___________________* MILITARES GOLPISTAS em POSTOS-CHAVE têm tentado AMEDRONTAR o PAÍS / Míriam Leitão ___________________* Bolsonaro AGRIDE a DEMOCRACIA todos os dias e PODE MATÁ-LA / Miriam Leitão ___________________* O BLEFE que Braga Netto NÃO consegue desmentir
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__________* Militares golpistas em postos-chave têm tentado amedrontar o país | Míriam Leitão - O Globo

Os sinais de que um grupo de oficiais generais com ideias antidemocráticas se instalou em postos-chave no governo Bolsonaro aumentam a cada dia. É uma sequência de eventos. Só neste mês de julho houve a nota do ministro da Defesa, Braga Netto, com os comandantes militares, no dia sete, ameaçando a CPI, a entrevista do comandante da Aeronáutica, ao GLOBO, no qual o brigadeiro Carlos Almeida ameaçou claramente o Congresso e o país no dia oito. O comandante da Marinha o apoiou nas redes, no mesmo dia. E o presidente Bolsonaro, também no dia 8, afirmou que “ou vai ter eleição auditável ou não vai ter eleição”. O auditável é eufemismo para voto impresso.
É nesse contexto que é publicada nesta quinta-feira, 22, pelo "Estadão" a notícia de que o ministro Braga Netto, no mesmo dia 8, acompanhado dos comandantes militares, mandou um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira. "A quem interessar, diga que, se não tiver eleição auditável, não terá eleições.” Lira teria reagido indo ao próprio presidente para dizer que estaria com ele até o fim, mas que não contasse com ele nos planos de ruptura institucional. A informação das jornalistas Andreza Matais e Vera Rosa sacode o país hoje.
É claro que já preparam as notas de desmentido. O ministro Braga Neto, ao entrar agora de manhã no ministério da Defesa, disse: “é mentira, é invenção”, gritou de longe aos repórteres. Era previsível que diria isso. Mas é típico esse método: primeiro ameaçam, depois negam que o fizeram e repetem que estarão dentro das “quatro linhas da Constituição”. Hoje é o dia de falarem das quatro linhas. O problema é que esse grupo acha que está escrito nas quatro linhas que eles são o poder moderador. Não são. Como todas as instituições estão submetidos à Constituição.
Isso tudo é manobra para amedrontar o país e fazer com que as instituições recuem dando espaço para o bolsonarismo dominar inclusive as Forças Armadas. Há muitos que discordam de tudo isso dentro das Forças Armadas, mas quem está no comando foi colocado lá porque concorda com o projeto de Jair Bolsonaro que nunca foi, e jamais será, democrático. O caminho da venezuelização do Brasil fica mais claro a cada dia.
Só não entende os sinais quem desconhece a História do Brasil. Aqui houve duas longas ditaduras no século 20. A de Vargas foi garantida pelos militares, a outra foi feita pelos próprios militares que governaram o país por 21 anos rasgando a Constituição. É um caminho perigoso para as próprias Forças Armadas que deveriam conter os seus radicais que estão hoje dando o tom dos recados ameaçadores para o país. As instituições não podem subestimar os recados, os sinais, as notas, os tuítes, a tentativa de mais uma vez tutelar o poder civil no país.
__________* Desmentidos a ameaças à eleição foram insuficientes | Opinião - O Globo

É absolutamente inaceitável, numa democracia, que o ministro da Defesa tente influir de qualquer forma no processo eleitoral. É preocupante, portanto, a reportagem publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo afirmando que, no dia 8 de julho, o general Walter Braga Netto enviou ao presidente da Câmara, Arthur Lira, o seguinte recado “por meio de um importante interlocutor político”: não haveria eleições em 2022 sem o “voto impresso e auditável” — a conhecida quimera bolsonarista usada para questionar, sem nenhuma base em fatos, a lisura das eleições brasileiras, de modo a poder justificar acusações infundadas de fraude em caso de derrota nas urnas.
Braga Netto e Lira foram rápidos em emitir seus desmentidos. Em que pesem as manifestações de ambos, há fatos a estranhar. O primeiro é o presidente da Câmara ter negado o teor da reportagem pelo telefone a jornalistas e, em vez de gravar, ter preferido divulgar uma nota nada enfática numa rede social, em que se limita a dizer o óbvio. “O brasileiro quer vacina, quer trabalho e vai julgar seus representantes em outubro do ano que vem através do voto popular, secreto e soberano”, escreveu. Deixou de lado a questão essencial: recebeu o recado absurdo ou não? Teria sido melhor uma nota oficial com uma defesa veemente da autonomia do Parlamento, deixando claro que ele é imune a pressões, venham de onde vierem.
Mais insólita foi a postura do ministro da Defesa. Ele afirmou que “não se comunica com os presidentes dos Poderes por meio de interlocutores” e disse que a reportagem era desinformação. Mas Braga Netto ultrapassou o limite do bom senso ao comentar temas que deveriam ser estranhos a quem comanda as Forças Armadas. Disse que todo cidadão deseja “maior transparência e legitimidade no processo de escolha de seus representantes”, como se não fosse transparente o processo em vigor, que permitiu a alternância de poder por duas vezes em nível presidencial e incontáveis vezes noutras instâncias. E voltou a falar em voto impresso, como tem se tornado frequente nas falas do presidente Jair Bolsonaro.
Mesmo que tenha acrescentado que a decisão final cabe ao Congresso — novamente o óbvio —, a nota em si, ao se estender em comentários sobre o processo eleitoral brasileiro, pode ser interpretada como forma de pressão. Onze partidos já se manifestaram contra o voto impresso, o suficiente para derrotar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF) que tramita na Câmara na tentativa de instaurá-lo. A questão já teria sido encerrada não fosse a manobra, interpretada como antirregimental, do presidente da Comissão Especial que analisa o tema, o bolsonarista Paulo Eduardo Martins (PSC-PR), para adiar a votação.
Apesar dos desmentidos, o Estado de S.Paulo, um jornal de respeito, informou que mantém os termos da reportagem, o que torna tudo ainda mais nublado. A Câmara e a Comissão Especial prestarão enorme serviço ao país se, no início de agosto, puserem um fim a essa discussão estapafúrdia derrotando a PEC descabida. Mostrarão, assim, que a democracia brasileira mantém seu vigor e que não é retórica vazia a frase, sempre repetida, de que no Brasil as instituições são fortes e funcionam.
__________* Mourão afirma que é 'LÓGICO que Brasil terá ELEIÇÕES MESMO SEM voto impresso

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BRASÍLIA — O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta quinta-feira que é "lógico" que o Brasil terá eleições no ano que vem mesmo sem a aprovação do voto impresso, defendido pelo presidente Jair Bolsonaro. Mourão disse que o país não é uma "república de banana" e questionou quem iria "proibir eleição".
Há duas semanas, Bolsonaro afirmou que não haverá eleição no ano que vem se a disputa não for "limpa". O presidente não explicou o que ele considera uma eleição "limpa", mas ele tem defendido uma mudança no sistema de votação, apesar de nunca ter apresentado nenhuma prova de fraude no modelo atual.
— É lógico que vai ter eleição (mesmo sem voto impresso), pô. Quem é que vai proibir eleição no Brasil? Por favor, gente. Nós não somos república de banana — disse Mourão, ao chegar no Palácio do Planalto no início da tarde.
O vice-presidente ressaltou, no entanto, que ele também é favorável à proposta de voto impresso.
Mourão também questionou uma reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo" que afirmou que o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, teria feito uma ameaça e condicionou as eleições de 2022 ao voto impresso. De acordo com a publicação, Braga Netto enviou o recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), por meio de um interlocutor que não teve o nome revelado.
— Eu conheço o ministro Braga Netto há muito tempo, sei que ele não manda recado e não é, vamos dizer, da forma dele proceder que as coisas ocorressem dessa forma, até porque é um assunto que não diz respeito (a ele).
Braga Netto negou que tenha feito ameaças às eleições e afirmou que a discussão e a decisão acerca do voto impresso cabem exclusivamente ao Congresso Nacional, onde tramita uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o tema.
__________* Ministro da Defesa nega ameaça às eleições e diz que cabe ao Congresso decidir sobre voto impresso

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BRASÍLIA — O ministro da Defesa, general Braga Netto, negou nesta quinta-feira que tenha feito ameaças às eleições em 2022, conforme mostrou reportagem publicada nesta quinta-feira pelo jornal 'O Estado de S. Paulo'. O general também afirmou que a discussão e a decisão acerca do voto impresso cabem exclusivamente ao Congresso Nacional, onde tramita uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o tema.
Para Braga Netto, a ameaça poderia gerar “instabilidade entre os Poderes da República”:
“O Ministério da Defesa reitera que as Forças Armadas atuam e sempre atuarão dentro dos limites previstos na Constituição. A Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira são instituições nacionais, regulares e permanentes, comprometidas com a sociedade, com a estabilidade institucional do País e com a manutenção da democracia e da liberdade do povo brasileiro”, diz a nota.
Segundo reportagem do jornal 'O Estado de S. Paulo' publicada nesta quinta-feira, o ministro da Defesa teria feito uma ameaça e condicionou as eleições de 2022 ao voto impresso. De acordo com a publicação, Braga Netto enviou o recado por meio de um interlocutor que não teve o nome revelado.
Reação
O ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou nesta quinta-feira ter conversado com Braga Netto e com Lira e disse que ambos desmentiram, "enfaticamente", qualquer episódio de ameaça às eleições.
"Temos uma Constituição em vigor, instituições funcionando, imprensa livre e sociedade consciente e mobilizada em favor da democracia", escreveu Barroso em uma rede social.
O presidente do TSE, que tem feito uma defesa enfática da segurança das urnas eletrônicas, tem sido alvo de críticas por parte do presidente Jair Bolsonaro, que chegou a dizer que não haveria eleição sem voto impresso. O voto impresso é uma das principais causas defendidas atualmente pelo presidente e seus aliados.
Também em uma rede social após a publicação da reportagem, Arthur Lira não desmentiu as supostas ameaças, mas reiterou que as eleições de 2022 irão acontecer.
"A despeito do que sai ou não na imprensa, o fato é: o brasileiro quer vacina, quer trabalho e vai julgar seus representantes em outubro do ano que vem através do voto popular, secreto e soberano", escreveu o presidente da Câmara.
O deputado também disse que "as últimas decisões do governo foram pelo reconhecimento da política e da articulação como único meio de fazer o País avançar".
Edson Fachin, ministro do STF e presidente do TSE a partir de 2022, declarou em um evento nesta quinta-feira que não é de se espantar um "líder populista" que "queira suas próprias regras para disputar as eleições". O ministro não citou o nome de Bolsonaro.
__________* SUBSERVIÊNCIA de Braga Netto a Bolsonaro é queixa de PARTE dos MILITARES

A subserviência do general Braga Netto, hoje ministro da Defesa, ao presidente Bolsonaro tem causado grande incômodo entre alguns integrantes das Forças Armadas, incluindo nomes que atuam no próprio governo. Essa visão, porém, não é compartilhada pelos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, que estão alinhados à postura de Braga Netto. O trio segue afinado com o presidente e está embarcado na defesa do voto impresso.
Nesta quinta-feira, a reportagem publicada pelo jornal “Estadão” circulou em alguns grupos de WhatsApp como exemplo dessa “subserviência cega e sem limites” de Braga Netto. Esse grupo de militares é crítico à gestão do ministro e vê Braga Netto como um dos responsáveis pela demissão de seu antecessor, Fernando de Azevedo e Silva, em março. Silva deixou o cargo junto a comandantes das três Forças por não atender a pressões de Bolsonaro para que militares defendessem publicamente seus pleitos. A reunião que culminou na exoneração dos quatro generais aconteceu na casa de Braga Netto.
A avaliação é a mesma que recai sobre o general Luiz Eduardo Ramos, já demissionário da Casa Civil e prestes a ser substituído pelo líder do centrão, o senador Ciro Nogueira (PP-PI). O general atendeu a uma escolha de Bolsonaro, enterrando o discurso crítico que militares faziam sobre a atuação do Centrão dentro do governo.
__________* ROTEIRO do GOVERNO parece ter sido ESCRITO por um BÊBADO | Merval Pereira
O enredo do governo do presidente Bolsonaro parece ter sido escrito por um roteirista bêbado que, farto de ganhar a vida com trabalhos medíocres, resolveu, no meio do caminho, ter um ataque de sincericídio e reescrever a história como ela é, e não como a encomendaram.
Quando colocou com destaque aquele que seria um dos principais ministros do governo, o general Augusto Heleno, cantando “se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, sabia que era mentira, mas engoliu. Do meio para o fim, contou a verdade, e o senador Ciro Nogueira acabou nomeado ministro-chefe da Casa Civil, o ponto nevrálgico de um governo.
O general desapareceu do mapa, talvez envergonhado pelo papel que desempenhou na campanha presidencial. A Casa Civil, aliás, já era ocupada por um general da reserva, Luiz Eduardo Ramos, que também assumiu o governo para acabar com as negociatas políticas e terminou sendo responsável por elas.
Não devia ser tão flexível quanto a relação com o Centrão exige, pois não seria desembarcado do governo sem a menor complacência por Bolsonaro. Soube pelos jornais que sairia da Casa Civil e sentiu-se “atropelado por um trem”. Mas, como “um manda, e o outro obedece”, deve se satisfazer com uma sobra qualquer no governo.
O ministro Onyx Lorenzoni, depois do vexame que passou na televisão afirmando, dramaticamente, apelando até a Deus, que o documento apresentado pelo deputado Luis Miranda era falso, também não se envergonha de pular de ministério em ministério, desde que mantenha uma aparência de poder. Mesmo que essa aparência já não resista aos fatos.
Já foi ministro da Casa Civil, ministro da Cidadania e ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. Agora, recriarão o Ministério do Emprego e Previdência só para ele, uma vingança bolada pelo roteirista bêbado, que havia anunciado no início do governo que seriam apenas 15 ministérios.
Os superministros também se foram. O ex-juiz Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública, foi defenestrado justamente por causa do combate à corrupção que alegadamente o levou ao ministério. O czar da economia, o liberal Paulo Guedes, engole sapos imensos para permanecer no governo. Compreensivo, topa até gastar mais em ano eleitoral, para reeleger seu chefe.
O roteirista está tentando dar o troco, colocando Moro de volta à cena política como possível presidenciável, o nome da terceira via. Mas não sei se conseguirá dar ares de credibilidade a uma mudança tão drástica, que já fez com que Moro fosse considerado “suspeito” por um Supremo Tribunal Federal que muda de posição da noite para o dia e festeja a chegada de um futuro ministro, André Mendonça, que abre processos antidemocráticos contra os adversários do presidente.
A prisão em segunda instância já foi bandeira de Bolsonaro, mas agora ser contra ela virou ponto positivo para o indicado. Essas mudanças já provocaram consequências graves, como a absolvição, soltura ou anulação de vários processos envolvendo políticos apanhados na Lava-Jato, e não sei se o roteirista conseguirá revertê-las a tempo.
Um deles, Ciro Nogueira, já chegou ao topo do governo que iria prendê-lo, e o roteirista imaginou um advogado exibicionista, suposto defensor das liberdades públicas, mas que se especializou em soltar ladrões, dizendo que os vários processos a que Nogueira responde não o impedem de assumir um dos cargos mais importantes da República. Mas aí já seria imaginação demais.
Nem tanto, pois mandar um vice-presidente da República, ainda por cima general, ir a Angola para, como missão oficial, defender a Igreja Universal das acusações de corrupção naquele país é além de qualquer criatividade. Acho que o roteirista quis se vingar e agora está perdido em seu roteiro bêbado.
Até colocar o ex-presidente Lula e o atual presidente Bolsonaro criticando ao mesmo tempo, como se tivessem combinado, a possibilidade de haver uma terceira via para o eleitorado brasileiro, ele colocou. Fica tão óbvio que os dois querem a mesma coisa, um contra o outro no segundo turno, que acho que o roteirista exagerou na dose.
__________* Em teste, P.1 escapa de anticorpos contra primeira linhagem do coronavírus
Júlio Bernardes
Do Jornal da USP
24/07/2021 10h53
Testes de laboratório revelaram que a variante P.1 do coronavírus é capaz de escapar dos anticorpos neutralizantes gerados por resposta imune de uma infecção prévia por outras linhagens do vírus da covid-19. A conclusão é de um estudo internacional, com participação de pesquisadores da USP, (Universidade de São Paulo) que analisou amostras do plasma de pacientes que tiveram a doença, e também de pessoas imunizadas pela vacina CoronaVac.
Os pesquisadores enfatizam que os resultados foram obtidos in vitro, não em pacientes, além de o estudo não incluir outros tipos de resposta imune do organismo, reforçando que a vacinação deve ser acelerada. O estudo é descrito em artigo publicado na revista científica The Lancet em 8 de julho.
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Anticorpos de quem teve covid-19 não protegem contra variante, diz estudo
Os ensaios de neutralização da variante P.1, com o conjunto completo de mutações, foram realizados após incubação com plasma de 21 doadores de sangue na fase de convalescência da covid-19 e um total de 53 pessoas que receberam a vacina de vírus quimicamente inativado CoronaVac.
"Foram incluídas amostras de plasma de 18 pessoas que receberam uma única dose e outras 38 que receberam as duas doses da vacina, todas coletadas entre 17 e 38 dias após a imunização", explica afirma o pesquisador William Marciel de Souza, da FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) da USP, primeiro autor do artigo. "Também foram incluídas amostras de plasma de 15 pessoas que receberam duas doses da vacina de 134 a 260 dias antes da coleta."
Os resultados de neutralização para P.1 foram comparados com os resultados obtidos para um isolado da linhagem B do vírus, que circulou no começo da pandemia no Brasil, no ano passado. "Um dos ensaios de neutralização revelou que o plasma de pacientes convalescentes da covid possui uma capacidade neutralizante 8,6 vezes menor do que os isolados da variante P.1", aponta Souza.
Souza observa que estudos clínicos têm mostrado que a vacina CoronaVac é eficiente contra as formas graves da covid-19 reduzindo hospitalizações e mortes. "É preciso lembrar que este é o objetivo principal de uma vacina", afirma. "Deste modo, reiteramos que as campanhas de vacinação devem ser aceleradas."
A vacina CoronaVac foi avaliada em três condições distintas. "Primeiro avaliamos os plasmas coletados entre 20 e 23 dias após uma única dose, e a maioria dos plasmas teve um resultado abaixo do limite de detecção dos testes usados", relata o pesquisador.
"Para pessoas que receberam duas doses, com a coleta de plasma feita entre 17 e 38 dias após a segunda dose, tiveram nível de anticorpos neutralizantes maiores que apenas uma dose."
No entanto, quando os pesquisadores avaliaram em amostras coletadas entre 134 e 260 dias após a segunda dose, o nível de anticorpos neutralizantes foi abaixo do limite de detecção para P.1, e baixo para a linhagem B.
"Assim, esses dados indicam que a linhagem P.1 pode escapar da neutralização por parte dos anticorpos gerados em resposta a um estímulo induzido por variantes de sars-cov-2 que circulavam no início da pandemia", destaca Souza.
"Acreditamos que a vigilância genômica do vírus sars-cov-2 e a realização combinada de ensaios de neutralização podem ajudar a guiar os programas de vacinação, inclusive atualizações da estratégia de vacinas, caso sejam necessárias no futuro", enfatiza o pesquisador.
"Reiteramos que todos os nossos achados foram in vitro, não em pacientes. Lembramos também que os anticorpos neutralizantes são um dos componentes da resposta imune, outros componentes como imunidade celular não foram avaliados neste estudo."
Souza observa que estudos clínicos têm mostrado que a vacina CoronaVac é eficiente contra as formas graves da covid-19 reduzindo hospitalizações e mortes. "É preciso lembrar que este é o objetivo principal de uma vacina", afirma. "Deste modo, reiteramos que as campanhas de vacinação devem ser aceleradas".
O estudo foi conduzido por mais de 50 pesquisadores, e foi liderado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em colaboração com pesquisadores da USP e de outras instituições de pesquisa brasileiras, além da University of Oxford, Imperial College of London (Reino Unido) e da Washington University School of Medicine (Estados Unidos).
O trabalho contou com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Finep (Financiadora de Estudos e Pesquisas), Ministério da Ciência e Tecnologia e diversas outras agências de fomento.
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Trava Zap: cuidado com mensagens que fazem você perder o acesso ao WhatsApp
Gabriel Francisco Ribeiro
De Tilt, em São Paulo
24/07/2021 14h53
Atualizada em 24/07/2021 14h56
Você já ouviu falar de mensagens do WhatsApp que travam o uso do aparelho? Elas são conhecidas como "TravaZap", "Contact Bomb", "Binário", "Crashers", entre outros nomes. Apesar de não ser algo novo, de tempos em tempos internautas atualizam a oferta de tipos de mensagem que têm um único objetivo: fazer a pessoa perder acesso à conta no aplicativo.
Na internet existem chamadas para travas fracas, fortes e até um tipo de WhatsApp imune aos travamentos (que não é certeza de funcionar). O primeiro passo para se proteger é manter sempre seu aplicativo atualizado até a última versão, já que é por meio dos updates que o mensageiro acaba corrigindo bugs que podem ser aproveitados por usuários maliciosos.
A moda do TravaZap já se espalhou tanto que virou motivo de alerta de sites especializados no aplicativo, como o WaBetaInfo, que antecipa novidades do mensageiro antes que chegue aos usuários, no final do ano passado. De acordo com o site, a prática desagradável é popular principalmente no Brasil, apesar de rolar também em outros países.
O risco envolve dispositivos Android e com o iOS, sistema operacional da Apple.
O que é exatamente o Trava Zap
Como já mencionado, é quando uma mensagem tem como objetivo, literalmente, travar o WhatsApp da pessoa que a recebeu. Essas mensagens não fazem nenhum sentido e contêm diversos caracteres estranhos - é exatamente a combinação desses caracteres que pode fazer o app travar.
Após ler a mensagem inteira, o aplicativo do usuário que recebeu o conteúdo pode travar e não abrir mais. Isso porque, em alguns casos, o software não é capaz de processar o conteúdo composto de uma estrutura estranha.
Abaixo está um exemplo de uma mensagem Travazap:

