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__________* Saiba como os INCÊNDIOS estão afetando o TURISMO ao AR LIVRE nos EUA __________* ________________________________________ DICAS DE NOVA YORK

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Imagem de satélite de 13 de agosto mostra fogo avançando em Montana, nos EUA Foto: MAXAR TECHNOLOGIES / VIA REUTERS

__________* Saiba como os INCÊNDIOS estão afetando o TURISMO ao AR LIVRE nos EUA

__________* Com MEDO de PUNIÇÃO do TALEBAN, afegãos APAGAM registros da VIDA ONLINE 

__________* Brasil SAI da lista das DEZ maiores ECONOMIAS do MUNDO __________* PIB: quais as maiores economias do mundo em 2021



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Queimadas atingiram quase 20% do território brasileiro nos últimos 36 anos

Segundo o MapBiomas Fogo, Amazônia e cerrado respondem, juntos, por cerca de 85% do que foi queimado no Brasil de 1985 até 2020.

Percentualmente, no entanto, o bioma que mais perdeu foi o Pantanal brasileiro, que teve 57% de sua área queimada no período. 

Em 2020, o bioma teve mais de 20% do território queimado.

Queimadas aumentam no Amazonas
Queimadas aumentam no Amazonas (Foto: Reuters)

247 - A floresta amazônica e o cerrado foram os biomas que mais queimaram no Brasil nos últimos 36 anos. De 1985 até 2020, quase 20% do Brasil queimou, destaca reportagem da Folha de S.Paulo, que destaca ainda: “todo ano, uma área do tamanho da Inglaterra, aproximadamente, é alvo de incêndios, o que significa 1,8% do território nacional”.

Os dados divulgados pela Folha são do MapBiomas Fogo, mapa lançado nesta segunda-feira, 16. Segundo a ferramenta, Amazônia e cerrado respondem, juntos, por cerca de 85% do que foi queimado no Brasil de 1985 até 2020, em números absolutos.

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Queimadas atingiram quase 20% do território brasileiro nos últimos 36 anos

Segundo o MapBiomas Fogo, Amazônia e cerrado respondem, juntos, por cerca de 85% do que foi queimado no Brasil de 1985 até 2020, mas, percentualmente, o bioma que mais perdeu foi o Pantanal

Queimadas aumentam no Amazonas
Queimadas aumentam no Amazonas (Foto: Reuters)

247 - A floresta amazônica e o cerrado foram os biomas que mais queimaram no Brasil nos últimos 36 anos. 

De 1985 até 2020, quase 20% do Brasil queimou, destaca reportagem da Folha de S.Paulo, que destaca ainda: 

“todo ano, uma área do tamanho da Inglaterra, aproximadamente, é alvo de incêndios, o que significa 1,8% do território nacional”.

Os dados divulgados pela Folha são do MapBiomas Fogo, mapa lançado nesta segunda-feira, 16. 

Segundo a ferramenta, Amazônia e cerrado respondem, juntos, por cerca de 85% do que foi queimado no Brasil de 1985 até 2020, em números absolutos.

Percentualmente, no entanto, o bioma que mais perdeu foi o Pantanal brasileiro, que teve 57% de sua área queimada no período. 

No ano passado, o bioma teve mais de 20% do território queimado.

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CNN Brasil é novamente criticada por dar palco a Alexandre Garcia, "negacionista patológico" (vídeo)

Jornalista volta a atacar a China pela Covid-19 e compara máscara ao uso de burca pelas mulheres afegãs

(Foto: Reprodução)

247 - O jornalista e comentarista da CNN Brasil Alexandre Garcia usou o seu espaço na emissora na manhã desta quarta-feira (18), para associar brasileiros que acreditam na ciência aos fundamentalistas do Talibã pelo uso de máscaras.

O comentário levou o jornalista ao trending topics do Twitter. 

Os internautas criticaram a CNN por ter dado espaço para o jornalista bolsonarista que detonou o uso de máscara, além de atacar o PT, o PSOL e a PGR. 

Garcia ainda fez comentários xenofóbicos atribuindo à China a responsabilidade de espalhar o novo coronavírus. 

Para os internautas, Alexandre Garcia usou do direito de LIBERDADE de EXPRESSÃO para ESPALHAR a DESINFORMAÇÃO

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Presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo diz que processará Martinho da Vila por racismo

O dirigente da fundação vai ao Judiciário contra o artista, que o chamou de "preto de alma branca". 

Sérgio Camargo é conhecido pelos seus ataques ao movimento negro e suas lideranças

Presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, e o cantor Martinho da Vila
Presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, e o cantor Martinho da Vila (Foto: Reprodução/Instagram | Reprodução/Facebook)

247 - O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, anunciou nessa terça-feira (17) que processará por racismo o cantor Martinho da Vila, após lhe chamar de "preto de alma branca" durante participação no programa "Roda Viva", da TV Cultura.

"Ingressarei na Justiça com ação cível por danos morais contra Martinho da Vila, que atacou a minha honra com o uso da expressão 'preto de alma branca'. 

Na epigrafe da ação (sendo finalizada), o ensinamento de Morgan Freeman que pretos racistas da esquerda precisam aprender", afirmou Camargo.

A apresentadora Vera Magalhães questionou Martinho da Vila sobre os retrocessos que o Brasil teve nas políticas públicas focadas à população negra na educação. 

O músico então lamentou os passos que o país deu para trás e criticou Sérgio Camargo.

"A Fundação Palmares era uma fundação criada para tratar dos assuntos da cultura negra. 

Mas botaram aquele cara lá, o Camargo, um bolsonarista radical. Ele é um preto de alma branca, como se diz. 

No duro, ele gostaria de ser branco e se sente branco.

Para ele, tem que acabar com todas as coisas de negro", disse o cantor.

Camargo é reconhecido pelos seus ataques ao movimento negro e suas lideranças, como Zumbi dos Palmares, que foi chamado de "filha da puta" por ele. 

Também afirmou que o movimento negro é uma "escória maldita" e formado "vagabundos".

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Vila Isabel repudia atitude de Vera Magalhães com Martinho da Vila: “insensível” | Revista Fórum

Jornalista constrangeu o cantor durante o programa Roda Viva, na última segunda-feira, com pergunta sobre uma suposta relação das escolas de samba com milícias

Foto: Divulgação

A escola de samba Vila Isabel soltou nota nesta quarta-feira (18), onde repudia veementemente atitude da jornalista Vera Magalhães que constrangeu o sambista Martinho da Vila, durante o programa Roda Viva, na última segunda-feira, com pergunta sobre uma suposta relação das escolas de samba com milícias.

A nota afirma que “a jornalista foi insensível, causando tristeza e indignação aos telespectadores, fãs e vilisabelenses”. De acordo com a direção da Vila Isabel, “as escolas de samba se mantêm como a maior manifestação cultural do Brasil, geradora de desenvolvimento social, econômico e humano. A melhor e mais profunda forma de apresentar nosso país”.

“Martinho, produtivo aos 83 anos, merece ser celebrado por sua arte múltipla, em músicas, telas e livros. Gênios como ele ajudam nosso povo a cruzar períodos difíceis como o atual, mantendo viva a beleza e a crença em dias melhores”, encerra a nota.

Leia a nota na íntegra abaixo:

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NOTA OFICIAL

O GRES Unidos de Vila Isabel repudia com veemência o ato desatinado e desrespeitoso da jornalista Vera Magalhães, no programa “Roda Viva” da TV Cultura, diante de nosso Presidente de honra e grande baluarte, Martinho da Vila, submetido ao questionamento de um suposto envolvimento de milicianos com a escola que carrega no nome.

Ícone da música brasileira e um dos grandes nomes da nossa cultura, Martinho será homenageado como tema do próximo enredo que a agremiação levará à Marquês de Sapucaí. É leviano e deseducado impor ao artista, com toda sua história, a pergunta que embute especulação e suspeita delirantes.

A jornalista foi insensível, causando tristeza e indignação aos telespectadores, fãs e vilisabelenses.

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A diretora da azul e branca reitera que em tempos tão obscuros, as escolas de samba se mantêm como a maior manifestação cultural do Brasil, geradora de desenvolvimento social, econômico e humano. A melhor e mais profunda forma de apresentar nosso país.

Martinho, produtivo aos 83 anos, merece ser celebrado por sua arte múltipla, em músicas, telas e livros. Gênios como ele ajudam nosso povo a cruzar períodos difíceis como o atual, mantendo viva a beleza e a crença em dias melhores.

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Vera Magalhães constrange Martinho da Vila com pergunta sobre milícias e é detonada nas redes

Após Roda Viva, Vera Magalhães foi às redes se gabar da pergunta desnecessária. Tunico, filho de Martinho da Vila, comentou. "Respeite a historia de meu pai. Ele semeia nossa Africanidade. Não semeia ódio, milícias e assassinatos como de Marielle"

Vera Magalhães e Martinho da Vila
Vera Magalhães e Martinho da Vila (Foto: Reprodução)

Portal Fórum- A apresentadora do Roda Viva, Vera Magalhães, voltou ao topo dos temas mais comentados do Twitter após constranger o sambista Martinho da Vila com pergunta sobre uma suposta relação das escolas de samba com milícias durante o programa transmitido na noite desta segunda-feira (16).

Mostrando pouco conhecimento sobre a história do samba e principalmente sobre a biografia do cantor, compositor e um dos maiores estudiosos da cultura africana no Brasil, Vera foi insistente ao pedir uma posição desse “Martinho político, que faz essa análise política” sobre as escolas de samba – “que sempre tiveram uma ligação com o jogo do bicho” – “permeadas por milícias”.

Visivelmente constrangido, Martinho sorri ao dizer que “o jogo do bicho foi inventado em Vila Isabel” e diz não ter “notícia da milícia dirigindo uma escola de samba”. Vera insiste, citando nominalmente uma suposta ligação de Adriano da Nóbrega, miliciano ligado ao clã Bolsonaro que foi morto em fevereiro de 2020, com a Vila Isabel.

Nas redes, a apresentadora ainda se gabou dizendo que “Martinho da Vila desconversou quando questionei sobre a infiltração mais recente das escolas de samba do Rio pelas milícias”, tuitou. “Isso é um tema tabu que os sambistas têm de enfrentar”, emendou.

O tuite foi rebatido pelo filho de Martinho, Tunico da Vila, que afirmou que o pai “não desconversou….ele só não quis conversar porque realmente é um assunto desnecessário e desrespeitoso com ele….só isso….nada demais”


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Como o varejo pode se adequar às exigências da LGPD?

Possuir medidas de transparência e um profissional responsável pela proteção dos dados são algumas das obrigações da lei

Desde 2020, já está em vigor a LGPD, Lei Geral de Proteção de Dados, que regula o tratamento de dados de pessoas físicas e determina como eles podem e devem ser tratados. Além de obrigações para os titulares (os donos desses dados), o regulamento estabelece encargos também para as empresas sobre como elas devem tratar essas informações, e com o setor de varejo não seria diferente.

Para esse setor especificamente, a lei pode ter um impacto positivo por possibilitar que empresas desenvolvam novas formas de prestar serviços para seus consumidores, ao passo que estabelece uma relação de confiança entre eles. A LGPD busca proteger dados que possam identificar ou tonar identificável uma pessoa física, dependendo do contexto em que estes dados estejam sendo analisados. A legislação não tem a intenção de proteger dados de pessoas jurídicas, contudo, quando estes estiverem diretamente relacionados a uma pessoa física, algumas informações podem ser consideradas dados pessoais e estarem resguardadas pela legislação.

A LGPD traz uma série de obrigações decorrentes do tratamento de dados pessoais. Para Fernando Bousso, sócio e head de privacidade e proteção de dados do Baptista Luz Advogados, de modo geral, as adaptações que devem ser adotadas pelas empresas prioritariamente são: “a implementação de medidas de transparência, a reavaliação da necessidade de coleta de todos os dados dos formulários em e-commerce e em loja; a nomeação de um encarregado de proteção de dados, que será o canal de contato entre a empresa, os titulares e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, o treinamento e conscientização dos colaboradores para a criação de uma cultura de privacidade e proteção de dados pessoais dentro da empresa, a revisão de contratos com fornecedores e parceiros para definição de responsabilidades relacionadas a eles, além da implementação de um programa de governança em privacidade e proteção de dados por meio da elaboração de documentos que orientem os colaboradores sobre como devem atuar nesses casos”.

No caso das lojas físicas, alguns exemplos de medidas que podem ser adotadas são a disponibilização facilitada de documentos de transparência, por meio de QRCode, link de acesso ou documento físico e o treinamento dos times que lidam diretamente com consumidores, tais como atendentes de SAC e de lojas para que saibam lidar com eventual requisição relacionada a dados pessoais. Ainda segundo Fernando, “desde que as bases de dados tenham se formado de forma lícita e que sejam adotadas as devidas medidas de segurança para utilizá-las, os varejistas poderão continuar utilizando-as. O que muda, especialmente para a comunicação com os clientes, é garantir que os titulares que serão contatados optem ou não por receber determinada comunicação de uma empresa, que tenham informações claras e acessíveis sobre como seus dados pessoais são tratados por ela”.

Tendo em vista os princípios trazidos pela legislação, uma das formas das empresas organizarem seus dados para que estejam em conformidade com a lei é definir níveis de acesso para a consulta à base de dados. A ideia é garantir que apenas aqueles colaboradores que realmente precisarem das informações para o exercício das suas funções possam consultá-las. Como os termos e uso de e-commerce estão mais relacionados a aspectos comerciais da utilização os serviços, o ideal – como boa prática e medida de transparência – é que as informações sobre o tratamento dos dados pessoais estejam em documento específico (aviso de privacidade). Isso inclui a finalidade específica do tratamento dos dados, informações sobre o uso compartilhado das informações, entre outros requisitos específicos exigidos por lei.

Os setores do varejo que têm forte atuação no ambiente online provavelmente serão os que sofrerão maior impacto com o início das sanções, em decorrência do alto volume de dados que transitam nesse ambiente, bem como pela maior exposição das práticas relacionadas à proteção de dados (aviso de cookies, política de privacidade, formulários etc.).

Só está atrasado quem ainda não começou o seu projeto de adequação à LGPD. De modo geral, tem-se notado um forte movimento do setor varejista em se adequar à lei, com revisão de formulários, atualização de plataformas, implementação de documentos de transparência, entre outras práticas que indicam que as empresas estão se preparando. A conformidade com a legislação é um processo contínuo, pois exige atualização e monitoramento constantes das empresas em relação às suas atividades de tratamento desses dados, dificilmente será possível afirmar que algum dia elas estarão 100% adequadas. 

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PIB: quais as maiores economias do mundo em 2021

PIB: quais as maiores economias do mundo em 2021

O Produto Interno Bruto (PIB) de um País é uma das principais medidas para entender o tamanho de uma economia. O indicador representa a produção de todos os bens e serviços que um país produz. Por isso, o crescimento de 1,2% no PIB brasileiro, no 1º trimestre de 2021, divulgado em 1 de junho de 2021, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é importante para compreender a saúde econômica do Brasil nestes três primeiros meses do ano.

Com base no Fundo Monetário Internacional em abril de 2021, confira as 15 maiores economias do mundo segundo o PIB:

Fica em  oitavo lugar, se considerada o Paridade do Poder de Compra (PPC), indicador que mede o poder de compra de um país. Se considerar o PIB per capita,  que serve para verificar a distribuição de tudo o que o país produziu pela sua população, o Brasil, infelizmente, fica fora das vinte maiores economias do mundo.

As 15 maiores economias do mundo (PIB em US$ trilhões)

O Brasil ocupa a 12ª posição no ranking das maiores economias do mundo – pelo menos até junho de 2021. É o principal indicador levando em conta o PIB, já que traz um dado bruto, em trilhões de dólares, de tudo que foi produzido no território. No topo, os Estados Unidos reinam sozinhos com quase US$ 21 trilhões, com a China atrás, com pouco mais de US$ 14,7 trilhões. O Brasil, que já ficou no top 10, agora está apertado entre Rússia e Austrália.

  1. Estados Unidos: US$ 20,933 trilhões
  2. China: US$ 14,723 trilhões
  3. Japão: US$ 5,049 trilhões
  4. Alemanha: US$ 3,803 trilhões
  5. Reino Unido: US$ 2,711 trilhões
  6. Índia: US$ 2,709 trilhões
  7. França: US$ 2,599 trilhões
  8. Itália: US$ 1,885 trilhão
  9. Canadá: US$ 1,643 trilhão
  10. Coreia do Sul: US$ 1,631 trilhão
  11. Rússia: US$ 1,474 trilhão
  12. Brasil: US$ 1,434 trilhão
  13. Austrália: US$ 1,359 trilhão
  14. Espanha: US$ 1,278 trilhão
  15. México: US$ 1,076 trilhão

As 15 maiores economias do mundo (PPC em US$ trilhões)

A Paridade do Poder de Compra (PPC) é indicador que mede o poder de compra de um país. É um método alternativo à taxa de câmbio para se calcular o quanto uma moeda pode adquirir em produtos e serviços. Neste indicador, o Brasil sobe um pouco no ranking e ocupa o oitavo lugar. Enquanto isso, os Estados Unidos acabam ficando atrás da China de maneira considerável: o País asiático marca mais de US$ 24 trilhões neste indicador, enquanto os EUA ficam em US$ 21 trilhões.

  1. China: US$ 24,143 trilhões
  2. Estados Unidos: US$ 20,933 trilhões
  3. Índia: US$ 8,907 trilhões
  4. Japão: US$ 5,313 trilhões
  5. Alemanha: US$ 4,497 trilhões
  6. Rússia: US$ 4,097 trilhões
  7. Indonésia: US$ 3,302 trilhões
  8. Brasil: US$ 3,154 trilhões
  9. Reino Unido: US$ 2,960 trilhões
  10. Turquia: US$ 2,547 trilhões
  11. Itália: US$ 2,462 trilhões
  12. México: US$ 2,445 trilhões
  13. Coreia do Sul: US$ 2,310 trilhões
  14. França: US$ 2,300 trilhões
  15. Canadá: US$ 1,850 trilhão

As 10 maiores economias do mundo (PIB per capita em US$)

Se considerar o PIB per capita,  que serve para verificar a distribuição de tudo o que o país produziu pela sua população, o Brasil, infelizmente, fica fora das vinte maiores economias do mundo. O indicador, de maneira simplificada, divide o valor do Produto Interno Bruto pela população total. Em 2020, o Brasil viu esse indicador ter uma queda de 4,8%, em um nível de R$ 35.172 , o menor valor da série histórica.

  1. Luxemburgo: US$ 116 921,10
  2. Suíça: US$ 86 849,47
  3. Irlanda: US$ 83 849,81
  4. Noruega: US$ 67 176,43
  5. Estados Unidos: US$ 63 415,99
  6. Dinamarca: US$ 60 494,20
  7. Islândia: US$ 59 633,72
  8. Singapura: US$ 58 902,22
  9. Austrália: US$ 52 824,82
  10. Países Baixos: US$ 52 247,54

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Brasil sai da lista das 10 maiores economias do mundo

Com a queda de 4,1% do Produto Interno Bruto – PIB, no ano passado, em comparação com 2019, o Brasil saiu  do ranking das 10 maiores economias do mundo, de acordo com um levantamento elaborado pela agência de classificação de risco Austin Rating, divulgado no dia 3 de março.

O número, segundo a agência, representa o pior desempenho do País desde o início da série histórica atual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em 1996.

Após figurar em 9º no ano anterior, o Brasil caiu para 12º, ultrapassado por Canadá (9º), Coreia do Sul (10º) e Rússia (11º), em ranking liderado por Estados Unidos (1º), China (2º) e Japão (3º), considerando o PIB de cada país em dólares.

Contudo, como ainda falta a alguns países revelar seus dados oficiais ou finais do PIB de 2020, a versão definitiva da lista será divulgada apenas em abril, com resultados consolidados pelo Fundo Monetário Internacional – FMI. ” Mas, infelizmente, isso não deve alterar a posição do Brasil, muito pelo contrário, pode até agravar, fazendo com que o País saia do 14º lugar do ranking em 2021″, dizem os analistas.

Confira a lista das maiores economias do mundo em 2020, segundo a Austin Rating:

1) Estados Unidos – US$ 20,81 trilhões

2) China – US$ 14,86 trilhões

3) Japão – US$ 4,91 trilhões

4) Alemanha – US$ 3,78 trilhões

5) Reino Unido – US$ 2,64 trilhões

6) Índia – US$ 2,59 trilhões

7) França – US$ 2,55 trilhões

8) Itália – US$ 1,85 trilhão

9) Canadá – US$ 1,60 trilhão

10) Coreia do Sul – US$ 1,59 trilhão

11) Rússia – US$ 1,46 trilhão

12) Brasil – US$ 1,42 trilhão

13) Austrália – US$ 1,33 trilhão

14) Espanha – US$ 1,24 trilhão

15) Indonésia – US$ 1,08 trilhão

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O Afeganistão, o Talibã e as precipitadas análises talibanistas - Osvaldo Bertolino

Por Osvaldo Bertolino

Guerrilheiros talibãs
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Prever o futuro, desde que o mundo é mundo, tem sido um desafio. A começar pela cigana que lê a mão, até os videntes e futurólogos de todos os matizes. Mas ainda não se conheceu ninguém capaz de predizê-lo regularmente e com precisão. Seria demasia, portanto, esperar que os “analistas” políticos que proliferam sobre os acontecimentos no Afeganistão formassem um gênero diferenciado e mais eficaz de pitonisas. Aquele país tem singularidades, já constatadas por Friedrich Engels em artigo publicado na The New American Cyclopaedia no século XIX.

Segundo ele, os afegãos são um povo corajoso, resistente e independente. “Para eles, a guerra é exaltante e os alivia de suas ocupações monótonas e laboriosas”, escreveu. “Entretanto, na ausência de provocações, os afegãos são vistos como um povo generoso e liberal. Os deveres da hospitalidade são sagrados. Os afegãos são de religião muçulmana e pertencem à corrente sunita, mas não são sectários, fazendo alianças frequentes com a corrente xiita”, prosseguiu.

A realidade atual tem singularidades que se somam às daquele tempo, em especial o tabuleiro da geopolítica. A retomada do poder pelo Talibã, movimento fundamentalista islâmico dito nacionalista, está inserido no âmbito da ocupação norte-americana na região no pós-bloco soviético, uma ação para remover focos de resistência ao pleno domínio do regime da Casa Branca. A violação do direito internacional, naquela ofensiva, começou no Iraque, com a agressão do início da década de 1990.  E se estende para a atualidade com a guerra contra a Síria.

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Na segunda agressão, também com requinte de crueldade e cenas de barbárie – como a execução do então presidente iraquiano Saddam Hussein, uma encenação que serviu a um espetáculo midiático mundial, que logo se repetiria na Líbia, com Muammar Kadafi –, a justificativa, conforme anunciado pelo “guru” do vice-presidente de George W. Bush, Dick Cheney, o professor emérito da Universidade Princeton, Bernard Lewis, era fazer a “democracia” criar raízes no Oriente Médio.

A verdade é que aquele espaço sempre despertou o interesse dos impérios por ser uma rica fonte de matéria-prima e estar no entroncamento de três continentes. Já no pós-Primeira Guerra Mundial, os trustes norte-americanos se empenharam em conseguir ali concessões petroleiras, apesar da resoluta oposição da Inglaterra e da França – países que controlavam a região. Em 1940, as petroleiras inglesas controlavam 72% de todas as reservas de petróleo exploradas, enquanto as empresas norte-americanas controlavam 9,8%.

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No pós-Segunda Guerra Mundial, a região passou a ser um dos principais pontos de prioridade da política exterior de Washington. Por estar nas proximidades da Rússia e da China, o Oriente Médio também sempre mereceu atenção dos Estados Unidos quanto à influência de ideias que poderiam se traduzir em ações concretas de anti-imperialismo.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos iniciaram uma série de “tratados” e “pactos” envolvendo Inglaterra, França e alguns países da região – com o intuito de jogá-los uns contra os outros. No centro da estratégia imperialista estava o Estado de Israel, que desde a sua criação agiu como força de choque da política imperialista no Oriente Médio.

