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_______________ * Pierre Lévy: “Muitos NÃO acreditam, mas JÁ éramos muito MAUS ANTES da INTERNET ”

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_______________ * PIERRE LÉVY: “Muitos não acreditam, mas JÁ éramos MUITO MAUS ANTES da INTERNET ”

_______________ * Kevin Bacon: “NÃO há como descrever a FAMA para quem NÃO a experimentou. É um PESADELO ”

_______________ * Restam 90 dias a Bolsonaro

_______________ * 'CLIQUE DJÁ' para comprar: varejistas aderem ao LIVE SHOPPING na internet

_______________ * Do NEGACIONISMO às NEGOCIATAS | Carlos Alberto Sardenberg

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_______________ * Em meio a EXPECTATIVAS de REFUNDAÇÃO do país, CONSTITUINTE do Chile dá a largada

_______________ * Ernest HEMINGWAY e o talento de transformar aventuras em BOA LITERATURA 

_______________ * Homem é ferido com tiro nas costas na Times Square, em Nova York * Em MAIO, a Times Square já havia sido palco de tiros. Uma briga com disparos atingiram duas mulheres e uma menina de quatro anos de idade.

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_______________ * Pierre Lévy: “Muitos não acreditam, mas já éramos muito maus antes da internet”

O escritor, professor e filósofo francês de origem tunisiana Pierre Lévy fotografado em sua casa em Ottawa, no Canadá, em cuja universidade leciona atualmente.
O escritor, professor e filósofo francês de origem tunisiana Pierre Lévy fotografado em sua casa em Ottawa, no Canadá, em cuja universidade leciona atualmente.JUSTIN TANG (CONTACTO)

Há 30 anos, Pierre Lévy (Túnis, 1956) já falava e escrevia com desenvoltura sobre assuntos como o teletrabalho, as fake news, a realidade virtual e as mudanças que as novas tecnologias viriam a provocar na cultura. Estaríamos, portanto, perante o que sinteticamente se costuma chamar de um visionário. Quando no começo da década de 1990 ele elucubrava para quem quisesse ouvir sobre o indefectível advento de uma superestrutura universal de comunicação e troca de dados, a internet ainda estava apenas engatinhando. A leitura de obras suas como As tecnologias da inteligênciaA inteligência coletivaCiberculturaCiberdemocracia e O que é o virtual? fornecem chaves valiosas a respeito não só das infinitas possibilidades das novas tecnologias nas sociedades digitais, mas também sobre os usos e abusos que o poder político faz da internet e sobre o triunfo de um tecnopoder mundial no qual o que ele chama de Estados-plataformas (Apple, Microsoft, Google, Facebook, Amazon etc.) já estariam acima dos Estados-nação.

Escritor, filósofo e doutor em Sociologia e em História da Ciência, esse intelectual nascido na Tunísia e formado na França sob a égide de pensadores como Michel Serres e Cornelius Castoriadis é professor-emérito da Universidade de Ottawa, professor-associado na de Montreal e membro da Academia de Ciências do Canadá. Lévy dedicou vários anos de sua vida a pesquisar e desenvolver uma metalinguagem digital, o IEML (“metalinguagem da economia da informação”, na sigla em inglês), cujo objetivo é oferecer um sistema sintático de coordenadas para abordar os conceitos encontrados na internet. Seu livro mais recente é La sphère sémantique, mas está concluindo outro sobre a relevância dos metadados. É um firme defensor das possibilidades educativas, culturais e sociais das novas tecnologias digitais, mas também um alto-falante que avisa de seus abusos e perigos.

Pergunta. Em 1994 você previu que internet seria “a principal infraestrutura da comunicação humana”. Suspeitava que chegasse a esse ponto?

Resposta. O que distingue o ser humano é a linguagem. E quando foi inventada a escrita, e depois o alfabeto, e depois a imprensa, e depois os meios de comunicação eletrônicos, essa potência da linguagem foi se multiplicando. E penso que isso condiciona todo o resto, toda a evolução econômica, política e cultural. Então, quando se viu, já no final dos anos setenta e começo dos oitenta, que os computadores não eram simplesmente máquinas calculadoras, e sim que, conectando-se às redes de telecomunicações, se transformariam em uma nova infraestrutura de tratamento da informação, vi claramente que o ser humano entrava numa nova etapa.

P. Quando escreveu seu livro Inteligência coletiva, a internet ainda não existia. Ou estava só engatinhando…

R. De fato. Havia o correio eletrônico, a transferência de arquivos e pouco mais. E menos de 1% da população mundial estava conectada. Mas eu sabia já aconteceriam coisas muito importantes, porque já fazia bastante tempo que estudava todas as novidades que iam surgindo no âmbito informático e no do hipertexto. Para mim era evidente que tudo aquilo ia se tornar o novo grande meio de comunicação. E que a imprensa escrita, o rádio e a televisão não é que fossem desaparecer, mas seriam completamente recontextualizados num meio muito mais poderoso.

P. Pois acertou.

R. De fato. E como antes você me perguntou se alguma vez suspeitei que este processo de digitalização das atividades humanas iria tão longe, respondo-lhe: ainda não vimos nada, estamos no começo de tudo isto.

Pierre Lévy em frente à sua casa em Ottawa.
Pierre Lévy em frente à sua casa em Ottawa.JUSTIN TANG (CONTACTO)

P. Mas ao conceito de inteligência coletiva que você estabeleceu em 1994 podem ser contrapostos outros: ignorância coletiva, maldade coletiva… Qual deles você acha que pode mais nas sociedades hipertecnologizadas de hoje em dia?

R. É uma pergunta legítima. Quando eu falei de inteligência coletiva há 27 anos, evidentemente estava defendendo um uso ético e socialmente positivo da tecnologia. Mas o que eu queria enfatizar era sobretudo o aumento evidente das capacidades cognitivas. Por exemplo, o aumento da capacidade de memória através da sua externalização nos meios digitais. E, veja você, se hoje em dia você não se lembrar de algo neste momento, digita no Google e pronto. Uma imensa memória está à nossa disposição. Agora, essa externalização da memória já tinha começado muito antes: uma biblioteca na verdade é isso.

P. Borges já falava da biblioteca como depósito de memória infinita.

R. Que, como você pode imaginar, é um dos meus autores favoritos. Mas, para voltar à sua pergunta: a partir do momento em que há linguagem, há mentira e há manipulação. A natureza humana não se transformou, continua sendo a mesma. Assim, no fundo, essas possibilidades tecnológicas são como um espelho que nos faz nos refletirmos nele, e ver o melhor que há em nós… e também o pior.

P. Somos injustos ao acusar a tecnologia por maldades e injustiças das quais só o ser humano é responsável? É injusto acusar o meio em vez da mensagem? Embora, pensando bem, McLuhan disse que o meio é a mensagem.

R. Quando McLuhan disse isso, queria dizer que a mensagem principal é a forma de civilização. A comunicação instantânea, a facilidade na colaboração, a transformação do tempo e do espaço vivido… Está claro que as pessoas não se tornaram piores ou mais sensíveis às teorias conspiratórias por culpa das redes sociais. Rumores absurdos surgiram ao longo de toda a história. Houve muitos genocídios antes que a internet existisse, não? Nem no Holocausto judaico, nem no genocídio armênio nem nos massacres de Ruanda existia a internet. Muitos não querem ver, mas já éramos muito maus antes que a internet existisse, pode acreditar.

P. As notícias falsas surgiram um pouquinho antes da internet, isso lá é verdade...

R. Claro. A propaganda e a manipulação sempre existiram. Os serviços secretos das grandes potências já os puseram para funcionar antes e depois da guerra, a única diferença é que hoje são usados novos instrumentos. Mas o princípio é exatamente o mesmo: dividir o adversário, usar imagens de forte ingrediente emocional etc.

P. Essa memória infinita e permanentemente da qual você falava não é um perigo? Não nos impede de desenvolver nosso próprio exercício de memória, de lembrança, de risco, de busca?

R. Como se supõe que sou filósofo, vou citar Platão. Em seu célebre diálogo Fedro, ele já dizia que a invenção da escrita não é necessariamente algo positivo, porque com ela as pessoas deixam de exercer sua memória pessoal, já que a substituem por uma memória externa. Então esta problemática existe há 6.000 anos com a externalização das nossas faculdades cognitivas, há certa tendência antropológica a isso. Agora, dou aula há 40 anos e sempre disse aos meus alunos que exercitem sua memória e que alimentem seu espírito. Trata-se de ter uma cabeça bem mobiliada. Montaigne distinguia entre uma cabeça bem construída e uma cabeça cheia. Está claro que há todo um esforço educativo a fazer, um esforço de transmissão da cultura.

P. Falando em educação… Não acha aconselhável inculcar nos alunos de forma constante certa ética tecnológica, para deixar claro que a tecnologia não serve para tudo e precisa ser usada com discernimento?