Alguns tipos de textos enviados podem fazer o WhatsApp apresentar um "crash infinito", em que o app fecha automaticamente toda vez que o usuário tenta abrir o aplicativo.
Os conteúdos das mensagens podem variar, mas o objetivo é o mesmo. O usuário alvo da ação pode receber ou uma mensagem em texto completamente estranha ou, em outros casos, uma lista de cartões de contatos em que os nomes também são compostos de caracteres estranhos.
Pela internet é fácil achar versões modificadas do WhatsApp que supostamente oferecem proteção contra essa prática. Contudo, não é recomendável baixar versões que modificam o WhatsApp, já que você pode ter sua privacidade das conversas e da própria conta afetada, além de correr o risco de ser punido pelo próprio WhatsApp.
O que fazer se o seu WhatsApp travar
A primeira coisa a fazer ao receber uma mensagem do tipo é tentar bloquear o contato que a enviou a partir de uma sessão ativa no WhatsApp Web, como recomendou o WaBetaInfo. Após isso, você deve mudar sua privacidade de grupos para que apenas contatos possam te adicionar a grupos e então remover a mensagem desagradável, se possível, pelo computador.
Se você não tiver uma sessão do WhatsApp Web ativa e não puder criar uma nova já que o aplicativo está travado, você deverá ter que infelizmente reinstalar o mensageiro, possivelmente perdendo seu histórico de chats.
É importante manter um backup ativo do WhatsApp para que você consiga recuperar o seu histórico de conversas ao reinstalar o aplicativo.
O problema de mensagens que travam o WhatsApp já rola há anos, com o aplicativo sempre tentando elaborar correções para isso. Muitas vezes usuários enviam os conteúdos de brincadeira para outros amigos - isso não deve ser feito em hipótese alguma, já que envolve uma falha grave de sistema e pode resultar em perdas irreparáveis.
Perdeu algum assunto de tecnologia? Tilt conta sobre as novidades. Receba toda sexta.
__________* Presidente do Psol, Juliano Medeiros defende protesto contra estátua de Borba Gato

247 – O presidente do Psol, Juliano Medeiros, justificou a ação assumida pelo grupo Revolução Periférica, que ateou fogo à estátua de Borba Gato, um Bandeirante responsável pela captura e assassinatos de povos indígenas. "O que significa queimar a estátua de um assassino diante do ato de erguer uma estátua para um assassino?", escreveu, em seu twitter. O caso será investigado pela Polícia de São Paulo. Saiba mais:
Agência Brasil – Equipes das polícias Civil e Militar de São Paulo investigam quem pode ter sido o autor de vandalismo nas proximidades da estátua do Borba Gato, na zona Sul da capital paulista, na tarde deste sábado (24). Segundo informações da Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo, as duas polícias realizam diligências em buscas de imagens e informações que possam ajudar na identificação e localização dos autores.
De acordo com as primeiras informações, por volta das 13h30, um grupo desembarcou de um caminhão e espalhou pneus pela via e nos arredores do monumento, ateando fogo na sequência. A SSP informou por meio de nota que policiais militares e bombeiros chegaram rapidamente ao local e controlaram as chamas e liberaram o tráfego.
Não houve feridos e nem detidos. O caso está sendo registrado no 11º Distrito Policial (Santo Amaro). Esse distrito ficará responsável pelas investigações.
__________* FILHODÁPÚTA: Aldo Rebelo diz que fogo em estátua de Borba Gato faz parte da guerra híbrida contra o Brasil

247 – O ex-deputado federal Aldo Rebelo, que foi ministro da Defesa, da Articulação Política e do Esporte, nos governos do PT, condenou a ação de um grupo chamado Articulação Periférica, que surgiu em julho deste ano nas redes sociais e ateou fogo à estátua de Borba Gato, desviando o debate sobre os protestos do dia 24 de julho contra Jair Bolsonaro. Segundo ele, este tipo de ação faz parte da guerra híbrida contra o Brasil, que consiste em um conjunto de técnicas para desestabilizar países adversários, utilizada contra o Brasil a partir de junho de 2013, levando ao golpe de 2016. Confira:
__________* Bolsonaro agride a democracia todos os dias e pode matá-la, diz Miriam Leitão

247 – A jornalista Miriam Leitão, que apoiou o golpe de estado contra a ex-presidente Dilma Rousseff, alimentando a farsa das "pedaladas fiscais", afirma que a democracia brasileira está perto de ser assassinada por Jair Bolsonaro, um governante claramente neofacista. "O agressor da democracia não vai parar. É como o agressor da mulher que, após perdoado, volta a atacar e muitas vezes o fim é a morte da vítima. Quem me fez esse raciocínio foi uma autoridade da República. Todos os dias a democracia apanha do presidente Jair Bolsonaro. Os generais e os civis que o cercam reforçam suas atitudes ou tentam justificá-lo. Essa violência só vai parar no fim deste governo, mas deixará cicatrizes. Quando as instituições estão funcionando, ninguém precisa dizer em notas e declarações", escreve ela, em sua coluna no Globo.
"O agressor da democracia brasileira instalou cúmplices em postos estratégicos. Braga Netto é da reserva, mas a carreira militar é usada para ele sempre falar escudado nas Forças Armadas. Os atuais comandantes assumiram com o mandato de mostrar que os militares defendem o projeto político de Bolsonaro. Foram escolhidos para apoiar o agressor. O general Luiz Eduardo Ramos quando foi para o governo era da ativa e estava no comando do II Exército. Ele fez parte do canal dessa bolsonarização dos militares. O Almirante Flavio Rocha, da SAE, está ainda na ativa. O projeto é deixar sempre a impressão de que as Forças Armadas vão agir para proteger Bolsonaro", escreve ainda Miriam.
"A democracia está sendo agredida. O agressor é o presidente da República. Ele tem ajudantes militares e civis. O maior risco é não ver o perigo, porque, como nos casos de violência contra a mulher, o fim pode ser a morte", finaliza.
__________* Religioso negacionista que fazia chacota da vacina morre por covid-19 nos EUA

247 - Um homem da Califórnia que zombava das vacinas contra a covid-19 em redes sociais morreu após uma batalha de um mês contra o vírus.
Stephen Harmon, membro da igreja Hillsong, era um oponente vocal das vacinas, e publicava uma série de piadas sobre não não tomá-las.
A informação é do portal Correio Braziliense.
"Tenho 99 problemas, mas a vacina não é um deles", tuitou o jovem de 34 anos para seus 7.000 seguidores em junho.
Ele recebeu tratamento para pneumonia e covid-19 em um hospital nos arredores de Los Angeles, onde morreu na quarta-feira (21).
Nos dias que antecederam a morte, Harmon documentou sua luta para permanecer vivo, postando fotos de si mesmo em sua cama de hospital.
"Por favor, orem todos vocês, eles realmente querem me entubar e me colocar em um respirador", disse ele.
__________* “Os militares no Brasil são os testas de ferro da CIA”, diz Carlos Latuff

247 - O cartunista Carlos Latuff, em entrevista à TV 247, comentou as ameaças que militares vêm fazendo contra as instituições democráticas. Em sua avaliação, a ofensiva não é de iniciativa própria das Forças Armadas, e sim do governo dos Estados Unidos.
“Você tem sucessivas ameaças por parte dos militares de quebra institucional caso o Lula seja eleito. Quando ele estava preso, houve ameaça por parte dos militares caso o Lula fosse solto… A tutela militar continua, mas é importante lembrar o seguinte: os militares cumprem ordens. Eles não fazem isso da cabeça deles, eles não são autônomos em relação a isso. Assim como em 64, eles cumprem ordens. Então, os militares no Brasil são os testas de ferro da CIA. O general Heleno, Braga Netto, o Clube Militar, esse pessoal, na verdade, está representando os Estados Unidos”, opinou Latuff.
Para o cartunista, o governo de Joe Biden, nos Estados Unidos, busca “melar a eleição do Lula”. “Por isso que digo, vivemos em um momento que, talvez, desde 64, não se tem tido uma intervenção tão objetiva da Casa Branca, através dos militares, na política do Brasil como agora. Percebo que vão tentar alguma coisa para melar a eleição do Lula. O Lula está em todas as pesquisas como o franco favorito. Ou seja, isso é uma coisa que não tem o que se fazer, porque o governo Bolsonaro é uma desgraça, essa terceira via não foi emplacada por enquanto, e é isso que os militares, a CIA e os EUA querem”, interpretou.
__________* Doria condena "vandalismo" nas manifestações em São Paulo

247 – "Condeno o vandalismo nas manifestações. Quem age como vândalo é tão autoritário e violento como aquele que é alvo do protesto. Democracia significa diálogo, equilíbrio, jamais baderna. PM de SP agirá sempre que houver quebra da ordem. Ato democrático sim, violência não", postou o governador de São Paulo, João Doria, do PSDB. Saiba mais sobre ao caso:
Agência Brasil – Equipes das polícias Civil e Militar de São Paulo investigam quem pode ter sido o autor de vandalismo nas proximidades da estátua do Borba Gato, na zona Sul da capital paulista, na tarde deste sábado (24). Segundo informações da Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo, as duas polícias realizam diligências em buscas de imagens e informações que possam ajudar na identificação e localização dos autores.
De acordo com as primeiras informações, por volta das 13h30, um grupo desembarcou de um caminhão e espalhou pneus pela via e nos arredores do monumento, ateando fogo na sequência. A SSP informou por meio de nota que policiais militares e bombeiros chegaram rapidamente ao local e controlaram as chamas e liberaram o tráfego.
Não houve feridos e nem detidos. O caso está sendo registrado no 11º Distrito Policial (Santo Amaro). Esse distrito ficará responsável pelas investigações.
__________* Ir para as ruas adianta? - Eric Nepomuceno
Por Eric Nepomuceno

Confesso que não me lembro da última vez em que participei de uma passeata de protesto. Não me refiro a atos de campanha eleitoral ou de defesa de alguma causa: estou falando de passeata de protesto.
Pois no sábado fui. Havia um sol cálido no centro do Rio, onde eu também não ia há sei lá quanto tempo. Reencontrei gente que não via há séculos. Uma antiga e querida amiga me contou que o último abraço dado por ela foi em minha companheira e em mim, no sábado 14 de março de 2020. Que aliás, e até sábado agora, tinha sido nosso último encontro.
Fiquei impressionado com a quantidade de gente que passava pela avenida Presidente Vargas, rumo à Candelária. Estacionei ali um tempinho, o suficiente para ver grupos organizados que iam de crianças negras a veteranos de 1968.
Vi várias senhoras e senhores em cadeira de rodas, vi senhores e senhoras de bengala, de muleta. Vi garotos e garotas no esplendor da juventude. Vi de tudo, e em tudo havia um entusiasmo, uma empolgação por poder externar o sufoco que nos atinge a todos. Havia, sim, muito fumaça – mas não a insinuada pelo Genocida. O que pairava no ar e nos encobria era o resultado da indignação nos queimando por dentro. Não entrei na corrente de milhares de gentes que se dirigiam ao palco principal do protesto.
Preferi caminhar na contramão, para contemplar rostos e olhares, compartilhar lampejos de indignação e esperança. De volta em casa vi imagens de outras cidades, e me impressionaram principalmente as de Salvador, de Belo Horizonte, do Recife, de São Paulo. E desde então uma pergunta ficou rondando minha cabeça: adianta ir para as ruas?
Claro que vale o argumento de que a pandemia e o medo de contágio afastam muita gente. A pergunta é: quanta gente? Afinal, havia muitíssimos jovens que certamente ainda não levaram a segunda dose da vacina, se é que levaram a primeira. E então, cadê essa gente que poderia ter aparecido e não apareceu?
E quem estava lá o que espera que aconteça?
Afinal, com a maioria da Câmara de Deputados alugada por Jair Messias e com o Centrão se apoderando daquilo que resta do governo, a possibilidade de que um pedido de impeachment seja aprovado é quase zero.
É muito difícil saber até que ponto manifestações, ainda que multitudinárias como as do sábado, tenham impacto maior na opinião pública. E mais ainda nos donos do dinheiro, que em sua maioria continuam acalentando Jair Messias e sua corja.
Certamente impactam o Congresso, mas foi justamente por isso que a maioria se deixou alugar.
Então: diante desse quadro e da tragédia vivida pelo país cada vez mais destroçado ir para as ruas adianta alguma coisa?
Adianta. E muito. Primeiro, para se sentir vivo. Segundo, para alguma hora conseguir atrair mais e mais gente. Terceiro, para mostrar que uma parcela mais que significativa dos brasileiros não vai se resignar. E quarto, para deixar claro aos políticos profissionais que tem gente, muitíssima gente, de olho neles.
Na próxima, vou estar lá de novo. E de novo, e de novo. Para sentir no rosto a brisa da esperança e acelerar na alma o vendaval de indignação.
Ficar à margem e em silêncio nesta hora, é, mais que ser resignado, ser cúmplice dos horrores vividos pelo país e da boçalidade do Genocida psicopata que habita o palacio presidencial.
__________* Estado profundo no Brasil como filial do Deep State dos EUA - Roberto Moraes
Por Roberto Moraes