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Segundo dados do Instituto Internacional de Estocolmo de Estudos para a Paz, nos cinco anos transcorridos depois da guerra de outubro de 1973 entre Israel e seus vizinhos árabes os países pró-Estados Unidos do Oriente Médio receberam 70% de todas as armas norte-americanas exportadas para os países do chamado Terceiro Mundo. Em 1979, o Irã fez a revolução que derrocou o regime dos Estados Unidos no país e desencadeou mais uma onda de ações anti-imperialistas na região.

A guerra é contra os povos

No mesmo ano, o conflito no Afeganistão, ocupado por forças militares soviéticas, marcou mais uma etapa da presença dos Estados Unidos no Oriente Médio – que armaram grupos fundamentalistas para combater os invasores. 

Mais tarde, esses grupos angariaram para si o resultado de toda uma reserva de ódio, medo e desesperança e levaram a efeito o ataque terrorista do dia 11 de setembro de 2001. 

E rezaram por uma reação violenta por parte dos Estados Unidos, que terminaria mobilizando outros movimentos em torno de sua causa.

Assim o mundo entrou num círculo vicioso – um efeito gerando outro e mergulhando os povos da região na hedionda “guerra infinita” de Bush. 

Os terroristas fundamentalistas compartilharam de um ódio que é sentido em todo o Oriente Médio pela presença norte-americana em países da região, pelo apoio dos Estados Unidos às atrocidades cometidas por Israel contra o povo palestino e pela devastação da sociedade civil no Iraque.

A carnificina de Bush e seus aliados no Iraque chocou porque, primeiro, foi cruenta e, depois, porque criou assustadoras perspectivas. 

Foi, a rigor, uma guerra contra os povos – uma vez que não havia nenhum outro motivo para tamanha insanidade. 

As velhas senhoras do continente europeu – em particular o establishment da Inglaterra – não se mostraram dispostas a perder o sono em decorrência do conflito.

A oposição à guerra por parte da França, Alemanha e Rússia era importante, mas não reuniu condições para usar seu poderio – inclusive bélico, uma das garantias de suas posições no cenário global – em favor de uma ordem mundial mais equilibrada e de paz. 

Havia, por trás do conflito, a força dos Estados Unidos sobre grupos como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), pela regra da força bruta, pela qual chora menos quem pode mais.

Era o que se chamou de “doutrina Bush”, que sempre esteve na contramão dos direitos humanos e do direito internacional.

No caso, estava em questão a história do cartel mundial do petróleo, que merece um capítulo à parte na história do capitalismo.

No livro A Ditadura dos Cartéis, o autor Kurt Rudolf Mirow descreve como o país entrou na divisão mundial patrocinada pelo cartel do petróleo.

Segundo ele, uma das mais ricas reservas, conhecida desde 1929, ficou escondida por um bom tempo para que não surgisse um dilúvio de petróleo que afetaria a rentabilidade das corporações. 

São essas mesmas corporações, aliadas a outras, sobretudo as produtoras de armamentos, que constituem o cerne dos lobbies do poder da Casa Branca. 

Para esse condomínio, o controle das principais artérias da geopolítica mundial constitui um ponto nevrálgico, uma tarefa vital ao domínio dos depósitos de matérias-primas estratégicas, como petróleo e gás natural.

Peso do PIB dos Estados Unidos

O Iraque, por exemplo, flutua sobre um mar de petróleo de 112 bilhões de barris comprovados ao longo de um cinturão de campos petrolíferos que correm paralelos à fronteira iraniana. 

E um verdadeiro maná ainda está invisível: 

existem projetos no papel para a exploração de várias jazidas com um potencial de produção gigantesco, de um custo estimado de US$ 38 bilhões. 

Mas não é só: 

o país é o único da região com múltiplas vias para as exportações, uma das quais — através da Turquia — evita o vulnerável Estreito de Ormuz, que pode ser fechado com facilidade, por onde passa um quinto do petróleo consumido no mundo.

Para os Estados Unidos, maiores consumidores do planeta, responsáveis todos os anos pela combustão de 30% do petróleo extraído, aquele pote de ouro negro – assim como a Venezuela – é crucial para a sua hegemonia. 

Assim, ao mesmo tempo em que gastam fortunas no desenvolvimento de alternativas energéticas, como as células de hidrogênio, por exemplo, procuram assegurar-se de suprimentos que permitam ao país atravessar as próximas décadas. 

Para tanto, pretendem explorar até jazidas localizadas em áreas protegidas como reserva ambiental, no Alasca.

É evidente que uma economia com essas características, com o peso de um PIB que rompe a barreira dos US$ 8 trilhões, não tem como conviver com uma potencial paralisia das engrenagens que lhe são peculiares. 

Os Estados Unidos, que têm crescido uma mixaria diante dos vistosos índices da China, certamente não abrirão mão dessas fontes essenciais para a sua sobrevivência econômica.

A retomada do poder pelo Talibã precisa ser analisada considerando todas essas condicionantes, o que não autoriza qualquer triunfalismo precipitado. 

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As autocríticas norte-americanas começam a aparecer, as razões verdadeiras do declínio do império não - Rogério Maestri

Por Rogério Maestri

Guerrilheiros talibãs
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Aos poucos no meio de uma verdadeira gritaria histérica da grande imprensa internacional começam a aparecer algumas autocríticas norte-americanas que daqui a seis meses ou um ano começarão a ser engavetadas, pois apesar de essas serem duras não chegam a diagnosticar o cerne do problema, a lenta, gradual e contínua decadência do Império americano. 

Se deixarmos de lado reportagens sobre Afegãos que no desespero seguraram-se na parte externa de aviões e logicamente quando esses atingiram alturas de cruzeiro despencaram como teria que correr, ou outras trágicas ocorrências, que após as centenas de milhares de mortes causadas pelas tropas de ocupação dos países ocidentais no Afeganistão, serão ignoradas pela história, poderemos começar a achar declarações que explicam parcialmente como guerrilheiros mal armados, sem imagens de satélites, sem apoio aéreo, sem armamentos sofisticados, acabaram de simplesmente varrer do mapa um exército que no papel possuía quase quatro vezes mais soldados e estavam armados com o mais moderno que tropas de infantaria nos dias de hoje possuem. 

As revelações do Special Inspector General for Afghanistan Reconstruction (SIGAR), John Sopko, um advogado formado em 1977, ex promotor de justiça e um quadro burocrático junto a diversas esferas do governo norte-americano e no fim nomeado em 2 de julho de 2012 por Obama para ser o inspetor geral para a reconstrução do Afeganistão, onde foi gasto em torno $145 biliões de dólares para tentar “reconstruir” o Afeganistão e criar o exército fantasma o chamado Afghan National Defense and Security Forces ANDSF que simplesmente não lutou após a ofensiva final do Talibãs que resultou em mais uma derrota humilhante dos Rambos invencíveis norte-americanos. 

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Esse procurador escreveu alguns relatórios reveladores sobre para onde estava indo o dinheiro dos USA para a “reconstrução” do Afeganistão, há um relatório resumo pulicado em agosto desse ano, ou seja, dias antes da queda, intitulado “What We Need to Learn: Lessons from Twenty Years of Afghanistan Reconstruction” que junto com outros anteriores como o de setembro de 2016 “Corruption in Conflict: Lessons from the U.S. Experience in Afghanistan”, que mostram várias coisas. 

1º) Dos $145 biliões de dólares para a “reconstrução” do Afeganistão (figura 1 do relatório de 2021) a maior parte desse investimento foi gasta nas rubricas de armamento $83 bilhões, ou seja, 57% da “reconstrução” foram armamentos e soldos de soldados fantasmas ou que não chegavam as mãos dos futuros combatentes. O dinheiro investido nas chamadas ações humanitárias é maior do que outras rubricas quando o orçamento era da ordem de $1,07 bilhões (2012) e vai diminuindo até se tornar praticamente inexistente em 2010 quando os gastos anuais atingem 16,75 bilhões nesse ano, que o gasto foi máximo. 

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Se alguém ler com cuidado o segundo relatório nota que o seu autor, John Sopko, que percebe muito bem o grau de erosão que a corrupção por ele anotada era “tolerada” não só pelas autoridades afegãs, que ele deixa claro que eram partícipes na roubalheira, mas coloca de forma implícita que os membros do governo norte-americano (civis e militares) mesmo sabedores dessa não davam importância, só faltou ele deixar claro que para esses funcionários norte-americanos participavam do butim, que levou ao caos do fim da presença militar norte-americana e da OTAN. 

Em resumo, para quem leu os relatórios fica claro que para os Afegãos acabou a guerra e para os norte-americanos acabou a mamata que era repartida com o governo Afegão, ou seja, guerra contra o terror é simplesmente um falso lema, pois para o Império tudo é negócio, inclusive a guerra. 

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Três trilhões de dólares dos EUA não foram capazes de derrotar uma causa - Evilázio Gonzaga Alves

Por Evilázio Gonzaga Alves

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De acordo com reportagem da Forbes, "Morreram 2.500 militares dos EUA no Afeganistão e quase quatro mil civis prestadores de serviços. E isso nem se compara aos estimados 69 mil policiais militares afegãos, 47 mil civis e 51 mil combatentes da oposição mortos. O custo até agora para cuidar dos 20 mil feridos estadunidenses foi de US$ 300 bilhões, com mais meio trilhão ou mais para vir”.

A revista estadunidense afirma que “os EUA seguirão arcando com custos muito depois que a retirada do Afeganistão, organizada por Biden, for concluída. Naturalmente, o país financiou a guerra do Afeganistão com dinheiro emprestado (Forbes). Pesquisadores da Brown University estimam que já foram pagos mais US$ 500 bilhões em juros (incluídos na soma total de US$ 2,26 trilhões), e eles calculam que, em 2050, apenas o custo dos juros de dívida da guerra afegã pode chegar a US$ 6,5 trilhões. Isso equivale a US$ 20 mil para cada cidadão americano”.

A maior parte dos U$ 3 trilhões foi gasto na compra de armamento das gigantes da indústria militar dos EUA, como Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, Raytheon e General Dynamics. Boa parte do dinheiro pagou as forças mercenárias ou foi para as contas dos agentes afegãos dos EUA.

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A montanha de dinheiro, que saiu dos cofres públicos estadunidenses, foi um ótimo negócio para o complexo industrial-militar, o poder de fato nos Estados Unidos. Esta quantia estratosférica é apenas uma parte da imensa fortuna consumida pelos EUA, para tumultuar os países do Oriente Médio e da Ásia Central, com o propósito de desestabilizar a região, no flanco sul da Rússia e oeste da China.

A queda do poder estadunidense chama a atenção para a terrível situação que o Afeganistão vive há décadas. 

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Tudo começou quando um governo socialista assumiu o poder no Afeganistão. Na época o socialismo avançou em vários locais, como Angola, Moçambique, Nicarágua e um governo hostil aos Estados Unidos, foi instalado no estratégico Irã. 

Mesmo com tantos recuos no mundo, o centro das preocupações da geoestratégia estadunidense foram o Irã e o Afeganistão, porque as defecções dos dois países comprometiam o sistema de contenção da União Soviética, na fronteira Sul, que os estadunidenses denominavam como “cordão sanitário”, um conceito estabelecido pelo teórico Nicholas Spyman. A aliança informal com a China, estabelecida por Nixon, completou o “cinturão”, que ia da Turquia, até o leste da China. 

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A virada política no Irá e no Afeganistão quebrou o cerco ao flanco sul da União Soviética. 

REAGAN PLANTOU O TERROR

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Para estabilizar mais rapidamente o Afeganistão, o governo soviético enviou tropas para auxiliar o regime socialista, em 15 de maio de 1988.

O governo Reagan percebeu uma oportunidade, para colocar em prática uma ideia estratégica de Zbigniew Brzezinski, um teórico da geopolítica polonês, naturalizado estadunidense, que tinha sido o principal conselheiro do presidente Jimmy Carter. 

Brzezinski defendeu uma nova estratégia, de cerco "ofensivo" contra a URSS, que consistia no envolvimento da União Soviética em um conflito interminável no Afeganistão, onde os EUA e os países muçulmanos aliados colocariam bilhões de dólares e toneladas de armas para equipar os mujahedins, chamados pelos americanos de "guerreiros da liberdade" na luta contra o comunismo.

A estratégia funcionou. O Afeganistão entrou em convulsão e a URSS foi obrigada a retirar suas forças do país, após uma guerra desgastante e sem fim. 

Na sequência, o Talibã, termo que pode ser traduzido como “estudantes”, assumiu o poder no Afeganistão. Os integrantes do Talibã são, na sua maioria, filhos de refugiados afegãos, deslocados de suas terras pelos conflitos, entregues ainda crianças por seus pais, para estudar em escolas religiosas, chamadas madrastas e financiadas pela Arábia Saudita. Nas madrastas os jovens recebem treinamento ideológico (religioso) e militar.

Embora financiassem e armassem os guerrilheiros do Talibã, como os de outros grupos, inclusive o que se tornou a Al Qaeda, os EUA não tinham nenhum controle (e nem muita noção) sobre o que era ensinado nas madrastas. As escolas financiadas pela monarquia saudita eram centros de pregação do Wahabismo, um movimento do islamismo sunita, criado no século XVIII, ultraconservador, extremista, austero, fundamentalista e puritano. Os seguidores do Wahabismo pretendem restaurar aquilo que, na sua visão, seria o culto monoteísta puro, e têm grande ressentimento contra os valores ocidentais, principalmente os Estados Unidos, que acusam de ter desrespeitado o solo sagrado do Islã, com suas bases na Arábia Saudita.

No controle do Afeganistão, o Talibã acolheu grupos islâmicos sectários, como a Al Qaeda, que, segundo as informações disponíveis, organizou o ataque de 11 de setembro.

O governo Bush não perdeu tempo, menos de um mês após o ataque de 11 de setembro, começou a invasão do Afeganistão. A rapidez para enviar uma força invasora a um local tão remoto, parece indicar que o esquema do ataque estadunidense já estava preparado, talvez para outro local e foi desviado para o Afeganistão. 

Foi a oportunidade para fincar o poder do império dos Estados Unidos em uma região de alto valor estratégico, o que poderia levar as vendas do sistema industrial-militar a um valor estratosférico.   

Os Estados Unidos travaram uma guerra impelidos por considerações imperiais e alimentadas pelo dinheiro.

Seus adversários tinham uma causa, que concordemos ou não com ela, foi capaz de manter a resistência do Talibã, durante vinte anos, até a vitória.  

PARA CLAUSEWITZ UMA CAUSA FAZ UM EXÉRCITO INVENCÍVEL 

A derrota dos Estados Unidos, mesmo desperdiçando tantas vidas e gastando uma montanha de dinheiro, pode encontrar explicações na afirmação de Carl von Clausewitz de que a guerra se mistura com a política. 

Segundo o britânico John Keegan, que foi professor de história militar na Real Academia Militar de Sandhurst, a tradução de Clausewitz para o inglês é falha. Para Keegan, o que o alemão não pretendeu dizer “continuação”, mas sim que a guerra é misturada à política. 

O oficial prussiano chegou a esta conclusão ao lutar contra os exércitos franceses, que se formaram após a revolução. 

Logo após a abolição da monarquia e a instauração da República Revolucionária, em 1792, a França foi invadida por um exército prussiano. O país estava desorganizado e o velho exército monárquico havia sido dissolvido.

Os franceses convocaram os cidadãos para defender o país. Movidos pelo entusiasmo revolucionário, milhares se apresentaram. Foram rapidamente armados e organizados sob o comando de oficiais que haviam rompido com o antigo regime e foram à batalha. 

No dia 20 de setembro de 1792, foi travada a Batalha de Valmy, quando se enfrentaram as tropas francesas e prussianas, um exército que espelhava a revolução e um exército convencional, criado por monarquias absolutas. (“Batalha de Valmy - Disciplina - Filosofia”)

O resultado militar da batalha é inconcluso, porém os prussianos foram obrigados a recuar, talvez surpresos com a capacidade da República Revolucionária de enviar um poderoso exército de defesa. 

A verdadeira importância desta batalha é a mudança de paradigmas, pois introduz o exército de cidadãos nos conflitos europeus na idade moderna. De 1792 a 1815, a França vai enfrentar quase toda a Europa com este novo tipo de exército, conquistando triunfos mesmo contra formas maiores e melhor armadas. 

Os exércitos franceses eram motivados por uma causa. Mesmo após Napoleão ter se autonomeado imperador, os militares franceses acreditavam que cumpriam a missão de eliminar a aristocracia em todo o continente europeu, em uma espécie de revolução permanente. 

Os exércitos franceses eram politizados ou própria política nos campos de batalha. A história comprova a percepção de Clausewitz, pois nas campanhas secundárias, nas quais a eliminação da aristocracia não se aplicava, o desempenho das forças francesas era inferior, como foi o caso da ocupação da Espanha.   

Enquanto as monarquias absolutas europeias não tinham capacidade para mobilizarem os povos que dirigiam e, por isso, não conseguiam ultrapassar o tipo de recrutamento profissional e mercenário que gerava exércitos de efetivos e lealdade reduzidos, a Revolução Francesa veio alterar esta situação porque o Poder era considerado o intérprete da vontade geral da comunidade e isso conferia-lhe a capacidade de mobilizar recursos humanos leais e materiais numa escala nunca atingida.

Clausewitz confirmou seus conceitos, quando ofereceu serviços ao czar da Rússia, para enfrentar a invasão napoleônica, em 1812. Nos campos de batalha do império czarista, o militar prussiano testemunhou o surgimento de um antidoto contra o fervor revolucionário: o nacionalismo.

A propaganda czarista, contando com ajuda da igreja ortodoxa, conseguiu motivar seus exércitos, compostos por camponeses mantidos no regime medieval de servidão, com um sentido de missão: defender a mãe Rússia.

A extinção da servidão provavelmente seria um dos resultados da invasão francesa, mas só ocorreu em 1861, meio século depois. Os camponeses servos, que lutaram no exército czarista, foram convencidos a assumir uma causa, que era contra os seus interesses, mas para a monarquia dos Romanov, a estratégia funcionou. 

O teórico alemão percebeu a importância das causas, para ampliar a potência dos exércitos, e adotou o nacionalismo como um elemento central, capaz de fortalecer a força militar do seu próprio país, a Prússia.

De fato, o nacionalismo foi a força motriz das maiores transformações, a partir de 1812, na Europa, nas Américas, continente colonizado por europeus e até na Ásia, com a ascensão do Japão. A Itália e a Alemanha se unificaram com base no nacionalismo, a mesma motivação que fez surgirem novos países na Europa Oriental, nos Balcãs e na Escandinávia. 

A obra de Clausewitz, consolidada no livro Da Guerra, teve pouca influência nesses grandes acontecimentos mundiais, exceto na Prússia, onde o oficial foi diretor da Escola Militar de Berlim. Seu livro só foi publicado após sua morte, em 1831 e somente veio a se tornar uma referência, quando o comandante das tropas alemãs na Guerra Franco-Prussiana (1870), Helmuth von Moltke, declarou que Da Guerra era um dos seus livros de cabeceira. 

GRANDES DERROTAS DOS EUA FORAM PARA UMA CAUSA

Nas duas derrotas mais evidentes do império estadunidense no último meio século, seus adversários foram motivados por causas particulares. 

No Vietnã, mais do que o marxismo, o motor foi o nacionalismo.

Recentemente o mundo vê o insucesso do império no Iraque, onde o governo foi conquistado em eleições pelos xiitas aliados do Irã; e na Síria, país que resistiu à tentativa de destruição. No Iraque a defesa do islã se mistura com o nacionalismo e na síria há motivações semelhantes, porém em torno do da corrente alauita do islamismo, aliada aos cristãos e drusos (outro grupo islâmico).  

Agora no Afeganistão, há o islã, mas também o nacionalismo e a defesa do modo de vida tradicional das diferentes tribos que vivem na região. 

A massa dos guerreiros talibãs acredita em uma ideologia medieval, que com muita probabilidade não vai contribuir para o seu país, mas foram esta causa que deu sentido, energia e confiança, para uma resistência de 20 anos contra a maior potência do mundo. 

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Steve Bannon declara guerra contra lula - Nathalia Urban

Por Nathalia Urban

Steve Bannon e Lula
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Por Nathália Urban, no Brasil Wire - O guru da extrema direita e ex-estrategista da Casa Branca Steve Bannon tem usado seu peso político para apoiar a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro.  Eduardo Bolsonaro conheceu Bannon na última terça-feira, em conferência organizada por Mike Lindell, empresário apoiador de Trump e um dos responsáveis ​​pela divulgação de teorias da conspiração sobre a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos, em 2020. 

Eduardo foi convidado a subir ao palco e apresentado por Bannon como “o terceiro filho de Trump dos trópicos”.  O deputado repetiu a desinformação sobre as urnas eletrônicas brasileiras e apresentou vídeos de seu pai em comboios de motocicletas com seus apoiadores. 

Em um discurso de abertura, o líder internacional de extrema direita atacou o ex-presidente Lula e afirmou que a eleição presidencial de 2022 no Brasil é “a mais importante de todos os tempos na América do Sul”. 

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Bannon disse: “Cerca de 30 dias antes das grandes eleições intermediárias, Jair Bolsonaro enfrentará o esquerdista mais perigoso do mundo, Lula.  Um criminoso e comunista apoiado por toda a mídia aqui nos Estados Unidos, toda a mídia de esquerda.   Esta eleição é a segunda mais importante do mundo e a mais importante de todos os tempos da América do Sul. Bolsonaro vencerá, a menos que seja roubado, adivinhe, pelas máquinas ”. 

Bolsonaro vem fazendo constantes ataques ao sistema de votação brasileiro. Bolsonaro fez pelo menos 192 declarações contra o modelo atual de votação eletrônica e a favor do voto impresso desde que assumiu o poder, mas 160 dessas declarações ocorreram desde abril, quando Lula recuperou seus direitos políticos. 

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Bolsonaro argumentou que sem esse mecanismo de votação seria vítima de fraude para favorecer um de seus adversários e repetiu, sem nunca ter apresentado nenhuma prova, que já era alvo dessa estratégia porque teria vencido as eleições presidenciais no primeiro turno em 2018. Inspirado pelo manual de Trump, ele lança dúvidas sobre o sistema de votação com medo da derrota nas urnas, usando uma retórica cada vez mais radical para se manter no poder, mobilizando seus partidários de extrema direita. 

Filipe Martins, “ex-assessor econômico” da embaixada dos Estados Unidos em Brasília, é o responsável pela apresentação de Jair Bolsonaro a Steve Bannon. Martins trabalhou na embaixada durante o período do golpe, entre dezembro de 2014 e julho de 2016. 

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Não é a primeira vez que Bannon fala sobre Lula. Após sua libertação de uma prisão por motivos políticos em novembro de 2019, Bannon chamou o ex-presidente de "o maior ídolo da esquerda globalista no mundo" desde o fim da presidência de Obama, e que seu retorno às ruas trará "enorme perturbação política para o Brasil ”. Bannon chamou Lula de “cínico e corrupto”, insistiu que ele havia sido corrompido pelo poder e alertou que seu retorno significaria o “retorno da corrupção” ao Brasil.

“Agora que está livre, Lula se tornará um ímã para a esquerda global se intrometer na política brasileira. Ele é o garoto-propaganda da esquerda globalista ”, afirmou Bannon. 

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Lula atualmente detém a liderança nas pesquisas de opinião para as eleições presidenciais de 2022.

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Falência da política externa dos EUA sob Biden - Lejeune Mirhan

Por Lejeune Mirhan

Presidente dos EUA, Joe Biden, faz pronunciamento na Casa Branca
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Vou tratar neste meu novo ensaio, de um tema de alta complexidade, mas pouco desenvolvido. Pelas fontes que eu pesquiso, não há ainda um balanço dos sete meses do governo de Joe Biden que completa dia 20, que é a “nova” política externa do seu governo. Vou mostrar que esta política não está sendo nova, ainda que faça pequenas alterações, sendo uma ou outra importante, mas na essência, ela se mantém praticamente igual à que Donaldo Trump deixou. Por que democratas e republicanos adotam praticamente a mesma política externa? É o que tentarei responder. 