R. Claro. Mas vivemos uma situação complexa, não devemos simplificar muito as coisas. Por um lado, temos um aumento geral da alfabetização em todo o planeta, há um acesso à cultura e ao conhecimento que não para de crescer, sobretudo nos países mais pobres, onde há 50 anos nem sequer existia a escolarização. Mas nos países da OCDE, onde exames são feitos sistematicamente há 25 anos para analisar a evolução das coisas, chama a atenção que as capacidades em matéria de leitura e compreensão, em matemática e em ciência estejam em declínio. Provavelmente é porque há uma inadequação entre a cultura ambiente e o que ocorre na escola. Já não chegamos a capturar a atenção dos alunos.

P. O que se pode ou se deve fazer?

R. Por exemplo, utilizar novos métodos, usar mais um elemento como os videogames na aprendizagem da leitura ou da matemática. Isso funciona, garanto, porque consegue captar a atenção, dar início ao compromisso do aluno com a matéria. Mas, claro, isso supõe um enorme esforço de estratégia pedagógica, e também de desenvolvimento tecnológico, naturalmente.

P. As autoridades educacionais estão de acordo com esses métodos?

R. É evidente que os sistemas educacionais têm que evoluir, há um grande atraso nisso. Por exemplo, em Montreal há várias start-ups de gente jovem tremendamente dinâmica dedicando-se às tecnologias educativas, e fazem coisas extraordinárias, mas parece que os diretores das escolas, os professores e as autoridades educacionais não estão no momento muito a fim disso. É uma pena, porque foram feitas pesquisas e está claro que os alunos são a favor. De fato, há todo um campo em andamento, o que se chama de humanidades digitais, em pleno desenvolvimento. E tem muito futuro, basta apoiar. As novas tecnologias digitais não são só ciências exatas, também podem ajudar muito às ciências humanas e sociais.

O autor de ‘O que é o virtual?’ e ‘Ciberdemocracia’ posa em sua residência no Canadá.
O autor de ‘O que é o virtual?’ e ‘Ciberdemocracia’ posa em sua residência no Canadá.JUSTIN TANG (CONTACTO)

P. Não acha que esse déficit de atenção —mas não só nos jovens— seja um dos cânceres das sociedades digitais atuais? A avalanche de estímulos é tamanha que não há tempo nem espaço para parar para pensar.

R. Estou totalmente de acordo. Acho que faríamos bem em desenvolver exercícios de atenção. Tem gente que pratica exercícios espirituais, e nesses lugares já se tenta fixar a atenção, neste caso por questões do espírito. E cada vez há mais gente praticando meditação. Não é uma coisa qualquer, é preciso permanecer muito atento à respiração, não é algo simples. Sim, é preciso trabalhar a atenção das pessoas, e isso começa por ensinar a atenção na escola. Sem ela, não há nada a fazer. Você pode receber uma avalanche de dados e informações, mas se não tiver cultivado sua capacidade de atenção não tem nada a fazer com tudo isso. Mas não só. Além disso é necessário reforçar nossa capacidade de estabelecer prioridades. A única forma de utilizar e aproveitar essa avalanche de informação de forma positiva é ordenando-a, analisando-a e decidindo o que é importante ou não. Em suma, a chave é: ter capacidade de atenção, estabelecer prioridades e fixar objetivos. Algo assim como administrarmos a nós mesmos, digamos. Ser autônomos.

P. Em 1998, você escreveu o seguinte: “O desenvolvimento do espaço cibernético é irreversível e não ocorrerá unicamente sob a forma da internet”. O que acha que ainda veremos?

R. Você me pede um exercício de mago com bola de cristal. Mas aproveitarei para lhe contar algo que não predisse. Sabe, os pesquisadores estão sempre se gabando de terem antecipado coisas, e eu previ muitas, mas esta não: o papel que as grandes companhias tecnológicas acabariam desempenhando… Apple, Google, Microsoft, Amazon, Facebook etc.; como viraram novas formas de Estado. Eu chamo isso de Estado-plataforma. Provavelmente acabarão desenvolvendo suas próprias moedas; já contam com métodos de reconhecimento de identidades mais precisos que os dos próprios governos; já regulam a opinião pública, porque são elas que dominam as redes sociais onde as pessoas se expressam, então se decidem censurar algo censuram e ponto, e se decidem valorizar algo acima do resto, também. Têm um poder ilimitado. E estão formando uma grande aliança com os governos mediante colaborações com os serviços secretos, polícias, exércitos…, sobretudo nos Estados Unidos e na China.

P. Teme que um dia possa se instalar uma espécie de tecnopoder planetário que supere definitivamente o poder político? Que contrapesos podem ser erguidos?

R. Isto é um problema real, e sobretudo na Europa. Porque assim, em geral, não vejo contrapesos, não vejo empresas europeias que sejam tão poderosas como Google ou Amazon, que são Estados-plataformas com uma infinita capacidade de tratamento da informação, muito superior à de qualquer burocracia europeia. Acho um pouco deprimente que a Europa se apresente como um mero poder regulamentador. Frente a gigantes como esses, que têm não só uma imensa capacidade técnica, mas também a capacidade de satisfazer seus clientes, não vejo como essa regulamentação pode funcionar como contrapeso. A verdade é que não sei o que acontecerá, mas é um fenômeno que observo com interesse… e com inquietação. Sou bastante pessimista a respeito de como equilibrar o poder dos Estados-plataformas.

P. Na simbiose do ser humano com o algoritmo… Quem você diria que está se saindo melhor: o ser humano ou o algoritmo?

R. Hahaha! Vejamos, vou lhe confessar que não acredito nada em todas essas histórias segundo as quais o algoritmo tomará o poder, as máquinas se rebelarão contra a humanidade ou coisas assim. Basta desligar a máquina e a máquina deixa de funcionar, sabe?

P. Menos o computador HAL 9000 em 2001: uma odisseia no espaço, de Kubrick…

R. Ah, mas isso não conta, porque estavam completamente isolados no espaço! Agora a sério: o algoritmo é um produto cultural, ou seja, um produto da humanidade, tem gente que os fabrica, gente que os melhora e gente que decide que tal algoritmo já não serve mais e é preciso criar outro. Para nós, que nos sentimos humanistas, apenas o ser humano conta, o fator humano e a experiência humana.

_______________ * Kevin Bacon: “NÃO há como descrever a FAMA para quem NÃO a experimentou. É um PESADELO ”

Ele tem um punhado de clássicos na sua filmografia e poderia ter sido um astro de primeira linha, mas preferiu cair fora de Hollywood sendo jovem e célebre.

Hoje, da sua fazenda no interior do Estado de Nova York, Kevin Bacon nos fala sobre viver em paz e escolher só os papéis que o motivam, como o corrupto detetive de ‘City on a hill’

Kevin Bacon com casaco de couro, calça e sapatos, tudo Prada.
Kevin Bacon com casaco de couro, calça e sapatos, tudo Prada.RYAN LOWRY
IRENE CRESPO

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Sim, ele gosta de bacon, bem crocante. E, segundo uma teoria viralizada anos atrás, todo mundo se encontra no máximo a seis graus de separação dele. Sim, é Kevin Bacon (Filadélfia, 62 anos), famoso, a contragosto, por coisas tão banais como essas. “Famoso por ser famoso”, diz, quase compungido. Está há mais de 40 anos deixando a pele no cinema, televisão, teatro e música, e a primeira coisa que as pessoas perguntam ou lhe contam são essas historinhas banais, em vez do seu lugar em filmes de primeira grandeza, sob as ordens de cineastas como Clint Eastwood em Sobre Meninos e Lobos (2003) e Oliver Stone em JFK (1991).

Também em O ataque dos vermes malditos (1990) e I love Dick (2017-2018), a série baseada no romance de Chris Kraus. Apertando-o, ele prefere falar até de Footloose (1984), aquele filme sobre adolescentes que dançavam contra a normativa municipal e que foi seu primeiro e indelével sucesso (isso sim, continua pagando aos DJs para que não ponham a canção de Kenny Loggins da trilha sonora quando o veem chegar).

A fama cerca Kevin Bacon. E isso que caiu fora de Hollywood quando Footloose ainda era só uma das 10 melhores bilheterias do ano. Ele queria ser “ator de personagens”, um sujeito respeitado. Recusou os protagonistas vazios e ficou com os coadjuvantes suculentos, uma estratégia que muitos chamariam de suicida, mas que lhe valeu tranquilidade pessoal e longevidade profissional. Continua trabalhando à razão de vários títulos por ano. Está há 33 casado com a mesma mulher, a também atriz Kyra Sedgwick.

