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O que deseja Lula? | Pedro Doria
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“Raramente vi um país onde a elite tem tanto desprezo pelos pobres como o Brasil”, diz Noam Chomsky
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Talibã: Significado da vitória, programa e perspectivas de governo - Lejeune Mirhan
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Talibã: Significado da vitória, programa e perspectivas de governo - Lejeune Mirhan
https://www.brasil247.com/blog/taliba-significado-da-vitoria-programa-e-perspectivas-de-governo?amp
Por Lejeune Mirhan

Ainda levará um tempo para aquilatarmos a dimensão da derrota dos Estados Unidos no Afeganistão. No entanto, a leitura de muitos novos artigos, a oitiva de muitos programas jornalísticos em várias línguas, é bastante claro que existe uma completa discordância sobre esse significado.
Basicamente, podemos dizer que temos os que batem duro no imperialismo, comemoram a sua derrota fragorosa, ao mesmo tempo que comemoram a vitória da guerrilha afegã. Uma variação deste bloco são os que ainda aguardam o Talibã apresentar seu programa pleno e a composição de seu governo, bem como as primeiras medidas.
Há um segundo campo que não bate tanto no imperialismo estadunidense e muito menos comemora a sua fragorosa derrota. Há nuances nesse campo. Alguns batem mais, outros menos, no imperialismo. O outro campo, não bate quase nada no imperialismo, preferindo gastar todas as suas energias na guerrilha afegã chamada de Talibã. Esses são os “defensores das mulheres”, apresentadas como coitadinhas e precisando de salvação e resgate mundial.
Alguns agrupamentos que se proclamam de “esquerda”, dizem que são apenas solidários com o povo afegão, mas gritam bem alto: “Abaixo os Talibãs” (sic). Para gente que raciocina assim, e para esses agrupamentos, no limite, pode-se afirmar que o imperialismo é a civilização que luta contra a barbárie dos Talibãs.
Será que a “intransigente defesa” das mulheres e dos LGBTs não seria apenas um pretexto para apoiarem o imperialismo? Essa concepção não atinge uma parcela significativa da população, especialmente as classes médias, que se radicalizam contra os Talibãs? Não tenho dúvidas que sim. Tenho polemizado – com alguns até de forma tensa – sobre a concepção identitária desses movimentos.
Não tenho dúvidas dos equívocos profundos dessa visão identitária, que coloca acima da luta de classes, da luta anti-imperialista, as questões de gênero, orientação sexual e etnia. E se qualquer governo no mundo, mesmo por mais anti-imperialista que forem, se não assumir a plataforma desses agrupamentos de pessoas identitárias, jamais poderão contar com seu apoio.
As mulheres são oprimidas na maior parte dos países. Esses agrupamentos identitários tem uma indignação completamente seletiva. Para eles pouco importa o quão oprimidas as mulheres são na Arábia Saudita, por exemplo. E temos países na península arábica e no continente africano que são ainda muitos mais oprimidas do que foram – não se sabe se continuarão sendo, mas eles não têm a menor dúvida que sim – no Afeganistão no período que o Talibã governou no passado.
Ainda algumas impressões sobre os episódios do Afeganistão
Eu nunca tive dúvidas de que o centro de nossos ataques, na verdade, exclusivamente, devem estar voltados ao imperialismo e mesmo o sistema capitalista, que é, em última instância, o criador de todos os males que geram o racismo, o patriarcalismo e a homofobia. Mas, o ataque que temos visto ao Talibã e o acobertamento das barbaridades do imperialismo, fica parecendo que os 20 anos da ocupação foram às mil maravilhas para o povo afegão – que deve ter sido morto em um número de mais de meio milhão – e particularmente as mulheres.
A revista que representa o pensamento da burguesia financeira internacional (e dos capitalistas em geral, claro), The Economist, nas suas edições de 21 e 28 de agosto, expressa grande preocupação que já vinha expressando desde a vitória do Talibã na ocupação de Cabul em 15 de agosto. O tema Afeganistão foi capa de ambas, cujos títulos das matérias principais, em uma tradução livre seria: “O desastre Biden: o que significa para o Afeganistão e a América” (ed. 21/8) e “De onde virá a próxima jihad global” (ed. 28/8).
Estas manchetes – e todo o corpo das reportagens de capa – expressa a imensa preocupação com a fragorosa derrota imperialista – que eles reconhecem. Mas mais do que isso, chamam a saída dos EUA do Afeganistão de “fuga”, o que está correto.
Eles estão apavorados de como e em que medida a revolução afegã poderá incentivar lutadores do mundo inteiro para que façam o mesmo em seus países. Eles usam o termo “jihadistas”, que podemos interpretar como comunistas ou lutadores pela independência, verdadeiro. E a preocupação maior vem como exemplo de que as revoluções possam ser armadas, como ocorreu no Afeganistão, que adotou a tática da “Guerra Popular Prolongada” (2).
Aqui trata-se de mais uma opinião ideológica que política. Admitem que estão em verdadeiro pânico com essa possibilidade de novas revoluções. Que o Talibã possa vir a servir como exemplo para as lutas de massas de todos os povos oprimidos. Eles alertam (ed. De 28/8) para o crescimento dos jihadistas afirmando o “perigo nos estados pobres e instáveis onde os insurgentes já controlam parte do território”.
Não por acaso que todas as potências imperialistas, além de reconhecerem a fragorosa derrota, procuraram rapidamente se compor e conversar com o grupo insurgente que passou a ser poder (eles anunciarão provavelmente no dia 1º de setembro) a composição do novo governo. Para isso, tem conversado com Abdul Ghani Baradar, que já está no Afeganistão e tem recebido emissários de diversas potências.
Temos que encarar, de fato, a revolução afegã, mesmo sem ainda sabermos os detalhes do programa do novo governo – que mais abaixo apresentarei resumidamente – é uma inspiração para revolucionários do mundo todo. Um grande sinal que os Talibãs enviam ao mundo.
Não por acaso, o líder do Hamas, organização islâmica da resistência palestina na faixa de Gaza – Ismail Haniyeh foi o primeiro grupo insurgente a parabenizar os guerrilheiros afegãos. Por certa essa vitória fortalece esse grupo que ainda defende a derrota de Israel pelo caminho armado. Por certo também que eles saem fortalecidos na sua luta contra Israel. Baradar respondeu-lhe prontamente com a saudação: “vitória e poder como resultado da vossa resistência”.
Não temos elementos ainda para avaliar se a Irmandade Muçulmana também sai fortalecida desse processo todo, ela que sofreu praticamente um golpe com a ascensão do marechal Abdul Fatah Khalil Sissi, que praticamente os colocou na ilegalidade (3).
Se por um lado, a vitória da revolução afegã inspira esperança e fé nas verdadeiras organizações revolucionárias – mesmo as que ainda não se encontram com armas em punho – por outro lado fico pensando o que deve estar ocorrendo nas cúpulas corrompidas de governos e partidos islâmicos, principalmente na península arábica e golfo Pérsico.
Por isso que temos que ser cada vez mais dialéticos. Uma vitória dessa magnitude, perpetrada por um agrupamento guerrilheiro pobre, sofrido, mas bem treinado, contra o maior e mais poderoso exército do mundo, que são os Estados Unidos, só pode contribuir para a emancipação das mulheres e não para oprimi-las.
Não vejo clima nenhum no mundo – muito ao contrário – para que os Talibãs façam novamente o que já fizeram no passado. Pensar assim é ser idealista e metafísico, pois não leva em conta os processos de mudanças e evolução a que tudo e todos estão sujeitos nas sociedades.
Uma vitória da magnitude que os Talibãs tiveram no Afeganistão, após 20 longos anos de luta guerrilheira, não foi apenas uma vitória dos Talibãs. Não teria sido possível alcançar essa vitória sem que tivessem apoio da esmagadora maioria da população. E eles os têm, não tenho a menor dúvida sobre isso. Eles possuem forte enraizamento nas massas.
Na quinta-feira, dia 26 de agosto, a cidade de Cabul, capital do Afeganistão, tomada pelos guerrilheiros no dia 15 de agosto, sofreu um grande abalo. Uma forte explosão ocorreu próxima do aeroporto da cidade, ainda guarnecida pelos soldados dos EUA, que tem única e exclusiva missão de garantir a evasão de seus aliados, que vitimou em torno de 200 pessoas, das quais pelo menos 13 são estadunidenses.
Em seguida o grupo terrorista Estado Islâmico Khorasan – que é uma região do Afeganistão –, que é um braço do Estado Islâmico do Iraque e Síria, mais conhecido como ISIS e DAESH, assumiu o atentado logo depois. O que podemos depreender desse atentado? Mas não se diz que os Talibãs é que são terroristas? A quem interessa um atentado como esses, em plena retirada pacífica e ordeira dos afegãos que não querem ficar em seu país? (4).
Na verdade, esse atentado não é contra os EUA, mas sim contra a guerrilha afegã, organizada pelos Talibãs. Querem indispor o grupo ao mundo para afirmarem que não há segurança no Afeganistão e que aquela terra vai voltar a ser um centro do “terrorismo internacional”.
Estado Islâmico e Al Qaeda é a mesma coisa, ou seja, gente que defende a volta do Califado Islâmico no mundo. Como se fosse uma espécie de salto atrás no tempo, voltando ao século VII. O que os Talibãs defendem é a volta do emirado Islâmico, que já governou o país no século XIX e, aliás, deu três grandes surras no Império Britânico. Surra essa que foi, inclusive, citada no livro de Stálin (5).
O programa do Talibã ou a sua Carta de Princípios
Hoje eu preparei um resumo do programa de governo – ou carta de princípios e de intenções – apresentado por esse grupo que tomou o poder político no Afeganistão, chamado Talibã. Há muitas confusões sobre o grupo, algumas por ingenuidade, outras propositais.
Eu tenho enfatizado que, o grupo que tomou o poder é de guerrilheiros, camponeses, com baixa compreensão política geral, mas de elevada noção da luta independentista, da soberania nacional e anti-imperialista.
O PCO, no Brasil, grupo trotskista, com o qual eu tenho divergências intestinas, por ser marxista-leninista, a linha nacional deles, com a qual sou totalmente contrário. No entanto, a linha internacional deste pequeno agrupamento, é muito parecida com a dos comunistas. Apoiam Maduro na Venezuela, Dr. Bashar Al-asar, na Síria. Mas, agora, estão batendo duro na parcela da esquerda, defendendo que a questão mais importante são as mulheres (6).
Eu acho que as mulheres são fundamentais. Não haverá transformação no mundo sem a emancipação das mulheres, isto é básico do marxismo-leninismo, mas não pode ser a luta central. Esta, é política. E, o Talibã fez muita política nesses 20 anos.
Os jovens que tinham 25 anos quando o Talibã foi fundado no Paquistão em 1994, hoje são cinquentenários, homens maduros, com acima de 52 anos, pelo menos. E outros que nasceram naquela época e hoje estão com 25 anos, e estão com armas nas mãos, eles já nasceram sob um ordenamento geopolítico mundial completamente distinto de 1994, quando o mundo vivia a unipolaridade.
O Talibã mandou o seu número 2, que é o Abdul Ghani Baradar, que pode vir a ser o novo presidente, se reunir com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi. Ele não é um ministro comum. Ele é membro do Politiburo que, no Partido Comunista da China é um núcleo composto por 25 pessoas, que comanda o país.
Provavelmente eles discutiram que, ao assumir o poder – que já estava sendo previsto –, o Talibã deveria cuidar da fronteira chinesa com o Afeganistão. Baradar estava já há um mês em Doha negociando a transição. Os Estados Unidos sabiam e erraram fragorosamente. O setor de inteligência acreditava que depois que os soldados estadunidenses deixassem o território, o governo local resistiria depois de mais uns 90 dias.
É provável que a China prometeu reconhecer o governo, ajudar na reconstrução. O Afeganistão vai voltar a ser passagem da Nova Rota da Seda, como foi na antiguidade. Só que essas novas rotas, segundo Xi Jinping em seu livro sobre governança na China, em um de seus discursos, em 2016, ele dá as características do significado das novas rotas.
Elas vêm sendo desenvolvidas há mais de 10 anos, mas não podem passar pelo Afeganistão, que estava ocupado pelo imperialismo (7). Por certo a China tem também preocupação com a agitação e a instabilidade com o vizinho Paquistão, pois por lá as rotas da seda já vêm passado há tempos.
É por isso que tenho dado o título dos meus programas sobre a revolução afegã de “a derrota do imperialismo na Ásia Central”. Os EUA não têm mais nenhuma perspectiva de voltar a pôr um pezinho em algum território da região, que são: Afeganistão, mais cinco países muçulmanos, de um lado Paquistão, Turcomenistão, Uzbequistão e Tajiquistão e, mais uma ponta que é a China.
O G7 reuniu-se terça-feira, dia 24/8, por convocação da Inglaterra e do seu primeiro Ministro Bóris Johnson. Uma reunião que não valeu absolutamente nada, porque a pauta era o Afeganistão. Convocar os sete grandes do mundo sem chamar a Rússia e a China, não tem nenhuma eficácia. A grande questão discutida na reunião foi o pedido para que Biden prorrogue a saída das tropas que está prevista para 31 de agosto. Eles sabem que o presidente está em contato com o comando revolucionário, através de seus emissários, um deles o chefe da CIA (8).
É preciso destacar que no Afeganistão ocorreu uma revolução. Há um comando revolucionário e, o governo que eles vão instalar, tem uma característica objetivamente revolucionária, porque é um movimento pela independência e soberania nacional.
O Talibã tem apoio de 70 a 80% da população, pois ninguém resiste 25 anos ao imperialismo sem apoio do povo, porque a tática da guerra popular prolongada é apoiar-se nas próprias forças, cercar as cidades e fazer guerra de aniquilamento. Mas é uma guerra de resistência.
Na China essa guerra durou 27 anos, no Vietnã, 12 anos e, no Afeganistão, foram 20. Os guerrilheiros perderam 60 mil combatentes. Guerrilheiros camponeses, é assim que devem ser tratados. Não é exclusividade dos esquerdistas, marxistas serem revolucionários. Não devemos ter preconceitos e achar que camponeses muçulmanos também não possam ser guerrilheiros. Claro que podem e são.
Quem não se lembra de Augusto Cesar Sandino, na Nicarágua, que deu origem ao nome da Frente Sandinista de Libertação Nacional-FSLN? Ele lutou contra a ditadura somozista, sem nunca ter sido comunista. Temos também o Farabundo Martí, em El Salvador.
Mesmo Fidel Castro, em 1959, quando liderou a revolução cubana, também não era ainda membro do Partido Comunista de Cuba. Ele veio a se tornar comunista depois. Até na Irlanda, que parte dela se desmembrou da Inglaterra através de uma luta renhida, parte dela armada, e foi vencido por um grupo cristão que jamais foi de esquerda. Quem não se lembra do IRA (Irish Republic Army ou Exército Republicano Irlandês) (9).
Estamos vendo um grupo guerrilheiro, integrado por camponeses pobres, que não estão bem armados, apenas com as Kalashnikov e o A47, fuzis de repetição mais básico dos que existem. É o melhor do mundo, inventado pelo cidadão que dá nome à arma. Era do PC Russo (10).
Essa situação que temos visto no Afeganistão víamos fazia muito tempo. A imagem das pessoas em cima da embaixada dos EUA em Saigon, Vietnã, lutando para entrar num helicóptero pequeno, não tem comparação com o que está acontecendo no Afeganistão. Filas imensas para entrar nos aviões cargueiros, cujos traslados encerram-se na terça, dia 31 após quase 80 mil transportados.
A retirada do pessoal estadunidense e dos aliados, bem como os corpos diplomáticos e os colaboracionistas (o que colabora com o inimigo do seu país, o ocupante). O termo correto não é colaborador, mas colaboracionistas, que tem um conteúdo ideológico forte e claro.
O cargueiro militar C-17 é o maior do mundo (11). Há três ou quatro estacionados no aeroporto, controlado pelos militares dos EUA. Eles ainda tem cinco mil militares acampados lá, sem poder sair, garantindo a expatriação. Na espionagem, o termo correto seria Exfiltração, que se usa quando se resgata um membro de um país pelos agentes secretos. As fotos que temos visto são impressionantes. A rampa aberta na parte de trás dos aviões cargueiros e uma imensa fila de pessoas entrando.
Isto não se compara com a pequena fila em Saigon em abril de 1975. Há outra foto melhor que é de uma ponte de embarque (finger) com uma escada apinhada de pessoas querendo embarcar. Mas não havia avião para recebê-los e quando havia eles ficavam tão lotados que não podiam decolar. Víamos estes finger completamente lotados, com gente dependurada e pessoas até na parte de cima da fuselagem dos aviões. Algo inédito, que jamais se viu antes.
E, a foto mais emblemática foi a dos três que caíram, porque estavam agarrados ao trem de pouso dos cargueiros que decolou. E, houve alguns esmagados, visto que estavam agarrados ao trem de pouso e seus restos mortais foram encontrados quando o avião aterrissou.
É uma cena de desespero que não se compara ao Vietnã. Lá, chegou a ter 500 mil soldados. No Afeganistão, foram 150 mil, no máximo. Mas, há um dado interessante que a imprensa só divulga o número máximo. Mas, um soldado estadunidense que fica em um país tem um tempo máximo de permanência. Logo eles são substituídos.
Os Estados Unidos são uma máquina de guerra. Um em cada quatro estadunidense tem alguma relação com o complexo industrial militar, com a máquina de guerra: um parente que é soldado, um namorado, um amigo etc. Isto demonstra o peso da indústria da guerra nos EUA.
Quando o G7 pede ao Biden para prorrogar a saída do país, seus membros tinham esperança de que o presidente solicitasse para o Comando Revolucionário, que está em negociação com os EUA, essa prorrogação.
Biden não só não concordou, como nem tampouco os Talibãs aceitariam. Eles tem sido intransigentes nesse sentido. E está correto. E o prazo de 31 de agosto está perfeitamente possível, pois a maior parte das pessoas – calcula-se uns cem mil – já foram retiradas.
Alerto novamente: o termo correto que devemos usar não é levante popular ou revolta. Aquilo que lá ocorre é uma revolução de caráter anti-imperialista, independentista que defende a soberania nacional. Essas concepções de soberania e independência vem de um tratado ao qual falo muito nos meus cursos de geopolítica, que é o Tratado de Paz de Westphalen, de 1648.
Todos os locais por onde os Estados Unidos passaram ou ocuparam, eles deixam um rastro de devastação, miséria, estupro de mulheres. Na Síria eles não conseguiram derrubar o governo, mas destruíram o país. Dos seus 20 milhões de habitantes, cinco milhões estão deslocados. Destruíram a Líbia e mataram o seu presidente. Dos países africanos era o país com maior índice de desenvolvimento.
Mas, alegavam que Khadafi era ditador, para justificar a ocupação. Destruíram o Iraque por duas vezes, em 1991 e 2003 e não saíram totalmente de lá até hoje. E mataram o seu presidente Saddam Hussein. Quando eles ocuparam o país, em 2003, o renomado escritor de esquerda e jornalista paquistanês, Tariq Ali, deu uma entrevista para a Folha de São Paulo. Ele afirmou que ocupação seria de no mínimo 10 anos, e acertou.
Quando completou nove anos em 2012, Obama retirou parte das tropas e, até hoje, ainda tem uns cinco mil soldados, que agora Biden diz estar retirando. Eles não falaram que vão retirar os soldados da Síria, mas a tendência é de que retirem, pois estão desocupando o Oriente Médio.
Esta semana publiquei um novo ensaio que enviei para 11 sites e portais que publicam os meus artigos. Um deles é o Portal 247. É um ensaio 12 páginas e 18 notas de referências, explicativas. Nas notas explicativas deste trabalho publico o link onde vocês poderão lê-lo (12).
O programa e a carta de princípios do Talibã
O seu programa original apresentado em coletivas de imprensa, tem ao todo 30 pontos. Em meu ensaio intitulado Falência da política externa do governo Biden, eu apresento em torno de 20. E, neste novo ensaio, publico alguns dos principais pontos (13).
1. Todas as mulheres terão ensino até o nível universitário, sem restrição ao estudo e ao trabalho;
Se lermos este programa para uma pessoa de esquerda, sem falar que é do Talibã e ao final você perguntar se foi escrito por uma turma revolucionária de esquerda todos dirão que sim. Mas, se falar que é do Talibã a conversa muda.
2. A Burca, é a cobertura total do corpo. Eles são muçulmanos e vão exigir apenas o Hijab, que não cobre todo o corpo, é um lenço ou veu e cobre apenas o rosto. Muitas mulheres usam e deixam aparecer uma parte dos cabelos. Há um outro tipo que é o Niqab, que não deixa aparecer nada, é como aquelas vestes de freiras, deixando apenas o rosto exposto.
No judaísmo ortodoxo as mulheres raspam a cabeça e usam peruca. Isto para mostrar desprendimento e submissão total perante Deus. Dentro das casas, quando elas estão sós, com seus maridos, podem tirar a peruca. Tem uma série da Netflix, chamada Shtsel que retrata os costumes dos judeus ortodoxos em Israel.
O Alcorão diz que as mulheres devem vestir-se com discrição. A interpretação dos sábios é que as mulheres não deveriam mostrar os cabelos. Na igreja católica também se usa o véu e ninguém fala nada.
3. Asseguram que não alimentarão inimizades nem rancor com quer que seja. O que demonstra um desprendimento, mesmo tendo perdido 60 mil guerrilheiros.
4. Haverá um perdão geral. Anistia geral, ampla e irrestrita, extensiva a todas as chamadas forças armadas afegãs, com 300 mil homens, e também aos servidores públicos que trabalharam para os “governos” de ocupação.
Aliás, no meu ensaio citado, eu falo do subsolo afegão, rico em cobre, lítio, cobalto, avaliados em três trilhões de dólares, ou mais ou menos 15 trilhões de reais, equivalente a cinco anos do PIB brasileiro. Será que os EUA não extraíram nada, como fizeram com o petróleo no Iraque? Isto agora vai para as mãos dos revolucionários. É como na Venezuela, antes de Chávez, quando o petróleo era usado apenas em benefício das elites. E, quando Chaves assume o poder em dezembro de 1998, o petróleo passa a melhorar a vida da sociedade.
5. Eles deixam claro que se orgulham de serem a força libertadora do Afeganistão das forças de ocupação estrangeira.
7. Garantem a segurança das embaixadas e de todos os organismos humanitários internacionais sediados em Cabul. Avisam a todo o pessoal estrangeiro, que não precisam deixar o país e que ninguém será perseguido. Todos serão protegidos.
Em Cabul eles estão fazendo até o policiamento. Nenhuma loja, nenhum supermercado, nenhum comércio foi saqueado na capital. Os guerrilheiros Talibãs são um grupo muito preparado. Como eles tomaram a capital sem dar um tiro? É porque eles já estavam em Cabul.
Havia militantes deles em Cabul que – na linguagem da espionagem – são chamadas de células adormecidas. É aquele militante que ninguém sabe que é Talibã, mas em sua casa ele tem um fuzil A-47, Kalashnikov. No dia em que o Comando revolucionário entrou na cidade, eles foram para a rua com sua arma.
Veremos ainda por um bom tempo, imagens de algumas redes internacionais de TV, mostrando mulheres oprimidas e às vezes até chicoteadas em alguma cidade do interior. Isto aparece na mídia e entra na cabeça de pessoas do nosso campo que não tem uma formação política sólida internacionalista. Isto também, porque já há uma pré-disposição – e não sem razão –, porque eles cometeram, de fato, barbaridades, como destruir uma estátua de Buda, o que não aconteceria hoje. Quando cenas assim batem nas cabeças das pessoas, reforçam os preconceitos.
Mas, tem coisa pior ainda sendo disparadas pelos aplicativos de mensagens instantâneas, principalmente o WhatsApp. Eu mesmo recebi de quatro pessoas. Apenas uma dela, estranhando, indagou se era verdade aquele conteúdo.
Trata-se da execução de uma mulher em uma praça central. Vê-se as pessoas falando árabe, que não é a língua afegã. Fui pesquisar, pedi ajuda a amigos que falam fluentemente o árabe. Esse episódio foi em uma cidade ocupada pelo Estado Islâmico na Síria, provavelmente em 2013 e a mulher era acusada de adultério.
Assim agem os membros do EI. Os Talibãs jamais fariam uma coisa dessas. Mas, isso faz parte da chamada guerra híbrida, para reforçar a posição do imperialismo e colocar as pessoas contra os guerrilheiros, que tomaram o poder e deram um surra nos estadunidenses.
8. Um governo islâmico inclusivo será instalado. Tem que ser um governo forte. O Talibã quando governou por cinco anos (1996-2001), ano que os EUA chegaram. O Talibã à época proibiu o cultivo da papoula. De 2001 em diante o cultivo voltou. Alguém ganhou milhões de dólares com a continuação do cultivo.
Quem ganhou foi um grupo – que hoje está tentando derrubar o Talibã –, que é chamado Aliança do Norte e controla um pequeno distrito chamado Panjshir, cujo líder é o filho do seu fundador, que já morreu, e é considerado um herói nacional, colaborou com os EUA e combateu o Talibã, que é Ahmad Shah Massou (13).
As grandes redes de TVs internacionais já estão todos nesse distrito com suas equipes, fazendo imagens de guerrilheiros com suas metralhadoras e filmando esse pessoal gritando palavras de ordem contra o Talibã.
O líder dessa Aliança tem apenas 32 anos, que é o Ahmad Shah Massoud. Ele concede entrevistas para o mundo inteiro dizendo que vai derrubar o governo (que ainda sequer se formou). Acho isso uma grande bravata. Eu também acho que, em mais algum tempo, até eles irão reconhecer o governo dos Talibãs e fazer uma composição, sob pena de serem esmagados.
9. Haverá ampla liberdade de imprensa. Todos os dias eles têm dado coletivas de imprensa. Vejam o caso da jornalista da CNN Internacional chamada Clarissa Ward. Ela sempre fez matérias com roupas ocidentais. Quando os guerrilheiros tomaram a capital no dia 15, ela, em sinal de respeito colocou um veu, cobrindo apenas a sua cabeça.
10. Não vai haver perseguição aos tradutores, que eram mais ou menos 20 mil, que falam vários idiomas, atendendo às várias tropas de ocupação, que vieram de diferentes países. Eles estão com medo e querem sair do país, enquanto o Talibã pede para que fiquem.
11. Comprometem-se a garantir que seu território não será utilizado para ataques a outros países e que nenhum grupo terrorista será tolerado em território afegão.
Acho que os Estados Unidos, que estão apoiando a Aliança do Norte, chegarão a um momento em que vão reconhecer os Talibãs e seu governo, porque se não o fizerem, ficarão isolados do mundo inteiro. É preferível reconhecer e depois impor sanções e tentar controlar – que é típico de sua política –, do que não reconhecer.
12. O Talibã busca reconhecimento internacional. Eles amadureceram muito na política e na diplomacia. Eles fazem política internacional e estão em movimento pelo seu reconhecimento. Eles não querem ir para um gueto.
Quando eles governaram entre 1996 e 2001, apenas três países os reconheceram: Paquistão, que ajudou na criação do Talibã, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que hoje classificam o Talibã como grupo terrorista.
Há vários casos no mundo, o IRA na Irlanda, o CNA na África do Sul, cujo mais importante é o Partido Comunista Sul Africano, que tinha um braço armado na época do Apartheid, chamado Umkhonto we Sizwe (14), que em linguagem Zulu significa A lança da nação. O ETA (Euskadi Ta Askatasuna) (15), na Espanha. Hoje eles se desarmaram, transformando-se em partido político. Da mesma forma as FARC colombianas, que se desarmaram também. Há vários exemplos no mundo, partidos com braços armados e grupos que viraram partidos e se desarmaram.
13. Os Talibãs não foram movidos pelo espírito da vingança, mas não tiveram escolha. Naquela circunstância de guerra e agora são outros tempos e a abordagem será diferente. O que demonstra maturidade.
14. Prometem que o Afeganistão será transformado visando a melhora de vida do povo, a partir do desenvolvimento nacional.
15. Receberá com maior satisfação, a ajuda de países amigos. Eles mantém boa relação com o Paquistão, com a Rússia e a China. Eles ainda não mencionam diretamente o Irã. Mas o país já os recebeu três vezes em Teerã, alguns meses atrás.
16. Garantem fazer um governo amplo, aberto ao povo e que incluirá representantes de diversos setores.
17. Do ponto de vista do Talibã, a guerra acabou. Querem que os dias de guerra fiquem no passado. O Afeganistão não é mais um campo de batalha entre afegãos e potências estrangeiras.
Algumas observações gerais
Nesta conclusão, quero reforçar o que venho dizendo desde a minha primeira participação em um programa de TV por streaming quando comentei sobre a tomada de Cabul em 15 de agosto passado: temos que encarar o Talibã como um grupo guerrilheiro que luta pela independência do seu país. Eles jamais podem ser comparados com grupos terroristas como parte da esquerda vem falando. Tampouco que foram criados pela CIA.
A vitória militar e política que eles tiveram contra o maior exército e império que a Terra já teve, deve ser amplamente comemorada por todos os que lutam e defendem a soberania nacional de seus países. Tal qual disse a revista The Economist – o exemplo que eles deram no Afeganistão pode inspirar – e o fará claramente – todos os lutadores em todos os países, que vivem sob opressão.
De nossa parte, não nos cabe apoiar ou fazer oposição a esse grupo. Cabe ao povo do Afeganistão essa decisão. No entanto, como estudiosos da política internacional, devemos sim ter uma opinião sobre o grupo. E o faremos em breve. O momento agora, de nossa parte, é de cautela e de observação de suas primeiras medidas.
Temos que acompanhar para ver as primeiras medidas que eles tomarão e ver se aplicarão o programa e a carta de princípios que esboçamos um resumo acima. Em especial, temos que monitorar as suas decisões para com as mulheres, que é, digamos, o seu calcanhar de Aquiles, pois cometeram muitos erros no passado, ainda muito presente na mente das pessoas.
O que não temos que ter dúvidas é quanto à comemoração que temos que fazer, em função da maior derrota sofrida pelo imperialismo estadunidense desde a sua fuga de Saigon, em abril de 1975, retratada pela emblemática foto tirada no teto da embaixada dos EUA.
Notas
1) O link onde diversos artigos da revista mencionada pode ser acessado aqui: <https://econ.st/3DxBsX1>;
2) O significado histórico e teórico sobre a GPP pode ser lido neste link: <https://bit.ly/3diZGJA>;
3) A história mais completa da Irmandade Muçulmana pode ser lida neste link: <https://bit.ly/2TGkkfo>;
4) O significado esse Estado Islâmico no Afeganistão pode ser lido neste link: <https://bit.ly/3sZ5H4f>;
5) Veja em Joseph Stálin: Sobre os Fundamentos do Leninismo. VI - A Questão Nacional, Editora Parceria A. M. Pereira, Portugal, 1974, Lisboa, 154 páginas;
6) Em que pese nossas divergências com o PCO no plano nacional, em questões internacionais temos muita identidade. O trecho do programa mencionado – a partir do minuto 32 – pode ser assistido neste endereço: <https://bit.ly/2WGX0Qm>;
7) O livro de Xi Jinping citado foi publicado no Brasil em dois volumes pela editora Contraponto, e tem o titulo A governança da China, com 566 páginas o volume I e 696 páginas o volume II. A citação mencionada pelo presidente da China sobre o programa Belt and Road (Cinturão e Estrada) está resumido nas páginas 618 até a página 621, no artigo intitulado A iniciativa Cinturão e Rota beneficia o ovo.
8) Veja no link a seguir os detalhes da reunião do chefe da CIA com os Talibãs: <https://glo.bo/3yyxUQx>;
9) Veja neste link <https://bit.ly/3sYUh0p> toda a história do Exército Republicano Irlandês;
10) A história do famoso rifle (ou fuzil) de assalto, que vendeu mais de cem milhões de unidades desde 1966 pode ser lida aqui neste link: <https://bit.ly/2WBFfl4>;
11) A história mais completa sobre esse que é o maior cargueiro militar do mundo pode ser lida neste link: <https://bit.ly/3kzhxOZ>;
12) O meu ensaio anterior citado neste trabalho pode ser lido no endereço: <https://bit.ly/3BkV3rL>;
13) A história completa do grupo denominado de Aliança do Norte no Afeganistão pode ser lido neste link: <https://bit.ly/3jcapbN>;
14) Veja neste link <https://bit.ly/3gNqkf0> a história do grupo que foi o braço armado do CNA na África do Sul, comandado por Mandela;
15) Para conhecer mais sobre a trajetória da guerrilha do País Basco, acesse este link: <https://bit.ly/3t0m2G0>.
* Sociólogo, professor universitário (aposentado) de Sociologia e Ciência Política, escritor e autor de 17 livros (duas reedições ampliadas), é também pesquisador e ensaísta. Atualmente exerce a função de analista internacional, sendo comentarista da TV dos Trabalhadores, da TV 247, da TV DCM, do Iaras e Pagus, entre outros canais, todos por streaming no YouTube. Publica artigos e ensaios nos portais Vermelho, Grabois, Brasil 247, DCM, Outro lado da notícia, Vozes Livres, Oriente Mídia e Vai Ali. Todos os livros do Professor Lejeune podem ser adquiridos na Editora Apparte (www.apparteditora.com.br). Leia os artigos do Prof. Lejeune em seu site www.lejeune.com.br. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br e Zap é +5519981693145. Youtube: https://www.youtube.com/c/CanaldaGeopolítica; Facebook: https://www.facebook.com/ApparteLivrariaEditora; Facebook: https://www.facebook.com/professorlejeunemirhan/?ref=pages_you_manage; Twitter: https://twitter.com/lejeunemirhan?s=11; Instagram: https://instagram.com/lejeunemirhan?utm_medium=copy_link.
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Skaf continua recolhendo apoios para o manifesto 'A praça dos Três Poderes' | Lauro Jardim - O Globo

Apesar do adiamento da publicação prevista para esta semana e das dúvidas sobre se afinal algo se tornará público de forma oficial, Paulo Skaf aparenta continuar trabalhando para que o manifesto "A praça dos Três Poderes" se torne uma realidade. Ou seja, vire um anúncio nas páginas de jornais.
Skaf mandou ontem um e-mail às entidades que apoiam o manifesto, mesmo depois de todo o barulho criado pela ameaça da Caixa e do Banco do Brasil se desligarem da Febraban se o documento for publicado.
Nele, informou que "dezenas de outras entidades também manifestaram interesse em participar. Em função desse cenário, informamos que estendemos o prazo para novas adesões, que poderão ser feitas ao longo desta semana".
Agora, portanto, sexta-feira é o prazo final para a adesão. Quanto à publicação, o e-mail não crava qualquer data. E é aí que mora a dúvida crucial: o manifesto será mesmo publicado?
Apesar do texto quase aguado do manifesto, um documento que foi várias vezes suavizado, as relações de Skaf com o governo Bolsonaro levantam todo tipo de dúvida sobre a vontade real dele de levar isso adiante.
De qualquer forma, repita-se, oficialmente continua tudo de pé — e o e-mail de ontem sustenta a afirmação.
Pedro Guimarães, o presidente da Caixa, repetiu ontem a interlocutores que, se o manifesto sair com a assinatura da Febraban, enviará à entidade o seu comunicado de desligamento no mesmo dia.
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Marco temporal vem a calhar para governo que vê índios como estorvo | Vera Magalhães - O Globo

Não começou no governo Jair Bolsonaro a discussão a respeito da adoção da tese do marco temporal como vinculante para a demarcação de terras indígenas, decisão fundamental para o futuro do Brasil que, de tão intrincada, o Supremo Tribunal Federal pode de novo adiar nesta quarta-feira.
Mas foi neste governo que esse tema virou mais uma daquelas bandeiras que o presidente brande para se contrapor de forma sempre brutal a qualquer direito de minorias com que não tem qualquer empatia nem qualquer compromisso como governante.
O marco temporal virou um passaporte para Bolsonaro impulsionar uma política de subjugar os povos indígenas e lhes tirar direitos, e é essa a dimensão que o julgamento do STF adquiriu, com a maior mobilização pela vida já organizada em Brasília por representantes de várias etnias.
Foi ainda no julgamento da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, concluída em 2009, que a tese do marco temporal ganhou corpo, incluída entre 19 condicionantes apresentadas pelo ministro Carlos Alberto Menezes Direito ao voto histórico de Carlos Ayres Britto que reconhecia a demarcação contínua da área no Estado de Roraima.
Um parecer da Advocacia-Geral da União, no governo Michel Temer, vinculou toda e qualquer demarcação de terra indígena àquelas condicionantes.
Em resumo, a tese propugna que o direito às terras indígenas assegurado pela Constituição teria a própria promulgação da Carta como marco. Ou seja: para ter assegurado seu direito inalienável às terras, os índios teriam de comprovar estar nelas antes de 1988.
Os defensores dos povos indígenas argumentam que a relação desses povos originários com seu território vai muito além dessa definição arbitrária de tempo. Trata-se de uma “relação cosmológica, antropológica”, como sustentou Samara Pataxó, coordenadora jurídica da Articulação dos Povos Indígenas em recente entrevista à jornalista Renata Lo Prete.
Mais: sustentam que, ao tornar obrigatória a tese do marco temporal, o Supremo ensejará uma extrema judicialização de reservas já demarcadas e a paralisação de novas demarcações (desejo confesso, sempre repetido por Bolsonaro), além de potencializar os conflitos violentos em áreas em disputa.
O voto do relator do julgamento, Edson Fachin, reverte a decisão de 2009 e a jurisprudência, que tem validado o marco temporal como critério.
No mesmo sentido, de amplo reconhecimento ao direito incondicional dos povos originários às suas terras, vai o texto do artigo 231 da Constituição. Ali não se fala que aqueles direitos valem apenas para quem já está nas terras. Da mesma forma, várias das condicionantes de Menezes Direito abraçadas pelo parecer da AGU não resistem a ser cotejadas com o texto da Constituição.
Uma pena que, na prorrogação de um julgamento histórico como o de Raposa Serra do Sol, os ministros tenham concordado com um adendo que acabou por relativizar aquilo que eles mesmos reconheceram com tanta altivez.
Ao celebrar a vitória da demarcação contínua daquele território (e não em ilhas, como era a tese da ocasião para tentar retirar direitos dos índios), o então ministro celebrou que a Corte estivesse dando “o mais sonoro e rotundo não ao etnocídio”. De fato. Mas, ao aquiescer com tantas e tão amplas condicionantes, aquela formação do STF nos trouxe até este novo impasse.
O provável adiamento não retira a polêmica da sala, nem fará com que os indígenas se desmobilizem. Cabe ao STF analisar o caso no contexto de tantas e tão graves ameaças ao direito à existência dessas etnias e de minorias em geral no Brasil. Uma tecnicalidade não pode servir de aval para que se cometam novas e possivelmente cabais violências contra os índios no Brasil, que este governo enxerga como estorvos ao desenvolvimento, a ser removidos.
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Seca derruba agricultura, PIB fica negativo e decepciona | Míriam Leitão - O Globo
Por Míriam Leitão

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Economia parou no segundo trimestre. E, agora, o que esperar até o fim do ano?

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RIO — Frustrando a previsão da maior parte dos analistas, a economia brasileira parou no segundo trimestre. O Produto Interno Bruto (conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) recuou 0,1% entre abril e junho, informou nesta quarta-feira o IBGE - as estimativas eram de uma ligeira alta, de 0,2%.
E o consumo das famílias, principal motor do PIB, ficou estagnado, após três trimestres seguidos de alta e mesmo em meio à reabertura da economia com o avanço da vacinação. A alta da inflação e dos juros e o desemprego ainda elevado explicam esse freio no consumo, que está num patamar 3% abaixo de antes da pandemia.
Ainda assim, a economia acumula crescimento de 6,4% no primeiro semestre. Mas, e agora, como será o crescimento daqui para a frente?
Economistas preveem uma expansão mais acelerada do PIB no segundo semestre, com a vacinação ganhando tração no país. E também graças ao bom momento do cenário internacional, com a alta das commodities ajudando a economia brasileira.
Mas a crise institucional, o desequilíbrio nas contas públicas, a alta ainda maior da inflação e o temor de um racionamento de energia são os riscos no horizonte.
Após a divulgação do IBGE, alguns economistas já começaram a refazer contas. O Goldman Sachs, que previa alta de 5,4% do PIB este ano, agora estima só 4,9%.
Para 2022, alguns analistas já preveem alta de apenas 1,5%.
Veja, abaixo, os principais fatores a influenciar o crescimento brasileiro nos próximos meses.
Os fatores a favor do crescimento

Reabertura da economia
Os serviços já mostraram reação no primeiro semestre. Pelos dados do PIB, cresceram 4,7%. O setor tem forte peso na economia brasileira, respondendo por mais de 70% do PIB.
E a tendência é que a vacinação permita a abertura mais disseminada do comércio e serviços voltados às famílias, como restaurantes, shoppings, academias, cinemas, mesmo que a variante Delta ainda imponha distanciamento social e se evitem aglomerações.
Ciclo de commodities
Como nos anos 2000, a economia cresceu também movida ao aumento dos preços das commodities, agrícolas e metálicas, principais produtos de exportação brasileiros. Apesar de a seca ter derrubado a agropecuária no segundo trimestre, no acumulado do ano o setor ainda acumula alta de, 3,3%. E é um dos principais motores para o avanço de 7,8% nas exportações brasileiras no período.
O Brasil é um dos principais exportadores globais de soja, carne e minério de ferro. No segundo trimestre, a produção de soja cresceu 9,8% em relação ao mesmo período do ano passado. A indústria extrativa teve avanço de 7%, puxada pelo minério de ferro.

Construção civil
Os juros baixos, mesmo com a alta recente da Taxa Selic, de 2% para 5,25% ao ano, ajudaram a dar um impulso no setor imobiliário, puxando a construção civil residencial.
O setor voltou a contratar no segundo trimestre, quando, segundo dados do PIB, a construção civil avançou 13,1% em relação ao mesmo período do ano passado.

Tecnologia
No setor de serviços, a tecnologia avança e continua a puxar a economia. No segundo trimestre, enquanto o PIB teve contração de 0,1% em relação aos três primeiros meses do ano, o setor de informação e comunicação avançou 5,6%, na maior alta entre os diferentes segmentos da economia.
A perspectiva de uma maior digitalização dos serviços após o leilão do 5G no Brasil deve fazer o setor continuar em franca expansão nos proximos meses.
Os fatores contra o crescimento

Instabilidade política
No último mês, a instabilidade política, com o presidente Jair Bolsonaro pedindo o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, o que foi arquivado pelo Senado, aumentou sensivelmente.
Essa instabilidade contaminou os indicadores financeiros, o dólar subiu e chegou a R$ 5,42, apesar de ter ficado mais barato no fim do mês passado, fechando em R$ 5,17, numa melhora puxada pelo cenário externo.
Outro sinal de descompasso é o juro do título da dívida pública de 2026, que está perto de 10%. Com o mau humor nos mercados, a Bolsa de Valores fechou em queda pelo segundo mês seguido em agosto.
A antecipação da campanha eleitoral, com anúncio de parcelamento de dívidas da União determinadas pela Justiça, os precatórios, para caber o novo programa social que será vitrine do governo Bolsonaro em ano eleitoral, trouxe temor que a situação fiscal se deteriore.

Crise hídrica
Nesta terça-feira, o Itaú dobrou a possibilidade de haver racionamento. Acredita que há risco de 10% de ocorrer redução imposta de energia, com as famílias e empresas tendo que reduzir de forma compulsória o consumo de energia.
Essa situação afeta diretamente o PIB: as famílias consomem menos e as empresas produzem menos.
Nas contas do banco, cada 1 ponto percentual de queda no consumo, o PIB recua 0,2 ponto percentual. Considerando que os efeitos podem ser mais fortes em 2022, o PIB poderia ficar muito perto de 1%. De 2% não passa, pelo menos, é o que calcula a média dos analistas de mercado e bancos.

Variante Delta
A variante Delta esfriou a recuperação global. Os países em plena abertura foram obrigados a fechar as portas novamente, com uma versão do vírus muito mais contagiosa. A expectativa de crescimento global pode cair de 6% para 5,5%, o que afeta o Brasil.
China, Estados Unidos estão voltando a se fechar, por causa da variante. Em meados de agosto, o país asiático fechou o porto por causa da Covid-19 e causou engarrafamentos de centenas de navios.
Inflação
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) já acumulou 9,3% em 12 meses. A taxa que serve referência para o sistema de metas de inflação se afasta perigosamente do teto da meta de 5,25%.
Há pressões inflacionárias de todos os lados. Na energia, que já subiu 20,9% este ano e vai subir mais com o reajuste da bandeira tarifária vermelha para R$ 14,20 a cada cem quilowatts-hora (kWh) consumidos, aumentando em média a conta de luz em 6,78% em setembro.
Os alimentos também estão subindo, a seca está provocando quebra de safra de produtos importantes, como feijão e arroz, além da alta da carne. O pasto seco exige mais gasto com ração.
Os preços em alta reduzem os gastos das famílias, principal motor do PIB, respondendo por mais de 60% da geração de riqueza no país. No segundo trimestre deste ano, o consumo das famílias ficou estagnado, segundo os dados do PIB do IBGE.
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Golpe contra Dilma: virada decisiva na história brasileira - Emir Sader
Por Emir Sader

Na guerra híbrida, a nova forma dos golpes da direita, o golpe contra a Dilma foi decisiva. Foi a forma de ruptura institucional da democracia, corroendo a democracia por dentro.
Da mesma forma que o golpe de 1964 foi gestado muito antes, com a fundação da Escola Superior de Guerra, no final dos anos 1940, o golpe contra Dilma tem seu antecedente mais importante alguns anos antes, com as mobilizações de 2013. Estas foram apropriadas pela direita, com sua mídia tendo um papel essencial para reverter as reivindicações iniciais, para impor a luta contra a política e contra a corrupção.
Essa desqualificação da política foi retomada nas mobilizações de 2015, na preparação do golpe de 2016. Contra a política era contra o PT, contra os governos do PT.
Ali, na ruptura da democracia, com um impeachment sem nenhuma razão legal e constitucional, tiveram início as tragédias que o Brasil vive hoje. Rota a democracia, já não era a vontade da maioria, mas a manipulação minoritária das elites, que passaram a prevalecer.
O governo Temer, ao contrário dos governos Lula e Dilma, não foi produto da votação majoritária dos brasileiros, mas de um golpe, que tirou uma presidenta reeleita pela maioria dos votos da população, para colocar no seu lugar um vice, reeleito com um programa e que colocou em prática o programa derrotado da oposição. Se faltasse algo para caracterizar que foi um golpe contra a democracia, está aí essa virada para retomar o neoliberalismo, derrotado quatro vezes em eleições democráticas.
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Exame de DNA revela que brasileiro morto em acidente de avião matou três mulheres na Flórida há duas décadas

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RIO — Uma investigação nos Estados Unidos descobriu que o brasileiro Roberto Fernandes, morto num acidente de avião em 2005, foi o responsável pela morte de três mulheres na Flórida há 20 anos. A identificação foi constatada após realização de exame de DNA, conforme explicou Gregory Tony, xerife do condado de Broward, à imprensa local nesta terça-feira, descrevendo o autor dos crimes como um serial killer em potencial, diante da possibilidade de ter feito mais vítimas.
Segundo o policial, Roberto deixou os EUA em 2001 pouco após um corpo ser encontrado em Miami. As autoridades norte-americanas queriam intimá-lo a depor, mas já era tarde demais, considerando que eles não tinham amparo legal para uma extradição com o Brasil.
— Os casos arquivados normalmente demoram meses, talvez até anos, antes de serem resolvidos — disse Tony, de acordo com a agência de notícias "Associated Press".
Em entrevista coletiva, o xerife destacou que, mesmo depois de duas décadas, "a justiça nunca expira".
Recentemente, um juiz autorizou a exumação do corpo de Roberto, que foi enterrado no Brasil. Com isso, os investigadores da Flórida conseguiram obter uma amostra de DNA após concluir que ele não havia fingido sua morte.
— Essa foi uma prova-chave — disse o detetive Zach Scott.
Em 2001, policiais encontraram uma impressão digital e colheram algumas amostras de DNA enquanto realizavam perícia na cena de um dos crimes de Roberto. Após análise nos bancos de dados, não houve qualquer correspondência. As suspeitas começaram a recair sobre ele quando houve uma troca de informações com as autoridades brasileiras.
Os crimes de Roberto na Flórida
O corpo de Kimberly Dietz-Livesey foi encontrado dentro de uma mala abandonada numa estrada em Cooper City, na Flórida, no dia 22 de junho de 2000. Ela foi a primeira vítima de Roberto Fernandes de que a polícia tem conhecimento. Havia marcas de espancamento.
Pouco depois, em 9 de agosto de 2000, foi localizado o corpo de Sia Demas, também com indicação de morte por espancamento. A vítima também estava dentro de uma bolsa, largada numa estrada perto de Dania Beach.
A terceira vítima foi encontrada cerca de um ano depois, no dia 30 de agosto de 2001. O corpo de Jessica Good tinha sido jogado na Baía de Biscayne, em Miami. Desta vez, a causa da morte foi por golpes de faca.
De acordo com informações da polícia repassadas à imprensa local, as três mulheres eram dependentes químicas e faziam da prostituição uma forma de comprar os entorpecentes.
Serial killer foi absolvido no Brasil pela morte da esposa
No Brasil, Roberto foi absolvido pela morte de sua mulher num caso em que ele alegou ter agido em legítima defesa. O deteive Zach Scott contou que a família da vítima ficou insatisfeita com o veredicto e isso pode ter motivado a ida dele para o Paraguai, quando ele morreu no acidente de avião. Houve então um translado do corpo para ser enterrado no Brasil.
Segundo as autoridades dos EUA, o criminoso trabalhou para uma empresa de turismo em Miami e também como comissário de bordo.
— Acredito que haja outros casos por aí. Não há limite para onde ele podia viajar — disse Scott.
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Aras desautoriza manifestação de subprocuradora e agora opina contra habeas corpus de Roberto Jefferson

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BRASÍLIA - O procurador-geral da República, Augusto Aras, reverteu um posicionamento jurídico adotado por uma de suas auxiliares mais próximas, a subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo, e enviou uma nova manifestação ao Supremo Tribunal Federal (STF) opinando contra pedido de habeas corpus apresentado pelo presidente nacional do PTB Roberto Jefferson.
Na última sexta-feira, Lindôra havia se manifestado favoravelmente ao habeas corpus apresentado pela defesa pedindo para que Jefferson saísse da prisão e fosse para prisão domiciliar. Esse habeas corpus não estava com o ministro Alexandre de Moraes, que ordenou a prisão, mas foi distribuído aleatoriamente e ficou sob a relatoria do ministro Edson Fachin.
Após a manifestação de Lindôra, Aras pediu a Fachin nova oportunidade para analisar os autos e apresentar um posicionamento. Nesta terça-feira, Aras apresentou um parecer dizendo que o habeas corpus não pode ser aceito pelo Supremo, por causa de um entendimento da Corte de que não é possível pedir habeas corpus contra uma decisão individual de outro ministro do Supremo.
Ao apresentar o novo parecer, Aras diz respeitar a independência funcional de Lindôra, que havia sido designada por ele para atuar na investigação de Roberto Jefferson. É a primeira vez que o procurador-geral reverte publicamente um parecer apresentado por sua equipe de auxiliares.
"Resguardado o princípio da independência funcional que norteia a atuação do Ministério Público, e em aditamento à manifestação ministerial já ofertada nos autos, cumpre destacar que a presente impetração é inadmissível", escreveu Aras.
Lindôra, que é considerada uma das principais vozes bolsonaristas no Ministério Público Federal, na semana passada apresentou denúncia contra Jefferson sob acusação de incitação a crimes e homofobia.
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Deterioração na segurança pública é mascarada por apagão de dados | Opinião - O Globo
Por Editorial

As cidades e os estados mudam, mas as cenas são as mesmas. Bandos armados invadem as ruas, espalham o terror, matam inocentes, incendeiam veículos e explodem agências bancárias como se estivessem num filme de ação — um filme em que os bandidos ganham. O último município de porte médio a passar por isso foi Araçatuba, a 521 km de São Paulo. Entre os estados onde recentemente houve crimes semelhantes estão Santa Catarina e Pará.
Depois do ataque de segunda-feira, que deixou ao menos três mortos e quatro feridos, aulas foram suspensas, e a polícia ainda procurava por bombas deixadas pelos criminosos. No Brasil sob Jair Bolsonaro, presidente que parece um garoto-propaganda de rifles e revólveres, as quadrilhas fazem do interior do país um faroeste e deixam a polícia em papel de coadjuvante.
Os dados divulgados ontem no “Atlas da violência 2021”, parceria entre Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), dão poucos motivos para otimismo. Na estatística, o número de homicídios entre 2018 e 2019 caiu 22,1%, segundo dados do sistema do Ministério da Saúde (SIM). Mas há muitas dúvidas sobre a qualidade dos números. Ao contar os homicídios registrados em boletins de ocorrência produzidos pelas Polícias Civis, chega-se à conclusão de que as mortes violentas intencionais em 2019 foram 5% superiores ao dado registrado no SIM.
Uma explicação técnica ajuda a entender o motivo provável da diferença. O número de mortes violentas em que o Estado é incapaz de identificar a motivação deu um salto, como resultado da negligência dos governos estaduais e federal: de 9.799 em 2017 para 16.648 em 2019. Essas mortes não são classificadas como homicídios, embora estime-se que 75% devessem ser enquadradas nessa categoria. A melhora no indicador é exagerada, em virtude do apagão de dados.
No caso do Rio de Janeiro, a distorção é gritante. A taxa de homicídios diminuiu 45,3% em 2019, mas as mortes violentas por causa indeterminada subiram 237%. De cada dez mortes violentas, mais de três não têm causa definida. No Rio de Janeiro e em São Paulo, a taxa de homicídios é menor que a taxa de mortes violentas sem motivo identificado. Na Bahia e no Ceará, os dados também sofreram piora, dizem os pesquisadores do Ipea e do FBSP.
Olhando para a frente, não falta motivo para preocupação. A queda de homicídios no Brasil está ligada a fatores como envelhecimento da população, calmaria nas guerras entre facções criminosas e Estatuto do Desarmamento. Esse último ponto tem sido enfraquecido pela política armamentista de Bolsonaro. Pesquisas atestam a relação de causa e efeito entre aumento na circulação de armas e homicídios. Isso deverá ser sentido nos indicadores de 2020 e 2021, anos em que a venda de armas disparou — e os assassinatos voltaram a crescer. O presidente, como sabemos, não confia em pesquisadores nem na ciência. O custo do culto à ignorância está nas vítimas em Araçatuba e noutras cidades a cada dia mais violentas.
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O vexame da Fiesp
Lembra aquele pato amarelo que ficava em frente à Fiesp durante as jornadas de manifestações contra o comissariado petista? O doutor Paulo Skaf, que ainda preside a instituição, poderia recolocá-lo na calçada da Avenida Paulista. Ou poderia pendurar seu plástico murcho na fachada.
Quem imaginou a Fiesp de Skaf pedindo qualquer coisa que desagrade ao governo, inclusive democracia, comprou um lote na Lua. O texto que ele segurou informa que o triângulo tem três ângulos.
Desde o século passado, quando o grão-senhor da “Poderosa” operava uma caixinha que em tese financiava o DOI-Codi, a Fiesp é um apêndice do poder. Como o sapo de Guimarães Rosa, não faz assim por boniteza, mas por precisão. Ela é cevada pelos recursos que o Sistema S suga das folhas de pagamento das empresas. Como São Paulo tem indústrias, chegou-se a pensar que de lá sairia algum documento, ainda que morno. A Federação do Rio de Janeiro antecipou-se à Fiesp, anunciando que não endossaria manifesto algum. Pudera, muitas federações e poucas indústrias os males do Rio são.
O vexame da Fiesp seria mais um capítulo na sua crônica de subserviência e oportunismo, mas foi um marco na história do empresariado nacional. No mesmo dia em que ela se encolheu, sete entidades do agronegócio divulgaram um manifesto em que disseram o seguinte:
— O desenvolvimento econômico e social do Brasil, para ser efetivo e sustentável, requer paz e tranquilidade, condições indispensáveis para seguir avançando na caminhada civilizatória de uma nacionalidade fraterna e solidária, que reconhece a maioria sem ignorar as minorias, que acolhe e fomenta a diversidade, que viceja no confronto respeitoso entre ideias que se antepõem, sem qualquer tipo de violência entre pessoas ou grupos. Acima de tudo, uma sociedade que não mais tolere a miséria e a desigualdade que tanto nos envergonham.
No fim do século passado, quando começou a abertura da economia brasileira, a indústria encaramujou-se no protecionismo, enquanto o setor cosmopolita da agricultura e da pecuária foi à luta, modernizando-se e tornando-se competitivo. Cresceu e hoje representa cerca de 27% do PIB nacional. A indústria encolheu e arrisca cair para a casa de um só dígito.
A agricultura e a pecuária brasileira estão contaminadas por agrotrogloditas que formam uma milícia bolsonarista e fazem passeatas de tratores. Há 30 anos, eles poderiam ser maioria, mas isso mudou. Novamente, como o sapo, por precisão.
Tome-se o exemplo de Blairo Maggi, um dos empresários de maior sucesso nesse setor. Bilionário, foi ministro da Agricultura e governador de Mato Grosso do Sul. Em 2005, a ONG Greenpeace concedeu-lhe o prêmio Motosserra de Ouro. Desde o primeiro momento dos delírios bolsonaristas, Maggi dissociou-se dos agrotrogloditas. Mostrava que as bravatas piromaníacas nenhum benefício traziam para os empresários. Há poucas semanas, quando o pitoresco Sérgio Reis falou em invadir o Senado, com o apoio do presidente de uma associação de plantadores de soja, Maggi foi rápido: “[Ele] não pode usar a associação para isso. (...) Tem o direito de ir [à manifestação de 7 de setembro], mas não pode falar em nome da entidade. Para isso, precisaria submeter o assunto a uma assembleia e conseguir o apoio da maioria”.
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Bolsonaro tem pior governo, mas não porque PT tenha sido bom, diz Villa
Ana Paula Bimbati
Do UOL, em São Paulo
31/08/2021 14h35
Atualizada em 31/08/2021 14h35
Na avaliação do historiador e colunista do UOL Marco Antonio Villa, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) faz o pior governo do Brasil. Mas não se trata de dizer, defende ele, que "o outro [do PT] era melhor".
"[A gestão Bolsonaro] é pior em relação ao que foi o governo PT, e isso é inegável. O que Bolsonaro faz é coisa criminosa", disse Villa, que é professor aposentado da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).

Villa: Aguardar para ver se o novo Bolsa não é mais um teatro de Bolsonaro
Ele é o convidado de hoje no programa "Jornalistas e Etc.", apresentado pela colunista Thaís Oyama. Você pode assistir a todos os programas do UOL no Canal UOL.
O historiador afirmou na entrevista que durante o governo do PT existiam blogs financiados pelo participado para disseminar informações. "A tragédia hoje é tão grande que a gente esquece o passado recente", disse ao relembrar de blogueiros que recebiam "salários fabulosos" do PT.
O historiador apontou ainda que Bolsonaro conseguiu escalar a máquina de notícias falsas no Brasil. "Isso já existia na Guerra de Canudos, mas não, evidentemente, nas proporções e efeitos políticos que vemos agora", explicou. Por isso, para Villa, o atual chefe do Executivo é o "maior inimigo da história da imprensa brasileira".
As recentes manifestações antidemocráticas de Bolsonaro e de seus apoiadores também foram abordadas pelo historiador. Para Villa, o presidente será "vítima do próprio golpe" e o Brasil pode viver um novo 1955. Na época, o país chegou a ter três presidentes diferentes em uma semana (Café Filho, Carlos Luz e Nereu Ramos).
O ponto final da história dele [Bolsonaro] é a cadeia. Os crimes que cometeu no exercício da Presidência e os crimes que cometeu antes de assumir o cargo, quando ele voltar a ser um cidadão comum vai ser uma avalanche de processo. Vai terminar em Bangu 8, onde encontrará grandes amigos"Marco Antonio Villa, historiador e colunista do UOL
Por outro lado, Villa também alerta para o custo desse episódio para o país. "O legado de Bolsonaro será um país com famílias destruídas, mais de 600 mil mortos [de covid-19], um país dividido, desmoralizado internacionalmente, a infraestrutura destruída", afirma.
Além disso, o historiador aponta que será necessário o Brasil entender onde errou para não ter "nunca mais um Bolsonaro como presidente da República".
Assédio judicial
O historiador citou também processos de que foi alvo nos governos do PT e, agora, de bolsonaristas. A diferença, no momento, é que defensores do atual presidente se articulam para construir o que é chamado de "assédio judicial".
"Mais de duas dúzias de ações com o mesmo perfil", afirma. Segundo Villa, militantes chegam a construir uma espécie de cartilha e abrem o processo contra ele em diferentes cidades.
Até o momento, o professor aposentado afirma que não perdeu nenhuma ação — ou, como brinca ele, "seu advogado ganhou". "Brasil é um país que que não gosta de crítica, o poder não gosta de crítica e o poder sempre teve uma relação com a imprensa de violência", diz o historiador, relembrando jornalistas que foram mortos durante o momento da independência do país.
'Com PT no poder, universidades perderam seu senso crítico'
Na avaliação de Villa, as universidades, especialmente as públicas, têm desempenhado um "papel ruim frente à crise política brasileira" e uma das justificativas dadas pelo historiador é que, durante o governo do PT, as instituições sofreram uma "instrumentalização".
"Elas perderam o seu sentido crítico. Evidentemente, no caso das federais, se ampliou recursos, o número de cursos, mas por outro lado acabou sendo, não sei se de forma consciente ou não, cooptada pelo PT", disse.
Ele afirmou não ter sido boicotado por colegas durante seus 20 anos como funcionário da UFSCar, mas disse que sua visão era vista como "estranha".
Sinto uma passividade, infelizmente eu sei que muitos vão me criticar, mas é isso. Onde estão os departamentos de ciências humanas, e são tantos, no momento mais crítico da história do Brasil republicano? Onde eles estão? Onde eles estão no embate público? Eles não estão"Marco Antonio Villa, historiador e colunista do UOL
__________* Contarato se emociona ao relatar dificuldades para adotar filho no Brasil: 'país sexista, homofóbico e preconceituoso' (vídeo)

247 - O senador Fabiano Contarato (Rede-ES) emocionou seus colegas parlamentares durante sessão da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania na quarta-feira (25), quando o colegiado analisou seis indicações de autoridades ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). O vice-presidente da comissão, senador Antonio Anastasia (PSD-MG), chegou a chorar.
Em um depoimento tocante, Contarato falou sobre o processo de adoção do seu filho Miguel ao lado do esposo, Rodrigo.
Quando o senador entrou na Justiça pedindo a dupla paternidade para seu filho, um promotor, membro do Ministério Público, portanto, alegou que uma filiação só poderia ser produto de uma mãe com um pai, e vice-versa.
Contarato levou o caso adiante e, após o processo transitado e julgado, representou o promotor no CNMP. No processo de adoção da filha, Mariana, o caso caiu com o mesmo promotor, que desta vez, contou o senador, "mudou completamente a manifestação, concordando com a dupla paternidade".
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Governo propõe salário mínimo defasado para 2022, sem aumento real: R$ 1.169

Por Wellton Máximo – Repórter da Agência Brasil
A alta da inflação nos últimos meses fez o governo elevar a previsão para o salário mínimo no próximo ano. O projeto da lei orçamentária de 2022, enviado hoje (31) ao Congresso Nacional, prevê salário mínimo de R$ 1.169, R$ 22 mais alto que o valor de R$ 1.147 aprovado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) .
A Constituição determina a manutenção do poder de compra do salário mínimo. Tradicionalmente, a equipe econômica usa o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do ano corrente para corrigir o salário mínimo do Orçamento seguinte.
Com a alta de itens básicos, como alimentos, combustíveis e energia, a previsão para o INPC em 2021 saltou de 4,3% para 6,2%. O valor do salário mínimo pode ficar ainda maior, caso a inflação supere a previsão até o fim do ano.
PIB
O projeto do Orçamento teve poucas alterações em relação às estimativas de crescimento econômico para o próximo ano na comparação com os parâmetros da LDO. A projeção de crescimento do PIB passou de 2,5% para 2,51% em 2022. Já a previsão para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como índice oficial de inflação, foi mantida em 3,5% para o próximo ano.
Outros parâmetros foram revisados. Por causa das altas recentes da Selic (juros básicos da economia), a proposta do Orçamento prevê que a taxa encerrará 2022 em 6,63% ao ano, contra projeção de 4,74% ao ano que constava na LDO.
A previsão para o dólar médio foi mantida em R$ 5,15.
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Governo anuncia nova bandeira "escassez hídrica": taxa extra na conta de luz será de R$ 14,20

247 - A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou nesta terça-feira (31) a criação de uma nova bandeira para a conta de luz, denominada bandeira "escassez hídrica".
A nova bandeira representa um aumento de 49,6% em relação à bandeira vermelha patamar 2. Com isso, a bandeira passa de R$ 9,49 por 100 kWh para R$ 14,20 por 100 kWh (R$ 4,71 a mais).
A função das bandeiras tarifárias é dividir entre os consumidores os custos mais altos para a geração de energia em tempos de condições climáticas desfavoráveis, como no período de seca. Nestes casos, são utilizadas usinas termelétricas para abastecer o país, o que gera mais despesa.
Está em vigor desde junho deste ano a bandeira vermelha patamar 2, a mais cara.
O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, fará um pronunciamento nesta terça-feira, às 20h30, em rede nacional de televisão e rádio e deve falar sobre a crise hídrica.
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Dilma: aliança da direita com um projeto neofascista inviabilizou a terceira via

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247 - A ex-presidente Dilma Rousseff resgatou nesta terça-feira (31) o processo político que desencadeou no golpe travestido de impeachment há exatos cinco anos, lhe tirando da Presidência da República, durante discurso no evento que lançou um livro sobre o tema.
“O golpe não foi cometido apenas contra mim e o meu partido, isso foi apenas o começo”, lembrou.
“Perceber também que todo golpe é um processo é fundamental”, afirmou, ressaltando ainda que o golpe contra ela foi “misógino, homofóbico, racista”.
“É a imposição da intolerância, do preconceito”.
“Mas naquele momento eu não imaginava os recursos e a ousadia dos setores que apoiariam o governo neoliberal”, completou.
O ato lançou o livro “Brasil: 5 Anos de Golpe e Destruição”, realizado pela Fundação Perseu Abramo e pelo Partido dos Trabalhadores, com presença, além de Dilma, da presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann (PR), do ex-ministro e ex-prefeito Fernando Haddad, do presidente da FPA, Aloizio Mercadante, e outras figuras importantes do PT e de movimentos sociais, como parlamentares e ex-ministros dos governos do PT, com transmissão ao vivo pelas redes sociais.
2022 e a terceira via
Ao falar do cenário para as eleições, Dilma avaliou que o projeto de “terceira via” - ou seja, nem Lula, nem Bolsonaro - é muito difícil de se viabilizar, porque a direita fez aliança com o neoliberalismo, que retirou direitos da população e provocou retrocessos, e com o neofascismo de Jair Bolsonaro.
“MDB e PSDB abriram a ‘Caixa de Pandora’ e, ao visar a nossa destruição, também se inviabilizaram.
Eles deram um tiro no pé.
Não só por causa das investigações, mas porque participaram de todos os mecanismos de perdas de direito.
Exemplo:
reforma da aposentadoria, das leis trabalhistas e processo de deterioração dos direitos sociais.
Eles deram efetivamente um tiro no pé.
Houve uma confusão na direita e na centro-direita deste país.
Por isso que - mesmo considerando que nem todos tenham participado do golpe, é muito difícil viabilizar um candidato de terceira via”, observou.
“O processo pelo qual se torna inviável a terceira via é o processo de viabilização da aliança neoliberal e neofascista.
Porque esse processo implica em limpar o terreno - e eles limparam o terreno.
Como efeito secundário de combate ao PT, atingiram a eles mesmos”, prosseguiu.
“Eles aceitaram uma posição neofascista para viabilizar um processo neoliberal.
Por isso que eles compram os votos para voltar ao poder. E eles fazem essa aliança”.
Na avaliação da ex-presidente, “estamos num processo de equilíbrio catastrófico, em que nenhum lado tem força para tirar o outro do poder”. “Bolsonaro gradualmente vai perdendo força, mas continua no poder.
Mais uma vez, o projeto conservador e neofascista, para ser neutralizado, vai depender do PT, que é o partido que tem força para estruturar a resistência a essa destruição e a essa neutralização que eles querem fazer da reação do povo a eles.
E mais uma vez eles vão ter que se conformar que é o PT que resiste e luta, o PT que continua vivo, que faz oposição firme ao neofascismo e ao neoliberalismo no Congresso”, analisou.
“Mas o que eu quero destacar é que o PT está reconstruindo e tem que reconstruir de forma mais acelerada, que é a sua histórica identidade com os movimentos populares.
Porque na correlação de forças de enfrentamento ou na correlação de forças para a vitória e depois para a governabilidade, a mudança na correlação de forças é a capacidade do povo brasileiro para se auto-organizar, é a capacidade de os movimentos sociais terem um projeto em profundidade.
Isso não significa que a luta parlamentar, mas são as lutas populares e as manifestações de rua que importam, como a do 7 de setembro”, disse ainda.
Dilma concluiu sua fala afirmando que “o reconhecimento da inocência do presidente Lula alterou a correlação de forças no Brasil, porque pela primeira vez neste período de retrocesso uma alternativa popular se colocou”. Assista:
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Reinaldo Azevedo - Esquerdas e 7 de Setembro. Não deem sangue a Bolsonaro, e o vampiro morrerá
Colunista do UOL
26/08/2021 22h25
Não acho prudente nem necessário que os manifestantes antibolsonaristas também saiam às ruas no dia 7 de Setembro. Um e outro lado podem se encontrar nos vagões de metrô, nos ônibus, nas praças. Como os seguidores da seita acham que algo de formidável e extraordinário vai acontecer na data — será a Parúsia, traduzida na volta de Jair Messias? —, tenho cá as minhas desconfianças sobre a sanidade mental e moral de parcela considerável dos fanáticos.
Não será uma disputa de ocupação do espaço público — quem fez a maior manifestação? — que vai definir os destinos do país. Até porque o bolsonarismo é hoje claramente minoritário, mas com possibilidade de botar mais gente na rua. Ao menos naquele que imaginam ser o "dia da virada".