Este fato por si só é profundamente lamentável, porque reforça àqueles que argumentavam, durante as eleições, de que não havia nenhuma diferença entre um e outro. Estes “analistas” hoje devem estar em êxtase. Eu continuo me perfilando entre os estudiosos de política internacional – e não somos poucos – que jamais faria uma avaliação dessa natureza, completamente antidialética, de que ambos seriam exatamente igual.

Como tenho sempre dito, se não houver nenhuma diferença na política externa, é um mau sinal, para as forças, partidos, governos e estados que lutam por um mundo verdadeiramente multipolar. Ou seja, se ele continuar fazendo uma política externa ruim como a anterior, é um mau sinal para nós, para a Rússia, para a China. Então, não há o que comemorar.

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Aspectos positivos a serem registrados

Não são muitos, mas são significativos e valem a pena serem registrados neste trabalho. Eu diria que um dos aspectos mais positivos e que estão visíveis da “nova” política externa dos Estados Unidos, é a volta para a Organização Mundial de Saúde – OMS e, portanto, o aspecto de que ele abraça uma concepção científica no combate à pandemia, coisa completamente distinta de Trump, que era negacionista e abandonou a organização num momento trágico.

A segunda questão positiva é a volta dos EUA à Conferência do Clima, chamada de Conferência de Paris-COP 21. Ela é conhecida por ter muitas denominações. Ele designou ninguém menos que John Kerry, ex-secretário de Estado de Obama para cuidar dessa área. Uma espécie de czar do clima. 

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A COP-21 é a área das Nações Unidas que cuida, especificamente, da questão ambiental. Este retorno é positivo, independente de quaisquer divergências com o país capitalista. Além do confronto com o ex-presidente Trump, há um outro aspecto que é, recolocar na ordem do dia mundial, a problemática do meio-ambiente, o que é muito positivo. 

E são praticamente apenas esses dois aspectos positivos da política externa estadunidense que, portanto, não é nova e vem mantendo alguns aspectos da política anterior. Isso relaciona-se, por certo, pelo simples fato que o papel da chefia de um império exercido pelo presidente dos EUA, tem que cumprir determinações do complexo industrial-militar que age às claras, ainda que alguns o chamem de deep state (sic).

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Características gerais da “nova” política externa

Listarei a seguir, de forma resumida e sintética, as seis principais características mais marcantes dessa política externa adotada pelo democrata Joe Biden:

1ª] Biden, como chefe de um império, fará tudo que estiver ao seu alcance para manter o mundo unipolar. Que é a realidade desde dezembro de 1991, quando a URSS foi oficialmente dissolvida. Ele vai fazer de tudo para tentar manter a hegemonia de seu país no mundo. É uma característica que vinha desde Trump e os anteriores, que não tem como não ser mantida por Biden.

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2ª] O segundo aspecto é que o imperialismo comandado pelo democrata Joe Biden fará tudo o que estiver ao alcance para conter o crescimento da República Popular da China e da Federação Rússa. Isto Trump também vinha fazendo. Às vezes, a nuance dá mais ênfase em conter a China e o outro mais em conter a Rússia. Biden faz de tudo para conter os dois. E, a contenção se dá nos aspectos econômico e militar. Sabemos que isso está fadado a não ocorrer.

3ª] A “nova” política externa de Joe Biden tem também como um dos seus maiores objetivos afastar a Rússia da China, que mantém entre si uma aliança estratégica que – eu diria – inquebrantável na atualidade. Não tem como, hoje, afastar um do outro.

Até porque este ano, completam-se 20 anos da fundação da OCX (Organização de Cooperação de Xangai), que é um acordo basicamente militar, que começou com apenas quatro membros, subiu para oito. Tem o Irã como observador, que será elevado à categoria de membro. Em termos de soldados, na ativa, tem 10 milhões, mais os da reserva (1).

Eu sempre tenho afirmado que o presidente dos Estados Unidos tem dois papeis: um de presidente de um país e outro de chefe de um império, não importa a linha política, democrática ou republicana. Aqui o que menos importa são sentimentos, emoções, trajetórias de vida, empatia, “bondades” etc. O chefe desse império tem que fazer de tudo para defender os interesses dos EUA e das suas corporações e do sistema capitalista mundial, em especial o financeiro.

4ª] Biden está fazendo de tudo para afastar a República Federal da Alemanha, principalmente, da Rússia e, secundariamente, da China. Seguindo o que Trump também tentava. Por que da Rússia, em particular? Por causa de um aspecto teórico apontado por um dos fundadores da Geopolítica moderna, enquanto ciência, que foi Halford John McKinder, que elaborou a teoria do Heartland (o coração da terra) – que é uma parte da Eurásia – a partir de um artigo que ele publicou decorrente de uma conferência que ministrou em 1904, na Real Sociedade de Geografia da Inglaterra (2).

Ele afirmou que se a Alemanha se unisse com a Rússia, seria imbatível. E, a história, de certa forma, mostrou que ele tinha razão. Nas duas guerras mundiais, travadas em território europeu, a Alemanha sempre esteve em lado oposto ao da Rússia. Parece que Biden está convencido de que esta teoria é correta e tem que fazer de tudo para impedir esta união.

5ª] Biden segue rigorosamente igual a política de governar o mundo através de sanções ilegais. Porque elas são determinadas por decisão única e exclusiva de um país e acontecem à revelia do Direito Internacional e do sistema das Nações Unidas. A ONU não reconhece nenhuma sanção imposta pelos EUA.

Tais sanções se dão ou para um país inteiro – o caso de Cuba configura um bloqueio integral – ou para indivíduos, autoridades ou empresas. Elas são muitas contra Cuba, Rússia, China, Síria, Iraque, Coreia Popular entre outros. Mas, Biden continua fazendo isto, ainda que priorize sanções contra pessoas. Um exemplo é de Cuba onde ele aplicou recentemente duas sanções, contra o ministro da Defesa e o chefe da Polícia Nacional, sob o argumento de que eles reprimiram o povo nas manifestações de 11 de julho (3).

6ª] Ele segue dando opiniões sobre assuntos internos de quaisquer países do mundo, como se fossem “donos do mundo”. Eles fazem ingerência interna, ferindo a soberania, a independência nacional e a autodeterminação dos povos (ao longo deste ensaio falarei do caso mais recente sobre o não reconhecimento das eleições na Nicarágua, em 7 de novembro próximo). 

Isto fere um tratado de exatos 373 anos, mais conhecido como a Paz de Westfália, assinado em fevereiro de 1648, quando os monarcas absolutistas europeus, cansados de guerrear entre si, reúnem-se e estabelecem pela primeira vez o conceito de soberania nacional, reconhecendo fronteiras entre os reinos. Um não ultrapassa os limites do outro. Não interferem em questões internas (4).

Isto representou um marco importante no contexto internacional da diplomacia. Eles introduzem o conceito de equilíbrio entre as nações. Por certo ele não durou muito na Europa, porque isso não impediu sucessivas guerras posteriores. Mas a sua existência foi fundamental para o desenvolvimento das relações soberanas entre nações. 

Vale registrar uma diferença substancial da política externa de Biden e Trump, entre os democratas e os republicanos, os democratas serem muito mais multilaterateralistas, ao passo que republicanos são mais unilateralistas. Ser multilateralista hoje significa reconhecer as decisões tomadas pelos organismos internacionais da ONU, que são todos unilaterais: um voto por país.

Por exemplo, o Conselho de Direitos Humanos. Ele tem 47 membros e, as decisões tomadas por esse organismo nos assuntos em pauta, se dá por simples levantamento de braço. Cada representante de país tem um voto. O voto dos EUA vale tanto quanto o voto da Ilha de Malta. E, os Estados Unidos têm perdido todas as votações na maioria dos organismos multilaterais. 

Tais organismos são respeitadíssimos internacionalmente e fazem parte do nosso dia a dia. Quando falamos em siglas como: OIT, OMS, OEA, FAO, Unicef, Unesco, todos as conhecemos e sabemos do que se trata.

Biden e os democratas reconhecem as decisões. Diferentemente do republicano Trump que é unilateralista e não aceita e não respeita as decisões desses organismos. Queria que os EUA tivessem um peso maior. Não por acaso ele saiu da OMS, causando-lhe um imenso rombo financeiro em seu orçamento anual (os EUA respondem por um quarto) e da Conferência do Clima. 

Problemas pontuais da política externa

A partir deste momento em nosso trabalho, quero apontar concretamente problemas em várias áreas na política externa dos Estados Unidos, sob a nova gestão de Joe Biden, envolvendo temas em todos os cinco continentes e regiões importantes na Terra. 

Cuba

Muitos analistas – dentre os quais eu me encontro – davam como certo que Joe Biden iria modificar a relação com Cuba, desfazendo todas as maldades feitas por Donald Trump. Que ele iria voltar ao patamar que Barak Obama deixou, governo esse que teve o próprio Biden como seu vice.

No último ano do governo de Obama, em 2016, ele reabriu a embaixada dos EUA que se encontrava fechada desde 1962, quase 60 anos. Ampliou o número de concessões de vistos para viagens entre os dois países. Autorizou voos fretados, bem como remessa de dinheiro de um lado para o outro. 

É bem verdade que ele não chegou a suspender as sanções que, em sua maior parte, decorrem de uma lei federal aprovada pelo Congresso em 1996, sob o governo de Bill Clinton, a chamada lei Helmut-Burns. Ela pune empresas estadunidenses que comercializam com Cuba, que seriam proibidas de manter comércio com os Estados Unidos. Para revogar, Obama teria que ter mandado uma nova lei, mas não o fez (5).

Olhando em perspectiva histórica, de 1959 até os dias atuais, nos 62 anos do socialismo em Cuba, tivemos o embargo imposto por Kennedy em fevereiro de 1962, que completará 60 anos em 2022. Nesse período os EUA tiveram 12 presidentes (6) e todos tentaram matar Fidel Castro. Estima-se em exatas 638 tentativas de seu assassinato. Ele, no entanto, morreu por idade, aos 90 anos (7).

Quero registrar que nestes 60 anos, houve apenas dois momentos de relaxamento do tensionamento do bloqueio. O primeiro deles entre janeiro de 1977 a janeiro de 1981, sob o governo de Jimmy Carter. Do meu ponto de vista, um dos melhores presidentes dos EUA. O segundo foi o próprio Barak Obama, que foi o responsável pela reabertura da embaixada. 

Biden – lamentavelmente – tem se mostrado um completo fracasso nesse aspecto, mantendo tudo como estava quando Trump deixou e não como Obama deixou. Trump só não fechou a embaixada, pois todo o resto ele suspendeu, sendo um imenso retrocesso. Biden acaba por ceder às pressões do lobby cubano de Miami, poderoso e composto por pessoas riquíssimas. 

Sob Biden, além de nada ter sido modificada com relação à política para Cuba, com relação à política externa de Trump ele acabou por impor novas sanções, ainda que de caráter mais pessoal. É odioso manter sanções em meio a uma pandemia mundial. 

Cuba é um país que tem duas vacinas em condições de aplicação em sua população, que são as vacinas Soberana e a Abdala, mas eles não têm seringa, porque não conseguem fabricá-las por absoluta falta de insumos. Em torno de 70% de tudo que a ilha consome eles têm que importar. 

Esses são os problemas dos países insulares e pobres. Trump não se preocupou com isso por toda a sua insensibilidade. Esperava-se que Biden pudesse rever isto e afrouxasse, para que Cuba pudesse comprar remédios e medicamentos. Mas nada disso se verificou.

Nicarágua

Na América Latina vivemos um caso emblemático. A Nicarágua terá eleições presidenciais no próximo dia 7 de novembro. A Nicarágua, em julho de 1979 fez uma revolução, conhecida como Sandinista. Eles tinham um movimento chamado Frente Sandinista de Libertação Nacional – FSLN. 

Eles tomaram o poder e derrubaram uma das ditaduras mais sanguinárias da história do país, comandada por Anastácio Somoza, cujo apelido era Tachito. Certa vez lhe perguntaram quantas fazendas ele tinha e ele respondeu: “só tenho uma e o seu nome é Nicarágua”.

Foi uma grande e importante revolução, apoiada por todos os que querem um mundo melhor (à época, com 23 anos, constitui um comitê de apoio à revolução sandinista, em 1979 na PUCC). Daniel Ortega Saavedra foi o primeiro presidente pós-revolução. Ele governou por um período bastante elástico, de 1979 até 1990. Ele perdeu a eleição para Violeta Chamorro, que tinha atuado a favor da revolução, mas rompeu com ela.

Além de Violeta, outras pessoas e partidos dominaram a política nicaraguense até 2006, quando Daniel Ortega se candidata e volta ao poder central. Ele governa, então, desde 2007, tendo sido reeleito sucessivamente. Ele agora disputa as eleições de 2021, com grande chance de vencer.

Ortega faz um bom governo, com características anti-imperialistas, buscando fortalecer aquilo que Lula criou, a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos – CELAC, que tem países do México para baixo, deixando de fora apenas Canadá e Estados Unidos. O professor Castillo, que tomou posse no Peru, tem como programa, fortalecer a CELAC. Estou citando a Nicarágua, porque Biden, através da Secretaria de Estado, que é a sua Chancelaria, disse que não vai reconhecer as eleições.

É impressionante como um presidente da República dá uma declaração dessas, correndo o risco inclusive de ficar desmoralizado. Isto porque, Daniel Ortega vai ter uma oposição, que poderá ganhar, mesmo com pequenas chances. Qualquer opositor poderá ganhar. 

Certamente, caso a oposição venha a ganhar, por certo os EUA reconheceriam esse novo governo. Portanto, não se trata de suspeitar das eleições, mas sim de ganhar quem ele não gosta. Este tipo de postura é exatamente igual à dos governos anteriores, a qual Joe Biden não fez nenhuma mudança significativa.

Venezuela

Estou analisando fatos, dados e informações objetivas, mostrando que não há mudança substancial da política externa. É preciso dizer que várias sansões foram suspensas com relação à Venezuela, aquelas contra empresas, instituições ou pessoas. 

Mas, a sanção ao governo e ao Estado Venezuelano, especialmente, na área do refino do petróleo, na exportação e importação do principal produto e commodities da balança comercial do país, que é o petróleo, foram mantidas. A Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo, maior até do que a Arábia Saudita.

As refinarias venezuelanas, por conta das sanções, estão funcionando precariamente. E, só o fazem, porque o Irã, muito solidário, está mandando os insumos que faltam para quebrar a cadeia do petróleo e produzir os seus derivados e fornecendo peças de reposição que o país não fabrica e está proibido de comprar de fora. Pior do que isto. 

Joe Biden continua não reconhecendo a eleição de Nicolás Maduro, ocorrida num ambiente de liberdade e democracia em que ele venceu com 67,8% dos votos (8). E, registre-se, a Venezuela gostaría de reatar relações diplomáticas com os EUA. 

A pergunta é: Por que uma potência mundial só reconhece quem ela gosta? Isto é reflexo do mundo que vivemos onde os Estados Unidos são protagonistas e jogam seu papel. Mas, o mundo mudou e não é mais unilateral como gostariam os imperialistas estadunidenses, nem tampouco está em transição entre a uni e a multipolaridade. De meu ponto de vista já vivemos a multipolaridade e presenciamos o fim da unipolaridade. 

Temos, desta forma, a situação da Venezuela, com um governo que os EUA não reconhecem. A costa naval venezuelana é toda bloqueada, ninguém podendo navegar por ali. E, o pior de tudo isto. Um obscuro deputado, que nem mais deputado é, Juan Guaidó, segue sendo considerado “presidente” (sic) da Venezuela.

Lembremos que em janeiro de 2019, quando ele ainda era presidente da Assembleia Nacional, com apoio de Donald Trump, que não havia reconhecido a eleição de Maduro de 2018, autoproclamou-se presidente da Venezuela. No dia seguinte, Trump o reconheceu como presidente “legítimo” sem ter tido um voto.

No dia seguinte, 44 países também reconheceram aquele arrivista, fascista que, inclusive, tentou invadir a Venezuela com mercenários em 2020, vindos de Miami e foram rechaçados por pescadores revolucionários (9). Esse é o Guaidó. Entre os 44 países que o reconhecem como “presidente” (sic), estão França, Inglaterra e Alemanha, para se ter noção da força do imperialismo. E, claro, este Brasil varonil.

Em 2020 houve novas eleições para o Parlamento venezuelano e Juan Guaidó decidiu não concorrer. Os bolivarianos fizeram cerca de 70% das cadeiras. Ainda assim, Biden continuou reconhecendo Guaidó como “presidente” da Venezuela sem que ele seja sequer deputado.

Em relação à política para o subcontinente, os EUA continuam fazendo da Organização dos Estados Americanos – OEA, uma espécie de “Ministério das Colônias”, termo usado por alguns autores. A Organização faz a política externa dos Estados Unidos para as suas colônias na América. Eles continuam instrumentalizando, asfixiando e impondo suas práticas pela OEA, com apoio da maioria dos membros. 

Em alguns momentos as sanções impostas sob países como Cuba, Bolívia e Venezuela não vêm dos Estados Unidos, mas sim da OEA. Registro que, recentemente, o presidente do México, Andrés Manuel Lopes Obrador, declarou que é preciso repensar um organismo alternativo à OEA (10). 

Grupo de Lima

O Grupo de Lima foi formado no dia 8 de agosto de 2017. O Brasil vivia sob o governo do golpista Michel Temer. Eles se reuniram na capital peruana, doze chanceleres dos seguintes países: Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, México, Honduras, Guatemala, Costa Rica, Panamá, Paraguai e Peru. 

O grande objetivo do grupo era, claro, derrubar o governo venezuelano. Vejam o absurdo da política externa dos Estados Unidos que Biden não alterou ainda. O absurdo é um grupo de diplomatas formado para derrubar o governo de um país vizinho. É a total ingerência em assuntos internos de um país soberano. 

Estou mencionando o Grupo de Lima porque, a Argentina já tinha deixado o grupo em 24 de março deste ano. México, governado por um presidente progressista, eleito em 2018, nem sequer saiu do grupo ainda. A grande novidade, por certo, foi que o Peru, depois da posse do Prof. Pedro Castilho, através do seu chanceler, Allan Wagner (11), octogenário e que foi guerrilheiro na década de 1960, anunciou a saída do país do Grupo de Lima. 

O problema não é dos que ficam, mas é que o programa do grupo que segue sendo apoiado pelos Estados Unidos mesmo depois da posse de Joe Biden, que não lhe retirou apoio até agora. Com isso, em mais um aspecto, vemos a manutenção da mesma política praticada por Donald Trump.

A única perspectiva do Grupo de Lima perder seu sentido é se vencermos as próximas eleições no Chile, no final do ano, vencermos no Uruguai, com a Frente Ampla, o México se retirar e – o mais importante – vencermos no Brasil em 2022. Então, de fato, o Grupo começaria a se enfraquecer, mesmo seguindo com apoio de Canadá e Estados Unidos e países governados por direitistas, mas muito pequenos.

Oriente Médio

Vou discorrer sobre três aspectos do Oriente Médio expandido: Mundo Árabe, Irã, Turquia, Afeganistão. Tudo faz parte da Ásia que, na Bíblia, era chamado de Ásia Menor. O primeiro problema que se arrasta desde 1948, é de Israel contra os palestinos, este é o termo correto, é o opressor contra o oprimido. Explicação sobre o contexto histórico Israel-Palestina.

O sentimento de antissemitismo deflagrado na Alemanha, a partir de Hitler, criou as bases para um movimento sionista que pregava a “fuga para a Palestina”. Quando fizeram o primeiro censo na Palestina no começo do século XX, não eram mais de 5% os judeus que lá moravam. Quando fizeram um novo censo em 1947, eles já eram mais 40%. Eram pessoas que não nasceram e nem nunca moraram lá, e que não tinham nenhum vínculo. O único ‘vínculo’ era aquela história bíblica supostamente ocorrida 2,5 mil anos atrás. Mas, não é assim que se mostra que são donos da terra. Donos são os que moram e ocupam, tomam conta, plantam e constroem. Trata-se, então, de um conflito desigual, de Israel contra o povo palestino.

Biden não fez nada até agora. Em sete meses ainda não disse a que veio. Para não dizer que não fez nada, quando houve os 11 dias em que o Hamas e a resistência palestina se enfrentaram Israel em maio passado, Israel respondeu com bombas em Gaza, o presidente dos EUA mandou para Israel o secretário de Estado que é uma espécie de ministro das Relações Exteriores, Antony Blinken conversar com o ex-primeiro-ministro Netanyahu e com a sua oposição, assim como falou com Mahmud Abbas da ANP.

Em reunião com a oposição à Nethanyahu deve ter dito que Biden não apoiava Netanyahu em sua reeleição. E deve ter dito à oposição – que tentava formar governo para derrubar o anterior – que Biden via com bons olhos a formação de um novo governo. Esse foi o recado que Blinken mandou de Biden. Isto foi positivo, porque acabou a era Netanyahu. Não quer dizer que melhorou. Para os palestinos não mudou nada. Mas, foi positivo interromper os governos seguidos do ex-primeiro-ministro. Era preciso encerrar aquela era.

Mas, na essência, quais foram os presidentes dos Estados Unidos que fizeram alguma coisa em favor dos palestinos de 1948? Apenas Jimmy Carter, que mencionei acima e Bill Clinton. Carter, em 1979, promoveu um acordo de paz entre Egito e Israel, determinando que este devolvesse todas as terras tomada em 1967. 

O Partido Likud venceu pela primeira vez as eleições em 1977, desde 1947, quando Israel foi governada pelo Partido Trabalhista, conhecido pelo termo inglês como Labor. Foi então, que os Estados Unidos colocaram os dois para conversar sobre a paz e eles chegaram ao Acordo, denominado de Camp David e Israel devolveu o Sinai ao Egito, bem como outras terras à Jordânia e foi selada a paz. Ambos ganharam o Nobel da Paz pela iniciativa.

O segundo acordo foi promovido por Bill Clinton, em setembro de 1993. Foi o Acordo de Oslo. Esse foi um acordo de paz assinado na Casa Branca por Yasser Arafat (OLP) e Yitzhak Rabin, do Partido Trabalhista, que tinha voltado ao governo. Rabin foi assassinado dois anos depois por um judeu fundamentalista. Onze anos depois também assassinaram Arafat. Sua morte foi dada como natural, mas foi envenenado, em 2004. Esses dois presidentes foram os únicos que, de 1948 para cá, usaram o poder dos EUA para tentar a paz entre os dois povos.

Donald Trump até ensaiou algo, mas de forma absolutamente unilateral. Em janeiro de 2020 ele anunciou o chamado Acordo do Século. Ao lado dele estava Netanyahu então primeiro-Ministro de Israel e do outro lado, não tinha ninguém. Os palestinos não conheciam uma linha sequer do tal acordo. Ele não foi o acordo do século, porque foi devidamente enterrado. 

Trump, mesmo sendo um fascista, tentou mostrar para o mundo que estava empenhado na solução do conflito na Palestina. Bush Filho também fez uma tentativa. Mas, de Biden não vimos nenhuma iniciativa concreta até agora para instalação de uma mesa para processos de paz.

Irã

O Irã é o segundo maior problema, depois de Cuba. Muitos analistas internacionais diziam, e eu estou entre esses que diziam que, muito provavelmente, os Estados Unidos voltariam para o Acordo Nuclear com o Irã, que tem a sigla inglesa JCPOA (The Joint Comprehensive Plan of Action) ou Plano de Ação Conjunto Global, para que o Irã abrisse o país para inspeção nuclear.

Os Estados Unidos, que se consideram donos do mundo, pressionam o Irã contra seu programa nuclear e cedem a Israel que insiste em dizer que o Irã está fazendo uma bomba. O acordo assinado em 2015 foi construído quando era secretário de Estado John Kerry, e era presidente Barak Obama, que tinha Biden como vice. 

Kerry é hoje o secretário de Meio Ambiente de Biden. Portanto, todos diziam que Biden voltaria ao acordo deixado por Trump em 2017. Biden até agora não voltou, por pressão de Israel, que não aceita este retorno. Isto cria um tensionamento na região e não sabemos que prejuízos podem ocorrer. 

No meio desta confusão, um petroleiro de bandeira liberiana, de propriedade de um israelense – sendo que a propriedade é uma coisa e onde o navio está registrado é outra – sofreu um ataque no Golfo de Omã, Mar da Arábia, perto do Golfo Pérsico próximo do Estreito de Ormuz, uma das regiões mais movimentadas do mundo, por onde passa 1/3 do petróleo mundial.

