_________________________* DERROTA dos EUA no Afeganistão traça o desenho da NOVA ORDEM MUNDIAL _____________________________________ _________________________* As FALSIFICAÇÕES (¿•?) IMPERIALISTAS (¿•?) sobre o "TERROR_TALIBÃ"/Juca Simonard (¿•?) ___________________________ _________________________*
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________________________________________A ESQUERDA depois de BOLSONARO ________________________________________É VITAL notar quem vê PROGRESSO com o fim da OCUPAÇÃO americana do Afeganistão e NÃO reconhece que o TALIBAN é uma FORÇA de OCUPAÇÃO brutal e EQUIVALENTE ao NAZI-FASCISMO
________________________________________As FALSIFICAÇÕES (¿•?) IMPERIALISTAS (¿•?) sobre o "TERROR_TALIBÃ"/Juca Simonard (¿•?)
________________________________________PCO - Partido da Causa Operária Stalinista-Maoísta-Kin_Jong-Un (¿•?)
__________* 'A VACINAÇÃO em si NÃO conseguirá CONTER a DELTA, afirma epidemiologista britânico
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Imagem fantasmagórica de militar americano ao deixar Afeganistão entra para a história
Registro da partida de Donahue pode ser comparada à de um general soviético quando Exército Vermelho saiu do país em 1989...
Carregando seu fuzil, o major general Chris Donahue, comandante da célebre 82ª Divisão Aerotransportada, tornou-se o último militar dos EUA a embarcar no voo final para fora do Afeganistão, um minuto antes da meia-noite de terça-feira (31).
Capturada de uma janela lateral do avião de transporte C-17 com a ajuda de um aparelho de visão noturna, a imagem fantasmagórica, verde e preta, do general caminhando até o avião que aguardava na pista do aeroporto Hamid Karzai, em Cabul, foi divulgada pelo Pentágono horas depois de os Estados Unidos encerrarem seus 20 anos de presença militar no Afeganistão.

Como um momento da história, a imagem da partida de Donahue pode ser comparada à de um general soviético que liderou uma coluna blindada na travessia da Ponte de Amizade, entre o Afeganistão e o Uzbequistão, quando o Exército Vermelho finalizou sua saída do Afeganistão em 1989.
Concluindo uma operação militar que, com a ajuda de aliados, conseguiu evacuar 123 mil civis do Afeganistão, o último avião transportando tropas americanas partiu ao abrigo da noite.
Lá Fora
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Embora seja uma imagem estática, a impressão que se tem é que Donahue está caminhando rapidamente, com a expressão impávida. Ele está de uniforme e equipamentos de combate, óculos de visão noturna sobre o capacete e um fuzil. Ele ainda não havia partido do Afeganistão ou chegado a um lugar seguro.
Em contraste, as imagens do general Boris Gromov, comandante do 40º Exército da União Soviética no Afeganistão, o mostram andando de braços dados com seu filho pela ponte sobre o rio Amu Darya, carregando um buquê de flores vermelhas e brancas.

As retiradas americana e soviética de um país que ficou conhecido como cemitério de impérios foram conduzidas de modos muito diferentes, mas pelo menos evitaram a derrota calamitosa sofrida pela Grã-Bretanha na Primeira Guerra Anglo-Afegã, em 1842.
A imagem que perdurou desse conflito é a pintura a óleo “Resquícios de um Exército”, de Elizabeth Thompson, que mostra um cavaleiro solitário exausto, o cirurgião militar assistente William Brydon, sentado com dificuldade na sela de um cavalo ainda mais exausto, na retirada de Cabul.
Quando o Exército Vermelho russo partiu, um governo comunista pró-Moscou ainda estava no poder no Afeganistão, e seu exército continuaria a combater por mais três anos. Agora, contudo, o governo afegão apoiado pelos EUA já se rendeu, e Cabul havia caído diante do Talibã um pouco mais de duas semanas antes do prazo final de 31 de agosto definido para a saída das tropas americanas.
Fazendo uma retirada ordeira, os últimos membros dos 50 mil soldados de Gromov continuaram a ser alvos de ataques isolados quando dirigiram para o norte, rumo à fronteira uzbeque, apesar de terem pago a grupos mujahedins para garantirem sua passagem segura até a fronteira.
A coluna de Gromov atravessou a Ponte da Amizade em 15 de fevereiro de 1989, encerrando a guerra da União Soviética no Afeganistão, que durara dez anos e na qual haviam morrido 14.450 militares soviéticos.
Questionado sobre o que sentia em relação ao retorno a solo soviético, Gromov teria respondido: “Alegria, por termos cumprido nosso dever e voltado para casa. Não lamento nada”.
A evacuação americana de Cabul será julgada com base em quantas pessoas foram retiradas do país e quantas foram deixadas para trás. Mas Donahue e seus camaradas ainda vão conservar na memória imagens de seus derradeiros e caóticos dias em Cabul: pais lhes passando bebês por cima da cerca de arame farpado, dois jovens afegãos caindo de um avião que decolava, e as consequências de um ataque do Estado Islâmico diante do aeroporto, que matou dezenas de afegãos e 13 militares americanos.
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Após 20 anos no Afeganistão, EUA deixam milhares de mortos e gasto de US$ 2 tri

31/08/2021 05h09
Atualizada em 31/08/2021 09h41
Depois de quase 20 anos, US$ 2 trilhões e milhares de vidas perdidas, os Estados Unidos retiraram suas tropas do Afeganistão ontem. Joe Biden agora sofre duras críticas pelo modo como a operação foi conduzida e suas possíveis repercussões para afegãos e o resto do mundo.
Desde que o Talibã assumiu o controle do Afeganistão, em meados de agosto, 123 mil pessoas foram retiradas do país. Entre elas, 5.400 mil americanos, sendo que 1.200 afegãos foram retirados apenas nas últimas horas da presença militar no país.
Repórter em Cabul relata talibãs vestidos como americanos e com armas de última geração
Cerca de 80 mil afegãos com visto especial de imigrante e aproximadamente 200 americanos que não conseguiram embarcar em um dos últimos voos continuam no país.
O Pentágono diz que retirou o máximo de pessoas que podia dentro do prazo estipulado. A Casa Branca diz estar satisfeita com a missão. Mas Biden não apareceu em frente às câmeras para anunciar o fim da guerra.
O secretário de Estado, Antony Blinken, fez um pronunciamento à imprensa, mas logo se retirou sem responder às muitas perguntas dos jornalistas.
Ameaças em alta
A ameaça de atentados terroristas e violência agora no Afeganistão é alta. Diversos grupos terroristas, além do grupo Al Qaeda, têm marcado cada vez mais presença no país. O desafio maior e mais imediato para o Talibã será o grupo Estado Islâmico-Khorasan.
Nos últimos dias, há pessoas tentando escapar do país até a pé, sendo que os vizinhos Irã e Paquistão já receberam milhares de refugiados afegãos.
O general Kenneth Mckenzie Jr., do Comando Central, disse, nessa segunda-feira, que a missão militar chegou ao fim, mas que agora há uma sequência diplomática que negociará com o Talibã para conseguir retirar todas as pessoas que ficaram para trás. No entanto, os EUA não terão presença diplomática no Afeganistão. A missão diplomática será conduzida de Doha, no Qatar.
Apesar de o governo Biden ter prometido uma nova era nas relações internacionais americanas, privilegiando a diplomacia, a credibilidade da Casa Branca está em baixa até com seus aliados. Biden optou por informar primeiro ao Talibã sobre a retirada de tropas, em vez de seus aliados da Otan (Organização do Tratado Atlântico Norte), que também lutavam no Afeganistão.
O governo americano também deixou para trás milhares de afegãos que contribuíram com as operações dos EUA no seu país.
Relação "pragmática" com Talibã
O governo Biden continua afirmando que o Talibã cooperou com a retirada das tropas e fez um bom serviço para garantir uma operação segura nas proximidades do aeroporto de Cabul. Essa avaliação é vista com maus olhos por quase todos que não fazem parte do governo Biden.
Na quinta-feira (26), 13 militares americanos e dezenas de civis afegãos foram mortos em um atentado suicida justamente por causa de uma falha no esquema de segurança no perímetro do aeroporto, que estaria sob a responsabilidade do Talibã.
Ainda assim, a Casa Branca caracteriza seu relacionamento com o Talibã como "pragmático". O general Mckenzie chegou a descrever o Talibã como "atencioso e útil" durante as operações finais americanas no Afeganistão.
O Pentágono acredita que o Talibã vai estar bastante ocupado com grupos terroristas inimigos dentro do Afeganistão e atacar os EUA não seria uma das maiores preocupações do grupo. Segundo o general McKenzie, nesse momento, já há cerca de 2.000 membros radicais do grupo Estado Islâmico-Khorazon no Afeganistão.
China aproveita brecha
Mas essa visão é limitada. O Talibã é financiado em grande parte pelo Paquistão, além do Irã e Rússia, segundo o governo americano. As implicações geopolíticas da retirada de tropas vão ser grandes, com a China querendo se estabelecer como a nova grande potência presente na região e, inclusive, já tomando iniciativas para se aproximar do Talibã.
E a China já está usando o Afeganistão como um instrumento para se impor ainda mais no cenário mundial. Wang Yi, ministro das relações exteriores da China, disse que, para o seu país cooperar com os EUA no Afeganistão, Washington precisará parar de criticar Pequim quanto a direitos humanos, além de não desafiar as reivindicações territoriais chinesas no Mar do Sul da China ou em Taiwan.
Os americanos já estavam cansados dessa longa guerra que tinha um objetivo cada vez mais opaco e distante para eles. A guerra já passou por quatro presidentes americanos, custou mais de US$ 2 trilhões e causou a morte de mais de 2.300 militares americanos, pelo menos 1.100 soldados aliados, e mais de 47 mil civis afegãos.
Partida com gosto amargo
Mesmo assim, ver o último jato C-17 partir de Cabul ontem deixou muitos americanos com uma sensação mais de preocupação do que de alívio. Afinal, os EUA estavam entregando o Afeganistão para o mesmo grupo que haviam ido enfrentar naquele país há quase 20 anos.
Além de essa ser uma maneira amarga de marcar o aniversário de 20 anos do atentado de 11 de Setembro, ninguém —nem mesmo a Casa Branca— está otimista quanto ao futuro no Afeganistão.
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Como a China reinventou sua relação com o Talibã | Marcelo Ninio - O Globo

O governo chinês se declarou disposto a manter relações amistosas com o Talibã e, indo na contramão do Ocidente e de boa parte da população afegã, manifestou confiança de que o grupo manterá uma atitude tolerante e “racional” agora que voltou ao controle do país. É uma visão bem diferente da que Pequim tinha do Talibã há 20 anos.
Quatro meses depois dos atentados do 11 de Setembro, Pequim divulgou um dossiê em que citava o Talibã como patrocinador de um grupo de militantes da etnia uigur que seria responsável por dezenas de atos terroristas dentro e fora da China. Segundo o documento, esse grupo, o Movimento Islâmico do Turquestão (Etim, na sigla em inglês), havia recebido treinamento e armas do Talibã e da al-Qaeda de Osama bin Laden para lutar pela independência de Xinjiang, província no leste da China onde metade da população é muçulmana, a maioria da etnia uigur.
Surgiu então uma nova convergência de interesses entre Pequim e Washington. Se na década de 1980 chineses e americanos haviam apoiado grupos rebeldes islâmicos contra a invasão soviética do Afeganistão, 20 anos depois o inimigo comum era o Talibã, surgido desses mesmos grupos dos chamados “mujahedin”. O Afeganistão de 2001 controlado pelo Talibã estava associado a ameaças aos dois países — a al- Qaeda para os EUA e o Etim para a China. Essa convergência levou os EUA a permitirem que agentes chineses interrogassem em Guantánamo prisioneiros da etnia uigur capturados no Afeganistão e a incluir o Etim na sua lista de grupos terroristas.
Enquanto os EUA invadiram o Afeganistão e declararam guerra ao Talibã, a China trilhou um caminho diferente de combate à ameaça terrorista, que combinou repressão em Xinjiang e manobras diplomáticas. Nos últimos 20 anos, mesmo suspeitando do grupo por ligações com o terrorismo uigur, Pequim manteve contatos com o Talibã. Ao mesmo tempo, seguiu tendo relações com o governo afegão pró-Ocidente e ampliou a ajuda e os investimentos no país.
A visão pragmática da China em relação ao conturbado vizinho se fortaleceu à medida em que a presença americana no Afeganistão ficou com os dias contados. Em 2020, o governo chinês chegou a prometer ao Talibã investimentos em projetos de energia e infraestrutura no Afeganistão caso o grupo se comprometesse com uma solução pacífica para estabilizar o país. No mês passado, a fórmula “investimentos em troca de estabilidade” foi reiterada durante a visita à China de uma delegação do Talibã chefiada pelo número dois do grupo, Abdul Ghani Baradar.
Cinturão e minérios
Bem antes da retirada americana, o descrédito dos EUA causado por sua fracassada intervenção militar abrira um vácuo de influência que levou a China a mudar sua atitude em relação ao Afeganistão, de “indiferença calculada para um envolvimento estratégico”, como definiu a analista Shubhangi Pandey. Para Pequim, a estabilização do Afeganistão importa sobretudo para evitar que o país seja um abrigo para que militantes do Etim planejem atentados dentro do território chinês.
Além disso, ela abre espaço privilegiado para a exploração das reservas no Afeganistão de materiais para a indústria chinesa, como terras raras, lítio, ferro e cobalto, e libera um corredor importante para a Iniciativa do Cinturão e Rota, o megaprojeto de infraestrutura que é um dos pilares da diplomacia econômica de Pequim.
Na crescente competição entre EUA e China, a ameaça terrorista deixou de ser um ponto de convergência e tornou-se mais um motivo de atrito. Em 2020, o Etim foi retirado da lista de grupos terroristas dos EUA pelo governo de Donald Trump, que acusou a China de cometer genocídio contra minorias muçulmanas em Xinjiang. A decisão revoltou o governo chinês, que acusou os EUA de terem “duas caras” na guerra ao terror.
É cedo para saber como funcionará o governo do Talibã, mas a retirada dos EUA como ocorreu é “um desastre geoestratégico” e uma vitória para a China, que passa a ser o país com maior influência no Afeganistão e ganha “carta branca” na Ásia Central, diz o especialista em defesa Claude Rakisits. Resta saber se o Talibã irá cumprir a promessa de não permitir atividades de grupos anti-China no território sob seu controle, diz Rakisits, professor da Universidade Nacional da Austrália.
— A China acredita nisso? Provavelmente não, quem acreditaria no Talibã? Mas o Talibã vê a possibilidade de que a China faça investimentos no Afeganistão e contribua para a reconstrução do país. Por isso calculo que o nacionalismo do Talibã ficará acima da solidariedade com os uigures.
Embora o governo chinês manifeste publicamente que vê indícios de um Talibã “mais racional”, há apreensão sobre sua capacidade de frear ações extremistas. No passado, as ordens do comando central não foram obedecidas por facções locais, observa Liu Zongyi, do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai. Para ele, a imagem mais diplomática que o Talibã tenta passar agora pode ser apenas uma estratégia, pois o fundamentalismo islâmico ainda é o que define sua ideologia. Sendo assim, escreveu Liu num artigo na imprensa chinesa, será difícil para o grupo deixar de acolher militantes islâmicos, incluindo membros do Etim.
Em entrevista ao canal estatal chinês CGTN, o economista americano Jeffrey Sachs chamou de “estúpida” a política dos EUA no Afeganistão, por ter gasto uma fortuna sem dedicá-la a desenvolver o país. Por contarem com um Exército poderoso, os EUA usam o poder militar como política externa, disse Sachs, ilustrando o raciocínio com um provérbio: “quando você tem um martelo, tudo parece com um prego”. Já a China usa o seu poder econômico como política externa. A questão é se isso dará certo com o Talibã.
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DEPOIS da ‘ORGIA ESTRATÉGICA ’
A queda de Cabul, no 15 de agosto, 76º aniversário da rendição japonesa, “pode ser interpretada como o fim do segundo período de orgia estratégica dos EUA”, escreveu Shen Yi no Global Times. O jornal é um veículo em língua inglesa de propaganda nacionalista da China, e Shen Yi quase certamente é um pseudônimo inspirado no nome de um arqueiro mitológico chinês. A China teme que o novo regime afegão provoque ondas de instabilidade na Ásia Central, mas celebra a derrota histórica dos EUA.
Segundo Shen Yi, a hegemonia americana desde 1945 compõe-se de ciclos de expansão-orgia-contração. O primeiro ciclo iniciou-se com o envolvimento no Vietnã e culminou com a queda de Saigon, em 1975, que provocou um prolongado recuo. O segundo começou em 2001, com as intervenções no Afeganistão e no Iraque, esgotando-se agora, sob o impacto da humilhação imposta pelo Talibã.
“Cabul não é Saigon”, garantiu Antony Blinken, secretário de Estado dos EUA, argumentando que foi cumprida a missão de suprimir as redes de terror responsáveis pelos atentados do 11 de Setembro. De fato, Cabul é pior que Saigon — e a China sabe disso. O Vietnã do Sul resistiu por dois anos após a retirada das forças americanas, enquanto o Estado afegão dissolveu-se antes da partida dos últimos contingentes militares ocidentais. Sob o Talibã, o terror jihadista tem condições propícias para se reorganizar no Afeganistão.
Os EUA cometeram um erro estratégico maior no Afeganistão, derivado do pecado da húbris. Depois da derrubada do Talibã, converteram o país em semiprotetorado americano. À sombra das tropas americanas e da Otan, ergueram um sistema político e construíram um Exército afegão. Rússia, China, Irã e Paquistão tinham interesse direto na estabilidade regional — na eliminação dos jihadistas do núcleo geográfico da Ásia Central. Mas, sob a “orgia” neoconservadora, os EUA preferiram caminhar sozinhos — e hoje colhem os frutos amargos daquela escolha.
Joe Biden adicionou, ao erro estratégico, o equívoco tático fatal de curvar-se ao acordo de retirada firmado por Donald Trump com o Talibã. Na prática, o acordo implicava o abandono das forças militares afegãs, que dependiam de logística e apoio aéreo oferecidos pelos EUA e pela Otan. A rendição sem combate do Exército afegão, álibi repetido sem cessar por Biden, foi prevista pela inteligência americana. As cenas de caos na capital afegã são o produto inevitável dos atos convergentes do republicano e do democrata.
O equívoco tático reflete algo mais profundo. Como no Vietnã, a sociedade americana cansou-se da longa guerra travada em terras distantes, revertendo ao isolacionismo. Sob esse aspecto decisivo, Trump triunfou — e os EUA perderam. É isso que a China celebra, pela voz de Shen Yi.
Na Guerra do Golfo de 1991, auge da hegemonia americana, George H. Bush seguiu a Doutrina Powell. Os EUA conduziram uma ofensiva devastadora, alcançaram o objetivo estratégico, e concluíram a operação com rápida retirada do Iraque. Na década seguinte, George W. Bush desviou-se da trilha do pai, embrenhando-se na aventura da “reforma do mundo” pregada pelos neoconservadores. As ocupações do Afeganistão e do Iraque foram justificadas pela ambição desvairada de edificar democracias protegidas pelas baionetas americanas. O 15 de agosto de Cabul assinala o fracasso definitivo da doutrina neoconservadora.
O passado pesa como rocha sobre o presente. Durante 20 anos, milhões de afegãos, especialmente as mulheres, experimentaram direitos e liberdades que os EUA prometeram perenizar. Biden simula amnésia, insistindo na ficção de que a presença das forças ocidentais no Afeganistão destinava-se exclusivamente a combater a ameaça internacional jihadista. Os afegãos que tentam escapar para o aeroporto ou erguem a bandeira nacional em perigosas manifestações de rua não esqueceram.
Traição — eis o nome aplicado à retirada americana pelos afegãos deixados para trás e pelas mulheres que encaram a perspectiva de um novo confinamento doméstico. O arqueiro chinês comemora a traição dos EUA, que o mundo inteiro viu.

Por Demétrio Magnoli
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As falsificações imperialistas sobre o "terror talibã" - Juca Simonard
Por Juca Simonard

Por Juca Simonard
Edição Eduardo Afonso Vasconcelos
É nos momentos decisivos que vemos mais claramente os interesses de classe dos grupos políticos. A derrota dos Estados Unidos após 20 anos de invasão no Afeganistão é um destes momentos. Uma insurreição popular aconteceu no país, e os EUA, que não tinham mais condições materiais de se manter nesta guerra, saíram desmoralizados de lá. É um episódio a ser celebrado por qualquer um: a força mais reacionária do mundo, o imperialismo, parasita e sanguessuga de todas as nações oprimidas, foi derrotada.
Parte da esquerda, no entanto, mostrou que não tem nada a ver com a defesa dos interesses da classe operária. São “democratas” pequeno-burgueses que, por vários motivos, passaram a atacar o Talibã, ou assumindo claramente a defesa dos EUA, ou tendo uma posição centrista diante dos acontecimentos — que, finalmente, é uma defesa envergonhada do imperialismo.
Um dos argumentos apresentados por essa esquerda é que o Talibã não liderou uma revolução popular que expulsou os EUA do Afeganistão. Para os defensores dessa tese, os norte-americanos permitiram a chegada do Talibã para que o grupo atacasse os vizinhos China e Irã. Essa teoria, porém, caiu por terra rapidamente com as aproximações entre o novo governo afegão com a China, o Irã e a Rússia. Da mesma forma, a tese foi afundada com os prantos do imperialismo diante do novo governo e a comemoração de grupos islâmicos de resistência contra o imperialismo, como o Hamas.
A questão da mulher
Porém, o argumento central apresentado pelos democratas pequeno-burgueses é a ideologia do Talibã, fundamentalista islâmica e profundamente contrária aos direitos democráticos das mulheres. Falam como se 20 anos de guerra que assassinou centenas de milhares de civis fosse melhor para a mulher. Como se, enquanto seu país era invadido por tropas estrangeiras, que promoveram estupros, assassinatos a sangue-frio e tortura, a mulher fosse livre ou mais próximo disso. É uma ideia absurda.
Primeiro, a destruição do país pelo imperialismo demoliu completamente as condições de vida da população. A mulher, como setor oprimido, naturalmente foi uma das mais prejudicadas. A destruição das cidades, a miséria, o desemprego e a fome, conhecidos por toda a população, obviamente foram sentidos duas vezes mais pela mulher, como é em todo país ao redor do mundo.
Segundo, durante a invasão imperialista, não houve nenhum avanço efetivo para as mulheres. A elas, foi permitido ter ensino superior. Acontece que, num país profundamente primitivo, tribal e atrasado, aqueles que conseguem estudar, principalmente no meio de uma guerra, representam um grupo extremamente minoritário e privilegiado. Para a mulher, então, nem se fale. Apenas uma parcela ridícula e altamente privilegiada pôde exercer esse direito.
Justamente por isso, através do identitarismo, o imperialismo cooptou a maior parte delas, que se tornaram colaboracionistas com a invasão estrangeira, enquanto a absurda maioria das mulheres, camponesas ou miseráveis da cidade, ficou em situação pior ao atraso anterior. Tanto é que, durante a invasão imperialista, aumentou consideravelmente a prostituição — com mulheres pobres dos entornos das imensas favelas que surgiram no entorno de Cabul a partir da guerra. A maior parte do “mercado” da prostituição abastecia a demanda das tropas invasoras, como ocorria no Vietnã na década de 1970.
Até do ponto de vista da educação não houve nenhum avanço. Como destacou o professor e tradutor Afonso Teixeira Filho em seu artigo no Diário Causa Operária, “o índice de educação do país, durante o regime do Talibã, subiu, em cinco anos, de 0,125 para 0,226. Em vinte anos de ocupação, subiu de 0,226 para 0,365. Ou seja, em cinco anos de Talibã, o índice subiu 80%; em vinte anos de ocupação, subiu apenas 60%”.
A mulher afegã — isto é, sua absoluta maioria miserável — comeu o pão que o diabo amassou com a invasão imperialista no Afeganistão. A ideia de que houve algum avanço é apenas ilusão, pois não apenas os “avanços” que houveram foram superficiais, atingindo uma irrelevante minoria privilegiada, como os retrocessos que houveram foram imensos e desastrosos. Em relação à mulher, o Talibã é uma cócega perto do imperialismo.
Terceiro, a “defesa da mulher” para atacar a revolução afegã é pura hipocrisia e mostra a real função do identitarismo: servir de instrumento contra-revolucionário. Essa propaganda tem origem nos EUA, sendo repetida pela imprensa brasileira e, consequentemente, pela ignorante esquerda pequeno-burguesa. No entanto, um fato ocultado nessa campanha é que os norte-americanos, “grandes defensores do direito da mulher”, são os principais patrocinadores da Arábia Saudita, a teocracia mais reacionária do Oriente Médio, onde a mulher é menos do que uma coisa — o burro vale mais.
A “democracia”
Junto com a questão da mulher, os “democratas” pró-imperialistas destacam que o Talibã não vai estabelecer uma democracia no país, mas esquecem que em nenhum governo do Oriente Médio existe a tal “democracia” (que, ao pé da letra, não existe nem mesmo nos países que defendem esse regime).
Também alegam que o Talibã é um grupo fundamentalista religioso, de islâmicos extremistas. Em contrapartida, Lênin e a Terceira Internacional defenderam incondicionalmente a luta dos povos oprimidos contra o imperialismo. Marx e Engels também. Os marxistas sempre apoiaram a luta dos povos atrasados contra a dominação imperialista, fossem eles fundamentalistas católicos (como na Irlanda), muçulmanos ou outra coisa.
Além disso, há que se pesar que o atraso ideológico do Talibã é, primeiro, consequência do profundo atraso do Afeganistão. Segundo, resultado do esmagamento do nacionalismo mais avançado do Oriente pelo imperialismo e, portanto, da desorganização política da classe operária. E terceiro, pelos erros assumidos pela esquerda na região — por exemplo, a política colaboracionista da OLP, na Palestina, que levou à superação da organização pelo Hamas, grupo fundamentalista religioso.
Humanismo dos EUA x terror talibã
É até uma discussão besta debater as melhorias empreendidas pelos EUA no Afeganistão, visto que a potência imperialista: impôs uma ditadura militar de alta vigilância e opressão contra o povo afegão durante 20 anos; financiou um regime altamente corrupto, desde as forças militares invasoras aos integrantes do governo, que desviaram recursos dos trilhões enviados pelo governo norte-americano para a guerra; e lucrou com o tráfico de ópio, que aumentou consideravelmente durante a invasão imperialista.
Diante da propagação da ideia do “terror talibã”, também é preciso discutir o “humanitarismo” dos EUA. Os “humanitários” e “democráticos” norte-americanos, além de traficar ópio e promover a prostituição, também permitiam clubes de pedofilia no país. Mas, perto das centenas de milhares de mortos e da destruição completa do país, coisas como essas são até secundárias. Contra a ideia de “invasão do Talibã”, o cineasta norte-americano Michael Moore afirmou: "nós somos os invasores".
Porém, vale destacar aqui um acontecimento específico. No momento da tomada de Cabul pelo Talibã, vários setores da esquerda, em conluio com a imprensa imperialista, mencionaram a crise humanitária no aeroporto da capital, com várias pessoas tentando fugir do Talibã. A maioria era colaboracionista, gente que atuou com os governos norte-americano e europeus contra o povo, que aproveitou a invasão para ganhar dinheiro, seja trabalhando na burocracia, seja fazendo negócios.
Essas pessoas saíram em fuga apesar de o Talibã ter entrado pacificamente em Cabul, sob amplo apoio popular, e ter avisado que não haveria vingança, como de fato não houve. Acima da vida de seus colaboradores, porém, os norte-americanos priorizaram fazer o resgate de cachorros.
“Vídeos e fotos publicados na segunda-feira — que mostraram cães sendo levados para o aeroporto de Cabul, onde foram evacuados junto com militares dos EUA — irritaram muitos em todo o mundo, que viram a aparente priorização de animais em relação aos humanos como um insulto aos muitos afegãos que tentam fugir do Talibã enquanto os EUA saem do país”, informa o portal Russia Today.
Noutras palavras, o imperialismo criou um alarde sobre o “terror talibã”, causou pânico num setor minoritário da população — visto que a maioria apoiou o Talibã com o intuito de expulsar os EUA — e deixou os afegãos colaboracionistas e amedrontados para trás. A imprensa burguesa, inclusive, divulgou vídeos de pessoas recebendo tiros no aeroporto de Cabul como sendo um dos aspectos da “crise humanitária” causada pelo Talibã, mas, na realidade, foram os próprios norte-americanos que atiraram contra os afegãos desesperados. Esse é o humanitarismo dos EUA.