Parece estar em curso no Brasil uma tentativa de estruturar, à imagem semelhança dos EUA, um Deep State, não como estrutura independente, mas como filial à sede do estado profundo americano.
Um esquema de poder que está acima do poder político e do governo do Estado-nação. Uma articulação que envolve no Brasil o Partido Militar, assim como o complexo militar dos EUA (Defesa-Estado Maior, Departamento de Justiça, CIA, NSA e FBI), o esquema financeiro de Wall Street e o setor de comunicações e mídias, hoje sob um controle cada vez maior das Big Techs.
No Brasil, o Arenão envolve o Partido Militar, o poder político congressual, a Faria Lima, redes sociais do bolsonarismo e parte do Judiciário. A subsidiária recebe apoio da matriz desde a sua gênese, lá nos esquemas ilegais da Operação Lava Jato e República de Curitiba com o Departamento de Justiça dos EUA.
No Brasil, após o golpe de 2016 e 2018, assume o governo o Partido Militar e assim eles tomam posse e controle de quase 10 mil cargos civis. Desta forma, se iniciam várias articulações entre autoridades governamentais, instituições da sociedade civil, empresas e consultorias afim de capturar o Estado para um comando mais profundo e paralelo (Deep State).
Trata-se de um estrutura que segue sendo montada por uma sociedade tripartite formada: a) militares no governo (em cargos civis) e na reserva das três forças militares (gente oriunda da Fundação Dom Cabral e FGV) que opera a formação de empresas e consultorias para formalizar contratos com o governo; b) gente vinculada ao setor financeiros (gestora de fundos e bancos tradicionais) e demais operadores da nova intermediação financeira do país em grande parte situada na Faria Lima; c) a intermediação política do Centrão.
Não se trata de uma aliança harmoniosa e sim um movimento com tensões entre eles mas com objetivos centrais claros num esforço de manter e ampliar o poder político e financeiro. Na essência, a garantia de uma tutela sobre todas as demais forças políticas do país.
O caso das compras das vacinas sob interferência de militares de alta patente com empresas novas e estranhas ao setor; o soft israelense Pegasus de espionagem e controle político; as articulações com a direita americana, latino-americana, haitiana e australiana, etc., a vinda do diretor da CIA ao Brasil, assim como o Departamento de Justiça dos Estados Unidos desde a Lava a Jato são partes deste processo, onde os fluxos de informações e acordos entre as partes e o todo precisam ainda ser melhor conhecidos.
O objetivo maior deste Estado Profundo no Brasil é um projeto de poder de longo prazo – assim como nos EUA – que vai para além de mandatos obtidos pela via eleitoral no país. Eles se articulam e agem como subsidiária dependente de um comando central consentido que se movimenta entre agentes do governo, empresas do setor financeiro e cada vez mais por entre fileiras do comando militar.
Não é difícil interpretar como se dá a articulação desta estrutura, desde que siga as pistas que em boa parte foram ficando mais claras, a partir da CPI da Covid. Agentes, instituições, processos, objetivos e estratégias daqueles que operam essa articulação estão em evidências, assim como as seguidas tentativas para despistá-las.
Evidente que ao fazer uma análise deste tipo se está apoiando em fatos reais, mas também em hipóteses. Portanto, não se pretende com esta reflexão tirar conclusões definitivas, mas chamar a atenção para alguns campos de investigação sobre os movimentos das relações de poder no Brasil.
__________* Centrão e militares são mais parecidos do que se imagina - Bepe Damasco
Por Bepe Damasco

Vejo como simplistas e exageradas as análises que situam em campos opostos hoje os militares e o Centrão, na disputa pela hegemonia no governo Bolsonaro.
No quesito briga por ocupação de cargos e, consequentemente, controle de verbas, de fato, a queda de braço é real. Não satisfeitos com os mais de 6 mil cargos que detêm na administração direta e nas estatais, os militares querem mais.
Quanto ao Centrão, os cargos de poder e as fatias polpudas do orçamento constituem-se na própria razão de ser do agrupamento.
Contudo, a tese do antagonismo incontornável entre o “partido militar” e os políticos vorazmente fisiológicos do Centrão não resiste a um exame mais cuidadoso.
Antes, abro parênteses: qualquer país essencialmente democrático deve contar com forças armadas estritamente profissionais, dedicadas exclusivamente à soberania nacional e sem envolvimento em política, como cabe a instituições de Estado, e não de governo. No caso do Brasil, bastaria que se cumprisse o que prevê a Constituição, a lei do maior do país. Fecho parênteses.
Voltando à vida como ela é, pensei em alguns pontos reveladores das semelhanças entre boa parte das forças armadas e o Centrão.
Patriotismo sem povo - Os militares jactam-se de serem mais patriotas que os civis. Só que esse peculiar conceito de patriotismo da caserna passa ao largo do sofrimento do povo desempregado, precarizado e desalentado, do corte de direitos da classe trabalhadora, dos milhões de irmãos brasileiros que não têm o que comer, onde morar nem terra para plantar. Já os políticos do Centrão estão sempre prontos a apresentar e votar em projetos de lei que ceife conquistas históricas dos trabalhadores, aumentando a concentração de renda e a desigualdade. É só ver como votou o Centrão nas reformas trabalhista e da previdência.
Venda do patrimônio da nação - O apreço dos militares ao patrimônio estratégico do país ficou no passado. Convertidos ao neoliberalismo mais tosco, ou fazem vistas grossas ou apoiam abertamente a venda, na bacia das almas e a toque de caixa, de estatais como a Embraer, a Eletrobrás e os Correios. Os fardados bateram palmas também para a entrega da riqueza do pré-sal às petroleiras estrangeiras e para a liquidação do Fundo Soberano criado nos governos petistas, cujos recursos eram carimbados para a saúde, educação, cultura e ciência e tecnologia. Esse verdadeiro passaporte para o futuro do povo brasileiro virou pó no governo golpista de Temer. Os parlamentares do Centrão ajudaram a aprovar todas essas leis lesa-pátria e antipovo no Congresso Nacional.
Déficit de convicção democrática - As forças armadas e a quase totalidade dos partidos e parlamentares que compõem o Centrão apoiaram o golpe contra a presidenta Dilma. Fingindo neutralidade institucional, os militares se deixavam trair por declarações de membros de sua cúpula em favor do impeachment sem crime. Já a caçada e a prisão ilegal de Lula contaram não só com aval das forças armadas, mas também com ações explicitamente à margem a lei, como a pressão do então comandante do Exército, general Villas Bôas, para que o STF não concedesse habeas corpus a Lula.
Indiferença em relação ao extermínio de pretos e pobres - Mesmo na pandemia, as estatísticas apontam um crescimento exponencial da letalidade policial. E a imensa maioria das vítimas é formada por jovens negros e pobres, moradores das favelas e bairros das periferias dos centros urbanos. Para ficar só num exemplo recente, em 6 de maio deste ano, a Polícia Civil do Rio assassinou a tiros ou com objetos de corte nada menos do que 29 pessoas tidas como “suspeitas”, na favela do Jacarezinho. O mundo político conservador e de direita, fortemente presente no Centrão, e os milicos se calaram, quando não saíram a justificar o massacre taxando as vítimas de criminosas, mesmo que a elas tenha sido negado o direito à defesa, ao contraditório e a um julgamento justo.
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General Braga Netto é um elemento perigoso que delira a respeito da Constituição - Jeferson Miola
Por Jeferson Miola

Por Jeferson Miola
A nota do general Braga Netto [22/7] é petulante e, também, ameaçadora. Nela, o general não desmente cabalmente a ameaça de cancelamento da eleição do próximo ano, apenas rechaça o que considera uma tentativa da imprensa de “criar uma narrativa” [sic]. O uso costumeiro do vocábulo “narrativa” pelo clã de Rio das Pedras é, claro, mera coincidência.
Evocando autoridade talvez conferida pelas medalhinhas, insígnias e inúteis condecorações militares, “o Ministro da Defesa informa que não se comunica com os Presidentes dos Poderes por meio de interlocutores”.
No passado 7 de julho, Braga Netto assinou com os comandantes das três Forças a nota infame com ataques e ameaças ao Senado da República. A despeito disso, entretanto, nesta última nota o general diz que a notícia, e não ele, é “mais uma desinformação que gera instabilidade entre os Poderes da República”.
Ao expor seu entendimento acerca do papel das Forças Armadas e do cargo que ocupa, o general “reitera que as Forças Armadas atuam e sempre atuarão dentro dos limites previstos na Constituição”. Porém, ele adota conceitos e definições não encontráveis nem na Constituição e nem na Lei Complementar nº 97/1999, que criou o Ministério da Defesa.
Tratam-se, na verdade, de interpretações delirantes dos dirigentes do partido dos generais. Eles se auto-atribuem a “missão heróica e salvacionista [‘da Pátria’]” para legitimarem a interferência política e a tutela das instituições e do poder civil, como demonstrado no quadro comparativo, com destaque para os trechos sublinhados:
Como visto, a Constituição não prevê Forças Armadas “comprometidas com a sociedade, com a estabilidade institucional do País e com a manutenção da democracia e da liberdade do povo brasileiro”, mas sim com a defesa do país, para a qual elas são, aliás, totalmente ineptas.
De outra parte, a Lei não fixa nenhuma competência para o ministro da Defesa imiscuir-se em assuntos eleitorais e, menos ainda, para fixar condicionalidades para a ocorrência de eleições.
O senador Renan Calheiros entende que Braga Netto “tem que ser exonerado o quanto antes, removido do posto que ocupa. É um elemento perigoso para a democracia que todos – Executivo, Congresso, Judiciário, Forças Armadas e a nação – juramos preservar e defender. O Brasil não pode se sujeitar ao capricho de mantê-lo onde está”.
A impunidade de Braga Netto e a continuidade dele no cargo é intolerável e atenta contra a democracia. Quanto mais o poder político e as instituições civis se agacham, mais os generais montam sobre o pouco que resta de democracia para escalar o projeto fascista-militar de poder.
__________* “Operação Porcaria” no bananal brasiliense é ação cúmplice de Lira e Braga Netto - Luís Costa Pinto
Por Luís Costa Pinto

Por Luís Costa Pinto, no Plataforma Brasília
Vicejam em Brasília, nesse breve interstício legislativo de duas semanas, as flores do recesso. Esquisitas, cônicas, de coloração arroxeada, constituídas por camadas rugosas que se sobrepõem, são flores de bananeira. Nada surpreendente. Afinal, estamos a viver a recidiva do câncer institucional que é a presença dos toscos, rudes e despreparados militares brasileiros na vida política nacional. Eles agem, como sempre, para não nos deixar esquecer: o Brasil é uma República de Bananas.
Um cacho frondoso e promissor do bananal brasiliense surgiu na palmeira do Senado e projeta sua sombra na direção da Praça dos Três Poderes com o bico – ou “umbigo de banana” – apontando para o Palácio do Planalto. A nomeação do senador piauiense Ciro Nogueira, presidente do PP, constitui-se num ardil de inteligência política do qual a balbúrdia que é o governo Jair Bolsonaro já não parecia capaz de executar. Nogueira é um dos mais hábeis parlamentares em atividade, mestre na arte de ouvir a todos e só falar o estritamente necessário – e, sempre, alinhando o tema com seus interesses pragmáticos.
De quando em vez, a consistência gelatinosa da conversa de Ciro Nogueira irrita quem vê a política como a arte de defender ideias e lutar por um projeto de País. Contudo, não se pode negar que ela seja eficaz para aqueles que usam os frutos já passados para mexê-los em tachos de cobre sobre fogo brando a pingar o limão das ameaças de retrocesso e misturar o açúcar das verbas orçamentárias manipuladas com escassa transparência e dali produzir uma geleia destinada a conservar por mais tempo a ilusão de que no pote há frutas.
Instalado na Casa Civil, o senador piauiense seguirá dando a Bolsonaro a ilusão de que há um governo dele no Palácio do Planalto. Mitômano, dado a crer nas mentiras e boçalidades que cria em escala industrial, o cretino patológico instalado no Palácio do Planalto acreditará nisso até o momento em que lhe for confortável dizer-se tragado e derrotado pela “velha política”. Quando isso acontecer – e não é uma questão de “se”, mas de “quando”, como diria o idiotizante rebento presidencial apelidado de 03 – Bolsonaro cumprirá sua sina de Jânio Quadro redivivo e alegará que forças ocultas o levam à renúncia.
Posto que a História tende a se repetir como farsa depois da tragédia, e porque o calendário já estará avançado, a renúncia poderá ser limitada ao anúncio da decisão de não concorrer à reeleição e negociar com o trade institucional – Congresso, Judiciário, o novo governo que virá – punições brandas para o rol de crimes que cometeu com a cumplicidade coatora dos filhos e dos comparsas fardados. Evidentemente, tendo chegado a tal ponto o cenário, só haverá uma biografia capaz de restaurar o eixo que conectam o Brasil às engrenagens funcionais de um Estado-Nação: a do ex-presidente Lula.
Tendo considerado, já, o petista como “o melhor presidente da História”, como registra gravação de 2017 feita ao jornal Meio Norte, de Teresina; e sendo considerado por ele “um grande amigo”; eis que emergirá o papel reservado pelo acaso a Ciro Nogueira: o de fiador de alguma tranquilidade institucional na transição do desastre da aventura bolsonarista para a única saída que honrosa que a Democracia e a esperança brasileiras têm hoje – o terceiro mandato de Lula, desta feita convertido no construtor da pacificação e da reconciliação nacionais.
Mas, se a nomeação de Ciro Nogueira para a Casa Civil é flor promissora do recesso no bananal da Capital da República, a inacreditável revelação pelo jornal O Estado de S Paulo das ameaças golpistas feitas pelo ministro da Defesa Braga Netto ao presidente da Câmara, Arthur Lira, assemelha-se àquelas pencas de frutos que apodrecem no cacho. E fedem. Chamei de inacreditável a reportagem publicada pelas repórteres Vera Rosa e Andreza Matais porque todo o enredo é pouco crível e isso não tem nada a ver com elas. Há, nesse caso, orelha de porco, rabo de porco, nariz de porco. Ou seja, foi uma operação porca. No comando da pocilga que só completa a paisagem do bananal brasileiro, dois porcos: o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o general-de-pijama Braga Netto.
A “Operação Porcaria” usou a larga reputação, experiência e correção profissional das jornalistas do Estadão para disseminar um roteiro falso. Uma “fonte confiável” procura uma dupla de profissionais ilibada e conta em off um arreganho antidemocrático de um leitão bochechudo que se crê javali: o ministro da Defesa teria mandado um recado ao presidente da Câmara advertindo-o que a ausência de voto impresso (e manipulável, corruptível, comprável, como acontecia no Brasil antes das urnas eletrônicas) inviabilizaria a eleição em 2022. Não há um único comandante militar de alta patente que não enxergue Braga Netto como um pulha metido em coturnos. Logo, ele não tem força para tal ameaça.
De acordo com o enredo passado à reportagem do Estadão pela fonte ainda oculta desse ardil, o presidente da Câmara, um arremedo de coronel dos engenhos alagoanos (sem deméritos. Tenho lugar de fala aqui: meu pai é alagoano, meu bisavô era senhor de engenho em Pernambuco e minha família tem usinas em Alagoas) foi tomar satisfações com o suposto chefe do ministro da Defesa, o boçal Bolsonaro, e contra advertir de que o Parlamento não toleraria uma ameaça daquele calibre à Democracia e ao instituto sagrado das eleições.
O figurino de defensor da Democracia e das instituições não combina com o perfil tosco, grosseiro, arrivista e voluntarioso de Arthur Lira – e é dessa forma que ele exerce o poder, manipulando o Orçamento da União e os cargos de livre provimento da administração pública, a partir da cadeira de presidente da Câmara.
Por outra, se há um grupelho golpista nas Forças Armadas liderado pelo ministro da Defesa que teria tido a ousadia de passar o recado acanalhado a Lira, de acordo com a versão plantada em O Estado de S Paulo, haveria uma ala “democrática” entre as lideranças militares para conter Braga Netto. Criar essa impressão – a de que há democratas dentre os comandantes militares que servem a Bolsonaro – e objetivo secundário, mas, não acessório, do semeador de flores de recesso na Esplanada dos Ministérios.
As jornalistas, posto serem profissionais decentes e corretas, confirmaram as ameaças com alguns dos emissários e receptores da advertência despropositada de Braga Netto e publicaram a história que tinham. Publicado na madrugada desta quinta-feira, 22 de julho, o veneno saiu do controle dos alquimistas tresloucados que urdiram a “Operação Porcaria” e não houve saída a não ser assistir aos patéticos desmentidos de Lira, Braga Netto, Bolsonaro… e à confirmação da autoridade democrática e republicana do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luís Roberto Barroso, para quem, acoelhados e acadelados, o ministro da Defesa e o presidente da Câmara apressaram-se em telefonar logo cedo a fim de desmentir a história que criaram, disseminaram e criam ser capaz de dar a eles maior amplitude e espectro de poder. Foram humilhados.
Se bananeira que deu cacho – mesmo podre – não serve mais para nada, que seja extirpada do bananal. É esse o fim que deve ser dado a Braga Netto, a seus roncos rotos na pocilga do Planalto. Já a nomeação de Ciro Nogueira para a Casa Civil ainda é flor do recesso a ser observada com cautela. De suas bananas podem fazem marmelada.
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Rússia-China propõem o mapa de trajeto asiático para o Afeganistão - Pepe Escobar
Por Pepe Escobar