Um míssil atingiu o petroleiro, e não se sabe ainda a sua dimensão. Poderia ser um míssil mais simples ou mesmo um drone. Não se sabe quem fez o ataque. Mas, Israel, com seu novo governo, aponta o dedo acusando o Irã de ter atacado o navio. O Irã, por certo, nega.

Pode ter sido um ataque com falsa bandeira (false flag, como se diz em inglês). Isto é feito quando algum grupo terrorista quer incriminar outros. Por isso, eu não descarto esta possibilidade de que, para incriminar e tensionar mais ainda e jogar o mundo contra o Irã, poderia até ter sido Israel e o seu serviço secreto que pode ter perpetrado esse ataque. 

Ao Irã é o que menos interesse teria em um incidente desses. Na região há guerrilheiros que atuam no Iêmen, na Síria, no Líbano, Iraque, todos eles têm drones. Hoje é possível comprar drones de 10 mil reais com autonomia de três mil quilômetros, que podem levar uma pequena ogiva.

Israel está ameaçando atacar o Irã em retaliação. Não sabemos se os Estados Unidos aceitarão este tipo de provocação. Eu, particularmente, acho praticamente impossível que Israel cumpra sua bravata de atacar. Porque, não há autonomia suficiente para que seus caças irem e voltarem com segurança e abastecimento de combustível. Não vou entrar em detalhes, mas há vários impedimentos e empecilhos para tal ação.

Sem a ajuda dos EUA, com alguma base da OTAN, um ataque dessa natureza seria muito difícil. E, se isto acontecer, muitos analistas acreditam que seria o cenário para uma terceira guerra mundial. Hoje, por trás do Irã, tem China e Rússia. Então, temos que aguardar para ver qual a reação de John Biden se vai ceder à pressão de Israel para que ele não volte ao acordo ou se vai dar apoio ao ataque pretendido por Israel.

Retirada das tropas do Oriente Médio

Na região da Ásia está ocorrendo a desocupação das tropas estadunidenses, que estão deixando países como Afeganistão, Iraque e Síria, onde ainda têm um pequeno contingente. Desta forma, está havendo uma saída dos Estados Unidos do Oriente Médio, na mesma proporção inversa em que cresce a presença militar russa e a presença econômica da China, que assinou recentemente com o Irã um acordo de cooperação econômica por 25 anos, no valor de meio trilhão de dólares.

O problema é que a saída dos Estados Unidos está produzindo um fenômeno novo que é o crescimento do grupo chamado Talibã, na linguagem pashtun, originalmente significa estudantes. Eles não foram formados no Afeganistão, mas no Paquistão, um país vizinho e ambos são, extremamente muçulmanos.

O Talibã é considerado ideologicamente um movimento fundamentalista de resistência e caráter nacionalista que visa voltar ao poder. Eles são de 1994, tendo governado o Afeganistão num período relativamente longo, de 1996 até 2001, quando saíram do poder depois da ocupação militar pelos Estados Unidos, em decorrência dos ataques às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001.

Os EUA chegaram, com seus aliados, a ter 150 mil soldados no país e gastaram nesse período dois trilhões de dólares e perderam a guerra. E o Talibã agora voltou ao poder com a fuga do “presidente” títere Ashraf Ghani.

Nós devemos torcer para o governo ou para o Talibã? Eu não torço para nenhum dos lados. Acho que o Talibã tem problemas, apesar de terem mudado um pouco nos últimos 20 anos que ficaram fora do poder, mas do meu ponto de vista, eles ainda são muito obscurantistas. No período em que governaram, as mulheres não podiam estudar, usavam burcas, o que não tem nada a ver com o Islã, mas é um costume muito específico daquela região. Eles destruíram estátuas de Buda, querendo dizer que se não for muçulmano não pode ser mais nada. 

A China, para minha surpresa, está tendo relações amistosas com eles. Não sei se no sentido de domesticá-los ou de prevenir infiltrações na pequena fronteira com esse país, justamente na província de Xinjiang, onde tem uma etnia dos Uigures, de maioria muçulmana, de origem turcomena, que Biden está dizendo, usando a surrada questão de que os direitos humanos estariam sendo violados na região.

É preciso dizer que a CIA treinou guerrilheiros fundamentalistas islâmicos, que eram originalmente liderados por Osama Bin Laden, que posteriormente viria a fundar o grupo terrorista chamada Al Qaeda. A CIA treinou esse pessoal em uma operação chamada Ciclone. 

Sob a direção do sunita fundamentalista islâmico, Osama Bin Laden, que é saudita, eles fundaram a Al Qaeda apoiados pela CIA e pelos Estados Unidos, quando treinaram mais de 90 mil guerrilheiros para lutar contra a União Soviética que, a pedido do governo afegão, que era de esquerda em 1979, pediu a solidariedade para a URSS. 

Eles então, mandaram tropas e acabaram ocupando o Afeganistão por longos dez anos. Alguns autores chamam esse período o Vietnã da União Soviética. Aqueles muçulmanos sempre foram anticomunistas, de extrema-direita, fundamentalistas, treinados pelos EUA [Escrevo um artigo mais longo sobre a tomada do poder pelos Talibãs no Afeganistão].

Ásia

Vou falar da região chamada Ásia, strictu sensu, na região do Oceano Pacífico, chamado de mar do Sul da China. Os Estados Unidos estão intensificando um acordo para um agrupamento de países para os quais usam a sigla QUAD, que envolvem Estados Unidos, Índia, Japão e Austrália, formando um quadrilátero que procura isolar a China, exatamente no seu mar territorial, onde ela tem total soberania. 

Por aquela região do Pacífico passam 40% de toda a marinha mercante do mundo. O maior problema na política externa dos Estados Unidos para a região, é a forma emblemático da sua relação com a ilha de Taiwan, que é chinesa há séculos, um território chinês.

O que aconteceu em Taiwan? O partido chamado Kuomintang, cuja sigla é KMT, que perdeu a guerra civil para os guerrilheiros de Mao Tse Tung, em 1º de outubro de 1949, quando Mao chega em Pequim e proclama a instauração da República Popular da China, que antes se chamava República da China. Mao vence, e esses soldados que eram regulares, porque estavam no poder, fugiram para Taiwan. 

Quem os liderava era um general que se dizia nacionalista, mas que apoiava os Estados Unidos. Seu nome era Chiang Kai-Shek que fugiu sem que Mao o impedisse. Ele fugiu com seus seguidores para a Ilha de Taiwan e formou uma base e chamou-a de República da China que tem bandeira e hino nacional, Parlamento e querem a separação da China, que jamais acontecerá.

Quem representava a China nas Nações Unidas era essa tal “República da China”, da ilha de Taiwan. Isso só viria a ser alterado em 1971. Os Estados Unidos deixaram de reconhecer essa “República” em 1979, passando a reconhecer a República Popular da China (13).

A China encara Taiwan como uma província rebelde e eles adotam uma orientação: um só povo com dois sistemas. Funciona assim em Hong Kong que já foi devolvida depois de 155 anos pela Inglaterra, em 1997. Hong Kong é capitalista, mas é governada pela China. E, Taiwan, mais dia, menos dia, voltará para a China continental. Da mesma forma a ex-colônia portuguesa chamada Macau. 

O Estreito de Taiwan tem 130 km e é altamente militarizado, com presença dos Estados Unidos, Austrália, especialmente, do Japão e da própria marinha taiwanesa. Os Estados Unidos fornecem grande parte do armamento da ilha que hoje é governada, pela primeira vez, por uma mulher: Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista, que participa de uma coligação chamada Pan Verde, que é independentista, separatista. 

No entanto, não há condições políticas para que isto aconteça (14). Não se sabe, evidentemente, se a política externa dos Estados Unidos vai incentivar a separação, o que provocaria um alto grau de tensionamento jamais visto na região. A China jamais aceitará isso.

E, para piorar as coisas, os Estados Unidos venderam nos últimos meses para Taiwan dez bilhões de dólares em armamentos e, nas duas últimas semanas, 700 milhões. Eles usam aqueles blindados de projeção múltipla para colocá-los todos enfileirados na costa taiwanesa, aguardando a eventual chegada da marinha chinesa para recuperar o território.

Então, é uma situação muito tensa. Taiwan só é reconhecida como país e mantem relações diplomáticas formais com apenas 15 países. Um país africano, Essuatíni, o Vaticano, quatro da Ásia – Ilhas Marshal, Nauru, Palau e Tuvalu, e nove países da América do Sul e Latina: Belize, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua, São Sebastião e Neves, Santa Lúcia, São Vicente e Paraguai. Estranha a presença da Nicarágua, governada por sandinistas. 

Outros 44 países tem alguma relação com Taiwan, mas não é diplomática. Eles chamam esta relação, cuja sigla em inglês é TECRO (Taipei Economic and Cultural Representative Office in the United States) de Escritório de Representação Econômica e Cultural de Taiwan.

O último dos 44, para tensionar mais ainda, é uma das Repúblicas Bálticas, que é a Lituânia, que pediu para instalar um Tecro, ali no seu território, que faz fronteira com a Rússia, que está toda cercada por tropas da OTAN. A China já reagiu, convocando seu embaixador de volta. Poderá vir a romper relações diplomáticas com esse país

Resumo geral por tópicos da política externa dos EUA sob Biden comparativa com Trump

1. O que é rigorosamente igual

  • Missão central dos EUA é a luta para a completa hegemonia mundial;
  • Seguem governando por sanções ilegais, à revelia da ONU;
  • Seguem usando os direitos humanos como forma de interferir nos assuntos internos dos países;

2. O que tem sido diferente

  • Tentativa de quebrar a unidade entre Rússia e China;
  • Forte tentativa de contenção da China, com a política do QUAD e apoio total à Taiwan;
  • Tentativa de afastar a Alemanha da Rússia;

3. Aspectos positivos

  • Governo não é negacionista; apoio à ciência no combate à pandemia; volta à OMS;
  • Volta ao Acordo do Clima, chamada Conferência de Paris;
  • Colocação da temática ambiental novamente na pauta mundial;
  • Decisão de desocupar o Afeganistão e Iraque;

4. Frustrações internacionais relacionados a tema dados como certos de que mudariam

  • Volta ao acordo nuclear com o Irã (JCOPA);
  • Vota das relações com Cuba nos patamares deixados por Obama;

5. Sinais de dubiedade com relação à América Latina

  • Reconheceu as eleições peruanas como limpas e ao novo governo, indicando o país como modelo para a democracia ocidental;
  • Segue reconhecendo Guaidó como “presidente” da Venezuela; 
  • Mandou recado para JB para parar de criticar as urnas eletrônicas, que são seguras;

6. Não disse ainda a que veio 

  • Apoio a um processo de paz na Palestina.

Conclusões

É inevitável concluirmos que a derrota fragorosa dos EUA não foi apenas no Afeganistão, como muitos autores estão anunciando. Foi em toda a Ásia Central. O Afeganistão, que é cercado por países de população muçulmana majoritária, mais o Irã xiita e a República Popular da China, tinha esse país ocupado pela maior potência do mundo – militar e econômica – como uma espécie de cabeça de ponte no enfrentamento ao conjunto de países vizinhos.

Costumo fazer a comparação com Israel. É cabeça de ponte, é destacamento avançado do imperialismo e do sionismo internacional. Em meio a 400 milhões de árabes muçulmanos. Um corpo estranho, defendendo interesses alienígenas, imperialistas. Assim devemos encarar a presença estadunidense no Afeganistão por vinte longos anos. Dez anos após a morte do terrorista Bin Laden, capturado inclusive no país vizinho, o Paquistão. Por isso a derrota tem uma dimensão maior.

E não tem como não compararmos as cenas da tentativa de fuga pelo aeroporto de Cabul, seja com o fato de afegãos se agarrarem ao trem de pouso de um avião militar estadunidense – pelo menos três morreram por isso – bem como aquela ponte, de nome finger – que dá acesso aos aviões, totalmente lotada com pessoas caindo pelas laterais, com a cena famosa de um helicóptero pousando no teto de um prédio próximo à embaixada dos EUA, em Saigon, em abril de 1975, na tentativa de retirar as últimas pessoas dos EUA e seus colaboradores, após a derrota final da chamada Guerra do Vietnã de 12 anos.

Desde a posse de Joe Biden, como 46º presidente dos EUA, em 20 de janeiro passado, eu venho analisando a correlação de forças em plano mundial e afirmando que a agressividade do imperialismo estadunidense está diretamente ligada ao avanço das lutas dos povos em todo mundo e o fortalecimento da China e da Rússia no cenário da geopolítica mundial.

Toda e qualquer ação eventualmente positiva do chefe do imperialismo, jamais devemos creditá-la a alguma eventual “bondade” dessa pessoa, que ao mesmo tempo é presidente do maior país do mundo, mas sim pelo fato que estamos avançando nas lutas. Da mesma forma o contrário, ou seja, se ele pratica as maldades de sempre, tradicionais do imperialismo e as consegue implantar é um mais sinal para todos nós, pois significa que a nossa força das lutas em todo o mundo não têm dado resultado e mesmo a China e a Rússia não estão conseguindo contê-lo. 

É simples assim. É dialético. Não se trata jamais de dar crédito ou acreditar e ter ilusões com o imperialismo, como alguns autores insistem em dizer, deturpando a análise materialista que fazemos sempre. 

Os episódios do Afeganistão são apenas parte do processo de declínio acentuado e da crise que vive o imperialismo e seu sistema capitalista caduco que impõe sofrimento, miséria e desigualdade para toda a humanidade que não tem acesso à bens básicos de consumo. Por isso dizemos que é irreversível a derrota total e completa do imperialismo. Como todos os impérios caíram na história, por que seria diferente com este? Se os sistemas socioeconômico como escravismo e feudalismo acabaram um dia, por que o capitalismo seria eterno? A vontade dos próprios capitalistas não será suficiente jamais para que ele seja eternizado. 

Notas:

  1. A data de 15 de junho de 2001 é considerada a data oficial de instalação da maior organização militar e econômica do mundo, que é a Organização de Cooperação de Xangai – OCX. Vamos ouvir e ler muito sobre ela. Mais informações acesse este link <https://bit.ly/3fXZT5g>;
  2. Halford Jonh Mackinder foi um grande geógrafo inglês que é considerado o pai e o desenvolvedor da geopolítica como ciência. Mas é dele também o conceito de Heartland, região da Eurásia onde ele afirmava que, se se aliasse à Alemanha seria imbatível. Mais detalhes neste link <https://bit.ly/3yXpSlx>;
  3. Biden impôs sanções contra o ministro da defesa de Cuba, Álvaro Lopez Miera e do chefe da Polícia Nacional Revolucionária de Cuba, Oscar Callejar Valcarce e seu vice Eddy Sierra Arias;
  4. Assinada em 30 de janeiro de 1648 onde hoje fica a Holanda. Mais detalhes acesse este link <https://bit.ly/3ixBbLq>;
  5. A Lei Helms-Burton é de 1996, mas ela é apenas parte do odioso bloqueio imposto pelos EUA à Cuba desde fevereiro de 1962. Para entender os detalhes desse bloqueio de quase 60 anos acesse este link <https://bit.ly/3AKn5MS>;
  6. Veja neste link a lista de todos os presidentes dos EUA <https://bit.ly/2TaVAbK>;
  7. Veja neste link a história de todas as tentativas de assassinato do líder cubano <https://bit.ly/37OxN8T>;
  8. Maduro foi reeleito para mais um mandato presidencial em 20 de maio de 2018. Veja neste link mais detalhes sobre a vida dele <https://bit.ly/37OxN8T>;
  9. Alguns dias antes das eleições de 20 de maio, ocorreu uma tentativa desorganizada de invasão da Venezuela, apoiada e dirigida pelo autoproclamado “presidente” Juan guiado, completamente fracassada. Mais detalhes neste link <https://glo.bo/3sxudJF>;
  10. O presidente mexicano defende criar fórum alternativo à OEA neste discurso <https://bit.ly/3AMlMx5>;
  11. Conheça um pouco mais sobre a vida de Héctor Béjar, ex-guerrilheiro, ministro das Relações Exteriores do novo governo do presidente Pedro Castilho neste link <https://bit.ly/3ASRpov>;
  12. Filme muito bem-feito, disponível apenas na plataforma de streaming HBO, retrata com fidelidade uma peça teatral, que corresponde aos acordos de paz entre israelenses e palestinos assinados em setembro de 1993, mediados pela Noruega. Veja mais detalhes neste endereço <https://bit.ly/3iSMSfD>;
  13. Um longo período transcorreu até que a República Popular da China fosse admitida nas Nações Unidas no lugar da “República da China”, representada pela Ilha de Taiwan. Veja essa trajetória no endereço <https://bit.ly/2K4GP91>;
  14. Tsai Ing-Wen, a primeira mulher a ocupar a presidência de Taiwan, do Partido Democrático Progressista, de oposição ao antigo Kuomintang, partido de Chiang Kai-Shek. Para mais informações sobre ela veja neste link <https://bit.ly/2XrsEkW>.

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Genocida e corrupto - Paulo Pimenta

Jair Bolsonaro
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O governo neofascista de Jair Bolsonaro se apresentou ao País e aos seus eleitores como campeão da eficiência privatizante, da economia de mercado e do combate à corrupção. 

Não ofereceu, porém, até o momento, aos senadores da CPI da Covid e à sociedade brasileira nenhuma resposta convincente que explique a escolha da estratégia mal confessada da “imunização de rebanho” frente à pandemia que resultou na catástrofe de Manaus e no maior morticínio da história do Brasil.

Os representantes do governo também se calaram, sob o escudo do habeas corpus, mentiram e se desmoralizaram quando foram confrontados por gravações e documentos, diante dos repetidos flagrantes de corrupção, revelados em depoimentos colhidos pela CPI.

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Propinas e negacionismo - A Comissão, ao levantar o sigilo telefônico e fiscal dos acusados, lançou luz sobre os negócios escusos da intermediação na compra e venda de vacinas, no Ministério da Saúde, comandado pelo “gênio” da logística, o general Eduardo Pazuello.

E deixou nítido para o Brasil que não era motivado por convicções ideológicas, nos primeiros meses da pandemia, o negacionismo aparentemente irracional do governo, liderado pelo próprio presidente da República, que sempre cumpriu o papel de charlatão. Podia-se supor que eram convicções medievais, regressivas, contrárias às evidências científicas conquistadas pelo mundo contemporâneo, mas na verdade o objetivo era o de criar ambiente adequado para extorquir e levantar propinas em favor de aliados.

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O governo é incapaz, como o presidente da República, de dar respostas objetivas e convincentes às graves denúncias levantadas pela CPI. Por isso, nesse momento há esforço de Bolsonaro e seus seguidores de afastar a pauta incômoda e desmoralizante do negacionismo e da corrupção, tentando mobilizar setores da sociedade brasileira para se manifestar contra as instituições no próximo 7 de setembro.

Boiadeiro golpista - Para tanto não titubeia em se utilizar dos serviços de uma figura pública decadente, o ex-deputado e fazendeiro sonegador de impostos Sérgio Reis, a fim de manipular a opinião pública e a categoria dos caminhoneiros, em mais uma tentativa mal enjambrada de manifestar uma força que já não tem.

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Sérgio Reis foi respondido e denunciado como farsante, em tempo real, por líderes da categoria. E ganhou de presente um inquérito aberto pela polícia do Distrito Federal.

Outro fato relevante a registrar no último período foi a prisão de Roberto Jefferson, o lamentável presidente do PTB, aliado de Bolsonaro, encarcerado depois de ameaçar em vídeo, pelas redes, o Supremo Tribunal Federal.

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Defesa da democracia - Numa democracia real, não deveria merecer mais que a informação objetiva contida na determinação expedida pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Para o ministro, os elementos apresentados pela PF, no pedido de prisão, “demonstram uma possível organização criminosa – da qual, em tese o representado faz parte do núcleo político –, que tem por um dos seus fins desestabilizar as instituições republicanas, principalmente aquelas que possam contrapor-se de forma constitucionalmente prevista a atos ilegais ou inconstitucionais como o Supremo Tribunal Federal e o próprio Congresso Nacional.”

Trata-se de um exercício legítimo das instituições para cumprir a Constituição e defender a democracia. Ainda de acordo com a decisão do ministro, o grupo integrado por Jefferson utiliza-se “de uma rede virtual de apoiadores que atuam de forma sistemática para criar e compartilhar mensagens que tenham por mote final a derrubada da estrutura democrática e o Estado de Direito no Brasil.”     

A “fuga para a frente” como num videogame tem sido o método mais eficiente da disputa política travada por Bolsonaro e bolsonaristas. A mudança contínua da pauta como tática de manutenção da iniciativa trata de evitar os temas desgastantes para o governo e fixar uma ou mais agendas lançadas pelo presidente da República ou seus auxiliares, num cenário em que a extrema-direita estabelece os termos do debate.

Povo nas ruas - Três momentos marcantes em que as oposições tomaram a dianteira: o discurso do Lula em São Bernardo que marca sua reentrada na disputa política, a instalação da CPI da Covid e o retorno dos movimentos sociais, populares e dos trabalhadores às ruas para denunciar o genocídio e defender “vacina no braço e comida no prato.” 

O desafio que se coloca para os setores populares é ampliar a presença dos movimentos de massa na cena política do País, num momento em que o governo se isola dos seus apoios sociais. Isolado, o projeto de ditador busca apoios de figuras caricaturais como Roberto Jefferson e Sérgio Reis para escapar do carimbo “genocida e corrupto” e seguir mantendo a tensão entre as instituições do Estado e a sociedade sob as ameaças semanais de golpe de Estado. A reação organizada dos setores democráticos da sociedade vai impedir qualquer movimento golpista.

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Cuba, Fox News, e as mudanças ideológicas pós-Trump nos EUA | Glenn Greenwald

É extremamente complicado entender a dinâmica da política doméstica de um país. Mesmo quando se mora nele. Para alguém que nunca morou ou trabalhou, com algumas raras exceções —  estudos acadêmicos, visitas repetidas, ou razões profissionais. é praticamente impossível.

Por esse motivo – como já escrevi nessa revista – me recusei por muito tempo a comentar política brasileira. Mesmo quando tinha bastante visibilidade na mídia brasileira, durante o caso Snowden, sempre evitei perguntas sobre política doméstica, ainda que morasse aqui já há oito anos.

Antes de me considerar competente para julgar, analisar e opinar sobre os detalhes da política interna de um país grande e complexo, era preciso ter a humildade de entender que isso demanda muito tempo, dedicação e estudo. Foi em 2016 — quando já morava aqui há 10 anos — que comecei a escrever sobre política brasileira: comecei me opondo ao impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, e, uma vez que isso atraiu uma audiência ampla, fundei o The Intercept Brasil.

Por setenta anos, Democratas e Republicanos insistiram que é não só o direito, mas o dever dos EUA mudar o governo em Cuba

É natural o mundo todo se interesse pela política dos EUA —  que são, afinal, o país mais poderoso do mundo. Por conta de sua postura imperialista e interferência em vários países, o que acontece na política doméstica nos EUA influencia a vida de centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro.

Mas isso não significa que seja mais fácil desenvolver uma compreensão sofisticada e precisa das dinâmicas políticas internas nos Estados Unidos do que seria para um americano ou alemão que nunca morou no Brasil desenvolver uma compreensão sofisticada do Brasil. O Brasil, afinal, não é para amadores.

Para ilustrar essa dificuldade, pode-se ressaltar uma entrevista que dei no programa de notícias de maior audiência da TV dos EUA: o Tucker Carlson Tonight, na Fox News. Fui lá para falar dos perigos que eu acredito que são criados pela pressão que o governo Biden está exercendo sobre o Facebook e outras redes sociais, exigindo que censurem conteúdo político sob ameaças legais.  

Para ilustrar o argumento, comentei que é muito comum ouvir nos EUA críticas contra a postura chinesa de controlar a internet, e que políticos democratas e republicanos estão criticando o governo cubano por restringir o acesso a internet em meio a protestos. Minha pergunta foi: porque os americanos são tão rápidos em condenar censura na internet de adversários geopolíticos, mas toleram (ou ainda, celebram) quando ela ocorre em seu país? É o que fizeram muitos democratas antes das eleições, quando o Facebook e o Twitter se uniram e proibiram discussão sobre documentos autênticos publicados pela imprensa sobre os negócios familiares estrangeiros de Joe Biden.