Por outro lado, o Talibã tomou conta do país quase sem resistência nenhuma. Os recursos dos EUA já não eram suficientes para manter a forte ditadura dentro do país. Grande parte das forças armadas do governo afegão destituído desertou ou entrou para as fileiras do Talibã, que unificou em torno de si várias tribos diferentes do país para expulsar os norte-americanos.
Ao cercar Cabul, antes de entrar na cidade, o grupo guerrilheiro esperou o governo, isolado, aceitar um acordo para sair pacificamente e informou que não haveria retaliações contra embaixadas e afegãos colaboracionistas (estes que foram deixados para trás pelo imperialismo). Com a fuga do presidente Ashraf Ghani e a negociação com o então ministro do Interior, Abdul Sattar Mirzakwal, o governo provisório do Talibã foi formado e os guerrilheiros entraram na cidade pacificamente, acolhidos pelo povo.
Apenas alguns tiros foram ouvidos, no subúrbio. Segundo o jornal francês Le Figaro, foram tiros de aviso, para restabelecer a ordem e impedir que ocorressem saques, como naturalmente ocorreria numa cidade empobrecida pela guerra na falta de um poder central.
Em grande medida, o “terror talibã” não passou de propaganda dos Estados Unidos para iniciar seus ataques contra o novo governo do Afeganistão. A verdadeira crise humanitária, foi promovida pelos norte-americanos durante os 20 anos de guerra.
Mentiras contra o Talibã
Segundo o jornalista Brian Mier, no programa Bom Dia 247 desta sexta-feira, 20, “o mundo está sendo bombardeado com propaganda de guerra de todas as grandes empresas midiáticas” contra o Talibã. Ele destacou a hipocrisia de defender os EUA quando “este ano, apenas, foram 500 crianças mortas pelo bombardeamento no Afeganistão”. As pessoas que estão apoiando a propaganda dos norte-americanos, por exemplo, “nunca falam que é preciso bombardear a Arábia Saudita para ‘salvar as mulheres’”, destacou.
“Independente do que o Talibã vai ser, é importante lembrar que mandar tropas de volta para o Afeganistão vai causar mais sofrimento para as mulheres do Afeganistão do que a situação atual”, afirmou.
Ainda, Mier ressaltou que o “caos” que ocorreu no aeroporto de Cabul e foi amplamente divulgado pela imprensa internacional e brasileira foi “orquestrado” pelos governos imperialistas. Sendo o Afeganistão um país muito pobre e destruído pela guerra, os governos dos EUA, da Inglaterra, do Canadá e de outros países do OTAN aproveitam isso e “espalham boatos que vão dar vistos para ‘x’ números de pessoas que trabalharam na coalizão [governo pró-imperialista]”.
“Imagina pousar um avião de carga gigante dos Estados Unidos em Governador Valadares [interior de Minas Gerais] e espalhar o boato de que 100 pessoas da cidade vão ter ‘green card’ dos Estados Unidos. Vai ter caos lá também”, argumentou.
Por isso, ele destacou que a catástrofe no aeroporto de Cabul, onde os norte-americanos favoreceram cachorros acima de seus capangas e atiraram nos afegãos, pode ter sido "montada para criar um espetáculo midiático para justificar mais uma ocupação militar”. “Eu não confio em nada que estou vendo na mídia hegemônica neste momento”, declarou.
“Essa crise de refugiados também é uma manobra publicitária para justificar mais um bombardeamento do Afeganistão. Antes da retirada das tropas, já haviam mais de 5 milhões de refugiados do Afeganistão”, lembrou.
O moderado Talibã
Até o momento, o que se vê é uma reação muito tranquila do Talibã. Em outras situações de guerra, o tratamento dado aos colaboracionistas e entreguistas foi muito pior. Lembrando que não é qualquer coisa, sem significado. São pessoas que colaboraram com uma invasão estrangeira que causou a morte de quase meio milhão de cidadãos, estupros e agressões generalizadas, chacinas em festas de casamento e de crianças, bombardeamentos etc.
O Talibã, no entanto, com suas limitações enquanto um movimento nacionalista e não proletário, tem mostrado que quer fazer um acordo com a burguesia local, que entregou o país para os EUA. Eles apontaram integrantes do antigo governo entreguista e pró-imperialista para cargos importantes, como o departamento de polícia de Cabul, e estão se reunindo com Rússia e China para formar um acordo com os colaboracionistas.
Casos de agressões e execuções foram registrados, o que é extremamente natural após uma guerra sangrenta. De qualquer forma, isso é muito pouco em relação ao que se passou no final de outras guerras pelo mundo — como na Revolução Cubana, na Revolução Vietnamita, na Revolução Russa, na derrota da ocupação nazista na França etc. No próprio Afeganistão, no século XIX, num processo revolucionário, o povo expulsou os ingleses e promoveu um banho de sangue gigantesco contra os responsáveis pela espoliação do país. Nada disso aconteceu com a ascensão talibã.
Na verdade, não há nenhum “terror talibã” além do mínimo que haveria normalmente numa guerra. Pelo contrário, a moderação do nacionalismo burguês afegão pode levar, no futuro, à derrota do movimento revolucionário que colocou para fora as forças estrangeiras, na medida em que vários políticos que abriram as pernas para o imperialismo continuarão atuando no país.
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Diretora de circuito belga da F-1 morta com a namorada já estava separada do assassino

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A diretora do autódromo belga Spa-Francorchamps, Nathalie Maillet, de 51 anos, foi assassinada no último domingo pelo próprio marido, o ex-piloto Franz Dubois. Desdobramentos do caso apontam que o crime não ocorreu apenas porque o homem encontrou e esposa com outra. Uma amiga da vítima afirma que o casal já estava em processo de divórcio, e o novo affair de Nathalie não era mantido em segredo.
Em entrevista à emissora belga "RTBF", Sandrine Detandt, se mostrou incomodada com o contexto dado à notícia. Para ela, a história não é sobre um marido traído por sua esposa que acabou matando ela e sua amante:
— Para mim, é importante esclarecer as coisas. Eles estavam separados, Nathalie Maillet havia contado a ele havia se apaixonado por Ann Lawrence. Eles estavam em processo de divórcio. Ele fingiu que isso não o incomodava, ele até conheceu Ann Lawrence ... Estamos muito longe do homem traído que chega em casa inesperadamente para encontrar sua esposa nos braços de outra pessoa! É uma forma de romantizar o caso. Estamos diante de um homem que matou duas mulheres porque se queriam — disse ela.
Professora de psicologia e sexualidades na Université Libre de Bruxelles, Detandt era amiga de Ann-Lauwrence Durviaux, também assassinada pelo ex-piloto.
— Como este homem se torna o herói traído que precisa limpar sua honra? Isso nos traz de volta aos séculos anteriores, quando era considerado normal para um homem possuir sua esposa — conclui.
Outras fontes confirmam que a atração de Nathalie Maillet por mulheres não era segredo, e que o marido não foi pego de surpresa pela revelação.
— A bissexualidade dela não era recente. Mesmo depois de seu casamento com Franz, Nathalie continuou a ver mulheres. Franz sabia — disse uma testemunha parente da vítima ao jornal "Het Laaste Nieuws".
Duplo feminicídio
Nathalie Maillet, diretora-gerente do circuito utilizado pela Fórmila 1, e Ann Lawrence Durviaux, advogada e professora da Universidade de Liège, foram encontrados mortas na madrugada de sábado para domingo. O caso é apontado como duplo feminicídio, e o marido Franz Dubois cometeu suicídio após atirar nas duas mulheres.
Antes de se matar, o homem ligou para a polícia para comunicar o crime:
— O senhor ligou para a polícia pouco antes da meia-noite. Ele ligou para relatar que acabara de matar as duas mulheres e que ia acabar com sua vida. Quando a polícia chegou ao local, três corpos sem vida foram encontrados — afirma Sarah Pollet, porta-voz do Ministério Público de Luxemburgo.
Ela explica que não haverá julgamento porque o autor se matou, mas a investigação busca levar a verdade às famílias das vítimas.
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Do favelês ao inglês | Opinião - O Globo
Há um mês, eu estava morando temporariamente num motorhome na favela Marte, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Agora estou num flat em Nova York, centro financeiro dos Estados Unidos. A rua de terra batida deu lugar à grama verde do Central Park, onde escrevo estas linhas.
Reviravoltas assim podem confundir a mente. Quando estamos no chão, a sociedade vaia. Quando ascendemos, aplaude. As duas reações embutem riscos: sensação de impotência, no primeiro caso; armadilha do deslumbramento, no segundo. A serenidade é fundamental para combatê-las e continuar seguindo em frente, não importa se beijando a lona ou subindo ao pódio.
Minha essência é servir aos brasileiros mais pobres da melhor maneira que posso. Foi isso que me trouxe a Nova York. Estou aqui como estudante, descobrindo experimentos sociais bem-sucedidos, absorvendo conhecimento de ponta para levar de volta à favela. Agradeço à ajuda do amigo Carlos Brito, ex-CEO da AB Inbev, que bancou minha estada, e à Kaplan e ao STB Brasil, que investiram numa bolsa de estudos.
Já me perguntaram se sofro com o inglês. “Yes, I do.” Certa vez, com a intenção de sugerir uma foto ao lado do megainvestidor Warren Buffett, a quem acabara de ser apresentado, convidei-o para tomar banho.
Mas isso vai mudar. Sempre gostei de correr atrás de metas, e dominar o inglês é uma delas. Todo idioma é uma ferramenta de transformação social. Quero usá-la para mobilizar parcerias no mundo desenvolvido, trazendo essa força para as periferias brasileiras.
Tenho em quem me inspirar. Anitta é um exemplo. Fala com desenvoltura inglês, espanhol, francês. Sua carreira aponta para o futuro, para o que podemos ser. Trata-se de um produto da favela de sucesso mundial.
Não saio do zero. Já domino dois idiomas: o português e o favelês. Todos os dias faço tradução simultânea entre a língua que se fala na Faria Lima, nas universidades, nas empresas, na política, e a língua que usamos na Gerando Falcões, o idioma que a periferia entende e de que se orgulha. É assim que trocamos conhecimentos.
Brinco que, da próxima vez em que encontrar Warren Buffett — provavelmente junto a meu amigo e parceiro Jorge Paulo Lemann, que é seu sócio —, vou usar meu inglês afiado para pedir a senha de sua conta bancária e resolver o problema da miséria no Brasil.
Caso a abordagem hipotética não funcione, já tenho uma alternativa. Criei uma unidade de mobilização de recursos nos EUA, liderada pelo parceiro Maurício Morato, da Gerando Falcões, um apaixonado pelo potencial da favela.
O pouco tempo que passei nos EUA serviu para confirmar que a pobreza é sempre uma ameaça à estabilidade global. Não importa o país ou a região. Enquanto houver miséria, a humanidade toda corre perigo.
É preciso, pois, construir pontes. Daí a importância de dominar aquela que, na prática, é a língua do mundo. Se juntarmos inglês, português e favelês, talvez possamos ajudar o planeta a falar um esperanto social — o transformês.

Por Edu Lyra
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Portugal: veja cinco formas de aproveitar as praias do Algarve, no Sul do país

RIO - Brasileiros, em geral, não pensam em praias quando programam uma viagem a Portugal. Mas deveriam, sobretudo no Algarve, considerado o melhor destino litorâneo da Europa. De cidades maiores a ilhas, de praias adaptadas a pessoas com dificuldade de locomoção às que permitem a prática do naturismo, há um lugar ao sol para todo tipo de viajante.
São nada menos do que 200 quilômetros de faixa litorânea, entre Odeceixe e Vila Real de Santo António, que vão da esquina com o Oceano Atlântico e a fronteira com a Espanha. Muitas das praias, 87, são certificadas com a Bandeira Azul, um selo que atesta a qualidade da água e a preservação ambiental do destino. Vale a pena se basear em cidades maiores, e mais estruturadas, como Faro e Lagos, mas não deixe de explorar pequenos vilarejos e ilhas em busca de praias desertas.
Praias rochosas

A paisagem mais marcante do Algarve é a de um penhasco rochoso quase tocando o mar azul profundo. Esse desenho dramático é comum no litoral dessa região, e falésias e grutas compõem o cenário de diversas praias, onde existem também os algares, abismos naturais formados pela ação das águas, sob os quais existem complexas redes de galerias subterrâneas.
Um dos mais famosos é o algar de Benagil, em Lagoa, chamado também de “O Templo”. A pequena abertura no seu topo deixa entrar os raios de sol que iluminam o interior. Vale visitar também o algar do Padre Vicente, perto de Carvoeiro, uma enorme cavidade que comunica com o mar, formando uma formidável caixa de ressonância que amplifica o som das ondas.
Se a ideia é explorar os túneis nos rochedos que conectam as faixas de areia, visite as praias da Solaria, da Batata, dos Estudantes, dos Três Irmãos e de Alvor. A paisagem da região é marcada também pelos leixões, formações rochosas que se erguem de dentro do mar, endereço certo de gaivotas e outras aves marinhas. Na Praia Morena, em Lagoa, há um leixão em forma de submarino.
Praias acessíveis

Há 46 pontos do litoral do Algarve com o programa "Praia Acessível", que conta com equipamentos para ajudar a pessoas com problemas de mobilidade, como rampas de acesso, passadeiras, corrimãos, instalações sanitárias adaptadas, lugares de estacionamento reservado e mesas de restaurante de tamanho específico e sem obstáculos, e cadeiras de rodas anfíbias, que podem entrar na água do mar.
A bandeira que sinaliza essas facilidades tremula em praias de cidades como Aljezur, Vila do Bispo, Lagos, Portimão, Três Irmãos, Lagoa, Silves, Albufeira, Loulé, Faro, Olhão, Tavira, Castro Marim, Vila Real Santo António e Alcoutim (nesta, numa praia fluvial).
Praias para naturistas

Viajantes naturistas também encontram no litoral do sul de Portugal locais reservados para esse estilo de vida, mais popular na Europa do que em qualquer outro lugar do mundo. São três praias onde o nudismo é totalmente liberado, todas selvagens. Uma delas é a das Adegas, em Aljezur, situada a sul da praia de Odeceixe.
A outra é conhecida pelo nome autoexplicativo de Homem Nu, em Tavira, a cerca de um quilômetro da última concessão de toldos da praia do Barril, para o oeste. A terceira fica na ilha da Barreta (ou Deserta), na cidade de Faro. É uma praia escondida e desabitada em Ria Formosa, com dez quilômetros de exclusividade para quem quer contato direto com a natureza.
Praias nas ilhas

Vale a pena explorar também as ilhas que se formam bem em frente às belas praias do sul português. Em especial as do Parque Natural da Ria Formosa, entre as cidades de Faro e Tavira. São cinco ilhas que servem de barreira entre o mar e a Ria Formosa, com um ecossistema próprio.
Na Ilha da Barreta, o visitante encontra praias de águas quentes e cristalinas, e muito pouco frequentadas. Assim como a Ilha de Cabanas, quase deserta. Na Ilha da Culatra, praias como a do Farol, da Culatra e a dos Hangares guardam a tradição das vilas de pescadores muito antigas.
Já a Ilha da Armona, próxima a Olhão, é muito procurada para a prática de desportos náuticos. Para acampar, uma dica é o camping na Ilha de Tavira, cuja praia extensa e as águas tranquilas oferecem um repouso para toda a família.
Praia de rio

Nem só de mar vive o Algarve. A Vila de Alcoutim é o destino ideal para quem quer se refrescar de uma forma, digamos, menos salgada. Ali, o Rio Guadiana não serve apenas como fronteira natural com a Espanha, serve também como um belo balneário fluvial.
O melhor ponto de banho é a Praia do Pego Fundo, uma pequena represa, construída num braço da Ribeira de Cadavais, com águas tranquilas e de temperatura amena. Os banhistas podem se proteger do sol na sombra das árvores do jardim, e aproveitar a estrutura de lazer local, que conta com quadra de vôlei, equipamentos para ginástica, estacionamento, bar e banheiros.
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Aeroporto de Cabul volta a funcionar para estrangeiros, mas afegãos aliados ficam para trás

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CABUL — Após o tumulto que deixou sete afegãos mortos, segundo números atualizados, o aeroporto de Cabul voltou a operar nesta terça, sob comando dos Estados Unidos. Americanos e cidadãos de outros países aliados são removidos por aviões militares, enquanto colaboradores afegãos, como tradutores e prestadores de serviços essenciais, vêm ficando para trás.
A retomada das atividades no Aeroporto Internacional Hamid Karzai ocorreu após soldados americanos e de nações aliadas retirarem das pistas centenas de afegãos que, desesperados, foram para o local em busca de voos de fuga, se agarrando a aviões militares que taxiavam na pista. Além dos voos militares, disse o general William Taylor, do Pentágono, alguns aviões civis também estão decolando.

Apesar do dia 31 de agosto ser a data derradeira para que seus combatentes deixem o Afeganistão, os americanos mantiveram o controle do aeroporto e do espaço aéreo de Cabul após o Talibã retomar o poder. Impulsionado por uma ofensiva relâmpago, o grupo voltou ao palácio presidencial no domingo, horas após o presidente pró-Ocidente Ashraf Ghani fugir do país, quase 20 anos após o início da invasão americana, em outubro de 2001.
Nas últimas 24 horas, disse o porta-voz da Secretaria de Defesa, John Kirby, os EUA retiraram de Cabul entre 700 e 800 pessoas, incluindo cerca de 150 americanos, além de outros estrangeiros e alguns afegãos qualificados para receberem vistos especiais. Segundo o conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, as remoções podem continuar até o fim deste mês, e Washington conversa com o Talibã para acertar os detalhes e o cronograma.
A prioridade de remoção é para americanos e outros cidadãos estrangeiros, já que na segunda os afegãos foram impedidos de entrar nos voos dos EUA. As 640 pessoas levadas ao Qatar no cargueiro C-17 no domingo foram uma exceção, após invadirem a aeronave e a tripulação decidir seguir viagem.
Apesar da corrida ocidental para retirar seus cidadãos, contudo, o Talibã não fez qualquer ameaça concreta. Em busca de reconhecimento internacional, sua retórica é de que não atacará afegãos ou cidadãos estrangeiros e respeitará os direitos das meninas, mulheres e minorias, algo questionado por ativistas.
12 voos militares
Segundo um diplomata no aeroporto, ao menos 12 voos militares decolaram desde a noite de segunda. A desorganização nas primeiras horas, contudo, parecia ser grande: o primeiro avião enviado pela Alemanha, país com a segunda maior presença militar no Afeganistão, retornou para a Europa com apenas sete pessoas a bordo porque havia "muito pouco tempo" para que permanecesse em solo.
Um avião da Força Aérea Indiana, por sua vez, retornou a Nova Délhi com 45 pessoas a bordo. Países como a Austrália e a Polônia também estão enviando aeronaves. Aviões franceses e britânicos também fazem viagens.
Há agora cerca de 3.500 soldados americanos no aeroporto, número que deve aumentar para 4 mil ainda nesta terça — outros 2 mil deverão chegar nos próximos dias. O objetivo é que um voo decole de Cabul por hora, afirmou Kirby, e que entre 5 mil e 9 mil pessoas sejam removidas em aeronaves militares por dia.
— Isso só pelo lado militar. Queremos também que a parte civil do aeroporto continue aberta, para que voos comerciais possam ir e vir — disse ele, avisando que agora os cidadãos americanos no Afeganistão já podem se encaminhar para o aeroporto para embarcar em voos de fuga.
Segundo Jake Sullivan, o conselheiro de Segurança Nacional americano, o Talibã disse que garantirá que os civis consigam chegar ao aeroporto com segurança. Horas antes, contudo, o chanceler alemão, Heiko Maas, disse que o grupo vem impedindo a saída de afegãos que trabalharam com as forças ocidentais.
A retirada dessas pessoas é um problema para todos os países da Otan que participavam da invasão, mas principalmente para os americanos. Segundo o Comitê Internacional de Resgate, uma organização humanitária, mais de 300 mil civis afegãos tiveram algum tipo de filiação com a missão dos EUA nas últimas duas décadas. Apenas uma parcela não especificada deles se qualificaria para vistos especiais de imigração, contudo, diante da imensa burocracia.
Longa burocracia
Para serem englobados pelo programa, os afegãos precisam comprovar que foram empregados por ao menos dois anos pelo governo americano ou entidades associadas. Outras das 14 etapas incluem comprovar que estão em risco, que prestaram serviços essenciais, e apresentar uma carta de recomendação de um supervisor americano.
O tempo de processamento é em média de três anos, apesar de Congresso americano ter estipulado que deveria ser de apenas nove meses. Alguns esperam ainda mais:
— Nós temos clientes que se candidataram há 10 anos — disse Betsy Disher, diretora de estratégia do Projeto de Assistência para Refugiados Internacionais. — Alguns se candidataram nas últimas semanas por preocupações com suas próprias vidas.
Desde 2014, mais de 15 mil cidadãos afegãos e suas famílias foram levados para os Estados Unidos, de um total de 34,5 mil vistos autorizados. Há cerca de 18 mil pessoas com pedidos pendentes, número que deve aumentar nas próximas semanas.
Desde julho, a Casa Branca retirou apenas 2 mil tradutores e suas famílias, cujos pedidos já haviam sido aprovados. O último voo com afegãos decolou no domingo e, desde então, as viagens foram suspensas.
Em seu pronunciamento na segunda, Biden disse ter planos de retirar mais aliados afegãos “nos próximos dias”, mas os detalhes não estão claros. Está previsto, segundo o jornal El País, que cerca de 750 intérpretes sejam removidos nesta semana e levados para o estado americano da Virgínia.
Na semana passada, a Casa Branca anunciou ainda que enviaria cerca de mil funcionários para o Qatar, para onde muitas pessoas que fogem do Afeganistão estão indo, buscando acelerar a expedição de vistos.
Washington também negocia com vários países do Oriente Médio, da Ásia Central e da África para acolhê-los temporariamente. Uganda, por exemplo, anunciou nesta terça que receberá temporariamente 2 mil refugiados afegãos. Albânia e Kosovo já havia feito anúncios similares.
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'A vacinação em si não conseguirá conter a Delta', afirma epidemiologista britânico

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SÃO PAULO — Uma espécie de cortina de ferro está prestes a ser erguida no mundo, e a responsável por essa segregação é a variante Delta do coronavírus. Para o matemático e epidemiologista britânico Adam Kucharski, que se tornou uma referência nas análises sobre os rumos da pandemia, o planeta viverá a partir de agora uma divisão entre os países. De um lado, os que quiserem retomar uma vida mais normal e, como efeito colateral, conviver com surtos de Covid. Do outro, aqueles que, diante dos riscos da nova cepa, deixarão as medidas de restrição em vigor por mais tempo, por anos até.
— A vacinação por si só provavelmente não consegue parar a Delta. E isso leva os países a uma grande escolha: se decidem suspender as medidas de restrição e assumem que vai haver alguma transmissão ou se simplesmente vão manter as medidas em vigor — resume o professor da London School of Hygiene & Tropical Medicine e autor do best-seller “As regras do contágio: Por que as coisas se disseminam — e por que param de se propagar”.
Segundo Kucharski, a distribuição desigual de doses entre as nações pode nos levar a registrar “mais mortes depois de a vacina ser inventada do que antes”. Ele foi palestrante convidado do 33º Colóquio Brasileiro de Matemática, realizado on-line pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Após sua participação, na última quinta-feira, o britânico conversou com O GLOBO, com exclusividade.
O que os modelos matemáticos conseguem prever para os próximos tempos? Por um lado, temos as vacinas, mas, por outro, existe a variante Delta.
Acho que os modelos estavam bastante otimistas há alguns meses, porque as vacinas pareciam estar indo muito bem e conseguiram reduzir a transmissão o bastante antes de a Delta chegar. Mas a Delta elevou os padrões do que os países precisam fazer. Estamos em uma situação em que a vacinação por si só provavelmente não conseguirá parar a Delta, mesmo que você vacine em níveis muito elevados. E isso leva os países a uma grande escolha agora: se decidem que as medidas de restrição são insustentáveis, que querem suspendê-las e que vai haver alguma transmissão, porque as vacinas não conseguem deter isso, ou se simplesmente vão manter as medidas em vigor. Especialmente alguns países que não tiveram muitas infecções até agora, e que não desenvolveram tanta imunidade (pelo contato com o vírus), podem querer manter em vigor algumas medidas de controle ainda por alguns anos. Poderemos ver uma grande divisão do mundo entre essas duas abordagens diferentes.
Em setembro de 2020, quando o seu livro foi publicado no Brasil, você disse em entrevista ao GLOBO que acreditava que ainda por um ou dois anos teríamos a nossa rotina afetada pela Covid-19. Hoje, como você enxerga essa previsão?
Isso foi antes de as vacinas surgirem. E as vacinas que apareceram são melhores do que a gente podia imaginar, tanto em termos de eficácia quanto no número (de opções). Mas o problema é que as vacinas estão sendo distribuídas de forma desigual. Estamos vendo uma grande disparidade entre os países. E é realmente chocante que possamos acabar tendo mais mortes depois de a vacina ser inventada do que antes. Isso é algo que provavelmente poucas pessoas imaginariam lá atrás se soubessem quão boas essas vacinas seriam.
A distribuição desigual das vacinas pode atrasar significativamente o final da pandemia?
Sim. Estamos em um ponto em que todas as pessoas dos grupos de risco e todos os profissionais de saúde do mundo já poderiam ter sido vacinados. E, por uma série de escolhas dos países, isso não aconteceu ainda. O vírus pode causar surtos devastadores em certas áreas, mas, uma vez que você atinja um nível alto de vacinação, isso não acontece mais. Você ainda convive com a doença, ela ainda causa problemas, mas não é catastrófica. Me preocupa o fato de que temos muitos países no mundo que ainda estão sob a ameaça dessas catástrofes. Isso alonga a epidemia e dá incentivo para o vírus se adaptar e se espalhar, por meio de variantes, inclusive entre as populações vacinadas.
Existe ainda, especialmente nos países ricos, a recusa de parte da população em tomar vacina.
Acho que precisamos separar as pessoas que querem apenas informações sobre saúde e têm perguntas razoáveis. Pessoas que têm problemas de saúde, grávidas, por exemplo, que só querem receber informações, e isso é totalmente compreensível. Mas há também alguns esforços bem organizados para minar as vacinas. E parte das coisas que alguns países disseram também não ajuda... Se isso acontece, a epidemia pode se tornar muito mais longa. Se um determinado país tiver uma cobertura de vacinação muito baixa, uma epidemia devastadora ainda pode acontecer. E isso levará os governos a manter as medidas em vigor. É como ter uma porta pela qual você pode sair da pandemia, mas há pessoas que não querem passar por ela, e, assim, terminamos trancados dentro de um cenário de lockdown.
No Brasil, a variante Gamma ainda domina, mas a Delta está avançando. Na vacinação, estamos evoluindo, mas a porcentagem da população completamente imunizada ainda não é grande. Em meio a esse quadro, São Paulo e Rio de Janeiro planejam reabrir a economia nas próximas semanas. Isso parece recomendável?
Vai ser difícil para muitos países porque eles não podem manter as restrições para sempre. Os países precisam encontrar um caminho de volta à normalidade, porque não dá para passar anos e anos com tudo fechado. Mas, quando a cobertura de vacinação é baixa, você precisa ter flexibilidade na tomada de decisão, porque já vimos que a Delta pode entrar muito rápido mesmo nos países com cobertura bastante alta, como no Reino Unido e nos EUA. Os países precisam ficar de olho na situação e estar preparados para mudar de direção se houver sinais de que é cedo para a reabertura.
As variantes do vírus têm sido cada vez mais difíceis de enfrentar. Há chances reais de, em breve, estarmos sofrendo com uma nova e pior cepa?
Acho que não, com base no que vemos com coronavírus sazonais e outros vírus, como o da gripe. Com o tempo, há um incentivo para o vírus evoluir, mas não necessariamente para ser inerentemente mais transmissível. Se ele consegue escapar das respostas imunológicas, mesmo que seja causando infecções leves, já é uma vantagem para ele. Para mim, a questão é: quando essa evolução vai acontecer? Porque a variante Delta agora é bastante antiga. Beta e Gamma também. Será que o vírus está a um passo de mutar ou a Delta é mesmo o tipo de vírus ideal para o momento? Nós vemos bastante isso na gripe. O vírus experimenta combinações diferentes e, em algumas delas, não faz muito sucesso. Nós precisamos nos planejar para isso, com atualizações nas vacinas e rastreio do vírus.
Na pandemia, a população em geral está vivenciando a ciência de uma maneira sem precedentes. Você já disse, em entrevistas à imprensa britânica, que é engraçado que até os tabloides o procuraram para falar sobre conceitos como “taxa de transmissão”. Ao final da pandemia, você acredita que a população terá mais confiança na ciência?
Espero que sim. (A pandemia) deu às pessoas uma percepção semelhante a estar por dentro das engrenagens (risos). Acho que há muitas partes da ciência que não funcionam muito bem. Existem os egos, existem as ineficiências, as pessoas cometem erros... Acho que algumas pessoas viram pela primeira vez como esse sistema funciona. Nós, os cientistas, precisamos pensar sobre por que alguns desses problemas aconteceram. Há situações ainda em que as pessoas estão expressando opiniões em voz alta sem ter muitas evidências, ou que vão contra as evidências que nós realmente temos. E isso apenas cria confusão na mídia e discussões sobre coisas que nem deveríamos discutir.
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Bolsonaro e as teorias conspitarórias envolvendo Barroso e Mourão | Lauro Jardim - O Globo
Por Lauro Jardim