Economia se deteriora, otimismo se vai, e o mulá só pensa no Bolsonaristão
Assim, faz sentido que se convidem os oposicionistas e favoráveis ao impeachment do presidente a que marquem um novo dia para o seu protesto. Agora, o que não faz sentido é o governador João Doria, depois de falar com a área de segurança, simplesmente proibir os protestos daqueles que se opõem a Bolsonaro.
Ainda que o argumento da (in)segurança pública seja relevante e que se tema que a Polícia Militar não possa oferecer aos manifestantes das duas correntes de opinião a proteção adequada, é claro que essa era uma questão que deveria ter sido negociada com os que organizam o protesto.
Que se faça a pergunta certa para encontrar a resposta certa, com a medida adequada. O que se quer? Evitar o confronto. Como se evita? Não havendo manifestações simultâneas, ainda que em pontos relativamente distantes da capital. Reitero: o sistema de transporte é integrado e será inevitável haver o encontro de grupos rivais.
JUSTIÇA
Como a proibição está decidida, e na hipótese de governador e líderes do ato não conversarem antes, resta àqueles que pretendem ir às ruas contra o presidente recorrer à Justiça. Se a decisão for tornada sem efeito, ainda assim é possível o caminho da temperança: POSSO, MAS NÃO DEVO! Como Paulo, o Apóstolo. Caso a Justiça mantenha a proibição, parece-me que a única coisa que faz sentido, no contexto, é acatar a decisão. Afinal, quem está armando a patuscada para atropelar os tribunais são os fascistoides, certo?
O QUE QUER BOLSONARO?
É muito importante saber o que quer Bolsonaro. E, convenham, ele não faz questão nenhuma de esconder. Ele quer golpe. Desde o primeiro dia de governo, anseia pela virada de mesa. Aliás, isso era vocalizado já na campanha eleitoral, certo? Lembram-se do "soldado e do cabo, sem nem um jipe", de Eduardo Bolsonaro, que bastariam para fechar o Supremo?
Há caminhos, no entanto, para isso. A pura e simples quartelada, como se sabe, é inviável. Ainda que haja, sim, golpistas nas Forças Armadas, não formam o grupo dominante. Li o discurso do comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, no Dia do Soldado, como uma declaração antigolpista. Publiquei a íntegra aqui e analisei. Ele ter lembrado que o presidente, que estava a seu lado, é o comandante máximo das Forças apenas repete a Constituição. Mas destacou que é esta que rege os militares.
É muito pouco provável — na verdade, acho improvável — que Bolsonaro consiga mover tropas sob a alegação, como faz hoje, de que o Supremo cria empecilhos a seu governo. Há, sim, parte considerável do alto oficialato que compartilha dessa leitura errada, mas isso não quer dizer que essa gente tope um golpe. Nota à margem: senhores generais, tentem listar em que o tribunal atrapalha o presidente... É mentira. Não fosse o Supremo, o governo não teria tido um "Orçamento de guerra" para enfrentar os piores tempos da Covid-19. Mais: o Brasil não é uma ilha, e não estamos em 1964. A Guerra Fria acabou.
MAS SERÁ QUE É ISSO MESMO?
Mas será que Bolsonaro anseia mesmo um golpe à moda antiga, de modo que ele seja declarado o ditador do Brasil, liderando o que se chamava antigamente de "regime gorila"? Parece-me claro que não. A estratégia é esticar a corda e investir no confronto.
Vale dizer: todas as declarações do presidente e a militância de suas milícias nas redes sociais expõem ao risco dos distúrbios de rua, do enfrentamento direto entre litigantes, do quebra-pau, do pega pra capar...E, nessa hipótese, então, ele veria razões para evocar o Artigo 142 da Constituição.
O seu anseio é governar segundo um regime de exceção. E, para tanto, haver um outro lado que resolva comprar a briga é fundamental. Isso é claríssimo.
Até porque observem que a oposição parlamentar cria pouquíssimas dificuldades para o governo, não? Bolsonaro teme, sim, a oposição na exata medida em que um líder oposicionista, Lula, o desbancaria hoje da Presidência. Mas não são os partidos adversários a lhe criar dificuldades. O voto impresso não foi aprovado, como ficou evidente, com a ajuda do centrão, certo? E que se note: os enfrentamentos parlamentares são quase irrelevantes porque o governo é pouco operoso.
Sim, ele perderia para Lula em 2022, mas seus reais inimigos hoje, segundo a guerra que inventou, estão no Supremo. Essa é a bandeira que une os fanáticos. Mas, por intermédio dela, o que se quer é garantir poderes excepcionais para o presidente.
O CONFLITO É VITAL
Todas as apostas de Bolsonaro para reverter a desvantagem eleitoral estão fazendo água -- ou melhor, falta-lhes até a água. Não houvesse outros sortilégios, a inflação e o crescimento baixo no ano que vem corroem as suas esperanças. Ele precisa de uma virada. E, dentro do seu padrão mental, a rua conflagrada é uma peça fundamental. E não creio que se deva dar isso a ele.
MENSAGEM CIFRADA
Ontem, depois que Rodrigo Pacheco mandou arquivar a denúncia contra Alexandre de Moraes, seus seguidores ensandeceram e pediram golpe já. Bolsonaro, então, editou uma fala antiga sua, dando-lhe um novo sentido e postou nas redes. O conteúdo é este:
"A gente só ganha a guerra, pessoal, se tiver informações. Se o povo estiver bem-informado, tiver ciência do que está acontecendo, a gente ganha essa guerra. Alguns querem que seja imediatista. Eu sei o que tem de fazer. Dentro das quatro linhas da Constituição. Dentro das quatro linhas da Constituição. Se o povo, cada vez mais, se inteirar, se informar, cutucar seu vizinho, começar a mostrar pra ele qual o futuro do nosso Brasil, a gente ganha essa guerra. Eu sei onde está o câncer do Brasil. Eu sei onde está o câncer do Brasil. Nós temos como ganhar essa guerra. Se esse câncer aí for curado, o corpo volta à sua normalidade. Estamos entendidos? Se alguém acha que eu tenho de ser mais explícito, lamento..."
Sim, há aí todas as fantasias do líder messiânico: desde o conhecimento de uma verdade revelada — a que só ele teve acesso — até o oferecimento da salvação. Mas Bolsonaro também está dizendo que a hora ainda não chegou — outra característica do messianismo. E não será no dia 7.
Mas e para chegar? Notem que ele fala de uma "conscientização" crescente, pessoas que iriam se agregando à luta para a batalha final. Ocorre que essa batalha final, não havendo o golpe à velha maneira, precisa da agitação e do caos. E, para tanto, ele conta com a conflagração e o enfrentamento de rua. E isso ele não pode ter.
Bolsonaro chegou à conclusão de que essa é a única vereda para que não tenha de entrega a faixa a Lula.
ENCERRO
A decisão de Doria foi autoritária, ainda que não seja imprudente. E espero mesmo que se resolva a questão de outro modo. À parte essa questão, convém que as esquerdas leiam direito o jogo: Bolsonaro está perdido. E só elas podem lhe oferecer um caminho, o que sugiro que não façam.
Enquanto isso, Lula acerta e fala com o PSB, com o MDB, com quem quiser conversar...
É preciso superar esse flagelo.
Ponto.
Com inteligência.
Sem sangue.
Não deem sangue a Bolsonaro.
E o vampiro morrerá.
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Opinião: Fred Di Giacomo - O estado natural do homem é a miséria e o capitalismo o salvou - Só que não


Fred Di Giacomo
31/08/2021 06h00
Há algumas semanas, rodou um vídeo na internet, de um jovem aluno do Mackenzie defendendo o capitalismo dizendo que o estado natural do homem é a pobreza e que o capitalismo foi nosso salvador da fome, do frio e do desamparo. Acho interessante como muitos dos que propagam tais mentiras se definam como "cristãos" e "conservadores".
Um cristão afirmar que a miséria é o estado natural do homem - "criado a imagem e semelhança de Deus" e cujo pecado original foi "pago" com o sacrifício de Cristo - poderia ser acusado de blasfêmia. Para tais cristãos, o homem foi criado imperfeito e graças ao seu esforço corrigiu o erro de Deus? Da mesma forma, os que se definem "conservadores" são, então, "progressistas" que querem "revolucionar a natureza" (tal qual a boneca Emília) e o estado ancestral das coisas com um capitalismo cada vez mais agudo que viria para "salvar o homem"?
Tais argumentos em prol das bênçãos do capitalismo não diferem muito de uma coluna recente publicado no jornal Folha de São Paulo, que alega, entre outras baboseiras, que a pobreza "começava a diminuir, durante a Revolução Industrial" e que "proteger-se do clima foi um dos principais motivos para termos poluído tanto." Em seguida o autor de tais falácias lista uma série de catástrofes inventadas pelo homem para concluir que "todas essas atividades causaram aquecimento global -mas não deixam de ser grandes conquistas humanas, que merecem ser celebradas e difundidas entre os pobres".
Eu adoro ler textos de autores ricos que usam, como argumento para a destruição do planeta ou para a escravidão dos mais pobres, o bem-estar destes mesmos pobres. Isso quando é comprovado que quem mais sofre com a emergência climática são os mais pobres e os cidadãos negros e indígenas.
Seria tão mais honesto se os defensores de um "capitalismo selvagem" afirmassem com todas as letras que posição deles é a de manter uma área VIP no universo para poucos, que terão todos os luxos do capitalismo, enquanto a maioria da população agonizará com fome, guerras e catástrofe climática. A questão é que, como ensina Grada Kilomba, essas pessoas não estão sendo honestas em seus argumentos. Elas não os afirmam por ignorância, mas por convicção. Grada defende, por exemplo, a liberdade de pessoas negras deixarem de "tentar explicar aos brancos seu racismo:
Explicar é alimentar uma ordem colonial, pois quando o sujeito negro fala o sujeito branco pode sempre responder com aquela frase desdenhosa: "Sim, mas..." Então, o sujeito negro explica mais uma vez, e novamente escuta a frase: "Sim, mas...", Grada Kilomba
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Paraíso Perdido
Sempre que algum gênio repete a frase "hoje, qualquer pessoa pobre tem mais bens de consumo que uma rainha da idade média", um banqueiro fica mais rico. Primeiro, essa comparação mira bens de consumo, não a qualidade de vida ou a quantidade de calorias ingeridas por uma pessoa. Quando os primeiros portugueses aqui chegaram "famintos e sujos", como descreve o pensador indígena Aílton Krenak, encontraram pessoas muito mais "rijas e saudáveis" do que os próprios portugueses, mesmo vivendo "do que a terra dava". Quem conta é o próprio Pero Vaz de Caminha:
Eles não lavram, nem criam. (...) Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.É importante lembrar, também, que essa comparação usa como "estado natural do homem" a vida dos europeus em um período genericamente chamado de "Idade Média", no qual a exploração do homem pelo homem já era regra na sociedade europeia e a servidão era o modelo de produção local.
Porque nunca comparamos a vida dos mais pobres de nosso país, os que vivem abaixo da linha da pobreza, com as dos indígenas que aqui habitavam antes da chegada dos portugueses? Porque sempre que vamos celebrar a "vitória do capitalismo" comparamos esse sistema com o "comunismo real" da Coréia do Norte e não com os modos de vida e produção pré-colonialistas de povos que vivam nas Américas, África e Oceania? Esses povos nunca pediram para serem "salvos" pelos europeus. Não há registro de grandes fomes entre tupinambás, kaingangs e tupiniquins antes da chegada dos brancos por aqui.
Por que até hoje os povos indígenas que vivem no Brasil se recusam a aceitar "as maravilhas" que a sociedade branca tenta lhes impor? Por que os ianomâmis imploram para serem apenas deixados em paz diante das ofertas de "todos os bens de consumo" que uma rainha da idade média sempre sonhou? Será que o capitalismo (e seu bicho-papão o "comunismo") é a única possibilidade de existência feliz e saudável neste planeta?
Bom para poucos, péssimo para muitos
Quando os defensores do capitalismo "sem regras" dizem que destruímos nosso planeta para nosso próprio bem e celebram que hoje somos 7 bilhões de pessoas na Terra, nunca consideram que no meio do caminho havia milhares de vegetais e animais que simplesmente foram extintos para que Jeff Bezos pudesse dar um rolê pelo espaço ou para que pudéssemos acessar avanços indispensáveis ao bem-viver, como uma rede social em que fingimos que vivemos felizes em uma sociedade cronicamente infeliz. Tudo isso enquanto espécies estão "desaparecendo 100 vezes mais rápido do que no passado" e, segundo reportagem da National Geographic, milhões de anos serão necessários para que os mamíferos se recuperem das extinções que vêm ocorrendo por nossa causa."
E não são apenas os animais e vegetais que são exterminados para que a roda do capitalismo siga girando, como diz Krenak:
Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser? A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos.
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Se animou e vai sair do sofá? Veja 11 dicas para se exercitar com saúde

Danielle Sanches
De VivaBem, em São Paulo
31/08/2021 04h00
A pandemia nos trouxe muitas coisas ruins, mas alguns novos hábitos adquiridos no período foram benéficos. Um levantamento da Strava, plataforma de registro de atividades físicas, revelou que houve um aumento na prática de atividades físicas em 2020 no Brasil.
A mistura de isolamento com ansiedade pela situação acabou fazendo com que muitas pessoas adaptassem suas rotinas para treinar em casa ou ao ar livre, até como válvula de escape para lidar com o estresse da situação.
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Entenda como fazer atividade física promove saúde, previne e trata doenças
Seja você um praticamente iniciante ou um atleta já experiente, algumas dicas são importantes para continuar treinando de forma saudável e em segurança. Confira algumas delas:
1. Faça uma avaliação física
Se você está parado há muito tempo ou pretende praticar uma atividade de alto impacto, e estiver dentro das suas possibilidades, vale a pena checar como estão suas articulações, a flexibilidade e o equilíbrio do corpo. O resultado disso vai ajudar na hora de escolher a melhor atividade física e ainda evitar que você se exponha ao risco de ter uma lesão.
2. Escolha bem o seu tênis
Isso vai depender do estilo de atividade física praticada. Isso porque as de maior impacto —como caminhada ou corrida— pedem um calçado que consiga absorver essa energia, protegendo músculos, ossos e tendões de fraturas. Já as de menor impacto (como andar de bicicleta) pedem calçados mais leves e confortáveis.

3. Deixe seu corpo respirar
A roupa ideal também é importante —nada pior do que estar treinando e sentir muito, muito calor; ou alguma parte do corpo não se mexer adequadamente porque a peça está "pegando". No geral, o recomendado é que as peças sejam feitas de tecidos que deixam o corpo respirar (ajudando assim a refrescar), leves e confortáveis, justamente para deixar o corpo com amplitude de movimentos.
4. Mantenha-se hidratado
Beber água durante a prática de atividade física é fundamental —a desidratação vai fazer com que a sua performance seja reduzida. O ideal é beber de forma preventiva e não esperar ficar com sede pois, nesse caso, o corpo já está dando sinais de que está sofrendo com a secura.
Recomenda-se ingerir pelo menos dois litros de água ao longo do dia, de forma fracionada. E, durante o exercício, ingerir pouco —100 ou 200 ml no máximo— por vez para não ficar com a sensação de estômago cheio enquanto se movimenta.
5. Cuidado com o sol
Se você treina durante o dia, evite os horários em que a incidência solar está mais intensa, geralmente entre 10h e 16h. Além de castigar a pele e provocar desconforto, o calor vai exigir mais suor do corpo para manter a temperatura interna estável, aumentando a perda de água e comprometendo o rendimento.
6. Alimente-se antes do treino
A maioria dos especialistas recomenda que a pessoa se alimente antes de treinar para evitar um estado hipoglicêmico —quando há um baixo nível de glicose no sangue, causando sintomas como tontura, fraqueza e sudorese. Para não pesar no estômago, o ideal é optar por porções pequenas de alimentos que liberem energia rápida, como carboidratos de fácil digestão.
No entanto, essa não é uma regra: muitas pessoas que treinam pela manhã, por exemplo, não conseguem ingerir nada antes do exercício. Se isso não afetar o rendimento e o bem-estar, não há problema em seguir assim. Só capriche na refeição após o exercício para garantir que o corpo possa se recuperar do esforço.

7. Procure um cardiologista
Especialmente se você nunca visitou um. É importante realizar um check-up cardiológico para detectar possíveis doenças cardiovasculares que podem interferir na hora da prática esportiva ou provocar problemas de saúde. Uma avaliação pode incluir exames como eletrocardiograma e até teste ergométrico, se o médico achar necessário.
8. Atenção ao escolher as atividades
A escolha pela modalidade esportiva é bastante pessoal e deve levar em conta esse gosto, pois só assim é possível manter-se fiel à prática e criar uma rotina para se exercitar.
Mas outros fatores devem ser levados em conta também. Se você está parado há muito tempo, por exemplo, começar com uma atividade de baixa intensidade e ir evoluindo aos poucos é uma boa ideia. Por outro lado, quem tem histórico de lesões precisa evitar esportes que possam provocar novos problemas, ou reforçar os treinos suplementares para criar uma estrutura muscular que suporte o exercício.
9. Alterne os estímulos
A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda a prática de atividade física pelo menos cinco vezes na semana. Mas isso não significa a mesma modalidade todos os dias. Mexer diferentes grupos musculares e partes do corpo traz ganhos para a saúde no geral, para a coordenação motora e ainda evita a sobrecarga, evitando lesões.

10. Ouça o seu corpo
Existe um mito de que o exercício físico, para ser efetivo, precisa doer. Mas isso não é verdade. Sentir dor após o primeiro dia de treino de musculação é normal. Mas a dor não pode ser incapacitante e deve amenizar após o descanso.
Se, após o segundo dia, a dor continuar, significa que o limite do corpo foi desrespeitado —e aí há grandes chances de uma lesão acontecer. Isso vale para qualquer prática: a dor muscular pode existir, mas ela não deve ser persistente. Na dúvida, procure um médico e suspenda a atividade até ser atendido.
11. Busque orientação
Se estiver dentro das possibilidades do seu orçamento, busque orientação especializada. Um profissional de educação física poderá orientar o treino de forma personalizada e ajudar a otimizar os ganhos, além de preparar um roteiro personalizado de acordo com as suas necessidades.
Exercício é remédio
Essa reportagem faz parte da campanha de VivaBem Exercício É Remédio, que quer ressaltar a importância da atividade física para a saúde e dar dicas e ideias para combater o sedentarismo.
Os conteúdos abordam a importância da atividade física para prevenir e tratar doenças, os sinais que o seu corpo dá quando você não se mexe o suficiente, dicas para tornar o exercício um hábito, além de descobrir qual mais combina com você, cuidados essenciais para começar a se movimentar, inclusive na terceira idade e relatos inspiradores de pessoas que trataram questões sérias de saúde com atividade física. Mas tem muito mais. Confira todo o conteúdo da campanha aqui.
Essa é a terceira campanha de uma série de VivaBem que tem trazido conteúdos temáticos para auxiliar no combate a problemas que muitas pessoas enfrentam no dia a dia e contribuir para que você tenha mais saúde e bem-estar.
A primeira foi Supere a Depressão Pós-Parto, realizada em março; e a segunda foi Tenha Uma Boca Saudável, em junho.
Fontes: Ana Paula Simões, ortopedista, médica do esporte, presidente da Spamde (Sociedade Paulista de Medicina Desportiva); Diego Leite de Barros, fisiologista do Hospital do Coração - HCor e diretor executivo da DLB Assessoria Esportiva; Eduardo Gama, médico do esporte e especialista em nutrição aplicada ao exercício da Care Club Ipanema, no Rio de Janeiro; Inês Remígio, cardiologista do Hospital das Clínicas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), que faz parte da Rede Ebserh; Íris Felício, preparadora física especialista em prevenção e reabilitação de lesão da da On - Centro de Evolução Corporal, em São Paulo; Nemi Sabeh Jr., ortopedista e cirurgião do núcleo de especialidades do Hospital Sírio-Libanês, coordenador médico das seleções femininas de futebol do Brasil; Raquel Penha e Silva, nutricionista de São Paulo; Roberto Moreira, preparador físico da Clínica Mais, em São Paulo.
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Reinaldo Azevedo - Esta 2ª marca o dia em que o capital disse a Bolsonaro: "Tchau, querido!"
Colunista do UOL
31/08/2021 04h03
Acabou o amor. O grande capital produtivo e o financeiro não querem mais saber de Jair Bolsonaro. Custaram a perceber o compromisso do presidente com o desastre? Acho que sim. No fundo, caíram na mesma ilusão dos generais da ativa e da reserva. Como assim?
Os donos do dinheiro imaginaram que o presidente iria mesmo terceirizar a economia para Paulo Guedes. Realizada essa operação, aí bastaria, vamos dizer, manter sob controle o ministro da Economia. E pronto. A turma oriunda da caserna também fez aposta semelhante: eles tocariam os grandes projetos de infraestrutura, retirando o que imaginavam ser as mãos sujas dos políticos da coisa pública.

Bolsonaro faz da viola um fuzil e do Brasil um cemitério também da decência
E Bolsonaro? Ah, seria um animador de auditório. Enquanto, então, a mão invisível do mercado e a mão pesada da milicada iriam "mudando o Brasil", o palhaço se encarregaria de animar o salão. Crença tola de uns: "Guedes é a âncora de confiabilidade, e, portanto, o presidente não ousará confrontá-lo". Crença tola de outros: "Somos todos militares, e, no fim das contas, vai se preservar o senso de hierarquia. O capitão é destrambelhado, mas vai se comportar, e nós sabemos o que é bom para o Brasil".
É curioso, mas, nas contas dos endinheirados e dos militares, não entraram o Congresso e o Supremo. E, claro!, a pandemia não estava no radar de ninguém. Mas a história é assim mesmo, não é? Existem os imprevistos e o imponderável. A propósito: o Estado não surgiu para responder ao previsível, mas para enfrentar o imprevisível. Diante do incerto, há de valer o que está pactuado.
INVENTOU OS INIMIGOS
Não que o Congresso tenha criado grandes dificuldades para o presidente. Essa é uma baita lorota. Tampouco as criou o Judiciário. Ao contrário: nos momentos em que o Executivo realmente precisou do concurso dos dois Poderes, eles compareceram. Ou teria sido impossível enfrentar a pandemia sem o caos social. Sim, estão aí quase 600 mil mortos. Deixadas as coisas para Bolsonaro-Guedes, lutaríamos, a esta altura, uns contra os outros com paus e pedras.
Nem a turma da grana nem os oriundos dos quartéis imaginavam que Bolsonaro iria, digamos, governar... Apostaram que ele faria o que nunca havia feito ao longo de 28 anos de mandato na Câmara: render-se a quem sabe mais do que ele e aprender com a experiência. Em nenhum momento, nestes dois anos e oito meses de mandato, deixou de ser aquele parlamentar exótico, que falava o que lhe desse na telha — e, invariavelmente, a coisa errada.
AS MILÍCIAS DIGITAIS
Todos eles foram surpreendidos pela vinculação estreita que o presidente decidiu manter com uma aguerrida militância de extrema direita que as redes sociais tiraram da toca. Vá lá: talvez o termo "militância" não seja tão preciso porque essa horda não tinha organicidade, não estava conectada, obedecendo a palavras de ordem.
Tratava-se de uma miríade de burrices reacionárias, atrasadas, truculentas, que acabaram encontrando o seu líder. Com a ajuda do tal "guru", essa gente ousou também construir até uma metafísica, um sistema de crenças. E, contra a previsão da turma da grana e da dos generais, formou-se uma milícia digital, que também se manifesta nas ruas, muito pouco interessada na eficiência, na governança, na tal "pauta liberal".
A história de que, pela primeira vez, "conservadores se juntariam a liberais" para impor uma nova dinâmica na vida econômica brasileira é só um delírio tolo de Paulo Guedes. O que ele chama "conservadores" são antediluvianos interessados em impor aos demais as suas estreitas e torpes ideias de moral e de bons costumes, transformando em dogmas inegociáveis sua tacanhice ideológica e sua visão essencialmente autoritária e truculenta de poder: o líder, munido de bons propósitos, manda, e os demais obedecem.
Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro evidenciou mais de uma vez seu desapreço pela democracia e por conquistas civilizatórias nestes mais de 30 anos de redemocratização. Não se limitava a ignorar os avanços. Com frequência, fazia a apologia dos piores dias da ditadura, o que evidenciava pretensões perigosas caso chegasse à Presidência.
E ele não desistiu delas. Passou a investir no discurso golpista logo nas primeiras manifestações. Com impressionante celeridade, começou a se desfazer de aliados incômodos que ou evidenciavam a necessidade da política — caso de Gustavo Bebianno — ou o compromisso com o profissionalismo e a racionalidade de Estado, como o general Santos Cruz.
É claro que os dois participaram da onda reacionário-conservadora que levou Bolsonaro ao poder. Mas tiveram a clareza, correta em si, de não confundir campanha eleitoral com gestão de Estado. Foram banidos do poder como traidores. O presidente deixava claro que não aceitava a tutela nem mesmo das instituições e que iria se cercar apenas dos que não estavam dispostos a contraditá-lo. Bolsonaro, saibam, não é do tipo que dá ao interlocutor a licença de dizer a verdade. Toma-a como ofensa pessoal.
O acordo com o centrão, que parece estranho nessa trajetória, só se explica pelo receio de ser impichado. Já imaginaram se, hoje, ele tivesse com o Congresso a relação que mantinha em 2019, quando seus sectários, estimulados pelo próprio, iam para as ruas pedir a cabeça do centrão? É evidente que já teria caído.
O INEXPLICÁVEL PREVISÍVEL
Sim, houve os sortilégios da pandemia, mas a realidade política poderia ser outra se, mesmo com todas as dificuldades em curso, Bolsonaro tivesse, vejam como escrevo, ADERIDO À REALIDADE. Mas não! Aquele que chegou como expressão da horda de reacionários escolheu a mentira em vez da verdade, a fantasia em vez dos fatos, o charlatanismo em vez da ciência.
Qualquer um que ouse tentar explicar por que ele fez isso não encontrará uma resposta objetiva: ele fez essas opções porque é esse o seu sistema de valores. É um homem absolutamente convencido de todas as suas ignorâncias.
O país estaria, sim, em situação difícil ainda que tivéssemos um gênio da tolerância e da sensatez no comando da política. Mas temos um ogro. A gestão — e parte cai nas costas dos militares, sim — é um desastre, e o renascimento econômico antevisto por Guedes na fusão entre ditos liberais e conservadores não aconteceu. Ao contrário: o "Faria Loser" está hoje empenhado em fazer malabarismos para ver se Bolsonaro ganha uma folga eleitoral.
HORA DE CAIR FORA
Acabou a graça.
Bolsonaro não cumpriu o que dele se esperava no arranjo:
ser apenas um palhaço retórico do antiesquerdismo -- já que, também nesse particular, ele tem muitos insultos a desferir e nenhuma ideia na cabeça.
O homem ousou governar e achou que tinha um plano.
E seu plano de governo ainda é "Brasil acima de tudo; Deus acima de todos". Desde que ele próprio e seus filhos não sejam importunados pela Polícia.
Deu tudo errado.
E não tinha como dar certo.
O dinheiro grosso desembarcou.
A tarefa de Bolsonaro era não atrapalhar os lucros.
Ocorre que ele passou a dar prejuízo.
Que seja ABANDONADO por PRAGMATISMO, ainda que NÃO por elevado SENSO de MORAL.
Mesmo assim o Brasil agradece.
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Josias de Souza - Em dois lances, Alexandre de Moraes deixa estratégia de Bolsonaro sem nexo
Colunista do UOL
31/08/2021 11h14
Alvo preferencial de Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes age para furar com a caneta os balões que Bolsonaro solta para animar os devotos que chama às ruas no feriado do Dia da Independência. Em dois lances de esferográfica, Moraes deixou a estratégia do presidente sem nexo.
Num lance, o ministro levantou nesta segunda-feira o sigilo do processo que corre no Supremo contra o bolsonarista Roberto Jefferson. Verificou-se que a Procuradoria-Geral da República, órgão pró-Bolsonaro, denunciou o aliado do presidente por incitação ao crime. Horas antes, em entrevista a uma rádio goiana, Bolsonaro citou a prisão de Jefferson, ordenada por Moraes a pedido da Polícia Federal, como suposta ameaça do ministro à liberdade de expressão.
Noutro lance, Alexandre de Moraes determinou, na última sexta-feira, o afastamento do delegado federal Felipe Leal da condução do inquérito que apura a suspeita de interferência de Bolsonaro na Polícia Federal. Alegou que o delegado avançou o sinal ao requisitar dados que extrapolariam o inquérito. Entre os exemplos, citou a requisição de informações sobre relatórios produzidos pela Abin para orientar a defesa de Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas.
Por ordem de Moraes, o inquérito foi à mesa do diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Maiurino, homem de confiança do Planalto, para a designação de um novo delegado. Dois dias antes, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, havia arquivado o pedido de impeachment de Bolsonaro contra Alexandre de Moraes. Esvaziaram-se dois motes usados para a convocação dos atos de 7 de Setembro.
A denúncia contra Jefferson é assinada pela subprocuradora-geral Lindôra Araújo, uma bolsonarista que atua no caso por delegação de Augusto Aras, o procurador-geral de estimação de Bolsonaro. E o magistrado que o presidente acusa de perseguição agiu para protegê-lo de um delegado que supostamente ultrapassa os limites de sua sandália, mirando no filho Zero Um.
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Os riscos do país, segundo Persio | Míriam Leitão - O Globo
Por Míriam Leitão

O economista Persio Arida acha que o Brasil precisa agora de uma agenda de reparação e recuperação do Estado. “Nosso Estado foi destruído e mal tratado, olha o que aconteceu com o Ibama, o que está acontecendo com a Ciência e Tecnologia.” Alerta para o risco de se deixar a inflação aumentar e chama a atenção para o avanço da pobreza. “Paulo Guedes devia andar na rua e não precisa ser em bairros pobres”. Sua grande preocupação no momento é com a defesa da democracia.
Persio Arida integrou o grupo do Plano Real. É liberal, mas nunca se viu representado pela agenda de Paulo Guedes e Jair Bolsonaro. Assinou um manifesto de economistas e empresários contra o governo, mas suas críticas a Bolsonaro e Paulo Guedes começaram antes das eleições. Eu o entrevistei na Globonews sobre os riscos econômicos e institucionais:
— Muitos, para evitar um suposto mal maior, ou seja, a volta do PT, votaram em Bolsonaro. Agora há um movimento de rejeição às ameaças de golpe, de ruptura da ordem democrática, rejeição a este processo de intimidação e erosão das instituições democráticas.
O economista acha que entre os que votaram em Bolsonaro, na elite empresarial e financeira brasileira, há arrependimento e decepção. Sobre a frustrada agenda liberal, ele também sempre alertou que era um engodo:
— Havia quem acreditasse que Bolsonaro encontrou Paulo Guedes na estrada de Damasco e se converteu. Foi um engano extraordinário. Bolsonaro votou contra o Plano Real, defendeu a tortura, disse que Fernando Henrique tinha que ser fuzilado porque privatizou a Vale, por que de repente acreditaram que ele defenderia o liberalismo? Paulo Guedes tem uma parte nisso. Ele criou uma narrativa e acreditou nela, a de que todos os problemas anteriores derivavam de ele não estar no governo. Foram dois erros: as pessoas não se perguntaram quem era Bolsonaro, nem quem era Paulo Guedes. Quiseram acreditar numa miragem. Uma miragem perigosa.
Ele critica também a surpresa demonstrada com o volume dos precatórios:
— A ideia de que o Orçamento brasileiro foi atingido por um meteoro. Que meteoro? Houve uma falha na condução do processo. Outra falha é no teto de gastos. Ele deveria levar a uma redução das despesas obrigatórias. E não houve esse esforço, apenas o congelamento de salário do funcionalismo que vai gerar uma pressão enorme de recomposição. Outro exemplo de má condução é a crise hídrica. Está tendo aquecimento global. O erro foi interpretar os vários períodos de seca como temporários. Os problemas não vieram do nada. É falta de planejamento.
Persio acha que o governo também erra drasticamente na questão ambiental:
— Estamos traindo o futuro de duas formas. Uma é que temos que fazer parte do esforço do mundo para conter o aquecimento global. Outra é do ponto de vista econômico. O que a gente poderia atrair de capitais hoje e não está atraindo é uma barbaridade. Estamos pagando um preço alto pela agenda errada na área ambiental.
Persio diz que esse capital estrangeiro que o governo afugenta com seu erro ambiental faz falta ao desenvolvimento do país:
— Estamos com crescimento baixo, com aumento da pobreza e 14 milhões de desempregados. Paulo Guedes deveria andar na rua. Andar e olhar. Não estou falando de bairros pobres, mas de bairros abastados. Você vê a pobreza aumentar. Tem um potencial de crescimento que o Brasil está perdendo por causa de uma agenda retrógrada, na contramão do mundo.
O economista que ajudou o Brasil a vencer a hiperinflação alerta que “a inflação tem que ser combatida logo”, até porque há risco de estagflação no ano que vem. Um dos efeitos será o aumento em 2022 das despesas públicas indexadas. Para Persio, a melhora dos indicadores fiscais é ilusória:
— É o velho imposto inflacionário atuando em favor das contas públicas. Um truque que funciona quando a inflação está crescendo. Isso tem um custo.
O que mais o preocupa neste momento, contudo, é o risco que a democracia brasileira corre no governo Bolsonaro:
— Nós estamos em um processo com uma tentativa de morte da democracia por erosão por dentro. É contra isso que a sociedade brasileira está reagindo, ela já viu isso acontecer.
Persio faz um paralelo entre a democracia e uma planta que temos que regar e proteger do vento forte. “É nosso bem maior.”
Com Alvaro Gribel (de São Paulo)
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Haddad: mídia conservadora ataca Lula contra regulamentação, mas tentaram tirar do ar Intercept, BBC e El País

247 - O ex-prefeito de São Paulo e ex-candidato à Presidência Fernando Haddad colocou o dedo na ferida ao comentar os ataques da Folha de S.Paulo e O Globo às declarações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a favor da modernização da regulação das mídias no Brasil nos moldes da Inglaterra.
Haddad ironizou a pretensa defesa da “liberdade de expressão” num tuíte na manhã desta terça-feira (31): “Você sabia que a Associação Nacional de Jornais, comandada por Folha e Globo, entrou no STF para tirar do ar a BBC Brasil, o The Inercept e o El País com base no art. 222 da CF?”
O artigo 222 da Constituição prevê: “A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, aos quais caberá a responsabilidade por sua administração e orientação intelectual.”
Apesar da prescrição da Constituição que Globo e Folha agora defendem, a TV Globo só existe graças a um acordo com o grupo Time-Life no início dos anos 1960: “Em junho de 1962, Marinho passou a ser apoiado com milhões de dólares, num episódio que a emissora ainda hoje sustenta que se tratou apenas de “um contrato de cooperação técnica”. A realidade, fartamente documentada por Daniel Herz, em sua obra já clássica A história secreta da Rede Globo (1995), prova o contrário. Roberto Marinho e o grupo Time-Life contraíram um vínculo institucional de tal monta que os tornou sócios, o que era vedado pela Constituição brasileira. Foi este vínculo que assegurou à Globo o impulso financeiro, técnico e administrativo para alcançar o poderio que veio a ter” - leia reportagem de Ângela Carrato na RBA.
Da mesma maneira, a Folha de S.Paulo é hoje, de fato, propriedade de uma instituição com sócios estrangeiros e ações na Bolsa de Nova York, o PagSeguro.
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Mesmo sem bola de cristal, palpites sobre o dia 7 - Bepe Damasco
Por Bepe Damasco

Antes de entrar no mérito deste artigo, dou a minha opinião sobre a presença da oposição de esquerda nas manifestações de 7 de setembro: sou favorável, mas com todos os cuidados preventivos possíveis, que incluem horários diferentes e pontos distantes geograficamente dos atos dos fascistas, além, é claro, de se evitar todo e qualquer tipo de provocação.
Isto posto, vamos a alguns pitacos sobre o 7 de setembro, especialmente focados na propalada intentona golpista que se anuncia. Correndo, evidentemente, o risco do erro, que faz parte da vida, vamos a eles:
1) Bolsonaro colocará muita gente nas ruas, notadamente em São Paulo e Brasília. A ampla convocação radicalizada nas redes sociais bolsonaristas e o fato inequívoco de as mobilizações antidemocráticas terem sido alçadas ao topo da agenda política e das preocupações nacionais em muito contribuíram para sua disseminação. Cabe lembrar que, embora francamente minoritário na sociedade, contando com algo em torno de 25% de seguidores, o contingente de seguidores cegos de Bolsonaro é mais do que suficiente para garantir sucesso de público aos protestos.
2) Bolsonaro está longe de ter força e respaldo político para perpetrar um golpe no dia 7. Não que ele não pretenda. Mas, isolado como nunca e colecionando fracassos retumbantes em seu governo, o capitão nazista não tem o apoio de segmentos da sociedade que foram decisivos para o golpe clássico de 1964 e a ruptura democrática de novo estilo de 2016. Os veículos de comunicação não apoiam a intenção totalitária de Bolsonaro, nem a forças do capital, nem o Judiciário, nem a Igreja Católica, tampouco a maioria esmagadora do meio político e da sociedade civil. E as Forças Armadas, onde Bolsonaro desfruta de forte apoio, estaria mesmo disposta a embarcar nessa aventura inconsequente? Tenho minhas dúvidas. Também no mundo globalizado em que vivemos não há o menor ambiente para a implantação de uma ditadura em um país do tamanho e da importância do Brasil.
3) Contudo, procede a preocupação quanto à integridade da sede dos poderes, em Brasília. Em que pese o cenário mais provável seja o cerco puro e simples às sedes do STF, principalmente, e do Congresso Nacional, com a exibição de faixas, cartazes e palavras de ordem raivosas pela quebra da ordem constitucional, não se pode descartar a possibilidade de tentativa de invasão por parte de integrantes das hordas de descerebrados que lá comparecerão.
4) Também faz sentido a apreensão quanto à segurança e a vulnerabilidade dos prédios públicos devido ao envolvimento das PMs nas mobilizações, como base de apoio ao golpe. Depois que o governador Dória afastou um comandante em São Paulo e vários outros governadores deram declarações enquadrando suas PMs, penso que esse perigo já foi maior. Agora, a tendência é que a adesão das polícias ao golpismo se limite ao comparecimento de praças e oficiais fora de serviço. O mesmo imagino deva ser o procedimento dos membros das Forças Armadas.
5) Mas isso não elimina a ameaça de algum nível de baderna. Não satisfeitos em participar de protestos contra o sistema democrático, o que de per si é crime, arruaceiros a serviço do caos que interessa a Bolsonaro podem recorrer a ações de terror, tais como incendiar ônibus e outros equipamentos públicos, agredir pessoas ou coisa pior. Cabe aos democratas denunciar e cobrar a atuação das forças de segurança, pagas pela sociedade para protegê-la.
6) Com as pessoas fazendo fila para recolher restos de ossos para comer, já que o arroz, o feijão, a carne e o gás de cozinha atingiram preços inacessíveis, o desemprego batendo recordes sucessivos, os biomas do país ardendo em chamas, um apagão de energia elétrica à vista, 570 mil mortos pelo coronavírus e uma CPI que a cada dia desnuda mais a picaretagem das vacinas no Ministério da Saúde, resta a um governante sem escrúpulos e sem compromisso democrático como Bolsonaro apelar para a confusão, pois ninguém mais do que ele sabe que a eleição do próximo ano está perdida.
7) Neste sentido, o dia 7 de setembro para Bolsonaro tem o nítido propósito de fazer a tese do golpe, ou da intervenção militar, ou da decretação do estado de sítio com a suspensão de algumas ou de muitas garantias constitucionais, ande algumas casas. E, de quebra, manter acessa a chama da militância antidemocrática entre os idiotas fanáticos que o apoiam.
8) O grande temor de Bolsonaro hoje é o da cadeia para ele e seus filhos. Aí se mete em um beco sem saída. Se esticar a corda demais, pode perder o mandato. Se recuar, seus seguidores o abandonam. Mas o cerco se fecha. Hoje leio que até a Fiesp, bastião do conservadorismo reacionário e endinheirado, divulgará um manifesto em defesa da democracia.
9) Como apontou o professor Gilberto Maringoni em um artigo publicado no seu perfil do facebook, Bolsonaro é mau militar e, portanto, ruim de estratégia. Ele pode estar metendo os pés pelas mãos ao dobrar a aposta no confronto com o regime democrático. E quando reconhece que seu futuro é “a cadeia, a morte ou a vitória”, quem sabe não esteja buscando uma anistia para não pagar por seus crimes, o que, na certa, não obterá.
10) Bolsonaro sairá do 7 de setembro ainda menor e mais inviável como governante do que hoje.
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Manifesto é adiado (?) porque podia magoar Bolsonaro - Denise Assis
Por Denise Assis

Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia
O Brasil é, talvez, o único país em que um grupo de instituições se reúne, monta um manifesto e depois desiste de torná-lo público porque pode “magoar” o alvo do protesto. É mais ou menos como dizer: você se importa se eu “zoá-lo” um pouquinho? Ah! Vai ficar chateado? Então deixa para outra hora...
De todas as situações “nonsense” que temos vivido - e são muitas – a de hoje supera qualquer expectativa. Primeiro, porque acordarmos cedo com a notícia de que o Paulo Skaf, (o idealizador do “pato amarelo” que todos iríamos pagar se a ex-presidente Dilma Rousseff continuasse no cargo) foi um impacto.
Como assim? Aquele senhor que por anos a fio atravessou governos de todas as cores à frente da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) agora ia mesmo ser oposição? Difícil acreditar. Bastou algumas horas para que ele voltasse ao seu “normal”, ao estágio de direita convicta, defensor ferrenho do liberalismo.
Para não fazer feio, o ainda presidente da Fiesp deu uma desculpa esfarrapada. Mandou publicar uma carta em que diz ter sido tamanho o sucesso da “iniciativa”, que precisou adiar – coincidentemente para depois do dia 7 de setembro – a publicação do manifesto. Prefiro acreditar nos seus cálculos de empresário bem-sucedido, de que sair com um documento desse teor agora colocaria mais lenha numa fogueira que já fez labaredas altas e agora está em brasas vivas, em fogo baixo. Melhor compor, tentar empurrar esse problema até 2022, tentando tirar de Guedes, o incompetente, algumas lascas mais de vantagem.
Só para refrescar a memória do distinto público, em 2013, quando surgiram os primeiros protestos contra o governo de Dilma, Skaf dava ordens para que o painel de lâmpadas led da faixada da federação reproduzisse a bandeira nacional, num sinal claro de que dava o “maior apoio” às manifestações, naquela época ainda incipientes. À medida que cresciam, Skaf se apropriou do movimento e montou um verdadeiro acampamento na frente do prédio, a fim de manter aceso não só o painel, como também os protestos, a esta altura já cooptados pelo Movimento Brasil Livre (MBL), liderado pelo jovem Kim Kataguri (PSL-SP), hoje um deputado federal.
Não é demais lembrar que no ano passado, na condição de presidente da federação, deslocou-se até Brasília com um grupo de empresários dispostos a se perfilarem ao lado do governo, mesmo com os gritos de “abaixo o STF” ainda ecoando nos ouvidos da população, palavra de ordem dita por Bolsonaro, no portão do alto comando do Exército, no final de semana anterior. Será que naquele momento não lhe soou estranho um presidente se manifestar dessa maneira contra um dos poderes que, hoje, em seu texto/ensaio ele defende, sejam harmônicos? Ou naquela época valia um “triângulo” perneta, desde que ele e o seu grupo continuassem a receber benefícios do poder?
O manifesto onde aparece um Paulo Skaf (e seu grupo) indignado, atraiu a assinatura de 200 entidades empresariais para pedir harmonia entre os Poderes da República e tem apenas cinco parágrafos. (A versão mais recente, a que a Folha teve acesso, e aqui transcrevo, circulou no sábado, 28).
De acordo com o que disse o ministro Paulo Guedes, àquele jornal, “a publicação do texto foi suspensa pela Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) – a previsão era que fosse publicado nesta terça-feira (31) – e que “alguém” da Febraban, entidade que representa os bancos, teria transformado o documento em um ataque ao governo de Jair Bolsonaro (sem partido). São mesmo uns ativistas e subversivos esses banqueiros...
Pena, a sociedade não lerá nas páginas, antes de ganhar as ruas daqui a uma semana, a defesa de Paulo Skaf da Constituição e dos poderes que um dia atropelou. (Amanhã – 31 de agosto – marca os cinco anos da queda do governo Dilma). Vai aqui a prévia do manifesto “adiado”:
A praça dos três poderes encarna a representação arquitetônica da independência e harmonia entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, essência da República. Esse espaço foi construído formando um triângulo equilátero, cujos vértices são os edifícios-sede de cada um dos poderes.
Esta disposição deixa claro que nenhum dos prédios é superior em importância, nenhum invade o limite dos outros, um não pode prescindir dos demais. Em resumo, a harmonia tem de ser a regra entre eles.
Este princípio está presente de forma clara na Constituição Federal, pilar do ordenamento jurídico do país. Diante disso, é primordial que todos os ocupantes de cargos relevantes da República sigam o que a Constituição nos impõe.
As entidades da sociedade civil que assinam este manifesto veem com grande preocupação a escalada de tensões e hostilidades entre as autoridades públicas. O momento exige de todos serenidade, diálogo, pacificação política, estabilidade institucional e, sobretudo, foco em ações e medidas urgentes e necessárias para que o Brasil supere a pandemia, volte a crescer, a gerar empregos e assim possa reduzir as carências sociais que atingem amplos segmentos da população.
Mais do que nunca, o momento exige do Legislativo, do Executivo e do Judiciário aproximação e cooperação. Que cada um atue com responsabilidade nos limites de sua competência, obedecidos os preceitos estabelecidos em nossa Carta Magna. Este é o anseio da Nação brasileira.
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Sérgio Camargo – O gado da cara preta e de alma branca - Ricardo Nêggo Tom
Por Ricardo Nêggo Tom

Uma rotina de humilhação, assédio moral e terror psicológico. É assim que 16 funcionários da Fundação Palmares, descrevem o dia a dia dentro da instituição presidida por Sérgio Camargo. O preto capitão do mato que Jair Bolsonaro fez se enxergar como branco e o designou para perseguir os seus irmãos de cor. Enquanto era exibida no “Fantástico” da Rede Globo uma matéria a respeito da sua gestão opressora a frente da fundação Zumbi dos Palmares, Camargo postava em seu perfil do Twitter que estava ouvindo as sonatas de Franz Schubert, com o mestre alemão do piano Wilhelm Kempff.
Provavelmente, dado ao seu gosto musical e à sua conduta social, ele também deve ter o “Mein Kampf” como livro de cabeceira. O que explica e justifica a sua ideologia racista e a sua defesa da supremacia branca, mesmo sendo preto. Ainda em seu perfil do Twitter, nos deparamos com frases que evidenciam o ódio racial que ele nutre pelos afrodescendentes e a sua não aceitação como tal. Para entendermos melhor o que diz Sérgio Camargo, basta pegarmos as suas palavras e atribui-las à fala de um branco. Imagine se um sujeito branco dissesse: “Se você é preto e tem orgulho do seu cabelo, além de ridículo, será sempre um fracassado a serviço do vitimismo. ” Ele não seria enq uadrado no crime de injúria racial?
A coletânea de fezes, digo, de frases que Sérgio Camargo ostenta orgulhoso em seus perfis nas redes sociais, inclui ainda coisas do tipo “o movimento negro é uma escória maldita” e “o cabelo do negro é carapinha” O mesmo já disse que pretende escrever um livro. Eu sugeriria como título: “Pensamentos da Ku Klux Klan”. Resta saber se organização racista aceitaria ter o seu nome associado à obra literária de um preto. Ainda que este tenha a alma branca e podre como os seus membros. Falando em livro, a personalidade de Sérgio Camargo pode ser definida por Frantz Fanon, no seu “Pele negra, máscaras brancas”, onde o escritor e psiquiatra aborda a questão n egra sob uma visão psicanalítica.
O atual presidente da Fundação Palmares se encontra dentro do dilema apresentado por Fanon em seu livro. O do preto que ainda não se descobriu e não se encontrou como tal. Para Frantz Fanon, a questão negra não poderia ser compreendida fora da relação negro-branco. Relação esta que Sérgio Camargo assumiu de forma controversa, se submetendo ao que o autor francês classificou como “epidermização da inferioridade”, o que fica explícito no pensamento verbalizado por Camargo, quando ele questiona os motivos para se ter orgulho da raça, usando as características étnicas dos africanos como fator depreciativo.
Num momento em que o mundo se engaja na luta antirracista, os posicionamentos de Sérgio Camargo representam um desserviço à comunidade. E não apenas à comunidade preta. A sociedade, de um modo geral, necessita de uma desconstrução de “valores” tidos como tradicionais, para progredir de fato. E o racismo figura entre essas construções sociais conservadoras. Óbvio, que não podemos desprezar o caráter vendido do ainda presidente da Fundação Palmares. A sua função dentro da instituição é estratégica e objetiva, justamente, a defesa desses valores tradicionais racistas. E nada mais cruel e covarde, do que escalar um preto para fazer um trabalho t&a tilde;o sujo contra o seu próprio grupo étnico.
Entre a maioria branca do gado bolsonarista, Camargo se destaca pelo brilho de sua cara preta, lustrada a óleo essencial para peles brancas e sensíveis ao sol da realidade racial que ele foi pago para ignorar. Os brancos que manifestam aprovação às suas opiniões, podem perfeitamente ser enquadrados no crime de racismo. Aliás, são estes racistas incubados que ajudam a municiar os ataques que o capitão do mato adorador de Schubert e Wagner promove contra os seus. Poderiam tranquilamente serem indiciados, no mínimo, por apologia ao racismo.
Eu fico pensando é na tarefa árdua que os professores de história terão no futuro, tendo que abordar em sala de aula tudo o que bolsonarismo representou para o país. Imaginem só, os pobres docentes explicando para os seus alunos que um cantor sertanejo que tinha uma prótese peniana paga com dinheiro público, arquitetou um golpe de estado junto com um grupo de caminhoneiros e com o sindicato da soja, que a fundação Palmares tinha como presidente um preto que odiava Zumbi e todos os pretos que lutavam por seus direitos e que o presidente da república era um miliciano que mandava o povo deixar de comer feijão para comprar fuzil. Nunca estivemos sob o comando de tão degredados filhos de Eva.
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Mourão banca o "civilizado", mas seu governo é bárbaro, golpista, entreguista e incompetente - Davis Sena Filho
Por Davis Sena Filho

O general Hamilton Mourão é vice-presidente da República e desprezado, literalmente, de forma humilhante pelo incendiário e celerado Jair Bolsonaro e seus filhos apopléticos, que tratam o Brasil e os trabalhadores como se fossem de quinta categoria, pois fazem da República uma republiqueta das bananas.
O milico interessado em política, mas não em guerra, sempre foi porta-voz da extrema direita militar. Participava ativamente, a partir do Clube Militar, de conspirações e ataques à ordem estabelecida pela Constituição, quando não parava de atacar Dilma Rousseff, a presidente constitucional e reeleita legitimamente pelo povo brasileiro, bem como forçou a barra contra Lula e pressionou, juntamente com o general Villas Bôas, para que o líder das esquerdas fosse injustamente encarcerado e afastado do certame eleitoral de 2018, quando liderava as pesquisas.
Esse era o método despótico e a estratégia golpista para realizar o combate político, sendo que jamais o Mourão propôs o debate político no campo das ideias, como também fez seu parceiro de chapa, Jair Bolsonaro, que fugiu dos debates como o diabo foge da cruz, sendo que depois comprou um juiz mequetrefe e criminoso, que virou ministro da Justiça e hoje está em seu país amado, os EUA, a fingir que trabalha, mas que na verdade se autoexilou para não ter que enfrentar àqueles que ele prejudicou. Marreco covarde, digamos assim...
E o ex-capitão de atos insanos e ações desditosas fez o convite para compor chapa por ser o general Mourão naquele momento da história um intrépido aventureiro, tal qual o Bolsonaro, além de surfar nas ondas do reacionarismo e do retrocesso ao perceber que, enfim, a milicada que adora mordomias e sonha eternamente em ser rica, sem, contudo, controlar os meios de produção, o que é simplesmente surreal, poderia de fato tomar o poder para si e aparelhá-lo com cerca de oito mil militares em cargos civis, como acontece hoje. Isto que é raspar a rapa do tacho ou deitar e rolar. O resto é brincadeira de amador.
Oportunistas e extremamente ambiciosos, os generais vislumbraram a oportunidade de novamente retornar ao poder central após 30 anos sem poder interferir no processo democrático e macular o estado democrático de direito. Uma verdadeira tortura para os generais brasileiros acostumados desde o Império a encher o saco da Nação e a bancar os "tutores" de um sistema complexo que esses militares não tem a mínima compreensão e entendimento, que é a multifacetada e diversificada sociedade brasileira, com suas incontáveis demandas e necessidades.
Agora, lá vem o Mourão a falar bobagens, a pensar que faz parte da classe abastada dos ricos e muito ricos por ser general da reserva e vice-presidente da República, quando a verdade é que tal general não passa de um servidor público que usou farda e prestou concurso para ser alguém na vida, como o fizeram milhões de brasileiros no decorrer das décadas.
Mourão disse a seguinte pérola sobre o empresariado brasileiro golpista, explorador e de índole escravocrata em um nonsense a perder de vista: "A Febraban, que vai mais a Fiesp aí, que estão liderando esse movimento, são daquelas que eu considero pilar da nossa civilização, são entidades da sociedade civil com representatividade e que consequentemente têm que sempre fazer valer as pessoas que foram eleitas por eles, né, o pensamento deles, as necessidades para que haja uma harmonia maior”.
O general está a falar do manifesto de autoria das duas entidades patronais publicado nos jornalões dos magnatas bilionários de imprensa deste País, e desejam que haja um equilíbrio entre os Três Poderes, quando a verdade esses deveriam fazer um mea culpa quando apoiaram um golpe de estado em 2016 e depois apostaram na prisão de Lula, porque sempre estiveram na vanguarda do retrocesso com muita concentração de renda e riqueza, além da quebra das garantias constitucionais e dos direitos conquistados pelo povo brasileiro no decorrer de 150 anos.
Quando o general golpista e de extrema direita se finge de moderado, coisa que ele não é e nunca foi, é porque este País entrou em processo de degeneração política que só irá melhorar um pouco quando essa gente que formou o consórcio de direita e golpista, a exemplo do MPF, Justiça, PF e Forças Armadas, além das Polícias Militares, voltarem para seus quadrados, exercerem suas funções constitucionais e parar de fazer política indevidamente, a afrontar o Estado de Direito e a Constituição.
General, Febraban e Fiesp não são marcos civilizatórios e muito menos podem ser considerados órgãos privados democráticos, porque nunca foram. Pelo contrário, sempre estiveram à frente de golpes de estado, financiaram as repressões da ditadura de 1964 e apoiaram sem a mínima vergonha na cara o golpe contra Dilma Rousseff e a prisão injusta de Lula, propiciada pelos canalhas formadores de quadrilha da Lava Jato.
Se o posicionamento da Febraban e da Fiesp causaram transtornos e desconfortos ao desgoverno fascista e imensamente incompetente como demonstram todos os números sociais e econômicos que esmagam o dia a dia da vida brasileira, ora bolas, que se dane! E por quê? Porque é briga da direita contra a direita e por isso o desgoverno de um presidente apelidado de Bozo retirou a Caixa e o BB das fileiras da Febraban, como se isso fosse modificar a situação de penúria humilhante pela qual passa o povo brasileiro, que está a sentir fome porque não tem emprego.
O general Mourão é um inconsequente, pois viveu toda a vida na redoma dos quartéis, sem ter a mínima ideia do que são as condições de vida real da população, bem como se tem noção sobre o assunto, evidentemente, não se importa, pois militares brasileiros não estão nem aí para nada, a não ser com suas vidas e com as vantagens, benefícios e privilégios que tem ou venham a ter, como acontece agora no desgoverno ultraliberal e de extrema direita de Jair Bolsonaro.
Menos Mourão. O melhor a fazer é ficar quieto e ver o circo de incompetência, iniquidade, covardia, omissão, irresponsabilidade e violência pegar fogo. Os militares colocaram suas cabeças a prêmio, e mais uma vez sairão pelas portas dos fundos, pois por pura ganância, ambição e vocação elitista passarão para a história como protagonistas do pior governo da história do Brasil. Mourão banca o "civilizado" e o "moderado", mas seu governo é bárbaro, golpista, entreguista e incompetente. É isso aí.
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Datena critica Bolsonaro após terror em Araçatuba: "Estamos perdidos"
“A gente já vive com essa instabilidade política muito grande não pode permitir que esses bandidos tirem a nossa tranquilidade. Se nessa crise que nós enfrentamos no Brasil, onde há ameaça da liberdade, à democracia, com declarações de golpe e coisas parecidas. Se a gente olha isso, esses ataques terroristas a outros ataques malucos, usar armas que tem por aí, o país vai ficar ingovernável, vai perder completamente a sua governabilidade”, começou Datena.
Datena ainda disse: “Eu achava melhor que o presidente começasse a governar, que Paulo Guedes começasse a pensar no povo, esquecesse campanha política, esquecesse da história de voto e ligar para o povo que está morrendo de fome, de coronavírus, que está com outras doenças, que não tem teto. Se isso a gente alinhar o terror desses ataques, nós estamos completamente perdidos. Não dá para continuar assim”.
Veja a partir do minuto 55:
Entenda
Não é a primeira vez que Araçatuba (SP) vive uma madrugada de terror após ser sitiada por bandidos. Nesta segunda-feira (30/8), uma quadrilha tocou o terror para roubar bancos. Já em 16 de outubro de 2017, outra segunda-feira, o alvo dos criminosos foi uma empresa de valores.
De acordo com boletim da Santa Casa de Araçatuba, quatro pessoas feridas no tiroteio estavam internadas até as 11 horas desta segunda. Uma recebeu alta no começo da manhã. Três pessoas morreram, sendo um dono de posto de combustível, um personal trainer e um bandido.
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Estados Unidos anunciam fim da retirada do Afeganistão

Sputnik - Os EUA concluíram a retirada de suas forças do Afeganistão nesta segunda-feira (30), afirmou o Pentágono, quase vinte anos depois de invadir o país após os ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova York, EUA.
"Estou aqui para anunciar a conclusão de nossa retirada do Afeganistão [...]. O último [avião cargueiro] C-17 decolou do Aeroporto Internacional Hamid Karzai em 30 de agosto [...] a última aeronave tripulada agora está liberando o espaço aéreo acima do Afeganistão [...] com o general Chris Donahue e o embaixador dos EUA para o Afeganistão Ross Wilson a bordo", disse o General Kenneth McKenzie, chefe do Comando Central dos EUA (USCENTCOM, na sigla em inglês), em entrevista coletiva.
McKenzie acrescentou que os EUA não conseguiram retirar todo mundo que "queríamos de ter retirado". As forças dos EUA e da coalizão evacuaram mais de 123.000 civis do Afeganistão nos últimos dias, completou McKenzie.
A Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês) dos EUA emitiu um aviso nesta segunda-feira (30) avisando que o aeroporto de Cabul não é mais controlado pelos norte-americanos e as aeronaves devem ter muito cuidado ao pousar lá.
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“Raramente vi um país onde a elite tem tanto desprezo pelos pobres como o Brasil”, diz Noam Chomsky

247 - O intelectual e ativista Noam Chomsky, um dos maiores pensadores da atualidade, afirmou, em entrevista exclusiva à TV 247, que a elite brasileira possui um ódio “enraizado” contra os mais pobres e a classe trabalhadora. Chomsky vê no avanço da política econômica de Paulo Guedes a expressão máxima do desprezo pelos pobres.
“O Brasil é uma espécie de caso especial. Raramente vi um país onde elementos da elite têm tanto desprezo e ódio pelos pobres e pelo povo trabalhador. É enraizado. Não pretendo saber muito sobre isso, mas pela minha limitada experiência, foi isso que vi”, afirmou.
Para ele, o avanço das privatizações significa uma “transferência de poder” da esfera pública para a esfera privada, que não possui a obrigação social de beneficiar a população. A privatização dos Correios, por exemplo, é mais um passo na “destruição do país”, explicou o professor.
“Você tem uma das pessoas que atualmente está empenhada em destruir o Brasil, Paulo Guedes é um grande expoente disso. Ouvi da minha esposa, que é brasileira e me mantém informado sobre os assuntos brasileiros, que o último esforço é privatizar os Correios, pelo menos as partes lucrativas dos Correios. O público pode pagar pelas partes que apenas servem o público e não fazem dinheiro, mas as partes que fazem dinheiro, entregue-as ao poder privado. Essa é a fórmula do Guedes, privatizar tudo. Se lembra disso? Essa era a fórmula, então, isso significa entregar tudo ao poder privado e ao capital internacional. Uma maneira de destruir um país. Ele tinha prática nisso, tendo trabalhando sob a ditadura de Pinochet, que, na verdade, destruiu o país. Vemos o que está acontecendo agora no Chile como um esforço para resgatar algo dos destroços, mas o neoliberalismo faz isso em escala internacional. Por isso danificou gravemente a democracia, em quase todos os lugares, e por razões perfeitamente óbvias. O problema com o governo é que ele responde parcialmente à opinião popular, não totalmente é claro, mas pelo menos responde de alguma forma. Portanto, isso é ruim. ‘Temos que mover o poder das concentrações privadas de poder, que não têm nenhuma responsabilidade, nenhuma prestação de contas’”, explicou.
“Na verdade, isso foi explicitado pelo guru do movimento neoliberal, a pessoa de quem o seu amigo Paulo Guedes aprendeu Economia. Ele escreveu um artigo famoso que diz que as corporações têm uma única responsabilidade, o lucro, gerar lucro para si mesmas. As corporações são, na verdade, um presente do público. Incorporar é um presente significativo ao contribuinte, você ganha muitos benefícios com isso. Não quer aceitar, ou não gosta? Forme uma parceria, dê o presente. Mas deste presente, de acordo com as doutrinas do Friedman (Milton) e do Guedes, você não tem nenhuma responsabilidade. Somente se enriqueça, nenhuma responsabilidade com o público, com a força de trabalho, com nada”, prosseguiu Chomsky.
Ao empobrecer o povo, as elites compreendem profundamente o conceito de luta de classes. O rebaixamento dos mais pobres, através da política de Guedes, favorece a manutenção das classes dominantes no poder, explicou o professor.
“As classes de negócios são marxistas dedicados. Eles pensam que o mundo é gerido pela guerra de classes e que eles vão ganhá-la. Os valores estão invertidos, mas é basicamente a mesma ideia. E se eles tiverem a guerra de classes só para eles, é muito fácil prever o que vai acontecer”.
“O Brasil pode não estar mais entre nós”
Chomsky deu um forte alerta sobre a devastação da Amazônia, que, no governo Bolsonaro, atingiu níveis históricos. De acordo com ele, o Brasil pode se tornar um completo “deserto” caso medidas radicais para proteger o bioma não sejam tomadas.
“Mais grave ainda é que cientistas brasileiros descobriram recentemente que a parte sudeste da Amazônia já passou de um sequestrador de carbono para um emissor de carbono, muitas décadas antes do esperado, muito antes. Isso vai se estender pelo resto da Amazônia, especialmente se Bolsonaro for capaz de continuar sua política de destruir a Amazônia, seguindo o interesse de mineradores e fazendeiros ricos. Então, o que isso vai fazer ao Brasil? Bem, vai transformá-lo num deserto. A redução drástica das chuvas e o aumento da já grave seca torna áreas agrícolas maiores basicamente inutilizáveis. Também é um grave prejuízo para o mundo inteiro, mas particularmente para o Brasil. Esses são problemas que não podem ser adiados. A menos que o Brasil seja capaz de lidar com esses problemas, ele não estará mais entre nós dentro de algumas décadas de qualquer forma viável. Portanto, claro, também significa genocídio para a população indígena, que está lutando duro e tentando ser ouvida, suplicando por algum apoio. Só que, da vista aérea, a ironia é indescritível. Estas são as pessoas que têm preservado os recursos nas florestas. Agora, são eles que estão sendo dizimados pela nossa destruição dos recursos. Quero dizer, se há alguma história -- e não sei se haverá-- e as pessoas olharem para trás, eles não saberão como descrever”, alertou.
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Nelson de Sá: Putin preenche o vácuo deixado por Biden na Ásia Central
Imprensa russa reporta a busca por apoio do país no Afeganistão, de chineses e europeus a indianos e paquistaneses
Como noticiaram os principais jornais russos, de Kommersant a Argumenty i Fakty, o presidente Vladimir Putin falou ao longo da última semana com o chinês Xi Jinping, o indiano Narendra Modi e o paquistanês Imran Khan, entre outros.
Antes, havia sido procurado pelo americano Joe Biden e pelos europeus Angela Merkel e Emmanuel Macron. Moscou se tornou a referência para o Afeganistão pós-ocupação.
Na manchete da versão em inglês do Nikkei, "Rússia busca preencher vácuo de poder no Afeganistão com saída dos EUA". Abrindo o texto, Moscou "se apontou como mediadora no país dilacerado pela guerra, mal escondendo o desejo de expandir sua influência na região".