Em resposta ao meu comentário, Carlson condenou veementemente os congressistas republicanos que passaram a semana agitando por uma intervenção americana em Cuba. Ele utilizou um argumento que está se tornando comum na direita pró-Trump: os EUA não tem que interferir na política doméstica de outros países e devem, ao invés disso, focar em melhorar a vida de seus cidadãos.

A partir daí tivemos a seguinte conversa: 

CARLSON: Mesmo hoje, os republicanos idiotas no Congresso passaram o dia inteiro falando sobre a falta de liberdade em Cuba, que não é um país livre, o que não deixa de ser verdade. Mas cada vez mais nós também não somos e eles parecem não notar o que está acontecendo no país que deveriam estar administrando e ficam gastando todo esse tempo focados nesta nação caribenha que não é o foco de nossos interesses…

GREENWALD: Pois é, eu pensei que toda a questão da política externa Make America Great Again/America First como articulada por Donald Trump e seus aliados no Congresso fosse que não deveríamos estar consertando outros países, mas em vez disso estar focando em nosso próprio país.

CARLSON: Sim, era isso que eu imaginava, também.

GREENWALD: É muito fácil falar sobre censura em Pequim ou Havana, mas e quando ela está acontecendo bem debaixo do seu nariz, em Washington?

É difícil expressar o quão raro é ouvir coisas desse tipo na imprensa dos EUA. Por setenta anos, Democratas e Republicanos insistiram que é não só o direito, mas dever dos EUA mudar o governo em Cuba. O presidente John Kennedy, democrata, autorizou a tentativa fracassada de invasão em 1961 com esse objetivo. E muito pouco mudou desde então.

Ainda que o ex-presidente Barack Obama tenha suspendido algumas restrições contra Cuba (que foram restabelecidas por Trump e vem sendo mantidas por Biden), o embargo e bloqueio continuam em vigor porque pouquíssimas pessoas estão dispostas a defender o que Carlson defendeu naquele segmento: não cabe aos EUA decidir como os cubanos se governam. Mesmo a congressista Alexandria Ocasio-Cortez, do setor mais à esquerda do Partido Democrata, quando criticou o embargo, denunciou o governo cubano, que acusou de repressivo, e expressou solidariedade com os protestos.


Por que, de todas as grandes cadeias de notícias americanas, a Fox News foi a única disposta a veicular a ideia de que os EUA não tem o direito de interferir nas questões domésticas em Cuba? Por que Tucker Carlson parece ser mais comprometido em seu anti-imperialismo do que a AOC?

As razões são complexas e não serão claras para quem acompanha tudo de longe, se informando através de artigos no New York Times, segmentos na CNN e seguindo no Twitter alguns repórteres da Vox e Vice — da mesma forma que um estrangeiro não teria uma visão muito sofisticada sobre o Brasil depois de assistir alguns debates na GloboNews com o Gerson Camarotti, ler algumas colunas da Eliana Cantanhêde no Estadão e ler os tweets da Vera Magalhães ou Lauro Jardim. Imagina como soaria arrogante um americano que, sem ter nenhuma conexão com o Brasil, comentasse os meandros da política brasileira com base nessas fontes superficiais.

As divisões ideológicas tradicionais nos EUA se confundiram desde a era Trump. Quando Trump disputou as primárias republicanas em 2016, se colocou contra o establishment do partido, contra o ideário econômico padrão da era Reagan e contra a política externa Bush/Cheney. Trump criticou cortes aos programas sociais e previdenciários, e, principalmente, manifestou seu desprezo pelas guerras de intervenção no Iraque, Síria e Líbia.

Como a maior parte dos políticos, Trump nem sempre governou de acordo com o que prometeu. Ele deu benefícios fiscais para grandes empresas e aumentou os bombardeios contra o Estado Islâmico, por exemplo. Mas, em alguns casos, seguiu a transformação ideológica que indicara, tendo sido o primeiro presidente americano em décadas a não iniciar novas guerras. A mera retórica, mesmo que violada na prática, ajudou a mudar o teor da discussão entre segmentos da direita, como mostra a disposição de Carlson — e mais ninguém — em denunciar os esforços dos EUA de mudar o regime cubano. Os anos Trump tiveram o mesmo efeito entre os democratas, mas ao contrário: políticos do partido criticavam Trump por não ter sido agressivo o bastante com a Rússia e exigiam uma intervenção mais incisiva contra o governo Assad na Síria.

Essas mudanças são sutis, mas significativas. E não são imediatamente óbvias quando vistas de longe. Mas são mudanças reais. É sempre fácil se confinar aos espaços midiáticos e de imprensa onde todo mundo compartilha a nossa visão de mundo. Mas se o objetivo for causar mudanças efetivas — e não só fazer pose ou ganhar seguidores nas mídias sociais — reconhecer essas oportunidades e mudanças de paradigma é fundamental, e é nosso papel tentar se aproveitar delas para construir coalizões ampliadas e obter resultados políticos.

Que a Fox News tenha sido o único veículo de imprensa mainstream onde pude defender que os EUA não tem o direito de interferir na política cubana é evidência de que uma mudança vital nas identidades partidárias e ideológicas está acontecendo nos EUA. É fácil negar essa realidade — ou condenar os esforços de construir ganhos políticos sobre ela — quando não se examina essas mudanças sutis. É por isso que humildade e cautela são importantes antes de se formar decisões definitivas sobre a política de um país complexo e distante. Os contornos simplórios e crus oferecidos pelos veículos mainstream muitas vezes confundem mais do que informam.

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O Emirado Islâmico do Afeganistão está de volta com um estrondo - Pepe Escobar

Por Pepe Escobar

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Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Espere até a guerra acabar
E a gente ficar um pouco mais velho
O soldado desconhecido
Café-da-manhã lendo as notícias
Crianças alimentadas a televisão
Não-nascidos, vivos, mortos
Balas atingem a cabeça de capacete
E tudo acaba
Para o soldado desconhecido

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The Doors, "O Soldado Desconhecido" 

Ao final, o momento Saigon aconteceu mais rápido do que esperavam os "especialistas" dos serviços de inteligência do Ocidente. Essa é para entrar para os anais: quatro dias frenéticos que resolveram a guerrilha blitzkrieg mais estarrecedora de tempos recentes. Bem ao estilo afegão: muita persuasão, muitos acordos tribais, zero colunas de tanques, derramamento de sangue mínimo.

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O dia 12 de agosto montou o cenário, com a captura quase simultânea de Ghazni, Kandahar e Herat. Em 13 de agosto, o Talibã estava a apenas 50 quilômetros de Cabul. 14 de agosto começou com o cerco a Maidan Shahr, o portal para Cabul. 

Ismail Khan, o lendário Leão de Herat, firmou um acordo de auto-preservação e foi enviado a Cabul pelo Talibã como mensageiro de primeiro escalão: O presidente Ashraf Ghani tem que renunciar, senão...

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Ainda no sábado, o Talibã tomou Jalalabad – e isolou Cabul a partir do leste até a fronteira Afeganistão-Paquistão em Torkham, entrada para o Passo de Khyber. Sábado à noite, o Marechal Dostum fugiu com um bando de militares para o Uzbequistão pela Ponte da Amizade, em Termez; muito poucos foram os que tiveram permissão para se juntarem a eles. O Talibã, como era de se esperar, ocupou o palácio ao estilo Tony Montana de Dostum.

Bem cedo na manhã de 15 de agosto, só restava ao governo de Cabul o vale de Panjshir – no alto das montanhas, uma fortaleza naturalmente protegida - e hazaras esparsos: não há nada nessas belas terras centrais exceto Bamiyan.  

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Há exatamente vinte anos eu estava em Bazarak, me preparando para entrevistar o Leão de Panjshir, o comandante Masoud, que então preparava uma ofensiva contra... o Talibã. A história se repetindo, com um toque especial. Desta vez me enviaram provas visuais de que o Talibã – seguindo o clássico manual das células guerrilheiras adormecidas – já estavam no Panjshir.

E então, o meio da manhã de domingo trouxe a estarrecedora reencenação visual do momento Saigon, para o mundo inteiro ver: um helicóptero Chinook pairando sobre telhado da embaixada americana em Cabul.  

'A guerra acabou' 

Ainda no domingo, o porta-voz do Talibã, Mohammad Naeem, proclamou: "A guerra no Afeganistão acabou", acrescentando que o formato do novo governo logo seria anunciado. 

Os fatos reais são muito mais intrincados. Negociações vêm acontecendo em ritmo frenético desde a tarde  de domingo. O Talibã estava pronto para anunciar a proclamação oficial do Emirado Islâmico do Afeganistão em sua versão 2.0 (a 1.0 foi de 1996 a 2001). O anúncio oficial seria feito dentro do palácio presidencial. 

Mas o que havia sobrado da Equipe Ghani estava se recusando a transferir o poder para um conselho de coordenação que irá de fato organizar a transição. O que os talibãs querem é uma transição desimpedida: eles são agora o Emirado Islâmico do Afeganistão. Caso encerrado.

Na segunda-feira, um sinal conciliador veio do porta-voz talibã Suhail Shaheen. O novo governo terá integrantes não pertencentes ao Talibã. Ele se referia a um futuro "governo de transição", provavelmente co-administrado pelo líder político do Talibã, o Mulá Baradar e por Ali Ahmad Jalali, ex-ministro das relações exteriores que foi também, no passado, funcionário da Voz da América. 

No final das contas, não houve batalha de Cabul. Milhares de talibãs já estavam dentro de Cabul – mais uma vez o clássico manual de instruções das células adormecidas. O grosso de suas tropas permaneceu nos arredores. Uma ordem oficial do Talibã determinou que eles não entrassem na cidade, que deveria ser capturada sem luta para evitar mortes civis.

O Talibã avançou a partir do oeste, mas "avançar", neste contexto, significava conectar-se às células adormecidas de Cabul, que estavam então em plena atividade. Em termos táticos, o cerco de Cabul foi uma manobra "anaconda", tal como definida pelo comandante talibã: comprimida pelo norte, sul e oeste e, com a captura de Jalalabad, isolada a leste. 

Em algum momento da semana passada, deve ter sido sussurrada ao comando talibã a informação de que os americanos estariam vindo para "evacuar". Pode ter sido inteligência paquistanesa, ou mesmo turca, com Erdogan jogando seu característico jogo duplo na OTAN.  

A cavalaria de resgate americana não apenas se atrasou, mas viu-se também em um beco sem saída,  já que não poderia bombardear seus próprios efetivos em Cabul. O péssimo timing foi agravado quando a base militar de Bagram - o Valhala da OTAN no Afeganistão por quase vinte anos - foi finalmente tomada pelo Talibã. 

Isso tudo levou os Estados Unidos e a OTAN a literalmente pedirem  ao Talibã que os deixasse evacuar tudo o que pudessem de Cabul - de avião, às pressas, à mercê do Talibã. Um desdobramento geopolítico que evoca suspensão de descrença.

Ghani versus Baradar

A fuga apressada de Ghani soa como "um conto contado por um idiota, significando nada" - sem o pathos shakespeariano. O cerne de toda a questão foi uma reunião de última hora entre o ex-presidente Hamid Karzai e o eterno rival de Ghani, Abdullah Abdullah.

Eles discutiram detalhadamente quem iriam mandar para negociar com os talibãs – que, àquelas alturas, estavam não apenas totalmente preparados para uma possível batalha de Cabul, mas haviam também anunciado há semanas sua intocável linha vermelha - eles querem o fim do atual governo representante da OTAN.   

Ghani, finalmente, entendeu a mensagem e desapareceu do palácio presidencial sem sequer falar com os possíveis negociadores. Com sua mulher, seu chefe de gabinete e seu consultor para assuntos de segurança nacional, ele fugiu para Tashkent, a capital uzbeque. Algumas horas depois, o Talibã entrou no palácio presidencial, e as  imagens impressionantes foram devidamente captadas.

Ao comentar sobre a fuga de Ghani, Abdullah Abdullah não mediu palavras: "Deus o responsabilizará". Ghani, um antropólogo com doutorado em Colúmbia é um daqueles casos clássicos de pessoas do Sul Global exiladas no Ocidente que "esquecem" tudo o que é importante sobre seus países de origem. 

Ghani é um pashtun que se comportou como um nova-iorquino arrogante. Ou ainda pior, um pashtun tão seguro de seus privilégios que não cansava de demonizar os talibãs, que são esmagadoramente pashtun, para não falar dos tadjiques, dos uzbeques e dos hazaras, incluindo seus anciãos tribais.  

É como se Ghani e sua equipe ocidentalizada não tivessem aprendido nada com a fonte importante que é o grande antropólogo social norueguês Fredrik Barth, já falecido (aqui vai uma amostra de seus estudos sobre os pashtuns).

Em termos geopolíticos, o que importa agora é que o Talibã escreveu um enredo novo em folha, mostrando às terras do Islã, e também ao Sul Global, como derrotar o auto-referente e aparentemente invencível império Estados Unidos/OTAN.

O Talibã alcançou esse objetivo com fé islâmica, paciência infinita e força de vontade, que moveram cerca de 78.000 combatentes - 60.000 deles na ativa - muitos com treinamento militar mínimo, nenhum apoio de um estado estrangeiro - diferentemente do Vietnã, que tinha a China e a URSS - zero das centenas de bilhões de dólares da OTAN,  sem um exército treinado, sem força aérea e sem tecnologia estado-da-arte. 

Eles contavam apenas com Kalashnikovs, granadas propelidas a foguete e pick-ups Toyota – antes de, nestes últimos dias, capturarem equipamento americano, inclusive drones e helicópteros. 

O líder Talibã, o Mulá Baradar foi extremamente cauteloso. Na segunda-feira ele afirmou: "É cedo demais para dizer como iremos organizar o governo". Antes de mais nada, os talibãs querem "ver a partida das forças estrangeiras antes de a reestruturação começar".

Abdul Ghani Baradar é um personagem muito interessante. Ele nasceu e foi criado em Kandahar. Foi lá que o Talibã começou em 1994, tomado a cidade praticamente sem luta e, em seguida, equipando-se com tanques, armamentos pesados e muito dinheiro vivo para subornar os comandantes locais, capturando Cabul há quase 25 anos, em 27 de setembro de 1996. 

Antes disso, o Mulá Baradar havia lutado na jihad dos anos 80 contra a URSS, talvez - informação não-confirmada - lado a lado com o Mulá Omar, com quem ele co-fundou o Talibã. 

Depois do bombardeio e da ocupação pelos Estados Unidos após o 11 de setembro, o Mulá Baradar e um pequeno grupo de talibãs  enviaram uma proposta ao então presidente Hamid Karzai sobre um possível acordo que permitiria que o Talibã reconhecesse o novo regime. Karzai, sob pressão de Washington, rejeitou o acordo.  

Baradar chegou a ser preso no Paquistão em 2010 – e mantido sob custódia. Acredite ou não, a intervenção americana levou à sua libertação em 2018. Ele, então, transferiu-se para Catar. E foi lá que ele foi designado chefe do setor político do Talibã, tendo supervisionado a assinatura do acordo sobre a retirada das tropas americanas, no ano passado.

Baradar será o novo governante em Cabul - mas é importante notar que ele está subordinado à autoridade do Líder Supremo do Talibã desde 2016, o Haibatulá Akhundzada. É o Líder Supremo - na verdade, um orientador espiritual - que reinará sobre a nova encarnação do Emirado Islâmico do Afeganistão. 

Cuidado com um exército de camponeses guerrilheiros 

O colapso do Exército Nacional Afegão (ENA) era inevitável. Eles foram "educados" ao modo militar americano: tecnologia maciça, poderio aéreo maciço e praticamente nenhuma inteligência territorial local. 

O que é importante para o Talibã são os acordos com os anciãos tribais e os laços familiares – e também um enfoque de guerrilha camponesa, paralelo aos dos comunistas do Vietnã. Eles, há anos, vinham esperando o momento propício, limitando-se a forjar conexões - e a montar as tais células adormecidas. 

As tropas afegãs, que há meses não recebiam salário, foram pagas para não lutar contra eles. E o fato de que eles não atacavam as forças americanas desde fevereiro de 2020 fez com que eles conquistassem um  respeito ainda maior: uma questão de honra, de importância essencial no código pashtunwali.

É impossível entender o Talibã - e, menos ainda, o universo pashtun – sem entender o pashtunwali. E também os conceitos de honra, hospitalidade e a inevitável vingança por qualquer malfeito. O conceito de liberdade implica que nenhum pashtun tende a obedecer a autoridade de um governo central - neste caso, Cabul. E em nenhuma hipótese eles entregarão suas armas. 

Em poucas palavras, esse é o "segredo" da blitzkrieg rápida como um relâmpago, com mínimo derramamento de sangue, característica do grande terremoto geopolítico. Depois do Vietnã, aqui temos o segundo protagonista do Sul Global a demonstrar ao mundo inteiro que um império pode ser derrotado por um exército de camponeses guerrilheiros. 

E tudo isso alcançado com um orçamento que talvez não exceda 1,5 bilhão de dólares ao ano – vindos de impostos locais, dos lucros das exportações de ópio (sendo proibida a distribuição interna) e da especulação imobiliária. Em vastas regiões do Afeganistão, o Talibã já vinha comandando de fato a segurança e  os tribunais locais, e até mesmo a distribuição de alimentos.  

O Talibã de 2021 é um animal totalmente diferente do Talibã de 2001. Não apenas eles agora foram curtidos na batalha, mas tiveram tempo suficiente para aperfeiçoar sua capacidade diplomática, o que ficou mais que visível em Doha e nas visitas de alto nível a Teerã, Moscou e Tianjin. 

Eles sabem muito bem que qualquer conexão com remanescentes da al-Qaeda, do ISIS/Daesh, do ISIS-Khorasan e do ETIM seria contraproducente – como seus interlocutores na Organização de Cooperação de Xangai deixaram bem claro.

A unidade interna, entretanto, será extremamente difícil de alcançar. O labirinto das tribos afegãs é um quebra-cabeça de solução praticamente impossível. Em termos realistas, o que o Talibã pode conseguir é uma confederação frouxa de tribos e grupos étnicos sob um emir talibã, acoplado a um gerenciamento muito cuidadoso das relações sociais. 

As impressões iniciais apontam para uma maior maturidade. O Talibã vem anistiando funcionários da ocupação da OTAN e não irá interferir nas atividades empresariais. Não haverá campanha de vingança. Cabul está de volta ao jogo. Há informações de que não há histeria de massa na capital: esse é o território exclusivo da mídia convencional anglo-americana. As embaixadas russa e chinesa continuam abertas e em funcionamento.

Zamir Kabulov, o representante especial do Kremlin para o Afeganistão, confirmou que a situação em Cabul, surpreendentemente, é de "calma absoluta" – ao mesmo tempo em que reiterava: "Não temos pressa com relação ao reconhecimento [do Talibã]. Vamos esperar e observar como o regime irá se comportar".

O Novo Eixo do Mal

Tony Blinken pode tagarelar que "estávamos no Afeganistão com um propósito principal – o de lidar com a gente que nos atacou no 11 de setembro". 

Todos os analistas políticos sérios sabem que o "principal" propósito geopolítico do bombardeio e da ocupação do Afeganistão, há quase vinte anos, foi o estabelecimento de um ponto de apoio de importância essencial para o Império das Bases, situado na intersecção estratégica entre a Ásia Central e a Ásia do Sul, seguido pela ocupação do Iraque, no Sudoeste Asiático.

A "perda" do Afeganistão deve ser interpretada como um reposicionamento. Ela se encaixa na nova configuração geopolítica, onde a principal missão do Pentágono não é mais a "guerra ao terror", mas sim a tentativa de, simultaneamente, isolar a Rússia e fustigar a China por todos os meios possíveis para evitar a expansão das Novas Rotas da Seda. 

Ocupar países pequenos deixou de ser a prioridade. O Império do Caos pode sempre fomentar o caos - e supervisionar uma variedade de bombardeios - a partir de sua base CENTCOM, no Catar.

O Irã está prestes a ingressar na Organização de Cooperação de Xangai como membro pleno - mais um ponto de virada. Mesmo antes de reinstalar o Emirado Islâmico, o Talibã, cuidadosamente, cultivou boas relações com os principais atores eurasianos – Rússia, China, Paquistão, Irã e os "istãos" da Ásia Central. Os "istãos" estão sobre a plena proteção da Rússia. Pequim já planeja um volumoso negócio de terras raras com o Talibã.  

No front atlanticista, o espetáculo de incessante auto-recriminação irá consumir o Beltway por anos a fio. Duas décadas, dois trilhões de dólares, o debacle de caos, morte e destruição provocado por uma guerra eterna, um Afeganistão ainda arrasado, uma saída literalmente na calada da noite - para quê? Os únicos "vencedores"  foram os Senhores da Quadrilha dos Armamentos.   

Mas todo enredo americano precisa de um bode expiatório. A OTAN acaba de ser cosmicamente humilhada no cemitério dos impérios por um bando de pastores de bodes - e não por encontros imediatos com o Sr. Khinzal. O que restou? Propaganda.

O novo bode expiatório: o Novo Eixo do Mal.  O eixo Talibã-Paquistão-China. O Novo Grande Jogo na Eurásia acaba de ser recarregado.

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O legado da educação protestante está em ruínas

ANGELICA TOSTES

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Anos atrás, eu concluí o Bacharelado em Teologia, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, que faz parte do grupo protestante histórico Igreja Presbiteriana do Brasil. Fazer Teologia no Mackenzie me possibilitou muitas coisas, mesmo que sua grade curricular não contenha a pluralidade da Teologia atual. Uma dessas coisas que a Graduação lá me proporcionou foi o aprofundamento do Protestantismo e da Teologia Reformada dita clássica, e os legados da Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero, para a construção das concepções de sociedade, liberdade, de direitos humanos, laicidade e educação.

O Protestantismo surge a partir das propostas de reforma da Igreja Católica Apostólica Romana, por Martinho Lutero, com seu estopim em 1517, por meio das 95 teses nas portas da Catedral de Wittenberg, Alemanha. Um dos aspectos mais conhecidos da Reforma Protestante foi a questão das vendas de indulgências (a venda do perdão dos pecados, salvação), por isso um dos pontos centrais do protestantismo até hoje é a salvação pela Graça – ou seja, não há nada a ser feito, apenas a misericórdia de Deus. No entanto, a Reforma Protestante não para por aí, ela também teve críticas à centralidade do papismo da época, rompendo com a tutela eclesiástica e dispondo aos cristãos e cristãs a leitura bíblica traduzida em línguas locais, a princípio alemão.

Leia também:

Movimento estudantil reage a declarações de Milton Ribeiro: 'Bravatas do bolsonarismo'

A difusão e tradução da Bíblia foi um marco para a inclusão social, cultura e educação dos povos europeus. O que antes era destinado apenas a uma elite intelectual clerical, agora passa a ser do povo! A leitura e interpretação dos textos bíblicos passa a ser um foco do Protestantismo, conhecido com a expressão tardia Sola Scriptura (somente a Escritura). Então, a educação se torna um tema importante para Lutero e outros reformadores, que tinham também o objetivo teológico, mas indo além dele, fomentando escolas e universidades, criando cursos de Direito, Medicina e Filosofia, como foi o caso da primeira universidade protestante Phillipps-Universität Marburg. Tratando-se da própria Universidade Presbiteriana Mackenzie e seus fundadores, os protestantes norte-americanos Rev. George Chamberlain e sua esposa, a pedagoga Mary Chamberlain, se estabeleceram em São Paulo em 1870 com o objetivo de criar uma escola para crianças, independente da classe social e raça.