Kevin Bacon fotografado em um terraço de Manhattan com camiseta ‘vintage’ de Morrissey e jeans 511 Levi's Made & Crafted.
Kevin Bacon fotografado em um terraço de Manhattan com camiseta ‘vintage’ de Morrissey e jeans 511 Levi's Made & Crafted. RYAN LOWRY

Bacon nos aparece aberto e amável. Conversamos por videochamada, ele em frente a uma estante cheia de fitas VHS caseiras dos anos noventa, na sua fazenda no norte do Estado de Nova York. Estende-se nas respostas. É transparente e próximo. Continua sem se conectar com o atual culto à fama. Recorda que quis ser famoso em algum momento, e suspeita que isso se deveu ao fato de ser o caçula de seis irmãos. “Não só era o mais jovem, mas também havia uma grande distância entre eles e eu”, relembra. “Meus pais tiveram cinco filhos muito seguidos, passaram-se oito anos e de repente apareci eu. Não sei o que veio antes, se o ovo ou a galinha… mas antes de saber o que era ser ator, lembro que eu queria que me vissem, que prestassem atenção em mim, queria atuar. Você não entra no trabalho da interpretação se não for para que as pessoas vejam o que você faz.”

Partiu para Nova York aos 17 anos em busca do que hoje detesta, ser uma estrela. “As pessoas se surpreendem quando admito, mas é assim: a fama me chamava. E o dinheiro, e as mulheres. Queria minhas capas de revistas, sonhava em ver meu nome em cartazes gigantes”, prossegue. Começou a estudar interpretação e isso mudou tudo. “Logicamente, ainda queria continuar sendo famoso, isso não escondo, mas me liguei à interpretação de um ponto de vista criativo. De repente, meu sonho se transformou em ser bom ator, simplesmente. Percebi que nem eu era muito bom, nem a fama era fácil, então teria que trabalhar feito um louco para consegui-la. O sucesso passou a ser algo secundário.”

Nesta imagem, o ator veste Prada.
Nesta imagem, o ator veste Prada. RYAN LOWRY

Tinha a cabeça cheia de mitos e referências: Meryl Streep, Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Martin Scorsese, Sidney Lumet, Brian de Palma… “Queria ser um ator de Nova York, não dos que viviam em Los Angeles. Era algo que se decidia na época: ficar em Nova York para fazer teatro além de cinema”. Mas veio o chamado de Hollywood, e com ela Footloose: cinema juvenil oitentista com espírito rebelde, coreografias espetaculares, refrões pegajosos, um herói musculoso e sensível, oriundo da classe trabalhadora e rural. Bacon era, de repente, a estrela que a década parecia pedir.

“Não gostei nada daquilo. Não há forma de descrever a fama, nem toda essa atenção, para quem não a experimentou. Não é só o fato de que todo mundo conhece você, é algo diferente. Um pesadelo”, recorda. Sua solução foi dar as costas a tudo. “Sei lá, me rebelei contra aquilo, talvez ainda não estivesse preparado, embora já tivesse 24 anos. Acho que em parte era pelos nomes que me inspiravam, aqueles ícones dos anos setenta. Footloose era um filme pop dos anos oitenta, não era cinema para o Oscar, e sim o mais frívolo do frívolo. Também havia algo de ingenuidade da minha parte em tudo aquilo, porque, se você participa de algo que acaba fazendo parte do zeitgeist, da cultura popular, mais vale aceitar. Você sempre pode se pendurar a medalhinha mais para frente. Não me arrependo de ter largado tudo… É parte do processo, com tudo se aprende.”

Pergunta. Foi coragem ou ignorância?

Resposta. Ser corajoso e ignorante andam de mãos dadas, né? Também tomei decisões péssimas. Mas tudo acabou bem e prefiro olhar para frente.

P. Você está há décadas olhando Hollywood de fora. A era #MeToo transformou aquilo num lugar melhor?

R. Mudou muitíssimo. E olha que estou há anos ouvindo essa frase, isso de que “o negócio mudou”. Comecei em 1977, quando ainda tinha gente que vinha trabalhando desde os anos quarenta e cinquenta, e diziam isso sobre o VHS ou o DVD. Agora sou eu o velhinho cricri que diz que o negócio mudou. Graças ao #MeToo, é um lugar melhor. Prioriza-se a segurança: uma rodagem não deveria ser uma experiência traumática ou dolorosa. Basta pisar em um set de filmagem. Em City on a hill [a série que o Movistar+ exibe] fazemos uma cena romântica e, embora não haja nus, temos um coach de intimidade. Depois as redes sociais têm sua parte boa e sua parte ruim. É ridículo que alguém consiga um papel por seu número de seguidores, mas se o consegue assim e acaba sendo bom, ótimo. Cada um tem sua forma de chegar lá. E o bom é que a digitalização permite que qualquer jovem com vontade possa escrever e dirigir um curta, um filme...

P. Sua filha Sosie está indo bem como atriz ultimamente, graças à série Mare of Easttown. Mas vocês não queriam que se dedicasse a isto.

R. Nunca dissemos isso literalmente, mas havia uma boa razão: embora tanto minha mulher como eu tenhamos sucesso nessa profissão, sabemos que ser ator implica uma competitividade incrível, que para cada papel que você consegue teve que ouvir cem vezes não. E depois que, sobretudo sendo uma moça, você será julgada de uma maneira terrível, tanto física como verbalmente. Queríamos protegê-la de tudo isso. Mas nunca dissemos isso. Quando anunciou que queria ser atriz, a apoiamos como nossos pais nos tinham apoiado.

Bacon se beneficiou da digitalização da indústria audiovisual. Chegam-lhe roteiros de projetos pequenos, ou telefonemas de novos diretores que se lembram dele para coadjuvantes importantes. “Se você olhar a minha filmografia, é o que mais tem nos últimos anos, e não por acaso”, conta. “Quero apoiar esse tipo de cinema e me oferecem oportunidades mais diversas. Também significa que não tenho que estar esperando que o telefone toque por um projeto de 50 ou 100 milhões de dólares para que me deem um papelzinho de vilão.”

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A explosão das plataformas digitais também lhe abriu as portas ao mundo televisivo. Em princípio, via com receio. Achava “um cemitério”. Mas viu sua mulher brilhar na série The Closer (2005-2012). Atreveu-se com I love Dick The following (2013-2015). E agora somou City on a hill, thriller policial que acaba de confirmar uma terceira temporada. Ele interpreta Jackie Rohr, um detetive da velha guarda na polícia de Boston: corrupto, racista, abusado e vítima de vícios. Alguém bastante sombrio. Inclusive para Kevin Bacon? “Há atores que não querem ser vistos na tela de certa maneira. Não me assusta, tenho muito claro o que é o personagem que interpreto e quem sou eu. De fato, nunca interpretei ninguém que se parecesse muito comigo. O que me atraem são os personagens totalmente opostos à minha forma de ser. Porque isso é o que sempre pensei sobre o significado de atuar: ser um farsante profissional”.

O ator, além disso, encontrou outra saída para sua criatividade: Instagram e TikTok, os quais lhe deram de presente mais um ―o enésimo― minuto de fama. Nestas plataformas ele divulga seu trabalho como ator ou como músico: em outubro, por exemplo, lançou novo disco com o grupo que mantém com seu irmão, The Bacon Brothers. Também aproveita para compartilhar receitas, gravar-se cantando para suas cabras ou pregar peças na sua filha. “Entrei a contragosto porque precisava [das redes sociais] para nossa ONG, a Six Degrees [”seis graus”, sacou?], e alguém me disse que, se não fosse para fazer direito, era melhor deixar para lá”, conta. “Sou criativo, se estiver sem trabalho não me sento no sofá para ler. Para ser sincero, não gosto de ler.”

O ator, que protagoniza ‘City on a hill’, cuja segunda temporada já está disponível no Movistar+, veste cardigã e camisa listrada Louis Vuitton.
O ator, que protagoniza ‘City on a hill’, cuja segunda temporada já está disponível no Movistar+, veste cardigã e camisa listrada Louis Vuitton.

Também é uma forma de vencer a crise da meia-idade. Essa que, aliás, compartilha com o diabólico Jackie Rohr. Ele encara de outra maneira. “Quando você chega aos 50 ou aos 60, fica com medo de perder o poder que tem e pensa em maneiras de continuar sendo relevante. Tem gente que decide não lutar por isso e passa o tempo jogando golfe ou cuidando de um jardim, ou seja lá no que gaste sua aposentadoria. Jackie não é um cara desses, e, como ator, eu me identifico completamente. Quero continuar e continuar. Sem trabalho eu me cansaria e me deprimiria.”

Diz que seu melhor filme ainda está por vir. Mas é capaz de apontar alguns favoritos, como Quando os jovens se tornam adultos (1982), JFK – A pergunta que não quer calar (“foi um dos que mais que mais mudaram minha carreira”), Sobre meninos e lobosAssassinato em primeiro grau (1995), Apollo 13 (1995), O Ataque dos vermes malditos… “Espero que nos quase cem títulos que eu fiz haja pelo menos dez bons”, diz.

P. Teve uma boa vida?

R. Sinto-me tremendamente grato. Em um momento da sua vida, você chega a uma bifurcação: gratidão ou amargura. Eu escolhi ser grato.