No Komsomolskaya Pravda, reproduzido acima, "Rússia está pronta para defender a Ásia", depois que os EUA "colocaram um barril de pólvora no Afeganistão, sob toda a Ásia Central". O tabloide também reportou, das ruas de Cabul, sobre "os mitos e a realidade" na capital, dizendo que teria mudado pouco.
FICAR OU PARTIR
O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, falou ao programa Meet the Press, da rede NBC, sobre continuar com representação em Cabul, que "provavelmente não vai acontecer".
O Wall Street Journal correu a noticiar que "É improvável que EUA mantenham presença diplomática no Afeganistão, diz Blinken". Mas depois mudou a chamada para "EUA prometem se manter comprometidos com Afeganistão conforme sua presença diminui".
_________________________________________ Só volto para o Brasil quando Bolsonaro estiver derrotado, diz Jean Wyllys
Colaboração para o UOL 30/08/2021 12h01 Atualizada em 30/08/2021 15h19
Exilado fora do país desde 2019, o ativista e ex-deputado federal Jean Wyllys (PT) disse hoje que só considera voltar para o Brasil quando o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) estiver "derrotado de vez".
"NÃO HÁ SEGURANÇA PARA MIM ou para minha família", afirmou ele ao participar hoje do UOL Entrevista, conduzido pela apresentadora Fabíola Cidral e pelos colunistas Leonardo Sakamoto e Maria Carolina Trevisan.
Embora esteja naufragando, o governo ainda tem uma base radicalizada, então é capaz de fazer muita coisa. Volto quando vencermos de vez essas forças políticas de destruição que emergiram com força em 2018.Jean Wyllys

A evangélicos, Bolsonaro faz ameaça golpista e convoca para 7 de setembro
Eleito por três vezes consecutivas como deputado federal nas eleições de 2018, ainda pelo PSOL, Wyllys renunciou ao mandato em janeiro de 2019. Ele anunciou que estava no exterior e que permaneceria fora do país por estar sofrendo ameaças de morte.
'Cobaia de desinformação política'
Conhecido por sua militância em causas da comunidade LGBTQIA+ e também pelos direitos humanos, o ex-deputado afirmou ter sido vítima, nas eleições de 2018, de um processo programado de disseminação de informações falsas.
"A DESINFORMAÇÃO PROGRAMADA é um NOVO MODELO de desinformação política abraçado pela extrema-direita em todo mundo.
No Brasil, fui a cobaia da desinformação política e construção do inimigo público", afirmou.
Foi nesse processo que, segundo Wyllys, a "empatia" e a "identificação" do Brasil com a sua figura, construídos tanto pela sua vitória no "BBB" ("Big Brother Brasil") em 2005 como pelas ações executadas em seus mandatos como deputado, acabaram drenadas.
Toda essa empatia e popularidade foi drenada por um processo de comunicação política de destruição da minha imagem por tudo que representava de mobilidade social, alguém que vem das camadas mais pobres, e vira deputado federal.Jean Wyllys
Segundo ele, as ações para destruir a imagem pública dele foram tomadas por ele ser um "homem gay em país homofóbico e fazer dois mandatos conciliando a luta tradicional da esquerda com o tema do liberalismo clássico".
"Essa atuação contrariava forças políticas poderosas, como igrejas neopentecostais, ou temas como legalização do aborto e drogas, e o fato de ter penetração na comunicação em massa, o carisma, me transformava em perigo para esses negócios".
Cuspe em Bolsonaro: 'Faria novamente'
Na entrevista, o ex-deputado relembrou o episódio em que cuspiu no então deputado e agora presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante a votação pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016.
Ele disse que paga "um preço altíssimo" pela reação até hoje, mas que não se arrepende e afirma que faria de novo.
Claro que faria novamente naquelas circunstâncias.
Esse gesto ganha significado maior e é mais compreendido hoje do que naquele momento.
Só lembro que cometi esse ato porque tem imagens, entrei em um tipo de transe.Jean Wyllys
Para Jean, o processo que retirou Dilma da presidência foi um "espetáculo para humilhar uma mulher" e a noite da votação final foi um episódio "grotesco".
"Não bastava humilhar publicamente e tirar o mandato eleito pelo povo, mas [o voto de Bolsonaro] implicava em reacender traumas terríveis dela, uma pessoa que nunca foi torturada pode nem ter ideia do que é isso e dessas feridas dentro de nós", disse.
'Jornal Nacional foi cúmplice'
Wyllys, que hoje faz doutorado na Espanha e estuda os mecanismos da disseminação de fake news e da desinformação, diz acreditar que essas táticas ainda estarão presentes nas eleições de 2022.
"Vai haver [fake news], sim, e o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] está MUITO ATRASADO em relação às formas de conter essa política mentirosa", declarou.
"Mas quero ser otimista e acreditar que o eleitorado está mais ou menos vacinado, uma parte está e talvez seja mais crítica na hora de receber essas fake news", disse ainda.
O ex-deputado defendeu um pacto entre as plataformas digitais, o TSE e os partidos políticos como forma de conter a disseminação de notícias falsas, além de ser necessário um pacto entre os meios de comunicação.
Ele citou como exemplo a entrevista de Jair Bolsonaro ao "Jornal Nacional", da TV Globo, em 2018.
À época, o então candidato exibiu um livro que, segundo ele, seria parte de um suposto "kit gay" distribuído nas escolas.
A informação era falsa e não foi contestada pelo jornal.
"O 'Jornal Nacional' perdeu oportunidade, para não dizer que foi cúmplice, de desmentir no ar", disse.
"Não sabemos se a mídia vai fazer esse pacto, mas predomina os interesses dos donos dos veículos.
Não sabemos se depois da experiência desastrosa, criminosa e genocida do Bolsonaro eles vão combater a desinformação e as fake news.
Vai precisar de humildade e vontade republicana", afirmou.
Filiação ao PT
Em maio deste ano, Wyllys anunciou sua saída do PSOL para se filiar ao PT.
Na entrevista, ele declarou que a escolha não foi feita por cálculos políticos, mas sim por afinidade com os ideais do partido.
"Não me filiei [ao PT] em 2009 porque o PT no Rio de Janeiro estava em relação promíscua com o PMDB, era diferente do PT de SP.
Não me identificava com aquele PT e o PSOL era um abrigo melhor, eu achava, para o que pretendia fazer uma representação política", disse ele.
Sua chegada ao PSOL, mesmo assim, "não foi uma entrada simpática", segundo Wyllys.
"O PSOL do Rio é elitista e tinha preconceito com eu vir da televisão, era um território deles e a minha entrada foi com desconfiança e sabotagem".
A vontade de se filiar ao PT, segundo o ex-deputado, aconteceu quando ele já estava fora do país.
"Quando estava em exílio, o Lula teve os direitos políticos de volta, a Lava Jato descambou em uma fraude política contra um partido e um candidato, o antipetismo que era uma força que elegeu a extrema-direita, achei melhor sair do PSOL para fazer o que faço, mas sem constranger as forças do PSOL", disse.
Ele declarou, no entanto, que não tem intenção de concorrer a nenhum cargo nas eleições de 2022. "Não quero ser candidato. Não acho que seja o momento", disse.
__________* Opinião: Rodrigo Ratier - É hora de redescobrir a internet para além das redes sociais

Rodrigo Ratier
30/08/2021 06h00
O polegar move a tela do celular a esmo. Estamos no modo infinite scroll, passeando pela linha do tempo do Instagram, Facebook, Twitter, Tik Tok ou outra plataforma da moda. Ocasionalmente, clicamos em um joinha, um coração, um emoji de bonequinho chorando de rir. Às vezes escrevemos um comentário, quando temos o tempo certo e o humor errado nos engajamos numa briga. Por qual razão, mesmo? Quem é que estava certo, afinal? Difícil lembrar. A fila andou e já estamos discutindo o próximo cancelamento.
Essa versão zumbificada do ser humano guarda pouca semelhança com os sonhos gestados no início da internet. Em "A Inteligência Coletiva", livro publicado originalmente em 1994, o filósofo francês Pierre Lévy anunciava: "A magia dos mundos virtuais está cada dia mais ao alcance do grande público. As "autoestradas da informação" e a multimídia interativa anunciam uma mutação nos modos de comunicação e de acesso ao saber. Emerge um novo meio de comunicação, de pensamento e de trabalho para as sociedades humanas: o ciberespaço".
Colunistas do UOL
Bolsonaro tornou-se o maior adversário de Bolsonaro na sucessão de 2022
O sonho era que as inteligências individuais, conectadas em rede, pudessem se somar, resultando em aprendizagem coletiva e troca de conhecimentos. O próprio Lévy, porém, reconhecia que ainda vivíamos a infância da cultura das redes e que aquele novo espaço poderia acabar servindo "ao ódio e à enganação": "Estariam anunciando a vitória definitiva do consumo de mercadoria e do espetáculo? Aumentarão o abismo entre ricos e pobres, excluídos e 'bem-posicionados'? É, com efeito, um dos futuros possíveis".
Que falem os números. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2019, 58% dos brasileiros acessam a internet apenas pelo celular, percentual que chega a 85% nas classes D e E. Como regra, trata-se de inclusão precária: os planos de dados "populares" permitem acesso livre a serviços como Facebook e WhatsApp (política conhecida como zero rating), mas não à internet. O resultado nada surpreendente é que 55% dos brasileiros disseram acreditar que o Facebook é a internet, conforme pesquisa de 2015.
Isso limita não apenas a autonomia do usuário que quer algo mais do que curtir fotos de bichinhos ou encaminhar memes divertidos. O que está em jogo é o acesso a um direito humano — o acesso à internet é assim reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2011. Exagero? São conhecidos os casos de pessoas que tinham direito ao auxílio emergencial mas não conseguiram sequer pedi-lo porque não tinham internet. A pandemia escancarou que a questão da conexão à rede mundial ainda não está resolvida: o abismo temido por Lévy se concretizou.
É também difícil negar a vitória da espetacularização. Com as redes sociais, a multiplicidade de experiências e de possibilidades do mundo digital recebe uma versão superficial e infantilizadora, com potencial viciante e baseada em esquemas de estímulo-resposta. O modelo das redes privilegia impacto em vez de conteúdo de qualidade. Nesse aspecto, o celular merece ser questionado. Por mais fantásticos que sejam, os aplicativos oferecem pouca capacidade de customização e menos funções (um exemplo prático é comparar seu aplicativo de banco no celular e no computador). Olhando com algum distanciamento, há verdade na constrangedora constatação do tuíte viral:
— Se alguém dos anos 50 aparecesse hoje, de repente, qual seria a coisa mais difícil de explicar para ele?
— Que eu carrego um aparelho comigo, no meu bolso, capaz de acessar todo o conhecimento da espécie humana. E nós o utilizamos basicamente para ver fotos de gatos e discutir com estranhos.
Em nome da "usabilidade" — a facilidade com que as pessoas podem usar uma ferramenta ou aparelho —, celulares e computadores se transformaram em caixas pretas. Nos anos 1990, era costumeiro ter de instalar programas e se virar para fazê-lo rodar de acordo com suas necessidades. Em troca, o usuário aprendia, por tentativa e erro, como funcionava o computador.
Hoje não apenas fugimos de práticas como essa como sequer acessamos a internet para além das grandes plataformas. Desenvolver o "letramento digital" passa por questionar nossa relação com a tecnologia. Não só pensando em termos de liga-desliga, mas avaliando a serviço de que estamos investindo nosso tempo nelas. Os pioneiros da rede a concebiam como local de comunicação e aprendizagem — em resumo, um recurso potencialmente fecundo para a resolução dos problemas da humanidade. Torço para que o Lévy de 1994 siga valendo hoje: "Ainda não é tarde demais para refletir coletivamente e modificar o curso das coisas. Ainda há lugar, nesse novo espaço, para projetos."
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
__________* Há 20 anos, Silvio Santos era sequestrado 2 dias após a libertação da filha

Renata Nogueira
De Splash, em São Paulo
30/08/2021 04h00
O que você estava fazendo no dia 30 de agosto de 2001?
Se já era nascido nessa época, provavelmente estava grudado na TV acompanhando ao vivo o sequestro de Silvio Santos, que parou o Brasil. O dono do SBT foi mantido refém pelo mesmo sequestrador que havia libertado sua filha apenas dois dias antes.

Fernando Dutra Pinto, de 22 anos, foi o mentor do sequestro tanto de Patrícia quanto de Silvio Santos. Dois dias após a libertação da filha número 4 do apresentador, ele escalou um muro e voltou a invadir a casa da família Abravanel, no Morumbi, em São Paulo, mantendo Sílvio refém por quase 8 horas.
21 horas antes...
Fernando Dutra Pinto havia sido localizado pela polícia escondido em um flat em Barueri (SP) com armas e R$ 464.850 em espécie. Na tentativa de prendê-lo em flagrante, ele matou dois policiais e foi baleado por um terceiro. Ainda assim, conseguiu fugir.

Mesmo ferido, o sequestrador desceu nove andares pelo lado de fora do prédio do flat e deixou um rastro de sangue. Ele fugiu em uma perseguição cinematográfica e foi trocando de carros até a polícia perdê-lo de vista.

Sílvio Santos refém
No dia seguinte, às 7h, Fernando Dutra Pinto voltou a invadir a casa da família Abravanel e rendeu Silvio Santos na cozinha. Ele exigia um helicóptero para a fuga e não queria negociar com a polícia. Ainda de pijamas, Íris Abravanel, as filhas e os funcionários foram liberados.
O sequestrador, que estava ferido, também exigiu atendimento médico. O pai e a irmã dele foram levados à casa de Silvio Santos para ajudar nas negociações. Mas foi apenas depois da chegada do governador de São Paulo na época, Geraldo Alckmin (PSDB), que Fernando Dutra Pinto se rendeu.

Após quase oito horas de agonia, Silvio Santos deixou a casa dele ao lado do então governador de São Paulo Geraldo Alckmin e do secretário de segurança do Estado. A mulher e as filhas do apresentador saíram em dois carros pelos fundos da casa do vizinho, acompanhadas de policiais.

Onde ele se escondeu?
Em depoimento à polícia, Fernando Dutra Pinto disse que dormiu em um terreno próximo à casa de Silvio Santos e que só voltou a invadir o local para pedir ajuda do apresentador, achando que seria morto pela polícia. Ele chegou a comer e tomar banho na casa do apresentador.

No dia seguinte, o sequestrador foi levado para o Centro de Detenção Provisória do Belém onde estavam presos outros dois envolvidos no sequestro anterior, de Patrícia Abravanel. Eram Esdras Dutra Pinto, 19, irmão de Fernando, e Marcelo Batista dos Santos. Mais duas envolvidas também acabaram presas.
Consequências
Íris Abravanel e as filhas chegaram a se mudar temporariamente para um sítio no interior de São Paulo depois do susto com o sequestro de Patrícia e de Silvio Santos. Já o apresentador voltou a gravar seu programa no SBT dias depois do crime.

Fernando Dutra Pinto morreu na cadeia cinco meses depois do sequestro, em 2 de janeiro de 2002, após uma parada cardíaca. Três meses depois, um relatório elaborado pela ONG Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos apontou que o sequestrador morreu em consequência de tortura e negligência médica.

Vinte anos depois, o sobrinho de Silvio Santos Guilherme Stoliar, que intermediou as negociações do sequestro de Patrícia Abravanel, confirmou ao UOL que foi ao encontro dos criminosos e entregou uma quantia em dinheiro. A polícia recuperou cerca de R$ 460 mil após a prisão dos sequestradores.
__________* EUA interceptam foguetes lançados contra o aeroporto de Cabul
Do UOL, em São Paulo*
30/08/2021 06h26
Atualizada em 30/08/2021 08h12
O sistema de defesa antimísseis dos Estados Unidos interceptou cinco foguetes lançados contra o aeroporto de Cabul, no Afeganistão, hoje, no penúltimo dia das tropas dos Estados Unidos no país. A informação é da agência Reuters. O ataque ocorre em meio aos esforços das tropas para concluir a operação de retirada entre ameaças de novos ataques.
Os relatórios iniciais não indicaram quaisquer vítimas dos EUA no último ataque de foguete, disse um funcionário do país, sob condição de anonimato, à Reuters.
Biden viaja até base aérea para homenagear militares mortos no Afeganistão
Uma fonte que trabalhou para o Departamento de Segurança do governo afegão derrubado pelos talibãs há duas semanas afirmou que os foguetes foram lançados a partir de um veículo na zona norte de Cabul, onde fica o aeroporto.
Moradores das proximidades do aeroporto afirmaram que ouviram o som da ativação do sistema de defesa de mísseis e que viram estilhaços caindo do céu, o que indica a interceptação dos foguetes.
A Casa Branca confirmou o ataque com foguetes contra o aeroporto e destacou que a retirada prosseguiu sem interrupção.
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, estabeleceu a terça-feira, 31 de agosto, como data-limite para a retirada das tropas do Afeganistão, o que significará o fim de duas décadas de uma operação militar iniciada como represália pelos atentados de 11 de setembro.
Mas as tropas americanas estão mais concentradas neste momento em sua própria saída e na retirada dos diplomatas do país.
"O presidente (...) voltou a confirmar a ordem para que os comandantes redobrem os esforços para fazer o que for necessário para proteger nossas forças no local", afirmou a Casa Branca em um comunicado.
O retorno do movimento islamita Talibã ao poder, do qual foram afastados em 2001, desencadeou uma tentativa desesperada de fuga de afegãos em voos organizados pelos países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos.
Os voos, que permitiram a retirada de mais de 114 mil pessoas do aeroporto de Cabul, terminarão oficialmente amanhã, mas vários países já concluíram suas missões.
Ameaça do Estado Islâmico
O grupo EI (Estado Islâmico), rival dos talibãs, representa uma grande ameaça na reta final da retirada, como demonstrou o ataque suicida contra o aeroporto na quinta-feira passada, que matou mais de 100 pessoas, incluindo 13 soldados americanos.
Biden advertiu para a elevada probabilidade de novos atentados. O exército americano executou ontem um ataque aéreo contra um carro-bomba em Cabul.
Um porta-voz talibã confirmou ontem que um carro-bomba que seguia para o aeroporto foi destruído. Também informou que um suposto segundo ataque atingiu uma casa.
O carro foi atingido pelo ataque americano com drone a dois quilômetros do aeroporto.
Ao longo da guerra, as tropas dos Estados Unidos foram acusadas de matar civis em seus ataques aéreos, um dos motivos que provocaram a perda do apoio local. Ontem pode ter acontecido novamente.
"Recebemos relatos de vítimas civis após o nosso ataque contra um veículo em Cabul", afirmou em um comunicado o capitão Bill Urban, porta-voz do Comando Central militar americano.
Urban disse que as explosões foram "potentes" e que o exército investiga se provocaram mortes entre civis. "Nos deixaria profundamente tristes qualquer perda de vida inocente", afirmou.
Nos últimos anos, o braço do EI no Afeganistão e Paquistão executou alguns dos ataques mais violentos nestes países, com massacres de civis em mesquitas, praças, escolas e hospitais.
Embora os grupos sejam sunitas radicais, os dois mantêm uma profunda rivalidade e ambos reivindicam a verdadeira representação da jihad.
O atentado de quinta-feira, a ação mais violenta contra os Estados Unidos no Afeganistão desde 2011, provocou um reforço da cooperação entre as forças americanas e os talibãs para proteger o aeroporto.
No sábado, combatentes talibãs escoltavam um fluxo constante de afegãos dos ônibus até o terminal de passageiros, onde as pessoas eram entregues a soldados americanos para a retirada.
Retorno do líder talibã
O movimento islamita radical, que deu abrigo ao grupo terrorista Al-Qaeda, promete uma versão mais moderada do regime fundamentalista imposto entre 1996-2011.
Muitos afegãos, especialmente aqueles que trabalharam com as missões estrangeiras ou para o governo derrubado, temem a nova versão talibã e tentaram fugir na operação de retirada organizada pelas potências ocidentais.
Ontem, os talibãs anunciaram que seu líder supremo, Hibatullah Akhundzada, está em Kandahar, sul do Afeganistão, e planeja fazer uma aparição pública em breve.
* Com informações da AFP e Reuters
__________* Afegão relata terror em fuga de Cabul: 'Não há esperança com o Talibã'
Herculano Barreto Filho
Do UOL, em São Paulo
30/08/2021 04h00
Um funcionário do governo afegão relatou os momentos de terror após ofensiva do grupo extremista Talibã contra a capital Cabul na semana passada. No dia da ocupação, Mohammad Amin Azar, de 31 anos, foi ao aeroporto com outros membros do governo em meio a tiros.
"Pelas janelas, era possível ver pessoas desesperadas correndo em volta dos aviões", relatou ao UOL sobre as cenas que ganharam o mundo naquela dia. Na tentativa de fugir do país, civis tentaram embarcar na parte externa de um avião militar, mas caíram após a decolagem. Ao menos sete pessoas morreram.

Vídeo mostra multidão de refugiados que tentam deixar Afeganistão
Exilado em Istambul, na Turquia, ele agora convive com a incerteza. "Não há esperança. Não há mais nada para nós no Afeganistão", disse à reportagem. Confira os principais trechos da entrevista.
Veja imagens aéreas da população invadindo o aeroporto para fugir de Cabul


Na tentativa de fugir do Afeganistão, civis tentaram embarcar na parte externa de um avião militar. Alguns conseguiram, mas caíram após a decolagem
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Leia mais"Quando chegaram as notícias de que o Talibã havia assumido o poder em Mazar-eSherif [segunda maior cidade do Afeganistão] na sexta-feira à noite, dois dias antes da ocupação, a população foi dominada pelo receio de que os extremistas pudessem invadir Cabul a qualquer momento.
Naquela noite, não consegui dormir e fiquei pensando no que poderia fazer. Então, decidi fazer as malas e me mudar no dia seguinte para a casa dos meus primos em uma área mais segura da cidade.
No domingo, dia da ocupação, fui à casa do vice-presidente por volta das 5h para participar de uma reunião que se estendeu até o horário do almoço. Depois, fomos ao palácio presidencial, onde nos encontramos com o presidente.
Um aspecto que chamou a atenção foram as vestimentas usadas por funcionários de alguns escritórios governamentais. Em vez de ternos, usavam roupas típicas afegãs, possivelmente para despistar o Talibã. Isso também indicava que eles estavam preparados para uma entrada do grupo extremista na cidade.
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17.ago.2021 - Membro do Talibã na área externa do Aeroporto Internacional de Cabul, no Afeganistão

17.ago.2021 - Área externa do Aeroporto Internacional de Cabul, no Afeganistão

17.ago.2021 - Pessoas se reúnem em torno de uma bandeira do Talibã enquanto esperam por parentes libertados da prisão no Afeganistão após uma 'anistia' do Talibã

17.ago.2021 - Meninas assistem às aulas em Herat após tomada do Afeganistão pelo Talibã

17.ago.2021 - Homens do Talibã guardam entrada do Ministério do Interior, em Cabul

17.ago.2021 -Os combatentes do Talibã patrulham rua em Cabul após tomada do poder no Afeganistão

17.ago.2021 - Cidadãos indianos embarcam em aeronave militar no aeroporto de Cabul para serem evacuados após tomada do Talibã no Afeganistão

17.ago.2021 - Talibã segura lançador de granadas enquanto fica de guarda em um portão de entrada do lado de fora do Ministério do Interior em Cabul

Vídeo mostram membros do Taleban em parque de diversões em Cabul, no Afeganistão

Zabihullah Mujahid, porta-voz do Talibã, dá entrevista coletiva em Cabul

17.ago.2021 - A chegada do mulá Abdul Ghani Baradar ao Afeganistão, em Kandahar

Estátua de Abdul Ali Mazari, líder político contrário ao Taleban que morreu no anos 1990, foi parcialmente destruída em Bamiyan (Afeganistão)

Afeganistão: imagens de satélite mostram milhares de pessoas tentando fugir

20.ago.2021 - Fuzileiros navais dos EUA e civis durante uma evacuação no Aeroporto Internacional Hamid Karzai, em Cabul, Afeganistão

20.ago.2021 - Afegãos se reúnem em uma estrada perto da parte militar do aeroporto de Cabul, na esperança de fugir do país após a tomada militar do Taleban no Afeganistão

20.ago.2021 - Soldados dos Estados Unidos montam guarda atrás de arame farpado enquanto afegãos estão sentados em uma estrada perto da parte militar do aeroporto de Cabul

16.ago.2021 - Homem puxa uma criança para dentro dos muros do aeroporto internacional de Cabul, Afeganistão

21.ago.2021 - Tripulação da Força Aérea dos EUA auxilia evacuados qualificados a bordo de uma aeronave em apoio à evacuação do Afeganistão no Aeroporto Internacional Hamid Karzai, Cabul, Afeganistão

22.ago.2021 - Membros da Frente de Resistência Nacional (FNR), principal grupo de oposição ao movimento fundamentalista islâmico Talibã, se preparam para lutar no Vale do Panjshir, Afeganistão.

23.ago.2021 - Mulheres afegãs vestidas de burca fazem compras em uma área de mercado em Cabul, após a tomada militar do país pelo Talibã
Soubemos que os talibãs estavam a caminho de Cabul, mas a equipe de segurança disse que não seria seguro sair do palácio presidencial naquele momento.
Havia muitos pontos de engarrafamento e pânico nas ruas. Depois de três horas, decidimos ir direto para o aeroporto. Foram momentos de terror quando os talibãs chegaram à cidade.
Vi membros do alto escalão do governo lá. Esperamos até o momento em que chegou a informação de que os talibãs já estavam nos portões do aeroporto. Aí, fomos em direção ao avião que apareceu nas imagens das emissoras de TV que rodaram o mundo.
Quando os talibãs entraram no aeroporto, vimos alguns deles com armas nas mãos e enrolados em cobertores para ocultar as suas identidades.
O aeroporto estava tão lotado que era preciso respirar fundo, faltava oxigênio.
Senti muito medo de ser atingido por um tiro a qualquer momento. A impressão era de que seríamos mortos ali. Cheguei a perder a esperança. A ameaça era real.
Membros do Talibã poderiam entrar a qualquer momento para nos retirar do aeroporto. Foi uma situação estressante que se arrastou por horas.
Cheguei a deitar perto de um muro e falei para mim mesmo: 'Nós vamos ser mortos aqui'.
O aeroporto estava cheio de famílias. Membros do governo pensaram em se esconder entre elas. Diziam que, caso fossem capturados, os talibãs agiriam com uma violência ainda maior. Poderia acontecer qualquer coisa e "ninguém ficaria sabendo".
Feridos chegam a hospital após explosão nos arredores do aeroporto de Cabul

Feridos chegam ao Centro Cirúrgico de Cabul após explosões nos arredores do aeroporto
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Um oficial do Talibã afirmou à Reuters que ao menos 13 pessoas morreram, entre elas crianças
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Pelo menos 60 pessoas estão sendo atendidas no Centro Cirúrgico de Cabul com ferimentos
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Antes das explosões, o Centro Cirúrgico operava com 80% de sua capacidade e expandiu leitos para receber os feridos
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Segundo informações preliminares, a explosão ocorreu próxima do portão "Abbey", onde os civis afegãos têm seus documentos analisados
Leia mais
Homem ferido após explosão do lado de fora do aeroporto de Cabul, única rota de saída do Afeganistão desde que o Talibã assumiu o controle do país
Leia maisJá dentro do avião, enfrentamos um novo momento de pânico quando fomos informados de que não havia piloto e nem combustível na aeronave. Disseram que precisaríamos sair. Mas ninguém queria. Pelas janelas, era possível ver pessoas desesperadas, correndo em volta dos aviões.
Depois de quatro horas, começamos a ouvir o barulho de tiros ao redor do aeroporto. Então, saímos do avião e buscamos refúgio em uma área onde estavam soldados norte-americanos.
Só tinha um voo na manhã seguinte para Istambul, na Turquia. Aí, falaram: 'nós vamos colocar vocês e outros integrantes do governo do Afeganistão nesse voo'.
Passamos a noite lá e só viajamos por volta das 13h de segunda-feira, com seis horas de atraso.
Agora, estamos em um hotel em Istambul, mas sem qualquer perspectiva sobre o futuro e aflitos com a situação vivida pela população sob o domínio do Talibã. Estamos nos sentindo miseráveis.
Nós amamos o nosso país. Mas todos os nossos planos para o futuro deixaram de existir depois que o Talibã assumiu o poder. Não há esperança. Não há mais nada para nós no Afeganistão."
Afegão relata fuga após Talibã assumir o poder em Cabul

Registro do aeroporto de Cabul lotado após a entrada de talibãs na capital do Afeganistão
__________* Saiba por que urna eletrônica é segura e alegações de Bolsonaro são falsas
Beatriz Montesanti
Colaboração para o UOL, em São Paulo
30/08/2021 04h00
As declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que colocam sob suspeita o processo eleitoral brasileiro são falsas e os resultados de todas as eleições realizadas desde sua implementação são confiáveis, afirmam especialistas em segurança digital ouvidos pelo UOL.
Segundo eles, nenhum sistema é 100% seguro. No entanto, na prática, é extremamente improvável aplicar uma fraude em larga escala na votação com urnas eletrônicas, já que isso implicaria a violação de inúmeras máquinas espalhadas pelo país. Mesmo assim, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) leva em conta, em seus testes de segurança, situações que são de complexa execução.

Bolsonaro 'segura' base com incertezas e conflitos, afirmam pesquisadores
"A urna é segura para a maior parte dos possíveis atores que atacariam uma eleição", diz Lucas Lago, especialista em privacidade e segurança digital e pesquisador do CEST-USP (Centro de Estudos Sociedade e Tecnologia da Universidade de São Paulo). "Um candidato ou um hacker de Whatsapp fazer um ataque específico e manipular a eleição é muito difícil, são atores pequenos e contra os quais a segurança da urna é mais que suficiente."
Para Álvaro Coelho, professor do departamento de ciências exatas e tecnológicas da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA), a urna eletrônica "é mais segura do que qualquer alternativa que se coloca para substituí-la". Segundo Coelho, o voto impresso — defendido por Bolsonaro e rejeitado na Câmara — adicionaria novos riscos à eleição, como pôr em risco o sigilo do voto.
As repetidas tentativas do presidente de deslegitimar o processo eleitoral brasileiro têm contrariado inclusive especialistas em segurança digital que defendem o voto impresso, para quem a medida tornaria a contagem de votos mais transparente, considerando possíveis vulnerabilidades do processo.
É o caso, por exemplo, de Diego Aranha, professor de segurança de sistemas no Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Aranha levantou a pauta do voto impresso ainda em 2012, quando participou dos testes de segurança organizados pelo TSE. Ele reconhece que os ataques seriam improváveis e exigiriam uma combinação de fatores bastante específica para acontecer.
"Não faz sentido, primeiro, sugerir um mecanismo com discurso de fraude, porque isso contamina a origem do debate. E, em segundo lugar, sugerir o voto impresso como maneira de coibir fraudes na transmissão e na totalização, onde já existe um procedimento de auditoria que funciona no mesmo princípio", disse em entrevista à BBC News Brasil.
Presidente nunca apresentou provas de fraude
Apesar de acusações de fraude fazerem parte do discurso de Bolsonaro há anos, ele nunca apresentou provas de que elas tenham acontecido. Supostos indícios citados pelo presidente já foram desmentidos pela imprensa, pelo TSE e pela PF (Polícia Federal).
Uma alegação recorrente de Bolsonaro é a de que pessoas que tentaram votar em um candidato e tiveram seu voto anulado ou transferido para outro. Casos pontuais mostraram-se falsos e o UOL já mostrou que é praticamente impossível fazer esse tipo de fraude em larga escala. Em um vídeo que viralizou na eleição de 2018, por exemplo, um eleitor estava na verdade errando a ordem de votação e colocando os números de Bolsonaro, então candidato a presidente, no campo de governador.
Já vídeos mostrados pelo presidente em que o nome de Haddad aparece quando se digita o número de Bolsonaro são montagens, conforme publicado pelo UOL ainda em 2018.
Em outra tentativa de deslegitimar o processo eleitoral brasileiro, o presidente divulgou um inquérito sigiloso sobre uma invasão hacker no sistema do TSE em 2018. O documento, no entanto, não conclui que houve adulteração do código-fonte do software da urna ou fraude no sistema eleitoral.
A segurança do sistema
Segundo a Justiça Eleitoral, existem mais de 30 camadas de segurança nas urnas eletrônicas. Elas não têm conexão com a internet, bluetooth ou qualquer outra rede aberta.
"Existem, primeiro, as proteções físicas, que permanecem do tempo anterior à urna eletrônica, como proteção policial para o transporte, vigilância das Forças Armadas e fiscalização dos partidos. Além disso, existe uma série de proteções da parte de software, que são colocadas pela própria arquitetura da urna", explica o professor Álvaro Coelho.
O software da urna é criptografado e apresentado a partidos, imprensa e autoridades. Um mês antes da eleição, sua versão final é assinada digitalmente e as urnas são lacradas fisicamente em uma cerimônia pública, com a participação de entidades da sociedade civil. Essa assinatura é uma espécie de DNA da urna, que permite identificar possíveis alterações posteriores no código. Além disso, há um sistema que guarda o histórico de modificações.
Antes de a votação começar, o mesário imprime a zerésima, comprovante de que não há votos computados no equipamento. Durante o pleito, o software também tem sua autenticidade verificada por partidos, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e Ministério Público, por meio de um processo que comprova que o programa na urna é, de fato, o mesmo assinado digitalmente na cerimônia, e segue íntegro.
Os votos de cada eleitor são gravados em um arquivo chamado Registro Digital do Voto (RDV), que tem estrutura similar a uma tabela. O RDV grava os votos como foram digitados pelo eleitor e os posiciona de forma aleatória no arquivo, embaralhando a ordem. Isso acontece mesmo quando o eleitor vota em mais de um cargo. Assim, não é possível associar uns votos aos outros e nem à sequência em que os eleitores apareceram nos locais de votação, preservando o sigilo do voto.
É a partir do RDV que são gerados os boletins de urna, um documento impresso em cinco vias pela própria urna eletrônica após a votação em cada seção eleitoral e assinado por fiscais e mesários. Uma via desses boletins é fixada na porta da seção, de forma que qualquer pessoa pode vê-la, e outra é entregue a fiscais de partidos presentes. As outras três vão para o cartório eleitoral. Partidos políticos podem pedir cópias dos arquivos de RDV e fazer a soma dos resultados para comparar com os apresentados pelo TSE.
O resultado de cada urna é então salvo em uma mídia criptografada e enviado para o TSE via satélite, utilizando uma VPN (rede privada virtual). Para Coelho, essa é a etapa mais frágil do processo. No entanto, ainda assim, possíveis modificações nos resultados poderiam ser identificadas comparando-se a contagem final com o boletim de urna.
"O advento do boletim de urna em papel ajuda bastante no processo. Dali até os votos chegarem ao TSE, há um resguardo muito grande de que se algo for adulterado no caminho, poderá ser identificado por esse mecanismo", diz Mário Gazziro, professor de engenharia da informação na UFABC e de computação forense na USP.
Mais recentemente, o TSE adicionou um código de barras que permite aos eleitores verificarem se o boletim de sua seção bate com o resultado da contagem.
Um ano antes das eleições, são realizados os Testes Públicos de Segurança do Sistema Eletrônico de Votação, um evento no qual a Justiça Eleitoral torna o hardware e o software utilizados na urna eletrônica, assim como outros sistemas eleitorais, disponíveis para verificação e teste pela sociedade brasileira. Eventuais falhas do sistema apontadas neste evento são corrigidas ou mitigadas antes do pleito.
Questionado sobre a segurança das urnas, o TSE respondeu que a votação eletrônica tem "cumprido o objetivo de garantir a integridade e a segurança do processo eleitoral." Também disse que "a implantação da urna eletrônica no Brasil, com seus diversos mecanismos de segurança, permitiu a eliminação de vários tipos de fraudes e de erros humanos existentes no antigo processo eleitoral, tais como a duplicidade de votos e a troca de cédulas eleitorais durante a contagem."
__________*
Bolsonarista Luciano_Camargo faz disparo em massa para divulgar música gospel e é criticado
A mensagem, em nome do sertanejo, pedia que sua nova música na carreira gospel fosse ouvida, com um link para o canal do cantor no YouTube

247 - O cantor bolsonarista Luciano, irmão de Zezé Di Camargo, é acusado de disparo em massa por SMS para divulgar seu novo negócio, a música gospel
A mensagem, em nome do sertanejo, pedia que sua nova música na carreira gospel fosse ouvida, com um link para o canal do cantor no YouTube.
As mensagens foram disparadas de um número com o DDD 31 (Minas Gerais), e geraram críticas nas redes sociais.
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"Olá, eu sou Luciano Camargo! Te convido a conhecer meu novo projeto musical, o louvor 'Espirito Santo', junto com Gabi Sampaio. Clique e escute", pedia o autor da mensagem.
Luciano disse que se pronunciaria neste domingo, mas até agora nada.
"Quanto o Luciano Camargo pagou pra ter o número de todo mundo? Que inferno de incômodo de SMS chegando toda hoje”, disse um internauta.
Disparos em massa são vetados pelas operadoras de telefonia e ferem o direito de consumidor.
Jair Bolsonaro, que ele e o irmão apoiam, é acusado no Tribunal Superior Eleitoral de ter usado o expediente para se eleger em 2018.
Nesse caso, é uma ilegalidade eleitoral e pode levar à cassação da candidatura, como se discute na Justiça desde o término da apuração naquele ano.
__________* A crise da hegemonia norte-americana - Emir Sader
Por Emir Sader

A discussão é sobre a natureza e profundidade do declínio da hegemonia norte-americana. Foi-se o tempo do “mito da decadência dos Estados Unidos”, livro de Henri Nau, de grande sucesso há não tão muito tempo: 1992.
O raciocínio se apoiava na liderança econômica norte-americana no mundo, afirmação inconteste para o autor, que mal escondia a continuidade do “destino manifesto” do país. No entanto, os EUA já haviam aderido ao modelo neoliberal, a que tratavam de arrastar toda a economia mundial, com consequências desastrosas do ponto de vista do ritmo baixo de crescimento e de geração de empregos. A economia mundial já havia ingressado a seu novo ciclo longo recessivo.
No entanto, um outro movimento já estava em andamento no mundo: o crescimento a ritmos recordes da economia chinesa. No início os Estados Unidos não acreditavam que a China fosse um competidor econômico para eles. Não somente estavam prisioneiros do seu dogma de que apenas as economias de livre mercado tem dinamismo econômico, como acreditavam que o crescimento chinês se devia a que vinham de um atraso enorme.
Não podiam imaginar que em poucas décadas a China se transformaria na segunda economia do mundo, estando prestes, ainda nesta década, a se tornar a primeira.
Mas, sobretudo, a crise e o declínio norte-americano não era somente econômico. Os Estados Unidos sempre basearam sua superioridade mundial na sua força militar. Foi assim desde o fim da segunda guerra, quando tiveram a experiência – que ficou como exemplar para eles – da derrota do Japão. Não poderia haver país mais distante como cultura e como trajetória histórica. No entanto, com duas bombas atômicas os EUA derrotaram o Japão e fizeram dele um fiel aliado estratégico.
Com todas as diferenças que essa experiência tinha em relação às posteriores – Vietnã, Iraque, Afeganistão, entre outros -, os EUA, com sua reconhecida incapacidade de analisar cada experiência no seu contexto histórico, incorporou definitivamente a estratégia de impor as superioridade militar como forma de resolver conflitos.
A derrota no Vietnã – um país de economia agrícola, teoricamente fácil presa dos EUA – foi simbólica. Era uma derrota militar contra uma estratégia de guerra popular, a vitória de um povo organizado, uma derrota política, que evidenciava as debilidades da estratégia norte-americana. Mas eles seguiram em frente, seja por considerar que aquela derrota se devia à situação comprometida que haviam herdado das derrotas japonesa e francesa, seja por não analisar em profundidade como 700 mil soldados e a implantação de minas em grande parte do território vietnamita, podiam ser derrotados.
A crise de 2008 foi uma virada na economia internacional, que apontava para o esgotamento definitivo do modelo neoliberal. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos reproduziam a estratégia de impor sua superioridade militar como via de tratar de solucionar as crises em que estava envolvido. Foi assim no Iraque, na Síria, na Líbia e no Afeganistão.
Assim, à crise econômica foi se somando a crise militar, a incapacidade norte-americana de resolver as crises por meio da sua força militar. Essa debilidade se projetou inevitavelmente sobre sua força política, assentada sobre a força militar, que também foi afetada. O fracasso do Afeganistão é mais um exemplo de como, depois de envolver seus aliados europeus na aventura da invasão do país, projetou sobre eles o desgaste do fracasso, enfraquecendo ainda mais a hegemonia política norte-americana, mesmo com seus tradicionais aliados europeus. Pesquisas demonstram como os seus aliados, se submetidos à alternativa de fidelidade aos EUA ou à China, prefeririam esta.
A China não somente foi fortalecendo sua economia e as relações comerciais por todo o mundo – indo da Ásia à América Latina, até chegar à Europa -, como seus investimentos em todas essas regiões foram consolidando sua presença econômica. A ponto que a indústria automobilística alemã gerou uma dependência direta com a indústria chinesa, estabelecendo dependências e imbricações estreitas entre elas.
Tecnologicamente, a China começa a disputar a vanguarda com os Estados Unidos em áreas chaves para o futuro econômico do mundo, a começar por todas as áreas da inteligência artificial e da automação.
A força norte-americana no mundo sobrevive no estilo de vida norte-americano, no que chamam de “modo de vida norte-americano”(a “american way of life”). Um estilo de vida que já vinha sendo exportado nos anos 1950 e 1960, com a presença das grandes corporações multinacionais norte-americanas no mundo, com seus produtos como símbolo mesmo do progresso econômico e do bem estar social – dos eletrodomésticos aos automóveis. A posse dessas mercadorias passou a ser o sonho da classe média e de setores cada vez mais amplos da sociedade.
A sofisticação tecnológica foi diversificando cada vez mais o arco de produtos de consumo que acompanhavam o modo de vida norte-americano, exportado para a Europa, para a América Latina e até mesmo para a Ásia. Se universalizava o estilo de vida norte-americano. O marketing se encarregava de disseminar a associação desses produtos ao sucesso na vida e ao bem estar social.
Na própria China os supermercados reproduzem suas versões ocidentais – embora maiores e mais bonitos - , exibindo as mesmas mercadorias produzidas lá pelas mesmas multinacionais norte-americanas. Se fecha assim o circuito da globalização do estilo de vida norte-americano.
A tentação da rejeição global do acesso ao consumo na Revolução Cultural e na Kampuchea foi derrotada. Só restou a alternativa da sociedade de consumo.
Mesmo nos governos progressistas latino-americanos não se gestou uma forma distinta de sociabilidade. A reivindicação era a inclusão de todos na esfera de consumo, da qual estavam excluídas. Acesso a bens sofisticados, frequentar restaurantes, viajar – em que as compras eram parte essencial – significavam o acesso ao consumo.
Não havia a formulação de um tipo de sociabilidade alternativa, que incluísse o acesso a bens indispensáveis, mas sem a centralidade no consumo, nas marcas, nas modas de produtos, na frenética busca de estar em dia com os últimos produtos lançados e promovidos pelo marketing. Um desafio pendente: a formulação de um tipo de sociabilidade alternativa.
Só assim se terá aproveitado a crise da hegemonia norte-americana para derrotar essa hegemonia também no plano ideológico, cultural, das formas de vida. Assim essa hegemonia estará enfraquecida definitivamente.
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SÃO PAULO — É difícil não notar a presença de Ralpho Barros Monteiro. Não tanto por seu 1,72m de altura. O que chama a atenção no paulistano de 43 anos é, na linguagem das academias (de ginástica), o shape, ou a boa forma que exibe no Instagram a mais de 63 mil seguidores. Ele é provavelmente o único juiz de São Paulo que é, ao mesmo tempo, bodybuilder, professor de Direito e influenciador digital.
Magistrado desde 2008, Monteiro foi nomeado há um mês como auxiliar da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da capital paulista, uma das principais dedicadas à insolvência no país e que recebe casos envolvendo grandes empresas.
Ele substitui Marcelo Sacramone, de 40 anos, professor de Direito da PUC-SP, que ficou por seis anos na função e pediu exoneração em julho para abrir um escritório — o que pegou de surpresa grandes bancas especializadas.
Logo após a nomeação de Monteiro, a conta do juiz no Instagram e fotos suas sem camisa viralizaram entre advogados que lidam com recuperação judicial. A maioria ainda não o conhecia.

Reestruturação de empresas
O magistrado já atuou em duas varas de registros públicos em São Paulo e é juiz auxiliar na capital paulista há dez anos.
Sua experiência prévia em casos de reestruturação de empresas, porém, não é grande. Em 2015, substituiu na 2ª Vara de Falências durante uma licença do juiz titular, Paulo Furtado, que foi seu professor e o indicou para o cargo atual.
Agora, Monteiro herdou de Sacramone, cuja especialização é destacada no meio, casos icônicos como as recuperações judiciais da Livraria Cultura e da grife Cavalera, as falências da Construtora Atlântica e da boate Love Story, e diversos casos relacionados à Queiroz Galvão Energia.
Sacramone, que é amigo do sucessor, afirma que Monteiro é o magistrado ideal para assumir o posto.
— Ralpho tem uma imagem de fortão que pode enganar, mas é um sujeito muito calmo e um professor muito estudioso, o que essa área muito especializada exige — conta.
Musculação e natação
Monteiro admite que o novo trabalho é desafiador e tem se dedicado. O estudo da nova Lei de Falências, promulgada em 2020, entrou em sua rotina, diz:
— Minha impressão preliminar é a de que hoje os credores estão em uma posição melhor do que antes da reforma da norma.
O magistrado pretende enfrentar recuperações judiciais de grandes empresas com o que aprendeu ainda adolescente, quando começou no fisiculturismo:
— É um esporte que você demora a perceber que, no fundo, é disciplina. As pessoas confundem e menosprezam muito com essa história de hormônio e anabolizante, mas isso é 5% (dos casos).
No dia a dia, Monteiro acorda por volta das 6h e logo pela manhã encara uma sessão de musculação. Já chegou a treinar duas vezes ao dia: natação de manhã e academia à noite.
No Judiciário, sua jornada começa às 11h e vai pelo menos até 19h. O estudo, a vida acadêmica e o lazer são alocados no período noturno, o que faz com que ele durma pouco. Só vai para a cama depois de 1h.
Durante a semana, o magistrado ainda consegue tempo para passar com o filho de 9 anos e, de vez em quando, ainda escreve como hobby. Ele trabalha em um livro sobre a Segunda Guerra Mundial, além de preparar uma reedição de seus livros de Direito já publicados.
Aulas on-line
No fim de semana, o professor ainda costuma usar os sábados para gravar suas aulas. Ele leciona há 20 anos e, atualmente, é docente de Direito Civil e Registros Públicos em cursos preparatórios para concursos públicos na Damásio, uma das maiores do ramo jurídico, e em especializações.
Colecionador de bonecos de super-heróis e de instrumentos musicais, ele diz saber que seu estilo distante do estereótipo do magistrado sisudo e formal lhe rende críticas veladas de alguns colegas, mas desperta admiração entre alunos, que costumam compará-lo ao ator de filmes de ação Vin Diesel:
— Eu não vejo problema em postar fotos. Treinar na academia com uma regata mais cavada, por exemplo, não condiz com a atividade de juiz? O juiz que joga tênis pode postar. O corredor pode postar correndo. O meu esporte é o fisiculturismo.
Na internet, Monteiro compartilha com seus seguidores suas rotinas de treino e alimentação, além de postar vídeos sobre temas relacionados ao Direito e dicas de estudo a seus alunos.
Sem política ou parceria com marcas
A recente moderação nas fotos, conta, já foi uma concessão aos pedidos da mãe. Também não fala de política e não faz parcerias com marcas de produtos fitness.
— Nego muita coisa. Já fui chamado para fazer campanha publicitária com minha noiva (a biomédica Mayara Stival, ex-musa do Brasileirão) e não topei. Eu poderia, se não recebesse para isso, mas pago por tudo o que recebo, faço questão.
Ele foge do padrão, mas sua família tem tradição na magistratura. Seu bisavô, Phidias de Barros Monteiro, foi juiz. O avô, Raphael de Barros Monteiro, ministro do Supremo Tribunal Federal no regime militar. O pai, Ralpho de Barros Monteiro, desembargador. Um de seus tios, Raphael de Barros Monteiro Filho, foi presidente do Superior Tribunal de Justiça.
— Passei no primeiro concurso que prestei. Na fase da prova oral, ser de família tradicional pode até ajudar, mas nas primeiras etapas a prova é cega. Apesar desse meu jeitão, sempre trabalhei e produzi muito — diz.
O concurso para a magistratura paulista é um dos mais concorridos do país. Em sua edição mais recente, teve 23.122 candidatos para preencher 310 postos, mas apenas 86 foram aprovados. Isso porque, historicamente, a maioria das vagas não é preenchida porque não há postulantes que atinjam a nota mínima exigida no processo seletivo.
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Combinação fatal: BURRICE+ESTUPIDEZ+COVID-19
Com apenas 30 anos, MORRE nos EUA LÍDER de movimento ANTIMÁSCARA

247 - O líder de um movimento antimáscara nos Estados Unidos, Caleb Walace, morreu aos 30 anos de Covid-19.
A informação é da esposa dele, Jessica Wallace. A notícia foi publicada em uma página de campanha virtual criada por Jessica para arrecadar fundos para cuidar do marido, que estava internado com a doença desde 30 de julho.
A informação é do portal UOL.
Segundo o Huffington Post, Wallace começou a sentir os sintomas da Covid-19 no dia 19 de julho deste ano, mas a mulher afirmou que ele se recusou a fazer o teste e começou a se medicar por conta própria com aspirina, zinco, vitamina C e ivermectina, medicamentos que não têm comprovação científica em relação à doença.
"Caleb morreu em paz. Ele viverá para sempre em nossos corações e mentes", escreveu a mulher na página da campanha. Wallace, que residia em San Angelo, no Texas, foi o fundador do grupo "The San Angelo Freedom Defenders" (Defensores da Liberdade de San Angelo, em tradução livre).
Caleb chegou a organizar um comício antimáscara no dia 4 de julho no ano passado, a chamada "The Freedom Rally". Mais tarde, em dezembro, publicou uma mensagem na página oficial do grupo defendendo que as máscaras não eram eficazes para prevenir contra a Covid-19. Apesar da crença, o uso da proteção é recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) no combate à pandemia.
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Fotógrafo com cem mil seguidores anda pelo Rio revelando personagens

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RIO — Foi sentado, olhando para o oceano, que o fotógrafo Wendy Andrade achou inspiração para uma série de imagens que mostram crianças brincando na água. Ele lembra que a coleção “Todo menino é um mar” começou a tomar forma neste momento, quando percebeu a festa na praia e foi percebido pelos meninos, os atuais protagonistas de suas lentes. No Rio ou em Salvador, passou a registrar, como ele mesmo explica, a alegria, a ausência de medo, a liberdade de ser dos pequenos seres anônimos. Decidiu então colocar à venda seus trabalhos pelo Instagram, onde é seguido por 101 mil pessoas, de Oskar Metsavaht a GiovanaEwbank, no perfil @_wendyandrade. E aí acabou vendendo todas as fotografias para gente do Rio, de Berlim e de Nova York.
— Essa série não foi pensada. Eu me dei conta depois, quando fui olhar o material e vi a quantidade de meninos no mar que eu tinha registrado. Eu me vejo nesses meninos. Vendi também, por meio da minha agente, para galerias da Europa e dos Estados Unidos. Ainda não tinha acreditado que as pessoas podiam gostar tanto do meu trabalho. Quando aconteceu, fiquei impressionado — diz Andrade, que da janela do apartamento que divide com um amigo, na Barão da Torre, em Ipanema, avista o Morro Dois Irmãos.

Formado em Publicidade pela PUC-RJ, Andrade também empresta suas imagens para ações e campanhas de marcas como Budweiser, Jeep e Uber. Como influenciador, já foi convidado para representar o lançamento no Brasil de um relógio da grife alemã Montblanc. Também constam parcerias com a Spotify e uma marca de uísque, a The Singleton.
Não é só pelas imagens que Andrade revela sua linguagem fotográfica marcante, seu estilo de vida e seu olhar certeiro para a sensibilidade e a beleza. Ele também escreve longos textos verticalizados em que fala sobre posições políticas, racismo, amor pelo Rio, origem humilde, lugares e amigos.
— Transmito emoções, opiniões e pensamentos de um determinado momento. Tem muita gente que fala que lê o que escrevo como poesia. Coloco minha escrita como relato e desabafo. Muitas vezes, é também uma provocação ou um convite à reflexão. Comecei a escrever na vertical porque, no início, o Instagram não tinha que ter texto. Mas eu queria que as pessoas lessem —explica o fotógrafo, que já retratou os artistas Emicida e Marcelo D2.
Conexão com as imagens iniciada na infância
Wendy Andrade conta que a sua relação com a máquina fotográfica vem de longe. Na infância, lembra que cada passo seu era registrado pelos pais. E ainda nem era a época das fotos tiradas a partir de aparelho celulares.
—Sempre fui muito fotografado por eles. Os celulares só chegaram na minha adolescência, mas não com a qualidade que eles têm hoje — diz.
Andrade conta que uma tremenda mudança em sua vida aconteceu em 2013, quando ele saiu de uma comunidade em Duque de Caxias para estudar Comunicação Social na PUC-RJ, onde acabou optando por Publicidade.
—Entrei na faculdade com o ímpeto de ser repórter, mas a fotografia me conectava de uma forma muito forte, apesar de eu não conseguir me enxergar fotógrafo — afirma.
Andrade conta que foi depois de recusar “uma oportunidade de trabalho irrecusável”, ainda no primeiro período, que resolveu levara sério a fotografia.
—Aconteceu que fui chamado para trabalhar numa agência. Demorei para responder, mas me decidi depois de fotografar uma ação no Joá e perceber que aquilo é que eu tinha tesão de fazer: fotografar —lembra Andrade, que em 2018 foi convidado para registrar o festival Afropunk, em Nova York.

‘Retrato negro’, série a caminho
Em 2016, no dia 13 de maio, data em que é comemorada a abolição da escravatura no Brasil, Wendy Andrade começou uma série, “Retrato negro”, que ganhou destaque. Seriam 366 imagens de homens, mulheres, jovens, crianças e idosos de todas as regiões do Brasil. Para ser registrado por ele, o único pré-requisito é que a pessoa se reconhecesse como negra. Muitos anônimos nunca haviam antes estado diante das lentes de um fotógrafo profissional e posaram no lugar escolhido por eles, para imagens que transmitem empoderamento e beleza. Algumas meninas viraram modelos depois de serem retratadas. Andrade acredita que a diversidade é o que transforma.
— Sou contra contextualizarem as pessoas em um âmbito só. Eu posso estar em um hotel chique de Ipanema e em Duque de Caxias. Sobre o “Retrato negro”, é um projeto importante para mim, porque foi muito de dentro de fora. Ele me ajudou a me enxergar, me reconhecer nesse mundo, aceitar meu cabelo, me entender como bonito. A maior descoberta que você pode fazer é se descobrir. Quando a coisa é de verdade, tudo acontece — diz Andrade.
A série “Retrato negro” começou em um ano bissexto, com a proposta de uma foto por dia, totalizando 366 imagens:
— Parei de postar no Instagram na foto 100 e tenho outras fotos que estão sendo produzidas. Estou pensando em um projeto maior, numa exposição grande. Já tenho mais ou menos 240 fotos produzidas. Acho que em mais dois anos termino o projeto, e vai ser bem bonito.
Outro trabalho recente que chamou a atenção foi o “366quarentena”, um a espécie de diário de imagens formado durante a pandemia. Se com a máquina fotográfica a relação é cada vez mais estreita, o fotógrafo conta que o seu tempo no celular e nas redes sociais vem sendo cada vez menor e mais bem administrado.
—Não levo o celular para a academia, nem para o supermercado. Desabilitei notificações. Acho que esse mundo é um disparador de ansiedade. Consegui me reeducar — afirma o fotógrafo
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Grazi Massafera fala, pela primeira vez, sobre assédios que já sofreu no trabalho e término com Caio Castro

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Sobre a mesa do escritório de Grazi Massafera, há um caderno grande, de capa dura, cujas folhas guardam as últimas descobertas sobre assuntos que lhe interessam. “Tenho caderno de estudo!”, gaba-se a atriz, enquanto folheia as páginas cheias de anotações. “Nunca fiz faculdade. Então, estou descobrindo como absorvo informações sobre cultura e tudo mais. Preciso escrever e conversar, porque a memória, às vezes, falha.”
Desde que a pandemia assombrou o mundo, a atriz, de 39 anos, vivencia “um retorno para dentro”. Enquanto encara as mudanças de peito aberto, ela confirmou, neste fim de semana, o término do namoro de dois anos com Caio Castro. "Meu relacionamento com o Caio chegou ao fim porque entendemos que era hora de seguirmos separados", disse, com exclusividade, à Revista ELA. "O que posso dizer agora é que encerramos a nossa história."
Grazi também conta que chegou a tomar “asco” das redes sociais, recusou trabalhos e parou de dar entrevistas. “Pode ver que não participei de lives”, diz. “Minha empresária quase deu uma surtadinha.” Grazi não tem nada contra as transmissões ao vivo, mas estava ocupada cuidando da sua reconstrução. Começou a fazer aulas sobre cinema, racismo e feminismo, em busca de uma nova maneira de ler o mundo.
Ironicamente, a atriz que voltou ao ar com uma reprise, na reexibição de “Verdades Secretas” pela TV Globo, nunca esteve tão focada no presente. Ainda acha cedo para retomar a agenda profissional e quer estar totalmente renovada quando chegar a hora. Os primeiros sinais dessa transformação já começaram a aparecer. No início de julho, Grazi postou em sua conta no Instagram uma imagem de uma das passeatas contra o governo Bolsonaro e a seguinte legenda: “Não dá mais para ignorar que estamos em perigo”. Também se sente mais confortável para falar sobre temas espinhosos pela primeira vez, como os assédios que já sofreu e os rótulos em que tentaram lhe aprisionar. “Cansei de ser Cinderela, sabe? Sou mais do que isso”, desabafa, numa entrevista de uma hora e meia por chamada de vídeo.
O GLOBO - Como é voltar ao ar com Larissa, personagem que lhe rendeu uma indicação ao emmy?
GRAZI MASSAFERA - Ela foi uma catarse de um momento de indecisão artística. Era um período em que decidia se ia seguir ou não (na atuação). Eu a construí com a maior humanidade possível. Fui até a cracolândia (a personagem é uma modelo usuária de drogas e que se prostitui), conversei com várias pessoas e fiz diversos estudos no corpo para entender como age cada droga que ela podia usar.
Você já experimentou alguma droga?
Não. E isso foi ainda mais desafiador. Bebo, no máximo, uma tacinha de vinho. Não gosto de nada que me tire do controle. Já tive casos de alcoolismo na família.
Por que a Larissa não vai estar na segunda temporada da série?
Ela teve início, meio e fim. Sei que a genialidade do Walcyr (Carrasco) vai além, e a segunda temporada poderia ser incrível. Mas é uma questão de maturidade de atriz, de ter autoestima e falar: “Agora, quero ser só espectadora”.
Sentiu medo de que não fosse tão bom novamente?
Não. Nunca tive medo de arriscar na vida. É ter respeito pela personagem, que cumpriu o seu papel.
Você já disse que as pessoas torcem muito pelas suas personagens. Como é isso?
Surgi lá no “Big Brother”, e o povo tinha um carinho imenso por mim. Isso se transferiu para as personagens. Entrava nas novelas como a cereja do bolo, na parte de publicidade, porque não era confiável como atriz. E não era mesmo. Hoje, conquistei uma torcida também pela personagem. Houve uma coisa estranha com a Larissa, porque ela atraiu o desejo dos homens, como fetiche. Certa vez, quando era solteira, estava flertando, e o cara disse: “A Larissa vem, né?”. Fiquei muda. Peculiaridades do ser humano.
Qual a sua situação em relação à TV Globo?
Fiz um comentário que foi mal interpretado (Grazi disse a um seguidor, no mês passado, que sairia da emissora em breve). Existem novos tipos de parcerias surgindo, tipo, por obras. O contrato de exclusividade só vai permanecer se for bom para os dois lados.
Como descreveria a sua situação profissional?
Estou em casa, cuidando mais da minha filha. Também estou estudando sobre racismo e feminismo, um pouco mais sobre política social. Vivo uma reestruturação interna até para saber como agir em relação à vida profissional. Não sei o caminho exato, mas novidades virão, assim como uma nova pessoa.
De onde veio a ideia de estudar sobre o racismo?
A Taís (Araujo) me ligou e botou uma pulga atrás da minha orelha. Assisti duas vezes à peça “O topo da montanha” (espetáculo sobre Martin Luther King estrelado por Taís e o marido, Lázaro Ramos), e ela me perguntou: “Não quer saber mais sobre a sua história?”. Pela nossa história, entendemos a estruturação do racismo, os benefícios que nós, brancos, temos e a omissão sobre a escravidão. Estou estudando sobre eugenia também. Isso me causa náuseas e arrepios pelo corpo, de tamanha crueldade.
Como é essa rotina de estudos?
Tenho aulas sobre a estrutura do racismo e do feminismo no nosso país, duas vezes por semana, com a Fernanda Felisberto, e sobre cinema, uma vez por semana, com o Rodrigo Fonseca. Tenho pensado muito sobre a expressão “mimimi”, algo que a minha filha Sofia me perguntou o significado outro dia. Primeiramente, li aquela frase de que “mimimi” é a dor do outro que você não sente. Mas estou também ressignificando isso. Acho que é a sua dor para a qual você não quer olhar.
Que dores você descobriu nessa imersão?
Por mais que seja branca, dentro de todo o padrão mais favorecido, também tenho as minhas questões que toda mulher precisa lidar na carreira e na vida.
Certamente, esbarrou no tema do assédio...
Estou mais sensível ao tema, embora tenha encontrado formas de lidar com ele intuitivamente. Houve um momento profissional em que estava numa novela, e tinha um produtor casado na equipe que dava em cima de mim. Deixei claro que “não”. E, a partir daí, ele começou a me menosprezar, boicotar e destratar no que se referia às questões da personagem. Eu não tinha mais retorno dele, e tudo foi se tornando muito difícil. Ainda estava amadurecendo como atriz, precisando de um auxílio, mas tive a infelicidade de lidar com esse tipo de gente. Por outro lado, houve momentos em que consegui responder de um jeito descontraído. Uma vez, estava indo para um trabalho numa van, e toda a equipe havia dormido, menos eu e um outro produtor. Ele, então, virou-se para mim e disse: “Seus olhos brilham até no escuro”. Para cortá-lo, respondi com algo que minha mãe dizia quando eu era criança: “É verme”. Eu naturalizava essas coisas. Hoje, não mais.
O que a levou a fazer uma postagem crítica à maneira como Bolsonaro reage à pandemia?
Não apoio um governo que não valorize questões de humanidade ou retroceda justamente nos aspectos que estou estudando.
Várias atrizes vêm sendo pressionadas a se posicionarem sobre temas políticos. Sentiu isso?
No meu caso, foi uma pressão que partiu de mim. Se tomamos atitudes pressionadas pelo lado de fora, fazemos merda. Como disse, estou no caminho, no meu processo.
Muitas pessoas se mostraram surpresas com a sua atitude. colocaram você numa personagem?
Sim, porque isso vende. Fui criada na época em que os contos de fadas tinham aquelas princesas idealizadas e houve um momento em que acreditei nessa narrativa. Então, não julgo quem fez isso. Existe essa história na minha vida, da menina pobre que veio do interior. É muito legal, estimula muita gente, mas não se sustenta. Cansei dessa história de ser Cinderela, sabe? Sou mais do que isso.
Acha que subestimam a sua inteligência?
Passei muito por isso na época de miss, com aquela ideia da mulher bonita e ideal para o cara ter ao lado. A loura burra, sabe? E eu acreditei. A gente tem que se proteger dessas ciladas. Estou num processo de autovalorização.
Sua relação com a rede social está mudando?
Houve uma época em que peguei asco. Não quero só me beneficiar financeiramente dessa ferramenta. Tem muita gente que me segue e, por isso, há uma responsabilidade. Eu não saí da rede, mas comecei a observar mais.
A Sofia está com 9 anos. Já se prepara para a chegada da pré-adolescência dela?
Na minha casa era proibido falar sobre o meu órgão genital, por exemplo, mas o meu irmão podia tocar (no dele). Então, falo com ela sobre como tomar cuidado com o próprio corpo, sobre toques. Acho que ela está indo para um caminho especial. E o pai faz a parte dele. Tem toda uma parceria com o Cauã (Reymond).
Você vai fazer 40 anos no ano que vem. Ansiosa?
Adoro falar que já tenho essa idade, porque acho lindo. Estou encantada e muito realista com o que vem junto.
Tipo o quê?
Olho no espelho e já não tenho mais 20 nem 30, e está tudo bem. Estou me apaixonando por cada momento.
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Além do roubo de cabos, bandidos agora sequestram antenas da rede móvel de telefones | Lauro Jardim - O Globo
Por Lauro Jardim

No primeiro semestre foram furtados 2,3 milhões de metros de cabos de telecomunicações, quantidade suficiente para cobrir a distância entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires, uma alta de 14% ante o mesmo período de 2020, de acordo com dados inéditos da Conexis, o sindicato das empresas de telecom.
Os estados de São Paulo (com 25%) e Rio (21%) lideram o ranking de furtos. O Paraná aparece em terceiro lugar, com 8%, seguido por Pernambuco (6%) e Minas Gerais (4%).
O roubo de cabos é um velho problema, mas a péssima novidade para o setor é outro tipo de crime, que vem ganhando escala: é o chamado sequestro de antenas de rede móvel.
Funciona assim: criminosos bloqueiam o acesso às antenas e aos equipamentos de rede instalados e pedem um resgate às empresas.
O campeão da modalidade é Rio (embora em São Paulo e Minas Gerais isso também ocorra): em março deste ano, havia 26 antenas de celular e internet móvel sem possibilidade de acesso pelas empresas.
Como as empresas não pagam o resgate, os equipamentos furtados acabam sendo repassados para serviços clandestinos operados basicamente por milicianos.
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Arrastão, a guerra da praia | Ruth de Aquino - O Globo
Por Ruth de Aquino
Por Ruth de Aquino
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Preso, morto ou ditador
Mais apocalíptico do que nunca, Bolsonaro repetiu seus arrotos autoritários, neste sábado (28), num templo evangélico de Goiânia, revelando que
1) morre de medo de perder em 2022;
2) morre de medo de ser preso e
3) e POR ISSO pretende CONTINUAR no poder MESMO_PERDENDO em 2022.

Mais apocalíptico do que nunca, Bolsonaro repetiu seus arrotos autoritários, neste sábado (28), num templo evangélico de Goiânia, revelando que
1) morre de medo de perder em 2022;
2) morre de medo de ser preso e
3) e POR ISSO pretende CONTINUAR no poder MESMO_PERDENDO em 2022.


“Só Deus me tira da presidência”.
Alternativas de futuro: “Estar preso, ser morto ou a vitória”.
Mais apocalíptico do que nunca, Bolsonaro repetiu seus arrotos autoritários, neste sábado (28), num templo evangélico de Goiânia, revelando que 1) morre de medo de perder em 2022; 2) morre de medo de ser preso e 3) e por isso pretende continuar no poder mesmo perdendo em 2022.
Preso, morto ou ditador.
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Como se defender contra ataques do spyware israelense Pegasus
O niilismo de segurança é a ideia de que os ataques digitais se tornaram tão sofisticados que não há nada a ser feito para impedir que eles aconteçam ou para diminuir o seu impacto. Mas esse tipo de conclusão seria um erro. Por um lado, ele dá aos hackers mal intencionados exatamente o que eles gostariam, que seus alvos parem de se defender. Também é um erro factual: você pode se defender contra o spyware do NSO — por exemplo, seguindo técnicas de segurança operacional, como não clicar em links desconhecidos, praticar a compartimentalização de dispositivos (como usar dispositivos separados para aplicativos diferentes), e ter uma rede privada virtual, ou VPN, em seus dispositivos móveis. Essas técnicas são eficazes contra toda sorte de ataques digitais e, portanto, úteis mesmo se o NSO Group estiver correto em suas alegações de que as supostas evidências contra a empresa não são válidas.
Pode até não haver segurança perfeita, como afirma um ditado clássico na área, mas isso não é desculpa para a passividade. Aqui, então, estão alguns passos práticos que você pode seguir para reduzir sua “superfície de ataque” e se proteger contra spywares como o do NSO.
O Pegasus oferece “acesso ilimitado aos dispositivos móveis do alvo”
As recentes revelações dizem respeito a um spyware específico da NSO, conhecido como Pegasus. Elas vêm após extensos estudos anteriores do software da empresa feitos por entidades como Citizen Lab, Amnesty International, Article 19, R3D, e SocialTIC. A seguir vai o que sabemos especificamente sobre o Pegasus.
Os recursos do software foram descritos no que parece ser um folheto promocional do NSO Group datado de 2014 ou anterior e disponibilizado quando o WikiLeaks publicou uma coleção valiosa de e-mails relacionados a uma empresa de spyware diferente, a Hacking Team, da Itália. A autenticidade do panfleto não pode ser confirmada, e o NSO disse que não fará mais comentários sobre o Pegasus. Mas o documento vende o Pegasus de forma agressiva, dizendo que ele fornece “acesso ilimitado aos dispositivos móveis do alvo” e permite que os clientes “coletem remota e secretamente informações sobre os relacionamentos, localização, ligações, planos e atividades de seu alvo — quando e onde quer que eles estejam”. A brochura também afirma que o Pegasus pode:
- Monitorar chamadas de voz e VoIP em tempo real.
- Extrair contatos, senhas, arquivos e conteúdo criptografado do telefone.
- Funcionar como um “grampo ambiental”, ouvindo pelo microfone.
- Monitorar as comunicações feitas por aplicativos como WhatsApp, Facebook, Skype, Blackberry Messenger, e Viber.
- Rastrear a localização do telefone via GPS.
Apesar de todo o hype, porém, o Pegasus é apenas uma versão glorificada de um tipo antigo de malware conhecido como Cavalo de Troia de Acesso Remoto, ou RAT na sigla em inglês: um programa que concede a uma parte não autorizada o acesso total a um dispositivo-alvo. Em outras palavras, embora o Pegasus possa ser potente, a comunidade de segurança sabe bem como se defender contra esse tipo de ameaça.
Vejamos as diferentes maneiras como o Pegasus pode potencialmente infectar telefones — seus vários “vetores de instalação de agentes”, na própria linguagem do panfleto — e como se defender contra cada um.