Em tempos de pandemia, um abismo se abre ainda mais nas injustiças sociais enfrentadas no Brasil, principalmente na questão da educação. Pelo governo de Jair Bolsonaro já passaram quatro ministros da Educação e a coisa em comum entre esses é que nenhum tinha arcabouço necessário para a pasta – como tudo nesse desgoverno. E a indicação e presença de Milton Ribeiro, pastor presbiteriano e ex-vice-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, não seria diferente. Ribeiro parece se esquecer do legado protestante que investiu, desde sempre no Brasil, na educação.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social publica mensalmente um resumo das principais notícias do mundo evangélico. Nele é identificado que, a cada mês, desde que assumiu seu cargo em julho de 2020, Milton Ribeiro tem desmontado ainda mais o Ministério da Educação. Nos últimos meses o MEC, na figura de Milton Ribeiro, desarticulou o grupo responsável por atualizar os dados do IDEP – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – transferindo a tarefa para a secretaria-executiva do ministério, uma instância política. Tomou a decisão de adiar o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que a cada dois anos testa os conhecimentos de Matemática e Português de alunos da 5ª e 9ª séries do fundamental e do 3º ano do ensino médio. Após inúmeras críticas, o INEP se manifestou dizendo que uma das propostas para a aplicação é o adiamento do SA para 2022, por conta da pandemia. Em geral, Milton Ribeiro tem atuado a partir da visão que expressou recentemente: “A política do MEC [Ministério da Educação] deve vir e tem que vir em consonância com a visão educacional, do projeto, do senhor presidente da República”.

Um projeto de destruição do país.

Poderíamos dedicar o restante deste texto apenas listando as atrocidades ditas e feitas pelo atual ministro da Educação, basta nos atentarmos que o recurso de 1,2 bilhão de reais para investimento em infraestrutura em educação, até o dia 15 de julho, estava parado! Nenhum investimento! Ou apontar as falas LGBTQIA+fóbicas, por conta das quais ele foi condenado a pagar 200 mil reais por danos morais, ou, em sua última entrevista na TV Brasil: “a Universidade deve ser para poucos” e “alunos com deficiência atrapalham”.

Conheço muitos presbiterianos e presbiterianas comprometidos com o Reino de Deus, promovendo justiça, vida e igualdade. Muitos deles e delas foram meus professores e professoras do Mackenzie. Infelizmente, a representação de Milton Ribeiro no Ministério da Educação está longe de refletir o compromisso protestante com a educação e a promoção da vida em abundância refletida, vivida e pregada por Jesus Cristo.

Martinho Lutero, ao escrever uma carta aos prefeitos e conselheiros alemães escreve: “E de que adiantaria se possuíssemos e realizássemos tudo o mais, e nos tornássemos santos perfeitos, se negligenciássemos aquilo por que essencialmente vivemos, a saber, cuidar dos jovens? Em minha opinião não há nenhuma outra ofensa visível que, aos olhos de Deus, seja um fardo tão pesado para o mundo e mereça castigo tão duro quanto a negligência na educação das crianças” (citado por Ismael Forte Valentim, em “A Reforma Protestante e a educação”, 2010).

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O domínio das oligarquias sobre a nação brasileira

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“A injustiça é uma só, e indivisível. [É preciso] Atacá-la e obrigá-la a recuar, aqui ou ali, e sempre contribuir para a vitória da justiça entre os homens. E não nos devemos esquecer de que, sendo indiscutivelmente mais insuportáveis a miséria e a exploração no Terceiro Mundo, as raízes profundas do mal se encontram no coração, nos interesses e nas práticas dos países poderosos, com a cumplicidade das classes ricas das nações pobres.”
Dom Hélder Câmara.

O ex-arcebispo de Olinda e Recife conseguiu explicar em poucas palavras como se perpetua a opressão da oligarquia internacional sobre as grandes maiorias oprimidas. Nas últimas décadas, esse mecanismo de geração de injustiça aprofundou-se e acelerou-se, paradoxalmente, como resultado da queda do muro de Berlim, que o capitalismo, habilmente, hegemonizou como vitória da “natural” exploração do homem pelo homem, um destino que seria inexorável, consoante má interpretação do Evolucionismo, de Charles Darwin.

No Brasil, os reflexos dessa paródia não poderiam ser mais nefastos: suas digitais estão por toda parte de nossa tragédia contemporânea, sendo altamente simbólica a manipulação da própria justiça – a Operação Lava Jato – para aprofundar a dominação das oligarquias – internacional e nacional – sobre a nação brasileira.

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O desastre socioeconômico e ambiental a que aquela operação nos relegou dificilmente poderia ser mais nefasto: 19 milhões de pessoas em pobreza absoluta; uma centena de milhão em insegurança alimentar; mais de 14 milhões de desempregados e o roubo desbragado, por parte da oligarquia, de bens públicos, sob o apodo singelo de “privatização”.

No campo internacional, o desastre foi ainda maior: passamos de exemplo de inclusão para espectro da própria morte, contando mais de 600 mil de vítimas fatais, por corrupção governamental, de civis e militares, estes convertidos em capitães do mato das oligarquias nacional e internacional. Desse pacto satânico, resultaram 130 mil crianças órfãs, no Brasil.

No campo ambiental, a destruição da Amazônia chegou a tal ponto que a floresta passou de sumidouro de CO2, para emissora de gazes geradores de efeito estufa. Os rios aéreos secaram e o Sudeste vive a pior estiagem da história.

Na Europa, inundações violentas no Norte do continente e secas que levaram aos piores incêndios na Turquia, na Grécia e na África setentrional.

Sim, um golpe de Estado tem consequências, para todos os habitantes do planeta.

Aqui, Bolsonaro continua ameaçando a democracia todos os dias e não são muitos os que acreditam que aceitará os resultados das eleições de 2022. Como dizia São Maximiliano Maria Kolbe, martirizado pelos nazistas aliados nacionais e internacionais de Bolsonaro, “o ódio não cria, só o amor o faz”.

Mas há novidades: no plano simbólico, questiona-se a história oficial, como vimos no episódio da estátua do Borba Gato, e, de certa forma, no patético desfile de tanques/sucata na Esplanada dos Ministérios.

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Lembrei-me de um dos poucos museus que havia em Managua na década de 80: nele foram colocados o pedestal da imagem do primeiro Somoza da dinastia de ditadores sangrentos do país (a estátua fora derrubada pelo povo) e uma tanqueta que recebera de presente de Mussolini, a qual mais parecia um FIAT 500, adaptado. Seria ridículo, não fosse o simbolismo de que, entre ditadores, a morte é a linguagem que entendem, sendo nela solidários.

Por isso, os que a ela se opõem chamam-se companheiros, pois, como Dom Hélder nos recorda, “…companheiro, etimologicamente, é quem come o mesmo pão.”

Faz sentido que nos ano dos “companheiros e companheiras” o Brasil tenha tirado 38 milhões de pessoas da pobreza e saído do Mapa da Fome.

Sobre a polêmica ao redor do Borba Gato, o profético Dom Hélder em “Cinco Minutos com Deus”, edição das Paulinas, organizada por Marcos Antônio, já alertava: “A não violência não é de forma alguma uma escolha da fraqueza e da passividade. É crer mais na força da verdade, da justiça e do amor do que nas forças das guerras, das armas e do ódio. A única guerra legítima é aquela que se faz contra o subdesenvolvimento e a miséria. Eu não gosto muito da expressão ‘não violência’. Prefiro mil vezes a expressão de Roger Schutz: ‘A violência dos pacíficos.”

Na vizinha Colômbia – sócia global da OTAN – 60 manifestantes derramaram seu sangue pela liberdade, apenas neste ano, sendo reprimidos pelas forças do aliado da OTAN.

Com efeito, as oligarquias muito propalam a liberdade, mas o que praticam é o cativeiro: sequestram o Estado para seus interesses particulares; manietam os pobres na miséria; literalmente os escravizam e matam os que exploram sem qualquer limite neste estádio do capitalismo, como vemos atualmente no Brasil. Não é à toa que a MP 1045 traz ainda mais entraves à fiscalização do trabalho escravo.

A poeira, no entanto, não há de cegar nossos olhos ou nos causar alucinações pelo medo.

Em Carpe Diem, de Roman Krznaric, encontramos uma boa luz, na citação que o autor traz de Angela Davis, veterana do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos: “Parece-me que mobilização substituiu organização, de modo que, no momento contemporâneo, quando pensamos em organizar movimentos, pensamos em levar massas de pessoas às ruas…A internet é uma ferramenta incrível, mas ela também nos estimula a pensar que podemos produzir movimentos instantâneos, movimentos que imitam a entrega de fast-food“.

Pessoalmente, pude presenciar isso no Occupy Wall Street, em que, apesar da beleza da manifestação, não houve duração no tempo, pela falta de enraizamento dos participantes em redes mais abrangentes. Lembremos: Cristo pediu aos discípulos que atirassem as redes, não os tanques. As primeiras, recolhem; os segundos, apenas confinam.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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20 anos de guerra no Afeganistão, duas décadas de mentiras dos EUA

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Empregando as mesmas táticas enganosas desenvolvidas no Vietnã, oficiais militares e políticos dos EUA enganaram a população e mentiram sobre a situação no Afeganistão.

“O regime Taleban está chegando ao fim”, disse o presidente George Bush em um discurso em dezembro de 2001 – quase vinte anos atrás. Cinco meses depois, ele prometeu: “Os terroristas encontraram nos EUA um inimigo como nunca enfrentaram. Ficaremos até que a missão seja cumprida.” Quatro anos depois, em agosto de 2006, Bush afirmou: “A Al Qaeda e o Taleban perderam uma base importante no Afeganistão, e sabem que jamais vão recuperá-la quando a democracia florescer… Os dias do Taleban chegaram ao fim. O futuro do Afeganistão pertence aos afegãos”.

Por duas décadas, a mensagem que os líderes políticos e militares passaram para a população dos EUA sobre a guerra mais longa do país foi a mesma: o Taleban está perto de uma derrota definitiva. Os EUA estão equipando e fortalecendo as forças de segurança afegãs, que estão quase prontas para se defender por si próprias e garantir a estabilidade.

Menos de cinco semanas atrás, num pronunciamento na Casa Branca, o presidente Joe Biden insistiu que a tomada do Afeganistão pelo Taleban não era inevitável porque “o governo e as lideranças afegãs claramente têm a capacidade de sustentar o governo.” Em seguida, Biden rebateu veementemente a afirmação feita por um repórter de que “os serviços de inteligência dos EUA avaliam que o governo afegão provavelmente desmoronaria”. “É mentira. Eles não concluíram isso”, retrucou Biden.

Biden seguiu fazendo garantias: “a probabilidade de que haja um governo unificado no Afeganistão controlando o país inteiro é muito baixa” e acrescentou: “a probabilidade de que o Taleban domine tudo e controle o país inteiro é muito baixa”. E, em seguida, numa conversa que deve entrar para a história pela quantidade de mentiras emitidas do púlpito presidencial, Biden declarou o seguinte:

[REPÓRTER]: Sr. Presidente, alguns veteranos da guerra do Vietnã veem ecos da queda de Saigon nessa retirada do Afeganistão. Você vê algum paralelo entre essa retirada e o que aconteceu no Vietnã, já que muitas pessoas acham…

[PRESIDENTE BIDEN]: Não. De forma alguma. Zero. O que tivemos [em Saigon] foram brigadas inteiras  entrando na nossa embaixada. Seis [brigadas], se não me engano.

O Taleban não é o exército norte-vietnamita. Não são nem comparáveis em termos de capacidade. Não haverá nenhuma circunstância em que pessoas sejam evacuadas de helicóptero do telhado da embaixada dos EUA no Afeganistão. Não se pode comparar.

Quando perguntado sobre a possibilidade do Taleban estar mais forte do que nunca, mesmo depois de vinte anos ininterruptos de guerra travada pelos EUA, Biden afirmou: “Em termos de treinamento e capacidade [das Forças de Segurança afegãs] e de treinamento da polícia federal, [o Taleban] não chega nem perto”. No dia 21 de julho – menos de três semanas atrás – o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto nomeado por Biden, concedeu que havia “a possibilidade do Taleban assumir o controle total, bem como a possibilidade de diversos outros cenários”, mas insistiu: “as forças de segurança afegãs têm a capacidade suficiente para lutar e defender seu país”.

Garantias similares foram oferecidas pelo governo dos EUA e pelas lideranças militares do país desde o início da guerra. “Estamos perdendo essa guerra?”, o general Jeffrey Schloesser, comandante da 101st Airborne Division, perguntou retoricamente numa conferência de imprensa sobre o Afeganistão em 2008, e respondeu da seguinte maneira: “De jeito nenhum. O inimigo pode vencer essa guerra? De jeito nenhum.” Em 4 de setembro de 2013, então tenente-general Milley, hoje chefe do Estado-Maior Conjunto, reclamou que a mídia não estava dando o crédito merecido para o progresso obtido na construção e fortalecimento das forças afegãs: “[o] exército e as forças policiais [afegãs] estão sendo extremamente efetivas no combate aos insurgentes diariamente”, insistiu.

Nada disso era verdade. Sempre foi mentira, planejada para inicialmente justificar a ocupação sem fim daquele país e, posteriormente, quando os EUA se preparavam para deixá-lo, inventar um conto de fadas agradável sobre porque os 20 anos de aventura militar no Afeganistão não foram, no melhor dos casos, um desperdício total. Qualquer pessoa que veja as imagens oriundas do Afeganistão nos últimos dias pode comprovar a falsidade dessas afirmações. Qualquer pessoa que esteja assistindo a retomada do país pelo Taleban pode ver que as tão louvadas “forças de segurança afegãs” não passavam de ilusões. Mas como podemos afirmar que essas afirmações, feitas nos últimos 20 anos, foram realmente mentiras deliberadas, e não somente afirmações equivocadas feitas com sinceridade?

Para início de conversa, nós vimos essas táticas por parte de oficiais dos EUA – mentir para o público sobre as guerras com objetivo tanto de justificar seu início quando sua continuidade indefinida – serem empregadas repetidamente. A guerra do Vietnã, como a do Iraque, foi justificada com base numa mentira deslavada: O famoso episódio do Golfo de Tonkin, disseminado pelas agências de inteligência e endossado pela mídia corporativa, foi a razão oficial para a escalada militar dos EUA no Vietnã. O problema é que o suposto ataque lançado pelos vietnamitas contra embarcações norte-americanas em Tonkin jamais aconteceu.

Em 2011, o então presidente Obama, que ignoraria a decisão do Congresso negando autorização para envolvimento dos EUA na guerra na Líbia para remover Muammar Gaddafi, justificou a participação da OTAN no conflito negando que o objetivo fosse uma mudança no regime do país: “nossa missão militar tem o objetivo estreito de salvar vidas. Ampliar o escopo de nossa missão militar para mudança de regime seria um erro.” Entretanto, mesmo enquanto Obama fazia essas falsas garantias, o New York Times publicou uma matéria reportando que “as forças militares dos EUA estão conduzindo uma campanha aérea expansiva e cada vez mais potente para compelir o exército líbio a se rebelar contra Gaddafi.” Ou seja, mudança de regime era sim o objetivo.

Da mesma forma que fizeram na guerra do Afeganistão, líderes políticos e militares dos EUA mentiram por anos para o público americano sobre a possibilidade de vitória no Vietnã. Em 13 de junho de 1971, o New York Times publicou reportagens baseadas em milhares de documentos secretos vazados do Pentágono, no que acabou conhecido como Pentagon Papers. Vazados por Daniel Ellsberg, ex-Oficial da RAND, think thank de apoio às forças armadas do país, que afirmou que não poderia em sã consciência permitir que tantas mentiras fossem disseminadas sobre a situação no Vietnã, os Pentagon Papers se tornaram um dos vazamentos mais importantes do jornalismo norte-americano. Esses papéis revelaram que oficiais do governo, quando em ambientes privados, eram muito mais pessimistas sobre a possibilidade de derrotar as forças do Vietnã do Norte do que diziam em público. Para marcar os 50 anos de sua publicação, o Times relembrou algumas das mentiras expostas por esses documentos.

Segurando uma metralhadora chinesa capturada, o Secretário de Defesa Robert S McNamara apareceu numa conferência de imprensa em 1965. Os EUA haviam recém enviados suas primeiras tropas para o Vietnã do Sul, e o novo esforço, ele se gabou, estava desgastando ainda mais o já enfraquecido Vietcong.

“Nos últimos quatro anos e meio, o Vietcong, os Comunistas, perderam 89.000 homens”, afirmou. “Dá pra ver o peso dessas perdas”.

Era mentira. Por meio de relatórios confidenciais, McNamara sabia que a situação era “ruim e se deteriorando” no sul. “O VC tem a iniciativa”, dizia o relatório. “O derrotismo está crescendo entre a população rural, em alguma medida nas cidades, até entre os soldados [sul-vietnamitas].

Mentiras como essa de McNamara foram a regra, não a exceção, durante todo o envolvimento dos EUA no Vietnã. As mentiras eram repetidas em público, no Congresso, em sessões restritas, em discursos e para a imprensa.

É possível que a história verdadeira tivesse ficado oculta se, em 1967, McNamara não tivesse encomendado um levantamento histórico, baseado em  documentos secretos, que se tornariam os Pentagon Papers. Àquela altura, ele sabia que, mesmo com 500 mil tropas dos EUA atuando, a guerra estava num impasse.

Esse padrão de mentiras foi virtualmente idêntico durante os vários governos a assumirem o poder desde o início da Guerra no Afeganistão

Em 2019, o Washington Post, numa clara referência aos Pentagon Paperspublicou uma reportagem sobre documentos secretos que chamou de “Os Papéis do Afeganistão: uma história secreta da guerra.” Sob a manchete “EM GUERRA CONTRA A VERDADE”, o Post resumiu a matéria da seguinte forma: “Oficiais dos EUA afirmaram constantemente que estavam obtendo progresso. Não estavam, e sabiam disso.” E explicaram

Ano após ano, generais dos EUA disseram em público que estavam obtendo progresso no eixo central de sua estratégia: treinar um exército afegão robusto e uma força policial nacional capazes de defender o país sem assistência estrangeira.

[Numa rodada de] entrevistas chamadas de Lições Aprendidas [sobre a experiência dos EUA no Afeganistão], porém, militares dos EUA responsáveis pelo treinamento descreveram as forças afegãs como incompetentes, desmotivadas e repletas de desertores. Eles também acusaram comandantes afegãos de ficar com o salário – pago pelo contribuinte dos EUA – de dezenas de milhares de “soldados fantasma”.

Nenhum dos militares expressou qualquer confiança de que o exército ou polícia afegãs poderiam repelir, muito menos derrotar, o Taleban sozinhos. Mais de 60 mil membros das forças de segurança afegãs foram mortos no conflito, o que os comandantes dos EUA consideraram insustentável.

Como explicou o Post, “os documentos contradizem um longo refrão de declarações públicas de presidentes, comandantes militares e diplomatas que asseguraram o público norte americano ano após ano que estavam fazendo progresso no Afeganistão e que valia a pena continuar a guerra”. Esses documentos afastam qualquer dúvida de que as falsidades eram mentiras intencionais.

Vários dos entrevistados descreveram esforços explícitos e sustentados por parte do governo dos EUA de enganar deliberadamente o público. Eles disseram que era comum no Quartel General em Kabul – e na Casa Branca – que estatísticas fossem distorcidas para dar a entender que os EUA estavam ganhando a guerra quando esse não era o caso.

John Sopko, chefe da agência federal que conduziu as entrevistas, reconheceu ao Post que os documentos mostram que “mentiram constantemente para a população dos EUA “.

No mês passado, o jornalista independente Michael Tracey, entrevistou um veterano da guerra no Afeganistão em seu substack. O ex-soldado, que trabalhava em programas de treinamento para a polícia afegã e que também participou de treinamentos do exército afegão, descreveu em detalhes porque esse programas de treinamento foram um fracasso total, ou até mesmo uma farsa: “eu não acho que seja possível para mim exagerar o quanto esse sistema foi desenhado basicamente para sugar dinheiro e desperdiçar ou sumir com equipamentos”, ele afirmou. Em resumo, “no que diz respeito à presença militar dos EUA lá, eu vejo tudo como uma grande operação para desviar dinheiro”. Em outras palavras, foram 20 anos de uma guerra que serviu basicamente como uma fonte inesgotável de dinheiro para empresas de segurança dos EUA e senhores da guerra afegãos, num teatro em que todos sabiam que não havia nenhum progresso concreto alcançado mas mantinham a farsa de pé para continuar sugando a maior quantidade possível de recursos antes da inevitável retirada do país e reconquista pelo Taleban

À luz disso tudo, é inconcebível que as repetidas falsidades proferidas por Biden acerca do estado de preparação das forças afegãs não fossem intencionais. Isso fica ainda mais óbvio quando se considera o altíssimo nível de vigilância e espionagem que os EUA realizavam no Afeganistão. Conforme detalhado no arquivo passado a mim por Edward Snowden, os EUA submeteram o Afeganistão a todas as formas possíveis de espionagem eletrônica por mais de uma década. Em respeito às exigências feitas por Snowden, a maior parte dos documentos tratando da espionagem dos EUA no Afeganistão não foi publicada porque poderia colocar vidas em risco sem que houvesse ganhos para o interesse público. Entretanto, outros documentos publicados nos permitem vislumbrar o quão monitorado o país era pelos serviços de segurança dos EUA.

Em 2014, publiquei uma reportagem junto com Laura Poitras e outro repórter mostrando que a NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA) desenvolveu a capacidade, sob o codinome SOMALGET, que os permite “interceptar, gravar e arquivar secretamente o áudio de praticamente qualquer conversa por telefone celular” em pelo menos 5 países. A qualquer momento, a agência podia escutar conversas arquivadas de qualquer chamada telefônica feita por celular em qualquer lugar desses países. Ainda que tenhamos publicado os nomes de quatro desses cinco países, decidimos, após extensivos debates no The Intercept omitir o nome do quinto país – Afeganistão – por que a NSA havia convencido alguns editores que essa informação permitiria ao Taleban identificar o local de onde o programa era conduzido e assim colocar em risco a vida dos funcionários envolvidos (de modo geral, à pedidos do Snowden, evitamos publicar documentos referentes à atividades da NSA em zonas de guerra deflagradas exceto quando imprescindível). Entretanto, o WikiLeaks eventualmente revelou, acertadamente, que o país cujo nome omitimos era o Afeganistão.

Não havia praticamente nada acontecendo no Afeganistão sem que os serviços de inteligência dos EUA ficassem sabendo. Não é razoável supor que eles se equivocaram sobre todos os fatos numa tentativa sincera e inocente de informar o público sobre o que se passava no país.

Em suma, líderes políticos e militares dos EUA vem mentindo repetidamente para o público americano há duas décadas sobre as possibilidades de sucesso no Afeganistão no geral e sobre a capacidade das forças de segurança afegãs especificamente. Esse teatro se estendeu até cinco semanas atrás, quando Biden rejeitou veementemente a ideia de que a retirada dos EUA pudesse resultar numa retomada do Taleban. Inúmeros documentos, mantidos ocultos do público mas de amplo conhecimento das autoridades relevantes, provam que os oficiais dos EUA sabiam, sem sombra de dúvida, que o que eles estavam dizendo era falso, chegando até a falsificar ou distorcer informações para manter as mentiras de pé, numa repetição exata da conduta em guerras anteriores.

Qualquer dúvida que ainda reste da falsidade dessas duas décadas de afirmações otimistas foi destruída pela reconquista imediata – e fácil – do país pelo Taleban, como se as tão louvadas forças de segurança afegãs sequer existissem. É importante não somente lembrar da facilidade e da frequência com que as autoridades dos EUA mentem para o público sobre suas guerras, mas aprender essa lição para a próxima vez que um líder dos EUA propuser uma nova invasão empregando as mesmas táticas de mentira, manipulação e falsidades.

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Governistas já questionam se Bolsonaro tem capacidade para enfrentar Lula em 2022

Lula e Bolsonaro
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247 - O crescimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de intenção de voto para 2022 e a sua popularidade têm colocado a capacidade de Jair Bolsonaro para enfrentar o petista em questionamento entre os apoiadores do atual governo. 

Na visão de seus aliados, enquanto Bolsonaro se preocupa em diariamente atacar o STF e propagar seu discurso de golpe militar, Lula está amarrando alianças no Nordeste e aprimorando a narrativa de reconstrução do país. 

De acordo com a coluna Radar, os governistas acreditam que Bolsonaro está preocupado apenas com a sua reeleição, se esquecendo de seus aliados de governo.