P. Não tem momentos de amargura?

R. Sim, claro. Todo dia, todo dia. Por que não consegui aquele papel?... As comparações são odiosas. É muito fácil cair na inveja, certamente em meu trabalho acontece, talvez em outros também, mas aqui a inveja… Não tem problema, somos humanos.

Realização: Beverly Nguyen. Maquiagem e cabelo: Melissa Dezarate e Lee Veeravalli (Kalpana NY). Assistente de fotografia: Timothy Mahoney. Assistente de estilismo: Amanda Burkett. Técnico digital: Robert Wagoner. Produção executiva: Sara Zion. Coordenação de produção no set: Alec Charlip.

_______________ * Restam 90 dias a Bolsonaro

Uma série de diligências será feita pela Polícia Federal e por procuradores designados nos próximos três meses, prazo estabelecido pelo subprocurador Humberto Jacques de Medeiros

Quase tudo o que cerca Jair Bolsonaro é esquisito, incorreto, malfeito e, em muitos casos, criminoso. O presidente já responde a 23 acusações por crimes de responsabilidade, conforme o “superpedido” de impeachment entregue na quinta-feira a Arthur Lira por inúmeros partidos políticos, entidades civis e movimentos sociais. Ontem, por absoluta impossibilidade de agir de modo diferente, a Procuradoria-Geral da República foi obrigada a instaurar inquérito para investigar Bolsonaro por prevaricação no caso da denúncia sobre a Covaxin feita pelos irmãos Miranda. A PGR, que tentou colocar o caso em banho maria por algum tempo, esbarrou na intransigência da ministra Rosa Weber, que lhe negou o conforto do muro.

Uma série de diligências serão feitas pela Polícia Federal e por procuradores designados nos próximos 90 dias, prazo estabelecido pelo subprocurador Humberto Jacques de Medeiros. Ao final de três meses, será apresentado um relatório da investigação e caberá ao procurador Augusto Aras encaminhar a denúncia ao plenário do Supremo ou arquivar o inquérito. O que você acha que ele vai fazer? Difícil ter dúvidas em se tratando de Aras. Mas, diante da rápida deterioração moral do presidente, tudo pode acontecer em 90 dias.

Só para recordar, Bolsonaro recebeu uma denúncia do deputado Luis Miranda e de seu irmão, o servidor Luis Ricardo, e nada fez. Os irmãos disseram ao presidente que havia gente graúda no Ministério da Saúde fazendo pressão para liberar logo a compra de vacinas Covaxin antes mesmo da aprovação da Anvisa e por preços aparentemente superfaturados. O deputado disse ter ouvido do presidente que se tratava de rolo do seu líder Ricardo Barros. Ao afirmar que o presidente encaminhou o problema para o ex-ministro Pazuello, o governo admitiu que ele ouviu a denúncia.

É difícil sair de uma sinuca desta. Sobretudo porque o presidente não encaminhou a denúncia para a PF e disse conhecer a origem do problema. Augusto Aras tem um quê de Arthur Lira, que não viu “materialidade” nos 23 crimes listados no “superpedido” de impeachment, e será capaz de arquivar o inquérito com argumentos tão sólidos quanto a água da lagoa Rodrigo de Freitas. Aras e Lira fazem parte da tropa de choque de Bolsonaro, não se pode exigir independência destes dois. A menos que a casa caia antes do prazo de 90 dias. Este também é o prazo que Bolsonaro tem para tentar emendar as coisas. Neste intervalo, ele vai indicar o substituto de Marco Aurélio no STF e tratar da recondução ou a substituição de Aras na PGR.

O presidente comete crimes quase diariamente, em todos os quesitos, é só olhar a cesta. Na quinta, voltou a atacar a CoronaVac. Usando argumentos falsos, disse que a vacina não deu certo. “Abre logo o jogo que tem uma vacina aí que infelizmente não deu certo (...) eu estou esperando aquele cara de São Paulo falar”. Referia-se obviamente a João Doria, usando dados falsos que podem levar as pessoas a querer evitar a vacina. É crime. E quem quer ficar ao lado de um criminoso? Com certeza mesmo só o general Pazuello, que ontem começou a responder ação do Ministério Público por improbidade administrativa, acusado de negligência que teria causado prejuízo de R$ 122 milhões aos cofres públicos.

O fato é que, fora a tropa de Lira e Aras, seus filhos e os cegos bolsonaristas que não conseguem enxergar a torpeza em que estão apostando, ninguém mais aguenta Bolsonaro. Alguns fazem de conta, como a algazarra de deputados e senadores que receberam milhões de cala-bocas na forma de emendas ao Orçamento. Estes vergam conforme o vento. Daqui a pouco podem estar tão distantes de Bolsonaro quanto a verdade. Argumentos para abandoná-lo todos têm, e em abundância. É só ir na cesta e escolher a modalidade.

GOOD FELLAS

Arthur Lira não deixa qualquer dúvida. Ele é cúmplice de Jair Bolsonaro no caos político, administrativo e sanitário do governo. Esperar que circunstâncias para o impeachment se materializem é o mesmo que esperar que o golpe se consume. Ao que parece, Rodrigo Pacheco quer dar mais um vexame. Não autorizar imediatamente o pedido de prorrogação da CPI da Covid e ainda querer obrigá-la a entrar em recesso é trabalhar contra a apuração dos fatos.

EM OUTRAS PALAVRAS

É inacreditável, mas os presidentes da Câmara e do Senado ainda trabalham em favor de Bolsonaro. Qual a sua lógica? Difícil dizer. Mas vai aí um misto de interesse político (burro, é bom salientar), tentativa de recuperação de protagonismo, y otras cositas mas. Lira ainda gosta de operar no escuro, mas Pacheco parece não se conformar que os holofotes não estejam apontados para a sua figura. Homens públicos com interesses particulares jogam o Brasil para baixo.

CENTRÃO DEPENDÊNCIA

O presidente está frito. Ele jamais conseguirá se livrar do Centrão. Bolsonaro está mais enredado com a turma de Lira, Bezerra e Barros do que jamais estiveram seus antecessores. Nem Lula, que conseguiu neutralizar a tropa através de depósitos mensais nas contas de deputados, senadores e líderes partidários, sofreu com tamanha dependência. Tanto que quando o mensalão explodiu, o petista manteve o grupo reunido sob seu comando com outros argumentos. Bolsonaro será manipulado daqui até alguns meses antes de outubro de 2022, quando a gangue vai então desembarcar para remar em outra canoa.

É OURO

O que tanto o senador Flávio Bolsonaro faz em Rondônia? Segundo o jornal eletrônico “Tudorondônia.com”, o zerinho esteve três vezes em Porto Velho “em curto espaço de tempo” e sem agenda oficial. A última visita foi no dia 26 de maio, uma quarta-feira (dia de sessão no Senado). Na companhia do vice-prefeito da capital, Maurício Carvalho, ele foi visto em bares e numa casa de eventos em noite animada. Não se sabe o que fez durante o dia.

BASTA UM CABO

Um dos zerinhos de Bolsonaro disse, ainda em 2018, que para fechar o Supremo Tribunal Federal bastariam um cabo e um soldado. Se quiser, agora ele pode dizer sem medo de errar que basta um cabo para vender 400 milhões de doses de vacina ao apodrecido governo de seu pai.

DINHEIRO VIVO

O cabo da PM dublê de vendedor de vacinas, Luiz Paulo Dominguetti, disse que o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, pagou com dinheiro vivo o jantar no restaurante Vasto. Faz todo sentido. Naqueles dias turbulentos no início do primeiro mandato de Lula era assim também. Silvinho Pereira e Delúbio Soares, por exemplo, só usavam cash.

ATRASO DELIBERADO

Seguindo a linha de investigação traçada até aqui, já tem senador da CPI achando que o atraso na compra das vacinas Pfizer e Sinovac foi deliberada para permitir as múltiplas operações mal cheirosas em torno de outros imunizantes, como a Covaxin e o da CanSino. O distinto Ricardo Barros terá muito a explicar.

ABAIXA O VOLUME

Não sei vocês, mas tem gente que não consegue nem mais ouvir Bolsonaro. Quando sua voz entra na TV, no rádio ou em qualquer device, abaixa imediatamente o som. A simples sensação de que alguém ao seu redor possa perceber que ele está ouvindo a coisa já o envergonha.

JUSTIÇA TARDA 1

Em 1998, Eduardo Azeredo usou recursos públicos para azeitar sua candidatura à reeleição. O caso foi denunciado em 2007 e ficou conhecido como “mensalão tucano”, porque usava os mesmos métodos de distribuição de dinheiro do mensalão petista. E o mesmo operador, o publicitário Marcos Valério. Como em 2007 Azeredo era senador, o caso que deveria correr na Justiça comum subiu para o Supremo. Quando estava a ponto de ser julgado, Azeredo renunciou ao mandato e o processo voltou para a instância anterior. Depois de condenado, Azeredo recorreu ao STF, que esta semana anulou o julgamento e remeteu o caso para a Justiça eleitoral. Vinte e quatro anos depois, o crime que tramitou em três foros distintos voltou ao ponto de partida.