Driblando o caça-clique de engenharia social
Há inúmeros exemplos nos relatos de ataques do Pegasus de jornalistas e defensores dos direitos humanos que receberam mensagens de SMS e WhatsApp como isca, ordenando-os a clicar em links maliciosos. Os links baixam spyware que se aloja nos dispositivos por meio de falhas de segurança em navegadores e sistemas operacionais. Esse vetor de ataque é chamado Mensagem de Engenheiro Social Aprimorado, ou ESEM na sigla em inglês, no folheto que vazou. Ele afirma que “as chances de o alvo clicar no link são totalmente dependentes do nível de credibilidade do conteúdo. A solução Pegasus fornece uma ampla gama de ferramentas para compor uma mensagem personalizada e inocente para atrair o alvo a abrir a mensagem”.
‘As chances de o alvo clicar no link são totalmente dependentes do nível de credibilidade do conteúdo’.
Como o Comitê para Proteção de Jornalistas detalhou, as mensagens-isca do tipo ESEM vinculadas ao Pegasus se enquadram em várias categorias. Algumas afirmam ser de organizações conhecidas, como bancos, embaixadas, agências de notícias, ou serviços de entrega de encomendas. Outras se referem a questões pessoais, como trabalho ou suposta evidência de infidelidade, ou afirmam que o alvo está enfrentando algum risco de segurança imediato.
Ataques ESEM futuros podem usar tipos diferentes de mensagens como isca, por isso é importante tratar com cautela qualquer uma que tente convencê-lo a realizar uma ação digital. Alguns exemplos do que isso significa na prática:
- Se você receber uma mensagem com um link, particularmente se ela incluir um senso de urgência (informando que um pacote está para chegar ou que seu cartão de crédito vai ser cobrado), evite o impulso de clicar imediatamente nele.
- Se você confia no site do link, digite o endereço manualmente.
- Se for a um site que você visita com frequência, salve-o em uma pasta de favoritos e acesse o site apenas a partir do link em sua pasta.
- Se você decidir clicar no link ao invés de digitá-lo ou visitar o site através dos seus favoritos, pelo menos examine o link para confirmar que ele realmente leva a um site que você conhece. E lembre-se que ainda assim é possível ser enganado: alguns links de phishing utilizam letras de aparência semelhante de um conjunto de caracteres de outro alfabeto, no que é conhecido como ataque homógrafo. Por exemplo, um “O” cirílico pode ser utilizado para imitar o “O” latino que vemos em inglês e português.
- Se o link parece ser uma URL encurtada, use um um serviço expansor de URL, como o URL Expander ou o ExpandURL para revelar o link longo real antes de clicar.
- Antes de clicar em um link aparentemente enviado por alguém que você conhece, confirme que aquela pessoa realmente o enviou; a conta dela pode ter sido hackeada ou seu número de telefone falsificado. Confirme usando um canal de comunicação diferente daquele em que você recebeu a mensagem. Por exemplo, se o link veio por email ou mensagem de texto, telefone para o remetente. Isso é conhecido como verificação ou autenticação fora de banda.
- Pratique a compartimentalização de dispositivos, utilizando um dispositivo secundário sem nenhuma informação confidencial para abrir links não confiáveis. Lembre-se de que, se o dispositivo secundário estiver infectado, ele ainda pode ser usado para monitorar você por meio do microfone ou da câmera, portanto, mantenha-o em uma bolsa Faraday quando não estiver em uso — ou, pelo menos, longe de onde você mantiver conversas confidenciais (uma boa ideia mesmo se estiver em uma bolsa Faraday).
- Use navegadores que não são padrão. De acordo com a seção intitulada “Falha de instalação” na brochura vazada da Pegasus, a instalação pode falhar se o alvo estiver utilizando um navegador não compatível e, em particular, um diferente daquele navegador “padrão do dispositivo”. Mas o documento já tem vários anos e é possível que o Pegasus hoje suporte todos os tipos de navegadores.
- Se há qualquer dúvida sobre um link, a melhor medida de segurança operacional é evitar abrir o link;
Frustrando ataques de injeção de rede
Outra maneira pela qual o Pegasus infectou dispositivos em vários casos foi interceptando o tráfego de rede de um telefone usando o que é conhecido como ataque de intermediário, ou MITM na sigla em inglês. Nele, o Pegasus interceptou o tráfego de rede não criptografado, como solicitações HTTP da web, e o redirecionou para cargas maliciosa. Fazer isso envolvia enganar o telefone para que ele se conectasse a um dispositivo portátil que fingia ser uma torre de celular próxima ou obter acesso à operadora de celular do alvo (plausível se o alvo está em um regime repressivo onde o governo fornece os serviços de telecomunicações). Esse ataque funcionou mesmo se o telefone estivesse no modo apenas para dados móveis e não estivesse conectado ao wifi.
Quando Maati Monjib, cofundadora da ONG Freedom Now e da Associação Marroquina de Jornalismo Investigativo, abriu o navegador Safari de seu iPhone e digitou yahoo.fr, o Safari primeiro tentou acessar http://yahoo.fr. Normalmente, isso teria redirecionado para https://fr.yahoo.com, uma conexão criptografada. Mas, como a conexão de Monjib estava sendo interceptada, ela a redirecionou para um site malicioso de terceiros que, por fim, invadiu seu telefone.
‘Digitar apenas o domínio do website em um navegador abre espaço para ataques, porque o navegador vai tentar realizar uma conexão não criptografada ao site’.
Digitar apenas o domínio do site (como yahoo.fr) na barra de endereços do navegador sem especificar um protocolo (como https://) abre a possibilidade para ataques MITM, porque seu navegador, por padrão, vai tentar uma conexão HTTP não criptografada ao site. Normalmente, você chega ao site verdadeiro, que imediatamente o redireciona a uma conexão HTTPS segura. Mas, se alguém está rastreando para hackear seu dispositivo, a primeira conexão HTTP é uma abertura suficiente para sequestrar a conexão.
Alguns sites protegem contra isso usando um recurso de segurança complicado conhecido como HTTP Strict Transport Security, que evita que o navegador faça uma solicitação não criptografada para eles, mas você nem sempre pode contar com isso, mesmo para alguns sites que o implementam corretamente.
Essas são algumas coisas que podem ser feitas para prevenir esse tipo de ataques:
- Sempre digite https:// ao acessar os sites.
- Favorite URLs seguras (HTTPS) dos seus sites mais acessados, e use elas em vez de digitar o domínio diretamente.
- Como alternativa, use um VPN em seus dispositivos desktop e móveis. Um VPN canaliza todas as conexões com segurança para o servidor VPN, que então acessa sites em seu nome e os retransmite de volta para você. Isso significa que um invasor que monitora sua rede provavelmente não será capaz de realizar um ataque MITM bem-sucedido, pois sua conexão está criptografada para VPN — mesmo se você digitar um domínio no navegador diretamente sem o “https://”.
Se você usa um VPN, lembre-se que seu provedor de VPN tem a capacidade de espionar o tráfego da internet, por isso é importante escolher um confiável. O blog Wirecutter publica uma comparação completa e atualizada regularmente dos provedores de VPN com base em seu histórico de auditorias de segurança feitas por terceiros, suas políticas de privacidade e termos de uso, a segurança da tecnologia VPN utilizada e outros fatores.
Exploits sem cliques
Ao contrário das tentativas de infecção que exigem que o alvo execute alguma ação, como clicar em um link ou abrir um anexo, os exploits (no sentido de “explorar” uma vulnerabilidade do sistema) sem cliques recebem esse nome porque não exigem interação do alvo. Tudo o que é necessário é que a pessoa visada tenha um aplicativo ou sistema operacional vulnerável específico instalado. O relatório forense da Anistia Internacional sobre as evidências recentemente reveladas do Pegasus afirma que algumas infecções foram transmitidas através de ataques sem cliques, utilizando os aplicativos Apple Music e iMessage.
Seu dispositivo deveria ter o mínimo necessário de aplicativos
Esta não é a primeira vez que as ferramentas do NSO Group são vinculadas a ataques sem cliques. Uma queixa de 2017 contra o ex-presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, afirma que jornalistas, figuras políticas, ativistas sindicais e líderes de associações civis foram alvos do Pegasus e notificações desonestas recebidas em seus dispositivos, enquanto em 2019 o WhatsApp e o Facebook registraram queixa alegando que o NSO Group desenvolveu um malware capaz de explorar uma vulnerabilidade sem cliques do WhatsApp.
Como as vulnerabilidades de clique zero, por definição, não precisam de nenhuma interação do usuário, elas são as mais difíceis de se defender. Mas os usuários podem reduzir suas chances de sucumbir ao reduzir o que é conhecido como “superfície de ataque” e praticando a compartimentalização de dispositivos. Reduzir a superfície de ataque significa simplesmente minimizar as possíveis formas de infecção do dispositivo. A compartimentalização de dispositivos significa espalhar seus dados e aplicativos em vários dispositivos.
Especificamente, os usuários podem:
- Reduzir o número de aplicativos no telefone. Quanto menos portas destrancadas sua casa tem, menos oportunidades um ladrão tem para entrar; de forma similar, menos aplicativos significam menos portas virtuais para invadir o celular. O dispositivo deve ter o mínimo necessário de aplicativos de que você precisa para executar as funções do dia-a-dia. Há alguns aplicativos que não podem ser removidos, como o iMessage; nesses casos, muitas vezes é possível desativá-los, embora isso também faça com que as mensagens de texto não funcionem mais no seu iPhone.
- Monitore regularmente seus aplicativos instalados (e suas permissões), e remova aqueles de que não precisa mais. É mais seguro remover um aplicativo raramente usado e baixá-lo novamente quando realmente precisar dele do que deixá-lo permanecer no telefone.
- Atualize regularmente o sistema operacional do telefone e aplicativos individuais, uma vez que as atualizações corrigem vulnerabilidades, às vezes até de forma não intencional.
- Compartimentalize os aplicativos que sobrarem. Se o celular só tem o WhatsApp instalado e for invadido, o hacker vai pegar os dados do WhatsApp, mas não outras informações sensíveis como email, calendário, fotos ou mensagens do Signal.
- Mesmo um telefone compartimentalizado pode ser usado como um grampo e um dispositivo de rastreamento, então mantenha seus dispositivos fisicamente compartimentalizados — ou seja, deixe-os em outra peça da casa, idealmente em uma bolsa anti-sabotagem.
Acesso físico
Uma última maneira pela qual um invasor pode infectar seu telefone é interagindo fisicamente com ele. De acordo com o folheto, “quando o acesso físico ao dispositivo é uma opção, o agente Pegasus pode ser injetado manualmente e instalado em menos de cinco minutos” — embora não esteja claro se o telefone precisa ser desbloqueado ou se os invasores são capazes de infectar até mesmo um telefone protegido por PIN.
Parece não haver casos conhecidos de ataques do Pegasus lançados fisicamente, mas esses exploits podem ser difíceis de detectar e serem distinguidos dos ataques online. Algumas maneiras de mitigá-los:
- Sempre tenha seus dispositivos à vista. Perdê-los de vista abre a possibilidade de comprometimento físico. Obviamente há uma diferença entre um agente alfandegário pegando seu telefone no aeroporto e você deixar o laptop em uma peça da sua residência enquanto vai ao banheiro, mas todos envolvem algum risco, e você terá que calibrar sua própria tolerância ao risco.
- Coloque seu dispositivo em um saco anti-sabotagem quando precisar deixá-lo sem vigilância, especialmente em locais de maior risco, como quartos de hotel. Isso não impedirá que o dispositivo seja manipulado, mas pelo menos dará um alerta de que o dispositivo foi retirado da bolsa e pode ter sido adulterado, momento em que o dispositivo não deve mais ser usado.
- Use telefones descartáveis e outros dispositivos compartimentados ao entrar em ambientes potencialmente hostis, como prédios do governo, incluindo embaixadas e consulados, ou ao passar por pontos de controle fronteiriço.
Outras recomendações gerais:
- Use o Mobile Verification Toolkit da Anistia Internacional se você suspeita que seu telefone foi infectado com o Pegasus.
- Faça backups regulares dos arquivos importantes.
- Finalmente, não faz mal resetar regularmente seu telefone.
Embora o Pegasus seja um spyware sofisticado, há passos tangíveis que você pode dar para minimizar a chance de seus dispositivos serem infectados. Não existe um método infalível para eliminar o risco por completo, mas certamente há coisas que você pode fazer para diminuir esse risco, e com certeza não há necessidade de recorrer à visão derrotista de que “não somos páreo” para o Pegasus.
Tradução: Maíra Santos
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O ultracatólico que treinou a extrema direita brasileira em 2013

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Renata e Felipe


O primeiro chamado: a farmacêutica conhecida como ‘a mulher que calou as feministas’ e o influenciador combatente ferrenho da ‘ideologia de gênero’.Fotos: Reprodução/Facebook
“Faça sua inscrição para o Workshop com Ignacio Arsuaga, Presidente da Hazteoir – Espanha: Como construir com êxito um movimento social.
Dia 05 de novembro das 19 às 21:30 horas.
Todos os dados são obrigatórios. Inscrições gratuitas.”
Começa assim o anúncio publicado no endereço biopolitca.com.br naquele final de 2013. Não adianta procurar pelo site, ele não existe mais (mas está disponível neste link, arquivado na plataforma Internet Archive). O impacto que aquele pequeno anúncio publicado em um canto obscuro da internet causou na política brasileira, no entanto, é visível e causa estragos até hoje.

Anúncio no site abriu portas para o ideário de Arsuaga no Brasil.
Poucos meses antes daquele novembro de 2013, o Brasil pegou fogo. Não foi por acaso que Ignacio Arsuaga esteve aqui justamente no fim daquele ano. As manifestações de junho tinham rasgado o tecido social do país. Era a chance que os católicos ultraconservadores esperavam para finalmente fazer prosperar suas pautas reacionárias.
Naquela época, o site Biopolítica estava registrado em nome de Renata Gusson Agelune Martins. A farmacêutica tinha virado notícia um ano antes, em 2012, quando apareceu em uma subcomissão do Senado em que se discutiam as políticas públicas do Ministério da Saúde para mulheres. Discursando contra o direito ao aborto, Martins declarou, sem provas, que as pautas feministas no Brasil eram financiadas por interesses internacionais. Ela ficou conhecida na extrema direita como “a mulher que calou as feministas”.
Martins é mulher do influenciador Felipe Nery, que se apresenta no Instagram como “Católico, pai de família e trabalhador na vinha do Senhor no apostolado da Educação”. Em seus posts e pregações, Nery é um dos mais ferrenhos combatentes do que ultraconservadores como ele chamam de “ideologia de gênero” e defensor intransigente da ideia de que uma família só pode ser composta por um homem e uma mulher, definidos como pai e mãe pela biologia. Eram esses os temas essenciais que o casal discutia na época em que criou o site.
Com o chamado para o evento com Arsuaga publicado no Biopolítica, Martins e Nery estavam interessados em saber como os espanhóis tinham se organizado para interferir em políticas públicas e fazer valer suas ideias no país.

Ignacio

Foto: Divulgação/HazteOir.org
Ignacio Arsuaga veio ao Brasil com um propósito: aglutinar e equipar os ativistas de extrema direita brasileiros. A ideia era reproduzir aqui o sucesso da organização espanhola.
Com a Hazte Oir, Arsuaga pautava conversas públicas, influenciava políticos, tinha encontros no Vaticano, levantava dinheiro e conseguia estar sempre em evidência. A Hazte Oir e o Citizen Go eram notícia constante, por exemplo, na Agência Católica de Informações, a ACI Prensa, serviço em cinco línguas e um dos maiores geradores de conteúdo noticioso católico do mundo. Renata Martins ficou mundialmente famosa por lá, apresentada como a Madre Brasileña antiaborto. Foi a ACI Prensa que, em 2013, espalhou notícias falsas como a de que a Organização Mundial da Saúde, a OMS, ensinava menores a abortar e a se masturbar.

Cartão de embarque de Ignacio Arsuaga.
Criada em 2001, a Hazte Oir foi o ponto de partida do que se tornaria, mais tarde, a CitizenGo, uma versão turbinada da mesma ONG, mas com propósitos diferentes. A CitizenGo coletava assinaturas para abaixo-assinados a serviços de pautas que até hoje seus defensores chamam de “pró-vida”, o que basicamente significava tirar o poder das mulheres de decidirem sobre seu próprio corpo em causas como a do aborto, por exemplo.
Em seus anos de militância, a Hazte Oir se aproximou do Vaticano a ponto de Arsuaga conseguir marcar encontros com o próprio papa Francisco. Com acesso a cardeais importantes da Santa Sé, pegava deles instruções sobre como internacionalizar o movimento. A organização ouviu do monsenhor Carrasco de Paula, então presidente do Pontifício Conselho para a Vida, que a CitizenGo deveria focar em “unir os movimentos pró-vida do mundo”, para que as mesmas pautas fossem tocadas em países diversos. Do monsenhor Antoine Camilleri, subsecretário de Estado da Santa Sé, a ONG recebeu o conselho de montar grupos de pressão na ONU e na OEA. E assim fez.
Em uma das apresentações que trouxe ao Brasil em 2013, Arsuaga ensina como construir uma organização social do zero. Simplificando, o modelo gira em torno de identificar os inimigos, recolher e-mails de apoiadores, captar recursos e fazer lobby e uso intensivo de redes sociais para pautar a política. Em outro documento, usado para treinar equipes, estão as bases do que eles chamavam de “guerra cultural”, expressão que seria largamente usada por influenciadores de extrema direita no Brasil durante a campanha de Bolsonaro.

Protestos da ‘Hazte Oir’ eram turbinados com conselhos de líderes católicos contra o que chamavam de ‘leis ideológicas da esquerda’– caso de leis sobre aborto, violência de gênero e direitos LGBTQI+.
Foto: Marcos del Mazo/LightRocket via Getty Images
Entre as bases da tal “guerra cultural” estão combater a ideia universal de direitos humanos e promover o discurso de ódio a minorias e ao “lobby LGBT”. Em mais um documento, “abortistas e lobby gay” são identificados como “cultura da morte”. Em outro, defendia-se a ideia de que as sociedades usam a aids como desculpa para vender preservativos (e assim frear o nascimento de crianças). Em um quarto, havia críticas ao “politicamente correto” e à masturbação.
Os inimigos apontados nos treinamentos são o comunismo, a ONU e financiadores como George Soros. Todos estariam unidos em um lobby pelo globalismo que deseja destruir as famílias e implantar uma espécie de ditadura gay mundial. Soa como o Brasil que conhecemos a partir da campanha e do governo de Bolsonaro? Sim, porque é uma cópia escarrada da agenda dos espanhóis. Até mesmo o “kit gay” que Bolsonaro levou ao Jornal Nacional durante a campanha de 2018 já tinha sido explorado pela Hazte Oir em 2013. Na Argentina.
3
Os padres José Eduardo e Paulo Ricardo


O padre da diocese de Osasco e o amigo de Olavo de Carvalho.Fotos: Reprodução/Facebook
No evento de treinamento de Arsuaga no Brasil, outra figura que se tornaria importante na militância bolsonarista foi anunciada. Tratava-se do padre José Eduardo. No release do evento, publicado pelo ACI Prensa, ele é apresentado como “padre da diocese de Osasco e membro da comissão em defesa da vida do regional Sul 1 da CNBB”, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Eu cheguei ao padre José Eduardo por acaso. O site Biopolítioca, mantido à época pelo casal Renata e Felipe, tinha em seu rodapé a seguinte informação: “Copyright © 2014 – Observatório Interamericano de Biopolitica”. Decidi ir atrás do observatório e descobri seu CNPJ, registrado em nome de Felipe Nery. E o endereço: Avenida Padre Vicente Melillo, 831. Não precisou muito para que o Google Maps me mostrasse que o endereço da empresa fica em uma igreja.
Encontrei o padre dessa mesma igreja no Instagram, em foto de 15 de março de 2015, com o cantor, compositor e radical de direita Lobão em uma manifestação para derrubar a então presidenta Dilma Rouseff. O laço com a CitizenGo de Ignacio Arsuaga também estava ali: o padre José Eduardo, em Brasília, entregando um abaixo assinado com o logotipo da organização, três dias depois da manifestação.


Fotos: Reprodução/Instagram
Em nova busca pelo nome do padre no Google, cheguei a um seminário de biopolítica do qual ele participou em dezembro de 2013, poucos dias depois do treinamento com Arsuaga. Com ele no seminário, em outra foto, estava o padre Paulo Ricardo, amigo de Olavo de Carvalho e um influente evangelizador “pró-vida” que, mais tarde, se converteria em pregador bolsonarista de primeira ordem, arregimentando um milhão de seguidores no Instagram.

Fotos: Reprodução/Redes sociais
Paulo Ricardo foi o tutor do ativista católico de extrema direita Allan dos Santos, do site bolsonarista Terça Livre, quando ele foi seminarista. Hoje autoexilado nos Estados Unidos, Santos está implicado em diversos processos no Brasil – o mais recente é uma denúncia do Ministério Público Federal, o MPF, contra ele por ameaças ao ministro do Supremo Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE.
4
Allan dos Santos

Foto: Alessandro Dantas/PT no Senado
Não há, nos documentos da Wikileaks, a lista dos participantes do treinamento de Arsuaga no Brasil. Pode-se dizer sem medo de errar, no entanto, que seu conhecimento foi espalhado e rendeu frutos. O espanhol ensinou como as organizações poderiam levantar dinheiro aproveitando suas redes. O esquema funcionava basicamente a partir de listas de e-mails, com as quais as entidades poderiam pedir apoio financeiro para levar suas pautas adiante. As técnicas foram depois atualizadas e sofisticadas, inclusive com uso do software Sales Force, uma das mais poderosas máquinas digitais de relacionamento com clientes do mundo.
O sistema funcionava espetacularmente bem. Uma tabela que está no acervo da Wikileaks mostra que, em apenas nove meses, de dezembro de 2013 a setembro de 2014, a CitizenGo levantou 530 mil euros apenas enviando e-mails para uma base de destinatários de língua portuguesa. A lista, que começou com 2.302 inscritos, teria, ao final daquele período, 239.528 pessoas. Entre os títulos dos e-mails estavam “A você, que é um ‘reacionário estúpido’…” e “Se (nós) não fizermos algo, vão matá-la…”.

Padre Paulo Ricardo e Allan dos Santos (ao centro): ele foi tutor do jornalista quando seminarista, muito antes do bolsonarismo.
Foto: Reprodução/Facebook
Com seus planos de expansão global – como mostra o planejamento 2013-2014 do grupo: “Lanzar CitizenGO (HO en todo el mundo: español, inglés, portugués, francés, alemáy n, italiano, polaco, ruso” – Arsuaga voou para o Equador, onde participou de um evento chamado Congresso Pró-Vida. Nele estava também Felipe Nery, o influenciador ultracatólico brasileiro. Mas o legado do espanhol deu resultados no Brasil.
No inquérito que apurou a participação de militantes de extrema direita nos atos antidemocráticos, a Polícia Federal, a PF, relatou: “Durante a busca e apreensão executada na residência de Allan dos Santos, foi encontrada uma planilha de doadores do canal Terça Livre, via plataforma Apoia.se, contendo mais de 1.700 linhas. Entre os 16 primeiros doadores, há um servidor público do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (Raul Nagel) que realizou 27 transações que totalizaram R$ 40.350. Giuliano Carvalho, servidor da Secretaria da Fazendo do Rio de Janeiro, realizou 31 transações que totalizaram R$ 15.500. Christiano Cavalcante (servidor do Senado Federal) doou, em 3 transações, R$ 15.000. Já a servidora do BNDES Ana Maria da Silva Glória doou diretamente na conta de Italo Lorenzon Neto (sócio do Terça Livre) ao menos R$ 70.000”.

A PF recomendou que a Procuradoria-Geral da República, a PGR, desse continuidade à investigação. O procurador-geral Augusto Aras, no entanto, mandou arquivar o pedido. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, acatou. Mas, em seguida, determinou a abertura de um novo inquérito sobre o assunto, em que Jair Bolsonaro mais tarde foi incluído como investigado a pedido do TSE.
Renata Gusson Martins, do site Biopolítica, foi relacionada com o grupo de pessoas que atacaram a avó da criança de 10 anos, estuprada, que precisou passar por um aborto legalmente previsto no Espírito Santo. Na ação, ocorrida setembro do ano passado, foram usados dados sigilosos e o nome da ministra Damares Alves.
Rodrigo Rodrigues Pedroso, um dos nomes que assinam os artigos inaugurais do site de Martins e de seu marido em 2013, foi convidado por Damares para integrar o grupo que vai revisar a política nacional de direitos humanos.
Eles estão todos por aí.
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A máquina de vendas que financia Olavo e a extrema direita

Só Olavo recebeu mais de R$ 106 mil do Cedet, em 2017, como ele mesmo informou na declaração de imposto de renda disponível nos documentos de um processo movido contra ele pelo músico Caetano Veloso. Segundo o Cedet, trata-se do pagamento de direitos autorais do guru bolsonarista.
Olavo, Ana Campagnolo e Italo Marsili tiveram livros lançados pelo Cedet. As livrarias virtuais também vendem títulos selecionados por influenciadores da extrema direita, de publicações com inspiração no extremismo católico da CitizenGO a escritos de economistas ultraliberais, como Ludwig von Mises, que teve obras editadas por selos do próprio Cedet.
Até agosto de 2021, 81 domínios de sites eram vinculados ao CNPJ do Cedet, segundo consulta no Registro.br, do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, o NIC.br. Pouco conhecida, a história da empresa é um retrato da ascensão do boom editorial da extrema direita no Brasil, um fenômeno que vem se desenrolando ao menos há uma década.
Entre 2009 e 2019, o Cedet se mudou de uma casa simples para um galpão num complexo industrial em Campinas. O capital social sextuplicou, indo de R$ 20 mil a R$ 120 mil, ainda modesto para uma empresa de pequeno porte, faixa em que o faturamento atualmente pode chegar a R$ 4,8 milhões anuais.

Segundo uma fonte que já fez parte do Cedet – e que conversou com o Intercept sob a condição de anonimato –, as editoras e o olavismo têm uma relação de benefício mútuo. A empresa supriu a demanda do mercado editorial aberta por vozes como a de Olavo. Já o guru bolsonarista se valeu da capacidade operacional do Cedet para se consolidar como principal voz da extrema direita. “Não foi do nada que surgiu [o boom do mercado editorial conservador], nem foi sozinho. Foi uma escalada”, definiu a fonte.
Especializado em telecomunicações, com mestrado e doutorado em engenharia elétrica, César Kyn D’Ávila, um dos sócios do Cedet, incluiu no Lattes (a plataforma de currículos acadêmicos no Brasil) um “Seminário de Filosofia” como pós-doutorado. O curso, segundo ele, foi realizado em 2009, quando ocorreu a primeira edição do curso de filosofia de Olavo – e quando o Cedet passou a publicar livros, após 27 anos atuando num ramo diferente.
A outra sócia majoritária é a engenheira Adelice Leite de Godoy D’Ávila. Conservadora, ela já afirmou na Câmara de Campinas ser integrante do Observatório Interamericano de Biopolítica, uma organização que combate a “ideologia de gênero” e faz parte de um movimento católico ultraconservador que se define como “pró-vida” – ou seja, que combate o direito ao aborto.
Como o Intercept revelou, uma organização que usava o domínio biopolitica.com.br trouxe ao Brasil Ignacio Arsuaga, idealizador de movimentos de extrema direita na Espanha. Em 2013, Arsuaga veio ao país para juntar militantes e ensiná-los como montar e financiar organizações como a dele.

Na selfie com arminhas de Henrique Lima, do Ministério Público de Contas do Rio, Bernardo Küster (à esquerda, de camiseta verde), Silvio Grimaldo (à direita, de azul e usando barba) e Cesar Kyn D’Ávila (ao lado dele, de camiseta regata) comemoram os 10 anos do Foro de Paraty. Ao fundo, Deise Fabiana Ely, de verde.
Foto: Reprodução/Instagram
Foro de Paraty
Foi por volta de 2008 que Silvio Grimaldo – aluno, assistente e mais tarde administrador do curso de filosofia de Olavo – começou a buscar uma editora disposta a publicar os livros do guru. Quem conta a história é Francisco Escorsim em uma coluna no jornal Gazeta do Povo.
À época, Olavo havia rompido relações com o editor Edson Manoel de Oliveira Filho, da É Realizações. Segundo Escorsim, foi de uma conversa entre Grimaldo e D’Ávila, na casa de Olavo, que surgiu a ideia para os primeiros selos editoriais do Cedet, Vide e Ecclesiae, em 2009.
Grimaldo e D’Ávila se denominaram Foro de Paraty, um contraponto óbvio ao Foro de São Paulo, um dos alvos preferidos da extrema direita. Grimaldo já postou fotos no Instagram com D’Ávila e Küster usando a expressão como legenda.
Olavo nasceu em Campinas e vivia até há pouco tempo na Virgínia, nos Estados Unidos – ele retornou ao Brasil para um tratamento médico e está internado desde 9 de agosto no Instituto do Coração, o Incor, em São Paulo. Nas palavras de Heloísa de Carvalho, filha de Olavo, Grimaldo é “o braço direito, o esquerdo e as duas pernas do guru no Brasil”.
- César Kyn D’Ávila (ex-aluno de Olavo de Carvalho)
- Adelice Leite de Godoy D’Ávila (integrante de movimento católico conservador)
- Vinicius Belandrino Bardella (ex-aluno de Olavo)
- Deise Fabiana Ely (professora universitária, casada com Silvio Grimaldo, do Brasil Sem Medo, ex-aluno e administrador do curso de Olavo).
- Autores como Ana Campagnolo (Vide), Alexandre Costa (Vide), Bene Barbosa e Flávio Quintela (Vide), Fausto Zamboni (Kírion), Rodrigo Gurgel (Vide), Italo Marsili (Auster), Paulo Ricardo (Ecclesiae), o atual secretário de alfabetização Carlos Nadalim (Kírion) e o ex-ministro Ricardo Vélez Rodriguez (Vide)
- O Foro de Paraty: César Kyn D’Ávila, Silvio Grimaldo, Bernardo Küster, Arno Alcântara Junior, Carlos Nadalim e Henrique Lima
- Aliados como Paulo Briguet (Brasil Sem Medo) e Filipe Barros (deputado federal pelo PSL do Paraná), além de editores e influenciadores digitais de extrema direita como o Terça Livre
No Facebook, uma das fotos do álbum público de Deise Fabiana Ely, casada com Grimaldo e atualmente sócia do Cedet, tem Grimaldo e D’Ávila posando com cachimbos ao lado de Arno Alcântara Junior (produtor digital de Londrina e sócio do Brasil Sem Medo), Carlos Nadalim (atual secretário de Alfabetização do Ministério da Educação) e Henrique Lima (procurador do Ministério Público de Contas do Rio de Janeiro e colunista do Terça Livre). A legenda: “Homens do Foro [de Paraty] e Campinas”.

Carlos Nadalim, do MEC, Henrique Lima, do Ministério Público, Cesar Kyn D’Ávila, Arno Alcântara Júnior e Silvio Grimaldo: olavetes aplicados, segundo a filha do guru.
Para Heloísa de Carvalho, o Foro de Paraty “é a cúpula” do círculo da extrema direita brasileira. “Estar ali não é pra qualquer olavete”, ela disse.
Paraty, cidade histórica no sul do Rio de Janeiro, desde 2003 abriga a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Trata-se de um dos símbolos do mainstream editorial. Segundo uma fonte próxima ao Cedet, o apelido “Foro de Paraty” é uma ironia que começou quando Grimaldo e D’Ávila viajaram com o influenciador da extrema direita católica (e padre) Paulo Ricardo para gravar vídeo-aulas na cidade. O combo de livro, DVD e CD “Vaticano II: ruptura ou continuidade” foi lançado pela Ecclesiae, do Cedet, em 2009.


O condomínio empresarial onde o Cedet tem sede, em Campinas: 1.740 metros quadrados de área útil e segurança reforçada.Fotos: Reprodução/GR Properties
‘Saltos maiores’
O Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico, origem da sigla Cedet, foi aberto em julho de 1982. A empresa nasceu com o objetivo de prestar “serviços de consultoria e assessoria técnico-científica, de desenvolvimento de recursos humanos, bem como em qualquer outra forma aplicável ao seu ramo de atividade, nas áreas de administração, planejamento e tecnologia industrial”, conforme contrato disponível na Junta Comercial do Estado de São Paulo, a Jucesp, que o Intercept requereu e analisou.
O Cedet foi fundado pelo engenheiro Saul Gonçalves D’Ávila, professor da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, e outros quatro sócios. Em 1986, eles deixaram o negócio, e ele então incluiu como sócia a esposa, a bióloga Tiyoka Mori D’Ávila. Em 2006, a empresa foi transferida para o filho do casal, César Kyn D’Ávila, e a esposa dele, Adelice Leite de Godoy.
Foi só em maio de 2009 que o Cedet incluiu entre suas atividades a “edição integrada à impressão de livros”. O primeiro endereço da editora era uma casa de tijolos à vista na Rua Ângelo Vicentin, em Barão Geraldo, região muito valorizada de Campinas por ficar próxima à Unicamp.
Ao Intercept, o Cedet informou que “instabilidades nos mercados em que atuava entre os anos de 2002 e 2006 [consultoria, treinamentos e assessoria técnica nas áreas de administração e tecnologia industrial] suscitaram a vontade dos sócios em atuar de forma mais próxima do consumidor final, diminuindo a dependência de contratos com grandes empresas”.

Daí, segundo a empresa, veio a decisão de publicar e vender livros, apoiada na experiência com a edição “de mais 200 apostilas”, a emergência do mercado de e-books e “o alto grau de conhecimento dos consultores em automatização e otimização de processos para redução de custos e aumento de eficiência”. O encontro entre D’Ávila e Grimaldo, narrado na Gazeta do Povo, não foi mencionado pela empresa.
Barão Geraldo é uma espécie de bolha universitária. Quem mora ali são majoritariamente professores e estudantes. Entretanto, diversas fontes consultadas pelo Intercept disseram desconhecer a credibilidade da editora nos círculos acadêmicos.
Foi apenas em 2018 que o Cedet saiu de Barão Geraldo rumo a um pequeno prédio na rua Armando Strazzacappa, na Fazenda Santa Cândida. O negócio cresceu e, no ano seguinte, a sede se consolidou em um imponente condomínio empresarial e logístico na avenida Comendador Aladino Selmi, na Vila San Martin, o que coincidiu com a entrada de dois novos sócios: o engenheiro paulista Vinicius Belandrino Bardella e a geógrafa gaúcha Deise Fabiana Ely, professora da Universidade Estadual de Londrina, a UEL, no Paraná.

Na placa que indica as empresas instaladas no condomínio, o espaço do Cedet (número 8) está vazio.
Foto: Nayara Felizardo para o Intercept Brasil
Na Vila San Martin, o Cedet ocupa um dos 21 módulos do complexo, que funciona nos moldes de um condomínio fechado e possui segurança reforçada. Cada módulo possui 1.740 metros quadrados, dos quais 225 são destinados, em mezaninos, para a instalação dos escritórios. O Cedet ocupa o de número 8, o que a reportagem só descobriu ao perguntar ao porteiro – o espaço correspondente na placa que anuncia os nomes dos ocupantes de cada um dos módulos está vazio, o que indica um apreço pelo anonimato.
Em 2020, o Cedet abriu uma filial em João Pessoa, na Paraíba, para reduzir o prazo de entrega de encomendas no Nordeste. Segundo a empresa, trata-se de “uma unidade piloto para saltos maiores” no futuro. “Nos próximos anos, o escopo de parcerias deve ser ampliado inclusive para contemplar pontos de venda físicos e editores de pequeno para médio porte”, afirmou.
Pedi ao Cedet informações sobre tiragens e vendas dos livros que publica. A empresa se gaba de ter visto “a oportunidade de implementar inovações que são mudanças de paradigma para todo o mercado editorial”, mas não quis apresentá-las. “Dados de faturamento, outros índices e quantitativos, por motivos óbvios, não são divulgados”, afirmou.
Mas o Cedet fez questão de dizer que possui “um modelo de negócios único e inovador para pequenos editores e pontos de venda online”, que “permite a permanência no mercado de livros com baixo nível de vendas, ou seja, as eficiências obtidas permitem a exploração lucrativa da cauda longa do mercado de livros”.

Nando Moura, ex-parceiro da Cedet numa livraria virtual: ‘Um negócio absurdo, avassalador’.
Foto: Reprodução/YouTube
‘A fome com a vontade de comer’
Ex-aluno de Olavo, o músico e youtuber paulistano Nando Moura foi um dos influenciadores que ajudou a catapultar o modelo de negócios do Cedet. Por volta de 2017, Moura fez uma entrevista com o instrutor de tiro Bene Barbosa, coautor de “Mentiram para mim sobre o desarmamento” (com o jornalista Flávio Quintela), publicado pela Vide Editorial, do Cedet, em 2015. Barbosa já tinha uma livraria digital operada pela empresa. Após a entrevista, D’Ávila procurou Moura e o convidou para também abrir uma loja virtual.
“A livraria, na verdade, é um modelo de negócio pensado pelo César, onde ele pega determinado influenciador, e o influenciador faz a curadoria dos livros, ou seja, o que ele acha que é legal vender […]. Ele faz esse modelo de negócios e aí se cria essa plataforma”, relatou Moura, em vídeo publicado no YouTube em 16 de março de 2021. “Foi juntar a fome com a vontade de comer”.
Nas palavras de Moura, a livraria foi um sucesso, “um negócio absurdo, avassalador”. Nesse modelo, a Cedet se encarrega da infraestrutura e do atendimento ao cliente,enquanto o influenciador serve como vitrine dos produtos – eles precisam ter “pelo menos 100 mil seguidores e bom engajamento nas postagens em redes sociais”, segundo o site da empresa.
- Cedet monta e administra livrarias virtuais, cadastra e estoca produtos num depósito, atende pedidos online, faz cobranças dos pedidos e fretes, despacha encomendas e emite notas fiscais.
- Influenciador paga domínio de internet, faz curadoria dos livros e divulga loja virtual.
- Cedet ganha com a venda de produtos e livros impulsionada pelas personalidades de extrema direita.
- Influenciador ganha comissão e amplifica sua influência na extrema direita.
No fim das contas, o Cedet ganha com a venda de livros (inclusive editados por ela mesma), impulsionada pela visibilidade dos influenciadores. Esses, por sua vez, ganham comissões e amplificam as ideias ultraconservadoras que defendem.
“Esse modelo de negócios deu tão certo que depois diversos influenciadores do nicho conservador acabaram tendo sua livraria […]. Foi criada uma rede de livrarias atrelada a esse modelo de negócios que eu e César fizemos funcionar na internet. […] Depois, esses caras começaram a me apunhalar pelas costas”, Moura reclamou, no YouTube. Entre “esses caras” estão Allan dos Santos, Bernardo Pires Küster e Sara Winter, por ele definida como “praticamente uma analfabeta”.
“Esses caras” também têm problemas com as autoridades. Sara, cujo sobrenome real é Geromini, foi detida e ficou presa por dez dias em junho de 2020 sob suspeita de organizar e captar recursos para atos antidemocráticos. Santos e Küster são investigados no inquérito das fake news do Supremo Tribunal Federal, o STF, e tiveram seus sigilos financeiros quebrados pela CPI da Covid no Senado.
Perguntei ao Cedet se a empresa vê motivos de preocupação nisso. “Todas as livrarias virtuais sob nossa gestão e editoras parceiras são empresas”, foi a resposta. “Todo pagamento efetuado do Cedet para seus parceiros é feito contra a apresentação de nota fiscal do serviço prestado. Não existe nenhum motivo para preocupação”.
Moura acabou por romper com “esses caras” e parte da extrema direita brasileira quando passou a criticar o governo de Jair Bolsonaro. “Tirei todos os livros do Olavo de Carvalho da minha livraria. Não consigo mais reconhecer o autor dos livros que eu li. E li praticamente todos, 95% [deles]”, disse o músico noutro vídeo, postado no YouTube em 27 de outubro de 2019.
O racha levou o youtuber a se afastar também do Cedet e fechar sua livraria virtual – segundo ele, por iniciativa própria. “Não vou ficar em qualquer lugar onde fique o senhor Bernardo Küster. Liguei para o César e disse: onde estiver esse cara, esse canalha, eu não participo”, justificou. Procurado por e-mail pelo Intercept, Moura não retornou os pedidos de entrevista.
O berço do olavismo
Olavo é reconhecido como “guru” por gente importante do bolsonarismo. Desde a posse de Bolsonaro, “olavetes” (como o próprio autor já se referiu a seus seguidores) ocuparam ou ocupam cargos importantes da República.
Olavete é também o nome de uma das livrarias do Cedet, que conta com clube de leitura e site. Se Olavo pariu a ninhada de influenciadores de extrema direita ao redor do bolsonarismo no governo, o Cedet foi um dos berços.
“Olavo é um fenômeno duradouro e que por décadas foi encarado com certa displicência pela academia. Ele sedimentou um movimento antiacadêmico que mistura citações de filósofos clássicos com polêmicas vazias de sentido. Se existe alguém que realmente pratica doutrinação política como se fosse um processo educativo é Olavo”, criticou o historiador Fernando Nicolazzi, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a UFRGS.
‘É um ecossistema puxado pelo Olavo, que alega que o mercado editorial, a mídia e as universidades são partes do marxismo cultural e vende a promessa de trazer à luz um conhecimento ‘proibido”.
Para o historiador Gilberto Calil, professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, a Unioeste, a ascensão da extrema direita no Brasil se desenrolou desde os anos 2000 e teve Olavo como figura-chave. Trata-se de um fenômeno editorial, que envolveu um elemento empresarial e um foco ideológico, a tal “guerra cultural”. “Um projeto político fascistizante, que mobiliza ressentimentos como todo fascismo faz: a construção do discurso de um inimigo, as teorias da conspiração são combustível para sua propagação”, resumiu Calil.
Para dar vazão às teorias da conspiração, o olavismo acabou por inventar suas próprias rodas culturais, cujo expoente máximo é o curso de filosofia criado pelo guru, e que precisaram de editoras dispostas a publicar e livrarias para vender conteúdo alinhado. Foi aí que entrou o Cedet.
Para o antropólogo David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, abriu-se um mercado a partir do curso de filosofia de Olavo para propagar literatura conservadora do século 20, até então pouco difundida no país. “Editoras são uma peça no quebra-cabeças do Olavo.”
De um lado, o fenômeno editorial conservador (com a tradução de autores como Xavier Zubiri e Eric Voegelin, ambos no catálogo do Cedet) busca dar ares de fundamentação teórica para as mídias digitais bolsonaristas. De outro, o núcleo de influenciadores digitais de extrema direita ajuda a popularizar paulatinamente essas ideias, o que é visível, por exemplo, na difusão de memes com citações de livros indicados por eles.
“Trata-se de um ecossistema puxado pelo Olavo, que alega que o mercado editorial, a mídia e as universidades são partes do marxismo cultural e, a partir daí, vende a promessa de trazer à luz um conhecimento ‘proibido’ no mundo intelectual brasileiro que, segundo ele, seria de esquerda. A ideia é liderar uma revolução cultural conservadora no Brasil”, disse Nemer, que pesquisa grupos bolsonaristas no WhatsApp.

Facas e canivetes à venda na livraria do armamentista Bene Barbosa, administrada pelo Cedet.
Foto: Reprodução
Os tentáculos da guerra cultural
O link “onde estamos” das 72 livrarias virtuais administradas pelo Cedet traz o mesmo número de CNPJ e o endereço da empresa de Campinas.
Em tese, o fato de um CNPJ concentrar diversas editoras e livrarias não é incomum. “Há no mercado editorial uma tendência à concentração. No Brasil não é diferente: diversos selos editoriais outrora autônomos (com CNPJ próprio) passam a ser parte de um conglomerado central”, avaliou o editor Paulo Verano, professor da Universidade de São Paulo, a USP.
- 7 editoras: Vide Editorial (2009), Ecclesiae (2009), Edições Livre (2016), Kírion (2017), Auster (2019), Sétimo Selo (2021) e Pelicano (2021).
- Mais de 20 editoras parceiras, entre elas: Armada (de Márcio Scansani), Danúbio (de Diogo Fontana, ex-aluno de Olavo de Carvalho), Estudos Nacionais (de Cristian Derosa, ex-aluno de Olavo e colunista do Brasil Sem Medo).
- Mais de 70 livrarias virtuais, entre elas: Brasil Sem Medo, Folha Política, Terça Livre, Ana Campagnolo, Bernardo Küster, Bene Barbosa, Flavio Morgenstern (Senso Incomum), Italo Marsili, Leda Nagle, Luís Ernesto Lacombe, Rodrigo Constantino, Rodrigo Gurgel, Sara Winter e Seminário Online de Filosofia.
No modelo de negócios do Cedet, segundo a página oficial, não há custo para os parceiros do negócio (exceto a compra do domínio na internet). “Notas fiscais, cobrança, logística, visitas comerciais, acertos de consignação e outras atividades ficam por conta do Cedet”. No Brasil, não é obrigatória a divulgação da tiragem de livros, o que dificulta ter dimensão das operações da editora.
Além de “mais de 10 mil livros”, nas livrarias do Cedet é possível vender “brinquedos e jogos, camisetas, imagens religiosas, adesivos, óculos, material esportivo, café, cutelaria, e artigos de defesa pessoal”.
A livraria de Küster, por exemplo, oferece como “souvenires” imagens de santos e anjos. A de Barbosa tem uma seção de “artigos de defesa pessoal” com canivetes, facões e máquina de choque.
A livraria de Sara Winter traz camisetas “Meu partido é o Brasil” com uma mancha vermelha, em referência ao atentado à faca sofrido por Bolsonaro. Vivendo sob restrições impostas pela justiça, ela disse em entrevistas recentes que passou a se dedicar à formação intelectual de seus seguidores em um clube de “alta cultura”, um curso online que contaria com aulas de Olavo e “masterclasses” sobre guerra semântica e militância.
De Küster a Winter, o ecossistema ao redor de Olavo congrega desde monarquistas a católicos ultraconservadores, passando por agitadores tresloucados a autores pretensamente mais sofisticados, analisou Pablo Ornelas Rosa, professor da Universidade Vila Velha, a UVV, que estuda a movimentação de grupos bolsonaristas no WhatsApp e o mercado editorial.
“O Cedet simboliza a vanguarda dessa literatura de direita, mas é só a ponta do icerberg. O olavismo faz parte de um processo que articulou outras editoras e se infiltrou nos think tanks liberais e nas instituições”, disse Rosa, citando como exemplo o memorável seminário sobre “globalismo” realizado pelo Itamaraty e a Fundação Alexandre Gusmão, a Funag, em junho de 2019.
Não por acaso tida como “bunker olavista”, a Funag convidou Alexandre Costa e Flávio Morgenstern, autores do Cedet, para participar do evento. Filipe Martins, assessor especial para Assuntos Internacionais do governo federal, incluiu o best-seller olavista “O jardim das aflições”, também publicado pelo Cedet, na bibliografia do seminário. Em dezembro de 2019, a fundação convidou para uma conferência o advogado Evandro Pontes, que traduziu para o português o livro “A virtude do nacionalismo”, do filósofo israelense Yoram Hazony, também lançado pelo Cedet.
Apesar das relações de seus autores e vendedores com o governo Bolsonaro, o Cedet diz não ter interesse em contratos com o poder público. “Por princípio, o Cedet não realiza negócios com governos ou participa de licitações”, me disse a empresa, por e-mail.
As respostas às questões da entrevista vieram acompanhadas de uma advertência com claro tom de ameaça: o Cedet disse que processaria o Intercept se suas respostas não fossem publicadas na íntegra, sem edição. Editar informações prestadas por fontes, para fins de clareza ou espaço, é uma prerrogativa do jornalismo – desde que, é claro, preserve-se o sentido original.
“Edições, manipulações, extrações de partes fora de contexto poderão ensejar ações judiciais para pedido de direito de resposta, retratações públicas e/ou compensações financeiras por danos à imagem da empresa”, diz o e-mail.
Vinda de uma empresa que faz negócios com arautos das fake news e teorias da conspiração, a preocupação com o contexto e a exatidão de informações não deixou de ser uma surpresa.
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Criolo faz ação pró-LGBT após prefeito justificar censura de clipe ao dizer que não tolera 'viadagem' em sala de aula (vídeo)
O cantor Criolo convocou catarinenses a comparecem à Parada LGBT em Criciúma (SC), após o prefeito Clésio Salvaro (PSDB) demitir um professor por ter mostrado em sala de aula o clipe da música Etérea, que faz uma reflexão sobre a necessidade de respeito à diversidade sexual. "Essa ‘viadagem’ na sala de aula, nós não concordamos", disse o tucano. Assista ao clipe

247 - O cantor Criolo promoveu uma campanha de combate à homofobia e convidou catarinenses a comparecem à Parada LGBT marcada para este sábado (28) no município de Criciúma. O artista teve a iniciativa após o prefeito Clésio Salvaro (PSDB) anunciar na quarta-feira (25) a demissão de um professor de artes do nono ano da Escola Municipal Pascoal Meller, no Bairro Santa Augusta, porque o docente mostrou em sala de aula o clipe da música Etérea. A canção fez uma reflexão sobre a necessidade de respeito à diversidade sexual.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o prefeito chamou o conteúdo do clipe de "viadagem". "Não permitimos, não toleramos, está demitido o profissional. Nas escolas do município, enquanto eu estiver aqui de plantão, isso não vai acontecer, esse tipo de atitude, essa ‘viadagem’ na sala de aula, nós não concordamos. E se os pais souberem de algo parecido que foi exposto para os seus filhos, por favor, entrem em contato com o município", afirmou.
Após tomar conhecimento do ocorrido, o cantor se pronunciou por meio de sua equipe e destacou que o clipe e o documentário de "Etérea", realizado com artistas LGBT, não teve restrição no Youtube.
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'MENSALÃO foi ARMAÇÃO contra PETISTAS, diz Henrique Pizzolato
Ex-diretor do Banco do Brasil denuncia FARSAS PROCESSUAIS de JOAQUIM_BARBOSA, reafirma INOCÊNCIA e critica CUMPLICIDADE do STF

Opera Mundi - No programa 20MINUTOS ENTREVISTA desta quarta-feira (25/08), o jornalista Breno Altman entrevistou o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, um dos réus condenados na ação 470 e último dos petistas a sair da cadeia.
Segundo ele, o Mensalão “foi uma armação contra os petistas”, que contou com a cumplicidade da imprensa e cuja consequência foi “a criação de um monstro, [Jair] Bolsonaro”. Pizzolato afirmou que o motivo pelo qual foi condenado e deve pagar uma dívida, “impagável, que eu demoraria 170 anos para pagar”, o suposto desvio de R$ 73,8 milhões e que foi a base de todo o Mensalão, “não passou de uma farsa, de fake news”.
O ex-diretor do Banco do Brasil explicou que foi provado que aquele dinheiro não era público, era da VisaNet, e que toda a quantia foi adequadamente aplicada em eventos para os quais havia contratos, mas o ministro Joaquim Barbosa escondeu esse processo, não tocou nas provas para garantir uma condenação a qualquer custo.
"O dinheiro não era do Banco do Brasil. Tenho as cópias das notas fiscais das contratações que provam que não foi desviado nem um centavo. O dinheiro foi totalmente gasto corretamente, existem os documentos, a Receita Federal reconheceu a aplicação. Só que com isso acabava o Mensalão e eles já tinham vendido o peixe e execrado todo o mundo em praça pública", reforçou.
De acordo com Pizzolato, que teve de fugir para a Itália “porque não podia me render àquela armação”, a Polícia Federal contribuiu para criar mais fantasias ao redor do processo: “Não à toa [o ministro] Luís Roberto Barroso segurou a minha pena, demorou para me liberar. Criaram todas essas dificuldades porque queriam fechar o caixão. O sonho do Barroso era que eu não ia resistir, ia me entregar ou ia morrer e aí acabava tudo. Eles fechavam o caixão e ficava aquela história como a verdade”.
Por isso, hoje, o ex-diretor do Banco do Brasil diz lutar para que seu caso seja revisado, "o Brasil merece a verdade, se não essa história vai se repetir”.
52 meses em regime fechado
Contando o tempo que ficou preso na Itália e no Brasil, Pizzolato passou 52 meses em regime fechado.
“É uma queimadura de 3º grau, em que a pele não se refaz mais. Eu vivi desde as dores da perda do meu pai e da minha sogra, que nem pude ir ao enterro, até os abraços de solidariedade na Itália, a solidariedade dos presos no Brasil. Conheci o lado humano do andar debaixo, encontrei humanidade naqueles que a sociedade considera dejeto humano. E conheci o lado mais perverso dos que têm poder”, discorreu.
Na cadeia no Brasil, o petista lutou para a criação de uma escola de alfabetização, já que, segundo ele, 80% dos presos não sabia sequer assinar o próprio nome. Ele também contribuiu montando uma biblioteca e distribuindo comidas para os presos.
Na Itália, por outro lado, ele destacou a existência de projetos de reintegração de presos com atividades, cooperativas e o tratamento menos truculento dentro da cadeia.
Legado
Depois de toda essa vivência, o caso de Pizzolato será transformado em um documentário dirigido por Silvio Tendler, “é a primeira vez que o Silvio faz um documentário com alguém que ainda está vivo”.
A obra será parte da luta que o ex-diretor do Banco do Brasil diz querer deixar de legado. Ele também disse esperar que seu caso seja estudado e sirva de lição para a esquerda, que ela não tenha mais ilusões com relação ao judiciário.
“Tenho convicção de que Lula será eleito, mas isso não basta. Temos que tomar posse e governar, temos que radicalizar a democracia, sem medo do povo. O PT precisa construir um projeto de país, mais do que um plano de governo, se não a história vai se repetir”, advertiu.
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'JOE BIDEN NÃO É PROGRESSISTA, afirma JODI DEAN
Autora apontou para as divisões dentro da esquerda estadunidense e a necessidade de reconstruir uma unidade para fazer a revolução

Opera Mundi - No programa 20MINUTOS INTERNACIONAL desta quinta-feira (19/08), o fundador de Opera Mundi, Breno Altman, entrevistou Jodi Dean, historiadora, professora e escritora norte-americana, autora do livro Camarada, recém-lançado no Brasil pela editora Boitempo.
Falando sobre a situação política de seu país, Dean reconheceu que os Estados Unidos não são uma democracia, “são uma oligarquia autoritária”, e, nesse cenário, com os dois maiores partidos do país sendo de cunho neoliberal, afirmou que “a esquerda contemporânea perdeu algo”.
Nesse sentido, para ela, o presidente Joe Biden não é progressista. Apesar de reconhecer que houve medidas positivas adotadas nos últimos seis meses, Dean disse que “precisamos de uma revolução e implementar um governo que reflita os interesses do povo”.
“A esquerda se esqueceu do que é estar do mesmo lado na luta política. Mesmo que não estejamos na mesma formação política, nossa luta é a mesma. Acho que quando a União Soviética acabou, além de uma fragmentação, houve uma desilusão sobre o que significava ser de esquerda”, refletiu.
Nos EUA, segundo a autora, a situação é ainda mais complexa pois o republicanismo já classifica os democratas como sendo marxistas, o que confunde ainda mais o sentimento de pertencimento dentro da esquerda e o que é ser progressista de fato.
“Do ponto de vista da direita, todos que acreditam em liberdade e igualdade são de esquerda. E a esquerda não sabe o que é ser de esquerda, então se ataca entre si”, discorreu.
Para ela, a linha que divide os dois lados é o capitalismo: “Podemos ter um capitalismo humano? Todos que se dizem progressistas, socialistas e marxistas devem dizer que não. Do ponto de vista capitalista não cabe o respeito à população negra, por exemplo, porque é possível lucrar com a exploração do povo negro. Ou seja, não tem como ter um mínimo de respeito e dignidade dentro do capitalismo”.
Dean é otimista e afirmou ser, não só possível, como necessário, um governo de esquerda no maior exemplo de capitalismo do mundo. Ela argumentou que o capitalismo norte-americano agora está gerando um “des-desenvolvimento” nos EUA e, por isso, “é necessário um governo revolucionário”.
Assim, ela acredita que o “horizonte comunista” ainda é válido: “É a linha que marca onde estamos e onde podemos estar, o que podemos alcançar. Precisamos de algo que nos mostre que não estamos condenados a ficar presos neste mundo neoliberal”.
A experiência soviética
A professora falou sobre a importância das experiências socialistas nesse horizonte comunista e discorreu especificamente sobre a URSS. Para ela, os soviéticos não foram derrotados.
“Porque a URSS acabou não significa que a experiência falhou. E nossa análise não pode ser só sobre como acabou e o que fez com que acabasse, mas também sobre seu rápido desenvolvimento econômico, aumento da população letrada, crescimento da expectativa de vida, conquistas nos direitos das mulheres, entre outros. As conquistas da URSS foram incríveis, mas tentamos documentar todos os erros”, ponderou.
Sobre a suposta falta de democracia que havia na URSS, Dean questionou: “Se os EUA não tivessem colocado tanta pressão nuclear sobre o país, a situação teria sido a mesma?”.
Por isso, sua referência principal é o leninismo, desde sua concepção da classe trabalhadora, “que une o proletariado industrial ao campesinato”, até sua forma de organização, com hierarquias e partidos, “com horizontalismo não se realiza nada, não é possível alcançar nenhum objetivo”.
“Um partido é necessário porque os trabalhadores estão desconectados. As separações que o capitalismo gera entre os trabalhadores deve ser remediada pelos partidos. E a interseccionalidade está implícita. Desde o começo, a questão das mulheres, por exemplo, sempre foi central para o socialismo e o comunismo. Questionar o marxismo como uma ideologia que prioriza apenas a questão de classe só evidencia as influências capitalista de quem faz a crítica”, defendeu.
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A intolerância religiosa e construção de um novo modelo civilizatório - Danilo Molina
Por Danilo Molina

As agressões e atos de intolerância religiosa, na Praça dos Orixás em Brasília, se tornaram uma triste rotina para os adeptos das religiões de matrizes africanas da Capital Federal. Desta vez, vândalos atearam fogo na imagem do orixá Ogum, mesmo expediente que já tinham utilizado contra Oxalá, em 2015. Inaceitável!
Depois do crime ocorrido, além da protocolar nota de repúdio, o Governo do Distrito Federal afirmou que a Polícia Civil foi acionada para investigar a autoria e a materialidade do ataque. Garantiu também que irá solicitar a instalação de vigilância no local e que providenciará a reposição da imagem vandalizada.
As promessas de providências do governo se repetem, assim como o descaso e as agressões que permanecem. A estátua de Oxalá incendiada em 2015 foi reposta, é verdade, entretanto, até hoje, os criminosos seguem impunes e não há qualquer patrulha ou ação do estado para garantir o respeito e o livre exercício da prática religiosa no local, tanto que o caso voltou a se repetir seis anos depois.
Conforme o IBGE, os adeptos das religiões de matrizes africanas são 0,2% dos moradores do Distrito Federal. Mas, o levantamento mais recente sobre o tema, feito com dados da delegacia especializada no Distrito Federal, apontou que 59,42% dos crimes de intolerância, somando todas as religiões, têm esses grupos como alvos.
Nem a pandemia deu trégua para a intolerância religiosa. Ao contrário, os dados evidenciam um crescimento nos casos de agressões. Em 2020, foram registradas 245 denúncias de atos discriminatórios contra umbandistas, candomblecistas e outros praticantes de expressões de fé de matriz africana, contra 211 do ano de 2018.
O estado laico e a garantia da liberdade de consciência e de crença, direitos assegurados pela Constituição Federal, parecem um sonho cada vez mais distante para os adeptos das religiões de matrizes africanas. Invariavelmente as agressões, as ofensas, os ataques criminosos e até mesmo as ameaças de morte tem as mesmas vítimas como alvo.
Infelizmente, nossa sociedade parece regredir rapidamente para o obscurantismo e para a narrativa de que a vontade da maioria deve se impor sobre os direitos das minorias. O discurso do ódio propalado por algumas lideranças políticas tem dado legitimidade a ações criminosas contra minorias.
Nesse caso, é imprescindível uma ação firme do estado, baseada em políticas públicas consistentes de intolerância contra qualquer ato de intolerância e de acolhimento e assistência às vítimas. Além disso, a mobilização permanente da sociedade se mostra como um poderoso agente capaz de criar um sistema de contrapeso e de tirar parte do poder público da inércia, especialmente no judiciário, no legislativo e no executivo de estados e de municípios.
É evidente que a intolerância religiosa é só uma das faces de um processo que está enraizado na estrutura social do país e que foi construído ao longo de nossa história. Por isso, o Brasil precisa enfrentar definitivamente seu passado colonial e de escravidão, que resultou em uma sociedade profundamente desigual, excludente, preconceituosa e racista.
A construção social desse novo processo histórico e de um novo modelo civilizatório só será possível com a defesa intransigente de uma cultura de paz e de respeito integral a todos os seres humanos, com a geração de oportunidades para todos, especialmente os historicamente segregados, excluídos e marginalizados. Essa não pode ser apenas uma diretriz do estado, mas deve estar no centro estratégico das políticas públicas de desenvolvimento nacional.
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O que deseja Lula? | Pedro Doria
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou nesta semana ao debate sobre “regular a mídia”. Entrou no assunto, como de praxe, de forma ambígua, confusa, misturando temas. Lula é também o favorito a chegar ao segundo turno contra o atual presidente, Jair Bolsonaro. Como Bolsonaro é golpista e quer ver a democracia pelas costas, faria bem ao Brasil que Lula esclarecesse quais são seus planos, suas ideias, o que quer dizer exatamente por “regular a mídia”.
Na quarta-feira, em discurso no Rio Grande do Norte, deixou claro que essa regulação é uma de suas prioridades. Numa entrevista ao Jornal da Bahia, afirmou que deseja o modelo britânico, não o cubano ou o chinês. Tanto melhor — Cuba e China são ditaduras. “Vocês estão vendo o que fazem na internet? Espalham mentiras, receitam remédio para Covid que não funciona”, afirmou no Twitter, a modo de exemplificar onde há problema. Em São Luís, no Maranhão, deu outro exemplo: “Vi como a imprensa destruía o Chávez”.
Em 2012, fui observador internacional da última eleição de Hugo Chávez, a convite do Sindicato dos Jornalistas Venezuelanos. Em Petare, a maior favela de Caracas, assisti, numa seção eleitoral após a outra, aos fiscais do PSUV, partido do governo, orientarem os eleitores dentro da cabine de votação. Aqui chamamos de voto de cabresto. Estava no TSE de lá quando Henrique Capriles e Chávez disputavam voto a voto a contagem, e a luz do prédio simplesmente caiu. Quando voltou, mais de uma hora depois, Chávez abria folga. O sindicato dos jornalistas não chamou observadores de todo o continente à toa — tinham medo. Medo dos motoqueiros milicianos de camisa vermelha, medo dos jornais tradicionais que já se desmantelavam sob constante ataque econômico e policial do Estado, da sombra da censura que se aproximava. Foi há dez anos.
Que fique claro: nem Lula nem Dilma Rousseff jamais tentaram fazer no Brasil o que Chávez fez na Venezuela. Bolsonaro é o chavista aqui. De direita, mas sua visão de democracia é a mesma.
Não faz sentido Lula trazer Chávez para uma conversa sobre imprensa se diz que deseja o modelo britânico. O modelo britânico para imprensa é a autorregulação. Jornais como Guardian, Financial Times e Independent escolheram que preferem não ser observados pelo órgão financiado pelo governo para observar a imprensa. É a isso que Lula se refere?
Por certo, não deve ser. A imprensa britânica, principalmente a sensacionalista, é conhecida internacionalmente por sua selvageria. Casos extraconjugais de políticos são divulgados nos mínimos detalhes, celebridades são perseguidas nas ruas por fotógrafos, há casos da captação de áudios privados por repórteres. No Brasil, não há nada sequer parecido com isso.
Mas, afinal, Lula quer regular a imprensa ou quer regular a internet? Porque são coisas muito diferentes. No tuíte, ele cita o uso do modelo britânico para evitar que na internet se divulguem remédios falsos para Covid-19. O modelo britânico não resolve esse problema — ninguém conseguiu ainda resolver o problema da informação falsa na internet. A primeira vez em que ficou claro no mundo todo o impacto das fake news nas urnas foi justamente no Reino Unido, em 2016, no plebiscito do Brexit.
A censura prévia à imprensa é proibida em cláusula pétrea na Constituição. Se Lula chegar ao segundo turno contra Bolsonaro em 2022, não haverá escolha para quem deseja viver numa democracia liberal. Isso quer dizer que Lula levará o voto de muitos que rejeitam suas ideias. Não há democracia sem uma imprensa com total liberdade de apontar corrupção crassa em governos como o dele. É hora de o ex-presidente ser claro a respeito do que deseja. Porque, até agora, ele está misturando vários temas distintos sem produzir sentido.

Por Pedro Doria
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Reportagem: Juliana Dal Piva - Filho 04 e ex de Bolsonaro mudam para mansão de R$ 3,2 milhões em Brasília

Juliana Dal Piva
e Eduardo Militão, do UOL em Brasília
27/08/2021 07h00
Jair Renan Bolsonaro, o filho '04' de Jair Bolsonaro, e sua mãe, a advogada Ana Cristina Siqueira Valle, segunda mulher do presidente, são desde junho deste ano os mais novos moradores de uma casa no Lago Sul de Brasília. O imóvel, avaliado em R$ 3,2 milhões, fica a quatro minutos da ponte JK, uma das áreas mais nobres e valorizadas da capital.
A família do presidente alugou a casa de um homem que comprou o imóvel por R$ 2,9 milhões (cerca de R$ 300 mil abaixo do valor avaliado da residência), em 31 de maio, dias antes da mudança de Jair Renan e Ana Cristina. O corretor Geraldo Antônio Machado, dono da casa, vive em uma outra, uma edificação modesta a 30 quilômetros do local, num condomínio em Vicente Pires, região administrativa de classe média no Distrito Federal.
"Eu ia mudar para lá [casa do Lago Sul], mas infelizmente a pessoa declinou do meu negócio aqui [casa onde vive]. Eu tive que, infelizmente, alugar. É um sonho morar no Lago [Sul] né. É bem localizado", justificou Machado, ao explicar o motivo de alugar a casa.
Por duas vezes, ele disse à coluna que é o proprietário de fato da casa no Lago Sul. A mansão é o único imóvel registrado em nome dele no Distrito Federal. Machado afirmou que possui outros bens, mas sem escritura.