No mundo fantástico das teorias conspiratórias que rodeiam Jair Bolsonaro, o encontro fora de agenda entre Hamilton Mourão e Luís Roberto Barroso teve um objetivo: o acerto da cassação apenas do presidente e não da chapa (o que inclui o vice) no processo do TSE que apura o uso indevido de meios de comunicação e abuso de poder econômico em razão de disparos de mensagem em massa.
Foi esse o motivo da irritação de sábado de Bolsonaro com Mourão e Barroso.
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Supremo 'forma maioria' em cobranças a Aras por omissão sobre governo Bolsonaro | Malu Gaspar - O Globo

O procurador-geral da República, Augusto Aras, conseguiu uma inusitada maioria no Supremo Tribunal Federal. Com a ordem da ministra Carmem Lúcia para que o procurador se manifeste em 24 horas sobre uma notícia-crime contra Jair Bolsonaro, já são seis os ministros do Supremo que cobraram de Aras providências e manifestações em ações de interesse do governo federal. A corte está com dez integrantes.
Além de Carmem Lúcia, Alexandre de Moraes, Rosa Weber, José Dias Toffoli, Edson Fachin e Luis Roberto Barroso já cobraram Aras formalmente em assuntos que variam de investigações sobre disseminação de fake news a ações coletivas contra a reforma da previdência.
Interlocutores dos ministros na corte avaliam que há uma insatisfação crescente com o comportamento do procurador. Para eles, a omissão de Aras atrasa os processos e dificulta a efetiva atuação do tribunal, que já tem um integrante a menos por causa da aposentadoria de Marco Aurélio Mello. André Mendonça, indicado para substituir Mello, ainda não foi sabatinado pelo Senado.
No caso que levou Carmem Lucia a intimar Aras, nesta segunda-feira, a ministra exigiu que o procurador desse um parecer sobre o pedido de dez parlamentares para a abertura de um inquérito contra o presidente da República, pelo uso da TV Brasil para a transmissão da live em que Bolsonaro fez acusações de fraudes nas urnas eletrônicas sem apresentar provas.
Os crimes apontados são improbidade administrativa, propaganda antecipada e crime eleitoral. A ministra enviou o processo em 3 de agosto para Aras dizer se o inquérito devia ser aberto ou se a notícia-crime deveria ser arquivada, mas até ontem não tinha recebido resposta.
No final da noite, a Procuradoria-Geral da República divulgou uma nota em que Aras afirma ter aberto uma investigação preliminar interna para apurar os fatos, fora do alcance do STF. É um expediente que Aras costuma usar quando não quer se manifestar.
Outra maneira pela qual Aras costuma se omitir é deixar passar os prazos dados pelos ministros sem enviar seu parecer. Aconteceu na semana passada em duas ocasiões. Na mais recente, sexta-feira, o ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão do ex-deputado Roberto Jefferson sete dias depois de ter intimado Aras a se manifestar em 24 horas. Depois que Jefferson já estava preso, Aras disse que a PGR opinara no prazo - e contra a prisão de Jefferson.
Já na quinta-feira (12), foi José Dias Toffoli quem cobrou de Aras que se manifestasse num processo enviado à PGR no dia 27 de julho. Desta vez, era o pedido feito pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) para que Bolsonaro fosse obrigado a apresentar provas das acusações de fraude nas eleições de 2018. Segundo Toffoli escreveu em seu despacho, o pedido foi devolvido em 4 de agosto sem o parecer da PGR. Até agora não se sabe o que Aras pensa a respeito do pedido do senador de Sergipe.
Mas a manifestação mais enfática contra Aras veio da ministra Rosa Weber, depois de receber do procurador-geral mais uma de suas respostas evasivas. Ela havia encaminhado a Aras o pedido dos senadores da CPI da Covid para a abertura de uma investigação específica a respeito das acusações de irregularidades na compra da vacina Covaxin. A resposta assinada pelo vice-procurador geral Humberto Jaques em nome de Aras dizia que seria precoce a manifestação antes do final da CPI e pedia a Rosa Weber permissão para esperar a conclusão.
O pedido irritou a ministra, para quem o PGR estava tentando se "desincumbir de seu papel constitucional" utilizando um "argumento saltitante". Weber disse ainda que não cabe ao ministério Público o papel de "espectador das ações dos Poderes da República” e afirmou que o STF “não admite, como comportamento processual do Ministério Público, quando do exercício do poder investigatório ou acusatório, o arquivamento implícito de investigações".
A todos esses episódios, juntam-se ainda despachos de Edson Fachin mandando Aras se manifestar no caso da chacina da favela do Jacarezinho, em maio, e quanto a inquéritos de réus da Lava Jato, em fevereiro.
Já o ministro Luis Roberto Barroso tenta há quase um ano obter um parecer do Procurador-Geral da República em relação a nove ações contra a reforma da previdência. O procurador também devolveu os processos sem opinar, e Barroso os mandou de volta para Aras.
Mas, apesar de toda essa insatisfação, o STF não pode obrigar Aras a se pronunciar. Por lei, crimes de responsabilidade, como prevaricação ou desvio de finalidade, tem que ser julgados em pedidos de impeachment ou sanção no Senado.
Em julho, os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Fabiano Contarato (Rede-ES) pediram ao Conselho Superior do Ministério Público a abertura de um procedimento administrativo contra Aras.
Queriam que ele fosse punido pela nota pública em que ele afirmou que “o estado de calamidade pública é a antessala do estado de defesa“. O texto referia-se à Covid-19 e os senadores entenderam que ele representava uma autorização implícita para que Bolsonaro adotasse a medida de exceção para lidar com a pandemia. Mas o vice-procurador Jaques, relator do pedido, emitiu um parecer sigiloso e até agora o processo não andou.
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Ataques de Bolsonaro ao STF emperram sabatina de Mendonça no Senado | Bela Megale - O Globo

O senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) não vê clima para pautar a indicação de André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal (STF). Presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa, Alcolumbre quer esperar a relação entre o presidente Bolsonaro e o Judiciário melhorar para submeter o nome de Mendonça à aprovação do colegiado. É só depois desse passo que o indicado do presidente deve passar pela sabatina do plenário.
Alcolumbre tem sido pressionado pelo Palácio do Planalto a pautar a indicação o quanto antes. Até agora, porém, não se comprometeu com a data. A interlocutores, o senador tem afirmado que não levará o nome de Mendonça ao colegiado até setembro. Parte de seus colegas defende que a indicação só seja pautada ano que vem. Por ora, o presidente da CCJ diz que não cogita essa hipótese. Se a tensão entre os poderes se agravar, isso pode mudar.
O caminho de André Mendonça para ocupar a vaga do STF nunca foi fácil no Senado. Durante o recesso, em conversas com parlamentares, o ex-advogado-geral da União conseguiu melhorar sua imagem, mas a escalada de ataques de Bolsonaro ao Judiciário e à democracia, com a defesa do voto impresso, fez com que o aliado voltasse muitas casas para trás. Hoje o presidente Bolsonaro é apontado, tanto no Congresso como no STF, como o “maior entrave” para a aprovação de Mendonça.
O ex-AGU já procurou Alcolumbre várias vezes para uma conversa a sós. O senador sinalizou, por meio de um intermediário, que o encontro deve acontecer em breve.
Alcolumbre também se irritou com a postura de bolsonaristas, como a deputada Bia Kicis (PSL-DF), que afirmaram que estava em suas mãos “salvar” a PEC do voto impresso, ao afirmar que há uma proposta na CCJ do Senado. Alcolumbre viu o ato como uma tentativa de transferir a ele o desgaste sobre o tema.
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Cármen Lúcia critica clima de “xingamentos e afrontas”e diz que as Forças Armadas não são um poder | Míriam Leitão - O Globo

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O imoderado Bolsonaro | Merval Pereira - O Globo
Na sua busca cotidiana do confronto, o presidente Bolsonaro replicou nas suas redes sociais uma convocação para uma “manifestação gigante” no dia 7 de setembro que demonstre que ele tem a força popular para executar “um bastante provável e necessário contragolpe”. O apoio significa uma perigosa validação do governo a uma ilegalidade.
Fazer manifestação para apoiar um movimento que se anuncia como greve política, para paralisar as estradas do país e pedir a substituição dos ministros do Supremo Tribunal Federal não é democrático, é militância radicalizada. Ainda mais que os representantes sindicais dos caminhoneiros já negaram apoio à iniciativa, atribuindo-a a interesses políticos do cantor sertanejo Sérgio Reis e a outros apoiadores bolsonaristas.
Os líderes dizem não haver nenhuma pauta específica para eles nessa manifestação. É mais uma escalada de Bolsonaro para esticar a corda, confrontar os Poderes e avançar sobre as limitações naturais de um Executivo que depende dos demais Poderes para atuar corretamente dentro da Constituição.
Acredito que, sem o apoio dos verdadeiros líderes caminhoneiros, a tendência seja virar um movimento reduzido a militantes políticos radicais de apoio a Bolsonaro, que se aproveitam dessa categoria importante na economia brasileira para criar um clima de tensão. Uma a esta altura improvável paralisação prejudicaria o abastecimento dos supermercados e levaria pânico à população.
Provavelmente é o que querem, com a antecipação da divulgação nas redes sociais. É um trabalho político que estão fazendo, incentivados pelo presidente da República, o que é inaceitável. O presidente Bolsonaro vale-se de um pretenso apoio das Forças Armadas para avançar sobre a democracia brasileira, insistindo numa leitura arrevesada da Constituição para definir o papel das Forças Armadas.
Na semana passada, em cerimônia de cumprimentos aos oficiais-generais promovidos, no Palácio do Planalto, afirmou: “Nas mãos das Forças Armadas, o poder moderador; nas mãos das Forças Armadas, a certeza de garantia de nossa liberdade, da nossa democracia e o apoio total às decisões do presidente para o bem da sua nação”. Esse papel de “poder moderador” não existe, embora a redação do artigo 142 da Constituição possa dar margem a mal-entendidos quando diz quais são as funções das Forças Armadas: “destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos Poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux, já havia decidido, numa ação impetrada pelo PDT em junho do ano passado, que “a missão institucional das Forças Armadas (...) não acomoda o exercício do poder moderador entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário”.
Nessa mesma decisão, Fux diz que o poder das Forças Armadas é “limitado”, excluindo “qualquer interpretação que permita sua utilização para indevidas intromissões no independente funcionamento dos outros Poderes”.
O ministro aposentado do STF Ayres Britto incomodou-se com esse discurso recente de Bolsonaro, não apenas com ele ter se intitulado “chefe da Nação”, cargo que não existe constitucionalmente. A questão do “poder moderador” deve ser debatida, pois, segundo Ayres Britto, “se não houver essa discussão, as próprias Forças Armadas vão pensar que estão autorizadas a fazer o que Bolsonaro tem dito”.
Ele esclarece que “basta ser uma força armada para não ter direito de falar por último. O Judiciário fala por último por seu poder ser proveniente da fundamentação técnica de suas decisões, da sua imparcialidade”. Ayres Britto explica que “não existe, numa República presidencialista, poder moderador, só numa República parlamentarista. O chefe de Estado é moderador, e o primeiro-ministro governa. Num presidencialismo como o nosso, em que chefe de Estado e chefe de Governo coincidem, não existe poder moderador. Não está na Constituição”.
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Meirelles diz que a ameaça de golpe bolsonarista não pode ser descartada

247 – O ex-ministro da Fazenda, ex-presidente do Banco Central e atual secretário de Fazenda de São Paulo, Henrique Meirelles, diz que as ameaças golpistas de Jair Bolsonaro não podem ser subestimadas. “Vamos definir até que ponto ele (Bolsonaro) está falando sério, que vai tentar um golpe, ou se está mobilizando a sua base radical. Mas se ele está falando, não se pode simplesmente descartar”, afirmou, em entrevista à jornalista Miriam Leitão.
"Outro risco que retorna é o da inflação. Como outros economistas, acha que o Banco Central ficou atrasado no combate aos efeitos da elevação dos preços. O resultado será o Brasil terminar o ano com estouro da meta. Diz que, como ex-presidente do BC, não gosta de fazer previsões sobre a Selic, mas não tem dúvida de que o Copom terá que continuar elevando os juros", aponta a colunista.
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Microsoft Flight Simulator: escapismo e o simulacro - Bitniks
Como Flight Simulator proporciona uma imersão que nem mesmo a realidade virtual consegue alcançar.
A primeira e única vez que estive a bordo de um avião foi por conta de um evento promocional, em 2017. O voo foi de São Paulo ao Rio de Janeiro, deu voltas pelo Cristo Redentor e retornou à capital paulista. A viagem “bate e volta” do aeroporto de Congonhas durou pouco mais de uma hora, mas o tempo foi mais que o suficiente para me deixar fascinado com a noção de estar sobre as nuvens.
Quase exatos quatro anos depois, pude repetir esta jornada (e também o que senti naquele momento) ao jogar Microsoft Flight Simulator, um dos lançamentos para Xbox Series X/S que mais aguardei neste ano. Como o nome dá a entender, o game faz parte de uma série de simuladores de voo, mas sua escala e nível de fidelidade é sem precedentes, capaz de conquistar quem não joga videogame e, principalmente, quem nunca pilotou um avião.
Réplica fiel em Microsoft Flight Simulator

À primeira vista, o jogo parece ser composto somente por uma aeronave sobrevoando o planeta virtual do Google Earth, mas basta chegar perto do solo e você nota a fidelidade de detalhes – e vê que é mais complexo do que parece. De fato, os desenvolvedores ‘mapearam’ o planeta Terra inteiro por meio da fotogrametria, só que isso foi somado a mapas de altura e imagens de satélite, resultando na construção de boa parte do mapa. Inteligência artificial toma conta de tratar essas imagens, remover sombras e nuvens, fazer correção de cores e detectar tipos diferentes de árvores, gerando modelos tridimensionais. O resultado é que você consegue voar por qualquer canto do planeta em uma escala 1:1.
Os desenvolvedores do Asobo Studio, o mesmo de A Plague Tale e alguns games da Disney/Pixar, porém, logo notaram que o maior obstáculo seria o peso dos arquivos. Na nova geração de consoles, 4K/HDR e texturas realistas de 510 milhões de quilômetros quadrados pesariam algo absurdo: 2,5 petabytes de dados, coisa que somente 10 mil computadores conseguem processar. A solução? Fazer streaming dos arquivos de forma imperceptível ao usuário.
Infelizmente esta função é necessária, caso contrário as árvores ficam chapadas e o jogo não funciona propriamente. Uma camada extra de realismo se dá quando você descobre que pode ativar condições climáticas, tráfego aéreo e fusos-horários respectivos em sincronia com a realidade.
Entendendo toda a tecnologia por trás do game, fica mais fácil explicar a dimensão de Flight Simulator e como ele se destaca de outros simuladores mais “limitados” à venda hoje.
Vivemos numa simulação

Flight Simulator teve seu lançamento há menos de um ano para PC, plataforma prioritária para quem quer adquirir joysticks e outros apetrechos que melhoram a experiência do jogador imerso dentro da cabine virtual. Admito que precisei me acostumar com combinações inusitadas de botões do Xbox. Sorte que, assim como as “aulas de voo” disponíveis no game, é só questão de se habituar aos controles.
O seu interesse dita sua profundidade: quem quer aprender cada comando específico pode se tornar expert em poucas horas; quem só quiser passar por cima da própria casa pode traçar uma rota e deixar a nave no piloto automático.
Assim como a versão de PC, no videogame da Microsoft você pode adquirir expansões (algumas gratuitas) para gradualmente construir seu “mundo” mais fiel, o que vem carregado de uma enorme quantidade de gigabytes para seu console.
Por padrão, o jogo vem com meia dúzia de locais modelados com alta fidelidade: Nápoles (Itália), Gizé (Egito), Bora Bora (Polinésia), Monte Evereste (Nepal), Nova York (EUA) e Rio de Janeiro. Recomendo os pacotes gratuitos de Tóquio, Reino Unido e a atualização que combina França, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Quem viu as 7 maravilhas do mundo no Google Earth/Street View não sabe o que é sobrevoar arquipélagos e belezas naturais a bordo de um avião virtual. O bom é o game indicar os potenciais pontos de interesse, caso você ative essa função, para poder direcionar seu passeio evitando se guiar pelo mapa.

Ao passear por São Paulo, senti falta de pontos turísticos como o Obelisco do Ibirapuera. Pelo menos a Avenida Paulista está lá, com os mesmos problemas que a Times Square nova-yorkina: ruas acidentadas, carros pixelizados que vão de um lado a outro e texturas preenchidas pela I.A. do sistema. Lá de cima isso não faz diferença.
Claramente não demorei a “refazer” meu trajeto de Congonhas até o Cristo Redentor e foi justo aí que senti o potencial escapista de Flight Simulator. Tentar encontrar sua casa pode ser divertido, mas passear o mundo e saber que você levaria aquele tempo exato para fazer o trajeto na vida real é algo sem precedentes.
No passado, tive algumas oportunidades de testar games em realidade virtual, porém, nunca tive a sensação de estar completamente imerso no universo ali criado, seja Resident Evil VII ou um game de Star Wars. Um nivel de ceticismo instintivo pesa bastante para evitar me conectar ao jogo. Pela primeira vez, à frente de uma televisão (display menos “limitador” que óculos VR), senti no Flight Simulator essa dimensão extra.
Por incrível que pareça, estar no controle de um avião e poder ir de um aeroporto de Tóquio até o Monte Fuji torna-se uma experiência palpável. É o tempo real. Com isso, suas capacidades de multitask enquanto piloto são colocadas à prova, ainda que o jogo não tenha objetivos concretos como outros simuladores. No máximo você tem as provas de aviação no modo de tutorial, mas no “mundo aberto” é você que guia seu destino – literalmente, você pode pousar em qualquer pista improvisada. Afinal, são mais de 37 mil aeroportos para decolar/pousar.
Microsoft Flight Simulator é jogo ou não?

Se você estava no lado “gamer” do YouTube na última década, com certeza esbarrou com vídeos de simulators mais engraçados que te colocam em profissões pouco comuns, como My Summer Car (mecânico de carros finlandeses), Surgeon Simulator (cirurgião) e House Flipper (pedreiro/designer de interiores).
Digitalmente influenciado, cerca de cinco anos atrás comecei a dar uma chance aos simuladores mais “sérios”, como Bus Simulator e Farming Simulator para PC e consoles. A depender da edição (e ano de lançamento), em ambos você pode customizar sua experiência para que consiga equilibrar diversão e imersão. Na época, voltar de ônibus para casa foi quase esquisito – e imagino que o mesmo aconteceria caso eu viajasse hoje de avião, depois de Flight Simulator.
Entre vídeos aleatórios do YouTube, encontrei um piloto reagindo ao quão fiel o Flight Simulator atual representa uma aeronave A320. Com a maestria do piloto, girando a câmera e selecionando botões específicos no cockpit, comecei a me questionar se, com tamanha dedicação e lendo os manuais certos, o quanto eu poderia aprender sobre controles reais de voo com este simulador.
Os jogos mais bizarros não deixam dúvida. Eles possuem missões, níveis e pontuações de diversos tipos. Agora, por mais que seja uma réplica do mundo real, Flight Simulator deveria ser considerado um “jogo”? Ele seria o resultado da gamificação de simuladores reais?
Independente de como você considerá-lo enquanto desfruta ou joga, Flight Simulator não é perfeito. Por este e outros motivos, ele é uma cópia do nosso mundo – uma fotografia, um instante, um simulacro. Casas são construídas e demolidas todos os dias; desastres naturais resultam em acidentes geográficos. Atualizações no game podem acontecer com certa frequência, mas sabemos que a Microsoft provavelmente deve demorar um longo tempo para lançar mais um título da série com tamanha fidelidade e dedicação.
Parcialmente por desinteresse (e por outras prioridades financeiras), nunca mais viajei. Agora, tenho mais vontade que nunca.
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Novo surto de covid da China atinge setores de serviço, viagem e hospedagem

Roxanne Liu e Ryan Woo
da Reuters, em Pequim
16/08/2021 14h04
As restrições sociais mais rígidas adotadas pela China para enfrentar seu surto de covid-19 mais recente, agora em sua quarta semana e envolvendo mais de uma dúzia de cidades, está atingindo o setor de serviços, especialmente viagem e hospedagem, da segunda maior economia do mundo.
A China evita lockdowns totais em grandes cidades, como os vistos durante os primeiros dias do surto de covid-19 na província de Hubei, para evitar paralisar completamente a economia.
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"A onda atual leva à reimposição de medidas de distanciamento social muito mais duras, o que atingiria consideravelmente o transporte, o turismo e outros setores de serviço", escreveram analistas do Citi em uma nota nesta quarta-feira.
"Agora acreditamos que uma recuperação plena do setor de serviços será adiada para o quarto trimestre."
Ding, que opera uma pousada de 15 quartos nas terras altas da província de Sichuan, no oeste chinês, disse que esperava uma taxa de ocupação de ao menos 80% nos finais de semana entre o final de julho e o começo de agosto.
Devido às oito infecções locais detectadas em Sichuan, a taxa de ocupação é de 20% a 30%, disse ela à Reuters.
A China relatou 83 casos novos transmitidos localmente até 10 de agosto, informou a autoridade de saúde nesta quarta-feira, o que eleva a 583 o número cumulativo de infecções novas da última semana.
Trata-se de um aumento de 85,1% no número total de casos locais em relação à semana anterior. A taxa quase não mudou em relação à disparada de 87,5% vista na semana anterior, que autoridades dizem se dever principalmente à variante Delta altamente transmissível.
A variante Delta já foi detectada em mais de uma dúzia de cidades desde que os primeiros casos foram encontrados em Nanjing no final de julho, incitando as autoridades a orientarem os governos locais a superarem uma "frouxidão mental" em suas medidas de contenção e a acabar com as brechas em seus esforços de combate ao vírus.
Voos domésticos ainda têm permissão de partir de cidades que relatam casos, exceto para aqueles saindo de Nanjing, Yangzhou e Zhangjiajie, mas aviões e trens que chegam a Pequim vindos de áreas onde casos foram relatados foram interrompidos.
A China relatou um total de 94.080 infecções desde que o novo coronavírus surgiu na cidade central de Wuhan no final de 2019.
(Reportagem adicional da redação de Pequim, Muyu Xu, Gabriel Crossley e Jamie Freed em Sydney)
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Monica Iozzi: 'É leviano não se posicionar diante do genocídio que vivemos'
Laís Rissato
Colaboração para Universa
16/08/2021 04h00
Falar de política é assunto corriqueiro na vida de Monica Iozzi desde a infância. Em 1989, aos 8 anos, ela era uma ferrenha defensora do então candidato à presidência Fernando Collor de Mello, que disputava os votos com Luís Inácio Lula da Silva. "Discutia com uma amiga com quem estudei até a oitava série, e me lembro muito bem porque ela era a favor do Lula e me arrasava, acabava comigo", diz, entre risos, a atriz e apresentadora de 39 anos.
Em outubro, Monica deve estrear o programa "Fale Mais Sobre Isso", no Canal Brasil, que tem, claro, a política como tema central. Em setembro começa a filmar, a comédia "Novela", da Amazon Prime Video. Ela será a protagonista, Isabel, uma roteirista de que sonha em escrever para o horário nobre da TV, mas é traída por seu chefe.
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Monica ficou conhecida do grande público quando foi integrante do programa CQC - Custe o que Custar, da Band, entre 2009 e 2014, e viveu o dia a dia da política brasileira de forma intensa pelos corredores do Congresso Nacional, em Brasília. De lá, trouxe à tona uma figura que, até então, ainda não era totalmente conhecida pelos brasileiros: o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). "No início, Bolsonaro começou a entrar mais no nosso radar não pelo discurso de ódio, mas pelo total despreparo.", explica ela, que já lamentou ter dado mais espaço a ele do que gostaria durante sua passagem pelo programa.
Feminista e questionadora, Monica não deixa de dizer o que pensa em suas redes sociais, mesmo depois de ter sido processada pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, em 2014, quando fez um post em que criticava o habeas corpus concedido por ele ao médico Roger Abdelmassih, condenado a mais de 173 anos de reclusão por estupro de pacientes. "Não tenho medo do embate, nem de perder seguidores. Minhas redes sociais têm muita coisa sobre o meu trabalho, mas são uma extensão da minha vida. É leviano não se posicionar diante do genocídio que vivemos. Há momentos em que se calar é quase tão grave quanto apoiar tudo isso". Leia a entrevista que Monica concedeu a Universa a seguir:
UNIVERSA - Você falou em uma entrevista que quem mais deu voz ao presidente Jair Bolsonaro no passado foi o CQC, e que se arrependeu de ter falado tantas vezes com ele. Escolhia entrevistá-lo pelas opiniões polêmicas?
MONICA IOZZI - O CQC tinha um caráter extremamente irônico, eram raras as ocasiões em que a gente marcava entrevistas. Lá no Congresso, o trabalho era basicamente ficar umas 10, 12 horas em pé, nos corredores, falando com quem passava.
O Bolsonaro sempre foi uma pessoa do baixo clero, nunca tinha apresentado nenhum projeto relevante e se elegia com discursos extremamente conservadores e reacionários. Como ele sempre gostou de aparecer, não era difícil falar com ele. No início, entrou nosso radar não pelo discurso de ódio, mas pelo total despreparo.
Ele não tinha condição nenhuma de estar num cargo como aquele, de deputado federal à época, porque tudo o que a gente perguntava, ele errava, não fazia a menor ideia ou respondia de maneira grosseira. Depois, eu mostrava o que ele falava mais em um tom de denúncia, Ele já disse, e isso foi ao ar, por exemplo, que o SUS não deveria bancar o tratamento pra pessoas soropositivas, porque se você pegou HIV, você não presta. Ele achava que os grupos de extermínios faziam um favor à sociedade, defendia tortura, enfim, atrocidades.
De certa forma, se sente responsável pela enorme visibilidade que ele ganhou até chegar à presidência?
Olha, seria bem prepotente achar que eu tenho essa responsabilidade, até porque o cara já estava lá há mais de 20 anos. Mas eu me questiono sim, fazia aquilo com a melhor das intenções, pra mostrar que esse tipo de parlamentar não pode ser eleito.
Bolsonaro só não deu um golpe ainda porque não tem apoio necessário para isso. E eu nunca imaginei que estaria dando um megafone na mão de alguém que uma parte da sociedade abraçaria os mesmos ideais.
O Bolsonaro tinha que ter saído preso depois do voto dele no impeachment da Dilma. Não por ele ter votado "sim", mas pela justificativa [Bolsonaro exaltou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador da ditadura militar]. Mesmo que a gente queira denunciar, não seria melhor a gente não dar voz a esse tipo de discurso? Ainda não tenho essa resposta.