JUSTIÇA TARDA 2

Em exatos dois meses e quatro dias o processo de cassação do ex-vereador Jairinho foi julgado em comissão e aprovado pelo plenário da Câmara Municipal do Rio. Enquanto isso, em Brasília, o caso da deputada Flordelis, acusada de mandar matar o marido, tramita há dois anos em passo de tartaruga na Câmara Federal.

O FIM DA HISTÓRIA

Ela era mais do que uma superatleta, era uma musa. Em seu tempo, a presença de Fernanda Venturini em um jogo era garantia de bom espetáculo. Hoje, negacionista e bolsonarista, desmerece sua biografia e sua história.

_______________ * 'Clique djá' para comprar: varejistas aderem ao live shopping na internet

Modelo de venda se consolida no Brasil, atraindo investimento de marcas que abraçam o formato de aproximação com clientes no digital
Elio Silva, Diretor Executivo de Canais e Marketing da Riachuelo. Marca entrou no mercado de live shopping no ano passado Foto: Divulgação
Elio Silva, Diretor Executivo de Canais e Marketing da Riachuelo. Marca entrou no mercado de live shopping no ano passado Foto: Divulgação

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RIO — Sucesso nos anos 1990, os canais de TV exclusivos para vendas ganharam uma nova roupagem na pandemia e foram parar dentro dos celulares. Com o apelo de compras por impulso e a humanização do e-commerce, o livestream shopping se consolida no Brasil, atraindo investimento de marcas que abraçam o formato de aproximação com clientes no digital.

O modelo é um fenômeno na China, onde surgiu, com status de superprodução e movimenta bilhões. Por aqui, esta opção ao varejo que mistura vendas e entretenimento ao vivo já está no calendário de marcas como Renner, Americanas, Riachuelo, Arezzo, Hope, entre outras.

Também chamada de live shopping ou live commerce, a proposta é muito parecida com o formato que ficou marcado por Walter Mercado e seu bordão “ligue djá”, convidando as clientes a telefonarem para comprar. Agora, a ligação virou um clique.

A estrutura está mais enxuta. No lugar de um estúdio e equipes de áudio e vídeos, apenas um celular com tripé e iluminação, e talvez mais duas ou três pessoas para ajudar a organizar os produtos e responder em tempo real.

Grupo Soma é novo dono da Hering

Loja da Hering. Foto: Divulgação Foto: Agência O Globo
Foto: Agência O Globo

Grupo Soma, dono de Farm e Animale, comprou em abril a Hering por R$ 5 bilhões, marca que recusou oferta da Arezzo

Reserva foi comprada por R$ 715 milhões

Loja da Reserva, marca carioca de vestuário Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Arezzo anunciou, em outubro do ano passado, a compra da marca carioca Reserva avaliada em R$ 715 milhões.

Arezzo

Loja da Arezzo que investe em aquisições no mercado de vestuário Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

A Arezzo&Co adquiriu a marca digital de roupas Baw, voltada ao público jovem, por R$ 105 milhões, o que reforça a estratégia da companhia em investir em aquisições no mercado da moda para crescer no varejo de vestuário

Gol compra MAP

Gol investe em destinos turísticos Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

A Gol aanunciou a aquisição da MAP Transportes Aéreos, empresa regional com sede em Manaus e que herdou 12 slots que eram da Avianca em Congonhas.

Magazine Luiza compra plataforma de cartões

Fachada de lojas do Magazine Luiza. Foto: Divulgação Foto: Agência O Globo
Foto: Agência O Globo

Magazine Luiza anunciou a 18ª aquisição desde o ínicio do ano pasado: a Bit55, plataforma de processamento de cartões de crédito e débito na nuvem

A essência, porém, é a mesma. Recorre aos gatilhos usados nos anos 1990 para incentivar a compra, como oferecer descontos ou produtos exclusivos aos participantes, entregas grátis e brindes.

Segundo as empresas, a compra em tempo real quebra a barreira da imagem estática de uma peça no site da empresa e minimiza a desconfiança em compras on-line. Nas lives, os clientes podem ver todos os ângulos, olhar de perto, visualizar como fica em modelos com corpos diferentes e ainda tirar dúvidas na hora.

— A live commerce é uma opção para a venda instantânea porque traz a sensação de urgência. O termo ‘é só agora’ gera uma angústia e na pandemia as pessoas estão mais vulneráveis. Elas economizaram, estão em casa e pensam ‘já que estou nesta situação horrível, mereço’. A compra por impulso, nesse caso, alia hedonismo, urgência e autoindulgência— diz Rafael Nascimento, professor de Marketing da ESPM e diretor da Explore.

Cem lives por dia

As taxas de conversão em vendas em uma hora de live chegam a ser sete vezes as do site ou até mesmo o equivalente a um dia de vendas na loja física.

Live da Americanas com a influenciadora Letticia Munniz e teve como tema Rotina de amor próprio Foto: Divulgação
Live da Americanas com a influenciadora Letticia Munniz e teve como tema Rotina de amor próprio Foto: Divulgação

  A plataforma digital B2W — detentora das marcas Americanas, Submarino, Shoptime e Sou Barato — firmou em maio uma parceria com a chinesa OOOOO, plataforma especializada neste novo formato do varejo, para escalonar lives. A B2W já fez cem e quer que este seja o número de lives por dia.

Além da bagagem da OOOOO, o objetivo do acordo é lançar um aplicativo para vendas nas redes sociais que vai conectar empresas, criadores de conteúdo e compradores, especialmente os mais jovens, através de vídeos interativos. O acordo prevê a formação de uma joint-venture (parceria) entre elas para desenvolvimento das operações no país.

— Eles conhecem a tecnologia da China, que é referência nestas lives, e têm mecanismos de gamificação que podem ajudar a engajar o público. Para nós, é uma oportunidade de unir entretenimento com compra em um único lugar — diz Leonardo Rocha, diretor de Marketing da B2W.

Lançada em 2020, a start-up brasileira Mimo nasceu quando a publicitária Monique Lima viu o potencial deste nicho. Ela saiu do emprego em uma agência e buscou duas sócias na área de tecnologia, Etienne Du Jardin e Angelica Vasconcelos. A empresa atraiu investidores de peso e tem mais de 400 clientes.

Elas oferecem consultoria e suporte operacional para lives e acesso a uma plataforma para que a cliente possa comprar durante o ao vivo, sistema que muitas lojas não têm.

A Mimo recebe de 10% a 20% de comissão do que é vendido na live, e a conversão média geral de vendas é em torno de 10%. Dependendo do segmento, como bebidas e moda, pode chegar a 15%, segundo Monique.

— O diferencial é tirar as dúvidas ao vivo. O e-commerce é mais solitário. Na live, a pessoa pergunta, o apresentador responde na hora, chamando o cliente pelo nome, e a venda é convertida na hora.

Um de seus clientes é a Lofty Style, que tem 16 lojas físicas em São Paulo.

— Com a pandemia e o fechamento das unidades, tudo virou estoque, então investimos pesado no digital. Fotografamos as peças, contratamos consultoria digital para treinar a equipe, abrimos conta na rede social de cada loja e criamos conteúdo — diz a sócia, Camila Ortiz.

Em agosto, a Lofty fez o primeiro desfile pela internet. Para Camila, o ideal é ter duas pessoas apresentando para não ficar monótono, uma para repassar perguntas que entram ao vivo e duas para organizar as roupas nos bastidores.

Entretenimento é a receita

Já para as grandes redes, o entretenimento é a cereja do bolo. Na China, a Alibaba, gigante do e-commerce faz espetáculos em datas como o Dia dos Solteiros. No Brasil, cada empresa tem sua estratégia.

A da Riachuelo é a regionalização. A marca entrou no universo de live shopping ano passado com apresentações de gancho em datas comemorativas, com a do Dia dos Pais de 2020, com o cantor Mumuzinho e o apresentador Otaviano Costa, e das cantoras Simone e Simaria.

Em abril, passaram a dar dicas de looks e, agora, as lives serão a partir das lojas. Já fizeram dois testes: uma na Casa Riachuelo do shopping Eldorado, em São Paulo, e outra numa loja em Juazeiro do Norte, no Ceará.

— Cada unidade conhece o perfil do público e oferece o que ele precisa. A equipe da loja faz a live com as peças do estoque local — explica Elio Silva, diretor executivo de Canais e Marketing da Riachuelo.

Já na Renner, que também se inspirou na tendência chinesa e foi uma das pioneiras no país, a estratégia é inserir conteúdo nas apresentações.

— Temos trabalhado com conteúdo relevante e algum entretenimento e buscamos sempre apresentadores que estejam alinhados à marca, seja um influenciador ou uma atriz ou outro convidado — conta a diretora de Marketing Corporativo, Maria Cristina Merçon.