A casa no Lago Sul estava à venda até dias antes da mudança de Ana Cristina e Jair Renan, que ocorreu em meados de junho. A coluna registrou imagens dos dois já vivendo no local no dia 22 daquele mês. Antes disso, eles moravam em um apartamento de 70 metros quadrados que está no nome do presidente Jair Bolsonaro.
A coluna apurou que casas com tamanho próximo à de Ana Cristina estão sendo alugadas na mesma quadra por cerca de R$ 15 mil. A advogada, que é assessora da deputada federal Celina Leão (PP-DF), possui um salário líquido de R$ 6.200. Nem a ex-mulher de Bolsonaro, nem Machado quiseram revelar o valor do aluguel.
O imóvel possui um terreno de 1.200 metros quadrados e cerca de 800 metros quadrados de área construída em dois pisos. Ainda tem quatro suítes. Como comparação, essas características se enquadram no que a Prefeitura de São Paulo define como "categoria F", as casas de mais alto padrão da cidade. No anúncio de venda, obtido pela coluna, o imóvel é descrito com diversos requintes.

"Quatro suítes, com fino acabamento e todas com closet. Escada em mármore. Suíte master ampla com cerca de 100 m², abre para grande terraço com potencial para jardim, espaço fitness, solarium e outros. Closet amplo na suíte master, com excelentes armários planejados. Banheiro da suíte master com acabamento também elegante e de tamanho avantajado proporcionando conforto e espaço luxuoso. Duas suítes amplas localizadas na parte anterior da casa com amplas varandas que possibilitam vista parcial do Lago", dizia um trecho do anúncio.
Local é privativo, destaca proprietário
Na nova residência, Jair Renan e Cristina têm vista privilegiada para a ponte JK, um dos cartões postais do Distrito Federal.
As instalações, segundo o anúncio de venda, possuem "salas amplas com quatro ambientes" e ainda "portas em painéis de vidro para varandas amplas, conferindo excelente ventilação, luminosidade e integração com o jardim e área de lazer". O espaço da sala de jantar possui pé direito duplo o que, segundo o anúncio, traz "modernidade e elegância ao ambiente".
A mansão possui uma piscina com 50 metros quadrados e conta com sistema de aquecimento solar. Há também escritório de "26 metros quadrados" e "dependência completa de empregada com armário". A casa tem sistema de gás encanado e um lavabo "elegante, com acabamentos em mármore e granito".

Seguranças e viagem
A coluna esteve no local na quinta-feira (26) de manhã e chegou a ver o momento em que Jair Renan estava saindo do imóvel empurrando uma mala de viagem.
Ana Cristina acompanhava o filho e falou com a coluna no portão. "Não vou dar entrevista. Não quero comentar não", disse. Questionada se a casa lhe pertencia, a advogada disse: "Claro que não".
Na última pergunta, antes de se despedir, a coluna perguntou se ela alugou o imóvel, e Ana Cristina disse que não iria comentar. Na última semana, mãe e filho chegaram a receber uma festa de uma cervejaria dentro da casa.

"Probleminha" interrompeu planos do dono
O dono da casa no Lago Sul onde estão morando Ana Cristina Valle e Jair Renan Bolsonaro é o corretor de imóveis Geraldo Antônio Machado. Ele diz que atua no mercado do Distrito Federal há 13 anos.
A coluna localizou-o na casa onde vive a 30 quilômetros na mansão, também na quinta-feira (26) à tarde, horas depois de visitar a residência do filho "04" do presidente e sua ex-mulher.
Na frente da residência de Machado, uma pessoa pediu que a coluna aguardasse. Depois de 20 minutos, Machado veio à porta e contou que ainda não mora no Lago Sul por causa de um "transtorno". Ele afirmou que comprou a casa para viver lá, mas não conseguiu se mudar.
"Comprei a casa exatamente para mudar para a casa. Deu um probleminha na venda da minha casa aqui. Acabei tendo que alugar", disse ele.
Segundo Machado, ele alugou o imóvel há cerca de dois meses com a ajuda de um escritório em Águas Claras, pertencente a um advogado, e só soube que a casa estava alugada por Ana Cristina nesta semana.
"Fiquei sabendo esta semana", afirmou ele. "Eu odeio política."
Segundo os dados da escritura da casa no Lago Sul, ele pagou com "recursos próprios" uma entrada de R$ 580 mil e financiou o restante, R$ 2,32 milhões, no BRB (Banco de Brasília). O mesmo banco financiou a mansão do senador Flávio Bolsonaro (Patriota), ex-enteado de Ana Cristina, este ano no total de R$ 6 milhões.
Pela negociação feita com o BRB, se Geraldo Antônio Machado pagar a prestação do financiamento em dia ela custa um total de R$ 14.844,11.
Geraldo Machado destacou a privacidade do local. "É uma quadra mais fechada, mais exclusiva, por isso me levou a comprar."

Dono alugou mais barato "apesar de ter 3 propostas"
Machado disse que teve três propostas de locação. No entanto, o corretor também disse que fechou o negócio rapidamente porque tinha pressa.
"A princípio, eu ia pedir um valor alto, mas eu pedi um valor de mercado mesmo para alugar rápido e eu resolver meu problema."
Machado disse que não queria revelar o valor do aluguel porque é algo "particular".
"A gente não pode abrir os negócios. Prefiro nem comentar", afirmou o dono do imóvel. Ele também não quis falar sobre o modo como estão ocorrendo os pagamentos.
A coluna pesquisou os bens no nome de Geraldo Machado e não identificou nenhum outro imóvel no nome dele na região onde ele vive em Vicente Pires e em outros sete cartórios do Distrito Federal. Somente a casa no Lago Sul foi localizada no nome do corretor.
O único cartório que não retornou ainda a pesquisa foi o 5º registro de imóveis, que abrange os imóveis das regiões administrativas do Gama e de Santa Maria.
Machado disse que tem outros imóveis, mas não tem como comprovar a propriedade com escrituras em cartório. Em Vicente Pires, uma parte das residências ainda não tem documentos em tabelionatos, mas apenas a chamada "cessão de direitos", pois, antigamente, eram terras de zona rural pertencentes à União.
O corretor afirmou que está vendendo esses imóveis, inclusive sua residência, para quitar as despesas com a compra da casa no Lago.
"Eu comprei a casa [no Lago] e aluguei. Infelizmente, eu passei por esse transtorno de não realizar outro negócio que eu fiz. Estou trabalhando para vender a casa [em Vicente Pires] o mais rápido possível, a minha, os meus imóveis."
Machado diz que espera poder ir morar no local daqui um ano.

Negócios de Ana Cristina
Ana Cristina atualmente é investigada com outros parentes devido ao tempo em que foi chefe de gabinete do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) entre 2001 e 2008. O MP-RJ apura as denúncias de existência de rachadinha e funcionários fantasmas no gabinete do filho "02" do presidente.
Em junho, o podcast "UOL Investiga - A vida secreta de Jair" mostrou a fisiculturista Andrea Siqueira Valle, irmã de Ana Cristina, admitindo que devolvia 90% do salário e que Jair Bolsonaro demitiu um irmão das duas chamado André Valle porque ele não concordou em devolver o que recebia como assessor do gabinete do então deputado federal, hoje presidente da República.
O episódio 2 do podcast (você pode ouvir no arquivo abaixo) mostra como Ana Cristina começou a montar o seu patrimônio no período em que se uniu a Jair Bolsonaro. Juntos, eles compraram, entre 1998 e 2008, um total de 14 imóveis, cinco deles quitados em dinheiro vivo. Em uma década, o casal trocou o apartamento no Maracanã, na zona norte do Rio de Janeiro, por uma mansão na Barra da Tijuca, na zona oeste, com direito a piscina e à vizinhança do ex-jogador de futebol Zico. O patrimônio chegou a cerca de R$ 3 milhões em 2008 -atualizado pela inflação, ultrapassa hoje R$ 5 milhões.
Já no período da separação, ela ficou com dois terços desses bens. A advogada ficou com nove imóveis. No acordo, porém, ela abriu mão da guarda de Jair Renan, que cresceu aos cuidados de Bolsonaro e de Michelle, a terceira mulher do presidente e atual primeira-dama. Ouça os detalhes desta história no episódio abaixo do podcast "UOL Investiga - A vida secreta de Jair".
Com a venda de um apartamento e cinco terrenos, Ana Cristina obteve mais de R$ 2 milhões e passou alguns anos vivendo na Noruega, onde se casou novamente. Quando retornou ao Brasil, seguiu fazendo negócios com dinheiro em espécie. Em 11 de outubro de 2013, comprou um terreno de 420 metros quadrados e, conforme a escritura, pagou R$ 135 mil em dinheiro vivo. Nesse local, no bairro da Morada da Colina, em Resende (RJ), ergueu uma casa de dois pisos, quatro quartos e piscina -o mesmo imóvel que ela deixou para voltar a Brasília, em fevereiro deste ano.
Além desse imóvel, avaliado em mais de R$ 1 milhão, o patrimônio de Ana Cristina é composto pela casa dos pais, também em Resende, estimada em mais de R$ 260 mil; duas salas comerciais no centro do Rio, que valem cerca de R$ 1 milhão; e um apartamento na Barra da Tijuca, também avaliado em R$ 1,2 milhão. Um total de, pelo menos, R$ 3,5 milhões.
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Família Bolsonaro deve ao país exibição de patrimônio IMPRESSO e AUDITÁVEL __________ Josias de Souza
Colunista do UOL
27/08/2021 09h19
Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, os filhos Zero Um, Zero Dois e Zero Três do presidente da República, já haviam demonstrado aos brasileiros que quem sai aos seus não endireita. A movimentação de Jair Renan, o Zero Quatro, consolida a impressão de que o Brasil é comandado pelo chefe de uma organização familiar.
Em condições normais, a mudança de Jair Renan, 23 anos, e sua mãe Ana Cristina Valle de um modesto apartamento de 70 metros quadrados, registrado em nome de Bolsonaro, para uma confortável mansão alugada no bairro mais chique de Brasília não seria da conta de ninguém. O problema é que a fonte de renda do Zero Quatro é desconhecida. E o valor de mercado do aluguel do imóvel elegante —coisa de R$ 15 mil— não combina com o salário líquido de R$ 6,2 mil que a primeira mulher de Bolsonaro recebe como assessora da Câmara.
Há um outro detalhe que coloca Jair Renan sob holofotes. Com acesso às maçanetas mais importantes da República, o Zero Quatro abriu as portas de ministros para empresas privadas. Essa atividade tem nome. Chama-se tráfico de influência. Para complicar, mãe, filho e o locador da casa elegante tratam o contrato de locação com uma transparência de copo de requeijão.
Em 2018, ano em que Bolsonaro se elegeu presidente, a Folha publicou reportagem sobre o patrimônio da primeira-família. Coisa de R$ 15 milhões em imóveis. Juntando os veículos, sobe para R$ 16,7 milhões. Impossível chegar a essa cifra apenas com o dinheiro que o pai e os filhos com mandato receberam como profissionais da política. E a coisa só piora, pois Flávio Bolsonaro adquiriu mansão brasiliense orçada em R$ 5,9 milhões neste ano de 2021.
Há um provérbio francês que diz que "um pai é um banqueiro concedido pela natureza." Bolsonaro, como pai, terceirizou a tarefa de banqueiro ao Estado. Transformou os filhos numa bancada parlamentar e espetou a conta da prosperidade familiar no déficit público. O presidente cobra transparência da Justiça Eleitoral. Mas a família Bolsonaro sonega ao país a exibição de um patrimônio impresso e auditável.
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O problema NÃO foi a maneira como NOS RETIRAMOS do Afeganistão, o problema foi ENTRAR LÁ

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Em 2005, meus colegas da revista The American Prospect, Sam Rosenfeld e Matt Yglesias, escreveram um ensaio no qual penso com frequência. Chamava-se “The Incompetence Dodge” (A fuga da incompetência) e argumentava que os políticos e analistas americanos tentam rotineiramente resgatar a reputação de ideias ruins atribuindo seu fracasso à má execução. Na época, eles escreviam sobre os falcões democratas que culpavam a má administração do governo Bush pela catástrofe da Guerra do Iraque, em vez de repensar a iniciativa em sua totalidade. Mas a mesma dinâmica permeia as recriminações sobre a retirada do Afeganistão.
Para afirmar o óbvio: não havia uma boa maneira de perder o Afeganistão para o Talibã. Uma retirada melhor era possível — e o nosso caótico e mesquinho processo de concessão de vistos é imperdoável —, mas uma pior também era. De qualquer forma, não havia esperança de um fim para a guerra que não revelasse nossas décadas de loucura, ainda que a teimosa crença americana em sua própria inocência exigisse um. É a necessidade de reconhecer isso que está por trás dos eventos que ainda estão se desenrolando, e grande parte dos debates nas TVs é um esforço frenético e bipartidário para evitar esse reconhecimento.
Concentrar-se na execução da retirada dá a praticamente todos que insistiram que poderíamos refazer o Afeganistão a oportunidade de ocultar seus fracassos, fingindo acreditar na possibilidade de uma saída elegante. Também está obscurecendo a verdadeira alternativa à retirada: ocupação sem fim. Mas o que nossa saída vergonhosa realmente reflete é o fracasso do establishmente da política externa dos Estados Unidos tanto em prever quanto em formular políticas para o Afeganistão.
— O pessoal pró-guerra vê o foco na retirada como um mecanismo para evitar uma prestação de contas dos últimos 20 anos — disse-me o senador Chris Murphy. — Pense no tamanho épico dessa fracasso político. Vinte anos de treinamento. Mais de US$ 2 trilhões em despesas. Por quase nada. É comovente assistir a essas imagens, mas é igualmente comovente pensar sobre todas as vidas e dinheiro que desperdiçamos na busca de um objetivo que era ilusório.
Emma Ashford, pesquisadora sênior do Centro Scowcroft de Estratégia e Segurança, expressou isso bem.
— Não há como negar que os EUA são o país mais poderoso do mundo, mas o que temos visto continuamente nas últimas décadas é que não podemos usar isso para os resultados que desejamos. Seja no Afeganistão, na Líbia ou nas sanções contra a Rússia e a Venezuela, não obtemos os resultados que desejamos, e acho que é porque ultrapassamos os limites. Presumimos que, por sermos muito poderosos, podemos alcançar coisas que são inatingíveis.
Vale a pena considerar exemplos contrafactuais de como nossa ocupação poderia ter terminado. Imagine que o governo Biden, acreditando que o governo afegão não tinha como se manter de pé, ignorasse os apelos do presidente Ashraf Ghani e começasse a retirar rapidamente os militares meses atrás. Isso desmoralizaria o governo e encorajaria o Talibã. Aqueles que não sabiam que lado escolher, que esperavam por um sinal de quem estava no poder, rapidamente fechariam acordos com o Talibã. Com a partida das últimas tropas americanas, o Talibã dominaria o país, antes do que aconteceu agora, e o governo Biden seria responsabilizado por acelerar sua vitória.
Outro cenário possível foi sugerido a mim por Grant Gordon, um cientista político que trabalha com conflitos e crises de refugiados: se o governo Biden tivesse retirado nossos aliados e pessoal de forma mais eficiente, isso poderia levar o Talibã a massacrar a oposição a ele, já que os Estados Unidos e o mundo teriam ficado talvez desinteressados no que estaria acontecendo. Houve assassinatos por vingança, mas isso não resultou, pelo menos por enquanto, em um massacre total, e isso pode ser porque a retirada americana foi confusa e parcial, e o Talibã teme novos confrontos com os EUA.
— O que é claramente um desastre de um ângulo pode, na verdade, ter gerado contenção. Tendo passado um tempo em lugares como este, acho que falta às pessoas uma visão realista — disse Gordon.
Mais um exemplo: embora poucos acreditassem que o governo de Ghani prevaleceria em nossa ausência, e o governo Trump o tenha deixado de fora do seu acordo com o Talibã, há um desapontamento generalizado pelo fato de o governo que apoiamos ter desmoronado tão rapidamente. Biden foi particularmente implacável em suas descrições da rendição do Exército afegão, e concordo com aqueles que dizem que ele foi injusto, subestimando a coragem e o sacrifício demonstrados pelas tropas afegãs durante a guerra. Mas deixe isso de lado: os americanos poderiam ter se sentido melhor ao ver nossos aliados no Afeganistão resistindo por mais tempo, mesmo se o Talibã saísse vitorioso. Mas uma guerra civil de vários anos teria sido melhor para os afegãos pegos no fogo cruzado?
Não vou fingir que sei como deveríamos ter deixado o Afeganistão. Mas nem um monte de gente que domina os debates sabe. E os confiantes pronunciamentos em contrário nas últimas duas semanas me deixam preocupado porque os Estados Unidos aprenderam pouco. Ainda estamos nos agarrando não apenas à ilusão de nosso controle, mas à ilusão de nosso conhecimento.
Esta é uma ilusão que, para mim, se despedaçou há muito tempo. Eu era um calouro na faculdade quando os Estados Unidos invadiram o Iraque. E, para minha vergonha duradoura, eu apoiei. Meu raciocínio foi direto: se George W. Bush, Bill Clinton, Tony Blair, Hillary Clinton, Colin Powell e, sim, Joe Biden pensaram que Saddam Hussein representava um perigo profundo e presente, eles devem saber de algo que eu não sei.
Há uma velha frase: “Não é o que você não sabe que o coloca em apuros. Você entra em apuros pelas coisas de que tem certeza (mas incorretamente)". E assim foi com a Guerra do Iraque. Como Robert Draper mostra em seu livro, “Para começar uma guerra: como o governo Bush levou os EUA para o Iraque”, eles tinham certeza de que Saddam tinha armas de destruição em massa. Só que ele não tinha. Eles também tinham certeza, com base em décadas de depoimentos de expatriados iraquianos, de que os americanos seriam bem-vindos como libertadores.
Havia muitas lições a serem aprendidas com a Guerra do Iraque, mas esta, para mim, foi a mais central: não sabemos o que não sabemos e, pior ainda, nem sempre sabemos o que pensamos saber. Os formuladores de políticas são facilmente enganados por pessoas com experiência ou credenciais aparentemente relevantes que lhes dirão o que desejam ouvir ou aquilo em que já acreditam. O fluxo de dinheiro, interesses e inimizades é opaco para quem está de fora e até mesmo para quem está dentro. Não entendemos outros países bem o suficiente para refazê-los de acordo com nossos ideais. Nós nem mesmo entendemos nosso próprio país bem o suficiente para alcançar nossos ideais.
— Veja os países nos quais a guerra contra o terrorismo foi travada — disse-me Ben Rhodes, que atuou como um dos principais conselheiros de política externa do presidente Barack Obama. — Afeganistão. Iraque. Iêmen. Somália. Líbia. Cada um desses países está pior hoje de alguma forma. A base probatória para a ideia de que a intervenção militar americana leva inexoravelmente a melhores circunstâncias materiais simplesmente não existe.
Escrevi um livro sobre polarização política, então muitas vezes me pedem entrevistas em que o objetivo é lamentar o quão terrível é a polarização. Mas o poder das forças que sustentam a "guerra o terror" reflete os problemas decorrentes do excesso de bipartidarismo. O excesso de acordo pode ser tão tóxico para um sistema político quanto o excesso de desacordo. A alternativa para a polarização é frequentemente a supressão de pontos de vista divergentes. Se as partes concordam entre si, então têm incentivos para marginalizar aqueles que discordam de ambas.
Pelo menos durante minha vida adulta, em política externa, nosso problema político foi que os partidos concordaram demais e as vozes divergentes foram excluídas. Isso permitiu que muitas coisas não fossem questionadas e muitas falhas não fossem corrigidas. É revelador que Biden seja quem receba a culpa pela derrota dos Estados Unidos no Afeganistão. As consequências vêm para aqueles que admitem os fracassos da política externa dos Estados Unidos e tentam mudar o curso, não para aqueles que os instigam ou perpetuam.
Inicialmente, a guerra no Afeganistão foi mais apoiada e bipartidária do que qualquer outra coisa na política americana. Isso a tornou difícil de ser questionada e ainda mais difícil de encerrar. O mesmo ocorre para as suposições que estão por trás dela e outras suposições em nossa política externa: que os EUA são sempre um bom ator; que entendemos o suficiente o resto do mundo, e nós mesmos, para refazê-lo à nossa imagem; que o humanitarismo e o militarismo são complementares.
A tragédia da intervenção humanitária como filosofia de política externa é que ela vincula nossa compaixão às nossas ilusões de domínio militar. Nós despertamos para o sofrimento dos outros quando tememos aqueles que os governam ou se escondem entre eles, e assim nosso desejo de segurança se une a nosso desejo de decência. Ou despertamos para o sofrimento dos outros quando eles enfrentam um massacre de tal urgência que somos forçados a confrontar nossa passividade e a perguntar o que a inação significaria para nossa autoimagem. Em ambos os casos, acordamos com uma arma nas mãos ou talvez acordemos porque temos uma arma nas mãos.
Para muitos, as pretensões de motivação humanitária dos Estados Unidos sempre foram suspeitas. Existem maus regimes que não enfrentam a oposição dos Estados Unidos. Existem maus regimes que os EUA financiam diretamente. É insensível sugerir que o único sofrimento pelo qual temos responsabilidade é o sofrimento infligido por nossa retirada. Nossas guerras, ataques de drones e ataques táticos e o caos geopolítico resultante levaram diretamente à morte de centenas de milhares de afegãos e iraquianos.
Esta é a lacuna profunda no debate sobre a política externa dos Estados Unidos: o establishment da política externa americana fica obcecado com os danos causados por nossa ausência ou retirada. Mas não há atribuição de culpa semelhante pelos danos que cometemos ou que nossa presença causa. Somos muito mais rápidos em nos culpar pelo que não fazemos do que pelo que fazemos.
Meu coração dói pelo sofrimento que deixaremos para trás no Afeganistão, mas não sabemos como consertar o Afeganistão. Fracassamos tão grandemente nesse esforço que acabamos fortalecendo o Talibã. Devemos fazer todo o possível para trazer os cidadãos americanos e aliados para casa. Mas, se realmente nos preocupamos em educar meninas em todo o mundo, sabemos como construir escolas e financiar a educação. Se realmente nos preocupamos em proteger aqueles que temem a tirania, sabemos como emitir vistos e admitir refugiados. Se realmente nos importamos com o sofrimento dos outros, há muito que podemos fazer. Apenas 1% dos residentes de países pobres foi vacinado contra a Covid. Podemos mudar isso. Mais de 400 mil pessoas morrem de malária a cada ano. Podemos mudar isso também.
— Quero os EUA mais avançados, mas por meio de um enorme braço de financiamento internacional e um enorme braço de energia renovável — disse Murphy. — Esses são os Estados Unidos que eu quero ver espalhados pelo mundo, não a face americana atual que é, em geral, vendas de armas, instrutores militares e brigadas.
A escolha que enfrentamos não é entre isolacionismo e militarismo. Não somos poderosos o suficiente para alcançar o inatingível. Mas somos poderosos o suficiente para fazer muito mais bem e muito menos mal do que fazemos agora.
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Justiça censura quatro reportagens publicadas na imprensa em menos de uma semana

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RIO — A Justiça censurou quatro reportagens publicadas em veículos jornalísticos em menos de uma semana no país. As decisões foram proferidas por diferentes varas e tribunais — Amazonas, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. O GLOBO foi alvo de cerceamento por dois conteúdos publicados no período: uma série que expunha inconsistências e suspeitas de fraude em ensaio clínico da proxalutamida, remédio sem eficácia comprovada contra a Covid-19, e uma reportagem sobre movimentações financeiras da VTC Log, empresa investigada pela CPI da Covid.
Em outros dois casos, a revista "Piauí" foi proibida de publicar informações sobre os desdobramentos do caso de acusação de assédio envolvendo o humorista Marcius Melhem, e a RBS TV, afiliada da TV Globo no Rio Grande do Sul, também foi alvo de censura prévia. O desembargador Jorge André Pereira Gailhard, da 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, manteve a proibição, determinada por liminar emitida no dia 21 deste mês, de divulgação de reportagem sobre a delação premiada feita por um empresário ao Ministério Público.
A juíza Karine Farias Carvalho, da 18ª Vara Cível da comarca de Porto Alegre, havia impedido a RBS de "realizar qualquer divulgação jornalística, por qualquer meio que seja, de informações ou vídeos". A proibição se mantém até que a Justiça decida se recebe ou não a denúncia feita pela promotoria, que está em análise.
A censura imposta pelos magistrados foi amplamente criticada por entidades jornalísticas, de defesa da liberdade de expressão e da democracia. Juízes e especialistas ouvidos pelo GLOBO endossam as críticas ao cerceamento imposto pelo Judiciário, que classificam como "ilegítimo", "autocrático" e "inadmissível".
O ministro aposentado Celso de Mello, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), diz que "o Estado não tem poder algum para interditar a livre circulação de ideias ou para proibir o livre exercício da liberdade constitucional de manifestação do pensamento".
— A censura, qualquer tipo de censura, mesmo aquela ordenada pelo Poder Judiciário, mostra-se prática ilegítima, autocrática e essencialmente incompatível com o regime das liberdades fundamentais consagrado pela Constituição da República. A prática da censura, inclusive da censura judicial, além de intolerável, constitui verdadeira perversão da ética do Direito e traduz, na concreção do seu alcance, inquestionável subversão da própria ideia democrática que anima e ilumina as instituições da República. No Estado de Direito, construído sob a égide dos princípios que informam e estruturam a democracia constitucional, não há lugar possível para o exercício do poder estatal de veto, de interdição ou de censura ao pensamento, à circulação de ideias, à transmissão de informações e ao livre desempenho da atividade jornalística — diz Celso de Mello.
As decisões também foram criticadas pelo ministro aposentado Marco Aurélio Mello, que deixou o Supremo no mês passado. Segundo Mello, o cerceamento do Judiciário às reportagens é "inadmissível": "Censura nunca mais".
— A tônica é a liberdade de expressão, bem maior de um estado democrático de direito. Deságua se houver extravasamento no direito à indenização por dano material e moral. Inadmissível é pensar-se em cerceio, em verdadeira censura, partindo ou não do Estado. O que se dirá, considerado Judiciário, que tem a obrigação de preservar os ditames maiores da Constituição? É o meu ponto de vista sobre a matéria. Censura nunca mais —afirma.
Nos últimos dias, entidades e associações jornalísticas se posicionaram contra a censura e demonstraram preocupação com as decisões judiciais. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) protestaram contra a repetição de casos de censura prévia, em desacordo com o que determina a Constituição.
"A censura prévia judicial não distingue o tipo de meio de comunicação – televisão, revista e jornal – e tem em comum o fato de privar os cidadãos do direito de serem livremente informados. É lamentável que há tantos anos a censura prévia se repita em nosso país, partindo exatamente do Poder Judiciário, responsável pelo cumprimento das leis. As associações esperam que essas iniciativas de censura sejam logo revertidas por outras instâncias da Justiça, embora já tenham provocado o efeito danoso e inconstitucional de impedir a liberdade de informação. É inadmissível que juízes sigam desrespeitando esse princípio básico do Estado de Direito", dizem em nota.
Lira: 'Imprensa é livre'
O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), salienta que "pontuais erros da imprensa" devem ser mediados pela Justiça, não por meio de censura.
— A imprensa é livre. Essa liberdade pressupõe equilíbrio e o princípio de ouvir os dois lados. O nosso arcabouço jurídico já assegura que os possíveis e pontuais erros da imprensa sejam decididos pela Justiça, mas nunca por meio da censura — diz.
No Rio, a Justiça proibiu a revista Piauí de publicar reportagem sobre o caso de acusação de assédio envolvendo Melhem. A magistrada Tula Corrêa de Mello, da 20ª Vara Criminal da Justiça do Rio, acatou o pedido do humorista e determinou “a suspensão, pelo tempo que durarem as investigações, da publicação de matéria na revista Piauí ou seu respectivo site”. A censura prévia determina que, em caso de descumprimento, haverá multa de R$ 500 mil e o recolhimento dos exemplares da revista nas bancas e remoção da reportagem do site.
Melhem nega que seus advogados tenham pedido à Justiça para censurar a reportagem da revista. "Meu pedido foi tão somente para que fosse apurado o vazamento de informações sigilosas e para que eu pudesse me defender com as provas que tenho", disse ele, em nota.
O caso mais recente de censura foi divulgado na quarta-feira pelo GLOBO. A desembargadora Ana Maria Ferreira, da 3ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJ-DFT), mandou retirar do site do jornal informações sobre movimentações financeiras da VTC Log que constam de uma reportagem publicada pelo jornal. A decisão foi proferida na última quinta-feira e atende a um pedido de antecipação de tutela feito pela defesa da VTC Log, que alega ter sido vítima de "violação de sigilo financeiro e bancário". A reportagem trouxe à tona o relatório produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que aponta dezenas de saques em espécie nas contas da empresa investigada pela CPI da Covid e que tem contrato com o Ministério da Saúde.
A desembargadora Ana Maria Ferreira, da 3ª Turma Cível do TJDFT, determinou a exclusão da matéria publicada pelo GLOBO em um "prazo de 24 horas, sob pena de multa diária de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), por dia de atraso, até o limite de R$50.000,00 (cinquenta mil reais)".
Em respeito à determinação judicial, O GLOBO excluiu os links da matéria, e vai recorrer da decisão. O jornal sustenta que o conteúdo da reportagem, além de acurado, é de interesse público. Além disso, o dever da guarda do sigilo de um documento produzido por um órgão público é conferido ao servidor, e não à imprensa, que tem o direito tanto de publicar matérias de interesse da sociedade como o de resguardar o sigilo da fonte.
Na semana passada, na sexta-feira, O GLOBO recebeu uma determinação judicial do juiz Manuel Amaro de Lima, da 3ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho do Amazonas, para retirar do site do jornal reportagens que expunham inconsistências e suspeitas de fraude em ensaio clínico da proxalutamida, remédio sem eficácia comprovada contra a Covid-19. A decisão atendeu a um pedido de Luis Alberto Saldanha Nicolau, diretor da rede de hospitais privados Samel, uma das patrocinadoras do estudo. Nicolau argumenta que as matérias ofendem sua "honra, imagem e reputação”.
A série de reportagens sobre a proxalutamida foi baseada em investigação independente conduzida pelo repórter Johanns Eller a partir de documentos públicos divulgados pela própria equipe de estudiosos. A publicação do material levou à abertura de uma investigação pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, um inquérito civil público e de um procedimento criminal no Ministério Público Federal do Amazonas – todos ainda em curso.
Entidades contra a censura
Para o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, a decisão afeta não só ao GLOBO como toda a imprensa brasileira.
— É lamentável que alguns magistrados ignorem preceitos básicos da Constituição, que não admite censura. A censura não existe no Brasil. A ANJ defende que, no âmbito da liberdade da imprensa, seja revisada a decisão o quanto antes, pois ela não afeta só o jornal O GLOBO mas também toda a imprensa brasileira. É um atentado à liberdade de imprensa e ao jornalismo investigativo. A população tem o direito de tomar conhecimento de todos os fatos de interesse público — afirmou Rech.
De acordo com Marcelo Träsel, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a decisão proferida pela desembargadora Ana Maria Ferreira se caracteriza como "uma violação da liberdade de imprensa".
— A decisão da Justiça do Distrito Federal contraria jurisprudência do Supremo Tribunal Federal a respeito da publicação de informações sob sigilo judicial. Quem está obrigado ao sigilo são os funcionários públicos e outras partes envolvidas em processos, não os jornalistas que eventualmente recebem os documentos. Determinar a remoção de uma reportagem sobre as informações levantadas pela CPI da Covid-19 cerceia o direito dos cidadãos à informação e se caracteriza como uma violação da liberdade de imprensa — disse Träsel.
Para o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Paulo Jeronimo, a decisão da desembargadora Ana Maria Ferreira afronta a Constituição.
— Mais uma vez, uma decisão judicial afronta a Constituição Federal, que, de forma incisiva, em seu artigo V, inciso IX, afirma: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença". É importante lembrar que, em vários processos semelhantes, o Supremo Tribunal Federal tem rejeitado decisões de censura a matérias jornalísticas, em defesa da liberdade de expressão e de imprensa. A ABI se solidariza com o jornal O GLOBO e confia na revogação deste ato de censura — escreveu Jeronimo.
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É lamentável que juízes se prestem ao papel de censores | Opinião - O Globo

Pela segunda vez em uma semana, uma decisão judicial obrigou O GLOBO a retirar do ar uma reportagem publicada em seu site. Uma desembargadora do Distrito Federal ordenou a derrubada da notícia que relatava dezenas de saques em espécie das contas da VTC Log, empresa investigada pela CPI da Covid. Na semana passada, um juiz do Amazonas determinara a exclusão de reportagens que levantavam suspeita de fraude em ensaios clínicos com uma droga sem eficácia comprovada contra a Covid-19, a proxalutamida.
É evidente o interesse público das informações publicadas pelo GLOBO. É em nome dele que a Constituição garante a jornalistas o direito de preservar o sigilo de suas fontes e que a lei os isenta de responsabilidade por publicar fatos e dados resultantes de vazamentos, mesmo que ilegais. O dever da imprensa é com o público, não com quem é atingido pelas reportagens.
Intenso debate sobre liberdade de expressão tomou conta do país como efeito da prisão do deputado Daniel Silveira e do ex-deputado Roberto Jefferson, do corte do financiamento à campanha mentirosa contra a urna eletrônica e das medidas das redes sociais para coibir a desinformação na pandemia. É espantoso que a censura judicial à imprensa não provoque reação tão veemente, embora se torne a cada dia mais frequente. A ponto de juízes do Rio Grande do Sul e do Rio terem ressuscitado a absurda censura prévia. Em Porto Alegre, um desembargador manteve o veto de uma juíza à veiculação, pela RBS TV, de informações sobre a delação premiada de um empresário. No Rio, outra juíza barrou a publicação de reportagem na revista Piauí sobre o humorista Marcius Melhem.
Liberdade de expressão não é tema trivial. Protege o direito de qualquer um a expressar sua opinião, livre da coerção do Estado. Mesmo opiniões abjetas devem ser protegidas (é a garantia de que as demais serão). Em particular, deve haver proteção à imprensa, cujo dever numa democracia é publicar informações de interesse público, contra poderosos que prefeririam o segredo.
Como toda liberdade, a de expressão não é absoluta. Países distintos, com histórias e culturas distintas, lhe impõem limites distintos. De modo geral, palavras de incitação à violência, ameaças, conspiração ou chantagens não são protegidas, pois configuram crime. Ninguém pode gritar “mãos ao alto!” com uma arma na mão e, uma vez preso, alegar que exercia apenas seu direito à expressão livre de ideias.
É provável que os casos de Jefferson e Silveira, que ameaçaram a democracia e ministros do Supremo, tivessem outro desfecho nos Estados Unidos. Lá, a Suprema Corte decidiu em 1969 que a incitação só deve ser coibida se o crime ameaçado for iminente. Aqui, porém, a lei é outra. Quem ler os despachos que ordenaram a prisão de ambos não terá dificuldade de encontrar as leis violadas por seus atos e palavras.
Sobre a censura à imprensa, não há dúvida nem lá, nem cá, nem em lugar nenhum. As decisões judiciais recentes são todas absurdas e, dada a extensa jurisprudência sobre o tema, deverão cair em tribunais superiores. Não deixa de ser lamentável que o Judiciário brasileiro, nas instâncias inferiores, ainda se preste ao papel de censor. E que os novos defensores da liberdade de expressão tenham tanta dificuldade para enxergar onde ela é mais ameaçada.
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Opinião: Marco Antonio Villa - O golpe vem aí
26/08/2021 09h55
Atualizada em 26/08/2021 15h43
O Brasil não vai resistir ao processo eleitoral de outubro de 2022 tendo Jair Bolsonaro na Presidência da República. E mais: como candidato à reeleição. O cenário que está sendo desenhado é de transformar o longo caminho até a posse do novo presidente da República, a 1º de janeiro de 2023, em uma sucessão de crises que elevará a temperatura política a um grau nunca alcançado na história republicana.
Diferentemente de Donald Trump que questionou o resultado eleitoral após a realização do pleito, Bolsonaro vêm atacando - sem apresentar provas - as urnas eletrônicas desde o ano passado. Caminhamos, se chegarmos às eleições, celeremente para a guerra civil.
Doria proíbe ato Fora Bolsonaro e Boulos reage: "Ele não está acima da lei"
Nada indica que Bolsonaro vá aceitar a inevitável derrota eleitoral. Assim como um processo eleitoral democrático, debatendo ideias e projetos para o país. Tal dinâmica iria expor a fragilidade política do "mito." Não custa imaginar um debate entre Lula, Ciro, Doria, Mandetta e.... Bolsonaro. Como o "mito" se sairia? Sacaria um revólver? Ameaçaria o oponente com palavras de baixo calão? Seria arrasado, desmoralizado. Iria fazer de tudo para fugir dos debates.
Bolsonaro não rima com democracia. Nunca rimou. Ele vai - e não faltam demonstrações explícitas - partir para o golpe de Estado. Deve ser reconhecido que tem trabalhado muito - e bem - para este objetivo.
Desde 1º de janeiro de 2019 atacou sistematicamente os fundamentos do Estado democrático de Direito. Nos ministérios destruiu o que foi edificado desde o processo de redemocratização. Fomentou o ódio em dezenas de pronunciamentos, mentiu sobre o passado político recente - em especial, a ditadura militar -, defendeu torturadores, desmoralizou a política externa, isolou o Brasil na comunidade internacional e agiu deliberadamente contra a compra das vacinas que levou a óbito mais de 575 mil brasileiros.
Desde o ano passado tem incentivado manifestações golpistas - participando pessoalmente de várias delas. Numa articulação nunca vista na história republicana, reuniu um grupo de sequazes financiados com dinheiro público e privado - neste caso, da elite rastaquera - para caluniar e difamar autoridades, falsificar notícias e desmoralizar as instituições republicanas. E se não fosse a ação firme do Supremo Tribunal Federal, hoje estaríamos numa ditadura.
Bolsonaro conseguiu desarticular a estrutura de comando das polícias militares de todos os estados da Federação. O efeito desta ação subversiva vai certamente trazer sérios problemas à segurança pública. Nada indica que, à curto prazo, será possível restabelecer a cadeia de comando. Os princípios da hierarquia e obediência foram abandonados e substituídos pela relação direta com Bolsonaro. A liberação indiscriminada para a compra de armas levou a formação de grupos informais de paramilitares - e são milhares espalhados pelo Brasil - que poderão ser mobilizados no momento do golpe de Estado.
A conquista das Forças Armadas para a tomada violenta do poder - e a interrupção do processo democrático - está sendo realizada com eficiência.
Das três Forças, o que importa é ter o controle de uma delas, a principal: o Exército. Se o general Edson Pujol foi um obstáculo para Bolsonaro, o mesmo não se aplica ao general Paulo Sérgio. Este age afinado plenamente com o capitão terrorista. Não puniu o general Eduardo Pazuello que praticou um ato gravíssimo de indisciplina. No Dia do Soldado fez um pronunciamento que sinalizou apoio irrestrito a Bolsonaro. Depois das platitudes sobre a vida de Caxias, o general deu o seu recado. Afirmou que o Exército vai cumprir a sua "missão" que, segundo ele, foi delegada pelos brasileiros na Carta Magna. É uma clara referência ao que os golpistas chamam de "intervenção militar."
No texto - um pouco confuso, para dizer o mínimo - o general Paulo Sérgio fez questão de afirmar, antes de expor a "missão" do Exército, que age sempre sob o comando de Bolsonaro. Ou seja, "sob a autoridade do Presidente da República." Qual missão? A "delegada pelos brasileiros na Carta Magna." Mais claro, impossível: o general afirmou que o Exército está pronto para agir contra as instituições democráticas. E como? Quando Bolsonaro impuser o estado de sítio para "restabelecer a ordem." Exagero? Veremos.
Jair Bolsonaro não discursou na cerimônia. Nem precisava. O general Paulo Sérgio falou por ele. E não deixou dúvida: está alinhado com o golpe bolsonarista.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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Punição de Doria a coronel vira arma de bolsonaristas para divulgar ato
Igor Mello
Do UOL, no Rio
26/08/2021 04h00
Levantamento feito pelo UOL mostra que as redes bolsonaristas estão utilizando a punição ao coronel da PM de São Paulo Aleksander Lacerda para inflamar a militância —incluindo policiais— a comparecerem à manifestação convocada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
Lacerda foi afastado do cargo de comandante do CPI-7 (Comando de Policiamento do Interior-7) pelo governador João Doria (PSDB) após o jornal O Estado de S.Paulo revelar que ele havia feito uma série de posts de caráter político-partidário —o que é ilegal para policiais da ativa. Recentemente, ele postou convocações para o ato marcado para 7 de setembro, na avenida Paulista.
Ex-comandante da PM: Bolsonarismo usa de tudo para instalar caos
Segundo cruzamento feito pelo UOL na ferramenta CrowdTangle, as discussões sobre o 7 de Setembro geraram 1,28 milhão de interações no Instagram e 963 mil no Facebook entre segunda-feira (23) e a tarde de terça-feira (24). Parte considerável dos posts repercutia a punição a Lacerda.
O discurso foi repercutido inclusive pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), terceiro filho do presidente. Uma imagem na qual Doria é chamado de "sacripanta" foi o post com mais engajamento no Instagram (com 171.950 interações até a tarde de terça) e o terceiro com mais interações no Facebook (58.938).
Os posts mais influentes sobre a manifestação foram feitos por figuras de proa do bolsonarismo —além de Eduardo Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia, os deputados federais Cabo Junio Amaral (PSL-MG), Carla Zambelli (PSL-SP), Alê Silva (PSL-MG) e Filipe Barros (PSL-PR) fizeram posts sobre a punição ao coronel da PM-SP.
Entre as centenas de postagens, há ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao Congresso Nacional, e também a adversários de Bolsonaro, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Para Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da USP e estudioso do discurso político nas redes sociais, a narrativa em torno da punição a Lacerda inflama a base bolsonarista por conta da narrativa criada pelo presidente.
Nas palavras de Ortellado, Bolsonaro "se apresenta como um líder populista de mãos atadas". "Por isso esse apelo aos militares, sejam os das três Forças [Armadas] ou às PMs", diz o professor. "Obviamente a estratégia dele é forçar uma situação onde tenha um pretexto para essa intervenção dos militares."
PMs na política insuflam tropa
Além do deputado federal Cabo Junio Amaral, diversos outros políticos oriundos das PMs fizeram coro às críticas contra Doria por conta da punição ao coronel.
Alguns têm insuflado policiais da ativa a irem a protestos —que defendem o impeachment de ministros do STF e colocam em xeque a credibilidade do sistema eleitoral.
Apenas no Facebook, 36 políticos que usam patentes militares se manifestaram sobre o assunto.
Segundo Frederico de Almeida, professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e coordenador do Laboratório de Estudos de Política e Criminologia, a manifestação política do coronel Aleksander Lacerda —que ocupa a mais alta patente na maior corporação policial do país— representa um novo patamar na ameaça de bolsonarização das polícias.
Objetivamente, é uma situação muito grave. É uma quebra de disciplina em um contexto muito sério, com uma questão política como pano de fundoFrederico de Almeida, professor da Unicamp
Almeida lembra que a falta de punição ao general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, por ter participado de um ato político com Bolsonaro pode ter servido de senha para que membros do oficialato das PMs também fizessem manifestações de caráter partidário.
Para o professor, os governadores e comandantes precisam ser rigorosos para evitar um clima de insubordinação generalizado.
"Podemos chegar a um ponto de não retorno. Os policiais vão voltar para o quartel? Vão deixar de se expressar publicamente se fizerem isso e nada ocorrer? Provavelmente não", analisa Almeida.
Policiais já miram candidaturas em 2022
Já Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz crer que a repercussão da história é dada, em parte, por policiais que já deixaram a ativa e se alinharam ao bolsonarismo como projeto político —caso dos coronéis da PM-SP Homero Cerqueira (que foi presidente do ICMBio) e Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo (atual presidente da Ceagesp), ambos já agraciados com cargos no governo Bolsonaro.
Para Lima, há uma disputa política dentro do campo bolsonarista como pano de fundo da manifestação.
"Da mesma forma que os partidos pequenos vão ter que fazer federações ou composições, essas lideranças sabem que os policiais não vão se eleger na mesma quantidade que em 2018, porque não são puxadores de voto. Aí é uma guerra dentro do próprio campo para saber quem lidera o movimento, além dos nomes que querem entrar na política, como o Mello Araújo e o Homero", lembra.
"No fundo, a gente percebe que o que está acontecendo é uma disputa por capital político."
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Voz do capital financeiro global, Financial Times ataca PT e defende "terceira via" no Brasil
Reportagem do jornal britânico Financial Times aponta que apesar da pressão para estabelecer um candidato da chamada ‘terceira via", os partidos de centro "carecem de uma única estrela emergente para unificar os apoiadores”

247 - O jornal Financial Times, um dos mais influentes veículos de comunicação do Reino Unido, destaca a polarização política no Brasil, dividida entre o atual líder de extrema direita Jair Bolsonaro e o ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, “gerou uma pressão dos moderados para estabelecer um candidato da ‘terceira via’ — um centrista que possa apelar aos eleitores desiludidos com o radicalismo da extrema direita e a história de corrupção sob o Partido dos Trabalhadores de Lula". A reportagem, assinada pelos jornalistas Bryan Harris e Carolina Pulice, ressalta que “o movimento, no entanto, ainda carece de uma única estrela emergente para unificar os apoiadores”..
No texto, o periódico destaca o nome do ex-deputado do PDT Ciro Gomes, que “ostenta o nome nacional, tendo já disputado — e perdido‚ três eleições presidenciais”. “Sua longevidade aos olhos do público, no entanto, significa que ele está associado à ‘velha política’ e aos negócios de bastidores. Ciro também tem a reputação de ter um ego inflado. Depois de falhar no primeiro turno das eleições de 2018, ele se recusou a apoiar o candidato de esquerda que desafiou Bolsonaro no segundo turno e, em vez disso, voou para a Europa”, ressaltam os jornalistas.
Um outro nome citado é o de João Doria (PSDB), governador de São Paulo, que segundo o jornal britânico, “está intimamente ligado à elite econômica paulista. O rico empresário, que foi prefeito da maior cidade da América Latina antes de passar para o governo do estado, tem fama de administrador eficiente. Ele liderou o lançamento das vacinas Covid-19 em um momento em que o governo federal estava se arrastando. Doria, no entanto, é visto como uma carreirista e é pouco conhecido fora da elite do Brasil. Ele enfrentará uma difícil primária de outros membros do Partido Social-Democrata Brasileiro, de centro-direita, e os críticos se apressarão em lembrá-lo de seu apoio a Bolsonaro em 2018”.
O ex-juiz Sergio Moro também aparece colocado como um possível competidor nas eleições do próximo ano. “Como juiz federal na longa investigação anticorrupção Lava Jato, ele foi festejado como um herói por muitos da centro-direita e retratado em comícios como um super-homem de peito largo. Sua reputação sofreu um abalo depois que ele ingressou no governo Bolsonaro em 2019, menos de dois anos depois de colocar Lula na prisão por corrupção. Moro deixou o governo depois de um ano, mas sua imagem foi prejudicada ainda mais quando o Supremo Tribunal Federal decidiu no início deste ano que ele havia mostrado parcialidade no julgamento de Lula em 2017. Moro está atualmente trabalhando no setor privado, mas seu nome tem sido citado como um potencial candidato à presidência pelo Podemos, de centro-direita”, destacam os jornalistas no texto.
O nome do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), é uma outra alternativa do centro citado pelo jornal. “Como presidente do Senado, Rodrigo Pacheco tem um dos cargos de maior visibilidade na política brasileira. Apesar de sua percepção de proximidade com Bolsonaro, foi elogiado por sua habilidade diplomática em lidar com o Congresso e o Executivo. Ele também resistiu a alguns dos excessos do presidente. Quando Bolsonaro recentemente ameaçou cancelar as eleições do próximo ano, Pacheco o advertiu de que se tornaria um ‘inimigo da Nação’”. O jornal, porém, observa que Pacheco “pode enfrentar uma difícil disputa nas primárias contra Luiz Henrique Mandetta, o popular ex-ministro da Saúde que tentou trazer rigor científico aos estágios iniciais da resposta da Covid-19 do Brasil.
O apresentador José Luiz Datena é apontado na reportagem como um “forasteiro político”. “Graças ao programa Brasil Urgente, onde faz reportagens sobre crimes medonhos e sensacionais e operações policiais, o jornalista e apresentador é conhecido em todo o país. Sua campanha tem o apoio do Partido Social Liberal (PSL) de direita — o mesmo partido em que Bolsonaro disputou as eleições de 2018 antes de romper os laços pouco depois. Datena, que tem pouca experiência política, acredita que pode atrair eleitores de direita para longe do presidente”, finaliza o texto.
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Nos 60 anos da Campanha da Legalidade, Brasil segue acossado pelos militares - Jeferson Miola
Por Jeferson Miola

Avante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a igualdade
Avante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a liberdade
Protesta contra o tirano
Se recusa a traição
Que um povo só é bem grande
Se for livre como a Nação
Avante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a liberdade
Hino da Legalidade, letra de Lara de Lemos e Demósthenes Gonzalez e música de Paulo César Pereio.
É brutal o processo de apagamento da memória e da verdade histórica do Brasil.
Ontem, 24 de agosto de 2021, quando se completaram 67 anos do suicídio de Getúlio Vargas, não se viu um único registro sequer – não só nos maiores jornais do país, como também nos noticiários dos principais [senão de todos] canais de televisão.
Neste 25 de agosto de 2021 a Campanha da Legalidade liderada pelo governador gaúcho Leonel Brizola para garantir a posse do Jango na presidência completa exatos 60 anos [aqui].
Apesar da relevância deste acontecimento para a luta democrática e para a modernização democrática do Brasil, nenhuma linha foi dedicada ao assunto em nenhum jornal do centro do país.
Este apagamento histórico estimula, por exemplo, que ainda hoje comandantes militares inescrupulosos e usurpadores classifiquem o golpe de 1964 como “revolução” e neguem que o terror sanguinário de Estado tenha sido uma ditadura.
A alienação do povo brasileiro acerca da sua própria história, ao lado da impunidade dos perpetradores de crimes contra a democracia e a humanidade, favorece a repetição do comportamento autoritário, antidemocrático e golpista das oligarquias dominantes e das Forças Armadas.
O suicídio do Vargas e a Campanha da Legalidade possuem especificidades próprias. Apesar destes acontecimentos estarem datados no início da segunda metade do século 20, são processos que estão na raiz da tragédia atual do Brasil.
Estes dois episódios guardam semelhanças significativas com o atual período histórico. Destacam-se, em relação a isso, [i] a incompatibilidade hereditária das classes dominantes com a democracia e o desprezo delas pela soberania popular; e [ii] a atuação das Forças Armadas, em especial do Exército, como facção partidária reacionária e de extrema-direita.
Assim como naquele momento da vida nacional, hoje a democracia brasileira continua acossada pela interferência indevida e inconstitucional dos militares.
O humorista Millôr Fernandes tinha razão quando dizia que o Brasil tem um enorme passado pela frente. O Brasil só conseguirá se encontrar com um futuro almejável – e alcançável – de liberdade, justiça, democracia, desenvolvimento soberano e igualdade social quando o destino do país estiver nas mãos das maiorias sociais.
Como diz o Hino da Legalidade, Avante brasileiros de pé, Marchemos todos juntos de pé, Que um povo só é bem grande Se for livre como a Nação.
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Noam Chomsky à TV 247: apesar da derrota no Afeganistão, império americano continua “esmagador”

Leonardo Sobreira e Victor Castanho, 247 - O intelectual e ativista Noam Chomsky, um dos pensadores de maior renome do mundo, afirmou, em entrevista exclusiva à TV 247 nesta segunda-feira (23), que, apesar da retirada das tropas americanas do Afeganistão, o império dos Estados Unidos permanece “esmagador” em seu poder militar e econômico.
Chomsky reforçou que, historicamente, os Estados Unidos “invocam” inimigos, que passam a ser considerados como uma ameaça.
Foi assim tanto com os indígenas americanos, como com os Talibãs, explicou o professor.
“Os EUA têm uma força internacional esmagadora.
Fala-se muito do declínio americano, mas você tem que lembrar que as elites estão sempre dispostas a dizer o quanto o mundo é horrível e como estamos em perigo.
Quer rastrear isto na história americana?
Dê uma olhada na Declaração de Independência.
Ninguém se preocupa em lê-la, mas vale a pena ler.
Em uma das acusações contra o rei da Inglaterra na Declaração da Independência, Thomas Jefferson, uma figura realmente iluminista, diz que foram soltos contra nós os impiedosos selvagens indígenas, cujo modo de guerra conhecido é o terror e a destruição.
Jefferson não era um imbecil.
Ele sabia que o que estava acontecendo eram os selvagens ingleses impiedosos que tinham invadido o país e estavam atacando e exterminando a população indígena.
Mas a Declaração de Independência diz que estamos apenas nos defendendo dos impiedosos selvagens indígenas, que nos atacam sem nenhuma razão, exceto que eles são os impiedosos.
É uma tendência que percorre o resto da história, e os Estados Unidos não são únicos neste respeito.
Então, sim, invocar inimigos horríveis que estão prestes a nos destruir, você pode até acreditar.
As pessoas que têm a sua bota no pescoço das outras pessoas pensam que estão em perigo, com alguma justificação”.
O pensador destacou que os EUA permanecem consideravelmente à frente do restante do mundo em termos de despesas militares.
“Observe o império americano, vamos analisar despesas militares.
Os números que temos do ano passado, do Instituto de Pesquisa para a Paz Internacional de Estocolmo, indicam que os EUA estão em primeiro lugar, com cerca de 760 bilhões de dólares.
Segundo, a China, cerca de 200-250 bilhões de dólares.
Quarto, a Rússia atrás da Índia, com 60 bilhões de dólares.
Olhe para as bases militares.
Os Estados Unidos têm cerca de 800.
A China? Uma, no Djibouti.
Pensemos em poder econômico.
Estudos sérios por economistas políticos mostram que a quantidade de riqueza global detida por multinacionais sediadas nos EUA é aproximadamente 50%.
Os EUA estão em primeiro lugar em quase todas as categorias, seja varejo, fabricação, seja o que você for pensar”.
Além disso, os EUA não sofrem ameaças diretas, como a presença de um grupo hostil nas suas fronteiras.
Na realidade, explicou Chomsky, são eles que interferem na política de outros países, como o Brasil:
“Pense em segurança.
Os Estados Unidos alegam enfrentar ameaças.
Onde estão as ameaças?
Estão na fronteira da Califórnia, da Nova Inglaterra?
Não, as ameaças estão na fronteira da China e nas fronteiras da Rússia.
É aí que enfrentamos ameaças.
A China enfrenta ameaças?
Como a China poderia enfrentar ameaças?
O fato de a China ser circulada por satélites e bases dos Estados Unidos com mísseis nucleares armados apontados, como isso seria uma ameaça?
Quero dizer, se estivéssemos rodeados disso, não pensaríamos que é uma ameaça.
Somente pensamos que é uma ameaça quando há uma ameaça para nós nas fronteiras da China.
Bem, isso é o império americano.
Tropas americanas estão lutando ao redor do mundo, enquanto ninguém mais está”.
“Os Estados Unidos são o único país do mundo -- pense sobre isso -- que pode impor sanções, que outros devem obedecer.
Quando os Estados Unidos impõem sanções contra o Irã, para punir o Irã pelo fato de que nós nos retiramos do acordo, violando as ordens do Conselho de Segurança, essa é uma prerrogativa deles.
Então, quando nos retiramos do acordo, impomos sanções mais severas contra o Irã.
A Europa se opõe a elas.
Eles não gostam das sanções, mas as obedecem pelas razões que eu mencionei.
Se não obedecem, são expulsos do sistema financeiro internacional.
Isto é um império?
Vamos considerar o Brasil.
O Brasil, no ano passado, estava com um estoque muito baixo de vacinas, e estavam pensando em usar as vacinas russas, que, pelo que sabemos, são mais ou menos as mesmas que a vacina americana, as vacinas ocidentais.
Os EUA pressionaram o Brasil a recusar as vacinas russas.
E não só fez isso, como o fez com orgulho.
Quer ler sobre isso?
Leia o último relatório de segurança interna da administração Trump, que descreve como lidamos com a nossa segurança.
Uma das coisas de que eles se orgulham é de terem conseguido pressionar o Brasil a recusar as vacinas russas.
O que os orgulhava era poder pressionar o Panamá, que estava no meio de uma crise da Covid, a expulsar os médicos cubanos que estavam ajudando nas áreas rurais.
Não apenas fazer, mas ter orgulho disso.
Esses são exemplos menores, mas olhe para todos os lados.
O que está acontecendo com o império americano?
Seu poder é esmagador”, completou.
Afeganistão
Chomsky avaliou que a retirada das tropas americanas do Afeganistão, que abriu o caminho para a vitória do Talibã, foi precipitada.
Contudo, lembrou:
os EUA nunca deviam ter invadido o país. “[Abdul Haq, líder da resistência afegã antitalibã] escreveu na época, e eu o citei, que a razão pela qual os Estados Unidos estão invadindo é para mostrar sua força e intimidar a todos.
Eles não querem saber dos afegãos.
Vão matar muitos afegãos, vão minar os nossos esforços para derrubar os Talibãs a partir de dentro, mas eles querem mostrar o quão duros eles são.
Em outras palavras, como disse Rumsfeld, nós não negociamos a rendição, nós sabemos como esmagar as coisas.
Nós somos bons nisso.
Isso foi há 20 anos.
Agora, se pensarmos no que está a acontecer agora, antes de mais nada, o colapso quase instantâneo do exército afegão foi perfeitamente previsível.
Eu não digo isto em retrospectiva.
Se você quiser, posso encaminhá-lo para uma entrevista há alguns meses, onde me perguntaram o que vai acontecer.
Eu disse ‘é claro que eles vão entrar em colapso, assim como o exército iraquiano caiu assim que viu alguém numa caminhonete correndo na direção deles acenando uma Kalashnikov’.
Os oficiais fugiram e as tropas fugiram atrás deles.
Uma potência imperial não pode construir um exército que vai lutar contra o seu próprio povo.
É um exército frágil, metade dos soldados sequer estavam lá, os outros estavam drogados.
Soldados americanos que estiveram envolvidos em treinamento vêm dizendo isso há anos.
Eles voltam muito desiludidos, dizem que não se importam”, disse.
“Sempre soubemos, todos nós, que o chamado exército afegão foi infiltrado pelos Talibãs, que estavam lá para receber seu treinamento e para obter equipamento americano.
Sabemos isto pelo simples fato de que houve assassinatos de soldados americanos por afegãos.
Quem eram eles?
Infiltrados Talibãs, é claro.
Podemos não gostar de dizer isso, mas os Talibãs são afegãos.
Eles vivem nas suas aldeias, saem na hora de lutar.
Se soldados americanos aparecerem, eles voltam para as suas aldeias.
Depois eles voltam.
Também podemos não gostar de dizer isto, mas quem é o governo legítimo do Afeganistão?
Havia um governo quando o invadimos e o derrubamos.
Agora eles estão de volta.
Quem é o governo legítimo?
Pergunta simples, não?
Não posso perguntar isso no rígido quadro ideológico da propaganda ocidental, mas não demora mais do que um segundo para pensar nisso.
Então, voltando à retirada das tropas, vou apenas repetir o que disse há uns meses.
Acredito que foi uma retirada precipitada.
Nunca devíamos ter entrado na guerra”, afirmou Chomsky.
China e Rússia
O professor denunciou, ainda, o fato de a administração Biden ter decidido congelar US$ 9.5 bilhões de reservas do Banco Central afegão retidas nos EUA, bloqueando remessas para a população e impedindo o novo governo do Talibã de obter os recursos.
A decisão foi tomada junto à secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, no último domingo (21), informa o The Washington Post.
O estrangulamento pelas sanções atingirá fortemente a população, prevê Chomsky.
Para ele, o resultado será um alinhamento do Talibã com a China e com a Rússia, como forma de garantir a sobrevivência.
“Os Estados Unidos estão retendo reservas afegãs, reservas financeiras.
Estão detidas em bancos de Nova Iorque.
Nova Iorque gere o sistema financeiro internacional -- é por isso que a Europa tem que seguir os comandos dos EUA, ou então eles são expulsos do sistema financeiro internacional.
Isso se chama poder.
Assim, os Estados Unidos estão retendo as reservas afegãs, pressionando o Banco Mundial e o FMI a não pagarem os salários das pessoas do novo governo.
Ou seja, está empenhado em garantir que os afegãos sofram o máximo possível e se deixem cair nas mãos da China e da Rússia como a única alternativa de sobrevivência.
Essa é a política atual”, avaliou. (Confira um trecho da entrevista abaixo. A versão completa será publicada em breve no canal da TV 247 no YouTube).
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Folha ataca Lula em editorial e contesta as suas vitórias judiciais

247 – Embora o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tenha conseguido 17 vitórias judiciais em processos montados para destruir sua reputação e garantir a ascensão de um governo de caráter fascista no Brasil, que executa um choque neoliberal, o jornal Folha de S. Paulo sinaliza, em seu editorial desta quinta-feira, que tratará Lula não como inocente, que foi preso político e passou 580 dias encarcerado a partir da decisão de um ex-juiz declarado suspeito pelo Supremo Tribunal Federal, mas como um inimigo.
"Uma sequência de vitórias judiciais abriu o caminho para uma nova candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, mas está longe de dirimir as questões sobre o passado e o futuro do líder petista", escreve o jornal dos Frias. No texto, o jornal cria seu próprio tribunal e minimiza a presunção de inocência de Lula. "Lula, como qualquer cidadão, deve ser considerado inocente até prova em contrário. Mas Lula é também candidato em potencial ao Planalto, e não um candidato qualquer. Hoje, lidera as pesquisas. Se vier a participar da disputa, como parece muito provável, os eleitores não disporão de um veredito da Justiça a respeito de suas relações com empreiteiras que fizeram negócios lícitos e ilícitos com seu governo. Não houve reexame de provas e depoimentos, e dificilmente haverá tempo para tal", aponta o texto. "É um fardo pesado para um candidato, e não menos para um possível presidente."
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"Quadro mental de Bolsonaro é para lá de preocupante", escreve William Waack
Bolsonaro ACHA que manda, mas NÃO comanda NADA a não ser FANÁTICOS IMBECILIZADOS em REDES sociais", escreve ainda Waack.

