Rio Grande do Sul na próxima semana. Deve encontrá-lo?
Absolutamente nada previsto nesse sentido.
Há a previsão de uma motociata em Porto Alegre. Qual sua posição sobre um evento desses em momento de pandemia?
Acho que são movimentos legítimos para manifestação de apoio, mas questiono apoio a quê.
O senhor pretende acioná-lo, caso não sejam respeitados protocolos sanitários, como uso de máscaras?
Se for o caso, serão acionados por responsabilidade em função dos protocolos. Estão submetidos às mesmas regras que qualquer cidadão.
__________ * Ricardo Feltrin - IBOPE na TV aberta: Globo registra PIOR mês de JUNHO de sua HISTÓRIA
Ibope TV aberta: Globo tem pior mês de junho de sua história
Normalmente as TVs abertas registram suas piores audiências no mês de dezembro, que é um mês em que as férias começam e as pessoas se afastam um pouco da TV.
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Não foi o caso da Globo no mês passado: apesar de ainda ser líder de audiência com folga, ela registrou seus piores índices de audiência para um mês de junho em toda sua história.
E isso valeu tanto para sua média nacional quanto na Grande SP, o principal mercado da publicidade nacional. O ibope da emissora carioca foi ainda menor que o de dezembro último.
Vamos aos números...
No mês passado, nas 24 horas do dia, a Globo marcou 11,3 pontos e 30,9% de "share" no mercado nacional (15 maiores regiões metropolitanas). Isso representou uma queda de 6% na comparação com maio (cada ponto equivale a cerca de 260 mil domicílios no país).
Não bastasse isso, ainda foi o terceiro mês consecutivo de perda de audiência da Globo.
Motivos não faltam: a migração de parte do público para outras atividades, como streaming ou internet, e principalmente reprises que não estão agradando tanto ao telespectador.
Além disso, programas como "Jornal Hoje" tiveram um mês passado difícil. O telejornal vespertino apanhou vários dias do "Balanço Geral", durante o caso Lázaro. o "JN" também perdeu fôlego. As reprises de novelas também não estão agradando a gregos e troianos.
Em São Paulo a Globo também liderou, mas também perdeu fôlego: marcou 10,9 pontos e 28,7% de "share" —novamente o pior junho de sua história. Nesta medição cada ponto vale por cerca de 76 mil domicílios.
As outras TVs
No mercado nacional, a RecordTV foi a única com boa performance: cresceu 10% em audiência, graças a programas como o "Balanço Geral", "Cidade Alerta", "Jornal da Record" e a novela Gênesis".
A Record passou de 4,6 pontos e 11,9% de "share" para 5,4 pontos e 13,7% --um crescimento de 13% e 14%, respectivamente.
O SBT teve uma mínima oscilação, de 4,2 pontos e 11% de "share" em maio para 4,4 pontos e 11,5% em junho. A Band perdeu um décimo em pontos (1,7 para 1,6) e a RedeTV caiu de 0,5 para 0,4 --e já está tecnicamente na faixa chamada de "traço de audiência.
TV paga e streaming
Os canais por assinatura finalmente deram uma "respirada" no mês passado: em relação a maio, o ibope desses canais passou de 4,2 pontos para 4,4 pontos nas 24 horas do dia (cada ponto aqui vale por 100 mil domicílios aproximadamente.
Já o streaming segue como o verdadeiro "vice-líder" de ibope das TVs brasileiras, com média de 5,8 pontos e 15,2% de "share". Aparentemente essa mídia atingiu seu teto no ibope.
Todos os dados desta reportagem foram medidos pela Kantar Ibope Media, mas obtidos pela coluna junto a fontes nas emissoras. Isso porque a Kantar, contratualmente, não pode divulgá-los dessa forma à imprensa.
__________ * Redes sociais são uma ameaça à humanidade? Cientistas acreditam que sim

Marcella Duarte
Colaboração para Tilt
30/06/2021 19h20
E se conseguirmos sobreviver a pandemias e guerras, mas não às redes sociais? Distopias e teorias apocalípticas à parte, cientistas publicaram um estudo alarmante, sobre as ameaças dessas plataformas à humanidade. Segundo eles, poderíamos falhar repentina e catastroficamente.