A executiva diz que um desafio é treinar a equipe à distância. Do time de marketing e vendas nos bastidores aos convidados para apresentar a live, todos estão em casa.

— Também precisamos do suporte da tecnologia para garantir que a live não vai cair ou ter falhas e de uma equipe para mandar os looks para a casa de quem apresenta. É tudo novo, vamos adaptando. Começamos com ao vivos mais longos e hoje eles duram, em média, 40 minutos.

Outra ramificação são os desfiles. Na China, a Xangai Fashion Week, foi totalmente digital ano passado. Neste ano, com a pandemia sob controle (lá), o modelo adotado foi o híbrido.

— O desfile de coleção é geralmente para convidados, mas tivemos que ressignificar. Pela live, este momento é democratizado — avalia a executiva da Renner, que já realizou dois lançamentos com desfile.

A Arezzo embarcou na ideia da vitrine ao vivo e dos desfiles. Em março, lançou a nova coleção da linha Nina em uma live, um dia antes da data oficial, e planeja a divulgação via internet da coleção Arezzo 2022 depois do lançamento físico.

As vendas de uma live chegam a representar o volume de um dia comercial de grande relevância, como Natal e Dia das Mães, em uma loja da Arezzo.

Para dar conta de mais de cem lives até agora, a diretora da Arezzo, Luciana Wodzik, explica que foram feitos treinamentos com os times de marketing e comercial:

— Em março, com o fechamento parcial do comércio, liberamos e capacitamos as lojas para fazerem suas lives via Instagram e abrimos nova e importante frente de vendas.

A marca de roupas íntimas Hope fez, em setembro, um festival de lives para novas coleções. A apresentação teve a presença de famosos, como Carolina Ferraz, Rafa Brites, Lelê e show da Anitta.

Já a Hope Fashion Week, no início do ano, lançou novos produtos, mas com um foco mais comercial e unindo os canais on-line ao off-line, com cashback e descontos nas próximas compras.

A diretora de Estilo e Marketing da Hope, Sandra Chayo, atribui o êxito do varejo ao vivo à capilaridade, que supera a de um evento presencial. Segundo Sandra, na Hope Fashion Week, o crescimento foi de 65% nas vendas de produtos e coleções em comparação com a edição em setembro.

_______________ * Do negacionismo às negociatas | Carlos Alberto Sardenberg

Vamos colocar a história na devida ordem: o presidente Bolsonaro confessa implicitamente que prevaricou.

Eis a sequência recente: o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra, leu nota oficial na CPI da Covid afirmando que Bolsonaro pediu ao então ministro Pazuello que investigasse a denúncia de corrupção na compra da vacina Covaxin. Ora, se pediu para investigar, está claro que o presidente recebeu a denúncia do deputado Luis Miranda.

Seguindo: essa versão, a terceira, furada, só foi apresentada em junho, três meses depois do encontro com o deputado, em 20 de março. E só apareceu porque o deputado revelou o fato, dizendo-se cansado de esperar por providências.

Mais: não tem nenhum documento mostrando que houve de fato a investigação, nem que a Polícia Federal foi acionada no momento do recebimento da denúncia.

Pior, o presidente não desmentiu que, ao receber a informação do deputado, comentou: “isso é ‘rolo’ do Ricardo Barros” (líder do governo na Câmara). Essa frase revela que Bolsonaro sabe que seu líder é “roleiro” e, ainda assim, o mantém no posto.

Detalhe nada desprezível: a empresa que intermediou a compra da Covaxin é notoriamente ligada ao deputado Ricardo Barros, que mantém influência no Ministério da Saúde, comandado por ele no governo Temer.

E os documentos: o contrato de compra da Covaxin, o empenho da verba para pagamento e as três notas fiscais para antecipar o pagamento. Tudo isso com pressões diversas sobre a estrutura do ministério para que o negócio saísse logo.

Que falta mais? Ah! Sim, o telefonema de Bolsonaro para o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pedindo agilidade na liberação da vacina.

Tudo considerado, trata-se de uma confissão implícita do presidente Bolsonaro e de um monte de gente no entorno. A começar daqueles que disseram ter investigado, o general Pazuello e o coronel Elcio Franco, sem ter um mísero pedaço de papel para mostrar.

A isso tudo acrescenta-se a tremenda incapacidade do governo, provada por essa ridícula negociação com um cabo da PM de Alfenas (MG) para a compra de 400 milhões de doses da AstraZeneca.

Vamos reparar, pessoal: isso daria para vacinar toda a população brasileira! E sai do nada, de uma empresinha americana, representada por um desconhecido PM? O cara chegou a ser recebido pelo então secretário executivo da Saúde, o coronel Elcio.

Seria engraçado — e é engraçado — não fosse o fato grave de revelar um submundo de negociatas de medicamentos e equipamentos. Um mercado paralelo, informal — onde as pessoas se conhecem só pelos primeiros nomes, não sabem de onde vêm, currículos, nada e, ainda assim, têm acesso a altas autoridades do governo.

Negacionista, o presidente não queria comprar vacinas. Atrasou conversas com executivos formais da Pfizer, recusou a CoronaVac, desconfiou da AstraZeneca. E se tratava de medicamentos testados e aprovados em diversos países, negociados por executivos de farmacêuticas e institutos responsáveis e oficiais.

O então ministro Pazuello seguiu essas orientações negacionistas. E quando foi para comprar vacinas, aparecem esses picaretas e “roleiros”?

Assim se foi do negacionismo para as negociatas. O preço? Centenas de milhares de vidas que poderiam ter sido salvas se as pessoas tivessem sido vacinadas a tempo.

Não é só má administração, picaretagem, corrupção. É um conjunto de práticas assassinas.

A CPI da Covid avançou por terrenos inesperados. Sempre acontece. Sim, tem muitos picaretas também fazendo denúncias — mas o que queriam? Que as denúncias de roubalheira saíssem de quem está por fora?

Todos os grandes escândalos de corrupção têm isto em comum: começam com alguém que se sentiu prejudicado na negociata. Assim como a situação de Bolsonaro se complica à medida que seus aliados de ocasião se sentem prejudicados.

Carlos Alberto Sardenberg - assinatura

Por Carlos Alberto Sardenberg


_______________ * STF impõe as regras da lei | Merval Pereira

O STF tem agido como uma barreira firme contra as tentativas de burlar a lei e de ir contra a democracia. A respeito do pedido da PGR de abertura de investigação contra Bolsonaro, o palácio do Planalto soltou hoje, uma nota de cinismo absoluto, onde diz que o executivo não se pronuncia sobre outros poderes. Bolsonaro deve se achar um simples blogueiro, e não um presidente, porque pela boca dele, a presidência fala todo dia; afronta as instituições, chama de bandidos os senadores opositores da CPI, fala mal do STF, ameaça não passar a faixa presidencial se não houver voto impresso. Ainda bem que o STF está impondo as regras da lei, porque se deixar Bolsonaro solto, sem controle, ele vai avançando.  E não tem capacidade de entender o que é, ou não gosta da democracia; acha que pesos e contrapesos são prejudiciais ao seu governo, à sua pretensão de salvar o Brasil da corrupção. Mas o governo está cheio dela e os valores morais agora começam a ser questionados por um blogueiro aliado, que divulga que supostamente a ministra Damares teve um caso com um homem casado. E o pastor Malafaia já quer que ela deixe o governo, caso seja verdade. Mostra a confusão que reina.
O pedido da PGR de abertura de inquérito contra o presidente só aconteceu porque não havia outra alternativa e  depois de muita pressão, assim como a investigação aberta por Alexandre de Moraes contra bolsonaristas por organização criminosa é uma resposta à PGR, que age claramente em defesa de Bolsonaro, tenta barrar as investigações que atingem o presidente e seus aliados. Mas o STF está dando a reposta devida. É um bom sinal de que o STF, instituição democrática fundamental, está agindo.

Ouçam os comentários da rádio CBN:

_______________ * Fiança para Pastor Everaldo deixar a cadeia é de R$ 1 milhão, decide Justiça

Ivo Gonzalez

A juíza Caroline Figueiredo, substituta da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, aceitou na quinta-feira a um pedido da defesa do Pastor Everaldo para revogar a prisão preventiva dele, decretada em setembro pelo STJ. A magistrada determinou, no entanto, que o chefe do PSC só seja liberado após o pagamento de fiança no valor de R$ 1 milhão e o cumprimento de medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira.

Everaldo foi preso sob a suspeita de ser um dos líderes de esquemas de corrupção identificados pelo MPF durante o governo de Wilson Witzel no Rio. O caso dele chegou à primeira instância recentemente e teve denúncia aceita em meados de junho. Agora, o líder religioso tem autorização para ser solto por excesso de prazo no tempo de detenção.