247 – O jornalista William Waack, editor do Estado de S. Paulo, escreve um importante artigo nesta quinta-feira, em que alerta para as perturbações mentais de Jair Bolsonaro. "De tanto se atormentar com fantasmas, Jair Bolsonaro está conseguindo que eles se tornem realidade. Cristaliza-se em círculos do Judiciário, Congresso e também entre oficiais-generais a ideia de que o arruaceiro institucional precisaria no mínimo ser declarado inelegível. E o caminho seria através dos tribunais superiores", escreve, em sua coluna.
"Setores do Congresso, do STF e das Forças Armadas estão conversando informalmente, e já se falou no Alto Comando do Exército em atribuir ao comandante dessa arma a missão de 'pôr uma coleira' em Bolsonaro. Dois personagens políticos de peso nessa paisagem – os caciques do Centrão Arthur Lira e Ciro Nogueira – têm dito a jornalistas que desistiram disso", prossegue.
"Quem conversa quase que diariamente com o presidente o descreve como possuído de um quadro mental para lá de preocupante. Bolsonaro está totalmente convencido de que a 'conspiração' contra seu mandato começou já no primeiro dia do governo, e é conduzida por uma difusa e ao mesmo tempo bem entrincheirada coligação de corruptos no Congresso, corporativistas na administração pública, empresários que perderam dinheiro, esquerdistas treinados em Cuba, governadores gananciosos e todos unidos em torno de alguns ministros do STF", diz ainda Waack.
O jornalista também afirma que o desequilíbrio presidencial é um perigo real diante da crença de que ele disporia de instrumentos de poder tais como irresistível quantidade de “povo nas ruas”, “adesão de setores das Forças Armadas” além de PMs amotinados, insubordinados e levados às ruas por lideranças corporativistas. "Em outras palavras, ele acha que estaria em posição de superioridade em se tratando da relação das forças treinadas para exercer violência", afirma.
"Sem ter criado uma organização política capilarizada e sem ter a adesão das cadeias de comando das Forças Armadas, Bolsonaro acha que manda, mas não comanda nada a não ser fanáticos imbecilizados em redes sociais", escreve ainda Waack.
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Lula defende regulação da mídia "no modelo da Inglaterra" e vira alvo da imprensa corporativa

247 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a regulação da mídia no país, ao dizer que, se for eleito, terá de "fazer um novo marco regulatório dos meios de comunicação". Ele falou sobre o tema em entrevista ao Jornal da Bahia na manhã desta quinta-feira (26). "Não quero o modelo de regulação da mídia tipo Cuba ou China; quero o modelo da Inglaterra". E completou: "Sou contra a censura. Sou vítima da censura" (assista ao final).
O modelo inglês tem dois órgãos de regulação da mídia. O Press Recognition Panel, painel que supervisiona um órgão de autorregulação e tem poder de aplicar multas de até um milhão de libras (R$ 4 milhões) às publicações, além de impor direito de resposta e correções a jornais, revistas e site noticiosos. Emissoras de rádio e TV, por sua vez, são reguladas por outro órgão, o Ofcom. O órgão também é responsável pela telefonia, serviços postais e internet. Entre as atribuições do Ofcom estão garantir a pluralidade da programação de TVs e rádios, garantir que o público não seja exposto a material ofensivo, que as pessoas sejam protegidas de tratamento injusto nos programas, e que tenham sua privacidade invadida.
Na entrevista, Lula afirmou ainda que "a regulamentação atual é do tempo que a gente conversava por carta, de 62. Uma regulamentação que não seja censura, que permita que a gente conduza a internet mais para o bem do que para o mal".E atacou a concentração da mídia: "não é possível que nove famílias tenham todos os grandes meios de comunicação do país. É preciso democratizar".
Na última semana, Lula havia afirmado que seu governo não tratou "a reforma da comunicação, a regulação (da mídia), como deveria ser tratada". "Aprovamos um programa para que a gente pudesse regulamentar os meios de comunicação. Eu não sei por que ‘cargas d’água’ não foi colocado no Congresso esse projeto", disse.
Com a proposta de regulação da mídia, o ex-presidente Lula voltou a ser alvo da mídia corporativa. Para Veja, ao defender a medida, o petista "resgatou um antigo fetiche do autoritarismo petista: controlar a atuação da imprensa livre". Apesar de a mídia ser regulada em todos os países capitalistas, a mídia conservadora, para defender seus privilégios, insiste em que qualquer regulação seria "socialista".
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PT: “derrotados na Justiça, Folha e Globo querem manter tribunal da mídia contra Lula”

247 - O Partido dos Trabalhadores rebateu os editoriais dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo, publicados nesta quinta-feira (26), que seguem com o linchamento midiático contra o ex-presidente Lula.
“Depois de liderar a campanha de mentiras da Lava Jato, não se conformam diante da inocência do ex-presidente, proclamada em 17 decisões judiciais, inclusive pelo STF, de forma inapelável. Invertem o princípio consagrado na Constituição, para seguir aplicando a Lula uma presunção de culpa que nunca foram capazes de demonstrar com fatos”, diz o partido.
Confira a íntegra da resposta do Partido contra os ataques da mídia comercial:
Em seus editoriais de hoje, Folha e Globo tentam restabelecer o tribunal da mídia contra Lula. Depois de liderar a campanha de mentiras da Lava Jato, não se conformam diante da inocência do ex-presidente, proclamada em 17 decisões judiciais, inclusive pelo STF, de forma inapelável. Invertem o princípio consagrado na Constituição, para seguir aplicando a Lula uma presunção de culpa que nunca foram capazes de demonstrar com fatos.
A Folha se agarra a uma tese esdrúxula, de que não teria havido julgamento do “mérito” das mentiras da Lava Jato que a mídia criou e reproduziu. Tenta reduzir a inocência de Lula a “questões de técnica judicial”. Vamos desenhar pra Folha entender: quando a Justiça rejeita uma denúncia por ausência de “justa causa”, por falta de fundamento, o mérito está julgado. Quando é feita de forma ilegal, é a denúncia que não presta.
O Globo segue lamentando o fim da Lava Jato, liderada pelo ex-juiz Sergio Moro que o jornal consagrou com seus prêmios e numa cobertura voltada a fazer dele o herói que nunca foi. Vamos desenhar pro Globo também: o STF decidiu por clara maioria que Moro foi parcial e suspeito em relação a Lula, a partir de sete argumentos irrefutáveis, listados no acórdão. Os processos anulados referem-se a Lula, exclusivamente, como é do bom Direito Penal.
Quase cinco meses depois das decisões do STF que restabeleceram a inocência do ex-presidente, os dois jornalões, especialmente a Folha, reconhecem afinal que não há mais artifícios jurídicos para impedir o povo de votar em Lula, como ocorreu em 2018. O arsenal da Lava Jato esgotou-se em seu mar de nulidades, ilegalidades, arbitrariedades, parcialidade, suspeição; no lawfare do qual Folha e Globo foram atores essenciais do princípio ao fim.
Os editoriais de hoje avisam o que já era previsto: que os jornalões e seus grandes braços eletrônicos não se conformam com o primado da Justiça e da Lei e pretendem seguir na campanha contra o projeto de transformação do Brasil que Lula e o PT representam. Mesmo derrotados nos tribunais, vão insistir na campanha de mentiras, como sempre fizeram desde que Lula ousou desafiá-los na criação do PT para ser a voz da classe trabalhadora.
É essa disputa pela verdade que queremos e vamos fazer, antes, durante e depois da campanha eleitoral. Por isso lançamos, em 12 de agosto, o projeto Memorial da Verdade, que os jornalões censuraram. Vamos debater, ponto por ponto, todas as falsas acusações que fizeram ao PT, a Lula e aos nossos governos. Vencemos na Justiça e vamos disputar o julgamento da História e o julgamento da sociedade brasileira.
Conheça os fatos e os argumentos para rebater as mentiras da mídia. Baixe o livro Por que Lula é Inocente e por que tentaram destruir o maior líder do País.
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Diretora da SOS Mata Atlântica diz que atual crise hídrica é a pior dos últimos 100 anos na região
De acordo com a diretora da fundação SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, "esse ano, a situação é muito mais grave porque nós estamos localizados na bacia do Tietê, na bacia do Paraná e essa é a maior crise hídrica dos últimos 100 anos nessa parte do país"

247 - A diretora da fundação SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, afirmou que a atual crise hídrica é a maior dos últimos 100 anos na região sul e sudeste do país. De acordo com a dirigente, o desmatamento e as queimadas registradas nas cidades agravaram a situação.
"Esse ano, a situação é muito mais grave porque nós estamos localizados na bacia do Tietê, na bacia do Paraná e essa é a maior crise hídrica dos últimos 100 anos nessa parte do país. É fundamental que a população colabore, contribua, como aconteceu durante a crise hídrica durante o período de 2014 e 2016", afirmou em entrevista à TV TEM.
De acordo com Malu, as medidas de rodízio de abastecimento adotadas por Itu, Salto e Araçoiaba da Serra (SP) deveriam ter sido adotadas anteriormente. "Nós teríamos que ter agido de forma preventiva antes de chegar nessa situação de colapso. O rodízio, o racionamento da água, dois dias sem água e um dia com, isso causa graves problemas de saúde para a população. Nós já estamos em uma pandemia terrível, que exige que as pessoas se higienizem mais", disse.
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Incêndios se alastram na Mata Atlântica, bioma onde vivem 72% dos brasileiros
Incêndios castigam o bioma nos quatro estados do Sudeste, além de Paraná e Santa Catarina

247 - Incêndios castigam a Área de Proteção Ambiental da Bacia do Rio dos Frades (APA) e outras 33 unidades de conservação estaduais e dez federais da Mata Atlântica, nos quatro estados do Sudeste, além de Paraná e Santa Catarina. A informação foi publicada pelo jornal O Globo.
No bioma vivem 72% da população e do qual restam 12,4% da cobertura original é extremamente suscetível ao fogo. Uma área perdida pode levar décadas, às vezes séculos.
A Mata Atlântica teve 10.268 focos até 22 de agosto de 2021, contra 9.668 focos em 2020 (até 31 de agosto), um aumento de 6,20%.
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Datena: agora Bolsonaro está avisando que vai dar golpe
O apresentador, possível candidato a presidente, disse em entrevista duvidar da capacidade de Bolsonaro para dar um golpe: "o que ele me falou foi que quem quer dar golpe não avisa. Ele está avisando demais. Acho que isso é falácia e está perdendo força"

247 - O apresentador José Luiz Datena, tido como candidato a presidente, em entrevista ao UOL, falou de sua relação com Jair Bolsonaro, que foi de proximidade no passado e hoje praticamente não existe.
"Surgiu realmente por uma questão de oportunidade. Depois, passou a ser uma fonte jornalística importante, em momentos difíceis do país. (...) Ele [Bolsonaro] me passava mensagens, às vezes de madrugada. Hoje eu não tenho afinidade e nem troco mensagens e nem converso com ele. Ele seguiu o caminho dele e eu segui o meu caminho. Nem como fonte [jornalística] eu falo com o presidente", contou.
Datena lembrou de uma entrevista que fez com Bolsonaro na qual perguntou claramente ao chefe do governo se ele daria um golpe de Estado. A resposta de Bolsonaro foi no sentido de que quem quer dar um golpe não dá cumpre aviso prévio, mas o apresentador ironizou agora ao dizer que é exatamente o que o chefe do governo está fazendo. "Eu perguntei uma vez se ele ia dar golpe, claramente há muito tempo atrás, e ele: 'Ah, Datena, você acha que quem vai dar golpe vai avisar?' Bom, agora ele está avisando, né?".
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O apresentador, no entanto, duvida da capacidade de Bolsonaro para um golpe. "Eu duvido que os militares de hoje estivessem alinhados a qualquer tipo de atividade golpista do presidente Bolsonaro, que está ficando desmoralizado. Eu duvido que comandantes militares estejam alinhados com o presidente da República. Eu duvido até que ele queira dar golpe. O que ele me falou foi que quem quer dar golpe não avisa. Ele está avisando demais que daria golpe. Acho que isso é falácia e está perdendo cada vez mais a força".
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Atentado com explosões deixa dezenas de mortos e aumenta caos no aeroporto de Cabul

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CABUL — Um atentado coordenado, com duas explosões, deixou dezenas de mortos próximo a um dos portões do aeroporto internacional de Cabul no início da noite desta quinta-feira, manhã no Brasil, horas depois de diversos países ocidentais emitirem alertas para que civis deixassem o local. Segundo o Pentágono, as explosões teriam sido causadas por homens-bombas pertencentes ao braço afegão do Estado Islâmico, que reivindicou o ataque horas depois. Conhecido pela sigla em inglês Isis-K, o grupo terrorista é um inimigo comum dos Estados Unidos e do Talibã.
Ainda de acordo com o Pentágono, os ataques deixaram 13 soldados americanos mortos e outros 18 feridos. Ainda não está claro, porém, o total de mortos, incluindo civis. À agência Reuters, autoridades de saúde afegãs falaram em 60 mortos, entre afegãos e estrangeiros, e pelo menos 140 feridos. Fotos e vídeos mostraram dezenas de feridos sendo levados a hospitais.
À AFP, o porta-voz do Talibã, Zabihullah Mujahid, que condenou "veementemente" o ataque, disse mais cedo que havia crianças entre os mortos. O grupo, que tomou o poder em Cabul no último dia 15, tem feito a segurança das vias de acesso ao aeroporto, cujo perímetro continua sob controle de forças americanas e dos seus aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
O incidente foi o mais mortal envolvendo militares dos EUA no Afeganistão desde a queda de um helicóptero na província de Wardak, em 2011, quando as 38 pessoas a bordo morreram, incluindo 31 militares americanos, sete integrantes das forças de segurança afegãs e um intérprete. Ele ocorre a cinco dias do prazo final para a retirada das tropas estrangeiras do país, 31 de agosto, segundo um acordo assinado em 2020 entre Washington e o Talibã.
— Vários civis afegãos também morreram ou ficaram feridos no ataque — disse o general Kenneth McKenzie, chefe do Comando Central dos Estados Unidos, que confirmou acreditar que o Isis-K tenha sido o provável responsável pela ação.
Na sua primeira declaração depois do ataque, o presidente americano Joe Biden disse lamentar a violência na capital afegã e prometeu vingança contra os responsáveis pela ação. Segundo ele, o Pentágono já trabalha em planos para atingir o grupo terrorista, mas sem dar prazos ou detalhes.
— Nós não vamos perdoar, não vamos esquecer. Vamos caçá-los até o fim e fazê-los pagar — apontou Biden, descrevendo os militares como "heróis". Ele ainda reiterou que os planos para a saída dos militares até o dia 31 estão mantidos.
Ataques coordenados
A primeira explosão aconteceu nos arredores do Portão Abbey, o principal local de acesso ao aeroporto, e foi seguida por uma troca de tiros. A segunda detonação, a pouco metros da primeira, ocorreu perto do Hotel Baron, prédio bastante usado por diplomatas americanos e britânicos.
— Houve uma explosão contra os americanos, um monte de pessoas foram mortas, civis e militares — disse um combatente do Talibã que esteve na área ao New York Times. — A situação está fora de controle. Há muita gente morta lá.

A situação atual é volátil, alertou o Pentágono, e novos ataques são esperados, como é comum no modus operandi do Isis-K.
Em um vídeo publicado horas depois em redes sociais, o grupo terrorista Estado Islâmico disse que seu braço no Afeganistão, o Estado Islâmico na Província de Khorasan (Isis-K), foi o responsável pelo massacre no aeroporto. As imagens mostram o homem que teria levado os explosivos e, segundo o relato, os detonado "a uma distância de não mais que cinco metros das forças americanas, que supervisionavam os procedimentos de coleta de documentos de centenas de tradutores e prestadores de serviço, antes de sua retirada do país".
A mensagem, divulgada através da Amaq, apontada como a "agência de notícias" do Estado Islâmico, acusou ainda o Talibã de "manter uma parceria" com os EUA para retirar "espiões" do Afeganistão, e disse que o homem-bomba "conseguiu burlar todas as medidas de segurança impostas pelas forças americanas e da milícia Talibã em Cabul".
Mais cedo, o porta-voz do Pentágono, John Kirby, disse que uma das explosões ocorreu nos arredores do Portão Abbey, o principal local de acesso ao aeroporto. Uma segunda detonação, a pouco metros da primeira, ocorreu "no Hotel Baron ou perto de lá", prédio bastante usado por diplomatas americanos e britânicos. No vídeo, o Estado Islâmico não faz referência a este ataque.

Retirada iminente
Os atentados aumentam o caos no aeroporto de Cabul, onde as forças americanas e de seus aliados da Otan tentam remover o maior número de pessoas antes do prazo final para sua retirada do Afeganistão, 31 de agosto. Mais de 100 mil pessoas já foram removidas do país, mas milhares ainda esperavam do lado de fora quando houve as explosões, principalmente nos arredores do Portão Abbey.
Zabihullah Mujahid, o porta-voz do Talibã. disse em seu Twitter que o grupo "condena veementemente" o ataque contra civis no aeroporto de Cabul, afirmando que as explosões ocorreram em uma área cuja "segurança é responsabilidade dos Estados Unidos". Ele declarou ainda que relatos de explosões posteriores, ouvidos ao redor de Cabul, estão relacionado à destruição de armas e munição realizada pelos EUA no aeroporto de Cabul, algo não confirmado pelo Pentágono. Em entrevista à Al Jazeera, outro porta-voz da milícia, Mohammad Naim, disse ter alertado previamente as forças estrangeiras sobre risco de grandes aglomerações na área do aeroporto.
Apontado como provável autor do ataque, o Isis-K surgiu em meados de 2014 e tem como base ex-integrantes de um grupo igualmente radical, o Tehrik-i-Taliban, Movimento dos Estudantes, do Paquistão, presente em áreas de fronteira entre os dois países. Ele segue um modelo similar ao de outras células — chamadas de províncias — do Estado Islâmico pelo mundo: uma relativa independência da liderança do grupo, baseada na Síria e no Iraque.
Há dias, líderes ocidentais, incluindo o presidente dos EUA, Joe Biden, apontavam o risco de ataques no aeroporto, mas os alertas ganharam nova dimensão na noite de quarta-feira. Diversos países e o próprio Talibã destacaram que havia ameaças "muito críveis" do Isis-K e emitiram alertas para que os civis deixassem a região do aeroporto. Perante os riscos, vários países europeus já haviam suspendido a retirada de pessoas do Afeganistão, a cinco dias do prazo final para os militares americanos deixarem o país após 20 anos de invasão.
— Eu não posso reforçar o desespero dessa situação suficientemente. A ameaça é crível, é iminente, é letal — havia afirmado mais cedo nesta quinta o ministro das Forças Armadas do Reino Unido, James Heappey. — Nós não estaríamos dizendo isso se não estivéssemos genuinamente preocupados com o Estado Islâmico.
Apesar dos alertas internacionais, contudo, um diplomata ocidental em Cabul disse que os arredores do Aeroporto Internacional Hamid Karzai continuavam “incrivelmente lotados”, como tem sido desde que o Talibã retornou ao poder. Nos últimos dias, tumultos na região deixaram ao menos 21 mortos, com forças estrangeiras e soldados do grupo fundamentalista disparando para tentar conter a multidão.
Se o Talibã é responsável pela segurança do lado de fora, são os americanos que controlam a situação dentro do perímetro do aeroporto. Com voos civis interrompidos, no entanto, poucos afegãos conseguem sair, já que a prioridade de remoção é para cidadãos estrangeiros e afegãos que trabalharam para as forças da Otan e receberam vistos dos países da aliança militar ocidental.
Depois do ataque, Biden foi brifado sobre a situação na Casa Branca, juntamente com o secretário de Estado, Antony Blinken, o secretário de Defesa, Lloyd Austin, e o chefe do Estado-Maior, Mark Milley. A vice-presidente Kamala Harris, que está em Guam após uma viagem ao Sudeste Asiático, participou por videoconferência.
Por sua vez, o secretario-geral da ONU, António Guterres, convocou os membros permanentes do Conselho de Segurança para uma reunião de urgência, onde discutirão a situação em Cabul. Segundo diplomatas, o encontro está marcado para segunda-feira, véspera da data para a conclusão da retirada dos militares estrangeiros do Afeganistão.
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Talibã diz querer que afegãos fiquem no país e espera fim de retirada estrangeira até 31 de agosto
O Talibã espera que as retiradas de estrangeiros de Cabul terminem até o final do mês, disse o principal porta-voz do grupo islâmico nesta terça-feira

Por James Mackenzie e Raju Gopalakrishnan (Reuters) - O Taliban espera que as retiradas de estrangeiros de Cabul terminem até o final do mês, disse o principal porta-voz do grupo islâmico nesta terça-feira, exortando os afegãos a ficarem para ajudar a reconstruir o país.
Zabihullah Mujahid disse que o movimento não concordou com uma prorrogação do prazo final de 31 de agosto, que disse ter sido combinado com os Estados Unidos para sua saída do Afeganistão, e que o grupo quer que todas as partidas ocorram até esta data.
"A prorrogação foi unilateral do lado dos Estados Unidos", disse ele, aparentemente se referindo a um comentário do presidente norte-americano, Joe Biden, que disse na semana passada que as tropas de seu país poderiam ficar depois de 31 de agosto.
"Foi uma violação do acordo. Queremos que eles retirem todos os cidadãos estrangeiros até 31 de agosto", disse Mujahid, de acordo com um tradutor. "E não somos favoráveis a deixar que afegãos partam".
Ainda nesta terça-feira, uma autoridade dos EUA disse que Biden aceitou uma recomendação do Pentágono de retirar os soldados do Afeganistão até o final do mês, mas que a decisão depende de o Taliban cooperar com os EUA na finalização das retiradas.
Não ficou claro se o comentário do porta-voz do Taliban indicou que haveria uma proibição formal à saída de afegãos do país.
Ele disse que as multidões que se aglomeram diante do aeroporto podem ir para casa e que sua segurança está garantida, e pediu aos EUA que não incentivem afegãos instruídos e treinados a deixarem sua terra natal.
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Talibã: agora é o momento oportuno para contato com comunidade internacional
“Nossos objetivos principais e primeiros passos são o diálogo e a resolução pacífica de quaisquer problemas”, disse o representante oficial do gabinete político do Talibã, Mohammad Naim, em entrevista à Agência Sputnik, da Rússia

Sputnik - A Sputnik entrevistou o representante oficial do gabinete político do Talibã (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países), Mohammad Naim.
Os talibãs declaram à comunidade internacional e aos afegãos que o Afeganistão não se tornará uma plataforma para quaisquer operações que possam ameaçar qualquer outro país.
No que diz respeito à confirmação de tais declarações na prática, Mohammad Naim relembra que os talibãs anunciaram a anistia geral para os funcionários governamentais do Afeganistão. Além desse passo, eles conduziram negociações com autoridades americanas, alcançando o acordo sobre a retirada das tropas do país.
"Nossos objetivos principais e primeiros passos são o diálogo e a resolução pacífica de quaisquer problemas. Essa política tem mostrado sucesso. O processo de paz levou a que agora as pessoas estão reunidas e abandonaram as discordâncias."
O representante do movimento afirmou que a organização se esforça para "encontrar a fórmula de governo futuro" o mais rápido possível, uma vez que ninguém, de acordo com suas palavras, inclusive eles próprios, esperava que a tomada do poder acontecesse tão rápido. "Estamos ansiosos e fazendo o nosso melhor para encontrar a fórmula do futuro governo o mais rápido possível", disse.
Quanto ao tipo de governo, ele respondeu que ele vai incluir cidadãos comuns, "para que as pessoas sintam que o governo representa seus interesses". O objetivo principal é servir o povo, na base da sinceridade e sem discriminação, inclusive no que se refere aos direitos das mulheres.
Além disso, Mohammad Naim reiterou mais uma vez que o Talibã não aceita o adiamento da retirada das tropas dos EUA do solo afegão, já que a data acordada foi adiada pela administração Biden unilateralmente.
"Eles devem sair a tempo para que não haja novos problemas", avisou.
A posição da Rússia, por sua vez, é avaliada pelos talibãs de forma positiva: "A posição da Rússia é maioritariamente positiva, e esperamos que no futuro a Rússia também desempenhe um papel favorável na solução dos problemas existentes no Afeganistão. Nos encontramos várias vezes e realizamos conferências em Moscou para busca de soluções dos problemas afegãos".
O representante aponta que a situação mudou nos últimos 20 anos: naquele momento o país estava dividido e mesmo Cabul, apesar da pequena área, estava dividida entre seis organizações diferentes. A comunidade internacional não tem ajudado o povo afegão, "além de sanções e ameaças". Mas agora a situação mudou radicalmente, opina Naim.
"O Afeganistão se tornou uma casa em chamas. E é lógico que, primeiramente, é preciso unir o país e depois eliminar os problemas que foram criados pelas mãos dos aventureiros militares. Nós devemos resolver esses problemas".
Ele indicou dois principais problemas no Afeganistão. Primeiro, é a "ocupação", que terminou ou quase terminou. Segundo, é a guerra que dura há 40 anos, provocando misérias e desastres.
"Agora surgiu uma boa possibilidade, tanto dentro, como fora [do país] para estabelecer contato com países vizinhos e a comunidade internacional. É um momento muito oportuno para as partes internas e externas trabalharem juntas para levar o povo afegão a um porto seguro, para ajudar o povo afegão, para desempenhar um papel positivo no desenvolvimento do Afeganistão e na solução dos problemas do povo afegão", concluiu.
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Líderes evangélicos bolsonaristas convocam fiéis para atos golpistas de 7 de setembro
Silas Malafaia e outros estão mobilizando seus seguidores nas redes sociais para aumentar a participação nos atos bolsonaristas de 7 de setembro

247 - Líderes evangélicos bolsonaristas participarão dos atos golpistas de 7 de setembro e estão se mobilizando seus seguidores pelas redes sociais para que estes também estejam presentes nos eventos.
Apesar do engajamento dos líderes, pesquisa do Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) de junho mostra que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem 41% dos votos entre os eleitores evangélicos, contra 32% de Jair Bolsonaro.
O empresário e pastor Silas Malafaia, que tem cerca de 10 milhões de seguidores nas redes sociais, da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, é um dos organizadores dos atos bolsonaristas. "Os atos serão monstruosos. Pela primeira vez na história política, os evangélicos estão se mobilizando”, disse o bolsonarista à Veja.
Estão mobilizados pelos atos também os líderes evangélicos Estevam Hernandes, dono da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, Cláudio Duarte, da Igreja Projeto Recomeçar, Renê Terra Nova, do Ministério da Restauração, Cesar Augusto, da Igreja Apostólica Fonte da Vida, e Abner Ferreira, da Assembleia de Deus de Madureira.
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Bolsonaristas investem para provocar nas polícias um “espírito do ódio”, diz Freixo sobre 7 de setembro
Para o deputado do PSOL, “o que estamos assistindo é um conjunto de absurdos que vai se aproximando do nosso dia 7 de setembro num clima de tensão máxima”

247 - O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) falou em “clima de tensão máxima” no 7 de setembro, quando acontecerão atos pró e contra Bolsonaro pelo País. O presidente confirmou presença nos atos de Brasília e de São Paulo.
“O que estamos assistindo é um conjunto de absurdos que vai se aproximando do nosso dia 7 de setembro num clima de tensão máxima”, disse Freixo em entrevista ao UOL.
Segundo ele, há um investimento da extrema direita e de grupos bolsonaristas nos atos com o objetivo de provocar na polícia um “espírito do ódio” e de “patriotismo invertido”.
O clima por parte das Polícias Militares vem esquentando em relação ao 7 de setembro. Nesta segunda-feira (23), um coronel da PM-SP foi afastado pelo governador João Doria após convocar para manifestações golpistas nas redes sociais. Outros PMs também se manifestaram com manifestações golpistas.
“São diversos crimes cometidos, ameaças, desconstruções das relações institucionais e todas muito graves. Isso é muito ruim para a democracia", completou o parlamentar”, acrescentou Marcelo Freixo.
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A felicidade, a coxa e o bilau do presidente - Daniele Barbosa Bezerra
Por Daniele Barbosa Bezerra

Que a felicidade alheia incomoda, eu já sabia por experiência própria; das vezes em que me senti feliz e realizada, percebi o olhar invejoso mal disfarçado de muita gente ao redor, algumas bem próximas. Mas nada se compara ao estrago que uma coxa malhada de um senhor septuagenário, e o seu bilau confortavelmente acomodado na sunga de praia fizeram esses dias nas redes sociais, no coração e na bílis de alguns brasileiros. Revelou-nos o quanto a sociedade brasileira, seja de direita ou de esquerda, está amarga, triste, rancorosa e com um viés moralista de agradar a qualquer “cidadão de bem”. Sei que não é por falta de motivos, estamos sendo bombardeados, há anos, por essa pulsão de morte, mas sejamos razoáveis!
A imagem do ex-presidente Lula com a sua amada, Janja, na paradisíaca praia de Icapuí, no Ceará, tendo como testemunhas a lua e as lentes do incrível Ricardo Stuckert é a semiótica da felicidade num país de baixo astral. O homem que esbanja alegria, força e virilidade é o mesmo que há menos de dois anos se encontrava encarcerado injustamente, com uma torcida institucionalizada para que ele morresse e fosse esquecido. Entretanto, mesmo com todo o incentivo da horda lavajatista e bolsonarista para que o líder dos trabalhadores sucumbisse na injustiça, o ex e quiçá, futuro presidente, mesmo preso, sentiu-se livre para o amor, conseguindo a proeza de encontrar um novo amor, sem dar um passo fora da cela. E nós que estamos livres, penando...
Isso é uma afronta! É imoral! Falocentrismo! Esbravejam os seus detratores e alguns dos seus correligionários ao encarar a imagem do casal feliz. Afinal, na cabeça dessas pessoas, um homem com mais de setenta anos, não pode ser como o filho da D. Lindu, teimoso, risonho e viril e como ele mesmo diz: “Com tesão de 30”; muito menos ser fotografado com figurino impróprio aos olhares moralistas, mas totalmente apropriado ao ambiente em que fora fotografado, a praia. A meta é e sempre será, desumanizá-lo.
Cabe ao Lula, segundo a vontade de uns e o inconsciente de outros, se esconder, sair de cena e não se amostrar ao lado da namorada, ainda mais com roupa de banho! Que vulgar! Já não basta ter saído lá do nordeste faminto brasileiro e ter se tornado a liderança mundial que é? Ainda tem que passar na cara um físico invejável e vontade de viver? Está errado! Era para ser um velhinho, preferencialmente em cadeira de rodas, com comorbidades até os últimos fios de cabelo e com um sexo saudoso de um passado ativo. Este sim seria o portrait perfeito para os que o odeiam e para alguns que dizem amá-lo, afinal esses últimos teriam como ser solidários e fazer sua caridade vermelha e cristã a mais um ancião com um passado de glórias.
Apesar das polêmicas, surgiram diversos memes da imagem, os brasileiros são imbatíveis nisso; muita graça em meio à carranca que insiste em coabitar o país. Alguns comparavam o porte físico do Covard17, ex-atleta e hoje genocida, ao do ex-presidente Lula; outros mostravam seus adversários políticos fitando a polêmica imagem com um olhar de despeito; outros tratavam, com ironia, sobre a difícil escolha entre o ex e o atual presidente. A descrição feita aqui não chega aos pés da criatividade e do humor das imagens.
Em meio a tanto sofrimento por que passamos, Lula, despretensiosamente, nos mostrou que ainda é possível ser feliz, mesmo aos 75 anos e em meio a uma gente desgraçada que saiu do esgoto, além de uma pandemia que já matou mais de 600.000 brasileiros e brasileiras. A sua pulsão de vida é tão forte e tão inspiradora que, hoje, acordei com vontade de ir à academia e voltar a ter as coxas do Lula.
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CPI da Pandemia fecha o cerco - Randolfe Rodrigues
Por Randolfe Rodrigues

A CPI da Pandemia entra em sua reta final e não restam dúvidas da negligência do governo federal na condução da crise sanitária que já matou mais de 570.000 brasileiros. Foram diferentes ações e omissões que resultaram diretamente no elevado número de contaminações e óbitos decorrentes do novo coronavírus, colocando o Brasil como um dos epicentros mundiais da pandemia, além do destaque negativo nas estatísticas relacionadas à covid-19.
A postura negacionista do governo federal e as reiteradas tentativas de minimizar a gravidade da crise - com o boicote ao isolamento social e uso de máscaras, além da panaceia em torno do tratamento precoce e kit-covid - ilustram o descaso com que o coronavírus foi tratado pelo poder central. As consequências de tal postura são trágicas e se fazem sentir diariamente frente ao descontrole com que o coronavírus ainda circula pelo país.
Em pouco mais de três meses de investigações descobrimos, entre outras celeumas, que as medidas de combate à pandemia eram decididas em uma espécie de “gabinete paralelo”, isto é, uma estrutura alheia à administração pública que agia a revelia do Ministério da Saúde, maior autoridade sanitária do país. De lá partiu a decisão de adotar a imunidade coletiva de rebanho como enfrentamento ao coronavírus bem como a aposta em medicamentos inócuos contra a covid-19, cuja ineficácia ficou demonstrada em diferentes estudos científicos.
O despreparo do corpo técnico deslocado para o Ministério da Saúde com o objetivo de controlar a pandemia é outra constatação da CPI. A incompetência é patente sob múltiplos aspectos, desde a compra e distribuição de insumos para hospitais à logística de vacinação da população brasileira. A falta de autonomia e ingerência nas decisões do limitado corpo técnico - já esvaziado em função do gabinete paralelo - ilustram o caos administrativo no ministério.
Mas não somente a omissão, despreparo e incompetência do governo federal respondem pela tragédia que assola o Brasil. Corrupção em larga escala apareceram durante as investigações da CPI da Pandemia, revelando um gigantesco esquema para desvio de recursos públicos com o superfaturamento de contratos para aquisição de imunizantes contra o novo coronavírus. As perdas chegariam à casa dos bilhões de reais caso não fosse descoberto a tempo, poupando o país de ainda mais danos além daqueles já acumulados até agora.
O esquema é expediente clássico usado para desvio de recursos públicos: o superfaturamento de contratos para posterior distribuição de propina pelas empresas contratadas pelo governo. No caso das descobertas da CPI da Pandemia, seriam várias as empresas que atuariam como intermediárias no esquema, algumas sem nenhuma expertise em corrupção - simples aventureiras - que viram uma oportunidade de roubar o erário diante o embuste das autoridades.
Os personagens das negociações fraudulentas para compra de vacinas são os mais bizarros possíveis, o que indica o cambalacho que tomou conta do Ministério da Saúde. A participação de diferentes autoridades governamentais - espalhados por vários entes da administração pública - evidenciam a dimensão do esquema e seu enraizamento no governo. Enquanto o Brasil contabilizava milhares de mortes diárias em função do coronavírus, gestores públicos urdiam um projeto para distribuição de propina e enriquecimento ilícito.
As próximas semanas serão decisivas para fechar os elos da investigação e delimitar a responsabilidade de cada um nos crimes cometidos na condução da pandemia do novo coronavírus. Como afirmamos acima, não restam dúvidas de que a tragédia que nos assola é resultado direto do descaso do governo federal no enfrentamento da crise. É hora de nomear os responsáveis e puni-los pelos seus crimes.
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Por que é um erro virar a página da caçada sofrida por Lula - Bepe Damasco
Por Bepe Damasco

Lula tem uma tarefa cívica e patriótica gigantesca pela frente. Se eleito presidente em 2022, a ele caberá liderar um projeto capaz de retirar o Brasil dos escombros, interrompendo a maior destruição verificada em toda sua história. Em paralelo, o desafio de Lula inclui fincar as bases de uma política de reconstrução da nação.
Ciente de sua imensa responsabilidade, o ex-presidente evita falar em acerto de contas com o passado, repetindo que seu velho coração de 75 anos não guarda ódio e que, em nome das grandes causas do povo brasileiro, é necessário olhar para frente e projetar o futuro. Ou seja, uma argumentação coerente com o estadista que é.
Agora que na justiça caem um a um os processos fraudulentos contra Lula – já são 17 absolvições -, o que me preocupa é a tendência de expressiva parcela dos setores progressistas de, por puro pragmatismo eleitoral, esquecer os episódios relacionados a mais sórdida campanha de perseguição e linchamento já sofrida por um político brasileiro.
Recuar no tempo ajuda a iluminar a questão. Depois de ter sido eleito presidente da República duas vezes e deixado o cargo com 87% de aprovação popular, Lula foi decisivo para eleger e reeleger sua sucessora. Elevado à condição de estadista de primeira grandeza na cena internacional, sua obra de inclusão social e combate à pobreza eram reverenciadas pela imprensa e pelo meio político do mundo inteiro.
Depois que Lula enfrentou e venceu um câncer, um cálculo político passou a assombrar e tirar o sono da elite: “E se após o segundo mandato de Dilma, Lula se lançar candidato de novo? Aí serão mais oito anos de PT no poder. Como fazer se no voto é impossível derrotar essa gente? Já perdemos quatro eleições consecutivas. Eureka! Só com um massacre judicial, com amplo apoio da mídia, será possível mudar esse jogo. Custe o que custar.”
Por óbvio, não prego vingança, mas penso que varrer para debaixo do tapete toneladas de sujeira e violações da lei com objetivos políticos, o lawfare, só contribui para solapar de vez o fiapo de democracia que nos resta. E até para que não ocorra outra vez é importante sempre lembrar dessa página enlameada da nossa história recente.
Tomando a realidade como medida de todas as coisas, fora o juiz corrupto Sérgio Moro e a gangue de procuradores da Lava Jato de Curitiba, não há como alimentar esperanças de responsabilização penal dos integrantes da ampla cadeia de personalidades e instituições que protagonizaram a sucessão de crimes cometidos contra Lula e seu partido.
Contudo, deve caber aos democratas a luta incessante pela punição moral e simbólica dos membros dessa rede de delinquência, afinal...
Como esquecer que Lula foi impedido de disputar uma eleição como a de 2018, a qual liderava as pesquisas com folga?
Como esquecer que essa cassação preventiva abriu caminho para os fascistas chegarem ao poder no Brasil?
Como esquecer que Lula ficou preso por 580 dias?
Como esquecer que Lula teve negado seu pedido para comparecer ao sepultamento de seu irmão ou das humilhações sofridas para se despedir do neto que falecera aos sete anos?
Como esquecer que a perseguição cruel e implacável à sua família provocou o agravamento do aneurisma de Dona Marisa e sua morte?
Como esquecer da cumplicidade de diversas instâncias do Judiciário, principalmente do TRF-4 e do STJ, onde Lula teve todos seus recursos negados e até suas penas aumentadas, às sentenças viciadas de Moro?
Como esquecer a tática adotada de cercar Lula por todos os lados imputando-lhe um sem número de acusações e processos, com o Ministério Público atuando em ordem unida?
Como esquecer do jornalismo de guerra do oligopólio da mídia contra Lula, liderado por Globo e Folha? Um verdadeiro massacre, na base da mentira mais calhorda. Não havia uma matéria sobre Lula que não relembrasse todos os processos e condenações envolvendo o ex-presidente.
Como esquecer que a Globo concedeu um latifúndio de espaço ao “elevador privativo que Lula mandou construir no triplex do Guarujá” e depois se calou quando o MTST invadiu o apartamento e mostrou que nunca houve obra alguma?
Como esquecer que movido por mero oportunismo político teve gente de esquerda deu corda aos processos , mesmo sabendo que as acusações, de tão inconsistentes e ridículas, não seriam aceitas pelo judiciário dos países civilizados?
Como esquecer que durante anos pudessem ter sido levadas a sério por parte considerável da sociedade as imputações contra Lula? Quer dizer então que um estadista respeitado ao redor do mundo por chefes de estado e de governo, reis, rainhas e imprensa internacional poria todo esse patrimônio a perder por conta de um moquifo no Guarujá e a porcaria de um sítio? Acreditar nisso é o mesmo que levar fé nas convicções democráticas de Bolsonaro.
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O funambulismo da direita neoliberal - Carol Proner
Por Carol Proner

Há uma grita na direita, entre editoriais e articulistas conhecidos, mas nada de fundamental é proposto pelos porta-vozes do neoliberalismo quando urram alardeando a subida da fervura golpista. Como funâmbulos cruzando a corda-bamba já no trecho final, o importante para eles é pedir socorro sem perder o foco: a meta é atravessar o mês de setembro e completar com êxito o desafio da reforma administrativa e da reforma eleitoral, ganhando como bônus o novo imposto de renda.
Uma respiração profunda, mais alguns passos e os equilibristas do mercado financeiro, que pactuaram com o fascismo, alcançarão a margem segura, deixando para trás os jacarés insanos em direção à nova etapa, a construção da terceira via. Mas neste tramo final a corda anda muito esticada e obriga ao movimento dos braços abertos.
Essa ressalva das verdadeiras intenções precisa ser feita, o que não significa desmerecer o alerta, aliás, alerta que vem sendo feito pelas esquerdas há muito tempo, muito antes de Bolsonaro chegar ao poder.
A fervura está mesmo no ponto alto, justifica a grita, mas recepcionar de braços abertos os arrependidos e colaboracionistas exige um pouco de malícia por parte dos verdadeiros democratas.
É certo que a deterioração institucional e as ameaças de ruptura facilitam o perdão aos que apoiaram o golpe de 2016, aos que votaram no Bolsonaro ou viabilizaram os abusos da Lava Jato contra o país. Lula dá o exemplo e mostra um caminho. Fernando Henrique Cardoso reage com civilidade, a comemorada civilidade na política. Governadores se unem para apoiar os freios e contrapesos aplicados pelo STF ao bolsonarismo e Dória dá um soco na mesa. Lula já não é o grande mal, e isso não é pouca coisa.
Mas atenção. Quem cozinha sabe que é preciso jogar vinagre na fervura para evitar que os ovos se rompam. Acostumados ao léxico do mercado financeiro, os setores que abrem os braços pedindo apoio às reformas como condição para defender a democracia costumam registrar no formulário de suas aplicações o perfil “arrojado” e isso porque jogam com o dinheiro e os direitos dos outros e não com os próprios. O risco é praticamente zero, mas há eleições em 2022. Quando estes setores clamam desesperados por providências das Forças Armadas, do Congresso, do Ministério Público e da Justiça, estão também traindo os antigos aliados, é da natureza.
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Todos em alerta com as PMs. O golpe bolsonarista conta com elas - Gilvandro Filho
Por Gilvandro Filho

Por Gilvandro Filho, para o Jornalistas pela Democracia
A proximidade do dia 7 de setembro e a promessa de protestos bolsonaristas por todo o Brasil deixam os democratas de cabelo em pé. Manifestações da ultra-direita já estão programadas e prometem acirrar o clima de confronto e desrespeito às instituições republicanas, mais propriamente ao Judiciário, com foco no Supremo Tribunal Federal (STF), e ao Legislativo, com o risco até de ataques físicos ao Congresso Nacional. A coisa piora na medida em que o próprio presidente da República anuncia, irresponsavelmente lampeiro, seu apoio a esses atos insurrecionais e promete estar presente em, pelo menos, dois deles, em Brasília e São Paulo.
Infelizmente, os arreganhos golpistas e a realização de atos antidemocráticos em nosso país não se limitam a elementos folclóricos como Sérgio Reis, Eduardo Araújo, o véio da Havan, Batoré ou Amado Batista. Nem abrange apenas o universo de generais vetustos como os que escamoteiam sua falta do que fazer nas quermesses emboloradas dos clubes militares. Temos outro elemento, muito mais deletério, a compor o cenário pré-ditadura em que o Brasil perigosamente se encontra. Estamos falando dos policiais militares, uma categoria hoje majoritariamente em pé de guerra pelo bolsonarismo e contra a democracia.
Em todo o País, as PMs constituem, hoje, um risco e uma ameaça, às vezes velada, outras não. É o caso dos militares paulistas: todo dia um comandante de batalhão rompe com o bom senso e convoca seus pares aos atos do próximo dia 7. De nada adiantam punições, como a imposta pelo governador João Dória, que afastou o comandante da PM de Sorocaba, bolsonarista convicto e participante declarado do ato pró-Bolsonaro e contra o STF. Ato contínuo, mais três oficiais convocaram a tropa para as manifestações, praticamente com as mesmas palavras de ordem. Não estão nem aí.
Este quadro de SP está longe de ser exceção. De norte a sul, a Polícia Militar é hoje um berço de insurretos e um contingente com o qual Bolsonaro conta para transformar o Brasil na ditadura dos seus sonhos. Isto, junto com os insanos à paisana que ele armou ao flexibilizar o comércio de armas de fogo e equipar seu exército civil para a guerra. No Rio de Janeiro, em Minas Gerais, em Pernambuco ou na Bahia, em termos de PM bolsonarista, muda apenas o local. Exemplos saltam aos olhos e comprovam que, na hora de defender as instituições, essas forças de segurança são, infelizmente, os elementos menos confiáveis para a população que lhe paga o salário.
O Brasil tem cerca de 416 mil policiais militares (números de 2019, contra 425 mil de 2014), dos quais 100 mil são de São Paulo, onde está o maior contingente militar da América Latina. Um exército hoje dedicado às ideias de um louco que o agrada com benesses salariais e prestígio. Isto faz da PM, veladamente como instituição, o suporte do bolsonarismo e do seu “mito”, junto com uma parcela significativa das Forças Armadas, esta com seus líderes maiores inclusos. A PM, entende Bolsonaro, é o seu grande apoio armado operacional para o golpe que, ele acredita, virá.
Vinculadas, formalmente, aos governos dos estados, as corporações da Polícia Militar são, no momento, a grande preocupação dos governadores. Essa semana, eles se reuniram para tratar do perigo real que assola o Brasil, que é a ruptura do regime democrático a partir de uma escalada golpista comandada a partir do Palácio do Planalto, com o possível suporte técnico e bélico de suas próprias forças policiais. Sabem os chefes de governo que se trata de um problema grande que eles terão que enfrentar, e logo. Se já não for tarde.
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Reinaldo Azevedo - Discurso de comandante do Exército, ao lado de Bolsonaro, é antigolpista
Colunista do UOL
25/08/2021 17h06
Nunca se sabe o que pode sair da cabeça de alguém clinicamente imprevisível — e esse é um mistério que a medicina não conseguiu até hoje desvendar. Há moléstias, mesmo as psíquicas, cuja etiologia é conhecida. E, pois, sabendo-se a origem, pode-se antever com margem aceitável de incerteza o comportamento do vivente. Mas há aquelas ainda cobertas de sombras... Vamos ver.
Colo essa introdução ao que vem agora. Se o presidente Jair Bolsonaro dedicar um minuto de seu tempo a ler o discurso que ouviu, saído da boca do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército, na solenidade em homenagem ao Dia do Soldado, vai refrear seu ânimo golpista.

Juíza toma crime por liberdade de expressão; decisão incentiva o vale-tudo
Como se sabe, a data escolhida marca o nascimento de Duque de Caxias. Ao exaltar as virtudes que enxerga no patrono do Exército Brasileiro — as controvérsias não cabem neste texto porque me fixo na leitura que o general faz do homenageado —, o comandante destaca caráter, integridade, honradez, disciplina, honestidade, ética, espírito pacificador... Eis as características que não combinam com arruaceiros.
"Ah, mas o general lembrou que o presidente da República, que estava a seu lado, é o 'comandante supremo das Forças Armadas'. Isso não quer dizer alguma coisa?". Quer dizer que ele apenas está citando a Constituição. Razão por que lembra que as Forças Armadas também são garantidoras dos Poderes constitucionais. GARANTIDORAS, não agentes golpistas.
O general deixou claro de que Exército fala. Destaco trechos:
- "um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente";
- "sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem";
- "historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!";
- dotado de "espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias" (...) "inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça";
- um Exército que tem "compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento".
Mas as coisas são assim mesmo? Ele fala por todos os militares? Bem, ele fala, com apoio pleno do Alto Comando, pelo Exército, a principal das três Forças. Nenhum presidente conseguiu plantar a desídia nos três pilares da Defesa no país, ainda que haja ruídos, e os há, na Marinha e na Aeronáutica mais afinados com as tentações golpistas do presidente da República.
É importante que se diga: o discurso de Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira se dá sob pressão — inclusive do general Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria-Geral da Presidência. Um comandante do Exército, Edson Leal Pujol, já foi defenestrado por se opor claramente ao golpismo. Há feiticeiros querendo derrubar também o atual.
Não! Bolsonaro não está apenas brincando de golpe. Na sua cabeça, ou as coisas são como ele quer, ou, então, ele vira a mesa, hipótese em que cobra a lealdade dos militares não à Constituição, mas a seus delírios.
CONSEQUÊNCIAS
Qualquer militar com um mínimo de juízo sabe que a aventura teria curta duração, transformaria o país em pária no mundo, provocaria um racha inédito nas Forças Armadas, derramaria sangue dos próprios brasileiros, conferiria aos militares a feição de carniceiros e implicaria décadas de atraso no esforço de profissionalização e de aprimoramento técnico das três Armas.
Destaque-se, sim, que a indisposição do alto oficialato das Três Forças com o STF, por exemplo, é grande. Os dois anos e oito meses de ataques permanentes de Bolsonaro a esse Poder em particular — que é, afinal, aquele lhe impõe os limites da lei — fizeram frutos. Militares não são os melhores intérpretes da Constituição. Muitos caíram na conversa do presidente de que os togados não o deixam governar, o que é, obviamente, conversa mole.
Ao contrário: sem a colaboração do Supremo, o presidente não teria em mãos os meios para enfrentar a crise gerada pela pandemia. Ocorre que, em vez de se fortalecer politicamente com facilidades inéditas que lhe foram dadas, preferiu investir no negacionismo e no confronto.
Perguntem-se, senhores do Alto Comando, e respondam: de que instrumento o Supremo privou Bolsonaro, impedindo-o de governar? Não existe resposta. Nem mesmo lhe tirou a prerrogativa, que nunca existiu, de ser o único a decidir sobre medidas sanitárias de combate à doença. E ainda bem que não se deu assim! Fosse como ele queria, teríamos as Forças Armadas, em meio a múltiplas tarefas, também a enterrar corpos. Ou os quase 600 mil mortos parecem número corriqueiro?
Bolsonaro quer o confronto, sim. É sua única saída — e, pois, saída não é.
O discurso do comandante do Exército diz, por outras palavras: "Não vai ter golpe, vai ter democracia".
ENCERRAMENTO
O general encerra a sua fala com "Brasil acima de tudo". Por várias razões, mergulhando na história, é uma palavra de ordem que pode remeter a coisas um tanto sinistras.
Dado o contexto, no entanto, é inevitável observar que alude também ao lema da campanha eleitoral de Bolsonaro, mas só pela metade.
Acho que se está a dizer, nas circunstâncias da ora, o seguinte: o Exército é leal à Constituição, não ao presidente de turno se este não for, igualmente, fiel servidor da Carta.
O discurso é antigolpista. Nem por isso a situação deixa de ser delicada e perigosa.
Segue a íntegra da fala do comandante do Exército, com destaques meus:
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"Contar os seus feitos requer imenso esforço de concisão. Não há eloquência capaz de fazer sua figura ainda maior. Seu principal atributo foi a simplicidade na grandeza!"
Meus comandados!
As palavras inspiradas na homenagem do Visconde de Taunay nas despedidas ao Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, sintetizam o que foi a vida do mais ilustre Soldado do Brasil e trazem à reflexão a essência dos soldados que somos: almas simples, mas grandiosas na defesa da Pátria.
Com entusiasmo, celebramos a memória do Patrono do Exército Brasileiro e reverenciamos nossos militares, homens e mulheres que abraçaram o nobre sacerdócio de servir ao País, com abnegação e sem medir o sacrifício próprio e familiar.
Foi na caserna que Caxias teve forjadas suas admiráveis virtudes. Em mais de cinquenta anos de serviços dedicados ao nosso Povo, de Cadete a Marechal, Caxias pautou sua conduta pelo caráter íntegro, honrado, sereno e justo, ao tempo que foi modelo de bravura e de atitude profissional e resoluta no cumprimento do dever.
O esplendor de sua carreira recebeu o batismo de fogo na luta pela consolidação da independência, ganhou vulto na pacificação dos conflitos internos que ameaçavam a unidade nacional e consagrou-se nas campanhas externas em defesa do Brasil.
Na vida política nacional, Caxias foi Senador e Presidente do Conselho de Ministros, notabilizando-se nas tribunas do Parlamento como indelével exemplo de honestidade, ética e postura pública.
O resultado de seus feitos traduziu-se, sempre, no restabelecimento da paz, na restauração da lei e da ordem e na manutenção da integridade do País.
Enaltecida pelo Povo brasileiro, a atuação de Caxias foi marcada pela conciliação, pela superação de posições antagônicas, e, sobretudo, pela prevalência da legalidade, da justiça e do respeito a todos.
Enfim, Caxias foi notável líder militar, estadista e herói. Representa, portanto, a expressão máxima do soldado e do cidadão. Com justíssima razão, a história o proclama Conselheiro da Paz, o Pacificador do Brasil.
Fiéis herdeiros do legado de Caxias e alicerçados na hierarquia, na disciplina e nos valores pátrios, os soldados de ontem e de hoje, da ativa e veteranos, e suas estimadas famílias formam a genuína alma do Exército, retrato fiel de nossa sociedade, e são o patrimônio mais valioso da nossa Instituição.
Graças a você, soldado, a identidade do Exército Brasileiro é moldada pelos valores militares que você cultua e pratica.
Graças a você, soldado, contamos com um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente, cuja história funde-se de maneira indissolúvel com a própria história da Nação brasileira. Um Exército que se moderniza e se transforma continuamente, inserindo-se na Era do Conhecimento e ajustando-se às demandas das novas gerações.
Graças a você, soldado, na fronteira, nas cidades, nos distantes rincões, a qualquer hora e sob quaisquer condições, o Exército — Braço Forte da Nação — preserva a integridade do território, combate os ilícitos ambientais e transfronteiriços e salvaguarda os interesses nacionais.
Graças a você, soldado, provido de sólido sentimento de solidariedade, nos unimos para dar forma à Mão Amiga do Exército, que se estende a todos os brasileiros em prol do bem-estar social, nas situações de calamidade, na distribuição de água no semiárido nordestino, no apoio de saúde aos indígenas, na construção de estradas e ferrovias, na preservação dos biomas, na acolhida de irmãos estrangeiros, no estímulo à cultura e aos desportos, bem como na histórica e significativa contribuição com a comunidade internacional na manutenção da paz.
Graças a você, soldado, testemunhamos o obstinado esforço e o empenho diuturno do Exército para preservar vidas e ajudar a população nas ações de enfrentamento à pandemia da COVID-19, nesse mister ombreando com os profissionais de saúde — verdadeiros heróis de branco!
Sob a autoridade do Presidente da República — Comandante Supremo das Forças Armadas — e integrado à direção superior do Ministro da Defesa, o Exército Brasileiro não para em circunstância alguma e, irmanado com a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira, mantém-se sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem são, portanto, o farol que orienta o contínuo preparo e o emprego da Força Terrestre.
No seu dia, agradecer a você soldado é mais que um dever! É um gesto que nos enche de satisfação e orgulho!
A você, soldado, cujo modo de vida é servir incondicionalmente e em permanente estado de prontidão!
A você, soldado, que se solidariza e ajuda nossa gente sem hesitar!
A você, soldado, que, lutando sem temor, derramou seu sangue além-fronteiras, no continente e nos campos da Europa, pela defesa da democracia e contra o totalitarismo!
A você, soldado, historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!
A você, soldado, a gratidão por tudo o que fez e faz pela Nação brasileira! Presto a você a minha mais vibrante e respeitosa continência!
O momento desta justa homenagem aos soldados, que muito contribuíram e contribuem para a unidade e a grandeza do Brasil, nos motiva a reafirmar o compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento.
Neste curto tempo, desde que assumi o Comando do Exército, estive presente junto à tropa em diversos locais do País, acompanhando seu contínuo preparo. O elevado nível de capacitação e prontidão da Força Terrestre que pude constatar e, principalmente, o profissionalismo, a liderança, o entusiasmo e a coesão de nossos militares têm ratificado a plena certeza de que honramos nossos antepassados ao continuarmos a fazer do Exército Brasileiro essa Instituição que tem merecido a ampla aprovação e a confiança do Povo brasileiro.
Meus comandados!
Mantenhamos, sempre, a fé inabalável na missão do Exército Brasileiro e a crença nos princípios da nossa nacionalidade. Sob as bênçãos do Todo Poderoso Deus dos Exércitos e iluminados pelo espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias, sejamos, junto aos irmãos brasileiros, inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça, ordem e progresso — que o nosso Povo tanto almeja e merece — dedicando-nos, inteiramente, à defesa da soberania nacional e ao bem do nosso amado País.
Soldado brasileiro, parabéns pelo seu Dia! Orgulhe-se, pois sua alma singela é, e sempre será, de têmpera forte como o aço da invicta espada de Caxias!
Brasil, acima de tudo!
Brasília-DF, 25 de agosto de 2021.
General de Exército PAULO SÉRGIO NOGUEIRA DE OLIVEIRA
Comandante do Exército
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Como a ideologia liberal criou o humanismo imperialista - Breno Altman
Por Breno Altman

Publicado originalmente na Jacobin
m dos mais importantes capítulos da tensão entre marxismo e liberalismo, há várias décadas, desenrola-se ao redor da agenda de direitos humanos, potencializada após a derrota do nazifascismo. Ao contrário de ter se constituído em um contrato básico para diferentes nações e sistemas, o confronto entre socialismo e capitalismo a tornou uma narrativa em disputa, na qual os comunistas largaram em vantagem, por seu desempenho no esmagamento do hitlerismo.
As democracias liberais tiveram que recuperar terreno nessa contenda, sob o risco de uma depreciação cultural e moral que estimulasse a irrupção de processos revolucionários. O pós-guerra, a partir de 1945, colocou o campo imperialista, já sob a direção dos Estados Unidos, diante de um tremendo desafio: como desgastar a enorme legitimidade adquirida pela União Soviética no combate ao nazismo?
Essa batalha não poderia ser travada no terreno dos avanços sociais. Tampouco na seara do desenvolvimento econômico, com as incríveis taxas de crescimento da economia soviética de 1945 a 1960. Na comparação sobre direitos das mulheres e luta contra o racismo, os Estados Unidos passariam vergonha.
Corte ideológico
Aos poucos foi ganhando peso um conceito que salvaria os Estados imperialistas dessa enrascada perigosa: a ideia de totalitarismo, trabalhada com maior refinamento pela filósofa Hannah Arendt. Na contraposição à teoria marxista sobre luta de classes e imperialismo, a famosa pensadora propunha como marca de corte a questão democrática, cuja referência seria, em termos gerais, o sistema político-jurídico fundado pelas revoluções burguesas e ampliado após o seu triunfo. A base dessa abordagem seria a adoção de eleições diretas ou parlamentares, liberdades políticas, pluralidade partidária, alternância de governo, separação de poderes e respeito aos direitos individuais.
Os Estados deveriam ser divididos entre os que respeitavam esse sistema e os que o violavam, constituindo-se em poderes autoritários, tirânicos ou totalitários. Por esse critério, por exemplo, Estados Unidos e Inglaterra estariam ao lado da democracia, enquanto a Alemanha nazista e a União Soviética estariam de braços dados com o totalitarismo. Hitler e Stalin seriam, segundo essa leitura, os dois demônios do século XX.
A contradição principal da época, portanto, não seria entre proletariado e burguesia, entre Estados colonizadores e povos colonizados, entre imperialismo e socialismo, mas entre democracia e ditadura, entre o “mundo livre” e os regimes totalitários.
Legitimidade imperialista
Arendt e seus pares talvez levassem ao pé da letra essa teoria, mas os operadores políticos dos Estados imperialistas a conduziram para propósitos mais funcionais. Ditaduras e tiranias que estivessem a serviço do “mundo livre” deveriam ser acolhidas, desde que comprometidas a fustigar o totalitarismo sobrevivente, o soviético, ao mesmo tempo em que as nascentes democracias populares, aliadas a Moscou, deveriam ser sufocadas até que perecessem.
Esse enfrentamento com o movimento comunista, porém, entre os anos 50 e 70, parecia estar longe de ser vitorioso. O fortalecimento do campo socialista seguia adiante, com a vitória das revoluções chinesa, cubana e nicaraguense, o triunfo dos vietnamitas contra os imperialismos francês e norte-americano e a descolonização da África, entre outros episódios.
Era tão escancarado o alinhamento da Casa Branca com tiranias corruptas e antipopulares que a crítica ao socialismo real era percebida como pura hipocrisia. Para que o axioma proposto por Hannah Arendt passasse a ter maior eficácia, os Estados Unidos precisavam se livrar, ao menos no hemisfério ocidental, da imagem vinculada a ditaduras sanguinárias, particularmente na América Latina.
Por essa razão, na última metade dos anos 70, durante o governo de Jimmy Carter, a Casa Branca começou a dar peso cada vez maior ao discurso de direitos humanos, pressionando pelo fim de alguns regimes militares e adotando políticas que pudessem reforçar a noção de “mundo livre”, atribuída à economia de mercado e à democracia liberal. Tratava-se de uma missão complexa, pois convivia com a continuidade da Operação Condor, a autocracia monárquica da Arábia Saudita e o sustento das tiranias centro-americanas. Tal discurso, afinal, não carregava a intenção de eliminar ditaduras, mas o propósito de legitimar a ação imperialista.
Essas políticas incluíam fundos a universidades e centros de pesquisa, meios de comunicação e entretenimento, dentro e fora dos Estados Unidos, para impulsionar abordagem supostamente humanista, dando-lhe maior musculatura e repertório. Apesar do endurecimento tático no período Reagan-Bush, entre 1980 e 1992 – marcado pela corrida armamentista, a intervenção na Nicarágua, o envolvimento no Afeganistão e a escalada contra o Irã dos aiatolás, entre outras passagens -, não houve alterações relevantes na narrativa encorpada por Carter. Na prática, foi transformada em uma doutrina imperialista, oferecendo justificativas à violação da autodeterminação dos povos.
Defesa de minorias?
Oretorno dos democratas à Casa Branca, com Bill Clinton (1993-2000), significou novo impulso a essa embocadura, fortalecida pelo desaparecimento da União Soviética. Na ordem mundial unipolar que passaria a vigorar, os Estados Unidos assumiram o papel de tribunal e polícia contra governos que rejeitassem sua dominação, recorrendo inapelavelmente ao argumento de reação a distintas espécies de totalitarismos.
As guerras contra a Iugoslávia, a última nação europeia sob governo comunista, nos anos 90, foram emblemáticas dessa lógica. A pretexto da defesa de minorias nacionais, Clinton ordenou à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com a tradicional subserviência dos demais Estados imperialistas, que fizesse desaparecer do mapa o último Estado do velho continente que resistia, de algum modo, à restauração capitalista e à incorporação no ordenamento hegemônico.
O caso iugoslavo é interessante porque demonstra que a doutrina imperialista dos direitos humanos se abria para outros temas além das liberdades formais, sobretudo a defesa de nacionalidades oprimidas, sempre que isso fosse conveniente para os interesses norte-americanos. Esse discurso, por exemplo, valia para os muçulmanos da Bósnia, mas Israel jamais foi ameaçado por uma tempestade de bombas que fizesse o sionismo recuar dos territórios palestinos ocupados desde 1967.
Outra novidade trazida pela cena pós-soviética, no roteiro imperialista, foi a disseminação de análises vinculadas ao choque de civilizações, como enunciado na célebre obra de Samuel P. Huntington. Para esse autor norte-americano, um conhecido conselheiro do regime de apartheid na África do Sul, o confronto ideológico entre capitalismo e socialismo fora substituído pelo conflito cultural entre o Ocidente capitalista e democrático contra civilizações atrasadas, reconfigurando o pensamento colonial do século XIX e disparando uma ampla agressão contra Estados muçulmanos que resistiam à tutela do oeste imperial.
Neoliberalismo progressista
Com o colapso da URSS e o recuo do marxismo em escala planetária, essa doutrina imperialista dos direitos humanos começou a ganhar influência até mesmo em setores de esquerda. Na medida em que o capitalismo se tornara invencível, afinal, o objetivo de sua superação deveria ser trocado pela busca de uma regulação mais inclusiva, ainda que nos termos propostos pelos cardeais do “mundo livre”.
A esquerda tinha longa e arraigada tradição na defesa dos direitos humanos, em todos os seus aspectos, das liberdades formais à luta contra o racismo e pela igualdade de gênero, dos instrumentos democráticos às reivindicações sociais e econômicas. A compreensão predominante, porém, era que a realização desses direitos, em sua plenitude, seria dependente da derrota do imperialismo em escala mundial e da superação do capitalismo.
Não apenas esses direitos seriam limitados e condicionados, nas sociedades capitalistas, como sua aplicação em Estados socialistas poderia ser fortemente pressionada por sabotagens, sanções, bloqueios e ações militares promovidos pelas potências imperialistas. Esse cenário dava centralidade, portanto, ao combate contra o sistema comandado pela Casa Branca, em uma orientação que deveria determinar todos os passos dos movimentos revolucionários, incluindo as alianças com Estados e partidos não-socialistas, mas objetivamente anti-imperialistas.
A troca da revolução pela inclusão modificou radicalmente esta percepção entre forças progressistas, uma vez que substituía a lógica anticapitalista por melhorias nos marcos ditados pelo pensamento liberal, ainda que questionando constrangimentos, incongruências e contradições.
Um momento emblemático foi o apoio ativo do primeiro-ministro italiano Mássimo D’Alema, antigo dirigente do Partido Comunista Italiano (PCI), aos bombardeios contra Belgrado, em 1999, com os aviões da OTAN decolando da base aérea de Aviano. Seu argumento principal era de tirar lágrimas dos olhos mais secos, tamanha a solidariedade com os albaneses do Kosovo, ao lado de Clinton e Tony Blair, acusando o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, de promover uma “limpeza étnica”.
O humanismo passou a ser ancoradouro para os que desacreditavam do marxismo e do socialismo. Na prática, conduziu antigos agrupamentos, lideranças e intelectuais marxistas à hegemonia cultural do liberalismo, da democracia ocidental e capitalista, ainda que lhes permitindo funcionar, em certos momentos, como agentes críticos.
Associada a relevantes lutas sociais desde os anos 60, essa possibilidade de influência sobre antigos setores de esquerda e camadas médias mais ilustradas conduziu à agregação de uma terceira onda temática na cartilha imperialista, depois da democracia político-jurídica e da proteção às nacionalidades oprimidas. O novo ciclo, aberto com Clinton, mas atingindo seu auge com Barack Obama, absorveu narrativas do feminismo, da luta antirracista e do combate à homofobia.
Esse adendo discursivo-programático, baseado em representatividade e empoderamento, está muito longe de apresentar as chagas a que se refere como fenômenos estruturais do capitalismo, especialmente nas nações periféricas e de história colonial. Diversifica, no entanto, as ferramentas de legitimação do imperialismo e neutralização de contingentes que poderiam integrar alguma forma de oposição efetiva. A filósofa norte-americana Nancy Fraser cunhou o termo “neoliberalismo progressista” para retratar essa transmutação da hegemonia burguesa.
Materialismo ou pós-modernidade?
Ocaso do Afeganistão é bastante sintomático sobre como funciona o humanismo imperialista. Ainda que a ocupação do país pelas tropas norte-americanas, em 2001, seja explicada pelo atentado da al-Qaeda ao World Trade Center, em setembro daquele ano, a propaganda anterior e posterior à invasão revela o mecanismo cultural e moral acionado pela Casa Branca. O fundamentalismo islâmico, outrora aliado no combate à União Soviética e aos comunistas afegãos, passava a ser apresentado, particularmente na versão praticada pelo Talibã, como uma monstruosidade anticivilizatória, com destaque à brutalização contra mulheres. As tropas mandadas por Washington, para os mais incautos, teriam um papel libertador. Na pior das hipóteses, não fazia sentido atuar decididamente contra essa invasão ocidental se a alternativa seria um governo misógino, medieval e cruel.
A discussão sobre imperialismo quase desaparece, ao menos perde toda centralidade nesse enfoque, para ser substituída por um debate moral entre a selvageria do Talibã, mesmo que concretamente confrontado com o imperialismo, e a civilização democrática-ocidental, ainda que representada pelos atropelos militares da maior potência capitalista.
A mudança de agenda para o terreno dos direitos humanos, ainda que não absolvesse os Estados Unidos, condenava pesadamente seus inimigos nessa nação da Ásia Central. Como um empate, na batalha das ideias, é melhor que uma derrota, a Casa Branca pôde passar vinte anos satisfatoriamente tranquilos sobre a questão afegã, com uma resistência internacional de baixa intensidade.
Claro que o barbarismo do Talibã merece todas as condenações, mas fica desfalcada a análise sobre o conjunto da obra. Deve ser essa a pedra angular pela qual se pode interpretar, de um ponto de vista progressista, a situação no Afeganistão, como propõem os Estados Unidos e seus áulicos?
Para começo de conversa, a invasão norte-americana, com a morte de 60 mil civis, e o estabelecimento de um governo títere representaram alguma conquista importante para o povo e as mulheres do Afeganistão? Ou apenas mais destruição e opressão, por conta de interesses da superpotência e das corporações beneficiadas por lucrativos contratos? Não foi exatamente a ação imperialista que legitimou o Talibã, apesar de todos os crimes cometidos entre 1996 e 2001, como a principal organização da guerra de libertação nacional, sustentada por amplos setores da população, incluindo os que sofreram sob o regime dos mulás?
O fato é que a doutrina liberal dos direitos humanos, comprada por vozes de esquerda nessas décadas de defensiva ideológica, tirou de perspectiva a revogação do sistema imperialista, para oferecer uma mensuração por sintomas de sofrimento. A misoginia do fundamentalismo islâmico, por exemplo, de inegável crueldade, cancelaria o papel anti-imperialista que poderia exercer o Talibã, porque o mal para as mulheres que essa organização provaria ser igual ou mais grave que os danos impostos pela ocupação norte-americana.
O potencial emocional desse tipo de narrativa, em uma época na qual a materialidade marxista se vê desafiada pela metafísica pós-moderna, revela-se uma arma inestimável para os Estados Unidos controlarem, ao menos parcialmente, focos de ira no Ocidente contra suas ações, ao contrário do que ocorreu no passado, como na Guerra do Vietnã.
Claro que a opção marxista não pode significar renúncia à luta pelos direitos humanos como programa dos povos. Ao contrário, a intensificação desse combate ajuda a criar uma consciência emancipatória mais radical e ampliada. Essa plataforma, no entanto, somente tem eficácia e viabilidade se subordinada a uma concepção que estabeleça, como objetivo estratégico, a supressão do neocolonialismo imposto pelos Estados imperialistas e da ordem internacional que representam. Todos os movimentos e Estados dispostos a romper com o imperialismo ou combatê-lo, portanto, devem ser apoiados nesse âmbito de sua conduta, ainda que mereçam a mais férrea oposição interna quando se tratem de poderes dispostos a oprimir seu próprio povo.
Consenso bolchevique
Muito instigante, a esse respeito, uma antiga entrevista de Leon Trotsky, concedida a Mateo Fosa, em setembro de 1938:
“Existe atualmente no Brasil um regime semifascista [Estado Novo, sob comando de Getúlio Vargas] que qualquer revolucionário só pode encarar com ódio. Suponhamos, entretanto, que a Inglaterra entre em conflito militar com o Brasil. Eu pergunto a você: de que lado do conflito estará a classe operária? Eu responderia: nesse caso eu estaria do lado do Brasil ‘fascista’ contra a Inglaterra ‘democrática’. Por quê? Porque o conflito entre os dois países não será uma questão de democracia ou fascismo. Se a Inglaterra triunfasse, ela colocaria um outro fascista no lugar e fortaleceria o controle sobre o Brasil. No caso contrário, se o Brasil triunfasse, isso daria um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura de Vargas. A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, representaria um duro golpe para o imperialismo britânico e daria um grande impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês.”
Nesse cenário hipotético, o revolucionário russo retoma a tradição marxista, sem se deixar levar pela justa fúria contra a tirania e compreendendo qual a contradição principal diante do ataque imperialista a uma nação periférica. Sua posição não significava conciliação com o governo Vargas durante o Estado Novo, mas uma análise arguta de como a luta contra o imperialismo é a peça que move o jogo.
Ironicamente, a posição de Trotsky guarda similitude com a de seu arquirrival no Partido Bolchevique, Josef Stalin, exposta em seu livro “Sobre os fundamentos do leninismo”, originalmente publicado em 1924:
“Nas condições de opressão imperialista, o caráter revolucionário do movimento nacional de modo algum implica necessariamente na existência de elementos proletários no movimento, na existência de um programa revolucionário ou republicano do movimento, na existência de uma base democrática do movimento. A luta do emir do Afeganistão pela independência de seu país é, objetivamente, uma luta revolucionária, apesar das ideias monárquicas do emir e dos seus adeptos, porque essa luta enfraquece, decompõe e mina o imperialismo.”
Essa coincidência entre pensadores tão opostos revela como era pacificada, no marxismo, a teoria da luta de classes e do imperialismo, subordinando todos os demais aspectos e batalhas dos trabalhadores por sua emancipação. Mais ainda, nos mostra como era intenso o esforço para tratar os assuntos da realidade a partir de uma racionalidade materialista e dialética, sem se deixar levar pelos fortes sentimentos que emergem das barbáries cometidas nos processos históricos.
A doutrina liberal dos direitos humanos, um instrumento da dominação imperialista, se presta exatamente a derrogar os alicerces do pensamento marxista, por uma série de mecanismos que pasteurizem a lógica revolucionária, limitando-a a um caleidoscópio de empatias fragmentadas e aprisionando seu potencial nas fronteiras do velho sistema, desnutrindo qualquer ameaça à ordem estabelecida pelos senhores do capital e da guerra.
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Taxa de mortalidade por Covid na Suécia é mais do que o dobro da média mundial
Em tuíte, deputado Osmar Terra tenta deslegitimar estratégia de lockdown fazendo comparação enganosa
É enganoso o tuíte em que o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) compara as taxas de mortalidade da Suécia com a de outros sete países “que fizeram lockdown repetidas vezes”, de modo a sugerir que a estratégia liberal do primeiro seria eficiente para conter a pandemia e alegar que o bloqueio não ajuda a reduzir o contágio.
Conforme verificado pelo Projeto Comprova, dados mostram que a Suécia tem o maior número de mortes por Covid-19 a cada 100 mil habitantes entre os países escandinavos (Noruega, Finlândia, Dinamarca e Islândia), que adotaram medidas mais rígidas desde o início, e apresenta uma taxa de mortalidade que é mais do que o dobro da média mundial. Pela mesma lógica utilizada no post, outros países que adotaram o lockdown, como China e Nova Zelândia, apresentam taxas muito mais baixas.
Além disso, a postagem do ex-ministro da Cidadania do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) ignora o fato de que alguns dos países citados mudaram de abordagem durante a pandemia, a exemplo do Reino Unido, e que as medidas de confinamento são impostas e flexibilizadas em diferentes momentos. Estudos que estimam o impacto das políticas públicas em diferentes países levam em conta essas variáveis.