Bolsonaro, ainda sem partido, não conseguiu garantir candidaturas de aliados. As acusações de corrupção, ataques à democracia e má gestão da pandemia do novo coronavírus evidenciadas pela CPI da Covid têm colocado em xeque a aprovação de Bolsonaro e provocado seu derretimento nas pesquisas.  

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Alvo de senadores, Aras desabafa e dispara contra Janot

Augusto Aras


247 - 
O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, alvo de notícia-crime no Supremo Tribunal Federal (STF) por prevaricação, desabafou em meio à pressão que vem sofrendo. A insatisfação sobrou até para um de seus antecessores, Rodrigo Janot. 

“Vejo agora pessoas que me criticam de forma impiedosa e que ficaram caladas quando um de meus antecessores rasgou a Constituição, subverteu o Estado de Direito, aceitou provas forjadas e acabou desmoralizado. Onde essas pessoas estavam? O que fizeram?”, costuma dizer Aras, segundo um interlocutor ouvido pela coluna Radar, na Veja. 

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DEUS e o DESIGN INTELIGENTE: Uma das criaturas de DEUS ataca novamente

COVARDIA: Garotinho de 7 anos MORRE ao ser infectado por ameba 'COMEDORA de CÉREBRO' na Califórnia.

Segundo as autoridades locais, apenas 10 casos da doença foram relatados no estado desde o início dos anos 1970
David Pruitt foi contaminado após nadar em um lago de água doce durante um passeio com a família Foto: Reprodução GoFundMe
David Pruitt foi contaminado após nadar em um lago de água doce durante um passeio com a família Foto: Reprodução GoFundMe

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DEUS e o DESIGN INTELIGENTE: Eu_creio.!!!

Menino de 7 anos morre ao ser infectado por ameba 'COMEDORA de CÉREBRO' na Califórnia.

Segundo as autoridades locais, apenas 10 casos da doença foram relatados no estado desde o início dos anos 1970
David Pruitt foi contaminado após nadar em um lago de água doce durante um passeio com a família Foto: Reprodução GoFundMe
David Pruitt foi contaminado após nadar em um lago de água doce durante um passeio com a família Foto: Reprodução GoFundMe

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Um menino de 7 anos morreu após ser infectado por uma ameba 'comedora de cérebro' nos Estados Unidos. David Pruitt foi contaminado após nadar em um lago de água doce durante um passeio com a família no condado de Tehama, no norte da Califórnia.

A tia do garoto, Crystal Hayley, disse que ele foi diagnosticado com meningoencefalite amebiana primária (PAM), uma infecção rara e devastadora do cérebro. “Estamos tristes e com o coração partido ao informar que nosso doce e pequeno David faleceu”, escreveu Hayley", escreveu Hayley, na página criada no site GoFundMe.

Em um comunicado, autoridades informaram que “as pessoas são infectadas quando a água que contém a ameba sobe com força pelo nariz. Do nariz, a ameba às vezes pode migrar para o cérebro e destruir o tecido cerebral.” explicou a Tehama County Health Services Agency.

A infecção é causada pelo protozoário Naegleria fowleri. Segundo as autoridades locais, apenas 10 casos da doença foram relatados no estado desde o início dos anos 1970

No estágio inicial da infecção, os sintomas podem incluir forte dor de cabeça, febre, náuseas e vômitos, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. À medida que a infecção piora, os sintomas - que aparecem de um a nove dias após a exposição à ameba - podem evoluir para rigidez do pescoço, convulsões ou alucinações.

David foi levado às pressas para o pronto-socorro em 30 de julho e, em seguida, levado para o UC Davis Medical Center, disse Hayley, onde foi colocado em um aparelho de suporte vital com grave inchaço cerebral. Ele morreu oito dias depois.

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Força-tarefa de cientistas pede aumento de 5,5 vezes no gasto para prevenção de pandemias

Grupo aponta que investimento global de US$ 22 bilhões ao ano eliminaria a maior parte do risco de emergência de novos vírus; valor equivale a 2% do prejuízo com a Covid-19
Enfermeiro veste traje de segurança em hospital de campanha para doentes de ebola no Congo, em 2019 Foto: BAZ RATNER / REUTERS
Enfermeiro veste traje de segurança em hospital de campanha para doentes de ebola no Congo, em 2019 Foto: BAZ RATNER / REUTERS

SÃO PAULO - Uma força-tarefa internacional de cientistas lança hoje um relatório avaliando o risco de o planeta enfrentar uma nova pandemia, com recomendações para evitá-la. A receita oferecida consiste sobretudo em medidas que restrinjam o contato de pessoas com animais hospedeiros de vírus, e o custo delas é barato: US$ 22 bilhões por ano, o equivalente a apenas 2% das perdas econômicas globais provocadas pela Covid-19.

O documento produzido pelo grupo de pesquisadores, liderado pelo Instituto de Saúde Global da Universidade Harvard, de Cambridge (EUA), colocou foco no problema do chamado spillover (transbordamento, em tradução literal). Esse é o termo técnico que biólogos usam para descrever o evento de transmissão de vírus ou outros agentes infecciosos de um animal para um humano.

Um spillover esteve na origem da pandemia de Covid-19 e da maioria das outras epidemias com origem conhecida. Para prevenir isso, dizem os cientistas, é preciso não apenas monitorar frentes que oferecem maior risco, mas deter atividades predatórias que não oferecem nenhum benefício econômico global, sobretudo o desmatamento e o tráfico de animais silvestres.

O mundo registra em média dois eventos de spillover por ano, segundo o relatório, mas é difícil prever de antemão quais desses episódios ficarão circunscritos a um ou dois casos, quais se tornarão epidemias locais e quais se tornarão pandemias. Alguns hospedeiros merecem especial atenção da vigilância epidemiológica, afirmam os cientistas, sobretudo morcegos, roedores, macacos e aves aquáticas.

Mas só metade dos vírus que saltam para humanos sai da natureza. O resto são patógenos de animais domesticados. Na pecuária, grandes rebanhos aglomerados oferecem farta oportunidade de mutação e disseminação de agentes infecciosos com risco de contágio para pessoas. Esse setor, dizem os cientistas, se beneficiaria da mudança de algumas práticas e requer uma estrutura mais robusta de monitoramento no mundo todo.

Segundo os pesquisadores, o investimento feito para mitigar esses problemas todos é atualmente de US$ 4 bilhões, e não está à altura dos US$ 4 trilhões de prejuízo global que uma pandemia como a da Covid-19 pode provocar. Multiplicando o valor por 5,5 o planeta poderia reduzir senão ao todo, ao menos a maior parte do risco de novos spillovers.

Cortando o mal na raiz

Aaron Bernstein, professor de Harvard que coordenou a força-tarefa, explica que já existem muitas medidas em prática para conter o espalhamento de futuros patógenos, mas a maior parte do aparato se concentra em frear a epidemia depois que o spillover acontece em primeiro lugar.

— Todos os formuladores de políticas que consideram gastar um pouco mais para conservar florestas ou coibir o tráfico de animais silvestres querem saber qual o tamanho do investimento necessário, e precisam de uma resposta clara — afirmou o pesquisador ao GLOBO.

— Se levarmos em conta aquilo que perdemos com a Covid-19, mesmo que esse valor seja diluído ao longo de um século, um programa de conservação de florestas só precisa ser minimamente eficiente para ter um bom custo-benefício.

Em outras palavras, manter árvores em pé e os animais em seus hábitats tem um custo econômico menor que o de impor lockdowns ou abater rebanhos para conter epidemias em curso.

No relatório, os pesquisadores apontam que os riscos maiores de patógenos emergentes estão na Índia e na China, não à toa o Sars-CoV-2 apareceu em território chinês. Países africanos e latino-americanos estão num segundo plano, mas também abrigam uma boa parte de áreas de risco.

Para Bernstein, a melhor contribuição que o Brasil pode dar para prevenção global de novos patógenos é acabar com o desmatamento.

— Nós sabemos muito pouco sobre vírus circulando na selva amazônica, mas mesmo com o pouco que sabemos temos razão para crer que muitas potenciais doenças emergentes ainda não descobertas podem estar ali — diz o cientista de Harvard.

Desequilibrio geográfico

Um dos coautores de Bernstein no relatório foi o epidemiologista Guilherme Werneck, professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Para o brasileiro, apesar de a solução para mitigar o problema do spillover ser relativamente barata numa escala global, sua implementação requer uma costura diplomática complicada.

Um dos problemas é que, apesar de todos cidadãos do mundo serem potenciais vítimas de uma pandemia, o risco de emergência dos patógenos está concentrados em países tropicais mais pobres, que têm poucos recursos para empregar.

— O dinheiro teria que sair dos países desenvolvidos, e isso teria que ser por decisões aplicadas no nível de um organismo multilateral global que canalizasse esses recursos para enfrentar esses problemas nos locais de maior risco — diz Werneck. — Sem um grande acordo global multilateral, isso fica difícil. Muitos países pobres têm emergências mais importantes para resolver, como fome ou guerra civil.

Uma boa notícia sobre o problema é que uma parte da solução já vem sendo debatida no âmbito de dois grandes acordos internacionais. A preservação de florestas e ecossistemas é negociada tanto no Acordo de Paris para o clima quanto na CDB (Convenção da Diversidade Biológica). Uma boa parte do custo de prevenção de pandemias que os cientistas calculam está em medidas adicionais, como pesquisas de campo e sistemas de vigilância genética para identificar novos patógenos.

Como a OMS (Organização Mundial da Saúde) não tem o poder de arbítrio para muitas das medidas a serem exigidas dos países, não é improvável que surja a proposta de um tratado contra o spillover nos moldes do Acordo de Paris. Guardadas as proporções, o que a força-tarefa de risco pandêmico produziu agora pode ser o embrião de um relatório como os do IPCC, o painel do clima da ONU, com ciência para embasar programas políticos.

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Forças Armadas NÃO SÃO NEM TÊM ‘poder moderador’

Luiz Fux

Continua a prosperar no universo paralelo do bolsonarismo uma interpretação descabida da Constituição que justificaria uma intervenção militar em apoio aos desígnios golpistas do presidente Jair Bolsonaro. Essa leitura estapafúrdia do artigo 142 da Carta, que estabelece o papel das Forças Armadas na República, não passa de uma tentativa de aplicar um verniz, de conferir uma pátina de legalidade à ruptura da ordem democrática. Rechaçada pelo consenso dos juristas, ela já foi formalmente descartada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A visão deturpada desse artigo atribui às Forças Armadas o exercício de um pretenso “poder moderador” — inexistente em todas as Constituições republicanas. Seria apenas mais um delírio das redes sociais, não tivesse sido ressuscitada nesta semana em entrevista do general da reserva Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Depois de pregar contra “excessos”, Heleno afirmou que a intervenção militar “poderia acontecer em momento mais grave”. Argumentou que, se o artigo 142 “existe no texto constitucional, é sinal de que pode ser usado”.

Ora, em nenhum momento o artigo 142 confere às Forças Armadas autoridade para intervir ou moderar crises entre o Executivo e os demais Poderes. Ao contrário, ele deixa claríssimas as três funções constitucionais de Exército, Marinha e Aeronáutica. Textualmente, “destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos Poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Quem deu início à interpretação equivocada — e conveniente para as intenções golpistas de Bolsonaro — foi o jurista Ives Gandra Martins, ao enxergar nesse trecho a atribuição às três Forças da missão de moderar crises entre os Poderes. Só que isso é pura lorota, já que simplesmente não está escrito no texto constitucional.

Para quem tinha alguma dúvida, a questão foi dirimida pelo ministro Luiz Fux, presidente do Supremo, quando analisou no ano passado uma ação ajuizada pelo PDT sobre a missão das Forças Armadas. “Inexiste no sistema constitucional brasileiro a função de garante ou de poder moderador”, escreveu Fux em medida cautelar. “Para a defesa de um Poder sobre os demais, a Constituição instituiu o pétreo princípio da separação de Poderes.”

Noutro trecho, Fux esmiúça o papel do presidente da República: “A ‘autoridade suprema’ sobre as Forças Armadas conferida ao Presidente da República correlaciona-se às balizas de hierarquia e de disciplina que informam a conduta militar. Entretanto, por óbvio, não se sobrepõe à separação e à harmonia entre os Poderes, cujo funcionamento livre e independente fundamenta a democracia constitucional, no âmbito da qual nenhuma autoridade está acima das demais ou fora do alcance da Constituição”.

Foi o que voltou a esclarecer ontem a ministra Cármen Lúcia, em entrevista à jornalista Míriam Leitão, ao reiterar que as Forças Armadas “não são um poder à parte” e que o artigo segundo da Carta estabelece somente três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Cabe aos ministros do STF o dever de interpretar o texto constitucional. O general Heleno e os bolsonaristas que embarcam na interpretação desvairada do artigo 142 deveriam ouvi-los. Do contrário, não serão democratas genuínos.

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REPUGNANTE, INACEITÁVEL 

Ex-ministro do STF disse que a "apologia da adoção do pretorianismo é repugnante e inaceitável"

Forças Armadas NÃO SÃO NEM TÊM "poder moderador"

Celso de Mello REBATE Augusto Heleno e afirma que Artigo 142 NÃO autoriza INTERVENÇÃO MILITAR em NENHUM Poder

Celso de Mello e Augusto Heleno
Celso de Mello e Augusto Heleno (Foto: ABr)

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Celso de Mello REBATE Augusto Heleno e afirma que Artigo 142 não autoriza intervenção militar em nenhum Poder

Ex-ministro do STF disse que a "apologia da adoção do pretorianismo é repugnante e inaceitável"

Celso de Mello e Augusto Heleno
Celso de Mello e Augusto Heleno (Foto: ABr)

Do Conjur - Em resposta a questionamento feito pela ConJur, Celso de Mello, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, rechaçou frontalmente as declarações do ministro e general da reserva Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que disse em entrevista nesta segunda-feira (16/8) à noite, à rádio Jovem Pan, haver possibilidade de intervenção militar em caso de gravidade e de tensão extrema nas relações entre os Poderes.

O militar afirmou não acreditar na hipótese "nesse momento" (sic) e disse que a intervenção das Forças Armadas está prevista no artigo 142 da Constituição, repetindo argumentos de bolsonaristas extremistas. Apesar da fala do general, não há brecha nesse artigo que autorize qualquer intervenção das três forças militares.

Para Celso de Mello, "a apologia da adoção (e prática) do pretorianismo, mediante distorcida interpretação do artigo 142 da Constituição, é repugnante e inaceitável, pois traduz expressão de ostensivo desapreço que perigosamente conduz à prática autocrática do poder, à asfixia dos indivíduos pela opressão do Estado e à degradação, quando não supressão, dos direitos fundamentais da pessoa cuja prevalência traduz, no plano ético, o sinal visível da presença de instituições que apenas florescem em solo irrigado pelo sonho generoso da liberdade e da democracia".

O ministro aposentado do STF afirmou ser "inquestionável" o fato de que o artigo 142 da Constituição Federal não confere "suporte institucional" nem legitima a intervenção militar em qualquer dos Poderes da República, "sob pena de tal ato, se consumado, traduzir um indisfarçável (e repulsivo) golpe de Estado".

Celso de Mello rememorou a advertência de Ulysses Guimarães, no encerramento da Assembleia Nacional Constituinte e promulgação da Carta de 1988, quando o deputado ressaltou a sacralidade do texto constitucional e atribuiu aos transgressores da Constituição o labéu de traidores da Pátria, afirmando, em pronunciamento que guarda impressionante atualidade, neste momento histórico, o seguinte: "Descumprir [a Constituição] jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria". E continuou a repetir a fala do presidente da Constituinte: "Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério."

Na conclusão de sua resposta, Celso de Mello afirmou que aquele que "admite a mera possibilidade de intervenção militar nos poderes do Estado, como o Judiciário e o Legislativo, é um profanador dos signos legitimadores do Estado democrático de Direito e conspurcador dos valores que informam o espírito da República!".

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Leia abaixo a resposta de Celso de Mello:

"O entendimento recentemente revelado por certa autoridade da República mostra-se típico de quem não entende nada quando se trata de interpretação constitucional! A exegese em questão, além de primária e errada, notadamente porque sustenta a ideia esdrúxula de que residiria nas Forças Armadas o poder moderador, é igualmente preocupante, pois reflete, ainda que tal possa não ser a intenção de referida autoridade, a visão dos epígonos da autocracia, daqueles desejosos de desconsiderar a ordem democrática e de transgredir o Estado de Direito, cujos fundamentos de legitimação repousam na "rule of law", vale dizer, na soberania e no império da lei e da Constituição da República! Quem interpreta a Lei Fundamental de nosso país e dela extrai compreensão equivocada e juridicamente inidônea destinada a viabilizar uma inadmissível intervenção militar nos Poderes da República demonstra, com esse gesto de suprema infidelidade à majestade e à autoridade da Constituição, desprezo manifesto pelas instituições que compõem o sistema político-institucional brasileiro!

Em nossa Constituição, que consagra o dogma essencial da separação de poderes, repousa o fundamento de nossas liberdades! Preconizar a possibilidade, ainda que remota, de intervenção pretoriana no sistema institucional de nosso país constitui perversão do princípio democrático  e gesto profano de vilipêndio à ideia de República! Quem admite a mera possibilidade de intervenção militar nos poderes do Estado, como o Judiciário e o Legislativo, é um profanador dos signos legitimadores do Estado democrático de Direito e conspurcador dos valores que informam o espírito da República! A apologia da adoção (e prática) do pretorianismo, mediante distorcida interpretação do artigo 142 da Constituição, é repugnante e inaceitável, pois traduz expressão de ostensivo desapreço que perigosamente conduz à prática autocrática do poder, à asfixia dos indivíduos pela opressão do Estado e à degradação, quando não supressão, dos direitos fundamentais da pessoa cuja prevalência traduz, no plano ético, o sinal visível da presença de instituições que apenas florescem em solo irrigado pelo sonho generoso da liberdade e da democracia ! "Japona não é toga", como afirmou há décadas o saudoso senador paulista Auro de Moura Andrade!

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Cumpre não desconhecer, finalmente, neste ponto, a gravíssima advertência do saudoso e eminente deputado federal Ulysses Guimarães (1916-1992), em memorável discurso proferido em 05/10/1988, no encerramento da Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou e promulgou a vigente Constituição da República, ao destacar a sacralidade do texto constitucional, estigmatizando com o labéu de traidor aquele — governante ou governado — que ousasse transgredir a supremacia da Lei Fundamental de nosso país, pronunciando, então, palavras candentes que guardam impressionante e permanente atualidade: "Descumprir [a Constituição] jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério."

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Globo reage a Heleno e diz que ele faz "leitura estapafúrdia" sobre o papel das Forças Armadas

General Augusto Heleno
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247 - "Continua a prosperar no universo paralelo do bolsonarismo uma interpretação descabida da Constituição que justificaria uma intervenção militar em apoio aos desígnios golpistas do presidente Jair Bolsonaro", diz o jornal O Globo em editorial publicado nesta quarta-feira (18). "Essa leitura estapafúrdia do artigo 142 da Carta, que estabelece o papel das Forças Armadas na República, não passa de uma tentativa de aplicar um verniz, de conferir uma pátina de legalidade à ruptura da ordem democrática", acrescenta.

De acordo com o texto, "a visão deturpada desse artigo atribui às Forças Armadas o exercício de um pretenso 'poder moderador' — inexistente em todas as Constituições republicanas". "Seria apenas mais um delírio das redes sociais, não tivesse sido ressuscitada nesta semana em entrevista do general da reserva Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI)", afirma.

"Em nenhum momento o artigo 142 confere às Forças Armadas autoridade para intervir ou moderar crises entre o Executivo e os demais Poderes", diz o editorial.

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Pesquisa XP: 58% são contra voto impresso e impeachment tem maioria

Jair Bolsonaro
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247 - rodada de agosto da pesquisa XP/Ipespe mostra que a pauta do voto impresso, insistentemente defendida por Jair Bolsonaro, é altamente impopular entre a população. O grupo contrário ao voto impresso atingiu 58%. Apenas 36% são favoráveis (7% não souberam ou não responderam). 

A maior parte da população defende o impeachment do chefe de governo. 50% são favoráveis; 46% se dizem contrários. 

Além disso, o levantamento questionou sobre a CPI da Covid. 57% dos entrevistados aprovam o trabalho do colegiado; 67% disseram seguir o funcionamento da CPI. 

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Na Câmara, Braga Netto nega que houve ditadura em 1964: ‘foi um regime forte’ (vídeo)

Braga Netto na Câmara dos Deputados
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247 - O ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, afirmou em depoimento na Câmara dos Deputados que não acredita que o Brasil tenha passado por uma ditadura em 1964, quando o governo foi alvo de um golpe militar.

“Não considero que tenha havido uma ditadura. Houve um regime forte, isso eu concordo. Cometeram exceções dos dois lados, mas isso tem que ser analisado na época da história, de Guerra Fria e tudo o mais. Não pegar uma coisa do passado e trazer para os dias de hoje”, disse. 

“Se houvesse ditadura, talvez muitas pessoas não estariam aqui. Ditadura, como foi dito por um deputado aqui, são em outros países, que já foram mencionados, e eu me permito o direito de não repetir”, acrescentou.

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As declarações foram feitas nesta terça-feira (17), em uma audiência conjunta de três comissões da Câmara dos Deputados para a qual o ministro foi convidado a prestar esclarecimentos sobre as ameaças de golpe contra a democracia pelo governo Bolsonaro e pelas Forças Armadas. 

Quanto a isso, Braga Netto recuou e negou ter feito ameaças de golpe após nota assinada pelo Ministério da Defesa, junto com as Forças Armadas, na qual afirmaram que não iriam aceitar eventual “ataque leviano às instituições”. O texto foi emitido após o presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz, criticar o envolvimento de militares em escândalo de corrupção na pandemia.

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Celso de Mello rebate Heleno e afirma que Artigo 142 não autoriza intervenção militar em nenhum Poder

Celso de Mello e Augusto Heleno
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Do Conjur - Em resposta a questionamento feito pela ConJur, Celso de Mello, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, rechaçou frontalmente as declarações do ministro e general da reserva Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que disse em entrevista nesta segunda-feira (16/8) à noite, à rádio Jovem Pan, haver possibilidade de intervenção militar em caso de gravidade e de tensão extrema nas relações entre os Poderes.

O militar afirmou não acreditar na hipótese "nesse momento" (sic) e disse que a intervenção das Forças Armadas está prevista no artigo 142 da Constituição, repetindo argumentos de bolsonaristas extremistas. Apesar da fala do general, não há brecha nesse artigo que autorize qualquer intervenção das três forças militares.

Para Celso de Mello, "a apologia da adoção (e prática) do pretorianismo, mediante distorcida interpretação do artigo 142 da Constituição, é repugnante e inaceitável, pois traduz expressão de ostensivo desapreço que perigosamente conduz à prática autocrática do poder, à asfixia dos indivíduos pela opressão do Estado e à degradação, quando não supressão, dos direitos fundamentais da pessoa cuja prevalência traduz, no plano ético, o sinal visível da presença de instituições que apenas florescem em solo irrigado pelo sonho generoso da liberdade e da democracia".

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O ministro aposentado do STF afirmou ser "inquestionável" o fato de que o artigo 142 da Constituição Federal não confere "suporte institucional" nem legitima a intervenção militar em qualquer dos Poderes da República, "sob pena de tal ato, se consumado, traduzir um indisfarçável (e repulsivo) golpe de Estado".

Celso de Mello rememorou a advertência de Ulysses Guimarães, no encerramento da Assembleia Nacional Constituinte e promulgação da Carta de 1988, quando o deputado ressaltou a sacralidade do texto constitucional e atribuiu aos transgressores da Constituição o labéu de traidores da Pátria, afirmando, em pronunciamento que guarda impressionante atualidade, neste momento histórico, o seguinte: "Descumprir [a Constituição] jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria". E continuou a repetir a fala do presidente da Constituinte: "Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério."

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Na conclusão de sua resposta, Celso de Mello afirmou que aquele que "admite a mera possibilidade de intervenção militar nos poderes do Estado, como o Judiciário e o Legislativo, é um profanador dos signos legitimadores do Estado democrático de Direito e conspurcador dos valores que informam o espírito da República!".