Desde 2013, com as manifestações de Junho, a política se tornou um assunto recorrente no país. Acha que, mesmo assim, o brasileiro ainda se interessa pouco por política?
As paixões começaram a ser inflamadas ali em 2013, as manifestações fizeram com que as pessoas se colocassem mais, mas não me parece que muita gente começou a estudar e a pesquisar isso a fundo. Temos uma cultura de nos guiarmos por manchetes, e ninguém para pra ler, avaliar o que está sendo dito nas notícias. Com o advento das fake news, isso fica ainda mais claro.
Assim como estamos debatendo muito sobre política, abriu-se espaço também para falar sobre machismo, feminismo, direito das mulheres e assédio. Você já foi assediada?
Sim, mas nunca no meu ambiente de trabalho, por parte de colegas ou chefes. Às vezes que aconteceram foram em Brasília, mas como a câmera estava ligada, a coisa não era tão agressiva. Nos bastidores, os assessores, ou o próprio político na entrevista falava "ah, você tá louca", algo que não falaria para homens.

Uma vez, falando com o José Serra em uma cobertura da campanha eleitoral, ele não me respondia, ficava fazendo gracinha, me paquerando. Foi uma saída que ele achou e, se fosse com algum dos meninos, ele não se sentiria à vontade para fazer isso. Também já ganhei presentes, como joias e flores, com cartões dizendo que eu era mais bonita pessoalmente. Mas eu nunca sabia se o cara estava realmente dando em cima de mim ou se queria que eu pegasse mais leve nas entrevistas. Ah, e só pra deixar claro: eu não fiquei com essas joias!
Em novembro você faz 40 anos. As mulheres são julgadas por envelhecer e mostrar as marcas do tempo cada vez mais jovens. Você já sofreu com o etarismo de alguma forma?
Por enquanto não, mas é provável que isso comece a acontecer.
Eu não tenho medo de envelhecer, aliás, acho que estou no melhor momento da minha vida em vários sentidos, me sentindo realizada, gata pra car@lho, então, estou muito bem com isso.
Mas é notório, como atriz, o quanto os papeis interessantes vão diminuindo com a idade, mas isso não me preocupa tanto, porque acho que o meu trabalho não é tão diretamente ligado à aparência.

Nas Olimpíadas de Tóquio, de dez treinadores, apenas uma era mulher. Nas eleições municipais do ano passado, tivemos 7.816 vereadoras frente a 50.099 vereadores. O que falta para que a representatividade feminina aumente em todos os setores da sociedade?
Durante séculos esses foram lugares ocupados só por homens, e nós fomos impedidas, via legislação, de estarmos ali. Estamos em um país em que a maioria da população é de mulheres, pessoas pretas e pardas, e a representatividade delas é extremamente pequena. Há leis que estão começando a fazer esse trabalho, mas isso ainda está muito no começo, e nós temos que prestar atenção, porque os direitos conquistados estão sempre em risco. Temos que apoiar as mulheres independentemente da área em que estejam.
Este ano, comemoramos os 15 anos da Lei Maria da Penha e, ao mesmo tempo, também houve uma queda no orçamento federal para políticas públicas voltadas às mulheres. Além disso, você já declarou que o ambiente político, no geral, é um lugar violento. Como o Brasil pode se tornar um país mais seguro para as mulheres?
Tudo tem que ser mudado. A gente tem uma legislação incrível para defender as mulheres, mas mesmo assim, o Brasil está entre os países que mais nos mata. É necessário ter uma rede de apoio para que as mulheres denunciem seus agressores e sigam com a vida, porque é difícil os homens ficarem presos durante o tempo determinado pela lei.
Eu também não acredito que só a punição vá resolver. Eles precisam ser ensinados a lidar com suas frustrações, a entender o que gera esse ciclo de violência.
Muitas mulheres às vezes não saem de uma relação porque dependem financeiramente do agressor e querem só que esse ciclo de violência pare.
Como surgiu a ideia de fazer um programa sobre política?
Eu já pensava sobre isso há bastante tempo, quando surgiu o convite do Canal Brasil. O André Saddy, chefe do canal, disse que gostava muito do meu trabalho, e foi um convite bem aberto, com uma liberdade grande, e isso me deixou feliz. Minha vontade era debater política para que todo mundo entenda sobre o que estamos falando, porque na época do CQC, percebi que existia um desinteresse do público de maneira geral por esse assunto, porque a maioria acredita que a política é uma engrenagem falida, todo mundo é corrupto, e falta conhecimento sobre os mecanismos mais básicos do fazer na política. Então, a ideia é fazer com que entendam minimamente esses mecanismos básicos.
Você já disse que se interessa por política desde criança. De que forma o assunto entrou na sua vida?
Quando eu era pequena, tinha curiosidade para assistir o horário eleitoral, achava tudo aquilo um pouco estranho. Havia uma coisa de espetáculo e uns personagens muito estranhos de vez em quando, tomava uns sustos com o Enéas [o político Enéas Carneiro, morto em 2007] por exemplo, e aquilo me chamava a atenção. Na escola, lembro de falar bastante, principalmente na época da eleição entre o Lula e o Collor, e o quanto as crianças eram inflamadas para aquele debate. E eu defendia o Collor fervorosamente (risos).
Você fez algumas perguntas aos seus seguidores no Instagram, para que eles te ajudem a construir as pautas do seu novo programa. Uma delas foi: "Se você pudesse mudar qualquer fato da nossa história, qual seria e por quê?". Qual é o seu?
Com certeza absoluta eu deletaria a escravidão, porque muito da desigualdade social, do preconceito e da violência tem a ver com isso. Fomos o último país do mundo a acabar com a escravidão, existiu todo um trabalho de branqueamento da população, trazendo os imigrantes europeus para cá com uma série de privilégios. A população negra foi impedida de comprar terras, de ter acesso à educação... E isso traz efeitos terríveis até hoje.
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Análise: Os erros dos EUA que levaram ao colapso do exército afegão
16/08/2021 09h58
Atualizada em 16/08/2021 16h30
O colapso do exército afegão, que permitiu aos combatentes talebans assumir o controle de Cabul, mostrou os erros cometidos durante 20 anos pelo governo dos Estados Unidos no Afeganistão.
A agência de notícias AFP destacou alguns que seriam os principais erros cometidos pelos EUA durante o período de intervenção no Afeganistão. Veja a seguir:
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Equipamento incorreto
Washington gastou US$ 83 bilhões (cerca de R$ 435 bilhões na cotação de hoje) em seu esforço para criar um exército moderno que refletisse as suas tropas.
Em termos práticos, isto significou uma enorme dependência do apoio aéreo e uma rede de comunicação de alta tecnologia em um país onde apenas 30% da população pode contar com um fornecimento de energia elétrica confiável.
Aviões, helicópteros, drones, veículos blindados, óculos de visão noturna: o governo dos Estados Unidos não economizou em gastos para equipar o exército do país asiático. Recentemente chegou a fornecer aos afegãos os últimos helicópteros de ataque Black Hawk.
Mas os afegãos, incluindo muitos jovens analfabetos em um país que carece de infraestrutura para equipamentos militares de última geração, não conseguiram implementar uma resistência séria contra um inimigo menos equipado e aparentemente superado em números.
Suas capacidades foram superestimadas, de acordo com John Sopko, o inspetor geral especial dos Estados Unidos para a reconstrução do Afeganistão (Sigar). O exército americano "sabia como era ruim o exército afegão", destacou.
O relatório mais recente de seu gabinete ao Congresso, apresentado na semana passada, afirma que os "sistemas avançados de armas, veículos e logística utilizados pelos militares ocidentais estavam além das capacidades da força afegã, em grande parte analfabeta e sem instrução.

Números exagerados
Durante meses, os funcionários do Pentágono insistiram na vantagem numérica das forças afegãs, de 300 mil integrantes entre exército e polícia, sobre os talibãs, avaliados em 70 mil.
Mas os números do exército estavam exagerados, segundo o Centro de Luta contra o Terrorismo da Academia Militar de West Point, Nova York.
Em julho de 2020, segundo a estimativa de West Point, os 300 mil incluíam apenas 185 mil soldados do exército ou forças de operações especiais sob o controle do ministério da Defesa, enquanto a polícia e outra força de segurança constituíam o restante.
E apenas 60% das tropas afegãs eram combatentes treinados, segundo os analistas de West Point.
Uma estimativa mais precisa da força de combate do exército, sem contar os 8.000 oficiais da Força Aérea, é de 96 mil, concluíram.
O relatório Sigar aponta que as deserções sempre foram um problema.
O documento indica que até 2020 o exército afegão teve que substituir 25% de sua força a cada ano, em grande parte devido às deserções, e os soldados americanos que trabalhavam com os afegãos afirmaram que a taxa era "normal".
Planos frágeis
As autoridades americanas prometeram reiteradamente que continuariam apoiando o exército afegão depois de 31 de agosto, a data anunciada para a conclusão da retirada das tropas americanas, mas nunca explicaram como isso aconteceria do ponto de vista logístico.
Durante sua última visita a Cabul, em maio, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, mencionou a possibilidade de ajudar os afegãos a manter sua força aérea à distância, por meio do que chamou de logística "além do horizonte".
O conceito vago implicaria treinamentos através da plataforma Zoom. O método parece um tanto ilusório, dada a falta de computadores, smartphones ou boas conexões Wi-Fi dos afegãos.
Ronald Neumann, ex-embaixador dos Estados Unidos em Cabul, afirmou que o exército americano deveria ter "levado mais tempo" para a retirada.
O acordo alcançado entre o governo do então presidente Donald Trump e os talibãs considerava uma retirada completa das forças estrangeiras em 1º de maio.
O sucessor de Trump, Joe Biden, adiou a data, originalmente para 11 de setembro, antes de mudar novamente para 21 de agosto.
Mas também decidiu retirar todos os cidadãos americanos do país, incluindo os terceirizados que têm um papel chave no apoio à logística americana no Afeganistão.
"Construímos uma força aérea que dependia de terceirizados para a manutenção e depois retiramos os terceirizados", declarou Neumann à rádio pública NPR
Nem salários nem alimentos
Ainda pior, o Pentágono pagou durante anos os salários do exército afegão. Mas desde que o exército americano anunciou sua retirada em abril, a responsabilidade dos pagamentos passou ao governo de Cabul.
Muitos soldados afegãos reclamaram nas redes sociais que não receberam salário durante meses e, em muitos casos, suas unidades não recebiam mais alimentos ou suprimentos, incluindo munições.
A rápida retirada americana representou o golpe final.
"Ao sair e retirar nossa cobertura aérea, abalamos o exército e a moral dos afegãos", disse Neumann.
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Afeganistão reacende pesadelo, e UE convoca reuniões de emergência
Enquanto tenta repatriar cidadãos e funcionários, bloco discute como evitar crise de imigração como a de 2015
Com a memória ainda recente da crise de imigração vivida em 2015 e 2016 —quando recebeu quase 2 milhões de refugiados—, a União Europeia convocou três reuniões extraordinárias após a tomada de Cabul pelo Taleban no Afeganistão.
Nesta segunda (16), o Conselho de Segurança do bloco discutiu como retirar do país conflagrado os cidadãos europeus e os funcionários afegãos de instituições da UE.
Na terça (17), será a vez do encontro dos ministros das Relações Exteriores e, na quarta, da reunião dos ministros de Justiça e Assuntos Interiores. Esta última deve discutir não uma, mas duas crises imigratórias.
A primeira já está a todo o vapor nas fronteiras nordeste do bloco: mais de 4.000 imigrantes, a maioria iraquiana, entraram pela Belarus na Lituânia, na Letônia e na Polônia, multiplicando dezenas de vezes o fluxo usual de estrangeiros nesses países.
A segunda ainda é só uma ameaça, mas já preocupa os países do sul: Grécia, Itália, Espanha, Malta e Chipre temem que o colapso afegão provoque novas ondas de refugiados vindos pelo mar Mediterrâneo.
A conversa interessa a todos, mas não será fácil: a política para imigrantes e refugiados é um dos temas mais polêmicos entre os 27 membros da União Europeia.
No domingo (15), por exemplo, a Áustria continuava defendendo sua decisão de deportar afegãos cujos pedidos de refúgio tivessem sido rejeitados —posição que já havia sido abandonada por Holanda, Alemanha, França e Dinamarca na semana anterior, quando ficou claro que a retirada dos Estados Unidos abriria uma nova temporada de perseguições.
O bloco já vinha sentindo havia alguns meses uma retomada das ondas de imigrantes, principalmente africanos, após uma trégua forçada durante a pandemia.
Na Grécia, os campos de refugiados —onde aguardam mais de 10 mil requerentes de asilo— só não entraram em colapso nos últimos anos por causa do acordo firmado e renovado entre a UE e a Turquia.
Em troca de indenização, mais de 3 milhões de refugiados de guerra (principalmente sírios) ficaram em território turco nos últimos anos.
A capacidade de absorção da Turquia, porém, está esgotada, estimam entidades internacionais, e o êxodo de afegãos não será pequeno: segundo a agência de refugiados da ONU, cerca de 250 mil já foram forçados a fugir desde o final de maio —a maioria mulheres e crianças.
Após a vitória do Taleban, outros grupos em risco devem engrossar esse fluxo, como ativistas da sociedade civil, jornalistas, escritores, professores universitários, políticos, artistas e funcionários públicos, entre outros.
Neste domingo, uma multidão invadiu a pista de decolagem do aeroporto de Cabul após a tomada da capital, e pessoas chegaram a se pendurar em aeronaves em movimento, como mostraram vídeos em redes sociais, tentando deixar o país.
lá fora
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A Turquia pretende reforçar os bloqueios em sua fronteira com o Irã para barrar os afegãos, o que daria algum alívio aos meridionais, mas a crise no país asiático também preocupa a Lituânia.
Por um lado, o país teme que sua urgência seja ultrapassada pela nova emergência vinda do sul. Por outra, considera que o Afeganistão pode ser nova arma nas mãos do ditador belarusso, Aleksandr Lukachenko.
Até o momento, a Lituânia registra a chegada de apenas 83 afegãos entre os 4.122 estrangeiros que atravessaram a fronteira da Belarus ilegalmente. Mas em mais de um discurso Lukachenko citou os afegãos entre as ameaças que fez ao bloco —e mais diretamente ao governo lituano, que abrigou sua principal rival, a líder oposicionista Svetlana Tikhanovskaia.
“Países ocidentais espalham a podridão no Afeganistão, no Irã, no Iraque, e não temos nem dinheiro nem energia para contê-los, como resultado das sanções impostas [pela UE] sobre a Belarus”, disse o ditador, no final de julho.
No último dia 9, afirmou que não estava “chantageando ninguém com imigração ilegal”, para acrescentar em seguida: “Mas a UE nos colocou em tais circunstâncias que somos forçados a reagir. E estamos reagindo”.
O colapso total do governo afegão, que não estava previsto na resposta à crise do governo lituano, “representa desafios para a segurança de todo o mundo”, disse Darius Kuliesius, principal conselheiro para questões de segurança nacional do presidente Gitanas Nausėda, ao jornal lituano Delfi.
Enquanto a UE discute o que fazer, países europeus de fora do bloco, como Albânia e Kosovo, aceitaram receber temporariamente refugiados políticos que desejam entrar nos Estados Unidos.
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Análise: Diogo Schelp - Fala de Biden é admissão de que EUA abandonaram afegãos à própria sorte
Diogo Schelp
Colunista do UOL
16/08/2021 17h54
O presidente americano Joe Biden defendeu, em pronunciamento na Casa Branca na tarde desta segunda-feira (16), sua estratégia de retirada das tropas americanas remanescentes no Afeganistão, país onde os Estados Unidos mantinham presença militar há quase 20 anos.
Ao reconhecer que o colapso do exército e do governo afegão, seguido da tomada da capital Cabul pelo Taleban, "aconteceu mais rápido do que prevíamos", Biden deixou claro que ele e seus estrategistas militares já contavam com a volta ao poder da milícia fundamentalista no país.
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Como se servisse de consolo, ele afirmou que o governo americano vai continuar apoiando os afegãos "por meio da diplomacia" e que vai sempre "falar em favor das mulheres e meninas afegãs".
São elas, é claro, as primeiras e maiores vítimas do retorno da repressão religiosa que o Taleban irá impor em todo o país — como vem impondo nas províncias que já estavam sob seu domínio. A diplomacia de Biden, no entanto, não vai conseguir ajudar as mulheres afegãs.
O presidente americano tratou de empurrar para o agora inexistente governo afegão e seu exército a culpa pelo avanço do Taleban. Ele lembrou que os americanos treinaram os soldados afegãos, pagaram seus soldos e até criaram uma força aérea para eles — mas que eles decidiram não lutar.
Ou seja, o governo Biden estava apostando que haveria combates entre Taleban e o exército afegão. Em outras palavras, os Estados Unidos bateram em retirada esperando deixar para trás uma guerra civil — que acabou não ocorrendo.
Também culpou os próprios aliados afegãos pelo fato de os Estados Unidos não terem evacuado antes aqueles que se sentem agora ameaçados pelo Taleban. Segundo ele, os civis afegãos que apoiavam os americanos não quiseram sair antes pois não acreditavam que a situação chegaria ao ponto atual. Difícil acreditar.
O "erro de cálculo" do governo Biden é espantoso: o avanço militar do Taleban já vem de semanas, conquistando capital provincial atrás de capital provincial.
Ele anunciou que, para conter o caos e garantir uma evacuação segura de funcionários americanos e aliados, enviará 6.000 soldados para o Afeganistão. Se o Taleban não respeitar os esforços de evacuação, disse Biden, os Estados Unidos irão revidar com toda força militar.
Já não parece uma ameaça que o Taleban levará a sério.
Biden deixou claro em seu pronunciamento que já contava com a volta do regime Taleban e que seu governo, em nome dos erros de governos passados, lava as mãos quanto ao que vai acontecer com a população afegã daqui para frente.
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Opinião - Ronaldo Lemos: Estamos prontos para o metaverso?
Você está preparado para viver em um universo virtual? Zuckerberg acha que sim
Você está preparado para viver em um universo virtual? Mark Zuckerberg acha que sim.
Em longa entrevista recente, ele afirma que o futuro do Facebook é a construção de um metaverso. A palavra vem da ficção científica para se referir a um universo digital, construído acima e em paralelo à realidade em que vivemos.
Você coloca um par de óculos, uma lente de contato, um fone de ouvido, um implante ou outros aparelhos que virão por aí e... pimba! Está vivendo no virtual, com regras totalmente distintas.
É preciso prestar atenção nas palavras dele, porque a visão é ainda mais ambiciosa. Zuckerberg afirma que “o metaverso abrange muitas empresas, na verdade toda a indústria de tecnologia. Pode-se pensar nele como o sucessor da internet móvel”. A internet móvel já mudou totalmente a vida no planeta. A promessa é que o metaverso mude tudo ainda mais.

Vale notar que hoje o Facebook não é a empresa que lidera a construção de um metaverso. Quem está mais próximo disso é o Roblox, empresa criadora do game de mesmo nome. Se você não conhece, pergunte a crianças entre 4 e 16 anos que elas explicam. Afinal, já são dezenas de milhões delas, inclusive no Brasil, entrando todos os dias nesse metaverso para jogar e interagir com outros usuários. A empresa fez uma das maiores ofertas públicas de ações deste ano e foi tema aqui da coluna, inclusive para contar sobre sua conexão muito direta com o Brasil.
Apesar de não estar na liderança, o Facebook não está parado. A empresa lidera em um outro item dos metaversos, que são os óculos que facilitarão acessá-los. Os óculos Quest 2 são o produto mais recente da divisão especializada. O comunicado de Zuckerberg é justamente para sinalizar que o “metaverso” não será mais tema só de uma divisão do Facebook, mas tomará conta de toda a empresa.
Essa mudança trará também um metaverso de problemas. Se nas redes sociais a questão da “moderação de conteúdo” já é problemática, como será feita no caso dos metaversos em que tudo acontece em tempo real? Qual será a moeda do metaverso e como ela irá interagir com a moeda real? Como será a questão do trabalho no âmbito do metaverso? Certamente muita gente vai trabalhar dentro dos metaversos.
Poderão os metaversos se tornar laboratórios políticos? Por exemplo, criando espaços para experimentar novas formas de participação democrática, que, quem sabe, poderão influenciar o mundo real? Ou ainda, será tolerável experimentar com modelos de autocracia e autoritarismo dentro dos metaversos? Ou a governança dos metaversos será um pano de fundo previamente decidido?
Em suma, se o metaverso se tornar mesmo o futuro da internet, isso levará a um impacto social, econômico, legal, científico, normativo, valorativo e de transformação coletiva.
Os metaversos poderão se transformar em novos espaços de coordenação da ação humana. Seja em laboratórios seguros de experimentação institucional. Seja em distopias medonhas. Ou podem também dar em nada.
Reader
Já era
Fadiga de aglomeração
Já é
Fadiga de Zoom
Já vem
Fadiga de metaverso
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Opinião: Kennedy Alencar - Abandonados, afegãos esperaram por 20 anos que EUA os livrassem do Taleban
Kennedy Alencar
Colunista do UOL
16/08/2021 11h58
Há 20 anos, quando desembarquei de um avião soviético Antonov-26 em Faizabad, no norte do Afeganistão, encontrei pessoas que tinham a esperança sincera de que os Estados Unidos as livrariam do domínio do Taleban.
Na Província de Badakshan, a cidade de Faizabad era a capital da Aliança do Norte, a coalizão político-militar que contava com suporte americano para lutar contra o Taleban, um grupo com visões extremistas ao interpretar os preceitos islâmicos, como proibir as mulheres de trabalhar e estudar, impor castigos físicos como apedrejamento e executar seus opositores. As mulheres sempre foram as vítimas preferenciais da truculência religiosa, apesar de o Taleban matar homens que se opunham ao regime.
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O Taleban também tinha laços estreitos com a Al Qaeda de Osama Bin Laden, o arquiteto do atentado de 11 de Setembro, que mudou o mundo depois de 2001. A conjunção de interesses era evidente. Os afegãos que lutavam contra o Taleban avaliavam, corretamente, que a queda do grupo seria uma questão de tempo com o socorro de Washington.
Atiqhllah Darkhani, 21 anos, considerava os bombardeios aéreos americanos uma "ótima notícia". Ele trabalhava como intérprete para uma ONG irlandesa que distribuía alimentos e ouvia as últimas notícias pela rádio BBC. "Estamos felizes porque vai ser bom para o futuro do Afeganistão. O Taleban vai deixar o poder."
Outro candidato a intérprete dos jornalistas que chegavam ao Afeganistão pelo enclave dominado pela Aliança do Norte, Said Hamed, também com 21 anos, manifestava um claro desejo: "Quero que a América (EUA) mate o Taleban". Naqueles dias, os rebeldes da Aliança do Norte contavam com o apoio americano para preparar o cerco a Cabul, a capital do país recuperada neste último domingo pelo Taleban.
"As bombas dos americanos vão nos ajudar a derrotar o Taleban", dizia Mohammad Anwer, 30 anos. Ele levava um caminhão cheio de suprimentos para os soldados da Aliança do Norte no Vale do Pansheer, um caminho para Cabul no meio de montanhas áridas e deslumbrantes.
As expectativas de curto prazo de Darkhani, Hamed e Anwer foram atendidas. O Taleban seria derrotado em pouco tempo. As mulheres, tratadas como cidadãs de segunda classe, poderiam voltar a sonhar em não ser subjugadas. Mas não era bem assim.
Apesar das críticas ao radicalismo do Taleban, os integrantes da Aliança do Norte também mantinham comportamentos machistas, como obrigar as mulheres a usar a burka, a longa vestimenta com uma máscara que cobre todo o corpo, inclusive o rosto. Na altura dos olhos, há uma pequena tela de renda. Apenas as mãos ficam à mostra. "A mulher não deve ser vista por estranhos. Só pelo marido ou pelos homens da sua casa", afirmava Atiqhllah Darkhani, algo irritado com as perguntas do repórter a respeito do status das cidadãs de segunda classe.
Durante quase um mês cobrindo o conflito no Afeganistão como enviado especial da "Folha de S.Paulo" após o atentado contra as Torres Gêmeas de Nova York, encontrar essas mulheres totalmente cobertas era a experiência mais incômoda. Elas abaixavam a cabeça quando passavam por um homem. Costumavam andar do outro lado da rua se um estranho andasse na sua direção. E normalmente falavam baixo e pouco com os vendedores quando saíam de casa para fazer compras.
Na questão da corrupção, a Aliança do Norte também tinha seus pecados. Tudo se movia a propina, desde as passagens de avião e helicóptero para vir e voltar ao Tadjiquistão aos gastos mais comezinhos com tradutores, aluguel de carros e alimentação. Com inúmeras divisões internas, havia sinais claros de que os rebeldes da Aliança do Norte só se manteriam no poder com o aval dos americanos. Quando esse endosso caiu, o Taleban voltou ao poder, como mostraram as cenas caóticas do aeroporto de Cabul com centenas de pessoas tentando fugir do país no fim de semana.
Esse desastre humanitário começou a ser desenhado no ano passado, quando o então presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um acordo de paz com o Taleban. Em Doha, no Qatar, o negociador americano, Zalmay Khalilzad, e o mulá Abdul Ghani Baradar assinaram o texto e, em seguida, deram um aperto de mãos que deixava evidente a satisfação do Taleban.
Em troca da retirada das tropas americanas em 2021, o Taleban se comprometeu a parar de fazer ataques internos, a não apoiar terroristas e a negociar com o governo afegão. Não foram cumpridas as partes de cessar os ataques e de negociar com o governo, derrubado nas últimas duas semanas. Sobre não apoiar terroristas, é algo que ainda precisará ser observado.
Os EUA perderam a mais longa guerra que já travaram e deram reconhecimento público ao seu principal inimigo. Após o tratado, simplesmente decidiram abandonar os afegãos à própria sorte. Durante duas décadas, mantiveram um governo fantoche no poder e não reconstruíram as instituições do país. Agora, entregaram o país de bandeja ao Taleban porque o custo político e econômico da guerra se tornou pesado demais.
Do ponto de vista geopolítico, os EUA abrem espaço para China, Rússia e Paquistão aumentarem sua influência sobre o Afeganistão e a região.
Dano colateral doloroso: não há dúvida de que o Taleban voltará a agir com violenta repressão política e religiosa, sobretudo em relação às mulheres. O tratado de paz foi uma saída americana pela porta dos fundos, exatamente como ocorreu no Vietnã em 1975.
Derrotado em semanas em 2001, o Taleban é o único lado vitorioso 20 anos depois. A guerra ao terror destruiu países e vidas pelo planeta. É fato que os EUA atingiram, com preço alto para nações como Afeganistão, Líbia e Síria, o objetivo de evitar um novo ataque de terroristas estrangeiros em solo americano. No entanto, a ameaça maior aos Estados Unidos hoje é doméstica: a dos supremacistas brancos alimentados pelo trumpismo.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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Reinaldo Azevedo - O Taleban deles e o nosso: avançam na inércia. Ou: Real plano de Bolsonaro
Colunista do UOL
16/08/2021 23h35
Notaram que, de algum modo, estamos, assim, como quem espera a chegada do Taleban, de mãos atadas? Há diferenças, claro! Não é que nos faltem instituições, como faltam naquele país. Elas existem. Mas não se exercem. Não é que não tenhamos os remédios para conter as agressões à democracia e ao Estado de direito. Nós os temos. Mas dependem de vontades monocráticas. E ficamos assim: se um quer ameaçar, e o outro não quer reagir, então todos corremos riscos.
Para ficar no caso: se Bolsonaro quer acenar com um golpe, e Lira não quer pôr para tramitar o impeachment, então marchemos para dias sangrentos. Se o presidente quer cometer crimes em penca, e se Aras não propõe a abertura de uma ação penal, então que triunfe a impunidade de um contra os interesses de todos os brasileiros.