Por Pepe Escobar, para o Asia Times
Tradução de Patricia Zimbres, para o 247
O encontro de ministros das Relações Exteriores da Organização de Cooperação de Xangai, a ter lugar na próxima quarta-feira em Dushanbe, a capital tajique, pode não ter chamado muita atenção, embora tenha revelado os contornos do grande quadro que temos à frente no que diz respeito ao Afeganistão.
Vejamos, portanto, o que a Rússia e a China - os pesos-pesados da OCX - vêm fazendo.
O ministro das relações exteriores chinês Wang Yi expôs o mapa de trajeto básico a seu colega afegão Mohammad Haneef Atmar. Ao mesmo tempo em que ressaltava o padrão-ouro da política externa chinesa - nenhuma interferência nos assuntos internos de nações amigas - Wang estabeleceu três prioridades:
1. Negociações interafegãs reais visando à reconciliação nacional e a uma solução política duradoura, evitando assim uma guerra civil total. Pequim se dispõe a "facilitar" esse diálogo.
2. Luta contra o terror – o que significa, na prática, o que restou da al-Qaeda, o ISIS-Khorasan e o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM). O Afeganistão não deve servir de refúgio a grupos terroristas.
3. O Talibã, de sua parte, deverá se comprometer a romper definitivamente com todos os grupos terroristas.
Atmar, segundo fontes diplomáticas, concordou plenamente com Wang. E o mesmo fez o ministro das relações exteriores tajique Sirojiddin Muhriddin. Atmar chegou a prometer colaborar com Pequim para esmagar o ETIM, um grupo terrorista uigur fundado na região de Xinjiang, a noroeste da China. De modo geral, a postura de Pequim diz que todas as negociações devem ser "de iniciativa afegã e controladas por afegãos".
Coube ao enviado da presidência da Rússia, Zamir Kabulov, apresentar uma avaliação mais detalhada das discussões de Dushanbe.
O principal ponto defendido pela Rússia é que Cabul e o Talibã devem tentar formar uma coalizão provisória pelos próximos dois ou três anos, enquanto negociam um acordo permanente. Imaginem uma tarefa sisífica - para dizer o mínimo. A Rússia tem pleno conhecimento de que os dois lados não irão retomar as negociações antes de setembro.
Moscou é muita precisa quanto ao papel a ser desempenhado por uma troika ampliada – Rússia, China, Paquistão e os Estados Unidos – nas dolorosamente lentas negociações sobre o processo de paz que vêm ocorrendo em Doha: a troika deverá : "facilitar" (terminologia também usada por Wang), e não mediar os procedimentos.
Um outro ponto de grande importância é que assim que negociações "substantivas" tenham sido retomadas, deve ser lançado um mecanismo com o objetivo de livrar o Talibã de sanções do Conselho de Segurança da ONU.
Isso significará a normalização do Talibã como movimento político. Levando em conta seu atual impulso diplomático, o Talibã permanece firme em seu objetivo. A advertência russa de que o Talibã não deve se tornar uma ameaça de segurança para qualquer um dos "istãos" da Ásia Central, caso contrário haverá "consequências", foi entendida em sua totalidade.
Quatro dos cinco "istãos" (excetuando-se o Turcomenistão) são membros da OCX. Por sinal, o Talibã enviou uma missão diplomática ao Turcomenistão a fim de aplacar os temores daquele país.
Rumo à fronteira
Em Dushanbe, uma reunião especial OXC-Grupo de Contato com o Afeganistão, criado em 2005, pela primeira vez se deu a nível de ministros das relações exteriores.
O que mostra que a OCX como um todo está engajada em transformar o seu papel de "facilitar, não mediar" no principal mecanismo de solução para o drama afegão. É sempre de importância crucial nos lembrarmos que nada menos que seis das nações-membros da OCX são vizinhas do Afeganistão.
Durante o evento principal do encontro de Dushanbe – o Conselho de Chanceleres da OCX – os russos, mais uma vez, caracterizaram a estratégia Indo-Pacífico de Washington como uma tentativa de conter a China e isolar a Rússia.
A partir de análises recentemente realizadas pelo Presidente Vladimir Putin e pelo Ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov, a delegação russa expôs a seus colegas da OCX sua visão, contrapondo a iniciativa de Moscou e Pequim no sentido de desenvolver um sistema mundial policêntrico com base no direito internacional, de um lado, ao conceito ocidental de uma suposta "ordem mundial baseada em regras".
O enfoque ocidental, segundo eles, coloca pressões sobre países que seguem políticas externas independentes, legitimando, em última análise, a "política neocolonial" do Ocidente.
Na linha de frente
Enquanto a OCX discutia o impulso em direção a um sistema mundial policêntrico, o Talibã, na linha de frente, continuou a fazer o que vêm fazendo nas últimas semanas: se apoderando de cruzamentos estratégicos.
O Talibã já controlava os cruzamentos de fronteira com o Tajiquistão, o Uzbequistão, o Irã e o Turcomenistão. Agora, eles acabam de tomar o ultra-estratégico Spin Boldak, na fronteira paquistanesa com o Baloquistão que, em termos comerciais é ainda mais importante que o cruzamento de fronteira em Torkham, próximo ao Passo de Khyber.
Segundo o porta-voz do Talibã, Suhail Shaheen, "o distrito de Spin Boldak na província de Kandahar está livre do inimigo - as forças de Cabul - e o distrito está agora sob controle dos mujahideen". O termo "mujahideen", no contexto afegão, significa as forças nativas que lutam contra invasores estrangeiros ou seus aliados.
Para ter uma ideia da importância de Spin Boldak para a economia do Talibã durante seus anos no poder, ver o terceiro capítulo de uma série que publiquei no Asia Times em 2010, aqui e aqui. Há onze anos, observei que "a fronteira Afeganistão-Paquistão ainda é porosa, e o Talibã parece acreditar que eles talvez consigam ter de volta seu Talibanistão". Hoje, mais que nunca, eles continuam acreditando nisso.
Enquanto isso, na província de Badakhshan, a nordeste, o Talibã vem se aproximando cada vez mais da fronteira com Xinjiang – o que vem levando a algum grau de histeria quanto à possibilidade de o "terrorismo" se infiltrar na China através do corredor de Wakhan.
Bobagem. A fronteira Afeganistão-China no Wakhan tem cerca de 90 quilômetros. Pequim tem a capacidade de exercer vigilância eletrônica total de qualquer coisa que se mova.
Atravessei parte do Wakhan do lado tajique, na fronteira do Afeganistão, durante meu circuito pela Ásia Central, em fins de 2019. Em alguns trechos da Rodovia Pamir, cheguei a uma distância de cerca de 30 quilômetros de Xinjiang, atravessando uma terra-de-ninguém. As únicas pessoas que vi naquela paisagem geologicamente espetacular e desolada foram umas poucas caravanas nômades. O terreno talvez seja ainda mais proibitivo que o Hindu Kush.
Se algum grupo terrorista tentar entrar em Xinjiang, eles não ousarão atravessar o Wakhan; eles tentarão se infiltrar pelo Quirguistão. Encontrei muitos uigures em Bishkek, a capital quirguiz: a maioria deles homens de negócios, cruzando a fronteira legalmente. Na fronteira entre o Quirguistão e Xinjiang, havia um fluxo constante de caminhões de carga. O ETIM era desqualificado como um bando de gente louca.
O que é muito mais relevante é que o Ministério das Obras Públicas, em Cabul, está de fato construindo uma estrada de 50 quilômetros - até agora não-pavimentada - entre a província de Badakhshan e Xinjiang, até o final do corredor Wakhan. Ela terá o nome de Rota Wakhan.
Nenhuma perspectiva de cemitério de impérios
É possível dizer que o Paquistão, membro da OCX, permanece como a peça-chave para a solução do drama afegão. O ISI paquistanês continua mantendo vínculos estreitos com todas as facções do Talibã: não esqueçamos jamais que o Talibã foi criado pelo lendário General Hamid Gul, em inícios da década de 1990.
Ao mesmo tempo, para qualquer grupo jihadi, é mais fácil se esconder e permanecer na clandestinidade nas áreas tribais paquistanesas mais remotas que em qualquer outro lugar - e eles conseguem comprar proteção, independentemente do que o Talibã estiver fazendo no Afeganistão. O primeiro-ministro Imran Khan e seu círculo têm plena consciência disso – tanto quanto Pequim. Esse será o teste supremo para a OCX em sua frente anti-terror.
A China necessita de um Paquistão eminentemente estável para todos os projetos de longo prazo da Iniciativa Cinturão e Rota/Corredor Econômico China-Paquistão, e para alcançar seu objetivo de incorporar o Afeganistão. Cabul fatalmente se beneficiaria não apenas de um aumento da conectividade e do desenvolvimento de infraestrutura, mas também de futuros projetos de mineração, incluindo a exploração de metais terra rara.
Enquanto isso, os nacionalistas hindus adorariam passar a perna no Paquistão e estender sua influência a Cabul, incentivados por Washington. Para o Império do Caos, a agenda ideal seria – o que mais poderia ser? – o caos: destruir a Cinturão e Rota e o mapa de percurso Rússia-China para a integração eurasiana, o Afeganistão incluído.
A dose adicional de histeria que retrata o envolvimento da Rússia e da China na reconstrução do Afeganistão como nada além de um novo capítulo na infindável saga do "cemitério dos impérios" não se qualifica sequer como tolice. As conversas de Dushanbe deixaram claro que a abordagem à questão do Afeganistão da parceria estratégica Rússia-China é cautelosamente realista.
Trata-se de reconciliação nacional, desenvolvimento e econômico e integração eurasiana. Não estão incluídos um componente militar, focos para um Império de Bases nem interferência estrangeira. Moscou e Pequim também reconhecem, de forma pragmática, que a realização desses sonhos não será possível em um Afeganistão refém de etno-sectarismo.
O Talibã, de sua parte, parece ter reconhecido seus próprios limites, daí sua atual iniciativa de diplomacia inter-regional. Eles parecem estar prestando muita atenção aos inevitáveis pesos-pesados - Rússia e China - e também aos "istãos" da Ásia Central e ao Paquistão e Irã.
Quanto a toda essa dança de interconexão prenunciar o início do Afeganistão pós-guerra como um estado realmente funcional, tudo o que podemos dizer é insha Allah.
__________* Governo é de coabitação do ‘toma lá, dá cá’ entre Bolsonaro, generais e o Centrão - Milton Alves
Por Milton Alves

Nada como um dia após o outro para mostrar a verdadeira face política do presidente Jair Bolsonaro aos que se deixaram enganar pela pregação moralista de ocasião empregada por ele durante a campanha eleitoral de 2018. Evidente, que tiro dessa conta os núcleos militantes do bolsonarismo e o “partido militar”, envolvido em bilionárias falcatruas nos escaninhos ministeriais de Brasília.
Segundo Bolsonaro, em entrevista concedida à rádio Banda B, nesta quinta-feira, 22, ele se define como um político profissional do Centrão. “O Centrão é um nome pejorativo. Eu sou do Centrão. Eu fui do PP metade do meu tempo. Fui do PTB. Fui do então PFL. […] O tal Centrão são alguns partidos que lá atrás se uniram na campanha do Alckmin. Algo pejorativo. Não tem nada a ver. Eu nasci de lá”, afirmou.
Bolsonaro é um dos frutos podres da farsa da Lava Jato. Após o golpe de 2016, que degolou o mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff, ganhou impulso no país a campanha de demonização e criminalização do PT e da política, criando o caldo de cultura para emergência da extrema direita bolsonarista, montada no cavalo de troia do combate à corrupção.
A farsesca campanha anticorrupção do então candidato presidencial Jair Bolsonaro catalisou e agrupou o eleitorado de classe média, principal segmento envenenado pelo ódio contra o Partido dos Trabalhadores, esvaziando a campanha da velha direita representada por Geraldo Alckmin [PSDB].
O fenômeno político da onda bolsonarista só foi possível graças ao trabalho de sapa da operação Lava Jato. Ou seja, a praga política do bolsonarismo, primo tropical do neofascismo, foi nutrida pela engrenagem movida nos diversos escalões do Ministério Público Federal e das estruturas do Poder Judiciário, açambarcadas pela visão classista do lavajatismo — que operava um arbitrário sistema de justiça, com acentuada prática punitivista e autoritária.
No quadro de histeria golpista provocada pela Lava Jato, que armou a condenação e prisão de Lula sem crime para tirá-lo da disputa presidencial, Bolsonaro cavalgou na demagogia antissistêmica contra a “velha política” e o indecifrável presidencialismo de coalizão – eufemismo para o velho toma lá, dá cá -, inaugurado pelo presidente José Sarney durante a transição pactuada com a moribunda ditadura militar.
Bolsonaro monta governo de coabitação do toma lá, dá cá
Sob desgaste político crescente e sem resposta para debelar a crise econômica e social, agravada pela gestão criminosa da pandemia causada pela Covid-19, o governo Bolsonaro recorreu ao bloco parlamentar do Centrão, — em troca da blindagem para não correr o risco de impeachment — e liberou mais ainda a prática do velho toma lá, dá cá. Um vale tudo de fisiologismo: Liberação de recursos para os parlamentares do grupo, entrega de cargos em ministérios e empresas estatais e a criação de uma espécie de governo de coabitação entre Bolsonaro, os generais e o Centrão.
O bloco parlamentar do Centrão, um ajuntamento de diversos partidos no Congresso, ganhou mais musculatura política no interior do governo bolsonarista, reduzindo o espaço dos generais. Bolsonaro teve que ceder a estratégica Casa Civil para o senador Ciro Nogueira [PP-PI].
Com isso, o PP, principal partido do Centrão, amarra Bolsonaro que depende, cada vez mais, da trinca pepista: Nogueira na Casa Civil, Arthur Lira [PP-AL] na presidência da Câmara dos Deputados e do enrolado Ricardo Barros [PP-PR] na liderança do governo.
Todo o esforço de Bolsonaro busca assegurar a coabitação do “toma lá, dá cá” e sobreviver até 2022, aplicando as medidas a favor do grande capital nacional e estrangeiro contra o povo trabalhador, ou seja, passando a boiada neoliberal das privatizações e da retirada de direitos, com a providencial ajuda da turma da terceira via — integrada pelos partidos da velha direita neoliberal [PSDB, MDB, DEM, Novo e de setores do PDT].
Uma saída política progressiva da crise somente virá da mobilização popular. É um erro político grave cultivar ilusões de que a maioria do atual Congresso – sob o comando de Lira e Pacheco – que sustenta o governo, sob tutela militar, votará o impeachment de Bolsonaro. Não há nada mais urgente para deter a destruição da nação do que derrubar o governo Bolsonaro, responsável pela volta da fome, do desemprego e do genocídio de quase 500 mil brasileiros pelo coronavírus.
A nova jornada de mobilização do 24J será mais um momento do combate da frente única de esquerda e dos movimentos sociais para acumulação de forças na luta pelo fim do governo de Bolsonaro e dos generais golpistas — e também para barrar as manobras políticas urdidas pela velha direita, como a proposta de semiparlamentarismo. Um expediente feito sob medida para a possibilidade de uma vitória do ex-presidente Lula nas eleições presidenciais de 2022.
__________* O blefe que Braga Netto não consegue desmentir - Moisés Mendes
Por Moisés Mendes

Por Moisés Mendes, do Jornalistas pela Democracia
Braga Netto mandou o recado do golpe a Arthur Lira, para que Lira passasse o aviso do golpe adiante.
Se não fosse assim, não teria sentido mandar o recado.
Era preciso que muitos deputados e senadores ficassem sabendo da ameaça, e não só os membros da comissão especial que examina a proposta de emenda do voto impresso na Câmara.
Como muitos receberam o aviso e era sabido que alguém iria vazar a ameaça, não há agora como negá-la. A nota de Braga Netto em que diz que não disse nada a Lira também acaba não dizendo nada.
A notícia da ameaça (se não tiver voto impresso, não tem eleição) saiu no Estadão.
Se não tivesse mandado o recado, o general diria categoricamente que era uma mentira e que iria exigir provas do jornal.
Ao chegar para trabalhar, Braga disse aos jornalistas que a notícia era uma invenção. Na nota, disse que se tratava de desinformação.
Não usou as palavras inverdade ou mentira. Ficou no meio do caminho, e o Estadão reafirmou: o que publicou sobre a ameaça de golpe era mantido.
O jornal mandava outro recado ao general: nós sabemos que o aviso existiu.
O recado é uma prova de amadorismo de articuladores de golpes que são, na verdade, blefadores há quase dois anos.
Braga Netto foi longe demais e acabou sendo desmascarado pelo que parecia improvável.
O jornal que denunciou sua manobra ainda é o conservador jornal brasileiro.
É ultraconservador, é reacionário.
O Estadão foi golpista em 64 e foi golpista em 2016 e só não é bolsonarista porque Bolsonaro declarou guerra a toda a grande imprensa.O Estadão e o Centrão desmascararam, com o vazamento da ameaça, o golpe de um trapalhão.
É quase certo que Braga Netto, o mais fiel dos militares, cumpriu uma missão de Bolsonaro.
Bolsonaro o incumbiu de mandar a advertência ao presidente da Câmara, para que esse se encarregasse de espalhar no Centrão. E o Centrão devolveu a granada sem pino ao colo do general.
Bolsonaro blefa, Augusto Heleno já blefou e Braga Netto vem blefando.
O que pode sobrar dos blefes é que todos se tornarão inconfiáveis para possíveis golpistas que ainda acreditavam no que eles diziam.
__________* Os mitos falsos que o senador Serra propaga sobre o petróleo - José Sérgio Gabrielli
Por José Sérgio Gabrielli