Dezessete pesquisadores de biologia, psicologia, filosofia, ciências neurais, mudanças climáticas e outras áreas do conhecimento se reuniram para compreender melhor as formas voláteis e destrutivas de como a desinformação se espalha online. Este poder adquirido pelas redes sociais poderia levar nossa civilização à ruína, com uma falta de confiança generalizada e a incapacidade de discernirmos verdade e mentira.
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A equipe multidisciplinar traçou paralelos entre a humanidade e comportamentos coletivos de grupos animais. "É mais ou menos como utilizamos ratos ou moscas para entender neurociência. Nosso objetivo era ter essa perspectiva e, em seguida, olhar para a sociedade humana da mesma forma."
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O estudo aponta diversas áreas em que as redes sociais têm interrompido o fluxo de informações confiáveis: saúde, clima, política e outros temas urgentes e fundamentais para a sociedade. A robotização do nosso dia a dia, guiada por algoritmos ineficientes, contribui para espalhar fake news, que podem gerar graves consequências.
Ao mesmo tempo em que aproxima pessoas e democratiza informações, a dependência e o mau uso da internet podem transformar sociedades inteiras em conglomerados de massa de manobra, não-pensante e manipulável. De acordo com o artigo, as novas tecnologias criariam ou potencializariam fenômenos como "adulteração eleitoral, doenças, extremismo, fome, racismo e guerra".
Mesmo assim, os pesquisadores ressaltam o lado positivo das plataformas digitais. "A democratização da informação teve efeitos profundos, especialmente para comunidades marginalizadas e sub-representadas. [As mídias] Dão a eles a capacidade de se organizar online, ter uma plataforma e ter uma voz. E isso é fantástico", disse Bak-Coleman.
"Mas, ao mesmo tempo, vemos coisas como o genocídio de muçulmanos Rohingya [de Myanmar] e uma insurreição no Capitólio [nos EUA] acontecendo. Espero que seja uma afirmação falsa dizer que devemos ter essas dores crescentes para também termos os benefícios."
O recente sucesso de redes sociais, que dramaticamente transformaram as maneiras como nos comunicamos em um curto período de tempo, ainda não tem respostas certas ou caminhos definitivos. Apesar do tom sombrio e pessimista, o trabalho é um apelo para mudanças de atitude - ainda dá tempo de fazermos algo para evitar os piores cenários.
O estudo foi publicado na renomada revista Proceedings, da National Academy of Sciences (PNAS).
__________ * AGRO, EVANGÉLICOS e "ANTIMÁSCARAS" formam TRIPÉ que ainda SEGURA Bolsonaro

Thaís Oyama
Colunista do UOL
02/07/2021 10h41
Senadores e próceres do Centrão têm aumentado a pressão sobre Jair Bolsonaro para que desista de indicar André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal.
O presidente, porém, resistirá até quando puder. E não apenas por confiar que seu apadrinhado levará para a Corte a lealdade já demonstrada a ele quando ministro da Justiça ou no cargo atual, de advogado-geral da União.
Bolsonaro pode contar com toda a má vontade de Lira para o impeachment
Mais importante que isso é o fato de Mendonça encarnar a ponta — potencialmente mais instável — do tripé que hoje sustenta um presidente prestes a bater um recorde histórico de impopularidade.
Desse tripé, fazem parte os chamados "eleitores do agro", moradores das fronteiras agrícolas fortemente beneficiados com a alta do preço da commodities. Em municípios do Centro-Oeste com intensa atividade agropecuária, a popularidade de Bolsonaro chega a 50%, como mostra levantamento do instituto Ideia divulgado hoje.
Dado que o aquecimento do mercado das commodities, fruto da recuperação das economias americana e chinesa, deve se manter para além de 2022, também o apoio ao ex-capitão nesse segmento não deve sofrer abalos até as eleições.
A outra ponta do tripé que sustenta Bolsonaro são os seus eleitores-raiz - majoritariamente homens, com curso superior e moradores das metrópoles. Também conhecidos como "antitudo" (antipolítica, anti-STF, anti-Congresso, antiuso de máscaras na pandemia), eles são indiferentes à CPI da Covid e a qualquer coisa que deponha contra o presidente. Compõem o segmento que a tudo resiste — diga o que diga e faça o que faça o ex-capitão.