Embora não tenha aplicado o lockdown e tenha agido de forma menos restritiva que outros países da Europa, a Suécia chegou a adotar medidas de prevenção e incentivou o distanciamento entre a população. Em março de 2021, o país restringiu o número de pessoas em lojas e academias, assim como o horário de fechamento de bares e restaurantes, que deveria ser até as 20h30.
A postagem de Osmar Terra foi classificada como enganosa nesta checagem porque usa dados imprecisos e confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano. O deputado foi procurado pelo Comprova, mas não respondeu aos questionamentos.
Como verificamos?
A reportagem buscou informações sobre lockdown e a evolução da pandemia em reportagens e nos sites oficiais do governo sueco. O mesmo ocorreu em relação aos outros países citados no tuíte.
As taxas de mortalidade foram analisadas por meio de duas plataformas: o Our World in Data, mantido por pesquisadores da Universidade de Oxford, e o Coronavirus Resource Center, base de dados da Universidade Johns Hopkins.
Além disso, a reportagem conversou com o epidemiologista, professor da Escola Superior de Educação Física da UFPel (Universidade Federal de Pelotas) e coordenador do Epicovid-19, o maior estudo epidemiológico sobre coronavírus no Brasil, Pedro Hallal.
Autor da postagem enganosa, Terra foi procurado por meio de sua assessoria de imprensa. A reportagem perguntou qual foi o critério de escolha dos países que aparecem no tuíte e relatou o fato de que a Suécia apresenta taxas de mortalidade mais altas que os países vizinhos e a média mundial. Não houve resposta até a publicação desta checagem.
Verificação
Taxas
A taxa de mortalidade da Suécia é realmente menor do que a dos sete países mencionados pelo deputado em seu tuíte. Isso, no entanto, não quer dizer que o desempenho do país seja satisfatório ou que o lockdown não funcione para reduzir o número de mortes pelo novo coronavírus.
De acordo com o Coronavirus Resource Center, a Suécia era o 38º país com mais óbitos por habitante nesta segunda-feira (23), de um total de 182 países e territórios. A taxa de mortalidade era de 142,61 a cada 100 mil pessoas.
Esse número, de fato, está abaixo de Bélgica (220,48), Itália (213,53), Reino Unido (197,44), Estados Unidos (191,48), Espanha (176,60), Portugal (171,76) e França (169,21). Apesar de não ter sido citado, o Brasil aparece em quinto, com 272,22 mortes por 100 mil habitantes.
Porém, a situação é desfavorável para a Suécia quando a comparação é feita com os seus vizinhos da Escandinávia e com a média do planeta, como aponta o epidemiologista Pedro Hallal. Ele sustenta que o caso da Suécia não deve servir de exemplo para ninguém.
Em artigo publicado na Folha em julho, Hallal já alertava para o fato de a Suécia ter o pior desempenho no combate à pandemia entre os cinco países escandinavos. O cenário é o mesmo até hoje.
À reportagem, Hallal criticou a comparação feita pelo deputado. De acordo com ele, a Suécia “é um país historicamente muito melhor do que a média mundial, em tudo, e deveria ter resultados parecidos com seus parceiros da região”, mas não é o que acontece.
Na realidade, a taxa de mortalidade por Covid-19 do país (1.452 por milhão de habitantes) é mais que o dobro da média do planeta (567), como mostra uma consulta ao Our World in Data. Os demais —Dinamarca (443), Noruega (149), Finlândia (160) e Islândia (87)— estão abaixo dessa média.
A reportagem questionou Hallal se faz sentido separar os países em dois grupos —os que fizeram e os que não fizeram lockdown em algum momento— e comparar as taxas de mortalidade para avaliar a política, considerando ainda o dinamismo da pandemia. Um exemplo é o Reino Unido, que apostou em uma estratégia mais flexível no começo de 2020 e depois mudou de ideia diante de previsões catastróficas e do contágio em alta, passando a adotar medidas mais restritivas.
De acordo com ele, “qualquer cientista que interprete os dados leva isso em consideração” e que ignorar esse tipo de questão constitui “erro primário”. Hallal alertou ainda que, da mesma forma, é preciso considerar que a Suécia promoveu restrições e orientou algumas práticas para diminuir a propagação do vírus ao longo do período.
Dois exemplos de estudos científicos nesse sentido foram publicados pela revista Nature Human Behaviour, em novembro de 2020, e pela revista Science, em fevereiro deste ano. Ambos aplicam métodos estatísticos para analisar as intervenções e interpretam os dados conforme o período específico em que as ações são aplicadas pelos governos. Outra diferença é que o impacto é medido a partir da taxa de transmissão do coronavírus, ou o “ritmo de contágio”, representado pelo termo Rt, e não pela mortalidade.
Seguindo o mesmo critério de Osmar Terra, é fácil elaborar uma comparação em que a Suécia tenha um desempenho mais de 200 vezes pior que outros países que fizeram “lockdown repetidas vezes”. A China, por exemplo, tem uma taxa de mortalidade de 0,35 a cada 100 mil habitantes, e a Nova Zelândia, de 0,53.
O site GZH informou neste mês que o epidemiologista Pedro Hallal cogita concorrer ao Senado no ano que vem. “Ainda estou analisando, mas se concorrer será por algum partido de esquerda ou de centro-esquerda, para contrapor as candidaturas de direita que estão postas”. Ele não está filiado a nenhum partido político no momento, de acordo com o sistema oficial do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Sem lockdown
Até agora, a Suécia não fez lockdown, que é o bloqueio total de uma região. Embora não tenha uma definição única, o lockdown é, na prática, a medida mais radical imposta por governos para que haja distanciamento social e inclui o fechamento de vias e proibição de deslocamentos e viagens não essenciais. Evidências científicas mostram que a adoção de lockdown funciona contra a Covid-19. Ele é diferente do isolamento social, que é, em princípio, uma sugestão preventiva para que as pessoas fiquem em casa.
Ao contrário da Suécia, os demais países citados pelo deputado Osmar Terra (Reino Unido, França, Portugal, Espanha, Itália, Bélgica e Estados Unidos) utilizaram lockdowns e toques de recolher como forma de reduzir o ritmo de contágio em algum momento durante a pandemia. Apesar disso, mesmo entre eles, existem diferenças em termos de duração, intensidade e adesão da população ao confinamento.
Os países vizinhos da Escandinávia também foram ágeis em aplicar restrições e conter o alastramento do vírus. Dinamarca e Noruega estiveram entre os primeiros países da Europa a promoverem confinamentos, ainda em março de 2020, que se repetiram em outras ondas de contaminação. A Finlândia e a Islândia, da mesma forma, fecharam restaurantes e outros estabelecimentos. Essas medidas vieram acompanhadas de outras estratégias de mitigação, como ampla testagem, rastreamento de contatos e isolamento de casos ativos.
Desde o início da pandemia, os suecos se tornaram um estudo de caso, renunciando a bloqueios e mandatos. Checagem do PolitiFact, de 6 de agosto, esclarece que, em contraste com alguns de seus vizinhos e os Estados Unidos, a sociedade sueca permaneceu amplamente aberta durante a pandemia, e o governo respondeu principalmente com orientações, não ordens de permanência em casa e quarentenas. Em geral, as máscaras também não foram recomendadas.
Reportagem da The New Yorker, de abril deste ano, traz o cenário do país ao longo da pandemia: “enquanto bloqueios, toques de recolher e proibições de viagens estavam sendo implementados no resto do mundo, restaurantes, lojas, bares, museus, creches e escolas primárias na Suécia permaneceram abertos. As pessoas foram incentivadas a trabalhar em casa e a reduzir as viagens, mas ambas eram opcionais. Máscaras não eram recomendadas e permaneceram raras”.
A pessoa por trás da resposta ao coronavírus da Suécia é Anders Tegnell, o epidemiologista-chefe do país. A New Yorker destaca que a constituição sueca dá às agências governamentais uma independência extraordinária, então, Tegnell e a agência de saúde pública lideraram grande parte da resposta ao coronavírus e, constitucionalmente, o governo tem pouco poder para impor restrições. Segundo a revista, Tegnell “costuma dizer que os bloqueios não são apoiados pela ciência e que as evidências do uso de máscaras são fracas”.
Em uma entrevista à revista científica Nature, publicada em abril de 2020, Tegnell detalhou a estratégia adotada pelo país: “Como sociedade, estamos mais focados em ‘dar um incentivo’, continuamente lembrando as pessoas de colocar em prática as medidas [contra Covid-19], e melhorando-as onde vemos no dia a dia que elas precisam ser ajustadas. Não precisamos fechar tudo completamente porque seria contraproducente”, afirmou.
Tegnell introduziu a abordagem “light” do país à pandemia em março do ano passado, à medida que os casos aumentavam. Lena Hallengren, ministra da pasta de Saúde e Assuntos Sociais, deu uma entrevista à emissora Al Jazeera English, em 1 de agosto de 2020, e, quando perguntada sobre essa abordagem e a diferença com outros países que adotaram o lockdown, disse que “a estratégia vem sendo garantir que nós podemos prevenir o vírus de se espalhar na sociedade, proteger grupos vulneráveis, mas também garantir que a nossa sociedade está funcionando, porque todo o tempo nós precisamos de pessoas para trabalhar nos hospitais, precisamos de pessoas para trabalhar nas casas de repouso, nas farmácias, nas ambulâncias [..] Nós não achamos possível que todo mundo fique em casa por meses”.
Dessa forma, a estratégia do país para conter a disseminação do vírus tem como base a “responsabilidade individual” de seus cidadãos. “As leis suecas sobre doenças transmissíveis baseiam-se principalmente em medidas voluntárias —na responsabilidade individual. Afirma claramente que o cidadão tem a responsabilidade de não espalhar uma doença. Este é o centro de onde partimos, porque não há muita possibilidade legal de fechar cidades na Suécia usando as leis atuais. A quarentena pode ser contemplada para pessoas ou pequenas áreas, como uma escola ou um hotel. Mas [legalmente] não podemos bloquear uma área geográfica”, afirmou Tegnell, em abril do ano passado.
Isso pode ser notado na página da agência de saúde do país, onde não há citações a lockdowns. Na aba “diretrizes e recomendações para reduzir a disseminação de Covid-19”, há a indicação de medidas que cada cidadão pode tomar por conta própria: “todos têm a responsabilidade pessoal de prevenir a propagação da infecção. Você deve pensar em como pode evitar ser infectado, como deve manter distância e como pode evitar infectar outras pessoas. Mostre consideração, especialmente para as pessoas que pertencem a grupos de risco. Você deve manter distância de outras pessoas e evitar lugares lotados. Isso é especialmente importante quando você passa um longo período com alguém e quando você está dentro de casa”.
Críticas
Em junho do ano passado, diante de críticas crescentes sobre a posição da Suécia no combate à pandemia, Tegnell admitiu que o país deveria ter adotado medidas mais contundentes de isolamento social para conter a pandemia e que uma abordagem mais dura poderia ter evitado o alto número de mortes registrado no país.
A abordagem adotada pelo país europeu foi criticada por integrantes da comunidade científica. Em abril de 2020, em um artigo publicado no jornal sueco Dagens Nyheter, 22 pesquisadores afirmaram que as autoridades públicas de saúde haviam falhado no combate à pandemia e que os políticos deveriam interferir.
Matéria da Time, de outubro do ano passado, traz como título “a resposta sueca à Covid-19 é um desastre. Não deveria ser um modelo para o resto do mundo”. A reportagem destaca que “os países que fecharam as portas precocemente e / ou usaram testes e rastreamento extensivos —incluindo Dinamarca, Finlândia, Noruega, Coreia do Sul, Japão, Taiwan, Vietnã e Nova Zelândia— salvaram vidas e limitaram os danos às suas economias. Países que bloquearam tarde, saíram do bloqueio muito cedo, não testaram e colocaram em quarentena de forma eficaz ou apenas usaram um bloqueio parcial — incluindo Brasil, México, Holanda, Peru, Espanha, Suécia, EUA e o Reino Unido— têm piorado quase que uniformemente nas taxas de infecção e morte”.
Artigo publicado na revista científica The Lancet destaca que “desde o início da pandemia, a Agência de Saúde Pública da Suécia, Folkhälsomyndigheten, embarcou em uma abordagem de imunidade de rebanho, permitindo que a transmissão da comunidade ocorresse relativamente sem controle” e que “muitas vozes críticas foram levantadas sobre a resposta nacional da Suécia à Covid-19 e seu fracasso em atingir seus objetivos de nivelar e encurtar as curvas de casos, hospitalizações e mortes”.
Em entrevista à AFP, Julival Ribeiro, infectologista consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e diretor- geral do Hospital de Base do Distrito Federal, disse que “[É possível concluir] que a estratégia não foi a estratégia correta. E, além disso, a Suécia é um país pequeno e você pode até ter mais controle. [Mas] imagine países com milhões de pessoas. (…) Naquela época em que a Suécia adotou essas medidas nós sabíamos pouco em relação à Covid-19. Mas o mundo mostrou que o caminho para combater essa pandemia é aliar vacina, medidas restritivas e medidas preventivas”.
Em dezembro, os casos e hospitalizações eram mais altos do que desde os primeiros dias da pandemia no país. As unidades de terapia intensiva em Estocolmo e Malmö, a terceira maior cidade sueca, estavam lotadas. “Era exatamente esse desenvolvimento que não queríamos ver”, disse Björn Eriksson, diretor de saúde e cuidados médicos de Estocolmo, durante uma coletiva de imprensa. A confiança na agência de saúde pública havia caído de 68% em outubro para 52% em dezembro.
Um relatório também apontou que a Suécia fracassou em proteger idosos contra a Covid-19. A estratégia adotada pela Suécia foi chamada de “imprudente e cruel”. Hallengren, em entrevista à Al Jazeera English, afirmou que “não temos nenhuma prova de que se tivéssemos lockdown teríamos prevenido isso de acontecer”.
Reportagem da BBC de dezembro mostra que a Suécia sofria com uma pandemia fora de controle, UTIs lotadas e debandada de profissionais de saúde. O aumento exponencial no número de casos fez com que o governo sueco mudasse sua estratégia em novembro, introduzindo restrições mais duras às interações sociais. Foram proibidas reuniões de mais de oito pessoas em shows, palestras e apresentações teatrais. Houve também um veto nacional à venda de álcool a partir das 22h em bares e restaurantes. Em raro pronunciamento, até o rei sueco, Carl XVI Gustaf, criticou a estratégia adotada pelo país no combate à pandemia Covid-19. “O povo sueco sofreu enormemente em condições difíceis”, disse o monarca à emissora estatal SVT. “Acho que falhamos.”
No dia 18 de dezembro, como os hospitais já estavam preparados para uma onda pós-Natal, Tegnell e a agência de saúde pública finalmente recomendaram o uso de máscaras, mas apenas no transporte público e durante a hora do rush.
Em 8 de janeiro, a Suécia mudou sua legislação para conceder temporariamente ao governo o poder de adotar medidas de restrição contra a Covid-19 em áreas determinadas e aplicar sanções e multas caso elas sejam violadas, mas não estabeleceu que a população fique confinada em casa. Entre as medidas permitidas estavam fechar lojas, centros comerciais e o transporte público e limitar o número de pessoas em reuniões em locais públicos específicos.
Dessa forma, embora a Suécia tenha optado por não fechar as portas no início da pandemia, com bares, restaurantes e lojas permanecendo abertos, restrições foram impostas depois.
Em março de 2021, o país restringiu o número de pessoas em lojas e academias, assim como o horário de fechamento de bares e restaurantes, que deveria ser até as 20h30. Porém, em julho, o governo flexibilizou as medidas. Uma publicação do Ministério da Saúde e Assuntos Sociais da Suécia, de 26 de julho, traz uma lista de restrições que foram suavizadas no dia 15 do mesmo mês, incluindo o aumento da capacidade do transporte público e o fim da proibição de acesso a determinados espaços.
Apesar das críticas e das mudanças impostas, de modo geral, a estratégia do país permaneceu intacta. A Suécia fechou suas fronteiras internacionais, incluindo as da vizinha Noruega, e permitiu que a sociedade interna permanecesse aberta. Embora haja limites para o número máximo de pessoas em reuniões sociais, são na forma de “recomendações”, em vez de leis rígidas aplicáveis por meio de multas.
Uma investigação de um professor da Swedish Defence University, publicada em junho deste ano, mostra que a avaliação de risco da agência de saúde sueca, a PHAS (Public Health Agency of Sweden), em relação à propagação geral do coronavírus no país era excessivamente otimista até 10 de março de 2020, sendo consideravelmente mais positiva do que as avaliações de risco globais da OMS (Organização Mundial da Saúde) e outros prognósticos de especialistas para Suécia.
Além disso, “havia uma recusa contínua da agência em mudar sua posição sobre as máscaras faciais ou recomendar seu uso em locais confinados e lotados para o público. Isso ocorreu apesar das evidências crescentes a favor desse equipamento de proteção. Como tal, a política de máscaras do PHAS divergia da postura da OMS, ECDC (European Centre for Disease Prevention and Control) e de outros grandes estudos científicos nesta área”.
A conclusão do estudo é que “no geral, essas descobertas podem explicar, pelo menos em parte, por que a pandemia teve um impacto tão adverso na Suécia, em comparação com muitos outros países desenvolvidos até agora”.
Segundo o portal Our World in Data, após o pico de novos casos na Suécia entre dezembro e janeiro, que chegou a 32.485 diagnósticos positivos registrados em um único dia, houve uma queda contínua até fevereiro, seguido de um novo período de alta. A partir do mês de abril, com o avanço da vacinação, o número de casos ativos e de mortes pela doença despencou.
Atualmente, 51% da população sueca está totalmente vacinada e 67% receberam ao menos a primeira dose. O país acumula 1,12 milhões de casos e 14.688 mortes desde o início da pandemia.
O autor
Osmar Terra (MDB) exerce o sexto mandato na Câmara dos Deputados, representando o Rio Grande do Sul. Em 2016, foi ministro do Desenvolvimento Social no governo de Michel Temer (MDB) e ocupou a pasta da Cidadania já na gestão de Jair Bolsonaro, em 2019.
O deputado federal é formado em medicina e foi presidente do Grupo Hospitalar Conceição entre 1986 e 1989. Também ocupou o cargo de secretário da Saúde do Rio Grande do Sul de 2003 a 2010, nas gestões de Germano Rigotto (MDB) e Yeda Crusius (PSDB).
Terra é um apoiador de Jair Bolsonaro e, seguindo o discurso do presidente, já negou a gravidade da pandemia em diversas ocasiões. Chegou a afirmar que o distanciamento social não tinha eficácia comprovada, que as mortes pelo novo coronavírus não Brasil não passariam o número de óbitos por H1N1 e declarou que a pandemia terminaria em junho. Já em agosto, compartilhou imagens antigas para criticar o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil.
A CPI da Covid apura se o deputado fez parte do chamado “gabinete paralelo”, um grupo externo ao Ministério da Saúde que teria orientado o presidente Jair Bolsonaro com medidas negacionistas no enfrentamento da pandemia. Ele aparece em destaque em uma reunião em que defensores de tratamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 sugerem um aconselhamento informal a Bolsonaro.
Durante o depoimento à CPI, em junho deste ano, Osmar Terra chegou a mencionar a Suécia como uma espécie de “case de sucesso” no controle da pandemia. Ele foi contestado pelos senadores e posteriormente teve frases desmentidas por agências de checagem.
O Comprova já verificou outros tuítes do deputado envolvendo a Suécia em outubro do ano passado. Na ocasião, ele defendeu que as pandemias acabam antes de as vacinas estarem disponíveis e sugeriu que a Suécia havia debelado a pandemia através da estratégia de “imunidade de rebanho”, o que não é verdade. O projeto ainda checou alegações enganosas de Osmar Terra em outras duas oportunidades.
Por que investigamos?
Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições que viralizam nas redes. O post verificado aqui teve mais de 6,5 mil interações no Twitter em menos de uma semana.
O post é danoso ao insinuar que a estratégia do lockdown, adotada pela maioria dos países para combater a pandemia, é ineficiente.
Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.
O Comprova fez esta verificação baseado em informações disponíveis no dia 24 de agosto de 2021.
A investigação desse conteúdo foi feita por Estadão e piauí e publicada na terça-feira (24) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 33 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus, políticas públicas e eleições. Foi verificada por Folha, UOL, Correio de Carajás, Bandnews, Correio, A Gazeta e GZH.
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Narcisista não é tudo igual: psicólogos descrevem dois principais tipos - Gizmodo Brasil

Provavelmente, você conheceu um narcisista. Esta é uma pessoa que pensa que é melhor do que os outros, sempre domina a conversa e ama os holofotes. Mas os cientistas estão cada vez mais percebendo que nem todos eles são iguais — alguns, inclusive, são extremamente inseguros.
Em um artigo publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, pesquisadores da Universidade de Essex, na Inglaterra, os dividiram em dois tipos e descreveram o que os motiva.
Os cientistas Nikhila Mahadevan e Christian Jordan dividiram o narcisismo em dois: o grandioso e o vulnerável. Para isso, eles realizaram dois estudos que envolveram 676 adultos que moram nos Estados Unidos.
Foram avaliados os níveis de narcisismo dos entrevistados e até que ponto eles desejavam status e inclusão, bem como até onde sentiam que haviam alcançado seus objetivos. Na pesquisa, os cientistras examinaram os motivos sociais e as percepções de narcisistas grandiosos e vulneráveis.
Como resultado, descobriram que tanto os narcisistas grandiosos quanto os vulneráveis desejavam fortemente o status social. Curiosamente, enquanto os narcisistas grandiosos achavam que foram bem-sucedidos em alcançar esse status, os narcisistas vulneráveis achavam que não tinham o status que mereciam.
Além disso os grandiosos se mostravam arrogantes, dominantes e extrovertidos. “Eles tendem a ter autoestima elevada, são ousados e assertivos e se sentem felizes e confiantes em suas vidas”, escreveram.
Os narcisistas vulneráveis, por outro lado, são retraídos, neuróticos e inseguros. “Eles tendem a ter baixa auto-estima, ser hipersensíveis e sentir-se ansiosos e deprimidos”, completaram. No entanto, esses dois tipos têm algo em comum: ambos são egoístas, sentem-se com direito a tratamento e privilégios especiais e se relacionam com os outros de maneiras antagônicas.
Ambos os tipos de narcisistas anseiam pelo respeito e admiração dos outros. Mas enquanto os narcisistas grandiosos podem ser estrelas no palco interpessoal, capturando triunfantemente os holofotes, sua contraparte vulnerável pode ser um ator pouco à espreita, buscando ressentidamente, mas não conseguindo obter, os aplausos que anseiam.
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Reinaldo Azevedo - Discurso de comandante do Exército, ao lado de Bolsonaro, é antigolpista
Colunista do UOL
25/08/2021 17h06
Nunca se sabe o que pode sair da cabeça de alguém clinicamente imprevisível — e esse é um mistério que a medicina não conseguiu até hoje desvendar. Há moléstias, mesmo as psíquicas, cuja etiologia é conhecida. E, pois, sabendo-se a origem, pode-se antever com margem aceitável de incerteza o comportamento do vivente. Mas há aquelas ainda cobertas de sombras... Vamos ver.
Colo essa introdução ao que vem agora. Se o presidente Jair Bolsonaro dedicar um minuto de seu tempo a ler o discurso que ouviu, saído da boca do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército, na solenidade em homenagem ao Dia do Soldado, vai refrear seu ânimo golpista.

Juíza toma crime por liberdade de expressão; decisão incentiva o vale-tudo
Como se sabe, a data escolhida marca o nascimento de Duque de Caxias. Ao exaltar as virtudes que enxerga no patrono do Exército Brasileiro — as controvérsias não cabem neste texto porque me fixo na leitura que o general faz do homenageado —, o comandante destaca caráter, integridade, honradez, disciplina, honestidade, ética, espírito pacificador... Eis as características que não combinam com arruaceiros.
"Ah, mas o general lembrou que o presidente da República, que estava a seu lado, é o 'comandante supremo das Forças Armadas'. Isso não quer dizer alguma coisa?". Quer dizer que ele apenas está citando a Constituição. Razão por que lembra que as Forças Armadas também são garantidoras dos Poderes constitucionais. GARANTIDORAS, não agentes golpistas.
O general deixou claro de que Exército fala. Destaco trechos:
- "um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente";
- "sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem";
- "historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!";
- dotado de "espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias" (...) "inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça";
- um Exército que tem "compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento".
Mas as coisas são assim mesmo? Ele fala por todos os militares? Bem, ele fala, com apoio pleno do Alto Comando, pelo Exército, a principal das três Forças. Nenhum presidente conseguiu plantar a desídia nos três pilares da Defesa no país, ainda que haja ruídos, e os há, na Marinha e na Aeronáutica mais afinados com as tentações golpistas do presidente da República.
É importante que se diga: o discurso de Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira se dá sob pressão — inclusive do general Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria-Geral da Presidência. Um comandante do Exército, Edson Leal Pujol, já foi defenestrado por se opor claramente ao golpismo. Há feiticeiros querendo derrubar também o atual.
Não! Bolsonaro não está apenas brincando de golpe. Na sua cabeça, ou as coisas são como ele quer, ou, então, ele vira a mesa, hipótese em que cobra a lealdade dos militares não à Constituição, mas a seus delírios.
CONSEQUÊNCIAS
Qualquer militar com um mínimo de juízo sabe que a aventura teria curta duração, transformaria o país em pária no mundo, provocaria um racha inédito nas Forças Armadas, derramaria sangue dos próprios brasileiros, conferiria aos militares a feição de carniceiros e implicaria décadas de atraso no esforço de profissionalização e de aprimoramento técnico das três Armas.
Destaque-se, sim, que a indisposição do alto oficialato das Três Forças com o STF, por exemplo, é grande. Os dois anos e oito meses de ataques permanentes de Bolsonaro a esse Poder em particular — que é, afinal, aquele lhe impõe os limites da lei — fizeram frutos. Militares não são os melhores intérpretes da Constituição. Muitos caíram na conversa do presidente de que os togados não o deixam governar, o que é, obviamente, conversa mole.
Ao contrário: sem a colaboração do Supremo, o presidente não teria em mãos os meios para enfrentar a crise gerada pela pandemia. Ocorre que, em vez de se fortalecer politicamente com facilidades inéditas que lhe foram dadas, preferiu investir no negacionismo e no confronto.
Perguntem-se, senhores do Alto Comando, e respondam: de que instrumento o Supremo privou Bolsonaro, impedindo-o de governar? Não existe resposta. Nem mesmo lhe tirou a prerrogativa, que nunca existiu, de ser o único a decidir sobre medidas sanitárias de combate à doença. E ainda bem que não se deu assim! Fosse como ele queria, teríamos as Forças Armadas, em meio a múltiplas tarefas, também a enterrar corpos. Ou os quase 600 mil mortos parecem número corriqueiro?
Bolsonaro quer o confronto, sim. É sua única saída — e, pois, saída não é.
O discurso do comandante do Exército diz, por outras palavras: "Não vai ter golpe, vai ter democracia".
ENCERRAMENTO
O general encerra a sua fala com "Brasil acima de tudo". Por várias razões, mergulhando na história, é uma palavra de ordem que pode remeter a coisas um tanto sinistras.
Dado o contexto, no entanto, é inevitável observar que alude também ao lema da campanha eleitoral de Bolsonaro, mas só pela metade.
Acho que se está a dizer, nas circunstâncias da ora, o seguinte: o Exército é leal à Constituição, não ao presidente de turno se este não for, igualmente, fiel servidor da Carta.
O discurso é antigolpista. Nem por isso a situação deixa de ser delicada e perigosa.
Segue a íntegra da fala do comandante do Exército, com destaques meus:
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"Contar os seus feitos requer imenso esforço de concisão. Não há eloquência capaz de fazer sua figura ainda maior. Seu principal atributo foi a simplicidade na grandeza!"
Meus comandados!
As palavras inspiradas na homenagem do Visconde de Taunay nas despedidas ao Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, sintetizam o que foi a vida do mais ilustre Soldado do Brasil e trazem à reflexão a essência dos soldados que somos: almas simples, mas grandiosas na defesa da Pátria.
Com entusiasmo, celebramos a memória do Patrono do Exército Brasileiro e reverenciamos nossos militares, homens e mulheres que abraçaram o nobre sacerdócio de servir ao País, com abnegação e sem medir o sacrifício próprio e familiar.
Foi na caserna que Caxias teve forjadas suas admiráveis virtudes. Em mais de cinquenta anos de serviços dedicados ao nosso Povo, de Cadete a Marechal, Caxias pautou sua conduta pelo caráter íntegro, honrado, sereno e justo, ao tempo que foi modelo de bravura e de atitude profissional e resoluta no cumprimento do dever.
O esplendor de sua carreira recebeu o batismo de fogo na luta pela consolidação da independência, ganhou vulto na pacificação dos conflitos internos que ameaçavam a unidade nacional e consagrou-se nas campanhas externas em defesa do Brasil.
Na vida política nacional, Caxias foi Senador e Presidente do Conselho de Ministros, notabilizando-se nas tribunas do Parlamento como indelével exemplo de honestidade, ética e postura pública.
O resultado de seus feitos traduziu-se, sempre, no restabelecimento da paz, na restauração da lei e da ordem e na manutenção da integridade do País.
Enaltecida pelo Povo brasileiro, a atuação de Caxias foi marcada pela conciliação, pela superação de posições antagônicas, e, sobretudo, pela prevalência da legalidade, da justiça e do respeito a todos.
Enfim, Caxias foi notável líder militar, estadista e herói. Representa, portanto, a expressão máxima do soldado e do cidadão. Com justíssima razão, a história o proclama Conselheiro da Paz, o Pacificador do Brasil.
Fiéis herdeiros do legado de Caxias e alicerçados na hierarquia, na disciplina e nos valores pátrios, os soldados de ontem e de hoje, da ativa e veteranos, e suas estimadas famílias formam a genuína alma do Exército, retrato fiel de nossa sociedade, e são o patrimônio mais valioso da nossa Instituição.
Graças a você, soldado, a identidade do Exército Brasileiro é moldada pelos valores militares que você cultua e pratica.
Graças a você, soldado, contamos com um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente, cuja história funde-se de maneira indissolúvel com a própria história da Nação brasileira. Um Exército que se moderniza e se transforma continuamente, inserindo-se na Era do Conhecimento e ajustando-se às demandas das novas gerações.
Graças a você, soldado, na fronteira, nas cidades, nos distantes rincões, a qualquer hora e sob quaisquer condições, o Exército — Braço Forte da Nação — preserva a integridade do território, combate os ilícitos ambientais e transfronteiriços e salvaguarda os interesses nacionais.
Graças a você, soldado, provido de sólido sentimento de solidariedade, nos unimos para dar forma à Mão Amiga do Exército, que se estende a todos os brasileiros em prol do bem-estar social, nas situações de calamidade, na distribuição de água no semiárido nordestino, no apoio de saúde aos indígenas, na construção de estradas e ferrovias, na preservação dos biomas, na acolhida de irmãos estrangeiros, no estímulo à cultura e aos desportos, bem como na histórica e significativa contribuição com a comunidade internacional na manutenção da paz.
Graças a você, soldado, testemunhamos o obstinado esforço e o empenho diuturno do Exército para preservar vidas e ajudar a população nas ações de enfrentamento à pandemia da COVID-19, nesse mister ombreando com os profissionais de saúde — verdadeiros heróis de branco!
Sob a autoridade do Presidente da República — Comandante Supremo das Forças Armadas — e integrado à direção superior do Ministro da Defesa, o Exército Brasileiro não para em circunstância alguma e, irmanado com a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira, mantém-se sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem são, portanto, o farol que orienta o contínuo preparo e o emprego da Força Terrestre.
No seu dia, agradecer a você soldado é mais que um dever! É um gesto que nos enche de satisfação e orgulho!
A você, soldado, cujo modo de vida é servir incondicionalmente e em permanente estado de prontidão!
A você, soldado, que se solidariza e ajuda nossa gente sem hesitar!
A você, soldado, que, lutando sem temor, derramou seu sangue além-fronteiras, no continente e nos campos da Europa, pela defesa da democracia e contra o totalitarismo!
A você, soldado, historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!
A você, soldado, a gratidão por tudo o que fez e faz pela Nação brasileira! Presto a você a minha mais vibrante e respeitosa continência!
O momento desta justa homenagem aos soldados, que muito contribuíram e contribuem para a unidade e a grandeza do Brasil, nos motiva a reafirmar o compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento.
Neste curto tempo, desde que assumi o Comando do Exército, estive presente junto à tropa em diversos locais do País, acompanhando seu contínuo preparo. O elevado nível de capacitação e prontidão da Força Terrestre que pude constatar e, principalmente, o profissionalismo, a liderança, o entusiasmo e a coesão de nossos militares têm ratificado a plena certeza de que honramos nossos antepassados ao continuarmos a fazer do Exército Brasileiro essa Instituição que tem merecido a ampla aprovação e a confiança do Povo brasileiro.
Meus comandados!
Mantenhamos, sempre, a fé inabalável na missão do Exército Brasileiro e a crença nos princípios da nossa nacionalidade. Sob as bênçãos do Todo Poderoso Deus dos Exércitos e iluminados pelo espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias, sejamos, junto aos irmãos brasileiros, inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça, ordem e progresso — que o nosso Povo tanto almeja e merece — dedicando-nos, inteiramente, à defesa da soberania nacional e ao bem do nosso amado País.
Soldado brasileiro, parabéns pelo seu Dia! Orgulhe-se, pois sua alma singela é, e sempre será, de têmpera forte como o aço da invicta espada de Caxias!
Brasil, acima de tudo!
Brasília-DF, 25 de agosto de 2021.
General de Exército PAULO SÉRGIO NOGUEIRA DE OLIVEIRA
Comandante do Exército
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Reinaldo Azevedo - Golpistas do dia 7 isolarão Bolsonaro ainda mais; é o lado bom da patuscada
Colunista do UOL
25/08/2021 06h59
Certas formulações de jerico começam a frequentar até os textos de pessoas obviamente comprometidas com a defesa da ordem democrática e que repudiam alguns trogloditas fascistoides hoje aboletados no Estado. E aí se diz então: "Ah, se a manifestação do dia 7 de Setembro for gigantesca, Jair Bolsonaro obterá uma vitória importante..." Calma lá.
Se for um fiasco, é óbvio que ele estará acabado antes da fim do festa — ou do festim diabólico a que estamos submetidos. Mas, obviamente, não será. Podem contar que haverá muitos milhares nas ruas. E isso significará o quê? Nada! Coisa de um quarto do eleitorado ainda vota nele. Parte dessa gente é composta de fanáticos que acreditam em tudo o que diz e que seguem o seu comando. E vão para as ruas: pelo voto impresso, pelo fechamento do Supremo, contra os comunistas, contra as vacinas com chip... Escolham aí a causa.
Juíza toma crime por liberdade de expressão; decisão incentiva o vale-tudo
Isso terá o condão de intimidar o Supremo? Acreditem: não vai mesmo. Se Bolsonaro espera alguma concessão arrancada na base da intimidação, então não sabe o erro que está cometendo. De resto, vamos ver: se a oposição fizer, na sequência, uma manifestação ainda maior em favor do impeachment, isso quererá dizer que o ogro vai cair? Nem uma coisa nem outra.
O dia 7 vai servir apenas para Bolsonaro evidenciar que continua competitivo. Digamos que se trata de um esforço para tentar impedir que surja o tal nome da terceira via, que, para ser viável, tem de arrancar mais eleitores seus do que de Lula. Como é crescente o descontentamento de setores da elite que estavam fechados com o "capitão" até ontem, ele sabe que o risco existe — ainda que pequeno hoje. É crescente a constatação, na turma do dinheiro grosso (não me refiro a bucaneiros exibidos), de que o país não tem futuro "com esse cara". E ele precisa dar uma demonstração de força.
"Mas Bolsonaro não sonha, Reinaldo, com uma manifestação gigantesca de pessoas pedindo o fechamento do Supremo, saudando-o como o grande líder, seguida de uma quartelada que o chamasse de chefe?" Sonha, sim, caras e caros. Mas sabem quantos são, no momento em que você lê este texto, os Napoleões de hospício e de si mesmos mundo afora? Entre o sonho e a realidade, costuma estar a impossibilidade.
Nesta quarta, no Dia do Soldado, os militares devem se pronunciar. Fiquemos atentos.
De um importante empresário — que nunca foi bolsonarista, mas que convive num meio altamente bolsonarizado (até outro dia...) —, ouvi uma avaliação que já está sendo feita entre seus pares: "E se ele ganhar? Está queimando tantas pontes e incendiando tantos navios que o futuro se torna ainda mais sombrio".
Pois é. Sabemos que Bolsonaro não precisa de motivos objetivos para declarar guerra contra adversários que só litigam na sua imaginação, naquela terra devastada que tem entre as orelhas. Ou suas milícias não teriam começado a atacar o Judiciário e o Legislativo já no dia 2 de janeiro de 2019, dando continuidade à linguagem da campanha eleitoral.
REUNIÃO COM PODERES?
É por isso que não faz muito sentido, na sua estratégia ao menos, uma reunião entre os Poderes, com a presença dos governadores. E aí pouco importa a sua ojeriza a João Doria. Ocorre que Congresso e STF não têm concessões a fazer. O único que teria algo a ceder seria ele próprio: teria de pôr fim à sua postulação golpista. Mas aí vai dizer a seus fanáticos o quê?
Até o centrão, que vive as delícias orçamentárias do poder, sabe que a equação não tem futuro. Vai tentando empurrar Bolsonaro com a barriga até a disputa eleitoral, numa estratégia de redução de danos.
E quais as chances de o presidente amenizar o discurso depois do dia 7? Bem, respondo com outra pergunta: amenizaria por quê? Lá estarão os seus lunáticos, certos de que podem se impor pelo berro e esperançosos de que as Forças Armadas, na hora h, não faltarão e impedirão a sua derrota — o que não vai acontecer.
O FUTURO
O que os democratas têm de fazer desde já -- e essa costura tem de começar agora, não mais tarde -- é um pacto em favor da governabilidade a partir de 2023. A instabilidade que Bolsonaro levou à política tenderá a durar bastante tempo. A besta não voltará facilmente para a caverna. A corrosão institucional nestes dois anos e oito meses de desordem é grande. Crimes em penca foram e estão sendo cometidos. Os militantes do golpe de estado terão de ser contidos pela lei.
Vejam, a propósito, a pregação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), insuflando a PM de São Paulo contra o governador e falando abertamente em ruptura institucional. É evidente que a democracia não pode tolerar esse tipo de pregação se não quiser conviver com a instabilidade permanente e com a condenação ao atraso. Há setores importantes no país, inclusive na imprensa, que não se deram conta da dimensão da corrosão em curso.
Não. Não haverá golpe. Mas precisaremos de muito tempo para rearranjar as coisas quando esse pesadelo passar. E haverá muito a fazer em defesa da ordem democrática. Especialmente num país em que até alguns juízes confundem crime com liberdade de expressão.
CONCLUO
Bolsonaro não vai desistir na pregação golpista. Não é que seja a sua melhor opção. É a única. Sem isso, não existe. E conta, sim, com um apoio expressivo, especialmente quando se consideram as enormidades que diz. Conseguiu a proeza de encarnar todos os reacionarismos do país -- os novos e os ancestrais. E haverá, pois, muita gente na rua no dia 7. E isso só vai evidenciar por que ele não pode continuar na Presidência da República. Tem de sair por meio do impeachment (chance ainda remota) ou das eleições.
Na planície, terá de pagar por seus crimes.
__________*
Reinaldo Azevedo - Senado deveria barrar Aras. Não vai. Ou: notícia-crime "foge" de Conselho

Reinaldo Azevedo
Colunista do UOL
24/08/2021 05h35
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado sabatina nesta terça o procurador-geral da República, Augusto Aras, que busca recondução ao cargo para um mandato de mais dois anos. Ou nem tanto. Há quem jure que ele está mesmo é de olho comprido naquela vaga aberta no Supremo, com a aposentadoria de Marco Aurélio. Para ela, foi indicado André Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União. A maré não anda favorável a Mendonça, e nada impede que Bolsonaro retire o seu nome e apresente o de Aras — que, sim, seria mais palatável ao Senado. Nesse caso, Lindôra Araújo — aquela que não vê pecados nem ao sul nem ao norte do Equador de Jair Bolsonaro, de quem é amiga — poderia ser indicada para a PGR. Se você pensou aí algo como "Deus nos guarde!", diria que fez bem. Adiante.
Aras será sabatinado tendo em mãos uma boa e uma má notícia. Vamos à boa. Para ele.
Lula, FHC e uma tal política. Ou: centro, antifascismo e falsa polarização
O ARQUIVAMENTO
O ministro Alexandre de Moraes, conforme o esperado, recusou a notícia-crime contra ele apresentada pelos senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Fabiano Contarato (Rede-ES), que o acusam de prevaricação, omitindo-se de atuar para coibir os crimes cometidos por Bolsonaro, especialmente na sua cruzada contra o sistema eleitoral. Os senadores lembram, por exemplo, que o presidente é investigado em dois inquéritos -- foi incluído no das fake news e é também alvo de outro, que apura quebra de sigilo de investigação sigilosa conduzida pela PF -- sem a participação da PGR. Apontam ainda a omissão de Aras no caso do estímulo do mandatário a atos antidemocráticos, atentatórios à democracia e ao estado de direito.
Como afirmei no programa "O É da Coisa", Moraes tendia a rejeitar a abertura de investigação, como fez, porque as condutas apontadas pelos senadores — que, a meu ver, aconteceram — caracterizam muito mais crime de responsabilidade e poderiam embasar um pedido de impeachment no Senado.
O crime de prevaricação, conforme o define o Artigo 319 do Código Penal, consiste em
"Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal"
Com o que se tem, isso não pode ser suficientemente demonstrado. Escreve o ministro:
Observe-se, por fim, que a representação, genericamente, indicou eventual incidência do crime de responsabilidade previsto no artigo 40, item 2, da Lei nº 1.079/50, afirmando que o "comportamento desidioso do Procurador-Geral da República" e o "conjunto de fatos" levam a conclusão de que o "Procurador-Geral da República procedeu de modo incompatível com a dignidade e com o decoro de seu cargo". Eventual análise dessa imputação, entretanto, deverá ser realizada no juízo constitucionalmente competente: Senado Federal.
Moraes está correto. A íntegra de sua decisão está aqui.
A MÁ NOTÍCIA E O ROLO ARMADO
Mas a sabatina de Aras -- que será aprovado -- também se dá num dia ruim, com um rolo bastante nebuloso havido no circuito Conselho Nacional do Ministério Público-PGR. E a história não é nada edificante. E também isso rendeu uma ação no Supremo -- nesse caso, um Mandado de Segurança, cujo relator é Dias Toffolli. Vou apelar à cronologia dos acontecimentos para melhor esclarecer o imbróglio.
1 - No dia 9 de agosto, um grupo de subprocuradores aposentados entrou com uma notícia-crime contra Aras no Conselho Nacional do Ministério Público. Acusam:
"O procurador-geral da República Augusto Aras por si próprio, ou por intermédio de pessoa de sua mais estreita confiança, o vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, vem, sistematicamente, deixando de praticar, ou retardando, a prática de atos funcionais para favorecer a pessoa do presidente da República ou pessoas de seu entorno".
A petição é assinada por Cláudio Lemos Fonteles, Wagner Gonçalves, Álvaro Augusto Ribeiro Costa e Paulo de Tarso Braz Lucas, todos subprocuradores aposentados, e também pelo juiz aposentado do TRF-4 Manoel Lauro Volkemer de Castilho.
Sim, também o Conselho Nacional do Ministério Público pode apurar eventuais crimes cometidos pelo procurador-geral. E aí começa o imbróglio.
2 - O que dispõe o Inciso X do Artigo 57 da Lei Complementar 75, que fine as funções do Ministério Público? Leiam:
"Compete ao Conselho Superior do Ministério Público designar o Subprocurador-Geral da República para conhecer de inquérito, peças de informação ou representação sobre crime comum atribuível ao Procurador-Geral da República e, sendo o caso, promover a ação penal".
Creio que não resta dúvida nenhuma de que, apresentada a representação, cabe ao Conselho definir quem será o subprocurador que vai relatar o caso.
3 - Mas aí algo inusitado se deu. O vice-presidente do Conselho, José Bonifácio Andrada, recebeu a petição e fez a coisa certa: encaminhou-a para a Secretaria do órgão para que se procedesse à designação de um subprocurador-relator, conforme define a lei.
4 - Ocorre que isso não aconteceu. A petição foi despachada, vejam que coisa!, para o gabinete do próprio Aras e, de lá, migrou para o Senado, num encaminhamento absolutamente exótico.
Dispõe o Parágrafo 1º do Artigo 4º do Regimento Interno do Conselho:
"§ 1º O Procurador-Geral da República e qualquer membro do Conselho Superior estão impedidos de participar das decisões nos casos previstos nas leis processuais para o impedimento e a suspeição de membros do Ministério Público".
5 - E, então, cinco subprocuradores-gerais entraram com um Mandado de Segurança no Supremo para que Aras e assessores sejam impedidos de interferir no andamento normal da petição. Um dos signatários é justamente José Bonifácio Andrada. Na ação, argumentam:
"A ilegalidade começa com a surpreendente 'interceptação' do despacho do Vice-Presidente do CSMPF. Com efeito, nem o Procurador-Geral da República, o representado, nem o Vice-Procurador-Geral da República, ocupante de cargo de confiança, longa manus [executor de ordens] do representado, e, o mais grave, expressamente citado na petição de representação como autoridade, poderiam despachar e, menos ainda, interceptar o despacho proferido pelo Vice-Presidente do Conselho Superior do MPF".
Aras afirmou que só vai se manifestar nos autos. Certamente o caso será levado à sabatina de logo mais.
OMISSÃO, SIM!
Reitero o que já disse aqui e em outros meios. Aras exerceu papel importante ao desmontar os arreganhos autoritários da Lava Jato, a mãe de todos os desatinos, que nos conduziu a esta terra devastada. Mas o bem que fez vai sendo, a cada dia, diminuído por aquilo que considero escancarada omissão no enfrentamento dos ímpetos ditatoriais do presidente da República, que se manifestam também na forma de crimes comuns.
E, no caso, o papel da PGR é pedir a abertura de investigação e, diante de um inquérito robusto nas evidências, de ação penal. E, no entanto, tem-se a impressão de que a PGR não existe.
Tanto as coisas se dão deste modo que recaem sobre as costas do ministro Alexandre de Moraes o peso de ter autorizado a ação da PF contra promotores de atos criminosos e antidemocráticos — e quem pediu autorização para que a operação fosse desfechada foi a Procuradoria da República no Distrito Federal.
De tal sorte recai sobre o Supremo a inteira responsabilidade de coibir o arbítrio e o crime que não se reconhece a atuação do Ministério Público nem quando o órgão atua.
CONCLUO, POIS
Sei que dificilmente acontecerá, mas a melhor coisa que faria o Senado-- diante dos descalabros a que Bolsonaro conduziu o país, com uma PGR silente -- seria recusar o nome de Aras.
Pensem na enormidade que está em curso. O país está debatendo risco de conflagração armada, sob o patrocínio do senhor presidente da República. E onde tem andado o procurador-geral?
O órgão emitiu, como esquecer?, uma nota em defesa da liberdade de expressão para, na prática, contestar a prisão de Roberto Jefferson, que, em um dos vídeos, chegou a dar uma aula sobre um modo de matar policiais.
Não. Pelo meu crivo, Aras não passa. Mas vai passar pelo do Senado.
__________*
Mídia condena Lula à condição de Capitu - Denise Assis
Por Denise Assis
PUBLICIDADEPor Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia
O alargamento da margem de diferença nas pesquisas entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o segundo colocado, para as eleições presidenciais de 2022, tem provocado na mídia tradicional um movimento no mínimo curioso. Os veículos de modo geral tratam de construir sobre Lula o efeito Capitu. O de lançar e consolidar entre os eleitores – não os bolsonaristas raiz, mas os que esperam pelo verdadeiro Messias, o redentor da terceira via – uma dúvida eterna: culpado ou inocente? Laboriosamente constroem em seus editoriais e colunas de opinião a ideia de que, uma vez preso, não há como dissolver em votações nem sequer do Supremo tribunal Federal (STF), as acusações que contra ele foram lançadas em processos finalizados por um juiz já considerado suspeito e parcial.
A intenção, que volta e meia, (desde que o ministro Edson Fachin, do STF, anulou as ações movidas pela Operação Lava-Jato em Curitiba, contra o ex-presidente) frequenta as páginas e os editoriais, chegou hoje (26/08) às vias de fato. Explicitamente o jornal Folha de São Paulo dita no seu editorial que “a sequência de vitórias judiciais” obtidas por Lula “abriu o caminho para uma nova candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, mas está longe de dirimir as questões sobre o passado e o futuro do líder petista”. A esta altura, o ex-presidente é alçado à condição de um dos mais famosos personagens do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, lançado em 1899. Desde então, a figura feminina de Capitu suscita a dúvida. Teria ou não traído Bentinho, com o seu dileto amigo, Escobar?
PUBLICIDADEA questão lançada no ar, pela mídia, mesmo depois da decisão da corte máxima do país, tem um objetivo apenas: disseminar desconfiança em torno do nome de Lula. Não querem deixar morrer o antipetismo construído com capricho e esmero durante todo o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, e no período que antecedeu às eleições de 2018. O exercício de desconstrução de Lula e seu partido foi de tal forma enfático e exagerado, que em vez de levar à vitória de Geraldo Alckmin, do PSDB, partido que organizou o golpe de 2016, juntamente com o vice-presidente de então, Michel Temer, fez emergir das urnas o presidente fascista que hoje eles abominam e querem trocar por um mais “apresentável”.
Bolsonaro transformou-se para eles em um verdadeiro “Ezequiel” – filho da personagem Capitu - parido em 2018, cruza da traição de Michel com o PSDB, e vive a lembrá-los o sabor amargo da injustiça cometida contra o ex-presidente Lula.
PUBLICIDADEA desvalorização das vitórias jurídicas de Lula, começam pela ênfase dada pelos veículos tradicionais à “prescrição” por idade, um dos itens destacados na sentença da juíza Pollyanna Martins Alves, de Brasília, para onde foram carreados os processos do ex-presidente, por reconhecimento irrefutável da Justiça. Tentam minimizar o que apontou a juíza em sua sentença: a ausência de provas. Até consentem escrever que “as decisões judiciais foram bem fundamentadas – ainda que a medida inicial de Fachin tenha suscitado estranheza pela aplicação tardia. Lula, como qualquer cidadão, deve ser considerado inocente até prova em contrário”.
As provas “em contrário” a que se refere a Folha, foram abandonadas por ela, que a princípio iniciou corretamente a divulgação do avesso da Operação Lava-Jato, onde ficava patente a manipulação delas pelo procurador Deltan Dallagnol, por orientação do juiz Sérgio Moro (este sim, julgado por 7 X 4 no STF, como parcial).
PUBLICIDADEQuando ficou evidente a partir da documentação trazida à luz pelo hacker Walter Delgatti Neto, a intenção de condenar Lula independente da existência ou não de provas, a própria Folha desembarcou das apurações da documentação revelada na Lava-Jato, mirando no cenário atual. O do dia em que teria de se posicionar quanto às eleições vindouras. Melhor parar com as publicações antes que se comprometesse a ser ela a provar a inocência de Lula, antes mesmo da decisão do ministro Fachin.
Liderando as pesquisas, Lula costura alianças de apoio pelo país, deixando à Folha e seus pares o exercício de buscar entre os “seus”, alguém que lhe faça frente. Pudesse ele responder ao editorial da Folha, de hoje, certamente repetiria a frase que encerra o romance de Machado, dita pelo personagem/narrador, Bentinho: que “a terra lhes seja leve!”
Por Denise Assis

Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia
O alargamento da margem de diferença nas pesquisas entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o segundo colocado, para as eleições presidenciais de 2022, tem provocado na mídia tradicional um movimento no mínimo curioso. Os veículos de modo geral tratam de construir sobre Lula o efeito Capitu. O de lançar e consolidar entre os eleitores – não os bolsonaristas raiz, mas os que esperam pelo verdadeiro Messias, o redentor da terceira via – uma dúvida eterna: culpado ou inocente? Laboriosamente constroem em seus editoriais e colunas de opinião a ideia de que, uma vez preso, não há como dissolver em votações nem sequer do Supremo tribunal Federal (STF), as acusações que contra ele foram lançadas em processos finalizados por um juiz já considerado suspeito e parcial.
A intenção, que volta e meia, (desde que o ministro Edson Fachin, do STF, anulou as ações movidas pela Operação Lava-Jato em Curitiba, contra o ex-presidente) frequenta as páginas e os editoriais, chegou hoje (26/08) às vias de fato. Explicitamente o jornal Folha de São Paulo dita no seu editorial que “a sequência de vitórias judiciais” obtidas por Lula “abriu o caminho para uma nova candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, mas está longe de dirimir as questões sobre o passado e o futuro do líder petista”. A esta altura, o ex-presidente é alçado à condição de um dos mais famosos personagens do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, lançado em 1899. Desde então, a figura feminina de Capitu suscita a dúvida. Teria ou não traído Bentinho, com o seu dileto amigo, Escobar?
A questão lançada no ar, pela mídia, mesmo depois da decisão da corte máxima do país, tem um objetivo apenas: disseminar desconfiança em torno do nome de Lula. Não querem deixar morrer o antipetismo construído com capricho e esmero durante todo o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, e no período que antecedeu às eleições de 2018. O exercício de desconstrução de Lula e seu partido foi de tal forma enfático e exagerado, que em vez de levar à vitória de Geraldo Alckmin, do PSDB, partido que organizou o golpe de 2016, juntamente com o vice-presidente de então, Michel Temer, fez emergir das urnas o presidente fascista que hoje eles abominam e querem trocar por um mais “apresentável”.
Bolsonaro transformou-se para eles em um verdadeiro “Ezequiel” – filho da personagem Capitu - parido em 2018, cruza da traição de Michel com o PSDB, e vive a lembrá-los o sabor amargo da injustiça cometida contra o ex-presidente Lula.
A desvalorização das vitórias jurídicas de Lula, começam pela ênfase dada pelos veículos tradicionais à “prescrição” por idade, um dos itens destacados na sentença da juíza Pollyanna Martins Alves, de Brasília, para onde foram carreados os processos do ex-presidente, por reconhecimento irrefutável da Justiça. Tentam minimizar o que apontou a juíza em sua sentença: a ausência de provas. Até consentem escrever que “as decisões judiciais foram bem fundamentadas – ainda que a medida inicial de Fachin tenha suscitado estranheza pela aplicação tardia. Lula, como qualquer cidadão, deve ser considerado inocente até prova em contrário”.
As provas “em contrário” a que se refere a Folha, foram abandonadas por ela, que a princípio iniciou corretamente a divulgação do avesso da Operação Lava-Jato, onde ficava patente a manipulação delas pelo procurador Deltan Dallagnol, por orientação do juiz Sérgio Moro (este sim, julgado por 7 X 4 no STF, como parcial).
Quando ficou evidente a partir da documentação trazida à luz pelo hacker Walter Delgatti Neto, a intenção de condenar Lula independente da existência ou não de provas, a própria Folha desembarcou das apurações da documentação revelada na Lava-Jato, mirando no cenário atual. O do dia em que teria de se posicionar quanto às eleições vindouras. Melhor parar com as publicações antes que se comprometesse a ser ela a provar a inocência de Lula, antes mesmo da decisão do ministro Fachin.
Liderando as pesquisas, Lula costura alianças de apoio pelo país, deixando à Folha e seus pares o exercício de buscar entre os “seus”, alguém que lhe faça frente. Pudesse ele responder ao editorial da Folha, de hoje, certamente repetiria a frase que encerra o romance de Machado, dita pelo personagem/narrador, Bentinho: que “a terra lhes seja leve!”
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Significado histórico da derrota dos EUA na Ásia Central - Lejeune Mirhan
Por Lejeune Mirhan
PUBLICIDADEProf. Lejeune Mirhan
Desde o último domingo, dia 15 de agosto, muito antes do que as tais agências de “inteligência” previram, o grupo guerrilheiro islâmico – mujaredins – chegaram à Cabul, cercando a cidade e tomando o poder, com a simbologia de deixarem-se fotografar na cadeira do “presidente” do país, no Palácio Presidencial, cujo “titular” havia fugido do país, com milhões de dólares, e tendo se asilado em Dubai nos Emirados. Há muitos aspectos a serem esclarecidos, estudados, analisados nesse processo, em especial os seus desdobramentos, que é o que pretendemos neste nosso novo ensaio.
Neste meu novo ensaio, não pretendo contar a história milenar da presença da civilização na região da Ásia Central, muito menos da formação do atual Afeganistão. Isso demandaria extensa pesquisa e não deve ser foco de nosso trabalho. Tampouco vou descrever a luta dos mujahedins contra a ocupação soviética (1979-1989), nem escreverei sobre o curto governo dos Talibãs (1996-2001) e mesmo os últimos 20 anos de ocupação – a mais longa já realizada – pelos EUA.
PUBLICIDADEO foco da minha análise será o dos últimos dias que antecederam a queda de Cabul, os desdobramentos, a possibilidade de formação de governo, as implicações regionais e na geopolítica mundial que, alguns autores têm dito, afetará a correlação de forças em plano mundial.
Esta presente análise foi feita em função dos últimos acontecimentos que ocorreram no Afeganistão, com a tomada da Capital Cabul e a fuga do presidente títere, em um abandono completo e com muita rapidez, e a antecipada retirada das tropas dos Estados Unidos. Foi um desmonte e desmoronamento tanto do estado nacional, quanto das tão festejadas tropas regulares afeganes, estimadas em 300 mil soldados “treinados pelos EUA e muito bem armados” (sic).
PUBLICIDADEA imagem nos faz lembrar – e não há como não compararmos – com aquela de abril de 1975, quando os Estados Unidos saíram do Vietnã e foram fragorosamente derrotados após 12 anos de agressões. Nós temos hoje imagens que fazem essa comparação, com os helicópteros retirando o pessoal diplomático, não só dos Estados Unidos, como de várias embaixadas de outros países que mantinham relações diplomáticas com o Afeganistão. Não se sabe daqui para frente como as coisas ficarão.
Mas, as verdadeiras e mais marcantes imagens – que comprovam mesmo a dimensão e extensão da derrota imperialista – são as imensas filas para embarcar pela rampa traseira dos imensos aviões cargueiros militares estadunidenses, os C-17.
PUBLICIDADESão aviões fabricados pela Boeing e denominados Globemaster III, fabricados de 1991 até 2015, tendo, alguns deles, deixado Cabul com a sua capacidade máxima de transporte de passageiros que é de 830 pessoas. É avião de carga, de transportes de tropas (paraquedistas e soldados regulares), bem como transporte médicos com macas.
A imagem do helicóptero no telhado da embaixada em Saigon é muito pequena se comparada com as imagens do aeroporto de Cabul, ainda controlado pelos EUA até o dia 31 de agosto. E os Talibãs estão irredutíveis quanto à não extensão desse prazo final dado para a desocupação do aeroporto.
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Por Lejeune Mirhan