Por José Sérgio Gabrielli
O senador José Serra (PSDB-SP) não tem obrigações de ser um conhecedor do setor de petróleo, mas vem se caracterizando como um ativo desmontador do marco regulatório do petróleo no Brasil. No entanto, como economista ele não poderia ter escrito o primeiro parágrafo de seu artigo “O petróleo e a retomada da economia”, publicado no jornal Estado de São Paulo.
Talvez sejam os longos anos afastados das lides profissionais do outrora economista que expliquem sua utilização do chavão do senso comum, de que o estímulo ao investimento estrangeiro (IDE) é um passo indutor da recuperação da economia. É bastante conhecido que o investimento estrangeiro segue o crescimento e, muito raramente, precede os processos de aceleração da economia. O IDE não é nem o primeiro, nem o mais importante indutor do crescimento em economias como o Brasil, que depende muito mais do comportamento do consumo e do investimento doméstico, especialmente o público, nos momentos iniciais de recuperação, especialmente em circunstâncias de longa fase de baixíssimo crescimento, como é o caso desde 2015.
Outra mentira afirmada pelo senador é que a “modernização regulatória é condição insubstituível para atrair empresas” no que se refere ao setor de petróleo e gás natural. Seu argumento, irrealista, é de que o principal motivo que orienta as decisões das empresas petrolíferas é o tipo de contrato que os países hospedeiros dos recursos de hidrocarbonetos definem para estabelecer as regras de relacionamento entre os governos e as empresas. Não é verdade. As empresas internacionais de petróleo se orientam pelas perspectivas de extração, o volume dos recursos, a logística e o desenvolvimento tecnológico para a produção. Entre condições geológicas, técnicas e econômicas semelhantes, o tipo de contrato pode ser considerado como um fator de escolha. Agora, por exemplo, há um boomde investimentos na vizinha Guiana/Suriname, que adota o contrato de partilha de produção, condenado pelo Serra.
Não se pode acusar o senador de incoerência. Ele é bem coerente na defesa de um modelo que privilegia as multinacionais em detrimento da Petrobras. Onze anos atrás, lá em 2010, o senador Serra votou contra o PL 12.267/2010, que possibilitava entre outras coisas o contrato de Cessão Onerosa, que deu origem aos campos de Búzios. Em 2009, segundo documentos vazados um ano depois pelo Wikileaks, o senador prometia a dirigentes da petroleira americana Chevron que a legislação seria mudada. Dizem os vazamentos de Assange, do Wikileaks, que Serra haveria falado a seguinte frase: “Deixa esses caras do PT fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo – do governo Fernando Henrique Cardoso – funcionava… E nós mudaremos de volta”.
É isso que Serra quer agora com seu projeto PL 3.128/2019, depois de ter apresentado, em 2015, o PL 131/2015, que foi aprovado como Lei Nº 12.351, “flexibilizando” a participação obrigatória da Petrobras com 30% das novas áreas do pré-sal.
Em 2018, com voto do senador Serra, foi aprovado o PL 8.939/2017, que possibilita a Petrobras vender parte dos recursos da Cessão Onerosa e agora o senador Serra apresenta mesmo subterfúgio de flexibilidade, aplicado dessa vez na escolha do regime de contratação: concessão ou partilha de produção.
Com o regime de concessão, o petróleo passa a ser propriedade do concessionário, enquanto no regime de partilha a propriedade permanece nas mãos do Estado e as empresas outorgadas são ressarcidas com petróleo dos seus custos e repartem parte do seu lucro-óleo com o governo, que dá o destino que quiser ao seu petróleo. Esses recursos, na legislação de 2010, alimentariam um Fundo Social, que financiaria transformações na Educação, Ciência e tecnologia do país, com uma cadeia de fornecedores nacionais que impediriam a chamada Doença Holandesa. Essa situação ocorre quando o país passa a ser unicamente exportador daquele produto e importador de tudo mais. Tudo isso está desmontado a partir do governo Temer, depois do impeachmentda presidente Dilma.
Recentemente, o IBGE publicou sua Pesquisa Anual da Industria mostrando que, de 2014 a 2019, período do auge da Lava Jato, a indústria brasileira perdeu quase 14% de seus postos de trabalho. O setor de fornecimento de produtos e serviços para a cadeia de petróleo e gás teve uma perda de 45% de seus postos de trabalho no mesmo período, em plena retomada dos leilões do pré-sal, acelerados depois do governo Temer.
O senador também argumenta com o aumento do risco. O risco exploratório, que era muito baixo no início do pré-sal, está aumentando, como seria natural em todas as bacias exploratórias. Esse baixo risco questionava a capacidade do contrato de concessão de remunerar adequadamente a sociedade brasileira, pois o conhecimento era assimétrico entre as empresas e o governo e a concessão tem um bônus de entrada, seguido de pagamentos fixos de royalties e participações especiais. O contrato de partilha não tinha o bônus de entrada como fator de competição entre as empresas, que competiam em relação ao percentual do lucro que partilhariam com o governo. Ganhos adicionais seriam repartidos entre empresas e governo.
Com o aumento do risco exploratório, ainda permanecendo em níveis inferiores a outras regiões, o elemento de maior participação da parcela do governo na renda petroleira continua válido. É por isso que as petroleiras preferem, em condições semelhantes, a concessão sobre a partilha. É isso que quer o senador Serra: diminuir a participação do povo brasileiro na renda proveniente da produção do petróleo.
Por fim, o senador afirma corretamente: “a retomada da economia passa, necessariamente, por investimento e geração de emprego na indústria petroleira no Brasil”. Algumas das empresas estrangeiras que aqui já estão querem adiar seus investimentos e seguram seu crescimento em função de seus próprios planos estratégicos. No passado, a Petrobras era quem investia, mas agora, também ela quer agir como outra IOC: focada na exportação do petróleo do pré sal, reduzindo investimentos e desintegrando seu complexo produtivo, ao contrário do que a última frase do artigo do senador afirma.
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China – qual socialismo? - Elias Jabbour

Por Elias Jabbour
A natureza do processo de desenvolvimento chinês por si é motivo de imensas e apaixonadas polêmicas, sendo a principal delas a que se refere à natureza de sua formação econômico-social. Socialismo ou capitalismo. Não seria demais advertir que a colocação da questão nestes termos não tem sentido marxista, pois se remete mais ao “princípio da identidade” de Kant do que à “correlação múltipla dos fenômenos”.
Uma realidade não é capitalista ou socialista à priori. Ela é fruto da combinação de diferentes modos de produção coetâneos, mas não contemporâneos dando forma e conteúdo a formações sociais específicas. O socialismo de mercado chinês, a nós, seria uma tipologia nova de formações econômico-sociais.
Tomar a realidade partindo deste nível de abstração demanda visão de processo histórico como antídoto aos famosos “check-lists” positivistas que encerram a velha mania da ciência social ocidental (incluindo os influenciados por Marx) de buscar classificar e organizar critérios para todo fenômeno diante de si. O contrário seria o correto: o conceito se realiza no movimento real. Neste sentido não seria nenhum exagero afirmar que a China, e o movimento que seu processo de desenvolvimento encerra, acumula material suficiente para voltarmos a problematizar o socialismo em termos dialéticos, por dentro do real e não como um ideal abstrato.
No fundo a questão não é refazer o que Marx (não) fez quando o assunto é socialismo. O problema é encontrarmos a forma histórica presente mais próxima daquilo que ele definiu um dia como socialismo (superação da divisão social do trabalho, abolição das classes e da propriedade privada). O preço a se pagar politicamente por se fixar em arquétipos é muito alto.
É o preço de se esquivar diante da realidade que devemos transformar. O que na verdade os comunistas chineses estão conseguindo com muita capacidade. De país mais pobre do mundo em 1949 ao fim da pobreza extrema em um país com as peculiaridades geográficas e diferenciais regionais de produtividade não é algo qualquer. Talvez seja o maior feito da história humana em séculos. Fruto de uma força política chamada Partido Comunista e que reivindica a si o comando de um processo que eles dão o nome de socialismo.
Voltando à questão da natureza da formação econômico-social chinesa. O critério primário para isso é o poder político. Encontrar alguma formação econômico-social onde o poder político está comprometido e dispõe dos elementos essenciais para alcançar determinados objetivos. Poder político não se exprime em “novas relações sociais de produção”. Poder político se exprime em novas relações de propriedade. O banimento de Hegel no ocidente levou a uma apropriação utopista do marxismo feita por acadêmicos e marxistas ocidentais. Ao colocar o pensamento à frente da matéria, percebe-se que uma nova sociedade já nasce sob bases próprias, ou relações sociais avançadas na primeira hora. Quando na verdade a grande questão é a base material que serve de suporte ao poder político.
Trata-se de uma forma sútil de negar a política e se refugiar no “ardil do conceito” hegeliano. Novas relações sociais não surgem fora dos marcos da propriedade pública e essa propriedade deve ter um grau de produtividade do trabalho maior que a propriedade privada. O próprio Marx nos adverte sobre o fato de novas relações sociais não surgirem sem antes as forças produtivas que a sustentam não terem se esgotado. Do ponto de vista político impor relações sociais novas em forças produtivas inexistentes abre campo à reação e ao fascismo. Mas esse é um outro ponto, do qual poderemos nos concentrar em outro momento tamanha a sua importância.
Muitos dos problemas do socialismo decorrem desta forma equivocada, tomando a nuvem por Juno. O papel do poder político de novo tipo é elevar o grau das forças produtivas, montar uma muralha de aço para sua autodefesa. As relações de produção têm relação de efeito a este movimento. Trata-se de pontos interessantes para começar a pensar a China como uma gigantesca experiência socialista.
Por exemplo, por que não pensar na grande empresa ou corporação empresarial estatal mediada e voltada para grandes tarefas postas pelo Partido Comunista como uma interessante forma histórica de propriedade? E como caracterizar uma formação econômico-social onde o núcleo da economia é este tipo de propriedade (no caso chinês, 96 conglomerados empresariais estatais)?
E onde é este tipo de propriedade a geradora dos ciclos de acumulação na economia em oposição às formações econômico-sociais de tipo capitalista onde o Estado induz, mas é o setor privado o gerador destes ciclos? As possibilidades abertas por um poder exercido pelo Partido Comunista baseado na grande produção e finanças estatais não seria uma forma histórica orientada a superação de antigas formas, baseadas na grande propriedade privada? Ou nos refugiaremos no “super-trunfo” para quem os problemas do socialismo se resolvem, à priori (nada positivista…) com “poder operário” e “democracia”?
Nos últimos 20 anos a China construiu cerca de 40 mil quilômetros de trens de alta velocidade. Ao lado disso tecnologias disruptivas (plataforma 5G, Big Data e Inteligência Artificial) surgidas no seio dos grandes conglomerados empresariais estatais elevaram em demasia a capacidade de planificação do Estado chinês. Em outras palavras: elevou-se a capacidade humana de intervir na natureza, o que significa mudança qualitativa no modo de produção dominante àquela formação econômico-social com o surgimento de novas regularidades a serem decifradas pela ciência social moderna. A China, literalmente, arrasta para frente a fronteira das ciências humanas e sociais.
Pensar em termos científicos a formação econômico-social chinesa passa necessariamente pela apreensão do fato de diferentes modos de produção coabitarem em uma verdadeira unidade de contrários. O socialismo enquanto forma histórica que se realiza na grande propriedade pública e na planificação em nível superior não está alheios às contradições de ordem capitalista que por ali coexistem. Fetiche da mercadoria, consumismo, surgimento de bilionários e precarização do trabalho são fenômenos reais, não imaginários.
Talvez são estas contradições que servem de motor ao surgimento de novas soluções políticas e econômicas a determinadas questões. A elevação da regulação estatal sobre as fintechs e a aceleração de compras de ativos de empresas privada pelo Estado não demonstra somente ação política. Em movimento significa o próprio surgimento de novas formas históricas de propriedade não previstas em nenhum manual.
Finalizando esta breve discussão, fica uma questão e uma breve resposta. Qual a forma histórica correspondente ao socialismo em nosso tempo apontada pela experiência chinesa? Não tenho dúvidas que a elevação da capacidade de planificar a economia e basear a planificação no sentido de elaborar e executar grandes projetos pode ser a chave que nos encaminhe para um socialismo que tem na razão uma forma histórica em oposição à irracionalidade capitalista. Não estaríamos ressuscitando o velho Ignacio Rangel e observando na China o surgimento de uma “Nova Economia do Projetamento”? O projeto de uma ponte, viaduto ou milhares de linhas de trens de alta velocidade não passam de uma operação contábil ou em sua essência não estaria a realização do socialismo enquanto transformação da razão em instrumento de governo?
O socialismo é uma ciência. E como ciência devemos encará-lo. Ou não?
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As diferenças em comum: Deleuze, Marx e o agora - Marilena Chauí
Por Marilena Chauí

Por Marilena Chauí e Benito Eduardo Maseo
Prefácio [Marilena Chaui]
Se a diferença precede a contradição e se esta, como pensamento que opera com identidades, se opõe àquela, podemos indagar: é possível conciliar uma filosofia da diferença e o pensamento dialético? Em outras palavras, é possível re-unir Deleuze e Marx? Eis o desafio proposto e enfrentado por Benito Maeso.
No primeiro, realiza o levantamento exaustivo, temático e cronológico, das referências de Deleuze a Marx no contexto da tradição francesa de esquerda e no constante debate com os comunistas althusserianos.
No segundo, chega à construção deleuziana da figura de Marx, a partir da crítica que este endereça a Hegel, ou seja, a ênfase é dada ao materialismo e à interpretação do conceito de totalização em Marx, colocando-o à distância do hegelianismo para aproximá-lo do conceito deleuziano de rizoma (horizontalidade que exclui transcendências e hierarquias).
Tal aproximação jamais recusa as distinções entre ambos, mas enfatiza a proximidade entre a ideia de “nós de determinações” (no rizoma deleuziano) como significação explícita do tema das “múltiplas determinações” (na dialética marxiana), tema com que Marx define o concreto, de tal maneira que a dialética não seria síntese, mas, segundo Deleuze, “tensão relacional” ou “síntese não identitária”.
No terceiro caminho, Maeso apresenta o motivo que sustenta a busca da reunião dos dois pensadores. Esse motivo tem em seu centro duas noções deleuzianas: a de agenciamento e a de minoritário.
O agenciamento (em lugar de ideias como estrutura e sistema) é entendido como relação de elementos heterogêneos que produzem efeitos no real como práxis, isto é, atividade social, histórica e pessoal (donde o lugar central da ideia de desejo). Por um lado, torna-se possível, com o agenciamento, mapear as condições de nosso presente, o arranjo atual das forças e, por outro lado, propor um novo mapa a partir da desintegração dessas forças, abrindo uma outra práxis.
Se o materialismo de Marx pensa a unidade do sujeito e do objeto e não sua identidade, então abre para nós um materialismo que indague qual a política capaz de enfrentar o neoliberalismo (como economia e como ideologia), a passagem da sociedade da disciplina, vigilância e trabalho para a sociedade do controle (o surgimento de uma nova institucionalidade jurídica a respeito dos direitos e da política) e do consumo, na qual se dá a aparição da subjetividade digital (que, permanentemente exposta e controlada, acredita na igualdade entendida como direito igual de acesso).
É nesse contexto que Maeso examina a possibilidade político-social do novo, trazendo à cena o novo sujeito dessa nova práxis a partir daquilo que Deleuze, analisando a obra de Kafka, designa com o termo minoritário: o que se desvia do padrão (tido como “maior” ou majoritário), e se volta contra ele. Como se observa, a noção de minoritário não se refere às minorias e é mais amplo do que o de classe: refere-se ao momento em que há contestação coletiva e oposição ao que está posto como norma e padrão – desvio. Social e politicamente, minoritário são todos os que estão fora do poder constituído pela imbricação de lei-dinheiro-controle-marketing-autoexposição, própria da sociedade neoliberal e digital.
É fundamental que o termo empregado seja contestação, pois não se trata da tomada desse poder e sim de sua desintegração – ou, em termos deleuzianos, a derrocada do molar pela ação do molecular. O sujeito minoritário surge como instituição contínua de um novo modo de vida no qual o agenciamento é dado pelo comum, não como propriedade comum e sim como bem comum e felicidade de todos.
Não se trata de encontrar em Marx e Deleuze uma receita de ação, mas de, a partir deles, indagar: “como operar um tipo de síntese disjuntiva entre o potencial criativo e a positividade da diferença com o poder crítico da negatividade e da dialética? Essa relação tensa poderia, ao menos do ponto de vista teórico, auxiliar na construção de uma alternativa prática do nó górdio no qual pensamento e ação crítica parecem se encontrar. Em suma, trata-se de pensar o social e o político tais como estão agenciados diante de nós e em nós e, dessa compreensão, buscar como poderemos ultrapassar o que está dado, graças ao que está por fazer. Este livro é um convite a um pensar político novo”.
Apresentação [Benito Eduardo Maseo]
Por que promover hoje o diálogo entre autores que, mesmo importantes, pertencem ao passado? O autor desta obra não crê no “poder mágico” ou premonitório do pensamento de Marx ou de Deleuze. Mas assume a premissa de que seres humanos influenciam e são influenciados por sua relação com o meio onde vivem. Logo, todo pensamento é histórico e social, localizado no tempo, mas dotado de certo grau de “universalidade” pois o que ocorre hoje é efeito de práticas do passado e é causa dos eventos futuros.
Essa dialética torna a relação Deleuze-Marx imperativa. Se hoje o mundo é outro, permanece como seu motor um sistema que simultaneamente se autodestrói e cria as condições de sua sobrevivência. Se as formas de trabalho, emprego, subjetividades e exploração da natureza, entre outras, modificaram-se ao ponto de parecer não ser mais possível pensar o capitalismo com as mesmas categorias, manteve-se um axioma ou núcleo central: a busca por gerar mais capital a partir do próprio capital. Mudam as máscaras, mas o conteúdo é igual, tanto na vergonhosa escravidão dos povos da África como na ilusão do empreendedorismo neopentecostal: transformar a existência humana em fonte de lucro, a partir da exploração de seres humanos por outros humanos e por si mesmos.
Marx e Deleuze (e Engels e Guattari), em suas épocas, buscaram compreender tal máquina social desde seus fundamentos econômicos até implicações políticas, culturais e subjetivas. Dito isso, surpreende que tal relação só passou a ser estudada a fundo nos últimos anos, tanto no Brasil como no exterior.
Isso salta aos olhos na entrevista de Deleuze a Negri, em 1990, quando o francês declara “permanecer marxista”. Considerando o clima intelectual na França, “permanecer” de alguma forma era tudo que não se queria – e muito menos uma associação a Marx, alvo inclusive de “enterros simbólicos” sob aplausos de pensadores pós-modernos. Mas o que seria “ser marxista” para Deleuze? E por que há um recurso importante ao “nome de Marx” já em Diferença e repetição?
Definida a pergunta, estabeleceu-se a estratégia pouco usual de dividir o trabalho em dois campos: o histórico e o conjuntural. No primeiro, mapeou-se a presença marxiana na filosofia de Deleuze, abarcando também o pano de fundo envolvido na propagação do pensamento de Marx entre os franceses e, por tabela, as relações com Hegel, Nietzsche e a formação partidária e de movimentos sociais na política francesa.
A leitura da produção deleuziana revela o duplo papel (aliado e antagonista) operado pelo pensador alemão, surgindo um Marx vibrante e presente no coração da Filosofia da Diferença. Também foi preciso estabelecer a relação entre a Diferença, as variações da dialética marxiana e a partir desta, e a diferença de significação do conceito de negativo entre as escolas francesa e alemã. Se o nome de Marx protege a Diferença de ser considerada “bela alma”, haveria nela elementos “dialéticos” ou elementos diferenciais na dialética? Surge uma nova compreensão da experiência negativa: tanto negação/pensamento como afirmação/materialidade plenas.
Já o desenvolvimento conjuntural do livro parte do Desejo como motor do capitalismo e como suas mudanças alteram o tecido social. A esquizofrenia do capitalismo pode ser o “espectro que assombra a Europa”? É certo que as sociedades de hoje, marcadas pelo controle e pela vigilância, são diferentes das de Marx; porém a máquina capitalista sempre produziu mercadorias, subjetividades e, notadamente, informações. O que Deleuze chama de “alegrias do marketing” podem ser as mudanças nas formas de difusão, produção e circulação de informações e a formação de uma nova racionalidade de mundo, na qual o capitalismo extrai mais-valor da psique individual e coletiva. Forma-se um cabo-de-guerra entre a demanda desenfreada por satisfazer desejos e o medo constante do contingente. Para fugir do medo, abrem-se as portas para o autoritarismo.
Nas sociedades de controle o caos é a força motriz do capital: se o indivíduo tornou-se o empresário de si, os demais tornam-se concorrentes e o mercado torna-se o próprio tecido social. O empresário de si é o dono da produção da mercadoria de si, ou o sujeito-mercadoria: nós mesmos. A sociedade se organiza de forma antissocial e sua administração tende a um totalitarismo no qual cada indivíduo vigia e é vigiado simultaneamente.
É possível, então, tensionar uma sociedade na qual a tensão é norma? O autor crê nisso a partir do encontro entre as filosofias políticas de Deleuze e Marx, do resgate de conceitos como “Comum”, “minoritário” e “luta de classes”. É possível ler Marx pela luz do menor deleuziano? Ou ler a Diferença como variação da luta de classes? As filosofias de Deleuze e Marx – filósofos de crise em tempos de crise – podem apontar o resgate da dimensão comum da vida social sem perder de vista a individualidade e a diferença. Esta obra busca, dentro do percurso acima, trazer sua contribuição a um debate tão atual e que, ao mesmo tempo, nos mobiliza há tempos.
*Marilena Chaui é professora Emérita da FFLCH-USP. Autora, entre outros livros, de Contra a servidão voluntária (Autêntica).
*Benito Eduardo Maseo é professor de filosofia no Instituto Federal do Paraná (IFPR).
Referência
Benito Eduardo Araújo Maseo. As diferenças em comum: Deleuze, Marx e o agora. Curitiba, Appris, 2020, 244 págs.
__________* A última saída - Slavoj Žižek