A ponta dos evangélicos resta, portanto, a mais sensível do tripé. Formada sobretudo por seguidores da vertente neopentecostal, moradores de regiões urbanas e pertencentes à classe C, essa parte dos apoiadores de Bolsonaro lhe foi até agora fiel.
Ocorre que o hoje favorito para as eleições de 2022, o ex-presidente Lula, tem forte penetração nesse público também.
Pesquisa Datafolha divulgada em maio mostrou o petista e Bolsonaro empatados tanto no primeiro quanto no segundo turnos entre o eleitorado evangélico.
No cômputo geral, porém, Lula apresenta viés de alta, e o ex-capitão rola ladeira abaixo.
"Nunca antes um chefe do Executivo a essa altura do mandato teve índices tão grandes de reprovação", afirma Maurício Moura, CEO do Ideia.
Entre os presidentes que tentaram a reeleição, Fernando Henrique Cardoso tinha, a um ano e meio do pleito, 25% de desaprovação; Lula, na mesma época, tinha 33%; e Dilma Rousseff, 31% (isso considerando que o petista vivia o auge da crise do mensalão e Dilma enfrentava as passeatas de junho de 2013). O governo Bolsonaro tem hoje astronômicos 54% de reprovação, segundo o instituto.
Bolsonaro se equilibra sobre o seu tripé, e sabe bem qual será o seu destino se uma das pontas falhar.
__________ * Excesso de serviços de streaming vai levar ao canibalismo
Colunista do UOL
02/07/2021 08h28
No programa desta semana no canal do UOL no YouTube, o colunista Ricardo Feltrin fala sobre a explosão de ofertas dos serviços de streaming no mundo e no Brasil.
Segundo estudo da companhia Drive, no Reino Unido, apenas nos últimos 4 anos foram lançados nos EUA e em parte da Europa nada menos que 745 serviços de streamings, sendo que a maioria é paga.
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No Brasil, esta semana, chegou a HBO Max.
Até dezembro ainda estreia o Star+, que na verdade vem a ser boa parte do chamado acervo "adulto" do Grupo Disney.
Sem contar a outra infinidade de serviços —"nichados" ou não— que já podem ser acessados no Brasil mediante assinatura.
Daí a pergunta?
Para que tanto streaming?
Numa mistura de pouca estratégia e muita ganância, boa parte dessas marcas deve desaparecer ou ser "devorada" por grupos maiores nos próximos anos.
Em vez de empresários e CEOS conversarem entre si e oferecerem serviços que podem durar anos, preferem investir em nichos já surrados pela TV paga.
745 serviços de streaming é quase quatro vezes mais o total de canais de TV relevantes no mundo.
Devem estar pensando que o novo significado da vida para o ser humano é assinar streaming e passar o resto de sua existência dentro de casa vendo séries.
__________ * 'Guerra do Amanhã': como CANIBALIZAR DÚZIAS de filmes em um produto MOFADO

Roberto Sadovski
Colunista do UOL
03/07/2021 04h16
Não existe uma única ideia original em "A Guerra do Amanhã". Nenhuma cena, nenhum arco dramático, nenhuma cena de ação. A impressão é que seus criadores, o diretor Chris McKay e o roteirista Zach Dean, fizeram uma maratona com todos os filmes que curtiam e foram sublinhando o que dava para afanar. É menos um filme e mais um caso para a polícia cinematográfica.
Pior ainda é constatar que a aventura, uma salada que mistura viagens no tempo e uma invasão alienígena (Tom Cruise fez melhor em "No Limite do Amanhã"), parece fazer regredir o relógio. Fosse lançada em, digamos, 1992, até que esse veículo para Chris Pratt entraria na lista de "é tosco mas é legal", compartilhada por "O Demolidor" (com Stallone) e "TimeCop" (com Van Damme): passatempos inócuos que o tempo deixou mais simpáticos.