O impossível impeachment de ministros do STF é esgoto retórico de Bolsonaro
No sábado, o ocupante do Palácio do Planalto enviou de seu número pessoal, para os seus contatos, que incluem ministros de Estado, uma convocação para os protestos marcados pelos fascistoides para o 7 de Setembro. Há um trecho notável, que remete a 1964 -- chamando o golpe de então de "contragolpe" --, dando como certa uma nova ruptura institucional. Leiam, conforme o original:
Hoje, fazer um contragolpe é muito mais difícil e delicado do que naquela época, além do grave aparelhamento acima relatado, temos uma constituição comunista que tirou em grande parte os poderes do Presidente da República e foi por estes motivos que o Presidente Bolsonaro, no início de agosto, em vídeo gravado, pediu para que o povo brasileiro fosse mais uma vez às ruas, na Avenida Paulista, no dia sete de setembro, dar o último aviso, mas, desta vez, ele reforçou que o "contingente" deveria ser absurdamente gigante, ou seja, o tamanho desta manifestação deverá ser o maior já visto na história do país, a ponto de comprovar e apoiar, inclusive internacionalmente, para que dê a ele e às FFAA, para que, em caso de um bastante provável e necessário contragolpe que terão que implementar em breve, diante do grave avanço do golpe já em curso há tempos e que agora avança de forma muito mais agressiva, perpetrado pelo Poder Judiciário, esquerda e todo um aparato, inclusive internacional, de interesses escusos.
Quem assina a estrovenga é um grupo de Facebook chamado "Ativistas Direitas Volver". Sim, há malucos para todos os gostos espalhados nas redes. A coisa tem lá a sua gravidade, mas há ensandecidos em toda parte. O perigo está no fato de o presidente da República, de próprio punho, replicar a incitação golpista. Como chamam, então, a intervenção militar que almejam de "contragolpe", golpistas seriam os outros. O envio da mensagem foi noticiado pelo jornal digital "Metrópoles".
CERTA LETARGIA
Sim, as ruas já se mobilizaram contra a truculência e as ameaças golpistas do presidente. Mas, por óbvio, e nem poderia ser diferente, não se acena com o horizonte escatológico da luta do bem contra o mal, hipótese em que, do confronto sangrento, restaria a vitória dos justos. Não. Os que se manifestam contra o presidente pedem apenas que triunfem as regras do jogo.
Não se trata de um confronto entre iguais. E isso não foi ainda devidamente absorvido e compreendido por alguns setores. Não estamos numa porfia, por exemplo, a favor da privatização da empresa A ou B ou contra ela; não estamos num enfrentamento político entre os que defendem essa ou aquela reformas e os que as consideram reacionárias ou que adjetivo desairoso se escolha. Um dos lados está pregando abertamente a virada da mesa e a tomada do poder pelas armas. E o presidente da República, com a gravidade que tem o cargo, com todas as responsabilidades que este enseja, se alinha abertamente com o golpismo — e, parece, o mesmo pensa o seu ministro da Defesa.
CÂMARA E SENADO
Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, escreveu no Twitter:
"O Brasil sempre terá no presidente da Câmara dos Deputados um ferrenho defensor constitucional da harmonia e independência entre os Poderes".
A Lira compete pôr para tramitar ou não uma denúncia por crime de responsabilidade. Quantos Bolsonaro já cometeu e quantos são os pedidos que dormitam em sua gaveta? Cabe aqui fazer a pergunta óbvia: será que o Brasil terá de ver o sangue na praça e nas ruas para que, então, "o ferrenho defensor da harmonia e da independência entre os Poderes" se manifeste? A propósito: com essa linguagem pastosa, está emitindo um juízo censório ao presidente da República ou aos ministros do Supremo? Ou nem a um nem a outros, hipótese em que, então, se igualariam?
Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, admite a existência de uma crise entre os Poderes e tenta jogar água na fervura no momento em que o presidente anuncia que vai apresentar pessoalmente os pedidos de impeachment dos ministros Alexandre de Moraes e Roberto Barroso. Afirma:
"O diálogo entre os Poderes é fundamental, e não podemos abrir mão dele, jamais. Fechar as portas, derrubar pontes, exercer arbitrariamente suas próprias razões são um desserviço ao país. Portanto, é recomendável, nesse momento de crise, mais do que nunca, a busca de consensos e o respeito às diferenças. Patriotas são aqueles que unem o Brasil, e não aqueles que querem dividi-lo. E os avanços democráticos conquistados têm a rigorosa vigilância do Congresso, que não permitirá retrocessos".
É claro que, em si, são boas palavras. E observo que Pacheco jamais poria para tramitar os tais pedidos. Até porque não há crimes. Há outros que estão lá parados. Não duvido de que pensa no presidente da República como exemplo daquele que não une o país. Ocorre que essa retórica da conciliação — e política, na democracia, consiste em conciliar os contrários na arte de discordar — já ficou no contrapé. Daqui a pouco, Bolsonaro ou outro qualquer do governo lançam uma nova ameaça golpista, escancarada ou velada, tanto faz, e toda razão entra de novo em falência.
CENÁRIO INTERMEDIÁRIO DO CAOS
Nem os mais celerados nas Forças Armadas, e também os há, acreditam que possa haver um novo regime militar à moda antiga, como aquele que entrou em vigor em 1964. Se houver um ou outro, certamente são exceções sem relevância. E acho que até Bolsonaro sabe disso.
Ocorre que sua aposta é outra. É este cenário que deve preocupar: Bolsonaro investe numa insurreição que criasse um impasse, de modo que o Artigo 142 tivesse de ser evocado — aquele que garante às Forças Armadas atuar como subsidiárias na garantia da ordem pública. Há ainda o estado de defesa — no seu delírio, deve sonhar até com estado de sítio. Nas hipóteses extremas, o Congresso tem de deliberar. Mas notem: qual é a deliberação em face do caos eventual?
O que estou afirmando, meus caros, é que Bolsonaro não trabalha com um cenário em que as Forças Armas decidissem, de moto próprio, bater o porrete na mesa: "Pronto! Acabou! Agora é com a gente!" Não.
Ele está tentando justamente fabricar o caos para que, diante de uma desordem que pretende generalizada, a intervenção se imponha como uma "previsão constitucional", entenderam?
E, por essa razão, é preciso pará-lo antes. É tudo uma loucura? É. Mas tem método.
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Análise: Thaís Oyama - Jefferson merece Bangu, mas, ao atropelar Aras, STF ultrapassa a linha
Thaís Oyama
Colunista do UOL
16/08/2021 11h37
Que Roberto Jefferson vinha há muito tempo cavando um pênalti, como se diz no futebol, isso é sabido. Na sexta-feira, data em que foi recolhido às instalações de Bangu 8, no Rio, o ex-deputado conseguiu o seu intento e, desde então, geme satisfeito enquanto se contorce na grama, herói e mártir do bolsonarismo.
Mas se a prisão de Jefferson (por calúnia, difamação, injúria, incitação ao crime, apologia ao crime, associação criminosa e denunciação caluniosa) parece devida aos olhos de boa parte dos juristas, o que aconteceu antes disso aponta para um arriscado rebaixamento das garantias processuais — e que ameaça não apenas ex-deputados sem escrúpulos, sem responsabilidade e sem medo do ridículo.
O Taleban deles e o nosso: avançam na inércia. Ou: Real plano de Bolsonaro
O pedido de prisão de Jefferson se deu no âmbito de um inquérito cuja abertura foi mais uma tentativa do Supremo de driblar a inação de Augusto Aras, o Procurador-Geral da República também conhecido como Procurador-Geral da República de Jair Bolsonaro.
Esse inquérito foi aberto pelo ministro Alexandre de Moraes de ofício — ou seja, sem que houvesse solicitação da PGR para tanto. Dias antes, Aras havia determinado o arquivamento do chamado inquérito dos atos antidemocráticos, no qual Jefferson era um dos investigados. A jurisprudência do Supremo determina que a Corte deve seguir pedidos de arquivamento feitos pelos investigadores. Moraes cumpriu o preceito, mas, contrariado com mais um indício do alinhamento incondicional do PGR com o presidente da República, determinou sozinho a abertura de um novo inquérito, dessa vez para investigar a ação de milícias digitais — o tal em que Jefferson foi preso.
E não foi por outro motivo (driblar a inação de Aras) que outro ministro do STF, Luís Roberto Barroso, também presidente do Tribunal Superior Eleitoral, pediu recentemente a inclusão de Bolsonaro no controverso inquérito das fake news, aquele em que o acusador é também juiz. Aberto por Dias Toffoli e conduzido por Moraes, o inquérito, cujas irregularidades o plenário do STF "arredondou" em junho, foi visto como a melhor forma de tornar o presidente investigado na Corte sem a necessidade de um pedido (que provavelmente jamais aconteceria) do Procurador-Geral da República.
Por fim, em maio, quando Ricardo Salles ainda era ministro do Meio Ambiente, o STF autorizou um pedido de busca e apreensão contra ele sem ouvir a PGR — o que contraria a lei, dado que Salles detinha foro na Corte. Na ocasião, o chefe dos procuradores reclamou e ensaiou um esperneio, mas poucos lhe deram ouvidos. Afinal, Aras é o vilão e só os mocinhos têm razão.
Quem defende que a observância do devido processo legal só vale para a sua turma e não vale para a turma do adversário não está defendendo a observância do devido processo legal, está defendendo a sua turma. Seria mais honesto ao menos deixar isso claro.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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Balaio do Kotscho - A esbórnia militar: golpe, contragolpe, discursos, bravatas e ameaças
Ricardo Kotscho
Colunista do UOL
16/08/2021 18h18
O clima que reina no país às vésperas de mais um 7 de Setembro não poderia ser mais beligerante, absurdo e imprevisível.
A escalada da esbórnia militar comandada pelo capitão Bolsonaro começou em março, quando o presidente derrubou de uma tacada só, sem aviso prévio nem piedade, o ministro da Defesa e os três comandantes militares, substituindo-os por homens da sua absoluta confiança.
O Taleban deles e o nosso: avançam na inércia. Ou: Real plano de Bolsonaro
De lá para cá, o presidente e o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, colocaram as Forças Armadas a serviço do governo de turno e não do Estado, para dar sustentação a um projeto político autoritário, empenhado em submeter os outros Poderes e instituições a seus desejos e objetivos, sem contestações.
Depois do vexame daquela sucateada micareta de desfile militar fora de época, na enfumaçada terça-feira passada, os dois fizeram juntos uma nova ofensiva golpista neste sábado.
Pela manhã, no Twitter, Bolsonaro anunciou que vai pedir ao Senado o impeachment de dois ministros do STF, por "extrapolarem com atos os limites constitucionais"; à tarde, para deixar tudo bem claro, em discurso durante formatura de cadetes na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), Braga Netto afirmou que as Forças Armadas são "protagonistas dos principais momentos da história do país e estão sob autoridade suprema do presidente da República".
Aonde está na Constituição que as Forças Armadas mandam no país?
Braga Netto já havia tomado as dores de Bolsonaro na CPI da Covid e fez um duro ataque aos senadores. E, na mesma linha do presidente, mandou um recado à Câmara, para avisar "a quem interessar possa": sem voto impresso, poderá não haver eleições em 2022.
Apesar das ameaças, a PEC do "voto impresso" seria derrotada por larga margem na Câmara dominada pelo Centrão, mas os dois não desistiram, dobrando a aposta.
Nos dias seguintes, as milícias digitais das redes bolsonaristas espalharam o terror, endossando o discurso oficial do governo sobre fraudes nas urnas eletrônicas, em eleições que ainda nem aconteceram, por conta de uma "conspiração comunista internacional em conluio com o STF".
No mesmo sábado, circulou nestas mesmas redes mensagem que teria sido encaminhada pelo número pessoal de Bolsonaro, segundo o site Metrópolis, para uma lista de transmissão no WhatsApp, que defende a necessidade de um "contragolpe" e convoca apoiadores para se manifestarem no dia 7 de setembro para mostrar que ele e as Forças Armadas têm apoio para uma ruptura institucional.
Assinado por um grupo de Facebook chamado "Ativistas direita volver", a mensagem defende que o "contingente da manifestação" deve ser "absurdamente gigante", para comprovar que o presidente e as Forças Armadas unidos têm o apoio necessário para dar um "bastante provável e necessário contragolpe".
Golpe ou contragolpe, o curioso é que uma nota enviada pela Defesa aos comandantes militares, no último dia 2, comunica que não haverá desfile no Dia da Independência em razão da pandemia, como já aconteceu no ano passado.
Até esta segunda-feira, não estava prevista nenhuma parada militar em Brasília, mas os seguidores de Bolsonaro e Braga Netto nas redes sociais continuavam convocando a população a sair às ruas, ameaçando parar o país, com o apoio dos plantadores de soja e do movimento dos caminhoneiros, cujos líderes desmentiram sua participação nesses atos.
É tudo tão surreal e inverossímil, que o porta-voz da bandalha foi um decadente cantor sertanejo, Sergio Reis, ex-deputado federal do Centrão, que em vídeo prometeu levar uma "intimação ao Senado" para cassar os ministros do STF, em 48 horas, ou os valentes iriam "quebrar tudo".
Estas bravatas e ameaças não foram desmentidas pelas autoridades constituídas até o momento em que escrevo. O objetivo é esse mesmo: espalhar o medo e a insegurança, para imobilizar os defensores da democracia.
Só o fato de estarmos falando disso, e admitindo a possibilidade de que algo de grave possa acontecer neste 7 de Setembro, e não uma festa para comemorar a Independência, já mostra o grau de insanidade em que o país está mergulhado desde a troca dos comandos militares, seis meses atrás, tramada no quartel do Palácio do Planalto pelos generais de pijama Braga Netto, Augusto Heleno e Luiz Ramos. O resto foi consequência.
Eduardo Bolsonaro já deve estar recrutando o cabo e o soldado para o "contragolpe".
Pra frente, Brasil!
Vida que segue.
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Jamil Chade - Afeganistão: o cemitério dos impérios
Resumo da notícia
- Uma breve história dos fracassos, derrotas e decepções de grandes potências pelas montanhas e vales do Afeganistão
Ao tentar explicar uma das maiores humilhações em política externa em anos, o presidente Joe Biden lembrou nesta segunda-feira que o Afeganistão é também conhecido como "o cemitério de impérios". A história, de fato, confirma tal fama e a frase é tão antiga que não há um consenso sequer sobre quem a teria cunhado.
Com tribos organizadas em uma lógica de autodefesa, com uma topografia ingrata ao invasor e com uma história de resistência, a região tem um percurso que se confunde com o trauma de potências que, uma após outra, descobriram que a vitória jamais está assegurada nas montanhas do país no centro da Ásia.
Alexandre o Grande por pouco não caiu na cilada afegã. Ainda no século 8, quando os árabes decidiram tomar Kandahar, o grupo de 20 mil soldados foi praticamente aniquilado. Apenas 5 mil sobreviveram. A islamização do Afeganistão, assim, levou dois séculos para ocorrer. E, mesmo quando foi realizada, algumas das regiões do país conseguiram resistir por mais cem anos.
O império Mongol também descobriu que não seria uma batalha fácil. Foi em terras afegãs que o neto de Genghis Khan seria morto, no século 13. Outros também fracassaram em dominar a região nos séculos seguintes.
O Afeganistão dito "moderno" foi estabelecido em 1747. Mas, desde então outros tantos foram os impérios que descobriram como os vales são traiçoeiros.
Entre 1839 e 1842, foi a vez do Império Britânico descobrir que não havia como vencer. Nos 80 anos seguintes, Londres tentou mais duas vezes. Exaustos, os britânicos desistiram e deram, em 1919, a independência ao país.
Em 1979, depois de conquistar e estabilizar pela força parte importante da Ásia Central, os soviéticos acreditavam que o Afeganistão seria apenas mais um capítulo da expansão da URSS. Dez anos depois, foram obrigados a abandonar a região, com sua credibilidade destruída.
Agora, os EUA deixam o Afeganistão depois de ter despejado sobre o país mais dinheiro do que destinaram para a reconstrução da Europa, depois da Segunda Guerra Mundial. Não por acaso, um ditado popular no país alerta aos estrangeiros: "vocês têm relógios. Nós temos tempo".
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Análise: Frieza de Biden sobre vitória taleban lembra que Cabul é pior que Saigon
Discurso sem empatia do americano ante queda afegã fará aliados refazerem contas
O desastre político e de imagem para os Estados Unidos no Afeganistão está evoluindo de forma tão rápida quanto a queda do país para as tropas do Taleban.
O desassombrado —e atrasado— discurso do presidente Joe Biden estabeleceu coerência com o que ele vinha falando: os afegãos que se virem, o contribuinte americano não vai aguentar a pantomima.

A única admissão de erro foi ter acreditado na marionete Ashraf Ghani, o presidente afegão que ele recriminou por fugir do país no domingo (15), selando a vitória taleban em Cabul. As coisas ocorreram mais rapidamente do que o previsto, disse Biden.
Nada além de um certo nojinho acerca das imagens grotescas de afegãos tentando fugir da capital e se agarrando à fuselagem de gigantes cargueiros C-17, só para cair das alturas depois, que não estariam deslocadas em filmes como "Guerra Mundial Z".
O vídeo da cena evoca, num sinistro círculo narrativo, os pequenos pontos filmados em 11 de setembro de 2001 enquanto as Torres Gêmeas ardiam por obra do mais famoso hóspede do Taleban, Osama bin Laden.
Lá, como agora, a qualidade do vídeo não permite a noção clara do horror de corpos caindo para a morte. Em Nova York, fugiam das chamas. Em Cabul, do terror presumido apesar das promessas talebans de uma inaudita moderação.
Nos últimos dias, foram evocadas as imagens da corrida desesperada de americanos para deixar Saigon enquanto as tropas comunistas do Vietnã invadiam a capital do protetorado americano no sul do país, em 1975. A ideia do fantasma de Saigon pegou tanto que o próprio secretário de Estado, Antony Blinken, reforçou a noção ao vivo no domingo (15): "Isto não é Saigon".
Ele estava certo, por motivos errados. É pior que Saigon, onde os EUA foram humilhados numa guerra que se arrastou por uma década. Agora, em Cabul, são 20 anos de esforços desorientados em vão, e à humilhação é adicionada uma mancha indelével: o abandono dos aliados que se expuseram durante anos de uma ocupação impopular do país asiático.
Claro, havia vietnamitas do lado americano, mas o contexto não era o de reconstrução como no Afeganistão.
Não só esses colaboradores, uma legião de pessoas como Ahmad Ali, que trabalhava no começo dos anos 2010 em Cabul como “fixer” —o faz-tudo do jornalista ocidental enviado a locais inóspitos, um misto de tradutor, assistente, consultor e, muitas vezes, motorista.
Ahmad, que trabalhou com a Folha em 2011 no Afeganistão, hoje vive bem em Viena, trabalhando em um organismo internacional. Mas seus dois irmãos, não. "Eu não ouvi mais falar neles. Eles estão em perigo", contou, por mensagem.
Ele não sabe, mas supõe que os dois jovens estão entre os 2.000 cabulitas que passaram a noite na pista do ironicamente chamado Aeroporto Internacional Hamid Karzai, em homenagem ao primeiro presidente do "Afeganistão democrático", aspas compulsórias, inventado pelos EUA.
Essa gente não pode ter sido colaboracionista, mas acreditou num país com oportunidades diferentes das existentes sob o Taleban, sob a guerra civil, sob a ocupação soviética. Agora, correm o risco de serem tachadas de inimigas do Emirado Islâmico do Afeganistão.
Como disse em seu protelado discurso nesta segunda (16), Biden assumiu o risco, embora o vexame ocorrido nas duas últimas semanas pareça ser impossível de contornar. Os EUA já abandonaram aliados ocasionais antes, como os curdos do norte da Síria podem lembrar bem ao serem deixados na mão por Donald Trump em 2019.
Nos anos do republicano no poder, países da Otan e parceiros históricos como Coreia do Sul e Japão viam o risco de traição surgir a cada tuíte do mercurial presidente. Mas há particularidades que tornam o caso afegão único. O país, na sua forma atual, é uma confusão criada a partir de uma ideia fora do lugar americana, a de que a semente da ocupação floresceria a democracia no Hindu Kush.
Como isso não aconteceu, por óbvio, restou a volta ao padrão tribal de antes. Neste sentido, a fala de Biden foi um exemplo cru de "realpolitik", com rara franqueza. Construção de nações, disse, é mesmo uma balela para enganar bem-intencionados enquanto jogamos um jogo maior.
É verdade, e provavelmente funcionará para um público doméstico não muito afeito ao que acontece pelo mundo. Nisso, a frieza de Biden tem seu sentido —em outras sociedades, já seria possível estimar o custo de tudo isso sobre sua reeleição. Mas azar de quem acreditou nos EUA antes, como os irmãos de Ali. A esta altura, aliados americanos em todo o mundo devem estar refazendo suas contas.
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Biden: 'EUA não podem estar em uma guerra na qual nem afegãos querem lutar'
16/08/2021 17h12
Atualizada em 16/08/2021 19h52
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, admitiu hoje em pronunciamento que o Taleban tomou o poder no Afeganistão mais rápido do que o previsto, mas que as tropas norte-americanas não devem lutar uma guerra na qual os próprios afegãos não querem continuar e que não se arrepende de suas decisões.
"A verdade é que o [governo do] Afeganistão caiu mais rápido do que pensávamos. Os líderes afegãos desistiram e fugiram. As forças afegãs colapsaram", disse.

Tropas dos EUA passaram 20 anos no Afeganistão; veja cronologia da guerra
Os desenvolvimentos da última semana reforçam que encerrar o envolvimento dos militares americanos no Afeganistão agora era a decisão certa. As tropas americanas não devem nem podem continuar lutando e morrendo em uma guerra que as tropas afegãs não estão dispostas a lutar por si próprias.
Essa é a primeira vez que o presidente dos EUA se manifesta sobre o assunto. Ele passou o fim de semana em Camp David, a casa de férias presidencial, e antecipou o retorno para falar à imprensa. Leia aqui os principais momentos do discurso de Biden.
Ontem, o Taleban tomou Cabul, a capital do Afeganistão, depois de conquistar as cidades adjacentes em uma campanha relâmpago sem muita resistência.
O grupo fundamentalista voltou ao poder depois de duas décadas, causando tumulto entre a população, que tenta deixar o país —imagens mostram as ruas da cidade congestionadas, e civis tentando escalar a parte externa de aviões na esperança de conseguirem sair.
As cenas caóticas geraram uma crise para a Casa Branca, cuja decisão de retirar as tropas do Afeganistão foi apontada como um dos motivos pela aceleração do avanço do grupo.
Biden afirmou que o país deu "todas as chances" ao país. "Nós gastamos mais de US$ 1 trilhão, treinamos o Exército afegão de 300 mil soldados fortes, incrivelmente bem-equipados [...]. Demos a eles toda ferramenta que poderiam precisar, pagamos salários, fizemos manutenções da Força Aérea. Demos todas as chances para que eles pudessem lutar pelo futuro deles", afirmou.
Se o Afeganistão não consegue fazer resistência ao Taleban, não há chance que em um ano, cinco, vinte anos, os americanos conseguiriam fazer ali alguma diferença.
'Força devastadora'
Biden advertiu o Taleban, dizendo que se o grupo atacar norte-americanos ou atrapalhar a operação, a resposta será "rápida e forte". "Defenderemos nosso povo com força devastadora, se necessário", falou.
Ele disse que a missão atual é retirar os americanos e aliados o mais rápido possível, e que assim que isso acabar, a guerra terá terminado.
Segundo ele, os EUA não começaram a evacuação antes da situação se tornar crítica por dois motivos. O primeiro, é que os afegãos não queriam deixar o país, porque ainda tinham esperança. O segundo, que o governo os dissuadiu de organizar um "êxodo em massa" para evitar criar uma "crise de confiança".
"As tropas americanas estão desempenhando essa missão tão profissional e efetivamente como sempre fazem. Mas não é sem risco", declarou.
'Sem arrependimentos'
Biden reafirmou que herdou o acordo para retirar as tropas americanas do Afeganistão do seu antecessor, Donald Trump, mas disse que essa é a decisão correta.
"Nós terminaremos a guerra mais longa dos EUA depois de 20 anos de banho de sangue", declarou. "Sejamos sinceros, a nossa missão no Afeganistão teve muitos erros. Eu sou o quarto presidente a assumir a guerra. Dois democratas e dois republicanos. E não vou passar essa responsabilidade para um quinto presidente".
Eu sei que a minha decisão será criticada, mas eu prefiro isso do que passar para o próximo presidente.
O democrata disse ainda que não existe uma hora ideal para a retirada dos soldados norte-americanos, razão pela qual a guerra se arrasta há tanto.
"Estou profundamente entristecido pelos fatos que encaramos agora. Mas não me arrependo da decisão de encerrar a guerra dos EUA no Afeganistão", disse, acrescentando que a situação no país do Oriente Médio é "profundamente pessoal" para ele.

Na última declaração pública, na última terça-feira (10), Biden disse não lamentar a decisão de retirar as tropas do país do Afeganistão até o final de agosto. No sábado, Biden anunciou, em nota, que enviaria mais de 5.000 soldados a Cabul para assegurar a evacuação de civis. Depois, anunciou mais mil.
Pílula amarga para Washington
A situação é encarada como o maior desafio de política externa para o governo Biden desde as eleições.
Todos os principais jornais americanos, incluindo os que receberam com alívio sua eleição em novembro passado, falam de "desastre" (CNN) ou de um Biden "na defensiva" (Washington Post).
"Justo ou injusto, a história lembrará que Joe Biden foi quem presidiu a humilhante conclusão da experiência americana no Afeganistão", após 20 anos de guerra, afirma o The New York Times.
Joe Biden estava decidido a retirar as tropas de seu país até o fim do mês e insistiu que não passaria esta guerra - a mais longa da história dos Estados Unidos - a outro presidente.
"Isto não é Saigon", afirmou ontem o secretário de Estado americano, Antony Blinken, ao recordar a queda da capital vietnamita, em 1975, um momento doloroso para os Estados Unidos.
Mas a pílula é amarga para Washington, que não conseguiu construir um governo democrático capaz de resistir aos talebans, apesar do investimento de bilhões de dólares e do apoio militar durante duas décadas.