Além de pagar fiança milionária e da tornozeleira, Everaldo está proibido de manter contato com outros investigados, de se ausentar do Rio e acessar repartições públicas. Também precisará cumprir recolhimento noturno e de atuar junto às empresas envolvidas no caso, incluindo a Cedae.

(Atualização às 15h30m: A defesa de Pastor Everaldo procurou a coluna para informar que considera a decisão correta, mas avalia que houve "excessos na imposição de medidas cautelares, especialmente com relação à fiança", dado o valor estipulado pela Justiça Federal. Haverá questionamento num pedido de habeas corpus).

_______________ * Em meio a expectativas de refundação do país, Constituinte do Chile dá a largada

Uma folha em branco aguarda os 155 constituintes chilenos. Ao começarem os trabalhos neste domingo, eles têm o desafio de, em um prazo curto, conseguirem se organizar e alcançar acordos
O antigo Congresso Nacional do Chile, que será reutilizado, e será uma das duas sedes da Convenção Constitucional, ao lado do Palácio Pereira, edifício neoclássico do século XIX Foto: JAVIER TORRES / AFP
O antigo Congresso Nacional do Chile, que será reutilizado, e será uma das duas sedes da Convenção Constitucional, ao lado do Palácio Pereira, edifício neoclássico do século XIX Foto: JAVIER TORRES / AFP

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Sabe-se do lugar, da hora, da duração do encontro e dos participantes. Há umas poucas regras definidas: respeitar os tratados internacionais vigentes, manter um modelo de democracia republicana e aprovar as novas leis por um quórum de dois terços. Mas isso é tudo: incumbida de escrever uma nova Carta Magna, a Convenção Constitucional do Chile realiza a sua primeira sessão neste domingo tendo à sua frente uma folha em branco.

Uma aura de refundação do país emana de setores da sociedade e de vários dos 155 constituintes, e há propostas da mais diversa natureza, desde a transição para um sistema semipresidencialista até um novo recorte territorial, com a substituição das 16 regiões chilenas por três macrorregiões. A mudança do modelo socioeconômico, do funcionamento do sistema político e a representatividade das minorias estão no topo da agenda, a reboque das manifestações que eclodiram no final de 2019, as maiores da História do país.

Inovações diversas nutrem as expectativas. Para substituir a Constituição de 1980, escrita sob a ditadura de Augusto Pinochet, o Chile terá a primeira Constituinte com paridade de gênero do mundo. Os 10 povos indígenas do país estarão representados por 17 deputados. Grande parte dos constituintes eleitos concorreu em candidaturas independentes, fora dos partidos, e o seu conjunto é considerado mais plural e representativo do que o do atual Congresso.

— Há bastante esperança posta no processo, relacionada a solucionar o modelo social e de desenvolvimento, a como o Estado trata as pessoas e a como a política se relaciona com a sociedade. O que se está por ver é em que medida os constituintes podem satisfazer essas demandas — afirmou Juan Pablo Luna, cientista político da PUC chilena, em um debate nesta sexta-feira. — Importa também o simbólico, uma mudança da relação do Estado e dos representantes, assim como do setor produtivo, com o resto da população. Demandam-se não mudanças imediatas, mas uma mudança de lógica, que vá gerando transformações no cotidiano.

Ao lado das esperanças, elementos do processo constituinte também despertam preocupação. Embora progressista, em sua grande maioria — a direita não chegou a alcançar o quórum mínimo de um terço para vetar leis na eleição de maio —, a Convenção Constitucional é composta por grupos muito heterogêneos, com dificuldade de diálogo entre si. O prazo de nove meses, prorrogáveis por mais três, é considerado apertado, ainda mais se considerada a exigência de participação da cidadania.

Há também grande desconfiança sobre o processo institucional de alguns atores, como dos representantes da Lista do Povo, composta por nomes que emergiram das ruas. Eles propuseram que a antiga sede do Congresso Nacional, edifício no centro de Santiago que hospedará a Constituinte, seja cercado por manifestantes neste domingo. 

“As ações de alguns constituintes em certo sentido refletem a consciência de que há princípios fundamentais em jogo que são simplesmente irreconciliáveis com o status quo e com aqueles que o defendem. Por isso, qualquer ação dentro dos parâmetros vigentes (sejam normas, instituições ou compromissos) é lida como uma resignação”, disse Mariana Canales, pesquisadora do Instituto de Estudos da Sociedade, de Santiago, em um artigo recente. “Embora não saibamos quais serão as atitudes e posições majoritárias na Convenção, um cenário como esse parece desesperador, pois sugere que não haverá vontade de se chegar a acordos.”

Desconfianças entre deputados e o governo conservador de Sebastián Piñera abundam, e as desavenças começam já na cerimônia de abertura. Nos últimos dias, brotaram várias queixas por questões como o financiamento da Constituinte, a hospedagem de quem viaja de regiões distantes para Santiago e o papel de um representante do Executivo no evento — o secretário-executivo Francisco Encina, que é acusado de ignorar pedidos dos povos originários no cerimonial.

As demandas dos povos indígenas têm tido peso importante nas discussões, o que é um indicativo da elevada chance de que, a exemplo da Bolívia, o Chile pode se tornar um Estado plurinacional após o processo constituinte. Por ora, nesta sexta-feira, após várias reuniões por videoconferência, cerca de 90 constituintes organizados num grupo chamado Voz do Povo publicaram uma carta de sete páginas sobre o processo. Eles apresentam propostas como a presença das bandeiras dos 10 povos indígenas durante a abertura e também a leitura de um texto com uma referência aos “povos originários violados, saqueados e excluídos pela invasão do império espanhol e do Estado do Chile”, a ser seguido por um minuto de silêncio.

Os desafios começam de fato na segunda-feira, que será o primeiro dia de trabalho. A Convenção Constitucional ainda não tem um regulamento interno de funcionamento, o que significa que, em teoria, os deputados podem passar todo o tempo discutindo, ou irem para casa cedo, sem nada legislar, indefinidamente. Para evitar isso, a primeira tarefa da Constituinte será definir o seu próprio regulamento. Esta etapa deve envolver questões como a divisão em comissões, quais temas elas vão abordar, e quais serão os quóruns de aprovação das leis nesses grupos, antes de ir a plenário.

A adoção do regulamento é uma atividade bastante complexa e em geral demorada — no caso boliviano, por exemplo, levou sete meses —, o que tem provocado receio de que cause atrasos na atividade constituinte em si. Há muitas propostas, como, por exemplo, uma mesa rotativa, e é quase certo de que será montada uma comissão para definir essas normas. Para não travar os demais trabalhos, há propostas de regras transitórias, que definiriam o uso da palavra, a abertura das sessões, a ordem dos debates e seu encerramento.

Enquanto não se sabe como a Constituinte se organizará, uma mesa diretiva deve ser eleita na segunda-feira, e um presidente será eleito, com quórum simples. Na carta da Voz dos Povos, propõe-se que todos os 155 constituintes poderiam ser elegíveis. Os cinco mais votados avançariam a um segundo turno, e, em seguida, os dois nomes mais votados iriam para o terceiro.

Um dos nomes mais fortes para a presidência até agora é o da acadêmica e linguista mapuche Elisa Loncon, que, eleita na lista reservada para o seu povo, atraiu para si o apoio da nova esquerda da Frente Ampla. Alguns nomes alternativos circulam, como a professora universitária de biologia Cristina Dorador (independente da região de Arica, ao Norte) e a jornalista e fundadora da Transparência Internacional chilena Patricia Politzer, também independente. A direita, enquanto isso, pretende apresentar a candidatura Harry Jürgensen, do Renovação Nacional, partido de Piñera.

A participação popular é outra grande exigência, assim como outro desafio. Segundo o cientista político da PUC chilena Gabriel Negretto, especialista em processos constituintes, não há precedente mundial de uma Assembleia Constituinte que tenha incluído a participação popular e sido concluída no prazo de um ano. Para dar subsídios a quem participa do processo, ao menos oito centros de estudos apresentaram recomendações sobre a necessidade de transparência e de participação cidadã. Algumas propostas incluem plebiscitos vinculativos quando houver desacordo sobre determinada matéria crucial. Ao cabo do processo, um plebiscito de encerramento precisará aprovar a nova Carta.

Em meio a tantos obstáculos, há quem diga que as dificuldades são superestimadas, e que o processo pode lograr mais êxito do que imaginam os receosos. Uma das esperançosas é a deputada constituinte Cristina Dorador. Em uma entrevista à Rádio Pauta nesta semana, ela afirmou que ter tantos nomes de fora dos partidos políticos é algo “muito interessante, porque nos dá liberdade e abertura para gerar novas formas de diálogo e de relações políticas”.

— Os desafios da Convenção são enormes e ultrapassam a lógica dos partidos políticos tradicionais. Mas precisamente eles não estiveram à altura dos desafios que tivemos de enfrentar — ela afirmou. — Não somos um Parlamento e não vamos agir como tal. As pessoas não votaram nisso, votaram num grupo de pessoas que vão ajudar escrever a nova Constituição. Todo o Chile é constituinte.