Chegando ao público em 2021, porém, "A Guerra do Amanhã" divide o DNA com desastres como "Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles" e "Skyline - A Invasão". A ideia geral é atrelar uma premissa familiar ("ataque de aliens" nunca envelhece) com alguma reviravolta esperta (opa, olha a viagem no tempo!) e devotar o orçamento para os efeitos especiais. No caso do filme de McKay, que antes dirigiu "LEGO Batman - O Filme", a aposta é levemente maior porque o budget ao menos bancou Chris Pratt, louco para ter seu nome em algo que não seja Marvel ou Jurassic Park.

A turma ao menos poderia se dar o trabalho de escolher uma ideia narrativa e se ater a ela. A opção, entretanto, foi uma espécie de roteirização freestyle, com os clichês mais bestas (a família em primeiro lugar, o sacrifício valoroso, o alivio cômico) costurando de qualquer jeito as cenas de ação boladas pelos cineastas. O resultado é material para pelo menos uns três filmes, espremidos em 140 minutos.
Como o título entrega, " A Guerra do Amanhã" troca o conforto do presente pela distopia do futuro, mais precisamente três décadas à frente, quando a Terra foi devastada por uma raça alienígena. Como os invasores são brutais e já mataram geral, as forças do futuro conseguem construir uma máquina do tempo, dar um salto para trás e recrutar novos soldados (na verdade, qualquer um que possa ser convocado), que serão arremessados ao conflito futurista.
Um deles é o professor de ciências (e, convenientemente, ex-militar) Dan Forester (Pratt), que surge com o pacote completo de mulher amorosa, filha serelepe e pai ausente. Transportado para décadas à frente, ele encabeça um grupo de coitados que tem como missão resgatar uma equipe de cientistas que pesquisam um modo de derrotar os invasores - ao menos foi isso que eu consegui pescar.
Daí a coisa complica. Filmes com viagens no tempo precisam ao menos estabelecer sua própria verdade, amarrando depois sua narrativa, por mais absurda, nesse conjunto de regras. Mas pensar dá trabalho, e o roteiro que já fazia pouco sentido joga para o mato qualquer resquício de lógica. Vou tentar passar ao longo de spoilers, mas a coisa toda é tão óbvia que a gente sente os neurônios escorrendo pela orelha em cada nova cena
Forester encontra no futuro alguém que lhe é familiar, e o papo passa de "é melhor não compartilharmos nenhuma informação sobre nós mesmos" para "aqui está sua ficha corrida até sua morte" em questão de minutos. Mesmo assim são diálogos inúteis, informações dispensáveis, já que o filme sucessivamente ignora em cada cena tudo que informara na sequencia anterior. Assim segue o jogo, inverossímil em sua própria lógica, até o final.
O elenco de coadjuvantes faz o que pode. J.K. Simmons é o único com algum pulso, no papel do pai desgarrado do personagem de Pratt. Yvonne Strahovski (de "The Handmaid´s Tale) até se esforça para injetar alguma emoção, mas se despedaça na muralha de canastrice que é Chris Pratt. Qualquer uma de suas habilidades dramáticas que funcione em "Guardiões da Galáxia" sofre aqui uma morte lenta e dolorosa.

Tudo em "A Guerra do Amanhã" parece que passou da validade. É um filme mofado que tenta a todo custo se vender como novidade. Tarefa difícil, veja bem, quando seu ponto de venda mais interessante, os tais invasores, surgem com a cartilha do alien moderno: dentes afiados, guinchos guturais, uma pá de tentáculos, zero pensamento racional e a tendência afetada para a ultra violência. É a xerox como E.T. do mal, e como nenhum personagem tem o mínimo de desenvolvimento dramático, é fácil não dar a mínima para quem é por eles estraçalhado.
Daí em diante é um shot de bebida para cada filme canibalizado sem o menor constrangimento. Tem muito de "Tropas Estelares", uma pitada de "Alien", mais um pedaço de "Aliens, o Resgate", o climão de "Armageddon" e uma tungada desavergonhada em "O Enigma de Outro Mundo". Garanto que você termina "A Guerra do Amanhã" totalmente bêbado. Quando Chris Pratt, já no clímax nonsense, sai no braço com uma rainha alien, entorpecer os sentidos parece uma boa ideia. Não importa quem vença, a gente já perdeu.
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