Para dezenas de milhares de pessoas que buscaram refúgio em Cabul nas últimas semanas o sentimento era de apreensão e temor.
"Temo que aconteçam combates aqui. Prefiro retornar para casa, onde sei que já parou", declarou à AFP um médico de 35 anos que chegou à capital, com a família, procedente de Kunduz.
Quando governaram o Afeganistão, entre 1996 e 2001, os talebans adotaram uma versão extremamente rigorosa da lei islâmica.
Nas últimas semanas, os insurgentes prometeram que, se retornassem ao poder, respeitariam os direitos humanos, em particular os das mulheres, de acordo com os "valores islâmicos". Entretanto, nas áreas que conquistaram nas últimas semanas já foram acusados de violações.
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Trump pede a renúncia de Biden
A Casa Branca pretendia dedicar as próximas semanas a um projeto faraônico, aplicando aos Estados Unidos algumas medidas do estado de bem-estar europeu, com mais apoio para gastos médicos e universitários. Porém, o colapso do governo afegão e seu exército financiado por Washington rompe esse planejamento.
O silêncio do presidente democrata diante da angústia de muitos civis afegãos contrasta com a imagem de homem compassivo que ele costuma cultivar. A oposição republicana, até agora calada porque a opinião pública americana era majoritariamente favorável à retirada das tropas, se jogou contra o governo democrata pelo que considera uma humilhação para o exército americano.
O antecessor de Biden, o republicano Donald Trump, pediu sua renúncia, apesar de ter sido Trump quem decidiu a retirada definitiva das tropas americanas partir de 1º de maio de 2021, prazo prorrogado até 31 de agosto pelo governo democrata.
"O resultado no Afeganistão, incluindo a retirada, teria sido totalmente diferente se o governo Trump estivesse a cargo. A quem ou a o que Joe Biden se renderá em seguida? Alguém deveria perguntar se é possível encontrá-lo", afirmou o ex-presidente em nota nesta segunda-feira.
*Com informações da AFP
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Tariq Ali: derrota dos EUA pelo Talibã pode ser ponto de inflexão e lembra o Vietnã
Jornalista e ativista de esquerda, o paquistanês radicado na Inglaterra Tariq Ali disse que a tomada de Cabul, Afeganistão, pelo Talibã foi “triunfante” e lembra a derrota dos Estados Unidos em Saigon, em 1975

247 - Jornalista e ativista de esquerda, o paquistanês radicado na Inglaterra Tariq Ali afirmou, em texto publicado no portal Sidecar e traduzido pela Boitempo, que a tomada de Cabul, capital do Afeganistão, pelo Talibã “é uma grande derrota política e ideológica para o Império Estadunidense”.
Ele comparou a situação dos Estados Unidos no país, onde iniciaram uma guerra em 2001, com a derrota dos norte-americanos no Vietnã. “Os helicópteros lotados que transportavam funcionários da Embaixada dos Estados Unidos para o aeroporto de Cabul lembravam surpreendentemente as cenas em Saigon – agora Ho Chi Minh City – em abril de 1975”.
Ainda destacou a rapidez das forças talibãs em tomar conta do país e derrotar o governo apoiado pelos norte-americanos. “Foi impressionante e sua perspicácia estratégica notável”, segundo o autor, que complementa: “uma ofensiva de uma semana terminou triunfantemente em Cabul”.
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“O exército afegão de 300.000 homens desmoronou. Muitos se recusaram a lutar. Na verdade, milhares deles foram para o Talibã, que imediatamente exigiu a rendição incondicional do governo fantoche. O presidente Ashraf Ghani, um dos favoritos da mídia estadunidense, fugiu do país e buscou refúgio em Omã. A bandeira do emirado revivido está agora tremulando sobre seu palácio presidencial”, destacou.
Ele lembrou, no entanto, que a melhor comparação com a situação é o Sudão do século XIX, “quando as forças do Mahdi invadiram Cartum e martirizaram o general Gordon”, que foi um “revés para o Império Britânico”, segundo o socialista inglês e designer daquele século William Morris, amigo próximo de Eleanor Marx, filha do fundador do marxismo.
Ali destacou, porém, que, ao contrário do do Sudão, onde os insurgentes sudaneses mataram uma guarnição inteira, “Cabul mudou de mãos com pouco derramamento de sangue”. “O Talibã nem mesmo tentou tomar a embaixada dos EUA, muito menos mirar no pessoal estadunidense”, destacou.
Crise do domínio dos EUA
Para ele, a derrota dos EUA era "previsível". Ele ressalta que é um crítico há muito tempo das políticas do Talibã, fundamentalistas islâmicos, mas afirma que “sua conquista não pode ser negada”, pois “em um período em que os EUA destruíram um país árabe após o outro, não surgiu nenhuma resistência que pudesse desafiar os ocupantes”. “Essa derrota pode muito bem ser um ponto de inflexão”, disse
“É por isso que os políticos europeus estão reclamando. Eles apoiaram os EUA incondicionalmente no Afeganistão e também sofreram uma humilhação – nada mais do que a Grã-Bretanha”, afirma.
O autor destacou a crise da dominação norte-americana, que se encontrou sem saída, “pois o Talibã não poderia ser subjugado, não importa quanto tempo permanecesse”. Por isso, argumenta que “a noção de que a retirada precipitada de Biden de alguma forma fortaleceu os militantes é bobagem”.
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A esquerda depois de Jair Bolsonaro - Luis Felipe Miguel
Por Luis Felipe Miguel

Por Luis Felipe Miguel
Quando o projeto da derrubada de Dilma Rousseff ganhou as ruas, o Congresso e a mídia, com o governo se mostrando singularmente incapaz de reação, vaticinou-se o fim do momento petista da esquerda brasileira. Um partido nascido no calor das lutas operárias do final dos anos 1970, que crescera na política institucional e conquistara a presidência da República por quatro vezes seguidas, deveria ser capaz de uma reação muito mais vigorosa contra a trama preparada para atingi-lo.
Para quem acompanhou a mobilização em defesa do mandato que a presidente conquistara nas urnas, estava claro que a resistência vinha muito mais de novos coletivos juvenis, feministas, negros, LGBTQI+ e periféricos do que de uma militância petista já envelhecida e acomodada. Muitos defendiam a legalidade sem sequer apoiar o governo, como expressou a maravilhosa faixa vista em algumas manifestações: “Fica, Dilma, mas melhora”.
Lula não saiu incólume. Tinha sido o maior líder popular da história do Brasil, sem dúvida, mas fora colocado na defensiva. A solidariedade ao ex-presidente, contra a perseguição judicial e midiática que sofria, foi expressada por democratas de diferentes matizes, mas havia quase um consenso de que seu tempo estava passando. Era um nome muito forte para 2018, claro, mas pôde ser eliminado da disputa com facilidade. O ato na frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo rendeu belas fotos, mas a verdade é que a reação à prisão arbitrária de Lula foi fraca. Seja porque o lulismo optou por um caminho desmobilizador, que reduzia a participação política ao voto, seja porque a campanha incessante de desconstrução da imagem do ex-presidente tinha rendido frutos, o fato é que sua liderança parecia esvaziada, impotente.
As eleições de 2016, de 2018 e de 2020 não foram a catástrofe para o PT que alguns afoitos vaticinavam, mas revelaram um partido fragilizado. O PSOL, apontado como possível sucessor, cresceu pouco no voto popular, mas atraía lideranças mais jovens e parecia encarnar a promessa de renovação. Guilherme Boulos foi derrotado na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2020, mas chegou ao segundo turno, bem à frente do candidato petista. Muitos não hesitaram em saudá-lo como o futuro da esquerda no Brasil.
O cenário mudou com a libertação e recuperação dos direitos políticos pelo ex-presidente Lula. Ele cresceu politicamente na cadeia, pela dignidade inegável com que enfrentou o cárcere. Mesmo para quem já percebia a inanidade dos processos preparados pela Lava Jato, a exposição das estranhas da operação foi chocante, como comprovação da corrupção profunda de vastos setores do Judiciário e do Ministério Público – o que também favoreceu Lula, alvo principal do que, estava evidente, foi uma verdadeira conspiração contra a democracia brasileira.
Mas o mais importante foi o clima político no momento de sua soltura. O país atravessava o pior pedaço da crise sanitária, econômica e social desencadeada pela pandemia, com o governo Bolsonaro insistindo no negacionismo, indiferente aos custos humanos. A esperança de que seria possível afastá-lo do cargo já se dissipara, com a abertura do governo ao Centrão, a hesitação da oposição de direita, preocupada em não comprometer a agenda econômica que compartilha com o bolsonarismo, e a reiterada opção preferencial do STF por contemporizar. Lula surgiu, então, como aquele que era capaz de dar voz à revolta e prometer a retomada de um caminho de sanidade, estabilidade e desenvolvimento para o Brasil.
Falta muito tempo para as eleições do próximo ano, num cenário tumultuado – a começar pelas ameaças de um novo golpe, alardeadas todo dia pelo presidente da República. Mas, no momento, Lula é o franco favorito. O desespero evidente de Bolsonaro é o melhor indício de que ele mesmo avalia que suas chances nas urnas são diminutas. A chamada “terceira via” não parece capaz de se viabilizar e oscila entre insistir em nomes tarimbados que mostram desempenho pífio ou buscar um novato, manobra incerta no momento em que o discurso da antipolítica perde tração. E Ciro Gomes, mais uma vez candidato de si mesmo, queimado à esquerda desde sua promenade parisiense em 2018, tem dificuldade para se credenciar junto à direita, arriscando ficar aquém de seu teto histórico de 12% dos votos.
Lula não apenas entra na corrida como favorito. É bem provável que ele surja como candidato único da esquerda (à parte PSTU e talvez PCB, que têm registro eleitoral irrelevante). Atraiu o PSB, mantém a fidelidade do PCdoB e há boa chance de contar com o apoio do PSOL. A candidatura do deputado Glauber Braga está posta, mas serve sobretudo para alimentar os confrontos internos do partido. Caso seja mesmo lançado candidato, Braga – por mais que conte, na esquerda, com reconhecimento unânime como parlamentar brilhante – está condenado a ser mero figurante na disputa presidencial.
Mas o que Lula vai fazer com tamanho favoritismo? Qual pode ser o caminho de um novo governo de centro-esquerda no Brasil pós-Bolsonaro?
Os desafios são grandes. Desde o golpe de 2016, o país vive um processo acelerado de desconstitucionalização, no qual o pacto que originou a carta de 1988 foi rompido por decisão unilateral das elites. O que nela está escrito vale ou não vale de acordo com as circunstâncias e com o alvo da decisão. Os poderes vivem numa permanente queda de braço para ver quem manda, já que as regras perderam eficácia. O horizonte normativo a animava a Constituição, de um país menos injusto e menos violento, foi desfigurado, o que se traduziu no encolhimento dos direitos e das políticas sociais – a obra comum dos governos Temer e Bolsonaro. O outro lado da moeda é o desmonte do Estado, por uma política seja de privatizações irresponsáveis, seja de deliberado subfinanciamento. Da saúde à ciência, da proteção ambiental à educação e à cultura, não há uma área que não sofra as consequências do assalto às políticas públicas.
Ao mesmo tempo, movidos por demofobia e, ainda mais, pelo apetite pelas benesses do poder, os militares se rendem à tentação de tutelar o governo civil. Por fim (e sem que a lista seja exaustiva), é preciso lembrar de uma extrema-direita agressiva, que não vai evaporar com a eventual derrota de Bolsonaro e que está sendo adestrada para conflagrar qualquer retomada democrática no Brasil. Um grupo, convém assinalar, fortemente armado, dada sua penetração entre militares, policiais, milicianos e também entre os “cidadãos de bem”, que aproveitaram as recentes facilidades para a aquisição de pistolas ou fuzis.
Lula, como de costume, emite sinais ambíguos sobre o que pretende fazer. Declarações contra as privatizações e em favor do retorno de um Estado capaz de promover bem-estar e induzir desenvolvimento convivem com gestos destinados a acalmar “o mercado”, que é o nome de fantasia que a imprensa dá ao grande capital. A defesa de medidas democratizantes, que melhorem a qualidade da representação política no Brasil, se combina com acenos para o Centrão e para líderes religiosos negocistas.
O caminho da recomposição do arco lulista original, aquele do início do primeiro mandato, garantiria a “governabilidade”, entendida em seus termos mais convencionais: maioria no Congresso, relações amigáveis com o empresariado, relativa trégua com a mídia corporativa. O problema é que as condições para arrancar as contrapartidas (as políticas sociais compensatórias, a ampliação das oportunidades para os integrantes dos grupos mais vulneráveis, um esboço de projeto nacional de desenvolvimento) estão muito pioradas, seja pelo recuo dos marcos legais e enfraquecimento do Estado, seja pela presença de uma burguesia que exige uma parcela ainda maior da riqueza e de uma classe média intoxicada pelo medo de ver diminuída a distância que a separa dos mais pobres.
Neste quadro, uma nova presidência de Lula significaria a normalização da ordem que foi instaurada a partir do golpe de 2016, uma normalização mais perfeita do que seria possível sob qualquer político conservador. Um presidente de esquerda, mas acomodado aos direitos perdidos, à economia desnacionalizada e à Constituição conspurcada. Na derrota, Bolsonaro estaria prestando um último serviço à destruição da democracia brasileira: o de encarnar o bode na sala. Sua saída de cena geraria um enorme alívio – bodes na sala de fato causam muito transtorno. Por contraste, ficaria a impressão de que a ordem social e política aviltada pelos retrocessos sofridos a partir de 2016 é o avanço possível, a ser comemorado.
É verdade que fica difícil imaginar um cenário diverso, de rápida reversão das derrotas dos últimos anos, dada a fraqueza do campo popular. Mas convém colocar na equação também o fato de que Lula pode negociar em condição vantajosa. Ele é o favorito, o que basta para atrair a massa de políticos que não suportam a dureza de estar na oposição. Ele é a melhor promessa de pacificação do país, o que interessa a todos que veem no Brasil mais do que um território a ser saqueado. A direita está cindida e sem um nome viável; a ampla coalizão de forças que se uniu para desferir o golpe de 2016 não opera mais. Portanto, é possível tentar algo mais do que apenas ceder. É possível cobrar compromissos mínimos dos novos aliados – a começar pelo compromisso com a efetiva reconstitucionalização do país.
O pacto lulista original foi marcado pelo entendimento de que a transformação social no Brasil estava bloqueada e que era preciso agir com enorme tato para não afrontar privilégios e garantir o mais básico – em primeiro lugar, a erradicação da miséria. O tato incluía, notadamente, evitar qualquer esforço de mobilização e organização do campo popular. O resultado, como se viu, foi que, no momento em que a classe dominante decidiu reverter a situação, a capacidade de resistência era diminuta. A reedição de um acordo nestes termos, que bloqueie de antemão qualquer ação para mudar a correlação de forças, é a garantia de que uma retomada democrática levará, como outras vezes na história do Brasil, a um vôo de galinha.
Não é fácil a tarefa de construir a democracia no capitalismo periférico. Se nos países centrais a erosão das condições que permitiram seu florescimento no século XX já leva a processos de “desdemocratização”, que dirá do Brasil, que tem uma classe dominante alérgica a qualquer forma de justiça social e com tanto medo do povo que prefere, como já observava Florestan Fernandes, se manter como sócia menor do capitalismo internacional a correr o risco de enfrentar por conta própria os destituídos de seu país. Para uma esquerda que aspira voltar ao poder em condições tão adversas, é hora de usar a imaginação política e buscar soluções novas, não de voltar a trilhar itinerários cujos limites já estão demonstrados pela história recente.
(Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 15 de agosto de 2021.)
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Os talibãs - Flávio Aguiar

Por Flávio Aguiar
Para os analistas de geopolítica, o livro de Tim Marshall, Prisoners of Geography: Ten Maps that Tell You Everything You Need to Know About Global Politics, é extremamente original, e necessário. Seu objetivo é expor e demonstrar, porque é sua tese, como o design político mundial, desde a Antiguidade até os dias de hoje, dependeu da configuração geográfica dos continentes, seus rios, montanhas, planícies e dos mares.
Tim Marshall é um jornalista britânico, agora com 62 anos, que trabalhou durante pelo menos 25 deles para uma série de mídias de primeira linha nos quatro cantos do mundo – exceto, pelo que pude verificar na sua biografia, na América Latina. Ou pelo menos, neste quadrante do mundo, a sua frequência foi menor do que em outros, o que se reflete, como exporei, no texto.
Este livro em foco – de que existe uma excelente versão para crianças[1] – procura reunir uma reflexão abrangente sobre sua experiência como analista e testemunha da política internacional durante as últimas décadas do século passado e as primeiras deste, mergulhando em profundidade do passado histórico.
Ao invés da praxe habitual, de começar pelas positivas, começarei pelas negativas, que são relativamente poucas, depois passando aquelas, que são muitas.
A sereia geográfica
A primeira negativa me faz glosar o título, Prisioneiros da geografia. Acontece que o autor também se mostra um “prisioneiro da geografia”. Ou seja, parece um tanto encantado com sua tese, a de que a geografia do terreno, dos rios e dos mares, determinou e ainda determina predominantemente as opções políticas dos dirigentes das etnias, dos povos, das nações, dos estados modernos e, portanto, o desenho da geopolítica, como afirmado no primeiro parágrafo desta resenha. A tese é esgrimida com muita informação e originalidade, mas peca por uma dose de exagero. Há uma leve mas insistente tendência a tornar natural aquilo que é fruto de tramoias e maquinações políticas, embora algumas destas também sejam expostas de maneira objetiva e impiedosa.
A América Latina
Segunda e última negativa desta resenha: a América Latina. Vê-se logo de saída que o autor demonstra muito menos familiaridade com ela do que com os outros continentes analisados: Europa, Ásia, África, partes da Oceania e até o Ártico, embora este não seja propriamente um continente, mas uma cada vez mais ameaçada calota de gelo com passagens abertas cada vez menos eventuais durante o ano.
Dou um exemplo. Ao analisar a constituição histórica do Brasil, o autor assinala as dificuldades econômicas impostas pelo relativo isolamento entre as diferentes regiões, e a problemática situação da floresta amazônica, santuário ameaçado e também terreno impróprio para a agricultura. Daí assinala a fertilidade das terras mais ao sul, depois do cerrado que cerca a floresta, assinalando que a colonização portuguesa e o subsequente Brasil ali se fixaram por 300 anos antes de começar a se expandir pelo resto do território. Ou seja, ele simplesmente remete ao limbo a ocupação açucareira do atual Nordeste e o ciclo do ouro nas Minas Gerais.
Assim mesmo, seu ponto de vista contrabalança, de modo instigante, aquela visão tradicional do Brasil “abençoado pela sua Natureza exuberante”, apontando as dificuldades históricas e geográficas de seus planaltos, escarpas alcantiladas e do litoral acidentado, que fez do futuro país, inicialmente, um aglomerado de arquipélagos com maior ligação com a metrópole do que entre suas “ilhas”.
Outro exemplo: o papel deletério do imperialismo norte-americano sobre a região é mencionado sim, mas de modo muito leve diante do seu peso histórico e esmagador de tentativas de libertar-se de seu círculo de ferro.
Passemos às positivas. Será impossível falar de todas. Citarei alguns exemplos.
Começo por um assunto extremamente atual: como explicar a força resiliente dos talibãs no Afeganistão, onde estão prestes a retomar o poder? O livro de Tim Marshall oferece uma hipótese bastante verossímil. Em termos mais recentes (embora a origem desta história comece na Antiguidade) tudo começa com a formação do atual Paquistão, inventado pelos britânicos para resolver o imbróglio que criaram na Índia e em parte de seu atual entorno. Numa tentativa de acomodar as tensões intra etnias, povos e religiões, os britânicos instituíram uma divisão: grosso modo, a Índia para os hindus e o Paquistão para os muçulmanos, o que, na ocasião (logo depois da Segunda Guerra Mundial), provocou uma enorme e tensa migração de um lado para o outro da fronteira desenhada.
Desta forma, reuniram-se no Paquistão (depois declarado uma República Islâmica) seis etnias principais, sendo a maior a dos Punjabis (44,7% da população), seguida dos Pashtuns (15,4%) e dos Sindhis (14,1%). Historicamente o convívio entre estas etnias esteve longe de ser amistoso, muitas vezes não passando de uma cordialidade sob a qual prosseguiam vicejando antigas rivalidades. Também a o fato de que “Paquistão” significa pouco para estes grupos, mais afeitos a suas lealdades antigas do que à novidade de uma “nação moderna”, de modelo europeu.
Ocorre que os Pashtuns são a maior etnia presente no vizinho Afeganistão (44% da população), ocupando quase a metade de seu território, a partir da fronteira com o Paquistão. O próprio nome “Afegão”, que deriva, dizem os eruditos na matéria, da palavra sânscrita “Asvakan” (“Cavaleiros”), designava, historicamente, os Pashtuns. “Afeganistão”, também uma República Islâmica, reúne, a raiz “Afghan” com o sufixo “stan”, da línguas Pashto (dos Pashtuns) e Persa (dos Iranianos), que quer dizer “lugar dos”. “Afeganistão” = “Lugar dos Afegãos”, isto é, historicamente, os “Pashtuns”. E – surpresa? – os Pashtuns são a base étnica e cultural dos Talibãs, um movimento político/religioso que emergiu em 1994 da raiz “Deobandi”, uma corrente muçulmana Sunita de tendência tradicionalista em meio à guerra civil que opunha a maioria Pashtun ao regime sucessor dos comunistas apoiados alguns anos antes pela naufragada União Soviética. Este movimento religioso, de raiz antiga, foi ampliado e intensificado por atividades acadêmicas que criaram uma base vasta de jovens e fieis militantes de sua causa.
Durante o conflito com os soviéticos os futuros talibãs contaram com o apoio dos Estados Unidos e seus aliados (incluindo o Paquistão), de tal modo que agora se pode dizer, com segurança, que Washington, em sua “retirada”, que muitos no país abandonado preferem chamar de “traição”, está sendo humilhada pelo que ajudou a semear. Sem falar que no labirinto dos Pashtuns crescia o grupo da Al-Qaïda, liderado por Osama Bin Laden, também apoiado, inicialmente, pelos EUA, além da Arábia Saudita. Deu no que deu.
Fatores decisivos
Três fatores são ainda decisivos nestes conflitos “de muitos gumes”, como dizia colega meu, José Jorge Peralta, nos tempos de USP.
O primeiro: historicamente, os Pashtuns têm muito mais familiaridade com o terreno hostil do país do que qualquer forças invasoras, sejam as extintas soviéticas ou as dos Estados Unidos e seus aliados. O território afegão, com regiões predominantemente montanhosas e/ou desérticas, oferecendo extremos de inverno e verão, favorece os habitantes tradicionais contra quaisquer invasores.
O segundo: a fronteira com o Paquistão, com o território imediatamente vizinho ocupado também por Pashtuns, facilita o trânsito vai-vem dos Talibãs, que podem se refugiar e se re-municiar no lado paquistanês.
O terceiro fator é o próprio Paquistão. Embora pertença ao exclusivo clube das nações com armas nucleares, o Paquistão é um país de população empobrecida, envolto em conflitos amargos: com a vizinha Índia, com os dissidentes separatistas da Cashemira, além dos internos e das relações difíceis com seus aliados ocidentais. Pressionado por estes últimos, o governo paquistanês rompeu relações com os Talibãs e passou a considerá-los um grupo “terrorista”. Porém nada interessa menos a este governo do que agravar as tensões internas entre etnias e correntes muçulmanas cujo convívio é problemático, para dizer o mínimo. Na prática, isto quer dizer que o governo, sediado em Islamabad, cidade situada a pouco mais de 150 km da fronteira com o Afeganistão, tem pouco interesse em hostilizar os Pashtuns.
A força resiliente dos Talibãs mostra-se, assim, inexpugnável. A ONU, os Estados Unidos e seus aliados, o próprio Paquistão podem considerá-los um grupo “terrorista”. O fato é que eles dispõem de uma base social considerável tanto no Afeganistão quanto no Paquistão. Além disto, os Pashtuns têm uma presença significativa na Índia, nos Emirados Árabes Unidos, no Irã, até mesmo nos Estados Unidos, e uma presença menor em sete outros países dispersos pelo mundo.
A ação de britânicos e franceses
O exemplo explorado acima – os talibãs – expõe o papel do colonialismo/imperialismo britânico no mundo todo, em particular na África, no Oriente Médio e na Ásia, na semeadura dos atuais conflitos armados nas regiões que estiveram sob seu domínio. Seu papel e seu legado nefastos também se espalham por outras regiões, como a América Latina e a Oceania. Também contou com uma ajuda alheia: a dos Estados Unidos (com um estilo diferente), de outros países europeus, como a França, a Bélgica, a Alemanha, a Holanda e em escala menor, a Itália. Tiveram antecessores ilustres no colonialismo espanhol e português.
Porém os britânicos, com ajuda sobretudo dos franceses, se especializaram em retalhar, com suas linhas traçadas em mapas estendidos sobre uma mesa europeia, povos e geografias pelo mundo que dominavam, separando o que deveria permanecer unido e unindo o que deveria permanecer separado. Estas linhas não eram “arbitrárias”, pois atendiam a seus interesses geopolíticos, mas o eram em relação ao que retalhavam.
A linha Sykes-Picot
Um dos casos mais dramáticos destes recortes, que o livro de Marshall examina, é o da chamada linha Sykes-Picot no Oriente Médio. Entre o final de 1915 e o começo de 1916, em meio à guerra de trincheiras na Europa, dois diplomatas, o britânico Coronel Sir Mark Sykes e o francês François George-Picot, negociaram o acordo que resultou – depois de algumas negociações suplementares – no acordo que dividiu o Oriente Médio em duas fatias, diante do bolo do Império Otomano que se desmanchava.
Uma linha quase reta, diz a tradição que inicialmente traçada por Sykes, dividia a região desde Haifa, hoje um porto mediterrâneo de Israel, até Kirkuk, hoje no nordeste do Iraque, já próximo da fronteira com o vizinho Irã. Ao norte desta linha, o mando seria francês; ao sul, britânico. Desta linha, depois aceita pela Rússia (já envolta na rebeldia que levou à Grande Revolução) e pela Itália, decorreu a existência de países-estados de fronteiras criadas algo artificialmente, como Síria e Jordânia, Iraque e Kuwait, Líbano e a futura cereja do bolo para o que resta do antigo Ocidente, Israel. Também decorreu daí o status de refugiados em sua própria terra, em condições diferentes entre si, de palestinos e curdos.
A pizza de Vladimir Putin
Há outros casos em estudo, onde a geografia física impõe sua presença sobre as linhas traçadas em mesas de negociação. Um destes exemplos abre o livro. Diz Marshall que Vladimir Putin deve pensar todos os dias numa fatia de pizza. Esta tem uma forma triangular; e triangular é a forma de um mapa que começa na base larga dos Urais, uma das fronteiras entre a Ásia e a Europa, atravessa a planície russa, em cujo centro está a capital, Moscou, depois prossegue tendo ao norte os países bálticos, Estônia, Letônia e Lituânia, ao meio a Bielo-Rússia, e a Ucrânia ao sul, chegando à ponta-fina da pizza, a Polônia. Daí para frente se estende outra região largamente plana, através do norte da Alemanha, da França, compreendendo a Bélgica e a Holanda, até o Oceano Atlântico.
Segundo Marshall, entre outros fatores é esta pizza que explica, por exemplo, o apoio inconteste de Putin a uma figura problemática mais útil para ele, como Lukaschenko, na Bielo-Rússia, e a decisão de re-anexar a Crimeia, quando o antigo Ocidente beligerante conseguiu derrubar um governo pró-russo em Kiev, na Ucrânia. O lado ocidental da Rússia está, por assim dizer, cercado pela geografia que, desde o Atlântico, não oferece qualquer obstáculo maior a forças invasoras. Além do fato de que a maioria dos portos russos, com exceção daqueles no Mar Negro, agora re-incluindo Sebastopol, na Crimeia, pertence bloqueada pelo gelo durante boa parte do ano.
A dura lição para Napoleão e Hitler
Penso que estes exemplos são suficientes, dentre muitos outros, para sustentar uma tese implícita no livro de Marshall, qual seja, a de que, mesmo numa época de drones e guerra nas estrelas, o fator decisivo no caso de um confronto armado ou simplesmente de contagem de forças, também além da aviação e da marinha, entre os fatores decisivos estão forças terrestres, portos, aeroportos, linhas de comunicação e abastecimento e o conhecimento e o domínio do terreno físico e humano onde tudo se decide.
Uma dura lição que abateu os esforços, tão diferentes entre si, de Napoleão e Hitler na Rússia. Invadir a Rússia a partir do Ocidente é uma coisa. Ocupá-la é outra. À medida que a ocupação avança, se distendem as linhas de comunicação e abastecimento. As dificuldades de sua revitalização terminaram provocando o colapso daquelas invasões, que enfrentaram, sobretudo no caso da segunda, uma tenaz resistência no terreno. No caso da Segunda Guerra Mundial, um fator que favoreceu os soviéticos foi o “atraso” de seu material bélico, sobretudo no terreno de blindados, diante da “tecnologia de primeira linha” dos alemães.
Os soviéticos, usando poucos e simples modelos, tinham mais facilidade em produzi-los em massa e suas peças de reposição, do que os sofisticados aparelhos inovadores dos alemães, além de que estes tinham uma enorme dificuldade para fazer chegar os tanques e outros armamentos vitais e suas peças de reposição através de um terreno cada vaso mais hostil.
Mutatis mutandis, uma lição parecida atingiu tanto os soviéticos no passado, quanto os norte-americanos e seus aliados hoje no Afeganistão.
Referência
Tim Marshall. Prisoners of Geography: Ten Maps that Tell You Everything You Need to Know About Global Politics. Londres: Elliot & Thompson, 2019.
Nota
[1] Marshall, Tim. Prisoners of Geography. Our World Explained in 12 Simple Maps. Com ilustrações de Grace Easton e Jessica Smith. Londres: Elliot & Thompson, Simon & Schuster, 2019.
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Sobre baionetas e o poder civil - Alexandre Aragão de Albuquerque
Por Alexandre Aragão de Albuquerque