_______________ * Ernest Hemingway e o talento de transformar aventuras em boa literatura

Quem passa o mês de julho por Key West tem a sensação de que boa parte da população da cidade na Flórida é formada por homens de barba grisalha e sorriso tímido. Tudo por conta de um concorrido concurso de sósias de Ernest Hemingway que acontece todos os anos na época de seu aniversário, comemorado em 21 de julho. Nobel de 1954, Hemingway viveu seus 61 anos fazendo uma infinidade de coisas: foi correspondente de guerra, soldado, lutador de boxe, caçador e pescador de marlins no mar de Cuba, onde viveu por mais de 20 anos.

“O Sol também se levanta” foi publicado em 1926 e virou um dos clássicos da literatura americana. Conta a história de Jack Barnes, um jornalista americano que vive em Paris. Ferido na Primeira Guerra Mundial, Barnes ficou impotente e vive na Rive Guache atrás de Brett. Mas ela se envolve com um judeu que foi campeão de boxe. A trama conta as histórias ainda de Bill, um escritor nova-iorquino, e de Jack, e foi inspirada nos anos em que passou na Espanha e participou da Guerra Civil.

Esse primeiro romance de Hemingway foi escrito em apenas dois meses, entre julho e setembro de 1925. Na epígrafe, trazia escrito: “Vocês todos são uma geração perdida”, frase atribuída a Gertrude Stein. A “geração perdida” estava em Paris, nos anos loucos, e acreditava que o fato de viver onde estiveram Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire e Paul Verlaine tornava possível que fossem escritores. Hemingway chegou a alugar o quarto em que Verlaine teria morrido.

Entre suas principais obras estão "Adeus às armas" (1929), "Por quem os sinos dobram" (1940), considerado sua obra prima, e "O velho e o mar" (1952), que lhe deu, no dia 4 de maio de 1953, o Pulitzer de Ficção.

Paris não atraía só Hemingway. Muitos americanos escolheram viver por lá, já que o ambiente era menos puritano e repressor do que nos EUA, que nesta época proibia até o álcool.

A capital da França, no entanto, era sinônimo de liberação intelectual e comportamental. Estavam por lá também James Joyce, Ezra Pound, Ford Madox Ford, Zelda e F. Scott Fitzgerald e John dos Passos. Frequentavam o apartamento em que Gertrude vivia com Alice B. Toklas. Além de Paris, eles se interessavam por países de origem latina, sentindo-se atraídos por touradas, símbolo de risco, virilidade e adrenalina.

Hemingway casou-se quatro vezes e matou-se em sua casa, em Ketchum, nos EUA, com um tiro de espingarda, a mesma com a qual costumava caçar, em 2 de julho de 1961.

Aventureiro. Hemingway foi soldado, correspondente de guerra, lutador de boxe, caçador e pescador

Aventureiro. Hemingway foi soldado, correspondente de guerra, lutador de boxe, caçador e pescador Arquivo

_______________ * James Baldwin retrata a América negra

Com o livro "Vá contar na montanha", o autor, radicado na Europa, conquistou a crítica

Assim como Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Richard Wright - este, seu mentor direto - James Baldwin também teve que sair dos Estados Unidos para melhor traduzir seu país em palavras. "O exílio era uma maneira de tomar fôlego", afirmou Baldwin, que obteve o reconhecimento da crítica logo com seu primeiro romance, "Go tell it on the mountain", escrito em 1953, quando estava na Suíça. O autor tinha 29 anos, nasceu no dia 2 de agosto de 1924 e, de certa forma, falava de sua própria vida, embora o romance não seja rigorosamente autobiográfico: como ele, o protagonista é negro e homossexual. "Vá contar na montanha" é considerado por muitos críticos o melhor trabalho de Baldwin, um fino estilista que, no entanto, alguns anos depois, ficaria muito mais famoso como defensor dos direitos civis das minorias, ao lado de nomes como Martin Luther King e Malcolm X, do que jamais fora como escritor.

Pobre, Baldwin embarcou para a França com uns poucos trocados, em 1948, e lá viveu nove anos. "Deixei a América porque duvidava de minha capacidade para sobreviver á violência do problema da cor", explicou esse neto de escravos criado no Harlem, em Nova York. "Vá contar na montanha", com seu título de ecos bíblicos, inaugurou um estilo que frutificaria em ensaios, contos, artigos, poemas e peças de teatro, além de romances como "Another country" (no Brasil, "Numa terra estranha") e o belíssimo "Giovanni's room" ("Giovanni").

Em 1956, Baldwin recebeu um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, o do Instituto Nacional de Artes e Letras. Um ano depois, retornou ao país para participar mais ativamente da luta das minorias. Baldwin morreu em 1 de dezembro de 1987 de câncer no estômago na cidade de Saint Paul de Vence, perto de Nice, na França, onde viveu durante 20 anos. Na matéria sobre a morte do escritor, que saiu no GLOBO no dia 2 de dezembro, a crítica literária Bella Jozef se referiu a Baldwin como um "rebelde pacifista e consciente".

Apesar da qualidade de seu texto, James Baldwin se tornaria mais conhecido como ativista dos direitos civis

Apesar da qualidade de seu texto, James Baldwin se tornaria mais conhecido como ativista dos direitos civis

_______________ * Homem é ferido com tiro nas costas na Times Square, em Nova York * Em MAIO, a Times Square já havia sido palco de tiros. Uma briga com disparos atingiram duas mulheres e uma menina de quatro anos de idade. 

Identidade da vítima não foi revelada, e incidente está sendo investigado; ninguém foi preso

São Paulo

Um disparo de arma de fogo em meio a uma briga na Times Square, ponto turístico de Nova York, deixou um homem de 21 anos ferido na noite deste domingo (27), informou o site da emissora americana CNN.

O homem, que não estava envolvido na briga, acabou baleado nas costas e foi levado ao hospital, onde os médicos disseram que a expectativa é a de que ele sobreviva aos ferimentos, ainda de acordo com a CNN.

Pessoas paradas na Times Square, com telões e prédios ao fundo
Movimentação na região da Times Square, em Nova York - Angela Weiss - 11.jun.21/AFP

A identidade da vítima não foi revelada, e o incidente está sendo investigado pela polícia. Ninguém foi preso até agora. Nova York tem registrado um aumento na criminalidade. Dados da polícia divulgados pela CNN mostram que houve 680 incidentes envolvendo tiros desde o início do ano até 20 de junho, um aumento de 53% em relação ao mesmo período no ano passado.

Em maio, a Times Square já havia sido palco de tiros. Uma briga terminou com disparos, que atingiram duas mulheres e uma menina de quatro anos de idade. A garota estava comprando brinquedos com a família e foi atingida na perna. As outras duas vítimas, de 23 e 43 anos, sofreram ferimentos na perna e no pé, respectivamente. As vítimas não se conheciam, e a criança precisou de cirurgia.

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Na última semana, o presidente Joe Biden anunciou endurecimento na fiscalização da venda de armas e defendeu mais recursos para as polícias em uma tentativa de conter a alta nas mortes a tiros no país.

Os EUA vivem alta nos crimes com armas de fogo. Em 2020, a taxa de homicídios em cidades grandes cresceu cerca de 30% na comparação com o ano anterior. Neste ano, 20.989 americanos já morreram por ferimentos de armas de fogo, mais da metade por suicídio, segundo dados do Gun Violence Archive.

Biden também defendeu mais dinheiro para as polícias locais: orientou governos municipais e estaduais a usarem verbas do pacote de recuperação, aprovado em março, para contratar mais agentes e investir em tecnologia. Ele ainda pediu que o Congresso não tente barrar esse direcionamento.

Ao defender o aperto no controle de armas e o reforço nas polícias, Biden gera atritos com dois grupos rivais. O direito ao porte de armas é uma questão pétrea para a direita americana e para o Partido Republicano, que considera o tema um símbolo da liberdade. Já uma parcela do Partido Democrata quer o corte do orçamento para a polícia, como forma de evitar ações violentas por parte de agentes, como na morte de George Floyd, homem negro assassinado por sufocamento por um policial branco no ano passado. Republicanos se opõem à medida e dizem que ela deixará as cidades mais inseguras.

O anúncio da semana passada se soma a ordens executivas assinadas em abril, nas quais Biden pediu ao Departamento de Justiça que reprimisse as “armas fantasmas” —feitas de forma caseira, para não serem rastreadas. O presidente usa esse tipo de medida para levar adiante sua agenda sem ter que esperar pelo Congresso, onde a maioria democrata é estreita, e os republicanos se opõem às leis de controle de armas.

A gestão democrata enfrenta uma impaciência crescente de ativistas que querem que Biden aja mais rapidamente para combater a violência armada após ele ter prometido, durante a campanha à Casa Branca, atuar desde o primeiro dia no cargo contra o que chamou de epidemia.

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