Por Slavoj Zizek, no site A Terra É Redonda
Os dados mais recentes deixam claro que, mesmo após o avanço (altamente desigual) da vacinação, não poderemos relaxar e retornar ao velho normal.
Além da pandemia, que ainda persiste (o número de infecções voltou a aumentar, novos confinamentos nos aguardam), outras catástrofes estão no horizonte.
No final de junho de 2021, a formação de uma cúpula de calor – fenômeno climático no qual uma crista de alta pressão prende e comprime o ar quente, levando a altas temperaturas e cozinhando a região – sobre o noroeste dos Estados Unidos e o sudoeste do Canadá fez com que as temperaturas se aproximassem dos 50ºC.
Vancouver ficou mais quente que o Oriente Médio.
Essa patologia climática é apenas o ápice de um processo muito mais amplo:
nos últimos anos, foram detectadas temperaturas acima de 30ºC no norte da Escandinávia e da Sibéria.
Uma estação da Organização Meteorológica Mundial situada em Verkhoyansk, na Sibéria – ao norte do círculo polar ártico – registrou um recorde de 38oC no dia 20 de julho.
A cidade de Oymyakon, na Rússia, tida como o lugar habitado mais frio da Terra, registrou, neste ano, a temperatura mais alta em um mês de junho (31.6ºC).
Ou seja, “as mudanças climáticas estão fritando o hemisfério norte”.
É verdade, a cúpula de calor é um fenômeno local.
Mas ele é o resultado da perturbação em padrões globais que está claramente relacionada à intervenção humana nos ciclos naturais.
As consequências catastróficas desta onda de calor para a vida no oceano já podem ser percebidas:
“A ‘cúpula de calor’ provavelmente matou 1 bilhão de animais marinhos na costa do Canadá”, dizem especialistas.
“Um cientista da Colúmbia Britânica afirma que o calor basicamente cozinhou os mexilhões: ‘a areia da praia não costuma ser crocante quando caminhamos nela’”.
Enquanto as temperaturas aumentam de uma forma generalizada, em alguns locais esse processo atinge extremos; e, cedo ou tarde, tais extremos se unirão em uma série de pontos de inflexão globais.
As enchentes catastróficas na Alemanha e na Bélgica, em julho de 2021, são um destes pontos.
Ninguém sabe o que virá em seguida.
A catástrofe não é uma coisa que começará num futuro próximo, ela já chegou, e não em algum país distante na África ou na Ásia, mas aqui, no coração do Ocidente desenvolvido.
Que fique claro, teremos que nos acostumar a viver com múltiplas crises simultâneas.
Uma onda de calor não apenas é parcialmente condicionada pela exploração industrial inconsequente da natureza, mas seus efeitos também dependem da organização da sociedade.
No começo de julho de 2021, no sul do Iraque, as temperaturas ultrapassaram os 50ºC.
Simultaneamente, ocorria um colapso total do fornecimento de eletricidade (nada de ar-condicionado, geladeira ou iluminação), transformando a situação num verdadeiro inferno.
Esse impacto catastrófico foi claramente causado pela enorme corrupção estatal no Iraque, onde bilhões de dólares oriundos do petróleo desapareciam em bolsos privados.
Se analisarmos sobriamente esses (e muitos outros) dados, chegamos a uma conclusão simples.
Para toda criatura viva, seja ela coletiva ou individual, a saída final é a morte (é por isso que Derek Humphry estava certo ao dar o nome de Final Exit para seu livro em defesa do suicídio assistido).
As crises ecológicas dos últimos tempos abrem uma perspectiva realista para a saída final (suicídio coletivo) da própria humanidade.
Ainda haveria uma última saída neste trajeto que nos leva à perdição ou já ficou tarde demais e só nos resta procurar por um suicídio indolor?
Nosso lugar no mundo
Então, o que fazer nesta situação difícil? Devemos sobretudo evitar aquele senso comum segundo o qual as crises ecológicas nos ensinaram que somos apenas uma parte da natureza, não o seu centro, e que temos que mudar nossa forma de vida – limitar nosso individualismo, desenvolver novas formas de solidariedade, aceitar nosso lugar modesto em meio a toda a vida no nosso planeta. Ou, como disse Judith Butler, “um mundo habitável para os humanos depende de um planeta florescente onde os humanos não estão no centro. Opomo-nos às toxinas ambientais não apenas para que possamos viver e respirar sem ter medo de nos envenenar, mas, também, porque a água e o ar devem ter vidas que não estejam centradas na nossa”.
O aquecimento global e outras ameaças ecológicas não demandariam intervenções coletivas no ambiente que fossem incrivelmente poderosas, intervenções diretas no frágil equilíbrio das formas de vida? Quando dizemos que o aumento na temperatura do planeta deve ser mantido abaixo de 2ºC, falamos como se fossemos os gestores gerais da vida na Terra, não como uma modesta espécie. É óbvio que a regeneração do planeta não depende de “nosso menor e mais consciente papel” – ela depende de nosso enorme papel. Eis a verdade por trás de toda essa conversa sobre finitude e mortalidade.
Se também devemos nos preocupar com as vidas da água e do ar, é porque somos, como disse Marx, “seres universais”. Ou seja, somos capazes de ir além de nós mesmos, de nos apoiar sobre nossos ombros e perceber que somos um pequeno momento da totalidade natural. Fugir em direção a essa confortável modéstia da finitude e da mortalidade não é uma opção; é uma falsa saída que nos leva à catástrofe. Como seres universais, temos que aprender a aceitar nosso meio ambiente em sua composição complexa, que inclui tudo aquilo que consideramos lixo ou poluição, assim como o que não conseguimos perceber diretamente por ser grande ou pequeno demais (os “hiperobjetos” de Timothy Morton). Para Morton, ser ecológico não significa passar um tempo em uma reserva natural pristina, mas apreciar a erva que atravessa o rasgo no concreto, e depois apreciar o concreto. Ele também é parte do mundo, e parte de nós…
A realidade, escreve Morton, é povoada por “estranhos estrangeiros” – coisas que são ‘conhecíveis, mas esquisitas’. Essa estranha estranheza, escreve Morton, é uma parcela irredutível de toda pedra, árvore, terrário, Estátua da Liberdade de plástico, quasar, buraco negro ou mico-leão que podemos encontrar; ao reconhecê-la, nos afastamos da tentativa de dominar os objetos, procurando aprender a respeitá-los em seu caráter indefinido. Enquanto os poetas românticos se entusiasmavam com a beleza e com o caráter sublime da natureza, Morton responde à sua estranheza generalizada; inclui-se na categoria de natural tudo aquilo que é assustador, feio, artificial, prejudicial e perturbador.
Haveria um exemplo maior de tal mistura do que o destino dos ratos de Manhattan durante a pandemia? Manhattan é um sistema vivo composto por humanos, baratas e… milhões de ratos. Durante o confinamento, no ápice da pandemia, ao se fecharem os restaurantes aqueles ratos que viviam de suas lixeiras ficaram desprovidos de sua fonte de alimento. Isso levou a uma inanição em massa: muitos ratos foram encontrados comendo as suas crias. O fechamento dos restaurantes, que alterou os hábitos alimentares dos humanos, mas sem ameaçá-los, foi uma catástrofe para os ratos. Ratos como camaradas.
Outro acidente similar na história recente poderia ser chamado de “pardais como camaradas”. Em 1958, no começo do Grande Salto Adiante, o governo chinês declarou que “pássaros são os animais públicos do capitalismo” e deu início a uma grande campanha de eliminação de pardais. Suspeitava-se que cada ave era capaz consumir cerca de quatro libras de grãos por ano. Ninhos de pardais foram destruídos, ovos foram quebrados e os filhotes foram mortos; milhões de pessoas se organizaram em grupos e bateram panela para tocar os pardais de seus ninhos, procurando levá-los à morte por exaustão.
Tais ataques em massa acabaram com a população de pardais, quase levando-lhes à extinção. No entanto, em abril de 1960, líderes chineses perceberam à força que eles também comiam um grande número de insetos nos campos; logo, em vez de aumentar, as colheitas de arroz diminuíram drasticamente depois da campanha: o extermínio dos pardais perturbou o equilíbrio ecológico, e, na ausência de predadores, os insetos destruíram as colheitas. A essa altura, porém, já era tarde demais: sem os pardais, a população de gafanhotos explodiu, com enxames assolando o país e combinando-se com os problemas ecológicos que já haviam sido causados pelo Grande Salto Adiante – incluindo o desmatamento generalizado e o mau uso de venenos e pesticidas. Considera-se que o desequilíbrio ecológico exacerbou a Grande Fome Chinesa, que matou milhões. A saída encontrada pelo governo foi importar 250.000 pardais da União Soviética para reabastecer sua população.
Então, de novo, o que podemos (e devemos) fazer nesta situação insuportável? Insuportável porque temos que aceitar que somos uma dentre as espécies na terra, mas, ao mesmo tempo, carregamos o fardo da impossível tarefa de agir como gestores universais da vida na Terra? Já que perdemos a chance de adotar outras saídas, talvez mais fáceis (as temperaturas globais estão aumentando, os oceanos estão cada vez mais poluídos…), parece cada vez mais que a última saída – antes da final – será alguma versão do que foi outrora chamado de “comunismo de guerra”.
Pelos meios necessários
O que eu tenho em mente não é algum tipo de reabilitação ou continuidade do “socialismo realmente existente” do século vinte, muito menos a adoção global do modelo chinês, mas uma série de medidas que a própria situação nos impõe. Quando não só um país, mas todos nós enfrentamos uma ameaça a nossa existência, entramos em um estado de emergência – semelhante a uma guerra – que durará, no mínimo, algumas décadas. Para, simplesmente, garantir as condições mínimas de nossa sobrevivência, mobilizar todos os nossos recursos é inevitável para lidar com os inusitados desafios, incluindo o deslocamento de dezenas, ou talvez centenas, de milhões de pessoas devido ao aquecimento global.
A resposta à cúpula de calor nos Estados Unidos e no Canadá inclui não apenas ajudar as áreas afetadas, mas atacar suas causas globais. E, como a catástrofe no sul do Iraque deixa claro, um aparato estatal capaz de manter um estado de bem-estar mínimo em condições catastróficas será necessário para que se evite explosões sociais.
Tudo isso pode – espero – ser alcançado apenas por meio de uma forte e obrigatória cooperação internacional, pelo controle social e pela regulação da agricultura e da indústria; por mudanças em nossos hábitos alimentares básicos (menos carne), assistência médica global etc. Considerando bem, fica claro que a democracia representativa, sozinha, não será suficiente para a tarefa. Um poder executivo muito mais forte, capaz de impor compromissos de longo prazo, terá que ser combinado com associações locais de pessoas, e também com um firme corpo internacional capaz de sobrepor a vontade de nações dissidentes.
Não estou falando de um novo governo mundial – tal entidade abriria o caminho para imensa corrupção. E também não estou falando de comunismo no sentido de abolir mercados – a competição de mercado deve ter seu papel, ainda que regulada e controlada pelo Estado e pela sociedade. Por que, então, usar o termo “comunismo”? Porque o que teremos que fazer contém os quatro aspectos de todo regime verdadeiramente radical.
Em primeiro lugar, o voluntarismo: as mudanças necessárias não estão afirmadas em nenhuma necessidade histórica; terão de ser feitas contra as tendências espontâneas – como disse Walter Benjamin, temos que puxar o freio de emergência do trem da história. Depois, o igualitarismo: solidariedade global, assistência médica e uma vida decente mínima para todos. Então, os elementos que, para os liberais obstinados, só podem significar “terror” – e que pudemos degustar com as medidas de enfrentamento da pandemia: limitação de muitas liberdades pessoais e novos modos de controle e regulação. Finalmente, a confiança nas pessoas: tudo estará perdido sem a participação ativa das pessoas comuns.
O caminho adiante
Isso não é uma visão distópica e mórbida, mas o resultado de uma avaliação simples e realista da nossa condição. Se não seguirmos esse caminho, o que virá é aquela situação totalmente insana que já se passa nos Estados Unidos e na Rússia: a elite poderosa prepara a sua sobrevivência em bunkers subterrâneos gigantes onde milhares podem sobreviver por meses, com a desculpa de que o governo deve funcionar mesmo sob tais condições. Em poucas palavras: o governo deve continuar a funcionar mesmo quando não houver mais pessoas vivas na terra para exercer sua autoridade.
Nossas elites governamentais e financeiras já estão se preparando para esse cenário, o que significa que elas sabem que o alarme já disparou. Ainda que a perspectiva de megarricos vivendo em algum lugar no espaço, fora da Terra, não seja realista; não podemos evitar a conclusão de que as tentativas de alguns deles (Musk, Bezos, Branson) de organizar voos privados ao espaço também expressa a fantasia de escapar desta catástrofe que ameaça nossa sobrevivência na terra.
E a nós, que não temos para onde fugir, o que resta?
__________* Paulo Coelho merece um Nobel - Urariano Mota
Por Urariano Mota
Quando o governo fascista de Bolsonaro cortou o patrocínio do Festival de Jazz do Capão, na Bahia, sob os argumentos mais reacionários, o escritor Paulo Coelho tomou uma atitude prática, da trincheira da humanidade. Ele anunciou sem demora:
"A Fundação Coelho & Oiticica se oferece para cobrir os gastos do Festival do Capão, solicitados via Lei Rouanet. Entrem em contato via DM [mensagem privada] pedindo a alguém que sigo aqui que me transmita. Única condição: que seja antifascista e pela democracia" (Negrito meu)
Ontem, 22 de julho, veio a confirmação da promessa nas redes sociais do escritor: “Festival do Capão, antifascista e democrático. Transferência feita, avisem quando chegar".
Viva! A questão, a felicidade que dá na gente o seu gesto, não é só da grana, dos 145 mil reais transferidos. Pelo que se sabe de Paulo Coelho, ele seria capaz de oferecer até mais. A questão e a felicidade são: primeiro, a condição com que ele transfere o dinheiro, de o Festival ser antifascista e democrático; segundo, é o momento de luta e luto que atravessamos no país destruído pelos piores excrementos da sociedade brasileira.
Para mim, por mim, Paulo Coelho já ganhou o Prêmio Nobel de caráter, de bom-caráter. Para mim, por mim, é fora de dúvida o valor estético do que ele criou ao lado de Raul Seixas – ora, o Brasil inteiro já reconhece esse valor e canta suas canções até hoje. Mas para mim e por mim, eu que tenho sido tão preconceituoso em minhas leituras, reconheço que devo ler com urgência o que ele escreveu ao longo da sua laboriosa vida. Enquanto não começo o caminho perdido, posso agora recuperar um texto que escrevi há algum tempo, quando imaginei o dia em que Paulo Coelho recebe o Prêmio Nobel de Literatura. Espero que tenha sido mais que imaginação. E vamos ao texto que pode ser uma profecia.
A notícia correu o mundo desde a manhã. The Guardian, The Times anunciaram em primeira mão: o escritor Paulo Coelho, um dos mais importantes autores de língua inglesa do século, é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. E mais: “a Academia sueca, que decide quem vai receber o prestigioso prêmio de US$ 1,5 milhão, fez o anúncio descrevendo Mr. Coelho como um ‘autor de épicos sobre a experiência mística, que, com fervor e poder visionário, expôs uma civilização dividida entre o ser e o pós-ser’ ”. Os brasileiros, ainda mal inseridos no mundo globalizado, bem que tentam repor o Nobel em seu lugar de origem.
O Globo, após alguns salamaleques de ofício à civilização inglesa, ousa insinuar que Paulo Coelho é brasileiro, da cidade do Rio de Janeiro, com residência física em Copacabana. Mas que, a julgar pela qualidade das traduções dos seus livros para o “idioma de Shakespeare”, é compreensível que divida as honras com o antigo império. A Folha de São Paulo, em sua natural objetividade, exclama que o autor Paulo Coelho é tão bom, que mais deveria ser dito que ele está em um patamar além-Brasil. Mas um pouco antes do prêmio, os seus críticos literários haviam escrito que para o Senhor Paulo Coelho, em lugar de um patamar, o mais próprio seria um patíbulo. Mas agora tudo é diferente: “Os seus livros trazem um resumo da filosofia de vida de Coelho e são baseadas nas histórias e fatos de diferentes culturas e partes do mundo.”
O fato, descobrem: Paulo Coelho é o autor brasileiro – natural do Brasil – mais lido em todo o mundo. O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos impressos dos séculos XX e XXI. Por isso os chefes de redação se põem à caça do Nobel japonês Kenzaburo Oe, para arrancar dele frases de sagração, como antes o autor japonês dissera: “Paulo Coelho conhece o segredo da alquimia literária". Os textos de vitória da seleção brasileira da literatura vêm nas páginas com destaques do gênero “Paulo Coelho é um dos cinco autores mais vendidos do mundo. Mas em vez de oferecer aos leitores relatos aliciantes de violência, sexo ou suspense, Coelho escreve acerca de pessoas normais que se colocam em situações extraordinárias com a finalidade de incentivarem o seu eu interior, e fá-lo com uma prosa simples e despretensiosa." Ora, que tesouro tínhamos e não sabíamos.
Por isso agora os repórteres cercam o mago, que mal teve tempo de pôr de lado o seu grandioso arco. Eles vêm em horda, simpáticos, cordiais, íntimos, íntimos como só os repórteres conseguem ser.
– É verdade que o senhor escreveu O Alquimista em quinze dias?
– Sim. Todos os meus livros são escritos num período de duas a quatro semanas.
– O que faz um Nobel de Literatura?
– Escreve.
– E que mais?
– Bebe, come... e descome. Mas só se o sistema digestivo estiver em paz com as melhores obras.
– Entendo.... O senhor é um demônio? (Outras vozes) O senhor é alquimista? O senhor é autobiográfico?
– Acredito no conceito "Anima Mundi"…
– Entendi... Vários de seus livros são narrados do ponto de vista feminino. Como um homem consegue retratar tão fielmente as mulheres?
– Quando escrevo um livro estou sobretudo tentando resolver algo comigo mesmo.
– Mas o senhor é gay? O senhor já teve experiência gay? Quais são seus autores preferidos?
– Borges, William Blake, Jorge Amado, Henry Miller.
– Só?
– Só?! Agora eu pergunto ao repórter tão cumpridor da sua pauta: que livros o senhor já leu de Paulo Coelho?
– Muitos. O Alqumista. O Bruxo…
– Hum... Mas o que o jovem gostou mais do livro “O Bruxo”?
- Ah, de tudo, não é?
– Maravilha.
– O senhor sabia que o publicitário Olivetto declarou que o senhor é a nossa Coca-Cola?
– Lindo. E qual o slogan do produto, eu poderia saber?
– Paulo Coelho é que é.
O escritor, como um guerreiro da luz, então pega o arco e a flecha. E aponta. Os repórteres, ainda que não tenham lido a Odisseia, e por isso não lembrem da volta de Odisseu ao palácio, os repórteres ainda assim abandonam o campo, rápido. Não há cultura mais urgente que a da autopreservação.
Enquanto correm não sabem que na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia toda a imprensa proclama já o valor do novo Nobel de Literatura. Assim foi, assim é para o novo Nobel: primeiro, estranha-se, depois entranha-se.
__________* Lula e Bolsonaro são os únicos que ainda mobilizam parte dos eleitores no Brasil - Dimas Roque
Por Dimas Roque
Com a rejeição dos políticos em alta atualmente, isto acontece muito porque parte da grande imprensa tratou de criminalizar a todos, sem separar o joio do trigo. Eles querem sempre parlamentares que se curvem aos seus objetivos, mas enfrentaram muitos que não aceitaram os seus caprichos e por isto trataram de criminalizar a todos.
Já o povo, que assiste jornais nas TVs, leem sites e blogs e são inundados de informações, ficam muitas vezes com as versões oficializadas pela mídia, muitas das quais são sempre a do governante de plantão que paga para ter o privilégio da versão publicada.
Com essa aversão aos políticos junto à população, poucos são os que se aventuram em sair as ruas ou mesmo participar de atos públicos. O medo de serem contestados e virarem notícia negativa afastou muitos deles do contato pessoal.
No Brasil só dois políticos de expressão nacional conseguem juntar gente ao seu redor para segui-los. Um é Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente, a despeito de ter sido preso por mais de 500 dias. O que seria uma macula para a imagem de qualquer politico, está hoje livre, inocentado e despontando como provável eleito novamente a presidente no próximo ano.
O outro é Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil. Este consegue manter ainda um público fiel estimado em 25 a 30% do eleitorado. Isto quem diz são as pesquisas. Ele sabe como manter mobilizada uma turma que vive do ódio, da mentira e de tocar medo nas pessoas.
No próximo não “uma escolha difícil” a ser feita. O eleitor poderá escolher entre a volta do Brasil ao Brics, saída do mapa da fome, retorno ao sexto lugar como economia no mundo, canteiros de obras por todo o país, a paz, ou isto que está aí.
__________* São 130 mil crianças órfãs por culpa do Genocida - Marconi Moura de Lima
Por Marconi Moura de Lima
Vou começar este trabalho trazendo um trecho da reportagem extraída do sítio do SINPRO-DF, porque não conseguiria escrever algo mais impactante, em resumo.
Senão, vejamos: “a revista The Lancet, um periódico científico qualis do Reino Unido, divulgou, na terça-feira (20), um estudo que diz haver, só no Brasil, mais de 130 mil crianças e adolescentes órfãos porque perderam o pai, a mãe, os avós ou todos os seus cuidadores para a Covid-19”[1].
Gente! É desesperador! É desolador! É angustiante!
Você que lê este texto, qual é a sua cidade? Aliás, quantos habitantes tem aí no seu município?
Se você reside numa cidade com 10.000 habitantes, calcule quantos municípios iguais ao seu temos de crianças inocentes órfãs neste momento. São quase 11 cidades do tamanho da sua.
Se seu município tem perto de 100 mil pessoas, pasme!, há mais crianças chorando sem seus pais e sem saber o que será de suas vidas[2] que tem gente na sua cidade.
Se você mora em São Paulo, capital, que tem pouco mais de 12 milhões de habitantes, puxa!, as crianças órfãs representam cerca de 10% da maior cidade da América Latina.
Em virtude disso, trago duas inquietações. A primeira delas é que o povo precisa ocupar as RUAS deste País urgentemente para tirar da Presidência da República, Jair Bolsonaro. A culpa de tanto desespero é particularmente dele. Como assim? Se ele tivesse comprado a VACINA em dezembro de 2020, a maioria das quase 550 mil pessoas que morreram por COVID-19 estariam vivas neste julho de 2021 e não teríamos mais de 130 mil CRIANÇAS ÓRFÃS.
Na segunda mobilização, com a dor que aperta meu peito, fiz uma poesia para, ao menos servir de canal de reflexão sobre nossa postura no mundo; sobre certos descasos que são aceitos por parte de nossa população; e especialmente, para servir como uma espécie de oração em clamor por estas 130 mil crianças, rezando ainda para que tão logo se encerre este suplício, ou mais crianças também restarão órfãs.
Vamos de imediato à poesia...
………………………….
Os órfãos e o Genocida
É como inseticida.
Mas não aniquila insetos.
São fetos
Há pouco experenciando o mundo
[ e a vida.
Banida
Pela falta da vacina
Numa atitude assassina
[ do Presidente do Brasil.
São 130 mil.
Repetindo lentamente:
Ceeen-to e triiin-ta mil…
[ e mais
[ crianças
Nesse minuto,
Órfãos
Porque o fajuto,
Esse demente Presidente,
Matou deliberadamente
Milhares
[ de pais
[ e mães
Deixando inocentes
[ neste mundo,
[ imundo,
Sem proteção,
Sem a lição,
Sem a emoção,
Sem a visão primeira da existência
[ que brota do seio da mãe
[ ou do olhar firme do pai
Se tivesse a vacina
E o alimento
Essa triste sina
Não teria advento.
E os órfãos seriam apenas
[ crianças
Com suas esperanças.
Resta saber
Quando pararão de morrer
Outras mães e pais
Para que as crianças tenham paz,
[ futuro
[ e vida plena!
Deus,
Proteja aquela pequena,
Aquele pequenino,
Meninas e meninos.
Não lhes permita mais agonia.
Alegria
Aos órfãos desta pandemia...
………………………….
[1] Leia mais em sobre o estudo e análises em:
https://www.sinprodf.org.br/estudo-que-identifica-130-mil-orfaos-da-covid-19-no-brasil-alerta-para-os-desafios-da-educacao/.
[2] Há inclusive uma proposta da Câmara dos Deputados, de iniciativa do deputado federal, Flávio Nogueira, que busca instituir uma pensão individual para cada criança que ficou órfã em virtude da pandemia da COVID-19. Saiba mais em: https://www.camara.leg.br/noticias/771925-proposta-cria-beneficio-para-orfaos-em-razao-da-pandemia-de-covid-19/.
__________* A democracia apanha sem dó de Bolsonaro e morre no fim deste enredo | Míriam Leitão - O Globo