Otto von Bismarck (1815-1898), o chanceler de ferro da Alemanha militarista, criador do Segundo Reich alemão, governou seus país voltado para conciliar os interesses da crescente burguesia industrial com o apetite voraz dos grandes proprietários de terra e da elite militar do século XIX. Afirmava que “tudo se pode fazer com baionetas, exceto sentar em cima delas”. Sendo assim, segundo ele, para manterem-se no poder, faz-se necessário às tiranias criar um colchão ideológico visando a legitimar suas ações.
A ideologia é um sistema discursivo com o qual a classe dominante, por meio do Estado, aquele poder coercitivo separado da sociedade, mascara tanto a divisão da sociedade quanto o somatório de privilégios obtido pela classe dominante devido aos movimentos de ocultação e de legitimação desta mesma divisão.
As ideologias querem substituir a verdade de fato pela certeza aparente de uma falsa consciência a qual, ao enganar-se a si mesma, toma os erros por evidências, e os absurdos por verdades de senso comum.Como breve exercício prático, analisemos o seguinte episódio recente. Em 03 de agosto de 2021, o general Ramos, Chefe da Secretaria Geral de Bolsonaro, publicou em seu twitter uma foto sorridente e feliz, ao lado do presidente do PTB, Roberto Jéferson, com os seguintes dizeres; “Recebi hoje a visita do Presidente do PTB, Roberto Jéferson. Mais um soldado na luta pela liberdade do nosso povo e pela democracia do nosso Brasil”.
No dia 13/08, dez dias após a ignominiosa postagem, Roberto Jéferson, o soldado querido e referendado pelo general Ramos, foi preso, por tempo indeterminado, por ordem do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre Moraes, dentro do inquérito que investiga a ação das milícias digitais bolsonaristas, por ameaçar publicamente as instituições democráticas, por meio inclusive de incitamento a ações armadas. O ministro Moraes também determinou busca e apreensão de armas e equipamentos eletrônicos em posse de Jéferson por sua participação nessas organizações criminosas.
As palavras-chaves do texto do general Ramos são: soldado, democracia, liberdade e povo. Com elas, ele busca montar um sofisma ideológico articulado com todas as mensagens emitidas pelo bolsonarismo. O sujeito central do sofisma do general é o soldado, o tipo idealizado por esta ideologia fascista. Aquele ente perfeito, imaculado, acima da sociedade, ao qual todos os civis devem prestar reverência e obediência.
Mas em uma democracia legítima, o sujeito central são os cidadãos autônomos, articulados em movimentos sociais e organizações representativas – como sindicatos, partidos políticos, associações civis – que constroem, defendem e garantem livremente a democracia de uma nação tendo como fundamento legal de suas ações políticas e civis a Constituição. Ao soldado, de fato, cabe a obrigação imposta pela Lei da defesa da nação diante do inimigo externo. Não compete ao soldado, sob nenhuma hipótese, tutelar a vida cidadã nem ameaçar a atuação dos Poderes republicanos.
O “colchão ideológico”, anunciado pelo chanceler de ferro Bismarck, visa, como num passe de mágica, ocultar os problemas da vida real com uma cortina de fumaça nas representações mentais, levando-as a perceberem-nos como resolvidos, num puro jogo de aparências. Em vez de despertar as forças mais profundas dos cidadãos em torno da luta por justiça e libertação, os tiranos buscam com estas mensagens produzir, como alimento, um tipo de ópio que confunda e anestesie a população diante da realidade. Este é o objetivo do colchão ideológico da classe dominante.
No último dia 11 de agosto, pode-se perceber uma nova edição desta crônica com o programado desfile de equipamentos militares, arcaicos e obsoletos, no âmbito da Praça dos Três Poderes, encomendado pelo general Braga Netto e tornado realidade pelo seu ordenança (soldado às ordens de uma autoridade militar) Bolsonaro.
O desfile compôs uma das diversas ações governamentais de ameaça à confirmação do voto eletrônico pela Câmara Federal, consolidado em nossa democracia desde as eleições municipais de 1996. Uma magnânima obra democrática brasileira que superou o voto em papel, motivo de grandes fraudes eleitorais desde tempos imemoriais. E eis novamente o soldado trazido à baila, de forma farsesca, apresentando-se em seu agir político partidário como um defensor da ordem democrática, ao querer impor sua autoridade imperativa, quando na verdade se apresenta como sua grande ameaça.
A tarefa do próximo Presidente eleito, juntamente com o Congresso nacional, situa-se no movimento político-jurídico de pleno retorno do Brasil à democracia. Isto implica uma ampla e profunda revisão constitucional do papel das Forças Armadas, proibindo terminantemente a sua intervenção na segurança do interior do Estado brasileiro; distinguindo claramente a defesa nacional contra a ameaça externa, papel das Forças Armadas, como um âmbito organizacional-funcional diferente da segurança interior; impedindo a intervenção operativa e de inteligência das Forças Armadas em assuntos circunscritos a este âmbito; repudiando energicamente toda forma de violência que quebre a convivência democrática dos brasileiros; ratificando de forma pétrea o poder civil na vigência plena das instituições democráticas.
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Talibãs são históricos aliados dos EUA - Marcelo Buzetto
Por Marcelo Buzetto

Desde 1978, após a Revolução de Saur, quando o Afeganistão era governado pelo Partido Democrático e Popular do Afeganistão - PDPA (uma aliança entre comunistas, socialistas e patriotas afegãos), em aliança e cooperação com a URSS, os chamados "Talibãs" são aliados dos EUA!!!
O governo do PDPA iniciou uma reforma agrária, investiu em educação e saúde pública e gratuita, aprovou a lei da igualdade de direitos entre homens e mulheres, estimulou as mulheres a ingressarem nas universidades, etc...
EUA, Paquistão e Arábia Saudita, com atuação direta de Osama Bin Laden, se uniram para impedir a cooperação Afeganistão-URSS, pois a influência soviética ameaçava os interesses geopolíticos estadunidenses.
Na época chamados de "muhajeideen", depois de 1991 de Talibã, são os mesmos.
Foram homenageados pelo filme Rambo 3, chamados de "guerreiros da liberdade".
Estiveram em Washington, na Casa Branca, recebidos por Bill Clinton, e com direito à conferência de imprensa. Firmaram um acordo com EUA para construção de um gasoduto. Como não puderam cumprir o acordo EUA invadiu o país em 2001, sob o pretexto de capturar Bin Laden, "encontrado", segundo o governo Obama, em Islamabad, no Paquistão!!!!!!
Ou seja, destruíram o país e o Bin Laden não estava lá?
Talibãs fizeram acordo com Trump. Joe Biden manteve o acordo, pois viram que o Afeganistão estava se aproximando do Irã.
Um Afeganistão aliado do Irã seria, para o governo dos EUA, pior que governado pelos Talibãs.
Aí os EUA se retiram do Afeganistão, e deixam os Talibãs tocar o terror, eles tomam bases dos EUA, cheias de veículos militares abastecidos, blindados e helicópteros, armas e munições, presentes do governo Biden, sob algumas condições, é óbvio.
A Embaixada dos EUA em Cabul, a capital, com 650 soldados, está intocada, por ordem dos Talibãs. Repito, os Talibãs, considerados por alguns como radicais, contra o Ocidente, blá, blá, blá, tomam o poder na capital e não atacam o principal símbolo do imperialismo, o principal símbolo da ocupação militar feita pelo ocidente, a Embaixada dos EUA, e o governo Biden deixa lá seus diplomatas com 650 soldados. Biden está tranquilo pois tem a promessa dos Talibãs que não vão tocar na Embaixada nem em nenhum cidadão estadunidense.
Milícias populares no Afeganistão combatiam as tropas dos EUA e os Talibãs ao mesmo tempo.
Talibãs fizeram acordo com EUA para impedir acordos de cooperação com Irã.
Os Talibãs continuarão servindo aos interesses dos EUA, Inglaterra, Arábia Saudita e Paquistão?
Ou vão mudar de posição? A realidade e a geopolítica podem levar a mudanças? Sim. Mas é preciso cautela. Vamos acompanhar.
Que o povo do Afeganistão possa construir seu próprio caminho de desenvolvimento econômico, social, político e cultural, sem colonialismo nem imperialismo, nem invasões militares dos EUA/OTAN.
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Afeganistão é novo Vietnã e derrota dos EUA é um progresso para o mundo - Juca Simonard
Por Juca Simonard

Por Juca Simonard
Na noite de sábado, 14, para domingo, 15, no horário local, o Talibã cercou a capital do Afeganistão, Cabul, e derrotou definitivamente o governo fantoche dos Estados Unidos, liderado por Ashraf Ghani. Cassados do poder após a intervenção militar imperialista em 2001, sob o governo de George W. Bush que usou o pretexto de “luta contra o terrorismo”, os talibãs voltaram ao poder no Afeganistão.
Num primeiro momento, nas décadas de 1970 e 1980, o grupo islâmico foi financiado pelo Estado norte-americano para golpear o governo de esquerda que existia no país. Território estratégico para os EUA pela posição central na Ásia, ao lado da China e do Irã e próximo da Rússia, a União Soviética invadiu o país para impedir o controle norte-americano na região.
Sem sucesso, o grupo tomou conta do país. No entanto, a partir da década de 1990 entrou em conflito com a política do imperialismo norte-americano, o que levou à invasão militar do país em 2001. Desde então, o Talibã tem sido o principal foco de resistência contra a invasão imperialista.
O levante Talibã
Após a invasão dos EUA, o imperialismo de conjunto impôs um regime fantoche, sustentado apenas no efetivo militar norte-americano.e extremamente alheio aos interesses populares. Um regime de capangas do imperialismo, alguns deles incapazes de falar pashto ou dari, as principais línguas do país agrário e tribal.
Conforme reportagem de Bill Van Auken no World Socialist Web Site, “o presidente Ashraf Ghani e seus companheiros devem seus cargos a eleições fraudulentas nas quais apenas uma fração da população participou e ao apoio de Washington”. A situação do imperialismo para sustentar este regime artificial, no entanto, ficou muito complicada e custosa, e os EUA, ao longo dos anos de ocupação, começaram a perder para a resistência talibã.
Após o anúncio, em abril, do presidente dos EUA, Joe Biden, da retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, o Talibã começou a recuperar pontos importantes do país, inicialmente concentrados no sudoeste. A ofensiva mais dura, no entanto, se deu nas últimas quatro semanas, em que o Talibã passou a dominar, inicialmente, cerca de ⅕ do país para tomar controle de toda a nação.
Numa insurreição relâmpago, foram tomando cidade por cidade, conquistando capitais provinciais atrás de outras, libertando presos no caminho e conquistando parte importante dos armamentos militares dos EUA, como helicópteros, tanques, fuzis, etc.
Um dia antes da tomada da capital afegã, o jornal russo Russia Today destacou que “o ritmo do avanço do Talibã tem sido notável. Em alguns lugares, as forças do governo simplesmente fugiram sem lutar. O governador da província de Ghazni se rendeu e entregou sua cidade em troca de passagem gratuita para fora da área. As tropas do governo treinadas pelos EUA fugiram ou desertaram em massa e, em alguns casos, foram para o Talibã”.
Alguns dias antes da tomada efetiva do movimento islâmico da capital do país, Cabul, o imperialismo ainda buscava apresentar a crença, não fundamentada na realidade, de que a cidade seria isolada “em trinta dias” e cairia “em noventa”, conforme disse um oficial militar norte-americano à agência Reuters. A previsão mostrou-se falsa e Cabul caiu apenas seis dias após a declaração do militar.
A queda de Cabul
Às vésperas e durante a tomada da cidade mais importante do país, os EUA mobilizaram 5 mil soldados para escoltar seus diplomatas e deixar o Afeganistão. Também fugiram diplomatas de Londres e Paris. As tropas talibãs cercaram Cabul na noite de sábado, 14, no horário local, e anunciaram que iriam esperar uma rendição do governo para chegar a um acordo de “transição pacífica”.
O presidente Ashraf Ghani, vendo que não teria opção a não ser entregar o governo, deixou o país - não sem antes criar um alarmismo para apavorar a população. Porta-voz do Talibã, Suhail Shaheen anunciou à BBC, tornando pública a posição do movimento de tomada pacífica da cidade, a decisão de esperar a renúncia do governo antes de invadir Cabul. Ele buscou assegurar os cidadãos de que não haveria vingança e que suas propriedades e suas vidas seriam mantidas em segurança.
"Asseguramos ao povo do Afeganistão, especialmente na cidade de Cabul, que suas propriedades e suas vidas estão seguras. Não haverá vingança para ninguém", disse Shaheen, informando também que os líderes talibãs "instruíram nossas forças a permanecerem nos portões de Cabul" e que ainda não tinham planos de entrar na cidade. “Estamos aguardando uma transferência pacífica de poder”, disse.
Explicando para a imprensa a posição do movimento, Shaheen afirmou que a transição pacífica “significa que a cidade e o poder devem ser entregues ao Emirado Islâmico do Afeganistão e então, no futuro, teremos um governo islâmico de inclusão afegã, no qual todos os afegãos terão participação”.
Após a fuga do presidente fantoche Ghani, o ministro do Interior, Abdul Sattar Mirzakwal, anunciou que havia sido feito um acordo e que um governo transitório estava sendo formado.
Reportagem do jornal Le Figaro relata os acontecimentos na cidade com a entrada do Talibã:
“No início da noite, várias testemunhas garantiram que combatentes do Talibã haviam entrado na capital. Tiros foram ouvidos nos subúrbios. Segundo um líder do movimento, foi uma operação simples para ‘evitar saques’ enquanto a polícia oficial e o exército do governo estavam ausentes. As tropas islâmicas teriam assumido o controle de delegacias de polícia e vários ministérios, bem como da universidade. Pouco antes das 10 horas, eles passaram pelos portões do palácio presidencial, vinte anos após sua queda, a última etapa de uma guerra relâmpago que durou apenas dez dias”.
Apoio popular ao Talibã
Ao contrário do que afirma o imperialismo, em sua campanha venal para atacar a revolta popular no Afeganistão, a tomada de poder ocorreu de forma relativamente pacífica. Isso e o rápido controle de todas as regiões do país, “que durou apenas dez dias”, pôde ocorrer apenas pois os Talibãs contaram com muito apoio popular. O povo viu no Talibã a saída para derrotar a invasão militar, que deixou cerca de 250 mil mortos, destruiu cidades e indústrias inteiras, instaurou a miséria e a fome no país, além das brutalidades cometidas pelos exércitos imperialistas, como estupros, torturas, etc.
A vitória arrasadora do Talibã só foi permitida pela imensa popularidade da organização e a extrema impopularidade dos EUA, inclusive no próprio país. Após a tomada do país pelo grupo islâmico, milhares tomaram as ruas da capital norte-americana, Washington, em defesa da vitória talibã, segundo a agência russa Sputnik. Principalmente pessoas de origem afegã exigindo a punição dos criminosos de guerra e destacando claramente que “ninguém está livre quando os afegãos estão sendo oprimidos”.
A guerra, provisoriamente, acabou com a derrota do imperialismo. O grande vencedor foi o líder talibã Abdul Ghani Baradar, perseguido político e preso há três anos no Paquistão por requisição dos EUA. Ex-ministro da Defesa durante o governo Talibã, foi o principal líder militar e político da organização na guerra contra a invasão norte-americana.
Decadência do regime imperialista e o novo Vietnã
A decadência do regime imperialista fica explícita na derrota dos EUA na guerra do Afeganistão. Talvez seja a maior marca recente desta decadência; o bilionário exército mais poderoso do mundo, altamente estruturado, foi derrotado por uma guerrilha popular islâmica sem 10% da força militar norte-americana (apoiada ainda por França e Inglaterra).
Por isso, lembra a retirada das tropas norte-americanas no Vietnã, definitivamente escorraçadas do país em 1975, após duas décadas de guerra.
Tendo expulsado os colonialistas franceses e o imperialismo japonês durante a Segunda Guerra Mundial, os vietnamitas, pobres miseráveis, conseguiram o feito de expulsar três exércitos imperialistas em cerca de 30 anos. A situação do povo afegão é semelhante.
Ao bater em retirada, deixando para trás, no desespero, seu aparato militar, o imperialismo estadunidense revelou a crise em que se encontra. Foram mais de US$ 2 trilhões gastos numa guerra perdida, que resultou na morte de milhares de norte-americanos. Essas coisas influenciam a opinião pública, que há alguns anos é contrária à manutenção das tropas no país.
Veteranos mutilados, e seus familiares, assim como os familiares de militares falecidos, tornaram-se ativistas contra a guerra e uma forte pressão da esquerda surgiu no sentido de acabar com o desastre promovido pelo imperialismo. Em certa medida, a campanha contra a guerra ficou tão popular que até mesmo a extrema-direita, em sua demagogia para ter apelo popular, levantou algumas pautas anti-bélicas.
A dominação dos EUA no mundo árabe já vinha dando sinais de falência. Estão sendo derrotados na Síria e tendo de enfrentar uma dura resistência popular no Iraque, no Iêmen e no Líbano. Soma-se a isso a eleição do novo governo iraniano que busca fortalecer ainda mais os laços com China e Rússia contra as ameaças dos norte-americanos, e as fortes mobilizações palestinas em Gaza, Cisjordânia e Israel nos últimos anos.
A vitória do Talibã no Afeganistão pode ser um golpe fatal na dominação imperialista na região. Os EUA acabam de perder sua mais longa guerra, sendo humilhados totalmente pela união de um povo pobre e quase tribal.
Reportagem do RT, destaca que a situação para os EUA é ainda mais crítica para o regime político do que foi a derrota da União Soviética pelo Talibã (em aliança com os EUA) nos anos 1980:
“Mesmo depois que os soviéticos partiram, as tropas que eles treinaram e equiparam lutaram arduamente e com sucesso. Hoje, as tropas que a América e seus aliados treinaram e equiparam a um custo de centenas de bilhões de dólares se espalharam aos quatro ventos sem nenhuma resistência”.
Na URSS, a derrota no Afeganistão foi um fator-chave para a queda do regime político nos anos seguintes.
Os países imperialistas europeus já destacam a crise do governo norte-americano com a perda do Afeganistão. “É a primeira crise internacional de Joe Biden e está indo mal”, diz reportagem do Le Monde, porta-voz do imperialismo francês. “A retirada dos EUA do Afeganistão se transforma em caos para o governo Biden”, diz a manchete.
A extrema-direita aproveitou para atacar o novo governo eleito. Trump afirmou que a volta ao poder do movimento Talibã se tornou “uma das maiores derrotas da história norte-americana”. “O que Joe Biden fez com o Afeganistão é lendário. Será uma das maiores derrotas da história norte-americana”, afirmou nas redes sociais.
Saigon, 1975
Na cidade de Saigon, capital do Vietnã do Sul (governo fantoche dos EUA), em 30 de abril de 1975, uma imagem marcou a época. Um helicóptero teve de escoltar funcionários do governo dos EUA, que fugiram pelo teto da embaixada norte-americana. Derrotados, saíram humilhados, fugindo da cidade após sua tomada pelo exército revolucionário do Vietnã do Norte. Em Cabul, 15 de agosto de 2021, a mesma cena se repetiu.
Vale anunciar, no entanto, que a tomada de Saigon pela guerrilha anti-imperialista ocorreu dois anos após o anúncio dos EUA de retirada de suas tropas do país, enquanto no Afeganistão, a retomada do poder central foi relâmpago, quatro meses após o anúncio de Joe Biden e antes da previsão dos “analistas” norte-americanos. O imperialismo atualmente está ainda mais enfraquecido do que em 1975.
Os norte-americanos procuraram negar qualquer comparação. Tanto Biden, quanto o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Antony Blinken, rejeitaram qualquer semelhança entre as retiradas apressadas. No domingo, Blinken foi questionado pela imprensa diretamente se a retirada de Cabul se tornaria o "momento Saigon" de Biden, ao que ele respondeu: “definitivamente não é Saigon”.
“Lembrem-se, não é Saigon”, disse para outro jornal, acrescentando uma dose de negacionismo: “fomos ao Afeganistão há 20 anos com uma missão, e essa missão era lidar com as pessoas que nos atacaram em 11 de setembro - e tivemos sucesso nessa missão”.
A negação da realidade, no entanto, não passa de uma manobra para, de maneira ilusionista, esconder a crise do imperialismo norte-americano que vai causar tumultos dentro do país.
Vale lembrar que, em 8 de julho deste ano, apenas um mês antes do controle Talibã, Biden disse que as capacidades do grupo islâmico "não são nem remotamente comparáveis" às forças norte-vietnamitas e nenhuma retirada precipitada aconteceria. “Não haverá nenhuma circunstância em que se verá pessoas sendo puxadas do telhado de uma embaixada dos Estados Unidos no Afeganistão”. A realidade se impôs sobre a vontade do presidente estadunidense e ocorreu o extremo oposto do que foi prometido.
“Para os Estados Unidos, a imagem de uma fuga de helicóptero é sinônimo da evacuação de Saigon, em 1975, quando o exército norte-vietnamita tomou a cidade. É sinônimo de fracasso militar”, destacou reportagem do jornal argentino Página 12.
Jornalista do Diário Causa Operária, Eduardo Vasco escreveu no Twitter que “a derrota dos EUA no Afeganistão é uma amostra concreta da profundidade da crise em que o imperialismo se encontra. Tal como no Vietnã, essa derrota pode abrir um período de revoluções populares pelo mundo afora, com destaque para os países oprimidos”.
Como disse o jornal francês Libération, “a analogia é surpreendente e óbvia, apesar das negações da Casa Branca”.
Influência no mundo da vitória Talibã
Não há dúvidas de que o profundo fracasso dos EUA no Afeganistão trará consequências para o mundo inteiro. Primeiro, vai fortalecer a resistência do imperialismo islâmico em todos os países invadidos pelo imperialismo. Mostrando a fraqueza política dos monopólios capitalistas, isso vai influenciar toda a luta contra o imperialismo ao redor do planeta.
Segundo, vai fortalecer a aliança nacionalista na região. Porta-voz do imperialismo, o jornal Financial Times destacou que “a queda de Cabul para o Talibã [...] vai acabar com a influência americana no Afeganistão por décadas. Nesse sentido, é comparável à derrubada do Xá do Irã em 1979, a queda de Saigon em 1975 ou a revolução cubana de 1959”.
A China, vizinha do Afeganistão, já demonstrou apoio ao novo governo Talibã e pretende ajudar o país a reconstruir sua indústria e suas cidades, destruídas pela invasão norte-americana. Nessa questão também vale destacar que, ao contrário do que apresentam alguns analistas, não há interesse na China em intervir militarmente no Afeganistão.
No jornal chinês Global Times, o jornalista britânico Martin Jacques afirmou que “a China atribuirá a maior importância à forma como pode ajudar no desenvolvimento econômico do país, tal como fez na África, na América Latina e no Sudeste Asiático”. Ele destacou que, ao contrário dos EUA, o país faz fronteira com o Afeganistão e uma convulsão no país poderia ter implicações importantes dentro de suas fronteiras, onde a província Xinjiang é de maioria muçulmana.
“Como um país que faz fronteira com o Afeganistão, buscará trazer estabilidade para o país e para toda a região, até porque isso também tem implicações para a situação em Xinjiang”, diz Jacques.
Vale destacar que Xinjiang é uma das regiões onde os imperialismos norte-americano e britânico estão procurando criar uma desestabilização no regime político chinês utilizando-se de milícias de extrema-direita e da campanha contra o “genocídio Uigur”, etnia turcomena adepta ao islamismo.
Em outra matéria do Global Times, também reforça-se a ideia de que a China vai ajudar o governo Talibã economicamente e lembra-se do problema em Xinjiang. O governo chinês não fechou sua embaixada em Cabul após a vitória talibã. Vale destacar, que antes mesmo da tomada do poder, uma delegação talibã foi recebida pelo governo chinês em 29 de julho na cidade de Tianjin, pelo ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi.
Na ocasião, uma nota do Ministério de Relações Exteriores chinês afirmou que o governo do país espera que o Talibã "coloque os interesses do Afeganistão em primeiro lugar, mantenha o comprometimento com negociações de paz, defenda o objetivo da paz, crie uma imagem positiva e adote uma política inclusiva" e pediu para que o grupo se distancie de “grupos terroristas”, o que pode ser uma alusão aos milicianos uigures, treinados pelos EUA em Xinjiang.
Porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Hua Chunying, afirmou que o país asiático está aberto a desenvolver "relações amigáveis" com o Talibã e "respeita o direito do povo afegão de determinar o próprio futuro de modo independente", segundo matéria do Opera Mundi.
Hua disse que China quer ter um "papel construtivo na paz e na reconstrução do Afeganistão" e reforçou que “os talibãs nunca permitirão que nenhuma força use seu território para colocar a China em perigo". Um acordo já deve ter sido feito.
A Rússia, outra potência do nacionalismo na região, também não retirou sua embaixada de Cabul. A reportagem do Opera Mundi dá conta de que “o enviado russo para o Afeganistão, Zamir Kabulov, disse que o embaixador de Moscou em Cabul, Dmitry Zhirnov, já está em contato com representantes do Talibã, com quem vai se encontrar pessoalmente nesta terça-feira (17/08)”.
"Supreendentemente, a situação está em perfeita calma, as forças do Talibã entraram tranquilamente em Cabul", declarou Kabulov. O embaixador Zhirnov também reforçou a ideia de que haveria um acordo do Talibã contra a promoção do “terrorismo”. "Com base nesses princípios, vamos decidir nossa linha [se reconhece ou não o regime], mas precisamos esperar, os talibãs entraram na cidade [Cabul] apenas ontem", acrescentou.
Para não defender o Talibã, alguns elementos da esquerda, que repetem com ideias esquerdistas a política do imperialismo contra o movimento, disseram que os EUA deixaram o grupo tomar conta do país para hostilizar China e o Irã - neste último explorando o racha entre sunitas, como o Talibã, e xiitas, como o Irã.
No entanto, esse argumento tem caído por terra diante do cenário que está se apresentando. O presidente do Irã, Ebrahim Raisi, afirmou que a tomada de poder do Talibã no Afeganistão é uma "oportunidade de paz" diante da retirada dos EUA, inimigo comum, da região.
"A derrota do exército dos Estados Unidos e a sua retirada do Afeganistão devem ser usadas como uma oportunidade para retomar a paz e a segurança do país de maneira definitiva", disse Raisi, que reforçou que o Irã buscará manter a estabilidade no país que já é visto como “uma nação vizinha e fraterna".
Um progresso para a humanidade
A esquerda pequeno-burguesa tem buscado atacar o Talibã, o que é uma defesa mascarada do imperialismo norte-americano. Os “democratas” esquerdistas - defensores envergonhados da guerra imperialista - tem se utilizado de toda a campanha do imperialismo para atacar o movimento islâmico.
Conforme denunciou o porta-voz da organização, Suhail Shaheen, parte importante da campanha imperialista contra o “terror Talibã” era mentira, vídeos antigos, atentados cometidos pelo Estado Islâmico (outra organização), falsificação grotesca realizada pelos defensores da luta contra as “fake news”.
É o mesmo método usado para promover as recentes manifestações golpistas em Cuba (derrotadas pelo governo e os trabalhadores cubanos), em que órgãos “respeitáveis” do imperialismo “democrático” divulgavam fotos a favor do governo como sendo fotos contrárias, vídeos e fotos de mobilizações em outros países, etc. E a esquerda caiu direitinho.
O PSTU, que também apoiou o golpe em Cuba, na Ucrânia, no Brasil e no Egito, saiu em defesa do governo fantoche afegão. Enquanto viram “mobilização popular” nos golpes armados pela direita, não viram a verdadeira mobilização popular em defesa da resistência Talibã. Conforme disse a ex-candidata à presidência Vera Lúcia, “o PSTU não comemora a tomada do poder pelo Talibã”.
“Toda minha solidariedade, em especial às mulheres e LGBTs afegãs”, afirmou nas redes sociais. A posição de Vera é, em grande medida, a posição de toda a esquerda pequeno-burguesa: atacar o nacionalismo afegão por ser fundamentalista islâmico, homofóbico e machista. Mostra pra que serve a política identitária patrocinada pelas universidades norte-americanas: para defender invasões imperialistas.
É um argumento cínico e hipócrita. Primeiro porque o governo fantoche não resolveu nenhum grande problema da opressão da mulher, e isso com o aval do imperialismo identitário. Amenizou algumas coisas em relação ao antigo governo Talibã, é fato, mas tudo não se compara à devastação completa do país promovida pelo governo fantoche e as forças militares imperialistas, que estupraram centenas de mulheres, torturaram milhares de civis e assim por diante.
O que seria pior para a mulher do que a devastação total de suas cidades, ser jogada na completa miséria, para passar fome e ser brutalizada e estuprada por exércitos invasores? Nada. Por isso, o Talibã também recebeu apoio de grande parte da população feminina do país, que entende que, para conquistar seus direitos, é impossível que isso ocorra em plena dominação imperialista.
Nada pior para todos os explorados e oprimidos do que uma guerra que matou mais de 250 mil civis e destruiu tudo o que viu pela frente, assassinando mulheres e crianças, o que, como apontou Shaheen, seria impossível para o Talibã realizar estas atrocidades e, ao mesmo tempo, ter apoio popular. “Não é possível para nós. Se fizermos isso, não poderemos viver no meio do povo, porque nosso principal apoio vem do povo”, disse ao jornal India Today ao comentar as falsificações imperialistas sobre o “terror Talibã”.
Evidentemente, o fundamentalismo islâmico do Talibã também ataca os direitos mais básicos da mulher. Entretanto, para a mulher, é muito mais difícil ter seus direitos mais básicos garantidos quando o país está sendo invadido por uma potência militar que, ao longo das décadas, cometeu inúmeros crimes contra a humanidade.
Estes argumentos da esquerda, diretamente vindos da campanha imperialista, são inúteis e ignoram o fato objetivo da questão: o Talibã venceu uma guerra assassina promovida pelo imperialismo. Portanto, enfraqueceu a política imperialista no mundo. Para a esquerda e o movimento operário, é um fator fundamental que permite o progresso geral da humanidade contra a política de rapina ao redor do planeta, inclusive contra os golpistas do Brasil.
Pode-se comentar “n” defeitos do Talibã, mas isso não está colocado. O que está colocado é que foi a organização que liderou a expulsão dos EUA do país. Expulsou o que há de mais atrasado e reacionário no mundo de um território estratégico na Ásia.
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Derrota dos EUA no Afeganistão traça o desenho da nova ordem mundial - José Reinaldo Carvalho
Por José Reinaldo Carvalho