Leia abaixo a resposta de Celso de Mello:

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"O entendimento recentemente revelado por certa autoridade da República mostra-se típico de quem não entende nada quando se trata de interpretação constitucional! A exegese em questão, além de primária e errada, notadamente porque sustenta a ideia esdrúxula de que residiria nas Forças Armadas o poder moderador, é igualmente preocupante, pois reflete, ainda que tal possa não ser a intenção de referida autoridade, a visão dos epígonos da autocracia, daqueles desejosos de desconsiderar a ordem democrática e de transgredir o Estado de Direito, cujos fundamentos de legitimação repousam na "rule of law", vale dizer, na soberania e no império da lei e da Constituição da República! Quem interpreta a Lei Fundamental de nosso país e dela extrai compreensão equivocada e juridicamente inidônea destinada a viabilizar uma inadmissível intervenção militar nos Poderes da República demonstra, com esse gesto de suprema infidelidade à majestade e à autoridade da Constituição, desprezo manifesto pelas instituições que compõem o sistema político-institucional brasileiro!

Em nossa Constituição, que consagra o dogma essencial da separação de poderes, repousa o fundamento de nossas liberdades! Preconizar a possibilidade, ainda que remota, de intervenção pretoriana no sistema institucional de nosso país constitui perversão do princípio democrático  e gesto profano de vilipêndio à ideia de República! Quem admite a mera possibilidade de intervenção militar nos poderes do Estado, como o Judiciário e o Legislativo, é um profanador dos signos legitimadores do Estado democrático de Direito e conspurcador dos valores que informam o espírito da República! A apologia da adoção (e prática) do pretorianismo, mediante distorcida interpretação do artigo 142 da Constituição, é repugnante e inaceitável, pois traduz expressão de ostensivo desapreço que perigosamente conduz à prática autocrática do poder, à asfixia dos indivíduos pela opressão do Estado e à degradação, quando não supressão, dos direitos fundamentais da pessoa cuja prevalência traduz, no plano ético, o sinal visível da presença de instituições que apenas florescem em solo irrigado pelo sonho generoso da liberdade e da democracia ! "Japona não é toga", como afirmou há décadas o saudoso senador paulista Auro de Moura Andrade!

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A estratocracia não pode nem deve ser vista como sucedâneo possível, mesmo que pontual, do regime fundado na noção de democracia constitucional!!!!! Inquestionável é o fato de que o artigo 142 da Constituição Federal não confere suporte institucional nem legitima a intervenção militar em qualquer dos Poderes da República, sob pena de tal ato, se consumado, traduzir um indisfarçável (e repulsivo) golpe de Estado!

Cumpre não desconhecer, finalmente, neste ponto, a gravíssima advertência do saudoso e eminente deputado federal Ulysses Guimarães (1916-1992), em memorável discurso proferido em 05/10/1988, no encerramento da Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou e promulgou a vigente Constituição da República, ao destacar a sacralidade do texto constitucional, estigmatizando com o labéu de traidor aquele — governante ou governado — que ousasse transgredir a supremacia da Lei Fundamental de nosso país, pronunciando, então, palavras candentes que guardam impressionante e permanente atualidade: "Descumprir [a Constituição] jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério."


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Lula chega a 40%, abre 16 pontos sobre Bolsonaro na pesquisa XP e está perto da vitória em primeiro turno

Lula e Bolsonaro
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XP/Ipespe – rodada de agosto da pesquisa XP/Ipespe mostra continuidade na tendência de crescimento das avaliações negativas do governo Jair Bolsonaro.

No levantamento atual são 54% os que dizem considerar o governo ruim ou péssimo contra 52% no mês passado. O crescimento na rejeição é constante desde outubro de 2020, quando 31% diziam considerar a gestão ruim ou péssima. 

Na outra ponta, os que veem o governo como bom ou ótimo somam 23%, 2 pontos a menos que na pesquisa de julho. Os dois números são os piores para o governo desde o início da série.

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A insatisfação vem acompanhada de uma piora na percepção da direção da economia. O grupo dos que a veem no caminho errado, que vinha diminuindo a partir de abril, cresceu 4 pontos percentuais e chegou a 63%, mesmo patamar registrado em maio. 

A visão contrasta com outros indicadores sobre a situação econômica: a percepção sobre as chances de manutenção de emprego, por exemplo, segue em tendência de alta desde maio. O grupo que vê possibilidade grande ou muito grande de continuar empregado chega a 56%.

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Foram realizadas 1.000 entrevistas, de abrangência nacional, de 11 a 14 de agosto. A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais.

A pesquisa registrou também estabilidade sobre o sentimento da população em relação à pandemia: o grupo dos que dizem estar com muito medo do surto oscilou de 38% para 39% -- esta é a primeira vez desde abril que essa fatia dos entrevistados não reduz seu tamanho. 

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No mesmo assunto, a soma das pessoas que já se vacinaram com as que dizem que vão se vacinar com certeza atingiu seu maior patamar, chegando a 96%.

ELEITORAL

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A nova rodada da pesquisa XP/Ipespe registra continuidade na tendência de crescimento das intenções de voto no ex-presidente Lula. No levantamento de agosto, ele aparece com 40%, 2 pontos percentuais a mais que na pesquisa anterior, enquanto Bolsonaro tem 24%, 2 pontos a menos que na última sondagem. 

Esta é a quinta pesquisa em que o ex-presidente repete a tendência de alta – ele tinha 25% em março, quando seu nome voltou a ser testado. Atrás dele e de Bolsonaro aparecem Ciro Gomes (10%), Sérgio Moro (9%), Mandetta e Eduardo Leite (4%). O petista também lidera cenário alternativo, em que João Doria (5%) é testado no lugar de Leite e em que são incluídos Datena (5%) e Rodrigo Pacheco (1%) e é excluído Sérgio Moro. 

Nesse cenário, Lula tem 37% e Bolsonaro, 28%. Lula também continua registrando crescimento no levantamento espontâneo, quando o nome dos candidatos não é apresentado ao entrevistado: ele passou de 25% para 28%, enquanto Bolsonaro segue estável com 22%. 

No principal cenário de segundo turno, Lula ampliou vantagem sobre Bolsonaro. O petista oscilou 2 pontos para mais, e Bolsonaro, 3 para menos. Agora o ex-presidente venceria com 51%  contra 32% do atual presidente.

O interesse em relação ao pleito está em alta. Hoje são 49% os que dizem estar muito interessados na eleição,  contra 46% na pesquisa anterior.

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Com medo de punição do Taleban, afegãos apagam registros da vida online

16.ago.2021 - Membros do Taleban montam guarda em uma via de Cabul, após tomarem o poder no Afeganistão - Wakil Kohsar/AFP
16.ago.2021 - Membros do Taleban montam guarda em uma via de Cabul, após tomarem o poder no Afeganistão Imagem: Wakil Kohsar/AFP

Felipe de Oliveira

Colaboração para Tilt, em São Paulo

17/08/2021 13h43

A última vez que o grupo fundamentalista Taleban governou no Afeganistão foi em 2001, antes de os Estados Unidos enviarem tropas ao país. De lá para cá, a evolução da internet foi gigantesca, a ponto de o mundo online se tornar uma extensão do dia a dia de muita gente. Mas com o novo avanço dos extremistas no país, a vida nas redes sociais de quem vive na região se tornou perigosa.

Isso porque cada vestígio deixado na internet pode ser utilizado pelo Taleban para punir um cidadão do país. De acordo com o reportagem do site Wired, várias pessoas estão tentando apagar evidências de suas vidas online para evitar que os ultraconservadores as punam. Ao mesmo tempo, alguns cidadãos tentam de alguma forma apenas esconder essas informações para que possam utilizá-las para conseguir sair do país.

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Uma das preocupações de quem não quer ter o passado descoberto pelos extremistas envolve os celulares pessoais. Neles podem ser encontrados contatos salvos de familiares e conhecidos, ou até mesmo os registros das ligações realizadas, o que pode deixar claro uma possível relação indesejada pelos extremistas.

O perfil em redes sociais é outro motivo de temor. Por mais que os usuários apaguem suas próprias contas, fotos ou vídeos em que elas aparecem — voluntariamente ou não — podem ser consideradas transgressões pelo Talibã, de acordo com a matéria da Wired.

De acordo com o site, a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), um braço humanitário norte-americano, teria enviado um email para parceiros que vivem no Afeganistão pedindo que fizessem uma espécie de pente-fino em suas redes sociais para remover fotos e informações que poderiam tornar os indivíduos vulneráveis.

A entidade também aconselhou os parceiros que ainda operam na região a excluir e limpar todas as informações de identificação pessoal daqueles com quem trabalharam no local, para evitar que caiam em mãos erradas.

"O Taleban certamente sabe como usar a tecnologia. A única maneira sensata de abordar isso é presumir o pior e planejar para isso. Seria tolice pensar que não há risco", afirmou Brian Dooley, consultor sênior da Human Rights First. A organização internacional de direitos humanos elaborou um guia sobre como excluir seu histórico digital — o problema é que ele está em inglês, o que não o deixa acessível para todos afegãos.

Taleban já usou tecnologia para encontrar opositores

Os temores com relação ao Taleban e a tecnologia são justificados por ações já realizadas pelo grupo. Em 2016, os extremistas mataram 12 passageiros de um ônibus após exigir que todos digitalizassem suas impressões digitais em uma máquina de biometria.

Com o dado colhido dos passageiros, o Taleban verificou um banco de dados para identificar trabalhadores da força de segurança do país, considerada prejudicial ao modo de vida que pregam.

"A maioria dos passageiros não estava familiarizada com a máquina, mas sabíamos que era um dispositivo biométrico que poderia identificar membros da força de segurança entre civis", disse um comandante do exército afegão na época.

Facebook bane Taleban

Acredita-se também que o Taleban já tenha usado dados do Facebook para identificar indivíduos com relacionamentos de longa data com militares ou ONGs dos EUA. Essa técnica foi utilizada pelo Estado Islâmico, no Iraque, que vasculhava as redes sociais para encontrar aqueles que considerava como oponentes.

Sabendo dessa possibilidade, o Facebook já anunciou que banirá, na medida do possível, o conteúdo relacionado ao Taleban de todas as suas plataformas. De acordo com o gigante da tecnologia, conteúdos postados por usuários extremistas ou que contenham informações do Taleban não serão permitidos no Facebook, Instagram e WhatsApp.

"O Taleban foi sancionado como organização terrorista pela lei dos EUA e nós os banimos de nossos serviços de acordo com as nossas políticas de Organização Perigosa", afirmou um porta-voz da empresa à rede CNBC.

Taleban estaria utilizando o WhatsApp

Contudo, banir esse tipo de conteúdo do WhatsApp não é tão simples como em plataformas como Facebook e Instagram. Isso porque as mensagens são criptografadas de ponta a ponta, o que significa somente as pessoas envolvidas na troca de textos, fotos e vídeos é que conseguem ter acesso a eles.

Segundo reportagem da Vice, o Taleban sabendo disso estaria utilizando o aplicativo para espalhar mensagens para os cidadãos enquanto eles tomam conta do país. De acordo com uma matéria compartilhada pela revista, o uso das mensagens por WhatsApp foi o que fez o Taleban tomar conta tão rápido do Afeganistão.

Enquanto os Estados Unidos admitiram que pensavam que demoraria pelo menos 90 dias para que o grupo retomasse o poder no país, isso ocorreu em apenas 10 dias após o anúncio da retirada das tropas. Ao que parece, ao invés de enfrentar o exército afegão, o Taleban apenas espalhou informações no WhatsApp de que estaria no controle de determinadas cidades e assim foi ganhando espaço no país.

Reportagem do Washington Post mostra que o Taleban enviou mensagens via WhatsApp para residentes da capital Cabul na qual apenas proclamou: "nós somos responsáveis pela segurança de Cabul".

As mensagens listavam números de telefone em vários bairros para os quais os cidadãos deveriam ligar se observassem problemas como saques ou comportamento "irresponsável" por parte de pessoas armadas.

Em entrevista à revista Vice, um porta-voz do Facebook se recusou a responder se o Taleban utilizou o app mensageiro. "Como serviço de mensagens privadas, não temos acesso ao conteúdo dos chats pessoais das pessoas; no entanto, se tomarmos conhecimento de que um indivíduo ou organização sancionada pode estar presente no WhatsApp, entramos em ação ", disse o porta-voz.

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Smog de Nova York em 1966

smog de Nova York em 1966 foi um episódio de poluição do ar durante o qual o ar da cidade de Nova York ficou com níveis prejudiciais de vários poluentes tóxicos. Smog cobriu a cidade e seus arredores de 23 a 26 de novembro, coincidindo com o fim de semana do feriado de Ação de Graças daquele ano. Foi a terceira maior poluição atmosférica na cidade de Nova York, após eventos de escala semelhante em 1953 e 1963.

Smog de Nova York em 1966
Em 25 de novembro de 1966, a primeira página do The New York Times apresentava esta imagem. Tirada na manhã anterior, a foto mostra uma vista voltada para o sul do Empire State Building.[1] Roy Popkin da EPA disse que a imagem "surrealista" fez com que Lower Manhattan parecesse uma cidade das nuvens de ficção científica.[2]
Data23 a 26 de novembro de 1966
LocalSmog agudo na cidade de Nova York; menos intenso na Região Metropolitana de Nova Iorque
Coordenadas40° 42′ 47″ N, 74° 00′ 22″ O
CausaInversão de calor na Costa Leste[3]
Baixas168 (estimativa de estudo médico de 1967)[4]

Em 23 de novembro, uma grande massa de ar estagnada sobre a Costa Leste dos Estados Unidos aprisionou os poluentes no ar da cidade. Por três dias, a cidade de Nova York foi engolfada por níveis perigosamente altos de monóxido de carbonodióxido de enxofre, fumaça e neblina. Bolsões de poluição do ar invadiram a Região Metropolitana de Nova Iorque, incluindo partes de Nova Jersey e Connecticut. Em 25 de novembro, a poluição tornou-se grave o suficiente para que os líderes regionais anunciassem um "alerta de primeiro estágio". Durante o alerta, líderes de governos locais e estaduais pediram aos residentes e à indústria que tomassem medidas voluntárias para minimizar as emissões. Autoridades de saúde aconselharam as pessoas com problemas respiratórios ou cardíacos a permanecerem em casa. A cidade fechou incineradores de lixo, exigindo um transporte massivo de lixo para aterros. Uma frente fria dispersou a poluição em 26 de novembro e o alerta terminou.

Nos meses que se seguiram, pesquisadores médicos estudaram o impacto do smog na saúde. As autoridades municipais inicialmente sustentaram que a poluição não causou nenhuma morte, mas logo ficou claro que a poluição havia sido um grande desastre ambiental com graves efeitos de saúde pública. Um estudo publicado em dezembro de 1966 estimou que 10% da população da cidade sofreu efeitos adversos à saúde, como ardência nos olhos, tosse e dificuldade respiratória. Uma análise estatística publicada em outubro de 1967 descobriu que 168 pessoas provavelmente morreram por causa da poluição.

smog catalisou uma maior consciência nacional da poluição do ar como um sério problema de saúde e questão política. O governo da cidade de Nova York atualizou as leis locais sobre o controle da poluição do ar. Impelidos pela poluição atmosférica, o presidente Lyndon B. Johnson e os membros do Congresso trabalharam para aprovar uma legislação federal regulando a poluição do ar nos Estados Unidos, culminando na Lei de Qualidade do Ar de 1967 e na Lei do Ar Limpo de 1970. A poluição atmosférica de 1966 foi um evento marcante que serviu de referência para comparação com eventos de poluição subsequentes, incluindo os efeitos na saúde da poluição dos ataques de 11 de setembro e incidentes de poluição na China.

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Saiba como os incêndios estão afetando o turismo ao ar livre nos EUA

Calor pode impactar também locais como a Disneylândia e Golden Gate, alerta cientista do clima
Concepción de León/New York Times/2021
16/08/2021 - 13:08
Destruição causada pelo chamado Incêndio Dixie, no início de agosto, na Califórnia Foto: David Odisho / AFP
Destruição causada pelo chamado Incêndio Dixie, no início de agosto, na Califórnia Foto: David Odisho / AFP

Uma das coisas que Katherine Lee adora na cidade de Moscow, no estado de Idaho, no EUA, é ter trilhas a dez minutos de casa, que ela frequenta com familiares e/ou amigos várias vezes por semana para caminhar, passear de mountain bike ou fazer reuniões andando com os colegas. Mas há semanas elas estão fechadas, para reduzir os riscos de espalhamento dos incêndios florestais que ardem na região Noroeste, banhada pelo Pacífico.

 — Já faz tempo que a mudança climática vem se mostrando lentamente, mas este ano parece que muita gente passou a perceber seus efeitos —  constata Lee, cujo trabalho como professora assistente do departamento de Economia Agrícola e Sociologia Rural da Universidade de Idaho é o estudo do uso mais sustentável dos recursos naturais.

Imagem de satélite de 13 de agosto mostra fogo avançando em Montana, nos EUA Foto: MAXAR TECHNOLOGIES / VIA REUTERS
Imagem de satélite de 13 de agosto mostra fogo avançando em Montana, nos EUA Foto: MAXAR TECHNOLOGIES / VIA REUTERS

Com o passar dos anos, os incêndios na Costa Oeste dos EUA estão se tornando maiores e mais frequentes, ameaçando a vida e o sustento das pessoas que ali vivem, e acabando com os planos de muita gente que visita a área por causa das opções de diversão ao ar livre, das paisagens de tirar o fôlego e das águas claras.

Em 22 de julho, o Sun Mountain Lodge de Methow Valley, no estado de Washington, evacuou os hóspedes por causa dos temores em relação ao fogo — mais um golpe na comunidade que depende do turismo e ainda não se recobrou dos estragos causados pela pandemia.

— Foi terrível para todos nós ver o resort, tão cheio, em franca recuperação pós-pandemia, ter de ser fechado de novo por causa dos incêndios —  lamenta Eric Christenson, diretor de vendas e marketing do hotel.

Os focos dos últimos meses afetaram também terras públicas, rios e áreas de lazer. Em julho, o Departamento de Recursos Naturais de Washington interditou praticamente toda a área que administra, incluindo áreas de conservação, florestas comunitárias, trilhas e campings. Em Montana, algumas áreas de pesca foram interditadas e a atividade foi parcialmente restrita por causa das altas temperaturas. O Incêndio Dixie, na Califórnia, é o maior do país este ano, tendo destruído mais de 175 mil hectares e acabado esta semana com a cidadezinha de Greenville, no norte do estado.

Até o Havaí está tendo problemas: um foco na Ilha Grande queimou mais de 16 mil hectares no fim de semana passado, e resultou em evacuações obrigatórias.

— Antes, isso era coisa rara, mas agora dá a impressão de acontecer ano sim, ano não. Vai chegar uma hora em que o pessoal vai começar a se mudar — diz Anne Hedges, diretora de políticas e questões legislativas do Centro de Informações Ambientais de Montana.

Floresta consumida por incêndio perto de Lakeview, no Oregon: impacto no turismo nos EUA Foto: Mathieu Lewis-Rolland / AFP
Floresta consumida por incêndio perto de Lakeview, no Oregon: impacto no turismo nos EUA Foto: Mathieu Lewis-Rolland / AFP

Um setor local importante

O lazer ao ar livre é uma parte importante da economia da Costa Oeste americana, e um dos principais atrativos para os visitantes. Segundo cálculos da associação do setor em 2018, os gastos dos turistas por ano chegaram a US$ 51 bilhões, gerando 451 mil empregos na região noroeste.

Para Kristina Dahl, cientista do clima da Califórnia que faz parte da Union of Concerned Scientists, grupo de defesa preocupado com a sustentabilidade futura, o viajante tem de começar a levar a temporada de incêndios em consideração ao fazer seus planos, da mesma forma que pensa nos furacões antes de seguir para o Caribe.

— No sul do Oregon, onde o Bootleg destruiu mais de 160 mil hectares, os impactos da mudança climática estão por toda parte, prejudicando praticamente todos os elementos da indústria do lazer, até o rafting, a canoagem e a pesca. Já é uma questão de "quando", e não "se", vai afetar gravemente um setor— afirma Erica Fleishman, diretora do Consórcio de Pesquisa dos Impactos Climáticos e professora da Universidade Estadual do Oregon.

As consequências dos incêndios deste ano variam bastante de um estado para outro da região ocidental, e os Departamentos de Turismo vêm tentando explicar isso aos possíveis visitantes, que podem desanimar com as notícias.

— Um incêndio florestal não tem impacto além de uma área limitada, e raramente causa interrupções ou cancelamentos de viagens. É o caso dos focos atuais, que estão queimando áreas naturais remotas; o governo estadual, aliás, implantou várias ferramentas para que o visitante possa monitorar a qualidade do ar antes e/ou durante a estada —  informa Allison Keeney, porta-voz da Travel Oregon.

— No Vale Walla Walla, no estado de Washington, o impacto da fumaça gerada pelos focos de incêndio no turismo é mínimo. Iisso se houver algum. De fato, houve um aumento de turistas na área de uns anos para cá porque as outras regiões vinícolas ainda se recuperam dos estragos do fogo —  explica Justin Yax, porta-voz do órgão oficial de turismo da área, referindo-se aos condados californianos de Sonoma, Napa e Santa Barbara, severamente castigados pelas chamas nos últimos anos.

Mas dois focos próximos ao Vale Methow, que também depende muito do setor turístico, forçaram a evacuação em diversas cidadezinhas. Em um encontro comunitário realizado em julho, o prefeito de Winthrop, em Washington, disse que os incêndios foram "o evento que encerrou a temporada turística".

Depois que o Sun Mountain Lodge evacuou quem estava hospedado quando ocorreu o incêndio, entrou em contato com quem fez reservas antecipadas para remanejar as datas de hospedagem e zerou a disponibilidade on-line até 31 de agosto. O hotel está temporariamente fechado.

Em Helena, capital de Montana, Maria Caputo, gerente do Lamplighter Cabin & Suites, diz que recebeu inúmeras ligações de cancelamento das reservas para este mês por causa da fumaça:

— Fui honesta com eles. Não quero que venham e acabem tendo crises respiratórias ou outro problema de saúde.

Ela conta também que quem resolveu viajar se mostrou surpreso com a situação de ter de ficar praticamente o tempo todo em locais fechados e sem poder ver as montanhas localizadas na região, pois não há visibilidade:

— Acho que o pessoal não percebeu a gravidade dos incêndios e só se tocou do volume da fumaça quando chegou aqui.

Algumas autoridades do setor contam que há visitantes que não se deixaram abalar pela situação.

— São turistas "resilientes", que simplesmente alteraram seus planos de acordo com a qualidade do ar e as condições da fumaça. Na verdade, é só uma questão de informação. É preciso lembrar o visitante de que o estado é vasto e há outros lugares que podem ser explorados —  explica Jeremy Sage, diretor do Instituto de Pesquisa de Turismo e Recreação da Universidade de Montana.

Consequências rurais e urbanas

— Os incêndios, a fumaça e as temperaturas excessivas não se limitam só às regiões naturais. O calor pode afetar locais como a Disneylândia, por exemplo, que atrai um número imenso de visitantes e pode virar um inferno de tão quente. Ou a paisagem da Ponte Golden Gate, que pode sumir quando sob a fumaça — comenta Dahl, a cientista do clima, acrescentando: — De certo modo, o público tem de mudar o conceito de "férias ao ar livre" e o que implica o tal "ar livre". As florestas densas da Califórnia, por exemplo, são resultado de décadas de combate a incêndios. Esticamos a infraestrutura urbana até o limite dos parques nacionais, o que torna detalhes como as fogueiras, essenciais na experiência do acampamento, cada vez mais perigosos.

Fleishman, no Oregon, concorda:

— Como as pessoas estão indo para áreas menos urbanas, há grandes chances de os focos serem provocados pela ação do homem, consequência da infraestrutura humana.

De acordo com Amy Snover, diretora do Grupo de Impacto Climático da Universidade de Washington, estamos trilhando um caminho que ameaça o ambiente natural:

— Temos a opção de nos desviar; afinal, nosso futuro ainda não foi definido. As pessoas têm de parar para pensar na natureza e em seus recursos, até que ponto valorizam ambos e levar a sério a proposta de protegê-los.

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