O agressor da democracia não vai parar. É como o agressor da mulher que, após perdoado, volta a atacar e muitas vezes o fim é a morte da vítima. Quem me fez esse raciocínio foi uma autoridade da República. Todos os dias a democracia apanha do presidente Jair Bolsonaro. Os generais e os civis que o cercam reforçam suas atitudes ou tentam justificá-lo. Essa violência só vai parar no fim deste governo, mas deixará cicatrizes. Quando as instituições estão funcionando, ninguém precisa dizer em notas e declarações.
— O presidente fala uma coisa e na hora que aperta ele recua, igualzinho ao homem que agride mulher. O agressor recua, garante que a ama, algumas pessoas asseguram que ele vai mudar e a violência cresce. Um dia ele chegará com um revólver e vai matar a mulher. É dessa certeza que surgiu a Lei Maria da Penha — explicou a pessoa com quem eu conversei sobre as crescentes ameaças do presidente e dos generais que o seguem, da reserva ou da ativa, nessa mesma lógica de agredir e negar que agrediu, prenunciando outro ato que seja ainda mais forte.
Nesse último episódio, revelado pelo “Estadão”, o ministro da Defesa, Braga Netto, enviou um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira, com o seguinte teor: “a quem interessar, se não tiver eleição auditável não terá eleição.” Foi dentro de uma escalada de agressões. Tudo se passou entre os dias 7 e 8 de julho. A nota do ministro da Defesa e dos comandantes militares tentando coagir a CPI do Senado foi no dia 7. No dia 8, Bolsonaro afirmou que ou vai ter o voto impresso ou não vai ter eleição, o general Braga Netto mandou o mesmo recado golpista, e o comandante da Força Aérea deu uma entrevista ao GLOBO elevando o tom da ameaça contida na nota, sendo em seguida apoiado pelo comandante da Marinha. O atentado foi combinado. Eram instituições funcionando. Com o objetivo de destruir a democracia.
O roteiro que se seguiu era previsível. Vieram os desmentidos com palavras ambíguas, as afirmações de que a democracia vai bem, e novo ataque do presidente. A nota de Braga Netto repetiu a ingerência em assuntos sobre os quais as Forças Armadas não têm que se pronunciar, ao defender o voto impresso que eles apelidaram de “auditável”. A quem disse que o ministro da Defesa estava invadindo a esfera política, Bolsonaro respondeu. “Quando vejo algumas autoridades tuitarem que isso é uma questão política, que certas pessoas não devem se meter nisso, quero dizer a vocês que isso é uma questão de segurança nacional. Eleições são uma questão de segurança nacional”, disse o presidente fechando aquele dia de debate sobre o recado do general. Isso autoriza as intervenções militares no tema que o presidente elegeu como pretexto. Todo golpe autoritário inventa seu pretexto. Esse é o de Bolsonaro. O de Donald Trump foram as acusações mentirosas de fraude. Ao fim, os trumpistas invadiram o Capitólio.
O agressor da democracia brasileira instalou cúmplices em postos estratégicos. Braga Netto é da reserva, mas a carreira militar é usada para ele sempre falar escudado nas Forças Armadas. Os atuais comandantes assumiram com o mandato de mostrar que os militares defendem o projeto político de Bolsonaro. Foram escolhidos para apoiar o agressor. O general Luiz Eduardo Ramos quando foi para o governo era da ativa e estava no comando do II Exército. Ele fez parte do canal dessa bolsonarização dos militares. O Almirante Flavio Rocha, da SAE, está ainda na ativa. O projeto é deixar sempre a impressão de que as Forças Armadas vão agir para proteger Bolsonaro.
O procurador-geral da República, Augusto Aras, e seus auxiliares diretos agiram várias vezes de forma contrária ao papel constitucional da PGR. O ministro André Mendonça teve atitudes e defendeu teses que feriam a Constituição. A Polícia Federal colocou seus documentos sob sigilo quando a publicidade tem que ser a regra numa República. Aras foi reconduzido, Mendonça foi indicado para a corte constitucional, um delegado da Polícia Federal é o ministro da Justiça. As agressões à democracia deixam cicatrizes. Algumas delas podem ser permanentes.
A democracia está sendo agredida. O agressor é o presidente da República. Ele tem ajudantes militares e civis. O maior risco é não ver o perigo, porque, como nos casos de violência contra a mulher, o fim pode ser a morte.
Com Alvaro Gribel (de São Paulo)
__________* Saiu faísca na última conversa entre Bolsonaro e Alcolumbre | Lauro Jardim - O Globo

A última conversa que Jair Bolsonaro teve com Davi Alcolumbre, há um mês, saiu faísca. A ideia do encontro era selar um entendimento.
Mas deu tudo errado. O diálogo foi ríspido, marcado por interrupções na fala do outro de parte a parte.
__________* Instituições funcionando | Bernardo Mello Franco - O Globo

Millôr Fernandes tinha uma boa frase para ilustrar os perigos do otimismo em excesso. Para ele, o otimista era o sujeito que se atirava do décimo andar e, ao passar pelo oitavo, comemorava: “Até aqui, tudo bem!”. A imagem parece descrever os brasileiros que não veem ou fingem não ver as ameaças de golpe contra a democracia.
Há duas semanas, Jair Bolsonaro deu um ultimato: ou o Congresso ressuscita o voto impresso ou “corremos o risco de não ter eleição no ano que vem”. A chantagem foi tratada com condescendência. Em vez de ser processado por crime de responsabilidade, o capitão foi convidado para um cafezinho no Supremo.
Nesta quinta, o jornal O Estado de S. Paulo informou que o ministro da Defesa aderiu ao complô para tumultuar a sucessão presidencial. Braga Netto mandou dizer ao presidente da Câmara, Arthur Lira, que só haverá eleição com as regras impostas pelo governo. Usou o coturno de general para intimidar o poder civil.
Seguiram-se negativas pouco convincentes. O deputado Lira desconversou sobre o assunto. “A despeito do que sai ou não sai na imprensa”, disse, vamos todos à urnas em 2022. O general bolsonarista optou pelo cinismo. Tentou desqualificar a reportagem, mas reforçou, em papel timbrado, a pressão indevida pelo voto impresso.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, limitou sua reação a um tuíte. Disse que conversou com os envolvidos, e os dois “desmentiram, enfaticamente, qualquer episódio de ameaça às eleições”. O ministro acrescentou que o país tem “instituições funcionando”. Lembrou o otimista de Millôr antes de se esborrachar na calçada.
Desde que assumiu a chefia do Executivo, Bolsonaro submete os outros Poderes a uma rotina de intimidações e chantagens. Até aqui, a tática tem funcionado. O Supremo impede o avanço das investigações sobre o primeiro-filho, acusado de desviar verba de gabinete. A Câmara não toca na pilha de pedidos de impeachment do presidente, recordista de crimes de responsabilidade. Agora a impunidade se estende a Braga Netto, que se comporta como chefe de guarda pretoriana.
O general é reincidente em ameaças golpistas. Há pouco mais de duas semanas, atacou o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz. Queria interromper as investigações sobre corrupção na compra de vacinas, que atingem militares aboletados no Ministério da Saúde. Em nota assinada com os comandantes das três armas, o ministro insinuou uma quartelada contra o Senado. Como o arreganho não foi punido, ele se sentiu à vontade para repetir a dose.
Num país com instituições funcionando, militar não intimida o Congresso e não opina sobre o sistema eleitoral. Na hipótese mais branda, quem age dessa forma é afastado do cargo que ocupa. No Brasil de 2021, general que afronta a Constituição só corre o risco de ser promovido. E os otimistas continuam a repetir que tudo está sob controle — pelo menos até a próxima ameaça de ruptura.
__________*
Morre Otelo Saraiva de Carvalho, estrategista da Revolução dos Cravos em Portugal