Por José Reinaldo Carvalho - Somente o tempo dirá se a tomada do poder pelo Talibã no Afeganistão terá sido uma tragédia humanitária e um prejuízo inarredável para o direito internacional humanitário, o que se somaria ao plantel de crimes do imperialismo estadunidense, responsável em primeira e última instância pelo desfecho do conflito que provocou e sustentou durante duas longas décadas. Ou se resultará em progresso e estabilidade para um país em conflitos externos e guerras externas há cerca de 40 anos.
É algo a verificar, porquanto o Talibã não é um partido monolítico nem uma milícia homogênea. Corresponde a um mosaico de forças políticas, tribos, clãs, grupos de senhores da guerra e tem afinidades com diferentes influências regionais. Da formação surgida em 1994 e que governou o Afeganistão de 1996 a 2001, até os dias que correm passou também por reconfigurações internas. Novamente no governo depois de vitorioso em uma guerra pela expulsão de forças de ocupação estrangeiras, é preciso captar-lhe os sinais, algo que prudentemente têm feito algumas chancelarias, especialmente da Rússia e China e o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que, reunido nesta segunda-feira (16) em caráter emergencial enviou-lhe mais apelos do que reprimendas e admoestações.
Se pairam estas dúvidas quanto ao significado e desdobramentos da chegada do Talibã ao poder, algo, porém é certo e ficou patente nos acontecimentos deste domingo. No Afeganistão ficou impresso com tintas fortes o traço mais marcante do mundo contemporâneo, uma tendência incontornável de nossa época: o declínio do imperialismo estadunidense e de sua hegemonia, com o desenho de uma nova situação geopolítica. Não me apego nos detalhes comparativos para medir as semelhanças e diferenças entre Cabul de agosto de 2021 e Saigon de abril de 1975, mas ressalto que tanto quanto os episódios de quase meio século atrás, os de hoje fazem parte desse processo de decadência dos Estados Unidos, incluindo nos fatos mais recentes a derrota no Iraque e na Síria.
Fato insofismável: depois de 20 anos de guerra imperialista e ocupação militar com seus parceiros belicistas da Otan, os EUA saem derrotados, humilhados, escorraçados da nação afegã , o que põe fim inglório a uma das mais longas guerras imperialistas da história. Contendo lágrimas de sangue e tremores, o chefe da Casa Branca e seu patético secretário de Estado tentaram enganar a própria nação e a opinião pública internacional com o conto de que "o país venceu a guerra" porque afinal depois de 10 anos de deflagrada a agressão ao Afeganistão conseguiu assassinar Osama Bin Laden, homiziado no ... Paquistão. E ainda ficaram no país centroasiático por mais dez anos até conseguirem construir um dispositivo de segurança para supostamente garantir a estabilidade do país.
Cabe aqui fazer um balanço sumário da derrota americana. Aos dados do saldo trágico. Durante os 20 anos da guerra neocolonial, morreram cerca de 180 mil pessoas, 50 mil das quais civis. Mais de 60 mil pessoas ficaram gravemente feridas e 11 milhões de refugiados deixaram suas casas e o país. Mais de 2.500 vidas de norte-americanos e 1.100 de aliados pereceram nos territórios acidentados do Afeganistão. O "imperialismo benigno" que levaria as luzes para combater as trevas talibânicas em nome da "guerra infinita ao terror", viu surgir sob os tacões, armas modernas e blindados do seu "invencível" exército 20 novas organizações terroristas no lugar de apenas uma existente antes de 7 de outubro de 2001, data em que começou a guerra.
O presidente que a iniciou, George W. Bush, e seus sucessores, asseguraram que estabilizariam politicamente o país. Deixaram, porém, um regime político frágil, carente de legitimidade e respaldo popular. E juraram que tornariam o Afeganistão capaz de garantir a própria segurança com um exército de 300 mil homens. Tudo indica que eram soldados fantasmas. Calcula-se que o número de combatentes não passava de 60 mil. A ofensiva final do Talibã, em que literalmente passeou ao longo do território nacional, mostrou que ou esse exército não estava adestrado nem armado para o combate ou decidiu entregar-se, o que não deixa de ser uma forma de adesão ao assalto final ao poder pelo Talibã.
O fracasso estadunidense foi em toda a linha e inclui a situação socioeconômica do país. Como força de ocupação os Estados Unidos não se interessam em implantar políticas de desenvolvimento e depois de 21 anos de guerra e ocupação legaram um dos países mais pobres do mundo. Antes da guerra o país tinha 38,3% de sua população vivendo em estado de pobreza, índice que saltou para 70%. De acordo com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento (USAID), 6,8 milhões de afegãos vivem sob risco de insegurança alimentar aguda.
O único indicador de prosperidade do Afeganistão ao longo destas duas décadas é a produção e o tráfico de drogas. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2019, divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), revelou que já em 2017, o Afeganistão tinha se tornado o maior produtor mundial de ópio, com 86% do volume total.
Outro aspecto - e este é o mais importante - sobre o qual não cabem dúvidas é que os EUA foram derrotados pelo povo afegão. Independentemente do caráter político e ideológico e dos métodos da força política que se investiu do poder, é incontornável a constatação de que o povo do Afeganistão derrotou o imperialismo estadunidense em uma guerra prolongada pela independência nacional, o que encerra muitas lições, entre elas a de que guerras coloniais, agressões à soberania nacional, violações do direito sagrado à independência resultam mais dia, menos dia em fracasso para os que as perpetram.
Na luta do povo afegão se entrecruzaram fatores próprios de sua formação nacional e evolução política, muitos e diferenciados fatores étnicos e tribais, cuja compreensão nos escapa.
A força política e militar que protagonizou a vitória afegã é o Talibã, organização fundamentalista, obscurantista, que usou métodos terroristas contra o povo , em especial as mulheres.
Por óbvio, este articulista não tem qualquer identidade política, ideológica ou metodológica com o Talibã, que pertence à linhagem dos grupos reacionários violentos e terroristas fomentados pelo imperialismo estadunidense para combater o governo revolucionário afegão dos finais dos anos 1970 e a ocupação soviética (solicitada pelos revolucionários), ao longo da década de 1980.
Registrar a derrota contundente do imperialismo estadunidense e saudar o passo que o povo afegão dá na conquista da sua independência nacional não significa apoiar o novo regime Talibã. Mas tampouco nossa diferenciação deste nos leva a apoiar a histeria da propaganda imperialista.
Na análise dos acontecimentos internacionais vale muito uma boa dose de realismo e senso de observação das mudanças. Tudo indica que será constituído um governo de jure e de facto, sobre os quais outros governos e a própria ONU se posicionarão. Este governo criará mecanismos de estabilidade ou vai querer reinar no caos? Vai buscar a legitimidade ou simplesmente vai governar pelo terror? Não encontraremos as resposta baseando-nos apenas na experiência de governo do Talibã de 1996 a 2001. A China, país amigo dos povos e nações que lutam pela independência , já emitiu seus sinais
O Talibã que derrotou o imperialismo nesta guerra pode ser o mesmo, filosoficamente, mas no contexto do mundo de hoje não será o mesmo de 1996-2001. Ao longo dos últimos 20 anos passou por mutações, até porque não é um bloco monolítico mas um conjunto de facções. No enfrentamento ao inimigo externo correspondeu também a sentimentos de camadas profundas do povo afegão e adquiriu experiência política e diplomática. O Afeganistão tem um entorno geográfico pontilhado de potências regionais e mundiais e um cinturão de organizações econômicas e militares que têm por vértices a Rússia e a China. O país socialista asiático adquiriu musculatura econômica e política, além de autoridade e assertividade internacional. Ao mesmo tempo que se preocupa com a segurança de suas fronteiras em face do perigo de infiltração de terroristas, sabe que manter a Ásia Central como região estável tem um custo (e um benefício) que exige mais empenho econômico do que militar. Por isso oferece o desenvolvimento compartilhado via a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.
"A China respeita a vontade e a opção da população afegã", disse a porta-voz da chancelaria chinesa, Hua Chunying, em coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira em Pequim. De acordo com a percepção chinesa, a concretização da paz constitui o desejo tanto dos mais de 30 milhões de afegãos, como dos países da região e da comunidade internacional.
“Registramos a declaração feita no domingo pelo Talibã, de que a guerra terminou e o Talibã vai ajudar o estabelecimento de um governo islâmico aberto e inclusivo, além de adotar ações responsáveis em garantir a segurança dos cidadãos afegãos e dos corpos diplomáticos”, disse a porta-voz.
Segundo Hua, a China mantém contatos com o Talibã com base no respeito à soberania do Afeganistão e na vontade de todas as facções do país, e tem desempenhado papel construtivo na solução política da questão afegã. A China respeita o direito do povo afegão de decidir o próprio destino, e está disposta a desenvolver relações amistosas de boa vizinhança com o país".
Por seu turno, a Rússia anunciou que está em contato com oficiais do Talibã por meio de sua embaixada em Cabul e o Irã já ofereceu seus bons ofícios para contribuir com a pacificação do país.
A situação está em evolução e é necessário acompanhar cada desdobramento. Para as forças progressistas, o principal é manter-se em posição de luta anti-imperialista, o que implica defender a independência do Afeganistão e os direitos de seu povo.
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Ministro da Educação é um 'nazistão' de fazer inveja a Hitler", diz Marcia Tiburi
247 - A escritora e filósofa Marcia Tiburi criticou duramente nesta segunda-feira (16) pelo Twitter o ministro da Educação, Milton Ribeiro, que disse que crianças com deficiência 'atrapalham' quando inseridas em salas de aula com crianças sem deficiência.
"O ministro da Educação é um 'nazistão' de fazer inveja a Hitler. Que sujeito mais mau-caráter! É inacreditável que ele tenha falado dos estudantes com deficiência. Um fascista é um sujeito que mistura o preconceito com a burrice e sobrevive com isso!", escreveu Marcia.
Na última terça-feira (10), Ribeiro cometeu mais um sincericídio ao dizer que universidades deveriam ser para poucos.
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Deputado federal xinga sogro bolsonarista por conta do voto impresso: “vai tomar no c*” (áudio)
Lilian Tahan e Isadora Teixeira, no Metrópoles - O deputado federal Giacobo (PL-PR) fez uma série de xingamentos contra o sogro dele, Amarildo Stocker, em áudios enviados por rede social. O parlamentar, que é presidente do PL no Paraná, chamou o familiar de “burro ignorante”, “vagabundo”, “filho da puta” e o mandou “tomar no c*”. Giacobo ainda se refere à esposa do homem como “prostituta da zona” e “nega que tem em casa”.
Os insultos teriam sido enviados pelo parlamentar após o sogro fazer uma crítica ao fato de Giacobo estar ausente durante a votação do voto impresso, na Câmara dos Deputados. A proposta foi rejeitada na terça-feira (10/8). O parlamentar divulgou uma nota na qual explica que é a favor do voto impresso auditável, mas se absteve porque o partido ao qual é filiado decidiu ser contra o projeto de lei.
Continue lendo no Metrópoles.
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Guarabyra declina convite para participar do novo disco de Sérgio Reis: 'sou incompatível com seu posicionamento'

Metrópoles - O músico Guttemberg Guarabyra, famoso pela dupla Sá e Guarabyra, utilizou as redes sociais, na tarde desta segunda-feira (16/8), para declinar o convite de participação no novo disco de Sérgio Reis.
Pelo Twitter, Guarabyra afirmou que sempre teve “enorme admiração pelo trabalho, bom gosto, extrema musicalidade” de Reis e revelou que participaria de gravação de uma das faixas do novo disco do cantor.
Entretanto, depois de áudio vazado de Sérgio Reis, em que afirma que vai invadir o STF e “quebrar tudo”, o músico declarou que se considera incompatível com o posicionamento atual do cantor e declinou o convite feito anteriormente.
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"Estados Unidos estão saindo humilhados do Afeganistão", diz Celso Amorim
247 - O embaixador e ex-ministro Celso Amorim afirmou em entrevista à TV 247 nesta segunda-feira (16) que a retomada do poder do Afeganistão pelo Talibã mediante a saída das tropas norte-americanas da região é uma derrota para os Estados Unidos, que entraram no país em 2001, após o ataque às Torres Gêmeas, para justamente retirar o grupo armado do poder.
"Depois de 20 anos eles vão sair e vão deixar no poder o regime que eles queriam tirar. Depois de muito sofrimento, bilhões de dólares gastos, mortes de americanos...", avaliou.
Mais que uma derrota, a volta do Talibã é uma humilhação, segundo Amorim.
O episódio é também um revés para o presidente norte-americano, Joe Biden, que errou deixar para trás o Afeganistão desta maneira, disse o embaixador. "Os Estados Unidos estão saindo humilhados, e de uma maneira também humilhante para o povo. Uma derrota para a ideia de que os Estados Unidos defendem a democracia, porque é daquelas coisas que você pode dizer: não sei se devia ter entrado, mas se entrou, não deveria ter saído dessa maneira. Você entregou o poder ao Talibã, que foi justamente o objeto do ataque inicial. Todos nós sabemos das inclinações do Talibã. Não sei o que poderia ter sido feito, mas certamente é uma derrota grande para os Estados Unidos, um fracasso para o Biden, embora a saída tenha começado com o Trump. A maior potência do mundo saindo às pressas, fugindo e deixando o povo que ele dizia que ia defender".
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Bob Dylan é alvo de processo em caso de abuso sexual contra menina de 12 anos em 1965

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RIO — Contra Bob Dylan, foi ajuizado um processo de abuso sexual cometido em 1965 a uma menina de 12 anos, que teria sido dopada com entorpecentes e bebidas alcoólicas no Chelsea Hotel, conforme revelam documentos da Suprema Corte de Manhattan, segundo o "New York Post".
A parte autora, agora uma mulher de 65 anos em Greenwich, no estado norte-americano de Connecticut, foi identificada apenas como J.C, que pede indenização por danos cujo valor não foi especificado e um julgamento com júri. A denúncia inclui "agressão, cárcere privado e imposição de sofrimento emocional".
De acordo com a ação, o cantor, hoje com 81 anos, teria se aproveitado de sua fama para se aproximar da vítima e ganhar sua confiança "como parte de seu plano de molestá-la sexualmente e abusar dela". Isso lhe teria causado "efeitos emocionais duradouros", causando necessidade por "tratamento médico" para lidar com "depressão, humilhação e ansiedade". As consequências, segundo J.C, "são de natureza permanente" e prejudicaram suas atividades regulares.
"Bob Dylan, durante um período de seis semanas entre abril e maio de 1965, tornou-se amigo e estabeleceu uma conexão emocional com o(a) querelante", diz o documento, que foi registrado na sexta-feira, dia 13.
De acordo com a acusação, Robert Allen Zimmerman, nome civil do astro, estabeleceu a "conexão" para "diminuir as inibições (da menina) com o objetivo de abusar sexualmente dela". Isso foi, segundo a ação, realizado junto com "o fornecimento de drogas, álcool e ameaças de violência física, deixando-a emocionalmente marcada e psicologicamente danificada até hoje".
J.C entrou com o processo com base numa lei do estado de Nova York que permitia vítimas de abuso infantil denunciarem seus agressores independentemente de o crime já ter prescrito. Essa permissão, determinada em 2019, foi, entretanto, temporária. E a autora da denúncia em questão entrou com o processo um dia antes do prazo terminar, conforme explicou o "New York Post".
O representante de Dylan afirmou ao jornal que as acusações contra o cantor são falsas e ele será "vigorosamente" defendido.
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Cabo reformado da PM é preso após ser acusado de chefiar milícia que atua em Nova Iguaçu

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RIO — Um policial militar reformado foi preso na manhã desta segunda-feira em uma operação da Polícia Civil contra uma milícia que atua na Baixada Fluminense. De acordo com as investigações da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE), o cabo Júlio César dos Santos Marques é o chefe da quadrilha. O policial chegou a mobilizar equipes do 20° BPM (Mesquita), onde foi lotado, para intimidar testemunhas ao cobrar propinas de moradores e comerciantes, em Nova Iguaçu. Ao todo, a Draco cumpriu um mandado de prisão e cinco de busca e apreensão. Dois PMs foram conduzidos para a delegacia da especializada.

A investigação, que começou há quatro meses, revelou indícios de que o PM vinha praticando atos de milícia, como grilagem e posse ilegalmente de terrenos para a revenda em sua própria imobiliária, a Mac Consultoria. Uma vítima procurou a delegacia e denunciou o crime. Após descobrir sobre o relato, o PM foi até a residência e a agrediu. A invasão foi gravada por câmeras de segurança. O agente vinha agindo desde o ano passado e usava equipes do Grupo de Ações Táticas do 20º BPM, no qual serviu antes de se reformar.
— Essa investigação teve início após uma vítima dessas extorsões procurar a Draco. Colhemos o depoimento dela e começamos a apurar tudo o que ela relatou. E de fato, constatamos o que aconteceu. No ano passado ela começou a ser extorquida, cobrando a famosa taxa de segurança da localidade. Ele então começou a ser retaliado (porque se recusou a pagar). Até que viaturas começaram a rondar a casa dele. Policiais militares fardados invadiram a casa dele. A vítima retorna a delegacia para dizer que foi agredida após a denúncia. Com base nisso, pedimos a prisão dele para preservação da integridade da vítima — contou o delegado Willian Medeiros Penna Júnior, titular da Draco.
Além de Júnior, que foi preso no bairro Botafogo, em Nova Iguaçu, os agentes também cumpriram cinco mandados de busca e apreensão em Campo Grande e Bento Ribeiro.
A Draco afirma ainda que o policial militar, que se reformou no ano passado, exigia pagamento de taxas até para mototaxistas da região para que pudessem trabalhar. De acordo com testemunhas, até o terreno que servia de estacionamento para uma igreja foi invadido pelo militar.
— Identificamos um mototáxi que ele fez as extorsões. Além de um pastor que teve parte do terreno de sua igreja invadida pelo policial militar. Após as inovações, ele esquentava os documentos na sua empresa imobiliária — destacou o delegado da Draco, que completou:
— Ele, por ser PM da região, tinha facilidade de pegar as viaturas para cometer os vários crimes. Ele é o líder da milícia e não sabemos a extensão, por isso estamos apurando e temos até cinco dias para pedir a renovação da prisão por mais cinco dias ou a conclusão do inquérito.
Com os policiais a Draco apreendeu quatro pistolas, R$ 10 mil na casa de um dos agentes, celulares e documentos.
— Apreendemos armas de fogo, anotações e dinheiro não compatível com a renda de um dos agentes. Com o fato material apreendido poderemos ter um desdobramento.
Na delegacia, os dois agentes que foram intimados a prestar esclarecimentos negaram fazer parte da milícia. Disseram desconhecer o que aconteceu no dia da invasão da casa da testemunha.
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Após 13 dias sem resposta, Cármen Lúcia dá 24 horas para Aras se manifestar sobre investigação contra Bolsonaro

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BRASÍLIA — A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), cobrou do procurador-geral da República, Augusto Aras, uma manifestação em 24 horas sobre um pedido de investigação apresentado por congressistas contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e encaminhado para a Procuradoria-Geral da República (PGR) há 13 dias.
A ação acusa Bolsonaro de improbidade administrativa, propaganda antecipada e crime eleitoral por ter usado a TV Brasil para transmitir uma live em que o presidente fez acusações de fraudes nas urnas eletrônicas sem apresentar provas.
A notícia-crime foi encaminhada por Cármen Lúcia à PGR no último dia 3 de agosto, mas até agora não houve parecer do órgão. Por isso, a ministra cobrou Aras a "no prazo máximo de 24 horas, apresentar manifestação".
"Os fatos narrados nestes autos são graves, de interesse exponencial da República. O manifesto interesse público e superior da nação impõem a observância de prioridade no andamento processual do caso", disse a ministra no despacho desta segunda-feira.
A PGR deverá dizer se deverá ser aberto um inquérito para aprofundar as investigações ou se o pedido dos parlamentares deve que ser arquivado por não haver indícios de crimes.
Na decisão que determinou o envio à PGR, a ministra observou que apesar de o STF não ser o foro próprio para conhecimento e julgamento de ação de improbidade contra autoridade pública, como é o caso de Bolsonaro, é "grave" o relato feito pelos parlamentares.
Segundo Cármen Lúcia, as condutas apontadas pelos congressistas podem configurar, em tese, crimes de "natureza eleitoral, utilização ilegal de bens públicos, atentados contra a independência de poderes da República, o que, após a necessária análise, conduzirá à conclusão sobre a competência para o conhecimento e o processamento" do pedido.
De acordo com os autores da ação, Bolsonaro teria se valido da estrutura do estado brasileiro, a saber, a “TV Brasil para fazer promoção pessoal, atacando o sistema eleitoral brasileiro e usando o cargo de Presidente da República para difundir infundada opinião pessoal sobre suposta fraude nas urnas eletrônicas, com o nítido propósito de fazer promoção pessoal com vistas ao processo eleitoral do ano de 2022".
Esta não foi a única cobrança a respeito de prazos feita pelo STF à PGR na última semana. Na quinta-feira, o ministro Dias Toffoli pediu uma manifestação sobre o pedido apresentado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) para que Bolsonaro seja obrigado a apresentar provas sobre as acusações de fraude nas eleições de 2018.
No despacho, Toffoli diz ter verificado a ausência de manifestação da Procuradoria-Geral da República, embora tenha encaminhado a ação para o órgão em 27 de julho. ainda segundo o ministro, o processo voltou ao Supremo em 4 de agosto, mas sem o parecer necessário.
A solicitação do senador foi enviada ao STF em 21 de julho. Na interpelação, o senador diz que a medida visa “instruir uma possível ação penal em decorrência das manifestações inverídicas e infundadas” de Bolsonaro.
A atuação da Procuradoria na ação que levou à prisão de Roberto Jefferson, na última sexta-feira, também gerou atritos com o ministro Alexandre de Moraes. A PGR respondeu ao pedido de prisão feto pela Polícia Federal somente depois que Moraes já tinha proferido a decisão. A equipe de Aras se manifestou contra, alegando que Jefferson tinha "liberdade de expressão" para fazer os ataques ao Supremo e às instituições democráticas.





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