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LISBOA — O tenente-coronel Otelo Saraiva de Carvalho, estrategista do 25 de Abril de 1974 em Portugal, morreu neste domingo aos 84 anos, no Hospital Militar de Lisboa. Ele foi o responsável por elaborar o plano de operações dentro do Movimento das Forças Armadas (MFA), o movimento militar de esquerda que há 47 anos derrubou a ditadura do Estado Novo no país.
Saraiva de Carvalho nasceu em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique, em 31 de agosto de 1936. Foi recrutado para servir em Angola, na época também colônia portuguesa, em 1961, e lá permaneceu até 1963. Também atuou na Guiné, entre 1970 e 1973, já então com a patente de capitão de artilharia, a que foi promovido em 1965.
A atuação das Forças Armadas portuguesas contra os movimentos de independência em suas possessões na África seria uma das grandes motivações do chamando "movimento dos capitães", embrião do MFA, contra a ditadura comandada por António de Oliveira Salazar.
Já em Portugal, no MFA, Otelo Saraiva foi o responsável por elaborar o plano de operações militares que derrubou a ditadura de 41 anos de Salazar, na chamada Revolução dos Cravos, homenageada no Brasil, que ainda vivia a ditadura, pela música "Tanto Mar", de Chico Buarque. Na madrugada de 25 de Abril, com o codinome Óscar, dirigiu as ações do golpe anti-salazarista a partir do posto de comando instalado no Quartel da Pontinha, em Lisboa.
Ele chegou a comandante da Região Militar de Lisboa e do COPCON, o Comando Operacional do Continente, durante o chamado "processo revolucionário em curso". Mas, à medida que as divisões internas do MFA foram se acentuando, tornou-se um dos militares mais radicais do movimento.
Acusado de ter determinado uma série de ordens de prisão arbitrárias, em 25 de novembro de 1975 foi afastado de todos os cargos, principalmente do comando efetivo do COPCON.
Otelo Saraiva foi candidato à Presidência em 1976, quando obteve mais de 16% dos votos, e em 1980, quando teve uma votação irrisória, abaixo de 1,5%. Na década de 1980, seu nome surge associado às Forças Populares 25 de Abril (FP-25), organização armada de extrema esquerda responsável por vários atentados e mortes.
Em1983, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, mas foi preso em 1985, condenado a 15 anos de prisão por associação terrorista pelo seu papel na liderança das FP-25, que operou em Portugal entre 1980 e 1987, e à qual foi atribuída a autoria de 13 mortes e de dezenas de atentados.
À época, foi rebaixado a tenente-coronel. Em 1996, no entanto, o Congresso português acabou com todos os processos contra Otelo Saraiva, aprovando um indulto, seguido de uma anistia para os presos do caso FP-25.
Em 2011, quando Portugal sofria os efeitos da crise financeira de 2008, ele afirmou que, se soubesse como o país ficaria, não teria realizado o 25 de Abril. Otelo lamentava as "enormes diferenças de caráter salarial existentes na sociedade portuguesa".
"Sem derramamento de sangue"
Em comunicado, o primeiro-ministro Antônio Costa, do Partido Socialista, lamentou a morte, afirmando que "a capacidade estratégica e operacional de Otelo Saraiva de Carvalho e a sua dedicação e generosidade foram decisivas para o sucesso, sem derramamento de sangue, da Revolução dos Cravos". Isso, prossegue a nota, o levou a tornar-se, "a justo título, um dos símbolos" do movimento que pôs fim à mais longa ditadura do século XX na Europa.
"Neste dia de tristeza, honramos a memória de Otelo, como um daqueles a que todos devemos a libertação consumada no 25 de Abril e, portanto, o que hoje somos", conclui o comunicado de Costa.
Já o presidente conservador Marcelo Rebelo de Sousa escreveu na página oficial da Presidência portuguesa: "É ainda cedo para a História o apreciar com a devida distância. No entanto, parece inquestionável a importância capital que teve no 25 de Abril, o símbolo que constituiu de uma linha político-militar durante a revolução, que fica na memória de muitos portugueses associado a lances controversos no início da nossa democracia, e que suscitou paixões, tal como rejeições".
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‘Se eu estivesse coordenando a pandemia, não teria morrido tanta gente’, diz Bolsonaro

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BRASÍLIA — O presidente Jair Bolsonaro disse neste sábado que se estivesse coordenando o combate à pandemia, o país teria registrado menos mortes. Em seguida, Bolsonaro fez novamente a defesa do tratamento precoce, que é comprovadamente ineficaz contra a Covid-19.
— Se eu estivesse coordenando a pandemia não teria morrido tanta gente. Você fala de tratamento inicial. A obrigação do médico, em algo que ele desconhece, é buscar amenizar o sofrimento da pessoa e o tratamento off label — disse o presidente.
Apesar de não mencionar, o presidente fez referência a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) do início da pandemia que possibilitou que estados e municípios decretassem medidas de combate à Covid-19.
No entanto, ministros da corte e o próprio STF já esclareceram mais de uma vez que essa decisão não retirava responsabilidade do governo federal. Mesmo assim, Bolsonaro vem insistindo que não teve poderes para atuar durante a pandemia.
Na mesma fala que fez para apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro voltou a atacar as vacinas e ressaltou os possíveis efeitos colaterais nas pessoas vacinadas.
— Agora qual país do mundo faz acompanhamento de quem tomou vacina? Tem gente que está sofrendo efeito colateral, o que está acontecendo? A Coronavac ainda é experimental e tem gente que quer tornar obrigatória — disse.
Todas as vacinas que estão sendo aplicadas no Brasil, inclusive a Coronavac, tiveram a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e são consideradas seguras e eficazes contra a Covid-19.
Bolsonaro ainda criticou a decisão do TST-SP que validou a demissão por justa causa de uma auxiliar de limpeza que se recusou a tomar vacina.
— Tem juiz do trabalho que tá aceitando demissão por justa causa a quem não quer tomar vacina. Eu falei ano passado, que no que depender de mim a vacina é facultativa, me acusam de negacionista — afirmou.
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Ofensiva de Keiko Fujimori para anular vitória de Castillo no Peru serve de alerta para região, afirmam analistas

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O novo presidente do Peru, o professor de esquerda Pedro Castillo, vai iniciar o mandato na próxima quarta-feira, 28 de julho, já em uma crise política provocada pela insistência da segunda colocada na eleição, a direitista Keiko Fujimori, em não aceitar o resultado da apuração dos votos. Para especialistas, a situação no país é um alerta ao continente porque pode servir de inspiração para que outros líderes questionem processos eleitorais limpos ao serem derrotados.
Castillo venceu o segundo turno, realizado em 6 de junho, por 44 mil votos de diferença, em um resultado que já era claro na semana seguinte à eleição. Keiko Fujimori, filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori (1990-2000), no entanto, alegou fraude nos resultados. Sem apresentar provas, ela entrou com mais de 270 pedidos na Justiça eleitoral peruana para anular os votos de seu adversário.
Para o cientista Moisés Marques, da Faculdade Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), Keiko segue um roteiro similar ao do ex-presidente americano Donald Trump, o que cria uma espécie de risco político regional.
— Há dois padrões perigosos se desenhando na América Latina. O primeiro é de sociedades muito polarizadas. O segundo é o de um candidato que perde uma eleição recorrer ao artifício de dizer que houve fraude. O caso peruano não é o primeiro em que isso ocorre, mas evidencia o início de um possível padrão perigoso na América Latina — salienta.
Segundo Marques, esse comportamento mina a confiança nas instituições e põe em risco a própria democracia.
— A democracia deve ser um jogo aceito por todos os participantes das eleições. Um candidato derrotado jogar parte da população contra o sistema político, os tribunais e as instituições, como Trump e Keiko fizeram e Bolsonaro ameaça fazer, é um problema sério e tende a ser um padrão — afirma.
O analista diz, ainda, que o comportamento não está limitado a candidatos de direita, e cita como exemplo o atual presidente mexicano, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, que questionou resultados de eleições presidenciais no passado quando foi derrotado.
No Equador, neste ano, o terceiro colocado na disputa pela Presidência, o líder indígena de esquerda Yaku Pérez chegou a fazer acusações de fraude sem apresentar provas após perder a vaga no segundo turno para o banqueiro Guillermo Lasso, que acabou eleito.
Estratégia bem-sucedida
Oliver Stuenkel, professor da FGV, afirma que a estratégia de Keiko de questionar os resultados eleitorais até na Organização dos Estados Americanos (OEA) foi relativamente bem-sucedida. Não anulou o pleito, mas levou uma parcela considerável da população peruana a questionar a legitimidade de Castillo.
— O que acontece no Peru é um reflexo de que na América Latina, hoje, não existe um contexto normativo que pressione as lideranças políticas a respeitarem as regras do jogo. Keiko não precisa temer represálias na região, ela opera porque há impunidade. Isso pode servir de inspiração a líderes em outros países — diz ele.
Internacionalmente, a tendência é de que erosões bem-sucedidas de regimes democráticos estimulem outros países a seguirem pelo mesmo rumo, avalia Stuenkel.
— Podemos observar isso nos casos recentes de El Salvador, Nicarágua e Venezuela. Não temos mais hoje um órgão multilateral visto como legítimo pela maioria dos países [que possa mediar e atenuar as crises]. A OEA perdeu relevância, e a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) praticamente não existe mais — afirma.
Stuenkel ressalta que, no Peru, o maior desafio de Castillo será terminar seu mandato, que já começa frágil. O candidato — que na campanha adotou um discurso de esquerda, elogiou o modelo bolivariano de Bolívia e Venezuela e propôs uma nova Constituição para o país — tem buscado nas últimas semanas o diálogo com partidos de centro e de centro-esquerda.
O partido do novo presidente, o Peru Livre, tem a maior bancada no Congresso, mas não a maioria, controlando 37 das 130 cadeiras. Somando aliados, a base governista chega a 45 parlamentares.
Já Keiko — que já esteve em prisão preventiva no caso em que é investigada por supostamente receber doações ilegais da brasileira Odebrecht — deve enfrentar mais problemas judiciais. A candidata prometeu durante a campanha que reconheceria uma derrota, mas sabe que perder sua terceira eleição presidencial consecutiva significa estar mais exposta no processo que enfrenta na Justiça.
Risco de ruptura
Para o historiador Alberto Aggio, professor da Unesp, não está descartada a possibilidade de uma ruptura do sistema democrático no Peru.
— Na campanha, houve uma campanha da extrema direita pedindo para os militares agirem contra a eventual vitória de Castillo. Isso deve ficar no cenário e é perigoso. Castillo entra em situação de fragilidade e deve moderar o discurso radical de esquerda para tentar compor alianças em um cenário político de muita fragmentação — ressalta.
Aggio afirma que, apesar de ter emitido uma nota em que elogiava o processo eleitoral no Peru, a diplomacia americana sob o governo de Joe Biden ainda não deu sinais claros sobre qual será sua posição diante da situação na América Latina.
— Quando os regimes militares terminaram no continente, a solução eleitoral era inquestionável, não se fazia nenhum tipo de crítica às eleições. Hoje, há uma reação global, principalmente da extrema direita, no sentido de deslegitimar a democracia representativa, inclusive na América Latina — salienta.
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O Nobel da Paz que declarou guerra: a trajetória de Abiy Ahmed, o controverso primeiro-ministro da Etiópia
Aos 43 anos, ele ganhou o Nobel da Paz e foi considerado o político que reformaria a Etiópia. À beira dos 45, que completa em agosto, é acusado de transformar o país no palco de uma das maiores crises humanitárias da atualidade.
Líder mais jovem da África, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, de certa forma reflete a complexidade do segundo país mais populoso do continente. Ao assumir o cargo há três anos, ele foi rotulado como salvador no exterior e hoje vê essa euforia se desintegrar. No país que prometeu unir, a divisão aumenta.
Abiy foi escolhido como premier em 2018, após 27 anos de governo da repressiva coalizão liderada pela Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT), etnia que representa 5% da população etíope. Ele é o primeiro oromo a liderar a Etiópia, ainda que esse grupo étnico seja o maior do país, com um cerca de um terço da população. A história do premier, no entanto, está ligada à da FLPT, com a qual ele hoje trava uma guerra na região de Tigré.
Abiy nasceu em Bershasha, na região de Oromia. Em 1991, aos 14 anos, uniu-se à guerrilha que no mesmo ano derrubaria o regime comandado por Mengistu Haile Mariam. Na guerrilha, de maioria tigré, Abiy acabou aprendendo tigrínia, o idioma da etnia. Isso lhe permitiu ascender na carreira militar, uma vez que a Frente Democrática Revolucionária do Povo (FDRPE), que assumiu o governo do país, era liderada pela FLPT, dominante nas Forças Armadas.
— Ao longo de toda a sua vida, Abiy serviu no antigo sistema da FDRPE. Ele é, como se mostra hoje, um produto dessa estrutura autoritária — disse ao GLOBO Kjetil Tronvoll, que pesquisa a Etiópia e a Eritreia há mais de 30 anos e é professor de estudos de paz e conflito na Universidade Bjørknes, na Noruega.

Protestos antes e depois
Nas Forças Armadas, Abiy trabalhou nas áreas de comunicação e inteligência. Em 1995, foi enviado para Ruanda após o genocídio de integrantes da etnia tutsi, como parte de uma missão da ONU. Ele foi eleito para o Parlamento em 2010 pelo Partido Democrático Oromo, um dos quatro que faziam parte da FDRPE, e ficou conhecido na política em 2015, ao mediar uma onda de violência em ocupações de terras em Oromia.
Naquele ano, protestos eclodiram, principalmente de jovens oromos, que reclamavam da marginalização histórica. Centenas de pessoas morreram, e opositores e jornalistas foram presos nos atos.
O desgaste da FLPT e a sorte catapultaram Abiy ao poder. Com a renúncia em 2018 do premier Hailemariam Desalegn, que também deixou a o comando da FDRPE, ele foi eleito líder da coalizão governista e, automaticamente, chefe de governo. O nome mais forte de seu partido na época era Lemma Megersa, chefe da região de Oromia, mas ele não era parlamentar e, portanto, não poderia se tornar primeiro-ministro.
O início do governo de Abiy foi impressionante: presos políticos foram libertados e partidos antes proscritos foram legalizados. Ele também fez um acordo com a vizinha Eritreia para encerrar um conflito que perdurava desde 1998. O conjunto lhe deu o Nobel.
Ao receber o prêmio, em outubro de 2019, Abiy se recusou a participar de uma entrevista, tradição entre os escolhidos. O motivo era simples, apontam analistas: sua lua de mel na Etiópia já tinha acabado. Jornalistas passaram a ser presos novamente, e os conflitos étnicos haviam retornado.
A Etiópia é formada por mais de 80 grupos étnicos, a maioria historicamente marginalizada. Muitos pesquisadores acreditam que o retorno das tensões não poderia ter sido evitado. Ainda assim, alguns destacam que Abiy acabou piorando a situação.
O premier já vinha adotando um discurso de união nacional, no qual a Etiópia seria uma só, que não foi aceito por líderes de alguns dos grupos do país. Dois meses após receber o Nobel, ele desmantelou a FDRPE e criou o Partido da Prosperidade (PP). A decisão enfureceu a FLPT, que vinha perdendo cargos importantes no governo. Em meados de 2020, o assassinato de um popular cantor oromo — atuante nos protestos que catapultaram Abiy ao poder — revoltou o grupo étnico, insatisfeito com a gestão do premier.
Centenas de pessoas morreram em confrontos, e líderes oromos foram presos. Encurralado, Abiy recorreu a métodos antigos, dizem analistas. Outros, principalmente na capital, pensam diferente.
— Pessoas carregando bastões? Queimando casas? Não houve manifestações pacíficas — alega Asnake Kefale, professor de ciências políticas da Universidade de Adis Abeba. — Esses líderes políticos de que você está falando transmitiram discursos de ódio, incitando as pessoas a atacarem minorias. O governo foi forçado a adotar medidas.
Nos meses seguintes, Abiy demitiu Lemma, seu antigo aliado, do cargo de ministro da Defesa, depois que ele criticou algumas de suas decisões, como a criação do PP.
— Eu diria que Abiy é muito bom em trair seus amigos — opina Yohannes Woldemariam, professor etíope de relações internacionais da Universidade do Colorado. — Ele vai usá-lo e jogá-lo fora.
A pior crise do governo de Abiy, no entanto, veio no final do ano passado, quando tropas federais foram enviadas a Tigré para retirar a FLPT do poder na região, iniciando uma guerra civil que se arrasta há mais de oito meses. A ofensiva ocorreu depois de o partido ignorar a decisão de Adis Abeba de adiar as eleições legislativas de 2020 para 2021, por causa da pandemia, e de um ataque dos tigrés a uma base federal.
Esse trecho da história, no entanto, é opaco. Alguns, como Asnake, acreditam que esses dois fatores levaram à guerra e que Abiy se viu sem opções, precisando agir contra a liderança tigré. Outros, como Tronvoll, alegam que o conflito estava planejado há muito, e que o presidente eritreu, Isaias Afewerki, inimigo da FLPT, é uma das mentes por trás dele.
As atrocidades são enormes. Estimativas apontam que mais de 900 mil pessoas em Tigré passam fome, milhares já morreram, e o conflito acumula relatos de estupros e massacres. A maioria das acusações recai sobre militares da Eritreia e milícias da etnia amhara, ambos aliados de Abiy. O premier, que chegou a declarar vitória, viu em junho as forças da FLTP retomarem a capital regional Mek’ele.
Logo em seguida, em julho, o partido de Abiy obteve uma vitória esmagadora nas eleições, garantindo mais um mandato para o premier. Apesar de o pleito ter sido considerado mais democrático que os anteriores, a votação em Tigré não ocorreu e foi adiada em diversas zonas eleitorais por causa de conflitos. Houve boicote de alguns partidos, alegando perseguição de seus membros. A vitória de Abiy era esperada, mas isso não significa que o apoio é o mesmo de 2015.
— Ele perdeu apoio da população oromo, especialmente dos jovens — afirma Merera Gudina, líder de um dos partidos de oposição que boicotaram a eleição, o Congresso Federalista de Oromo. — Nos últimos três anos, o partido [de Abiy] vem se recusando um diálogo nacional.
Muito antes de todas essas crises, aos 7 anos, Abiy ouviu de sua mãe que ele era único e que iria para o “palácio”. Anos depois, antes de chegar ao poder, ele disse a altos funcionários que “seria seu chefe”. Depois de três anos no poder, uma pergunta permanece: qual será o legado de Abiy depois de deixar o palácio?


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