Prof. Lejeune Mirhan
Desde o último domingo, dia 15 de agosto, muito antes do que as tais agências de “inteligência” previram, o grupo guerrilheiro islâmico – mujaredins – chegaram à Cabul, cercando a cidade e tomando o poder, com a simbologia de deixarem-se fotografar na cadeira do “presidente” do país, no Palácio Presidencial, cujo “titular” havia fugido do país, com milhões de dólares, e tendo se asilado em Dubai nos Emirados. Há muitos aspectos a serem esclarecidos, estudados, analisados nesse processo, em especial os seus desdobramentos, que é o que pretendemos neste nosso novo ensaio.
Neste meu novo ensaio, não pretendo contar a história milenar da presença da civilização na região da Ásia Central, muito menos da formação do atual Afeganistão. Isso demandaria extensa pesquisa e não deve ser foco de nosso trabalho. Tampouco vou descrever a luta dos mujahedins contra a ocupação soviética (1979-1989), nem escreverei sobre o curto governo dos Talibãs (1996-2001) e mesmo os últimos 20 anos de ocupação – a mais longa já realizada – pelos EUA.
O foco da minha análise será o dos últimos dias que antecederam a queda de Cabul, os desdobramentos, a possibilidade de formação de governo, as implicações regionais e na geopolítica mundial que, alguns autores têm dito, afetará a correlação de forças em plano mundial.
Esta presente análise foi feita em função dos últimos acontecimentos que ocorreram no Afeganistão, com a tomada da Capital Cabul e a fuga do presidente títere, em um abandono completo e com muita rapidez, e a antecipada retirada das tropas dos Estados Unidos. Foi um desmonte e desmoronamento tanto do estado nacional, quanto das tão festejadas tropas regulares afeganes, estimadas em 300 mil soldados “treinados pelos EUA e muito bem armados” (sic).
A imagem nos faz lembrar – e não há como não compararmos – com aquela de abril de 1975, quando os Estados Unidos saíram do Vietnã e foram fragorosamente derrotados após 12 anos de agressões. Nós temos hoje imagens que fazem essa comparação, com os helicópteros retirando o pessoal diplomático, não só dos Estados Unidos, como de várias embaixadas de outros países que mantinham relações diplomáticas com o Afeganistão. Não se sabe daqui para frente como as coisas ficarão.
Mas, as verdadeiras e mais marcantes imagens – que comprovam mesmo a dimensão e extensão da derrota imperialista – são as imensas filas para embarcar pela rampa traseira dos imensos aviões cargueiros militares estadunidenses, os C-17.
São aviões fabricados pela Boeing e denominados Globemaster III, fabricados de 1991 até 2015, tendo, alguns deles, deixado Cabul com a sua capacidade máxima de transporte de passageiros que é de 830 pessoas. É avião de carga, de transportes de tropas (paraquedistas e soldados regulares), bem como transporte médicos com macas.
A imagem do helicóptero no telhado da embaixada em Saigon é muito pequena se comparada com as imagens do aeroporto de Cabul, ainda controlado pelos EUA até o dia 31 de agosto. E os Talibãs estão irredutíveis quanto à não extensão desse prazo final dado para a desocupação do aeroporto.
Introdução
O grupo Talibã significa “estudantes” na língua Pashtu (uma das línguas faladas no Afeganistão). Eles não surgem no Afeganistão, mas no Paquistão, em 1994. Há muitas pessoas fazendo uma análise errônea dizendo que o Talibã, tanto quanto a Al-Qaeda, do Osama Bin Laden são crias dos Estados Unidos e da CIA .
Esta informação não está correta. A Al-Qaeda surge em 1988, também no Paquistão, essa sim, com apoio integral dos Estados Unidos. Nos 10 anos que esses mujahedins combateram a ocupação soviética, a CIA/EUA treinaram 90 mil pessoas, na chamada Operação Ciclone (1). Portanto, Osama Bin Laden e o seu grupo terrorista este sim, são crias da CIA, disso não se pode ter dúvida.
Eles foram apoiados, treinados e armados pelos Estados Unidos, com o intuito claro de derrotar a União Soviética que – a pedido do governo socialista afegão em 1979, advinda da chamada Revolução Saur – pediu a vinda de tropas pela solidariedade internacional, no sentido de que o governo, que era de esquerda, onde havia liberdade para as mulheres, liberdades políticas e democráticas e nenhuma restrição.
Aquele governo estava sendo acossado por esses que eram apresentados pela imprensa estadunidense que eles eram os freedom fighters – lutadores da liberdade (sic) – ou ainda freedom warriors – guerreiros da liberdade – mas que, na verdade, posteriormente viriam a ser terroristas sob o comando da Al-Qaeda, cuja atividade em todo mundo é exclusivamente terrorista. E liderados pelo terrorista saudita, Osama Bin Laden, acusado de ser o mentor dos ataques às torres gêmeas em Nova York, nos EUA.
Eles foram, então, financiados durante dez anos (de 1979 a 1989), até quando a União Soviética saiu de vez do país e viria a acabar dois anos depois, em dezembro de 1991. Portanto, a criação do grupo Talibã se dá apenas em 1994 – portanto cinco anos depois que a URSS deixa o Afeganistão. A assunção deles ao poder no Afeganistão se dá um tempo depois, em 1996.
Eles vão governar o país no vácuo político muito grande que existiu entre a saída das tropas soviéticas em 1989 até a tomada de poder real em 2006. Os Talibãs não eram reconhecidos por quase ninguém no mundo. Apenas três países reconheceram o grupo como governo do Talibã no Afeganistão: Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes. Este último, atualmente, está entre os países que consideram o grupo “terrorista” (sic).
No dia 7 de outubro de 2001, os Estados Unidos invadem o país. Lembremos que as tropas dos Estados Unidos chegaram apenas 26 dias após os ataques às Torres Gêmeas, que ocorreram no dia 11 de setembro daquele ano.
Eles chegaram e ocuparam o país inteiro, em uma operação fulminante. Os Estados Unidos e outros países aliados chegaram a ter 150 mil soldados no país, um dos mais pobres do mundo, com um PIB de 20 bilhões de dólares (2). Há estimativas de que nestes 20 anos os Estados Unidos gastaram dois trilhões de dólares e saem de lá derrotados.
O grupo Talibã significa “estudantes” na língua Pashtu (uma das línguas faladas no Afeganistão). Eles não surgem no Afeganistão, mas no Paquistão, em 1994. Há muitas pessoas fazendo uma análise errônea dizendo que o Talibã, tanto quanto a Al-Qaeda, do Osama Bin Laden são crias dos Estados Unidos e da CIA .
Esta informação não está correta. A Al-Qaeda surge em 1988, também no Paquistão, essa sim, com apoio integral dos Estados Unidos. Nos 10 anos que esses mujahedins combateram a ocupação soviética, a CIA/EUA treinaram 90 mil pessoas, na chamada Operação Ciclone (1). Portanto, Osama Bin Laden e o seu grupo terrorista este sim, são crias da CIA, disso não se pode ter dúvida.
Eles foram apoiados, treinados e armados pelos Estados Unidos, com o intuito claro de derrotar a União Soviética que – a pedido do governo socialista afegão em 1979, advinda da chamada Revolução Saur – pediu a vinda de tropas pela solidariedade internacional, no sentido de que o governo, que era de esquerda, onde havia liberdade para as mulheres, liberdades políticas e democráticas e nenhuma restrição.
Aquele governo estava sendo acossado por esses que eram apresentados pela imprensa estadunidense que eles eram os freedom fighters – lutadores da liberdade (sic) – ou ainda freedom warriors – guerreiros da liberdade – mas que, na verdade, posteriormente viriam a ser terroristas sob o comando da Al-Qaeda, cuja atividade em todo mundo é exclusivamente terrorista. E liderados pelo terrorista saudita, Osama Bin Laden, acusado de ser o mentor dos ataques às torres gêmeas em Nova York, nos EUA.
Eles foram, então, financiados durante dez anos (de 1979 a 1989), até quando a União Soviética saiu de vez do país e viria a acabar dois anos depois, em dezembro de 1991. Portanto, a criação do grupo Talibã se dá apenas em 1994 – portanto cinco anos depois que a URSS deixa o Afeganistão. A assunção deles ao poder no Afeganistão se dá um tempo depois, em 1996.
Eles vão governar o país no vácuo político muito grande que existiu entre a saída das tropas soviéticas em 1989 até a tomada de poder real em 2006. Os Talibãs não eram reconhecidos por quase ninguém no mundo. Apenas três países reconheceram o grupo como governo do Talibã no Afeganistão: Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes. Este último, atualmente, está entre os países que consideram o grupo “terrorista” (sic).
No dia 7 de outubro de 2001, os Estados Unidos invadem o país. Lembremos que as tropas dos Estados Unidos chegaram apenas 26 dias após os ataques às Torres Gêmeas, que ocorreram no dia 11 de setembro daquele ano.
Eles chegaram e ocuparam o país inteiro, em uma operação fulminante. Os Estados Unidos e outros países aliados chegaram a ter 150 mil soldados no país, um dos mais pobres do mundo, com um PIB de 20 bilhões de dólares (2). Há estimativas de que nestes 20 anos os Estados Unidos gastaram dois trilhões de dólares e saem de lá derrotados.
O contexto da vitória talibã
Eu não estou de acordo com a classificação do grupo Talibã como terrorista. Terrorismo é praticado pela Al-Qaeda. Eles são resistentes, guerrilheiros muçulmanos fundamentalistas, uma guerrilha camponesa. Com uma formação política baixa, mas com elevada compreensão da luta anti-imperialista.
Parte dos comentários que li nos primeiros dias da tomada do poder em Cabul, escritos por parte de gente de nosso próprio campo, compara o Talibã com a Al Qaeda, chama-os abertamente de terroristas e – o que é pior – afirmam que eles foram mesmo criados pelos EUA e pela CIA.
Um absurdo tudo isso. Típica posição de alguém que se aventura a ser “analista internacional” sem saber um mínimo da história de um país e de um povo, de sua trajetória de luta (3). Com a desinformação, acabam na prática apoiando a ocupação estadunidense. É lamentável tudo isso. Ataca-se o grupo guerrilheiro da resistência com a mesma intensidade – e até mais – como atacam o imperialismo estadunidense.
Devemos sim, com todas as nossas forças, comemorar a fragorosa derrota do imperialismo estadunidense. Quanto a isso não podemos ter dúvidas. Tenho dito que, quando Biden venceu nos EUA em novembro de 2020, parte das pessoas que foram para as ruas fazer festa não foi por causa da sua vitória, mas pela derrota do fascista Donald Trump.
Da mesma forma digo sobre a derrota de Nethanyahu. A festa nas ruas de Tel Aviv não foi pela formação de um governo oposicionista – que não mudou nada para os palestinos – mas sim pela fragorosa derrotada do fascista, que governou Israel por longos 12 anos.
Nós não comemoramos a ascensão ao poder dos Talibãs. Sabemos que, no passado de há 20 anos – ainda vivo na memória de todos nós, em especial das mulheres – eles oprimiram mulheres enquanto governaram por cinco anos. Por isso é que nós temos que ter uma elevada consciência política do que está acontecendo, e saber separar esses dois aspectos. Isso é dialético.
Portanto, não se trata de comemorar a tomada do poder pelos Talibãs. Mas, com relação a isso, temos que ter cautela e aguardar a formação do governo – esperada para início de setembro após a desocupação completa dos EUA do aeroporto, onde suas tropas ainda acantonadas (acampadas) para assegurar a repatriação dos seus colaboradores (na verdade, colaboracionistas).
Então, a imagem dos EUA saindo da sua Embaixada, agora é muito mais dramática do que foi a saída de Saigon, no Vietnã. A simbologia se faz, como disse, com as imensas filas de colaboracionistas querendo sair do país, entrando nos cargueiros militares do império. O que essas fotos e imagens da fuga de Cabul nos ensina? Que o imperialismo estadunidense não é invencível. Como não foi em 1975, no Vietnã.
Nós já sabíamos disso quando ocorreu a Revolução Chinesa, quando ocorreu a Revolução Cubana ou quando ocorreu a Revolução na Nicarágua, no Vietnã e em tantos outros lugares. Então, nós sabemos que eles não são invencíveis.
A última dessas vitórias tinha sido no Vietnã, que lutou diretamente contra a maior potência imperialista no mundo, durante 12 anos, onde morreram 60 mil soldados estadunidenses, naquela guerra de agressão e, morreu até dois milhão de vietnamitas (estimados), entre povo e soldados. Então, é preciso dizer que esta é uma vitória da soberania e da independência nacional, com a libertação da dependência dos Estados Unidos.
Outro aspecto que quero registrar é a vitória de uma teoria, chamada de Guerra Popular Prolongada – GPP (na sigla inglesa PPW ou Prolonged People’s War). Ela foi desenvolvida originalmente por Mao Zedong e parte do princípio de uma luta do tipo guerra de guerrilhas, que tem por objetivo atrair os inimigos para o interior, terreno em que os guerrilheiros mais dominam.
Essa é uma guerrilha essencialmente camponesa. A teoria menciona o cerca das cidades pelo campo. Na China foi aplicada desde o início da guerra civil em 1927, até a tomada do poder pelos comunistas em Pequim, em 1º de outubro de 1949 (4).
Eu fui formado em minha juventude, em meados da década de 1970, sob a influência do pensamento de Mao Zedong e da teoria da Guerra Popular Prolongada. Quero registrar que a vitória dos Talibãs é também a vitória desta teoria. Ela também foi aplicada intensamente pelos vietnamitas do Partido Comunista do Vietnã, na longa guerra de guerrilhas travada contra os EUA em 12 anos (1963-1975). E agora, em 20 anos, pelos Talibãs.
Os Estados Unidos, durante o período que ficaram no Afeganistão, tiveram a seu serviço milhares e milhares de colaboradores, que são na verdade colaboracionistas. Fala-se pelo menos 20 mil tradutores da língua Pashtu para o inglês e outras. Alguns órgãos de imprensa mencionam até 300 mil afegãs que de alguma forma prestaram serviços às tropas de ocupação.
É preciso dizer que nos 20 anos que os EUA tiveram no Afeganistão, não se registrou nenhum avanço em termos sociais. A crise pelo qual o país hoje atravessa, é claramente em função da sua política de ingerência interna em todos os países, que eles se acham no direito de fazer, de opinar, de dizer o que os outros devem fazer.
Fala-se muito nos refugiados que hoje querem sair do país, estimados em 300 mil pessoas. Mas, a mídia jamais fala dos cinco milhões de deslocados internos e refugiados que procuraram abrigos em outros países da região, que ocorreram durante este período de ocupação. Ou seja, o grande causador dos deslocamentos e dos refugiados é claramente os EUA.
Esses colaboracionistas faziam alguns tipos de serviços nas bases miliares – eram na verdade serviçais –, serviam como guias e orientadores. Os tradutores, principalmente, entre o pessoal mais preparado e bem formado, estão sendo retirados junto com o pessoal do corpo diplomático dos Estados Unidos. Isso tem gerado protestos dos Talibãs em suas coletivas de imprensa, pois esse pessoal fará falta na reconstrução e desenvolvimento do país, em sua nova fase.
Quando Biden anunciou a retirada, ele disse que deixaria apenas 600 soldados para proteger a Embaixada dos EUA. Posteriormente mandou mais dois mil para proteger a retirada inicial de seu pessoal, que passou a ter uma velocidade maior. Mais recentemente, ele deslocou mais três mil soldados. Todos acampados no aeroporto de Cabul, pois já que não podem mais circular pela capital.
A mídia, em que pese a sua fúria contra os Talibãs, também tem sido dura contra os EUA e a sua ocupação fracassada. Os termos que eles têm usados vão desde “completo fracasso da inteligência e da CIA”, bem como “desastre estratégico” e “fracasso completo da diplomacia estadunidense”. Em 23 de junho de 2021, o próprio Wall Street Journal publicou um relatório da CIA em que eles avaliavam que os Talibãs não tomariam o poder antes de 90 dias pelo menos (estas informações não estão referenciadas, pois foram obtidas a partir de diversos vídeos disponíveis no YouTube).
A própria República Federal da Alemanha tem dito que a derrota não é apenas dos EUA, mas da própria OTAN, a carcomida e decadente Organização do Tratado do Atlântico Norte, estrutura militar que consome bilhões de dólares todos os anos e mostrou-se completamente incompetente. Segundo eles, as cenas produzidas nos últimos dias no Afeganistão são “vergonhosas para todo o Ocidente”. A Inglaterra classificou o que lá ocorreu como um completo fracasso de toda a comunidade internacional.
Segundo a República Tcheca, os EUA perderam muito prestígio internacional com essa fragorosa derrota. Isso deixa dúvidas sobre a própria legitimidade da OTAN. O Partido Republicano nos EUA declarou que o que ocorreu foi um “vergonhoso fracasso, um erro estratégico”. Eles preveem a volta em alguns meses da Al Qaeda (existem muitas dúvidas sobre se isso irá ocorrer).
O próprio Jens Stoltenberg, secretário-geral da OTAN, ainda que ele elogie as forças armadas afegãs, por eles treinados e armados, não assume a sua culpa, jogando a responsabilidade nos soldados afegãos. Preferiu culpar os políticos afegãos pela derrota por não terem “encontrado uma solução política pacífica”.
Portanto, esse contingente elevado de soldados, tem a única e exclusiva missão de garantir a retirada de tropas e garantir a retirada do pessoal do corpo diplomático estadunidense, que estavam queimando de forma acelerada documentos da embaixada e a abandonando rapidamente, e dirigindo-se ao aeroporto de Cabul. Por certo que os aviões cargueiros e de passageiros que têm sido enviados para Cabul, retiram pessoal, corpo diplomático e colaboracionistas de várias embaixadas, não só dos EUA.
A base militar de Bagram, onde os EUA investiram meio bilhão de dólares em sua modernização, já está em posse dos guerrilheiros Talibãs. E foi tomada praticamente sem que um só tiro fosse disparado. O Afeganistão inteiro, na verdade, já está sob o controle dos Talibãs. Não há mais uma cidade importante que não tenha sido capturada pela guerrilha Talibã. Na sexta-feira, dia 13, eles já haviam tomado Erat, Kandahar, uma cidade histórica muito antiga (existem registro de presença humana nessa localidade há pelo menos três mil anos). Já no dia 15 de agosto, finalmente, tomaram Cabul.
No dia 14 de agosto, sexta-feira, às 14h45 (hora local), o presidente subserviente, à serviço dos Estados Unidos, Ashraf Ghani, assinou a sua carta de renúncia. A imprensa noticiou – desmentido, por certo pelo Ghani – que ele fugiu levando consigo quase 170 milhões de dólares.
Esse traidor do povo afegão, tem sua formação toda ela na esfera da órbita estadunidense. Sua graduação é na Universidade Americana de Beirute (que conheci pessoalmente). Seu doutorado foi na Universidade de Colúmbia. Serviu ao Banco Mundial.
Como as notícias nos chegam mais lentamente, foi anunciado a formação de um governo de transição. Nesta terça, dia 24 de agosto, foi formado um Conselho de Governo, composto de 12 pessoas. Alguns nomes têm sido veiculados pela imprensa, entre eles o conselho incluirá um dos fundadores do movimento, Mullah Mohammad Yaqoob, filho do fundador do Talibã, Mullah Mohammad Omar, bem como Khalil Haqqani.
Os Talibãs, aparentemente, tentam mostrar que não são os mesmos que governaram naquele período mais obscuro há 25 anos. Eles cercaram Cabul e estão autorizando que as pessoas saiam tranquilamente. O intento deles – e eles conseguiram – era o de tomar a capital sem violência. Estão dizendo que não vão punir nenhum dos colaboradores. Falam em conceder anistia ampla, geral e irrestrita.
É preciso dizer que eles tinham na Capital, o que se chama de “células adormecidas”, ou seja, eram militantes Talibãs, que tinham em suas casas armas escondidas e que em determinado momento, foram às ruas e ajudaram na ocupação da cidade.
Esse novo governo em processo de constituição, que será de transição deve ser formado e deve ter no seu comando, ou como presidente ou como primeiro-ministro, Ali Ahmad Jalal, que já havia sido ministro do interior, num período de dois anos, depois da ocupação, por volta de 2003. É muito provável que esse nome tenha a simpatia e a concordância dos guerrilheiros.
É preciso registrar que na cidade de Doha, a capital do Qatar, estava havendo uma conferência de transição do poder, que já vinha em andamento, visto que já se sabia que o Talibã venceria esta batalha. É possível que as conversações tenham começado um mês antes da chegada dos guerrilheiros à Cabul.
Há um importante registro histórico que devemos fazer, de que os Estados Unidos jamais venceram guerra alguma, em qualquer país. Eles perderam todas. Só ganharam a Segunda Guerra, porque os comunistas do Exército Vermelho estavam juntos. Não fosse isso, eles perderiam. Mas, os livros de história dizem que eles é que ganharam a guerra.
Eu não estou de acordo com a classificação do grupo Talibã como terrorista. Terrorismo é praticado pela Al-Qaeda. Eles são resistentes, guerrilheiros muçulmanos fundamentalistas, uma guerrilha camponesa. Com uma formação política baixa, mas com elevada compreensão da luta anti-imperialista.
Parte dos comentários que li nos primeiros dias da tomada do poder em Cabul, escritos por parte de gente de nosso próprio campo, compara o Talibã com a Al Qaeda, chama-os abertamente de terroristas e – o que é pior – afirmam que eles foram mesmo criados pelos EUA e pela CIA.
Um absurdo tudo isso. Típica posição de alguém que se aventura a ser “analista internacional” sem saber um mínimo da história de um país e de um povo, de sua trajetória de luta (3). Com a desinformação, acabam na prática apoiando a ocupação estadunidense. É lamentável tudo isso. Ataca-se o grupo guerrilheiro da resistência com a mesma intensidade – e até mais – como atacam o imperialismo estadunidense.
Devemos sim, com todas as nossas forças, comemorar a fragorosa derrota do imperialismo estadunidense. Quanto a isso não podemos ter dúvidas. Tenho dito que, quando Biden venceu nos EUA em novembro de 2020, parte das pessoas que foram para as ruas fazer festa não foi por causa da sua vitória, mas pela derrota do fascista Donald Trump.
Da mesma forma digo sobre a derrota de Nethanyahu. A festa nas ruas de Tel Aviv não foi pela formação de um governo oposicionista – que não mudou nada para os palestinos – mas sim pela fragorosa derrotada do fascista, que governou Israel por longos 12 anos.
Nós não comemoramos a ascensão ao poder dos Talibãs. Sabemos que, no passado de há 20 anos – ainda vivo na memória de todos nós, em especial das mulheres – eles oprimiram mulheres enquanto governaram por cinco anos. Por isso é que nós temos que ter uma elevada consciência política do que está acontecendo, e saber separar esses dois aspectos. Isso é dialético.
Portanto, não se trata de comemorar a tomada do poder pelos Talibãs. Mas, com relação a isso, temos que ter cautela e aguardar a formação do governo – esperada para início de setembro após a desocupação completa dos EUA do aeroporto, onde suas tropas ainda acantonadas (acampadas) para assegurar a repatriação dos seus colaboradores (na verdade, colaboracionistas).
Então, a imagem dos EUA saindo da sua Embaixada, agora é muito mais dramática do que foi a saída de Saigon, no Vietnã. A simbologia se faz, como disse, com as imensas filas de colaboracionistas querendo sair do país, entrando nos cargueiros militares do império. O que essas fotos e imagens da fuga de Cabul nos ensina? Que o imperialismo estadunidense não é invencível. Como não foi em 1975, no Vietnã.
Nós já sabíamos disso quando ocorreu a Revolução Chinesa, quando ocorreu a Revolução Cubana ou quando ocorreu a Revolução na Nicarágua, no Vietnã e em tantos outros lugares. Então, nós sabemos que eles não são invencíveis.
A última dessas vitórias tinha sido no Vietnã, que lutou diretamente contra a maior potência imperialista no mundo, durante 12 anos, onde morreram 60 mil soldados estadunidenses, naquela guerra de agressão e, morreu até dois milhão de vietnamitas (estimados), entre povo e soldados. Então, é preciso dizer que esta é uma vitória da soberania e da independência nacional, com a libertação da dependência dos Estados Unidos.
Outro aspecto que quero registrar é a vitória de uma teoria, chamada de Guerra Popular Prolongada – GPP (na sigla inglesa PPW ou Prolonged People’s War). Ela foi desenvolvida originalmente por Mao Zedong e parte do princípio de uma luta do tipo guerra de guerrilhas, que tem por objetivo atrair os inimigos para o interior, terreno em que os guerrilheiros mais dominam.
Essa é uma guerrilha essencialmente camponesa. A teoria menciona o cerca das cidades pelo campo. Na China foi aplicada desde o início da guerra civil em 1927, até a tomada do poder pelos comunistas em Pequim, em 1º de outubro de 1949 (4).
Eu fui formado em minha juventude, em meados da década de 1970, sob a influência do pensamento de Mao Zedong e da teoria da Guerra Popular Prolongada. Quero registrar que a vitória dos Talibãs é também a vitória desta teoria. Ela também foi aplicada intensamente pelos vietnamitas do Partido Comunista do Vietnã, na longa guerra de guerrilhas travada contra os EUA em 12 anos (1963-1975). E agora, em 20 anos, pelos Talibãs.
Os Estados Unidos, durante o período que ficaram no Afeganistão, tiveram a seu serviço milhares e milhares de colaboradores, que são na verdade colaboracionistas. Fala-se pelo menos 20 mil tradutores da língua Pashtu para o inglês e outras. Alguns órgãos de imprensa mencionam até 300 mil afegãs que de alguma forma prestaram serviços às tropas de ocupação.
É preciso dizer que nos 20 anos que os EUA tiveram no Afeganistão, não se registrou nenhum avanço em termos sociais. A crise pelo qual o país hoje atravessa, é claramente em função da sua política de ingerência interna em todos os países, que eles se acham no direito de fazer, de opinar, de dizer o que os outros devem fazer.
Fala-se muito nos refugiados que hoje querem sair do país, estimados em 300 mil pessoas. Mas, a mídia jamais fala dos cinco milhões de deslocados internos e refugiados que procuraram abrigos em outros países da região, que ocorreram durante este período de ocupação. Ou seja, o grande causador dos deslocamentos e dos refugiados é claramente os EUA.
Esses colaboracionistas faziam alguns tipos de serviços nas bases miliares – eram na verdade serviçais –, serviam como guias e orientadores. Os tradutores, principalmente, entre o pessoal mais preparado e bem formado, estão sendo retirados junto com o pessoal do corpo diplomático dos Estados Unidos. Isso tem gerado protestos dos Talibãs em suas coletivas de imprensa, pois esse pessoal fará falta na reconstrução e desenvolvimento do país, em sua nova fase.
Quando Biden anunciou a retirada, ele disse que deixaria apenas 600 soldados para proteger a Embaixada dos EUA. Posteriormente mandou mais dois mil para proteger a retirada inicial de seu pessoal, que passou a ter uma velocidade maior. Mais recentemente, ele deslocou mais três mil soldados. Todos acampados no aeroporto de Cabul, pois já que não podem mais circular pela capital.
A mídia, em que pese a sua fúria contra os Talibãs, também tem sido dura contra os EUA e a sua ocupação fracassada. Os termos que eles têm usados vão desde “completo fracasso da inteligência e da CIA”, bem como “desastre estratégico” e “fracasso completo da diplomacia estadunidense”. Em 23 de junho de 2021, o próprio Wall Street Journal publicou um relatório da CIA em que eles avaliavam que os Talibãs não tomariam o poder antes de 90 dias pelo menos (estas informações não estão referenciadas, pois foram obtidas a partir de diversos vídeos disponíveis no YouTube).
A própria República Federal da Alemanha tem dito que a derrota não é apenas dos EUA, mas da própria OTAN, a carcomida e decadente Organização do Tratado do Atlântico Norte, estrutura militar que consome bilhões de dólares todos os anos e mostrou-se completamente incompetente. Segundo eles, as cenas produzidas nos últimos dias no Afeganistão são “vergonhosas para todo o Ocidente”. A Inglaterra classificou o que lá ocorreu como um completo fracasso de toda a comunidade internacional.
Segundo a República Tcheca, os EUA perderam muito prestígio internacional com essa fragorosa derrota. Isso deixa dúvidas sobre a própria legitimidade da OTAN. O Partido Republicano nos EUA declarou que o que ocorreu foi um “vergonhoso fracasso, um erro estratégico”. Eles preveem a volta em alguns meses da Al Qaeda (existem muitas dúvidas sobre se isso irá ocorrer).
O próprio Jens Stoltenberg, secretário-geral da OTAN, ainda que ele elogie as forças armadas afegãs, por eles treinados e armados, não assume a sua culpa, jogando a responsabilidade nos soldados afegãos. Preferiu culpar os políticos afegãos pela derrota por não terem “encontrado uma solução política pacífica”.
Portanto, esse contingente elevado de soldados, tem a única e exclusiva missão de garantir a retirada de tropas e garantir a retirada do pessoal do corpo diplomático estadunidense, que estavam queimando de forma acelerada documentos da embaixada e a abandonando rapidamente, e dirigindo-se ao aeroporto de Cabul. Por certo que os aviões cargueiros e de passageiros que têm sido enviados para Cabul, retiram pessoal, corpo diplomático e colaboracionistas de várias embaixadas, não só dos EUA.
A base militar de Bagram, onde os EUA investiram meio bilhão de dólares em sua modernização, já está em posse dos guerrilheiros Talibãs. E foi tomada praticamente sem que um só tiro fosse disparado. O Afeganistão inteiro, na verdade, já está sob o controle dos Talibãs. Não há mais uma cidade importante que não tenha sido capturada pela guerrilha Talibã. Na sexta-feira, dia 13, eles já haviam tomado Erat, Kandahar, uma cidade histórica muito antiga (existem registro de presença humana nessa localidade há pelo menos três mil anos). Já no dia 15 de agosto, finalmente, tomaram Cabul.
No dia 14 de agosto, sexta-feira, às 14h45 (hora local), o presidente subserviente, à serviço dos Estados Unidos, Ashraf Ghani, assinou a sua carta de renúncia. A imprensa noticiou – desmentido, por certo pelo Ghani – que ele fugiu levando consigo quase 170 milhões de dólares.
Esse traidor do povo afegão, tem sua formação toda ela na esfera da órbita estadunidense. Sua graduação é na Universidade Americana de Beirute (que conheci pessoalmente). Seu doutorado foi na Universidade de Colúmbia. Serviu ao Banco Mundial.
Como as notícias nos chegam mais lentamente, foi anunciado a formação de um governo de transição. Nesta terça, dia 24 de agosto, foi formado um Conselho de Governo, composto de 12 pessoas. Alguns nomes têm sido veiculados pela imprensa, entre eles o conselho incluirá um dos fundadores do movimento, Mullah Mohammad Yaqoob, filho do fundador do Talibã, Mullah Mohammad Omar, bem como Khalil Haqqani.
Os Talibãs, aparentemente, tentam mostrar que não são os mesmos que governaram naquele período mais obscuro há 25 anos. Eles cercaram Cabul e estão autorizando que as pessoas saiam tranquilamente. O intento deles – e eles conseguiram – era o de tomar a capital sem violência. Estão dizendo que não vão punir nenhum dos colaboradores. Falam em conceder anistia ampla, geral e irrestrita.
É preciso dizer que eles tinham na Capital, o que se chama de “células adormecidas”, ou seja, eram militantes Talibãs, que tinham em suas casas armas escondidas e que em determinado momento, foram às ruas e ajudaram na ocupação da cidade.
Esse novo governo em processo de constituição, que será de transição deve ser formado e deve ter no seu comando, ou como presidente ou como primeiro-ministro, Ali Ahmad Jalal, que já havia sido ministro do interior, num período de dois anos, depois da ocupação, por volta de 2003. É muito provável que esse nome tenha a simpatia e a concordância dos guerrilheiros.
É preciso registrar que na cidade de Doha, a capital do Qatar, estava havendo uma conferência de transição do poder, que já vinha em andamento, visto que já se sabia que o Talibã venceria esta batalha. É possível que as conversações tenham começado um mês antes da chegada dos guerrilheiros à Cabul.
Há um importante registro histórico que devemos fazer, de que os Estados Unidos jamais venceram guerra alguma, em qualquer país. Eles perderam todas. Só ganharam a Segunda Guerra, porque os comunistas do Exército Vermelho estavam juntos. Não fosse isso, eles perderiam. Mas, os livros de história dizem que eles é que ganharam a guerra.
O Talibã
Segundo o experiente jornalista brasileiro Pepe Escobar, da Asia Times, que só escreve em inglês – ele está fora do país há mais de 40 anos – temos que considerar o grupo Talibã um grupo de guerrilha camponesa, semelhante a que existiu no Vietnã.
Segundo Pepe Escobar – e diversos outros autores que li – os Talibãs atuais não guardam quase nenhuma semelhança aos seus fundadores em 1994 – há 27 anos – bem como o perfil do grupo à época de 2001. Eles estariam mais tarimbados não só na luta, mas na política e na diplomacia internacional (5).
O porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid, que chegou a ser preso e torturado na base de Guantánamo, em Cuba, que pertence aos EUA, vem dando coletivas de imprensa quase todos os dias. Em uma dessas, ele anunciou um conjunto de propostas, projetos, proposições e ideias, onde expressou para toda a imprensa internacional sediada em Cabul, que encaramos como uma espécie de programa do grupo.
Publico a seguir – de forma resumida – os principais extratos do programa dos Talibãs para o país (6):
1. As mulheres poderão ser educadas até o nível universitário; bem como poderão trabalhar;
2. Serão pedidos às mulheres que usem o hijab, véu muçulmano que cobra apenas os cabelos), e não serão obrigadas a usar a burca;
3. Eles asseguram que não ameaçam ninguém e não alimentarão inimizades contra ninguém;
4. O Talibã anunciou um perdão geral;
5. O Talibã orgulha-se de ser a força que libertou o Afeganistão da ocupação por forças estrangeiras, depois de 20 anos de luta;
6. A segurança das embaixadas estrangeiras e de organizações internacionais humanitárias da ONU é prioridade para os Talibãs. Forças especiais dos Talibãs garantirão proteção em solo para os que estão deixando o Afeganistão e para quem opte por ficar no país;
7. Será constituído um governo islâmico forte e inclusivo no Afeganistão;
8. Os Talibãs não atacarão cidadãos norte-americanos no aeroporto de Cabul. Nenhum cidadão norte-americano ou de outras nacionalidades serão agredidos;
9. A mídia estrangeira poderá continuar a trabalhar no Afeganistão, sem nenhuma restrição. Jornalistas poderão criticar o governo dos Talibãs e divulgar detalhes do próprio trabalho;
10. Funcionários públicos devem continuar a trabalhar normalmente para benefício do Estado e da sociedade. A anistia geral aplica-se também a eles;
11. Os Talibãs não perseguirão tradutores afegãos que trabalharam com o regime de ocupação, não sofrerão retaliações e não precisam deixar o Afeganistão;
12. Os Talibãs garantem que o território do Afeganistão não será usado para atacar outros países;
13. Todo o pessoal militar afegão que trabalhou diretamente com a ocupação das forças também receberá anistia;
14. Os Talibãs querem o reconhecimento da comunidade internacional e não ameaçam outros países;
15. Os Talibãs são avalistas da segurança do povo de Cabul e impedirão saques, roubos, assaltos e todos os outros crimes;
16. Os Talibãs não foram movidos pelo espírito de vingança, mas que não tiveram escolha, naquelas circunstâncias de guerra. Agora, são outros tempos, e a abordagem será diferente;
17. Os Talibãs prometem que, muito rapidamente o Afeganistão será transformado, visando uma vida melhor ao seu povo. Uma série de medidas serão tomadas para melhorar a economia do país, com a ajuda de países amigos;
18. Os Talibãs mantêm boas relações com Paquistão, Rússia e China, mas não fazem parte de nenhum bloco político-militar;
19. Do ponto de vista dos Talibãs, a guerra afegã está oficialmente acabada. Os Talibãs querem que os dias de guerra fiquem no passado, e o Afeganistão não é mais campo de batalha entre afegãos e potências estrangeiras;
20. Os Talibãs comprometem-se a garantir que o governo afegão seja aberto ao povo e pretendem incluir representantes de diferentes grupos no futuro governo;
21. Os Talibãs não permitirão que o Afeganistão se converta em paraíso seguro para terroristas internacionais (alusão clara ao ISIS/DAESH/EI).
Uma primeira leitura dessa plataforma – propositalmente, suprimi tópicos menos vitais para efeitos de economia de espaço – vê-se que são intenção e planos de governo de um grupo político amadurecido por mais de 20 anos de combates e de resistência, de armas em punho.
Não se vê nessa plataforma rancor, ódio, intensão de perseguição. Claro que precisamos dar tempo para que eles se assenhorem do país, formem seu governo da forma mais ampla possível e passem a reconstrução do país com apoio de muitos países interessados, em especial China, Rússia e Irã.
A título de informação há uma declaração importante que é a da porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, que disse: “as forças em confronto no Afeganistão, ambos tiveram apoio dos Estados Unidos, o mundo observa com horror os resultados de outro experimento histórico dos Estados Unidos”. O experimento histórico a que ela se refere, é a guerra de agressão, mais uma que o mundo presencia, o horror da guerra e um desfecho desfavorável para os Estados Unidos (também aqui a declaração foi obtida de vídeo público no YouTube, no canal RT, em espanhol).
É preciso dizer que morreram no Afeganistão em torno de 2.500 estadunidenses, 450 britânicos, 160 canadenses e 90 franceses, em torno de quatro mil soldados, de várias nacionalidades. Assim como só nos Estados Unidos, houve 20 mil feridos e, esses feridos, causam “despesas” para o tesouro do Estado, para o resto da vida, porque eles são mutilados, eles precisam de pensão, eles precisam de fisioterapia, de acompanhamento etc. Então, são 20 mil feridos de guerra. Calcula-se que 60 mil das forças afegãs morreram, outros 60 mil Talibãs e 120 mil civis.
É preciso dizer que a tal modernidade das forças de segurança do Afeganistão foram feitas pelos Estados Unidos e transferiram para eles mais de 100 aeronaves, algumas delas tucanos, fabricados pela Embraer, que eles consideram o melhor avião para combates curtos e rápidos.
Transferiram centenas de blindados. Ou seja, o Talibã chega ao poder e tem um armamento, blindados e aeronaves modernas à sua disposição. Assim, é possível entender o poder de fogo que esses “estudantes”, guerrilheiros mujahidin vão adquirir.
Aqui é fundamental desmontarmos a farsa dos tais “300 mil homens treinados e bem armados pelos EUA e pela OTAN”. Isso é a maior obra de ficção da história de uma guerra. Jamais existiram de fato um contingente dessa magnitude. Como não há “folha de pagamento regular e de forma eletrônica”, em função da guerra, milhares desses “soldados” eram pagos em dinheiro vivo, através de malas de dinheiro vivo e em dólares, feitos pelos comandantes regionais.
Por exemplo: se um soldado fosse contratado para receber mil dólares por mês de “trabalho”. Um “comandante” regional tinha, digamos 15 mil “soldados”. Este “comandante” receberia mensalmente uma “mala” com 15 milhões de dólares. Parte disso era, de fato, pago aos “soldados”. A outra parte, a maior delas, ficava com esse “comandante”. Muita gente enriqueceu com essa guerra de ocupação.
Dizer que o grupo Talibã ainda não inspira confiança sobre o novo governo que eles vão estabelecer é falar sobre lugares comuns. De qualquer forma, é preciso demonstrar elevada compreensão política para comemorar a derrota dos Estados Unidos, sem enaltecer e já comemorar a vitória de um grupo que ainda busca legitimidade nacional e internacional. Essa é a nossa diferença de enfoque com outras correntes políticas, que mais atacam os Talibãs do que o imperialismo.
Assim, nós vemos a fraqueza tanto dos Estados Unidos quanto do próprio governo títere, a serviço deles. Os que estavam “governando” o país, avaliavam que a chegada do Talibã ainda demoraria três meses para tomar a capital, Cabul. E aí foram pegos completamente de surpresa e, por isso, muitos destes estão fugindo de Cabul.
Joe Biden deu uma coletiva no dia 16 de agosto, dizendo que o grande culpado dessa situação foi o seu antecessor, Donald Trump. Ele lembra este que se apresenta como “presidente” de nosso país, em que tudo que é problema no seu governo ele culpa o PT.
De fato, Donald Trump assinou um acordo de paz com os Talibãs, em 29 de fevereiro de 2020. É verdade que neste acordo a prioridade do cessar-fogo, a proibição do Talibã, era de agredir exclusivamente às forças de ocupação dos Estados Unidos e seus aliados, não necessariamente o pessoal, funcionários do governo. Ou seja, apenas os soldados das tropas de ocupação estariam protegidos pelo acordo.
O acordo não protegia as forças afegãs de segurança treinadas pelos próprios Estados Unidos. Portanto, a interpretação deste acordo de paz que Trump fez protegeu, de certa forma, as forças dos Estados Unidos e seus aliados, mas deixou todos os soldados afegãos por eles treinados, como alvo fácil e a mercê dos guerrilheiros mujahidin, dos talibãs. Então, Biden faz essa crítica ao seu antecessor.
A Rússia e a China já estão se colocando à disposição para ajudar. Sobre a República Popular da China, que faz fronteira com o Afeganistão, especialmente, na região da China, que os Estados Unidos criticam. Sem nenhum fundamento, eles dizem que na região de Xinjiang, onde existe a etnia Uigures, majoritariamente muçulmana, a China violaria os “direitos humanos”. Tudo isso sempre desmentido não só pela China, mas por observadores internacionais idôneos. A China tem a justa preocupação com a infiltração de muçulmanos, fundamentalistas sunitas naquela região.
Esperamos que isso não aconteça. A China está se colocando à disposição, em especial para a fase da reconstrução do país. A China tem interesse que o Afeganistão volte para as novas rotas da seda, como já foi no passado.
Eu acho que a China vai sair deste processo como uma grande mediadora de uma possível reconciliação nacional. Mas, o mais importante, os Estados Unidos saem de cena em toda a Ásia Central. Não poderia deixar de registrar o contato telefônico estabelecido pelos presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin, da China e Rússia, preocupados com o futuro do Afeganistão e acordaram em prestar toda a ajuda possível.
Eu já tinha feito uma análise anterior, afirmando que os Estados Unidos já estão saindo do Oriente Médio. É claro que não nessa dimensão que agora saem do Afeganistão, com o “rabo no meio das pernas”, mas estão saindo também do Iraque e da Síria, nestas condições, porque tanto o exército desses países quanto os guerrilheiros solidários, esses governos da Síria e do Iraque, fustigam diariamente o que restou das tropas dos Estados Unidos. Então, o objetivo é que os EUA deixem completamente todo o Oriente Médio e, na medida que eles vão deixando – como não há vácuo na política – a China e a Rússia estão ocupando seu espaço.
A seguir, da forma a mais didática possível, quero apresentar uma lista de nove questões muito importantes, onde irei procurar esclarecer os principais problemas e as principais dúvidas que vêm surgindo nos últimos dias referentes à tomada de poder política, por processo revolucionário dos Talibãs, no Afeganistão.
Segundo o experiente jornalista brasileiro Pepe Escobar, da Asia Times, que só escreve em inglês – ele está fora do país há mais de 40 anos – temos que considerar o grupo Talibã um grupo de guerrilha camponesa, semelhante a que existiu no Vietnã.
Segundo Pepe Escobar – e diversos outros autores que li – os Talibãs atuais não guardam quase nenhuma semelhança aos seus fundadores em 1994 – há 27 anos – bem como o perfil do grupo à época de 2001. Eles estariam mais tarimbados não só na luta, mas na política e na diplomacia internacional (5).
O porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid, que chegou a ser preso e torturado na base de Guantánamo, em Cuba, que pertence aos EUA, vem dando coletivas de imprensa quase todos os dias. Em uma dessas, ele anunciou um conjunto de propostas, projetos, proposições e ideias, onde expressou para toda a imprensa internacional sediada em Cabul, que encaramos como uma espécie de programa do grupo.
Publico a seguir – de forma resumida – os principais extratos do programa dos Talibãs para o país (6):
1. As mulheres poderão ser educadas até o nível universitário; bem como poderão trabalhar;
2. Serão pedidos às mulheres que usem o hijab, véu muçulmano que cobra apenas os cabelos), e não serão obrigadas a usar a burca;
3. Eles asseguram que não ameaçam ninguém e não alimentarão inimizades contra ninguém;
4. O Talibã anunciou um perdão geral;
5. O Talibã orgulha-se de ser a força que libertou o Afeganistão da ocupação por forças estrangeiras, depois de 20 anos de luta;
6. A segurança das embaixadas estrangeiras e de organizações internacionais humanitárias da ONU é prioridade para os Talibãs. Forças especiais dos Talibãs garantirão proteção em solo para os que estão deixando o Afeganistão e para quem opte por ficar no país;
7. Será constituído um governo islâmico forte e inclusivo no Afeganistão;
8. Os Talibãs não atacarão cidadãos norte-americanos no aeroporto de Cabul. Nenhum cidadão norte-americano ou de outras nacionalidades serão agredidos;
9. A mídia estrangeira poderá continuar a trabalhar no Afeganistão, sem nenhuma restrição. Jornalistas poderão criticar o governo dos Talibãs e divulgar detalhes do próprio trabalho;
10. Funcionários públicos devem continuar a trabalhar normalmente para benefício do Estado e da sociedade. A anistia geral aplica-se também a eles;
11. Os Talibãs não perseguirão tradutores afegãos que trabalharam com o regime de ocupação, não sofrerão retaliações e não precisam deixar o Afeganistão;
12. Os Talibãs garantem que o território do Afeganistão não será usado para atacar outros países;
13. Todo o pessoal militar afegão que trabalhou diretamente com a ocupação das forças também receberá anistia;
14. Os Talibãs querem o reconhecimento da comunidade internacional e não ameaçam outros países;
15. Os Talibãs são avalistas da segurança do povo de Cabul e impedirão saques, roubos, assaltos e todos os outros crimes;
16. Os Talibãs não foram movidos pelo espírito de vingança, mas que não tiveram escolha, naquelas circunstâncias de guerra. Agora, são outros tempos, e a abordagem será diferente;
17. Os Talibãs prometem que, muito rapidamente o Afeganistão será transformado, visando uma vida melhor ao seu povo. Uma série de medidas serão tomadas para melhorar a economia do país, com a ajuda de países amigos;
18. Os Talibãs mantêm boas relações com Paquistão, Rússia e China, mas não fazem parte de nenhum bloco político-militar;
19. Do ponto de vista dos Talibãs, a guerra afegã está oficialmente acabada. Os Talibãs querem que os dias de guerra fiquem no passado, e o Afeganistão não é mais campo de batalha entre afegãos e potências estrangeiras;
20. Os Talibãs comprometem-se a garantir que o governo afegão seja aberto ao povo e pretendem incluir representantes de diferentes grupos no futuro governo;
21. Os Talibãs não permitirão que o Afeganistão se converta em paraíso seguro para terroristas internacionais (alusão clara ao ISIS/DAESH/EI).
Uma primeira leitura dessa plataforma – propositalmente, suprimi tópicos menos vitais para efeitos de economia de espaço – vê-se que são intenção e planos de governo de um grupo político amadurecido por mais de 20 anos de combates e de resistência, de armas em punho.
Não se vê nessa plataforma rancor, ódio, intensão de perseguição. Claro que precisamos dar tempo para que eles se assenhorem do país, formem seu governo da forma mais ampla possível e passem a reconstrução do país com apoio de muitos países interessados, em especial China, Rússia e Irã.
A título de informação há uma declaração importante que é a da porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, que disse: “as forças em confronto no Afeganistão, ambos tiveram apoio dos Estados Unidos, o mundo observa com horror os resultados de outro experimento histórico dos Estados Unidos”. O experimento histórico a que ela se refere, é a guerra de agressão, mais uma que o mundo presencia, o horror da guerra e um desfecho desfavorável para os Estados Unidos (também aqui a declaração foi obtida de vídeo público no YouTube, no canal RT, em espanhol).
É preciso dizer que morreram no Afeganistão em torno de 2.500 estadunidenses, 450 britânicos, 160 canadenses e 90 franceses, em torno de quatro mil soldados, de várias nacionalidades. Assim como só nos Estados Unidos, houve 20 mil feridos e, esses feridos, causam “despesas” para o tesouro do Estado, para o resto da vida, porque eles são mutilados, eles precisam de pensão, eles precisam de fisioterapia, de acompanhamento etc. Então, são 20 mil feridos de guerra. Calcula-se que 60 mil das forças afegãs morreram, outros 60 mil Talibãs e 120 mil civis.
É preciso dizer que a tal modernidade das forças de segurança do Afeganistão foram feitas pelos Estados Unidos e transferiram para eles mais de 100 aeronaves, algumas delas tucanos, fabricados pela Embraer, que eles consideram o melhor avião para combates curtos e rápidos.
Transferiram centenas de blindados. Ou seja, o Talibã chega ao poder e tem um armamento, blindados e aeronaves modernas à sua disposição. Assim, é possível entender o poder de fogo que esses “estudantes”, guerrilheiros mujahidin vão adquirir.
Aqui é fundamental desmontarmos a farsa dos tais “300 mil homens treinados e bem armados pelos EUA e pela OTAN”. Isso é a maior obra de ficção da história de uma guerra. Jamais existiram de fato um contingente dessa magnitude. Como não há “folha de pagamento regular e de forma eletrônica”, em função da guerra, milhares desses “soldados” eram pagos em dinheiro vivo, através de malas de dinheiro vivo e em dólares, feitos pelos comandantes regionais.
Por exemplo: se um soldado fosse contratado para receber mil dólares por mês de “trabalho”. Um “comandante” regional tinha, digamos 15 mil “soldados”. Este “comandante” receberia mensalmente uma “mala” com 15 milhões de dólares. Parte disso era, de fato, pago aos “soldados”. A outra parte, a maior delas, ficava com esse “comandante”. Muita gente enriqueceu com essa guerra de ocupação.
Dizer que o grupo Talibã ainda não inspira confiança sobre o novo governo que eles vão estabelecer é falar sobre lugares comuns. De qualquer forma, é preciso demonstrar elevada compreensão política para comemorar a derrota dos Estados Unidos, sem enaltecer e já comemorar a vitória de um grupo que ainda busca legitimidade nacional e internacional. Essa é a nossa diferença de enfoque com outras correntes políticas, que mais atacam os Talibãs do que o imperialismo.
Assim, nós vemos a fraqueza tanto dos Estados Unidos quanto do próprio governo títere, a serviço deles. Os que estavam “governando” o país, avaliavam que a chegada do Talibã ainda demoraria três meses para tomar a capital, Cabul. E aí foram pegos completamente de surpresa e, por isso, muitos destes estão fugindo de Cabul.
Joe Biden deu uma coletiva no dia 16 de agosto, dizendo que o grande culpado dessa situação foi o seu antecessor, Donald Trump. Ele lembra este que se apresenta como “presidente” de nosso país, em que tudo que é problema no seu governo ele culpa o PT.
De fato, Donald Trump assinou um acordo de paz com os Talibãs, em 29 de fevereiro de 2020. É verdade que neste acordo a prioridade do cessar-fogo, a proibição do Talibã, era de agredir exclusivamente às forças de ocupação dos Estados Unidos e seus aliados, não necessariamente o pessoal, funcionários do governo. Ou seja, apenas os soldados das tropas de ocupação estariam protegidos pelo acordo.
O acordo não protegia as forças afegãs de segurança treinadas pelos próprios Estados Unidos. Portanto, a interpretação deste acordo de paz que Trump fez protegeu, de certa forma, as forças dos Estados Unidos e seus aliados, mas deixou todos os soldados afegãos por eles treinados, como alvo fácil e a mercê dos guerrilheiros mujahidin, dos talibãs. Então, Biden faz essa crítica ao seu antecessor.
A Rússia e a China já estão se colocando à disposição para ajudar. Sobre a República Popular da China, que faz fronteira com o Afeganistão, especialmente, na região da China, que os Estados Unidos criticam. Sem nenhum fundamento, eles dizem que na região de Xinjiang, onde existe a etnia Uigures, majoritariamente muçulmana, a China violaria os “direitos humanos”. Tudo isso sempre desmentido não só pela China, mas por observadores internacionais idôneos. A China tem a justa preocupação com a infiltração de muçulmanos, fundamentalistas sunitas naquela região.
Esperamos que isso não aconteça. A China está se colocando à disposição, em especial para a fase da reconstrução do país. A China tem interesse que o Afeganistão volte para as novas rotas da seda, como já foi no passado.
Eu acho que a China vai sair deste processo como uma grande mediadora de uma possível reconciliação nacional. Mas, o mais importante, os Estados Unidos saem de cena em toda a Ásia Central. Não poderia deixar de registrar o contato telefônico estabelecido pelos presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin, da China e Rússia, preocupados com o futuro do Afeganistão e acordaram em prestar toda a ajuda possível.
Eu já tinha feito uma análise anterior, afirmando que os Estados Unidos já estão saindo do Oriente Médio. É claro que não nessa dimensão que agora saem do Afeganistão, com o “rabo no meio das pernas”, mas estão saindo também do Iraque e da Síria, nestas condições, porque tanto o exército desses países quanto os guerrilheiros solidários, esses governos da Síria e do Iraque, fustigam diariamente o que restou das tropas dos Estados Unidos. Então, o objetivo é que os EUA deixem completamente todo o Oriente Médio e, na medida que eles vão deixando – como não há vácuo na política – a China e a Rússia estão ocupando seu espaço.
A seguir, da forma a mais didática possível, quero apresentar uma lista de nove questões muito importantes, onde irei procurar esclarecer os principais problemas e as principais dúvidas que vêm surgindo nos últimos dias referentes à tomada de poder política, por processo revolucionário dos Talibãs, no Afeganistão.
1. Talibã x CIA
Aqui voltamos a reafirmar que o Talibã não foi criado pela CIA. É fato que a agência patrocinou, armou e treinou 90 mil afegãos e gente de fora do país, que foram para lá, os muçulmanos chamados mujahidin (guerrilheiros) e jihadistas de vários países, que lutavam contra um governo, que era apoiado pela União Soviética. Um governo de orientação socialista que havia feito uma revolução bastante avançada, no ano de 1978 e, acossado pela oposição e pediram ajuda solidária da URSS, que mandou tropas e acabou ocupando o país por 10 anos.
Esses guerrilheiros muçulmanos fizeram, claramente, o jogo dos Estados Unidos, que interessava em financiá-los, para enfraquecer e derrotar a União Soviética. Esta é uma das provas, entre tantas outras, que em política internacional não há sentimentos, há jogo de interesses. Acabaram por destruir um país progressista e com uma sociedade avançada (7).
Desta forma, os EUA aliam-se a fundamentalistas religiosos que, futuramente, virariam terroristas da organização Al-Qaeda, porque naquele momento os interesses eram coincidentes. Eles, inclusive, foram recebidos pelo presidente fascista, de extrema-direita, Ronald Reagan na Casa Branca, o que foi fartamente documentado. O Talibã, por sua vez, é um grupo guerrilheiro independentista e que luta pela soberania nacional do seu país, o Afeganistão.
Não há dúvidas de que esses guerrilheiros foram financiados. Mas, eles não são o Talibã, que surge cinco anos depois que a União Soviética deixou o Afeganistão, em 1994. Inclusive, surgem no Paquistão. Por certo, alguns dos que foram armados e treinados pela CIA, devem ter participado da fundação do Talibã, em 1994. Mas, não há uma conexão entre as duas coisas. Os que fazem essa associação – seja por ingenuidade ou proposital – cometem uma grande injustiça.
Aqui voltamos a reafirmar que o Talibã não foi criado pela CIA. É fato que a agência patrocinou, armou e treinou 90 mil afegãos e gente de fora do país, que foram para lá, os muçulmanos chamados mujahidin (guerrilheiros) e jihadistas de vários países, que lutavam contra um governo, que era apoiado pela União Soviética. Um governo de orientação socialista que havia feito uma revolução bastante avançada, no ano de 1978 e, acossado pela oposição e pediram ajuda solidária da URSS, que mandou tropas e acabou ocupando o país por 10 anos.
Esses guerrilheiros muçulmanos fizeram, claramente, o jogo dos Estados Unidos, que interessava em financiá-los, para enfraquecer e derrotar a União Soviética. Esta é uma das provas, entre tantas outras, que em política internacional não há sentimentos, há jogo de interesses. Acabaram por destruir um país progressista e com uma sociedade avançada (7).
Desta forma, os EUA aliam-se a fundamentalistas religiosos que, futuramente, virariam terroristas da organização Al-Qaeda, porque naquele momento os interesses eram coincidentes. Eles, inclusive, foram recebidos pelo presidente fascista, de extrema-direita, Ronald Reagan na Casa Branca, o que foi fartamente documentado. O Talibã, por sua vez, é um grupo guerrilheiro independentista e que luta pela soberania nacional do seu país, o Afeganistão.
Não há dúvidas de que esses guerrilheiros foram financiados. Mas, eles não são o Talibã, que surge cinco anos depois que a União Soviética deixou o Afeganistão, em 1994. Inclusive, surgem no Paquistão. Por certo, alguns dos que foram armados e treinados pela CIA, devem ter participado da fundação do Talibã, em 1994. Mas, não há uma conexão entre as duas coisas. Os que fazem essa associação – seja por ingenuidade ou proposital – cometem uma grande injustiça.
2. Al-Qaeda é terrorista
A Al-Qaeda, sim, de fato, viraria uma organização terrorista, ela que foi fundada em 1988, um ano antes da URSS deixar o Afeganistão. Posteriormente, em 11 de setembro de 2001, ela será responsabilidade – ainda que isso tenha controvérsia – de ser os operadores dos ataques cinematográficos às torres gêmeas em Nova York.
Segundo o camarada Joseph Stálin, em um dos seus vários desenvolvimentos teóricos sobre a questão nacional, ele tem uma bela passagem, que é quando ele fala, inclusive da luta do Emir do Afeganistão contra o imperialismo inglês que almejava, evidentemente, tomar conta daquele país. Diz Stálin: “(...) A luta do emir do Afeganistão pela independência de seu país é, objetivamente, uma luta revolucionária, apesar das ideias monárquicas do emir e dos seus adeptos, porque essa luta enfraquece, decompõe e mina o imperialismo” (8).
É isto que temos que entender. Temos que comemorar efusivamente a derrota dos Estados Unidos e reconhecer o caráter da luta travada como revolucionária e anti-imperialista, independente de quem é que ganhou essa batalha. Ou seja, o caráter da revolução ocorrida no Afeganistão é, objetivamente, revolucionária, pois visa a soberania e independência nacional, a expulsão da potência estrangeira ocupante.
Quero aproveitar este momento de meu estudo para relembrar que o pensamento marxista diz que o que dá o caráter e o conteúdo de um determinado estado nacional é a classe que domina o seu aparelho. No entanto, marxistas posteriores ao próprio Marx e Lênin, dizem que também as propostas e planos de governo, projetos nacionais devem ser levados em conta. Assim, tendo em vista o belo programa de governo apresentado acima, fica para meus e minhas leitores/leitoras uma avaliação do caráter real do grupo que venceu uma revolução popular no pobre Afeganistão.
Por fim, é preciso lembrar que não podemos achar que fazer revoluções anti-imperialistas é uma exclusividade da esquerda marxista. Esse é um erro crasso que grande parte da esquerda brasileira comete neste momento ao tecer suas “análises” sobre os acontecimentos no Afeganistão. O fato de os Talibãs não serem de esquerda, não tira de seu movimento o caráter revolucionário.
Nunca é demais lembrar que Augusto César Sandino, que lutou contra o imperialismo, bem como Farabundo Marti em El Salvador e mesmo Fidel Castro em 1959, em Cuba, nenhum deles jamais foi comunista e fizeram grandes e importantes lutas anti-imperialistas (Fidel torna-se comunista uns anos depois da Revolução).
A Al-Qaeda, sim, de fato, viraria uma organização terrorista, ela que foi fundada em 1988, um ano antes da URSS deixar o Afeganistão. Posteriormente, em 11 de setembro de 2001, ela será responsabilidade – ainda que isso tenha controvérsia – de ser os operadores dos ataques cinematográficos às torres gêmeas em Nova York.
Segundo o camarada Joseph Stálin, em um dos seus vários desenvolvimentos teóricos sobre a questão nacional, ele tem uma bela passagem, que é quando ele fala, inclusive da luta do Emir do Afeganistão contra o imperialismo inglês que almejava, evidentemente, tomar conta daquele país. Diz Stálin: “(...) A luta do emir do Afeganistão pela independência de seu país é, objetivamente, uma luta revolucionária, apesar das ideias monárquicas do emir e dos seus adeptos, porque essa luta enfraquece, decompõe e mina o imperialismo” (8).
É isto que temos que entender. Temos que comemorar efusivamente a derrota dos Estados Unidos e reconhecer o caráter da luta travada como revolucionária e anti-imperialista, independente de quem é que ganhou essa batalha. Ou seja, o caráter da revolução ocorrida no Afeganistão é, objetivamente, revolucionária, pois visa a soberania e independência nacional, a expulsão da potência estrangeira ocupante.
Quero aproveitar este momento de meu estudo para relembrar que o pensamento marxista diz que o que dá o caráter e o conteúdo de um determinado estado nacional é a classe que domina o seu aparelho. No entanto, marxistas posteriores ao próprio Marx e Lênin, dizem que também as propostas e planos de governo, projetos nacionais devem ser levados em conta. Assim, tendo em vista o belo programa de governo apresentado acima, fica para meus e minhas leitores/leitoras uma avaliação do caráter real do grupo que venceu uma revolução popular no pobre Afeganistão.
Por fim, é preciso lembrar que não podemos achar que fazer revoluções anti-imperialistas é uma exclusividade da esquerda marxista. Esse é um erro crasso que grande parte da esquerda brasileira comete neste momento ao tecer suas “análises” sobre os acontecimentos no Afeganistão. O fato de os Talibãs não serem de esquerda, não tira de seu movimento o caráter revolucionário.
Nunca é demais lembrar que Augusto César Sandino, que lutou contra o imperialismo, bem como Farabundo Marti em El Salvador e mesmo Fidel Castro em 1959, em Cuba, nenhum deles jamais foi comunista e fizeram grandes e importantes lutas anti-imperialistas (Fidel torna-se comunista uns anos depois da Revolução).
3. Talibã e o Irã, China e Rússia
O Talibã nada fará para articular contra os governos do Irã, da China e da Rússia e, nesta ordem, acho que eles serão reconhecidos como governo em primeiro lugar por esses países, que têm todo interesse em manter um governo estável, com caráter anti-imperialista na Ásia Central.
Eu tenho dito que a derrota dos EUA não é só no Afeganistão, mas em toda a Ásia Central. Os Estados Unidos saem da Ásia, o único ponto que eles ainda estavam e que é cercado por cinco países majoritariamente muçulmanos e pela República Popular da China.
Por exemplo, se um dia os EUA agredissem o Irã, país que faz fronteira com o Afeganistão, teriam a facilidade de usar a base militar que eles mesmo criaram chamada de Bagram e que é uma das mais modernas e maiores do mundo.
Quando Israel faz a bravata que atacará o Irã, além de não ser simples isso tecnicamente falando, em função da autonomia dos seus caças para bombardearem Teerã e voltarem para Tel Aviv, se um dia de fato essa agressão ocorresse, a melhor forma e mais próximo seria pela fronteira do Afeganistão. Felizmente, isso, jamais ocorrerá agora.
O Talibã nada fará para articular contra os governos do Irã, da China e da Rússia e, nesta ordem, acho que eles serão reconhecidos como governo em primeiro lugar por esses países, que têm todo interesse em manter um governo estável, com caráter anti-imperialista na Ásia Central.
Eu tenho dito que a derrota dos EUA não é só no Afeganistão, mas em toda a Ásia Central. Os Estados Unidos saem da Ásia, o único ponto que eles ainda estavam e que é cercado por cinco países majoritariamente muçulmanos e pela República Popular da China.
Por exemplo, se um dia os EUA agredissem o Irã, país que faz fronteira com o Afeganistão, teriam a facilidade de usar a base militar que eles mesmo criaram chamada de Bagram e que é uma das mais modernas e maiores do mundo.
Quando Israel faz a bravata que atacará o Irã, além de não ser simples isso tecnicamente falando, em função da autonomia dos seus caças para bombardearem Teerã e voltarem para Tel Aviv, se um dia de fato essa agressão ocorresse, a melhor forma e mais próximo seria pela fronteira do Afeganistão. Felizmente, isso, jamais ocorrerá agora.
4. O “novo” Talibã
O Talibã de hoje quase nada tem a ver com aquele que governou o Afeganistão por cinco anos, de 1996 até 2001. São vários os fatores que nos permitem afirmar isto, além da plataforma que publicamos acima. Os Talibãs já estão protegendo todas as embaixadas em Cabul. Eles conclamam a população a voltar ao trabalho; conclamam aos industriais e aos comerciantes para não fecharem as portas, porque a normalidade será restabelecida.
De maneira alguma estou de acordo com comparações que alguns memes estão circulando, afirmando que os Talibãs são iguais aos grupos milicianos bolsonaristas. Os milicianos do Brasil, apoiadores de um governo fascista, são entreguistas e não defendem a soberania nacional.
Temos que ter cautela e aguardar, antes de criticar e atacar alguém que, neste momento, está combatendo o imperialismo. A batalha não está vencida. Forças dos EUA junto com o vice-presidente daquele que fugiu, Amru llah Saleh, já está articulando a volta da resistência para, evidentemente, derrotar o grupo Talibã e voltar ao poder, a serviço dos EUA. Ele já se apresentou como “presidente legítimo” (sic).
A dimensão da derrota dos Estados Unidos só se compara com a derrota que eles tiveram depois de 12 anos de guerra com o Vietnã. Mas esta aqui é muito maior, como já dissemos. A imagem da fuga da embaixada com helicópteros, ela se repete exatamente agora, quando os Estados Unidos saem do Afeganistão, não por decisão própria, não por uma questão planejada.
Os EUA saem fugidos, escorraçados e derrotados. A cena do aeroporto de Cabul com as pessoas tentando entrar no avião para fugir do país e que caíram na pista (três morreram e não se sabe quantos mais que apareceram com seus corpos mutilados no trem de pouso da aeronave cargueiro). Trata-se então, de uma derrota regional, da Ásia Central.
O Talibã de hoje quase nada tem a ver com aquele que governou o Afeganistão por cinco anos, de 1996 até 2001. São vários os fatores que nos permitem afirmar isto, além da plataforma que publicamos acima. Os Talibãs já estão protegendo todas as embaixadas em Cabul. Eles conclamam a população a voltar ao trabalho; conclamam aos industriais e aos comerciantes para não fecharem as portas, porque a normalidade será restabelecida.
De maneira alguma estou de acordo com comparações que alguns memes estão circulando, afirmando que os Talibãs são iguais aos grupos milicianos bolsonaristas. Os milicianos do Brasil, apoiadores de um governo fascista, são entreguistas e não defendem a soberania nacional.
Temos que ter cautela e aguardar, antes de criticar e atacar alguém que, neste momento, está combatendo o imperialismo. A batalha não está vencida. Forças dos EUA junto com o vice-presidente daquele que fugiu, Amru llah Saleh, já está articulando a volta da resistência para, evidentemente, derrotar o grupo Talibã e voltar ao poder, a serviço dos EUA. Ele já se apresentou como “presidente legítimo” (sic).
A dimensão da derrota dos Estados Unidos só se compara com a derrota que eles tiveram depois de 12 anos de guerra com o Vietnã. Mas esta aqui é muito maior, como já dissemos. A imagem da fuga da embaixada com helicópteros, ela se repete exatamente agora, quando os Estados Unidos saem do Afeganistão, não por decisão própria, não por uma questão planejada.
Os EUA saem fugidos, escorraçados e derrotados. A cena do aeroporto de Cabul com as pessoas tentando entrar no avião para fugir do país e que caíram na pista (três morreram e não se sabe quantos mais que apareceram com seus corpos mutilados no trem de pouso da aeronave cargueiro). Trata-se então, de uma derrota regional, da Ásia Central.
5. Vitória da luta independentista
É preciso dizer que houve a vitória de uma concepção de luta independentista pela soberania nacional e nós precisamos entender isto. Foi uma vitória do povo. Nenhum grupo resiste 20 anos ao maior, mais poderoso e melhor armado exército do mundo, que são os do Estados Unidos, sem o apoio do povo.
Eles perderam para o povo que tem muita simpatia, tal qual o Hezbollah tem pelo povo do Líbano, porque sabe que, independentemente da questão política, é o Hezbollah que resiste à invasão do Líbano pelos sionistas de Israel.
O tal “presidente” Ashraf Ghani não era um presidente legítimo, mas sim um títere, um testa-de-ferro dos Estados Unidos. Isso é mais uma prova de que eles não se preocuparam em promover a democracia, criar partidos, eleger um parlamento. Todos os “presidentes” foram títeres da ocupação do imperialismo e nomeados pelos Estados Unidos e seus prepostos no Afeganistão.
Aqui um breve e pequeno registro sobre a bandeira do Afeganistão, de três cores. A bandeira do Talibã é branca com a inscrição em letras do tipo árabe onde se diz “Emirado Islâmico do Afeganistão”. Essa bandeira, pela qual alguns afegãos choram e dizem amá-la é, na verdade, a bandeira imposta pelo imperialismo ocupante do país desde 2001. De forma que não tem nenhum sentido a sua defesa. Muito provavelmente, mais adiante, a bandeira do país deverá vir a ser modificada, assim como os seus símbolos nacionais e o hino nacional afegão.
É preciso dizer que houve a vitória de uma concepção de luta independentista pela soberania nacional e nós precisamos entender isto. Foi uma vitória do povo. Nenhum grupo resiste 20 anos ao maior, mais poderoso e melhor armado exército do mundo, que são os do Estados Unidos, sem o apoio do povo.
Eles perderam para o povo que tem muita simpatia, tal qual o Hezbollah tem pelo povo do Líbano, porque sabe que, independentemente da questão política, é o Hezbollah que resiste à invasão do Líbano pelos sionistas de Israel.
O tal “presidente” Ashraf Ghani não era um presidente legítimo, mas sim um títere, um testa-de-ferro dos Estados Unidos. Isso é mais uma prova de que eles não se preocuparam em promover a democracia, criar partidos, eleger um parlamento. Todos os “presidentes” foram títeres da ocupação do imperialismo e nomeados pelos Estados Unidos e seus prepostos no Afeganistão.
Aqui um breve e pequeno registro sobre a bandeira do Afeganistão, de três cores. A bandeira do Talibã é branca com a inscrição em letras do tipo árabe onde se diz “Emirado Islâmico do Afeganistão”. Essa bandeira, pela qual alguns afegãos choram e dizem amá-la é, na verdade, a bandeira imposta pelo imperialismo ocupante do país desde 2001. De forma que não tem nenhum sentido a sua defesa. Muito provavelmente, mais adiante, a bandeira do país deverá vir a ser modificada, assim como os seus símbolos nacionais e o hino nacional afegão.
6. O imperialismo não é invencível
Uma outra característica clara é que mesmo para um exército pequeno e mal armado como o Talibã, cujas únicas armas são os fuzis Kalashnikov – chamada de AK-47, a vitória militar ficou muito claro. Isto quer dizer que foi um movimento guerrilheiro apoiado pelo próprio povo, nas suas próprias forças, como dizia Mao Zedong, vencerá.
Precisamos nos despir deste preconceito que a própria mídia tem colocado como ponto central, que são os direitos das mulheres. Enquanto os Estados Unidos nada fizeram nesses 20 anos por tais direitos que, inclusive, eles serão garantidos e restabelecidos, porque faz parte do programa de trabalho do Talibã.
Digo mais, não se pode contrapor a negatividade que uma vitória anti-imperialista, por uma suposição de que as mulheres não serão respeitadas. São duas coisas distintas que eu acho que parte da esquerda levanta, que diminui a real dimensão da derrota dos Estados Unidos. Não se pode contrapor uma questão com a outra.
Como venho dizendo, temos que ter cautela, aguardar. Não podemos afirmar que o Talibã irá, seguramente, desrespeitar as mulheres. Nunca é demais dizer que nenhum direito foi assegurado e garantido às mulheres e ao povo afegão em geral nos 20 anos de ocupação.
Ao contrário. Milhares de mulheres foram estupradas pelas tropas de ocupação. E, ademais, a burca, seguiu sendo usado por muitas mulheres, mostrando que isso é costume tribal local e nada tem a ver com preceitos religiosos islâmicos.
Uma outra característica clara é que mesmo para um exército pequeno e mal armado como o Talibã, cujas únicas armas são os fuzis Kalashnikov – chamada de AK-47, a vitória militar ficou muito claro. Isto quer dizer que foi um movimento guerrilheiro apoiado pelo próprio povo, nas suas próprias forças, como dizia Mao Zedong, vencerá.
Precisamos nos despir deste preconceito que a própria mídia tem colocado como ponto central, que são os direitos das mulheres. Enquanto os Estados Unidos nada fizeram nesses 20 anos por tais direitos que, inclusive, eles serão garantidos e restabelecidos, porque faz parte do programa de trabalho do Talibã.
Digo mais, não se pode contrapor a negatividade que uma vitória anti-imperialista, por uma suposição de que as mulheres não serão respeitadas. São duas coisas distintas que eu acho que parte da esquerda levanta, que diminui a real dimensão da derrota dos Estados Unidos. Não se pode contrapor uma questão com a outra.
Como venho dizendo, temos que ter cautela, aguardar. Não podemos afirmar que o Talibã irá, seguramente, desrespeitar as mulheres. Nunca é demais dizer que nenhum direito foi assegurado e garantido às mulheres e ao povo afegão em geral nos 20 anos de ocupação.
Ao contrário. Milhares de mulheres foram estupradas pelas tropas de ocupação. E, ademais, a burca, seguiu sendo usado por muitas mulheres, mostrando que isso é costume tribal local e nada tem a ver com preceitos religiosos islâmicos.
7. O novo presidente
O novo chefe do governo dever ser Abdul Ghani Baradar, que estava exilado em Doha, no Qatar. Ele, nas últimas três semanas, já estava participando de negociações para a transição, porque era irreversível o processo de conquista e tomada do poder. Os Estados Unidos sabiam disso e foi por isso que saíram correndo, porque a vitória era inevitável.
É preciso também registrar, que o Talibã proibiu o cultivo de papoula, que é a planta básica para fazer o ópio, no Afeganistão, no ano 2000, um ano antes de os Estados Unidos invadirem o país e voltou com muita força o cultivo da papoula e muitos ganharam bilhões de dólares após outubro de 2001. O tráfico internacional de drogas voltou com força, de forma que não é errado dizer que os Estados Unidos criaram um narco-Estado. Essa é a opinião de uma autora, do qual gostei muito, Marian Suzyli, jornalista e analista internacional que afirma (9).
O novo chefe do governo dever ser Abdul Ghani Baradar, que estava exilado em Doha, no Qatar. Ele, nas últimas três semanas, já estava participando de negociações para a transição, porque era irreversível o processo de conquista e tomada do poder. Os Estados Unidos sabiam disso e foi por isso que saíram correndo, porque a vitória era inevitável.
É preciso também registrar, que o Talibã proibiu o cultivo de papoula, que é a planta básica para fazer o ópio, no Afeganistão, no ano 2000, um ano antes de os Estados Unidos invadirem o país e voltou com muita força o cultivo da papoula e muitos ganharam bilhões de dólares após outubro de 2001. O tráfico internacional de drogas voltou com força, de forma que não é errado dizer que os Estados Unidos criaram um narco-Estado. Essa é a opinião de uma autora, do qual gostei muito, Marian Suzyli, jornalista e analista internacional que afirma (9).
8. Não tem nada a ver com o combate ao terrorismo
Esta invasão não teve nada a ver com o combate ao terrorismo, como sempre foi alardeado. Muito ao contrário. Foi exatamente a partir da invasão que o terrorismo se propagou para toda a região. Foi criada a Al-Qaeda.
Na Síria eles criaram a Frente Nusra, que é do conglomerado terrorista da Al-Qaeda, um grupo que combateu por oito anos contra o governo do dr. Bashar Al-Assad. Os terroristas perderam na Síria. Vão perder na Líbia, apesar de eles terem destruído e dividido o país, que vive num caos.
Por onde os Estados Unidos passaram no Oriente Médio e na Ásia Central, no caso do Afeganistão, deixaram um rastro de morte, humilhação, destruição, tráfico de drogas. Além da Al-Qaeda, tem o Estado Islâmico (que alguns conhecem pela sigla ISIS ou em árabe DAESH). Eles não são e nunca foram nem Estado e nem um grupo islâmico. Este é um grupo terrorista apoiado pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos.
Esta invasão não teve nada a ver com o combate ao terrorismo, como sempre foi alardeado. Muito ao contrário. Foi exatamente a partir da invasão que o terrorismo se propagou para toda a região. Foi criada a Al-Qaeda.
Na Síria eles criaram a Frente Nusra, que é do conglomerado terrorista da Al-Qaeda, um grupo que combateu por oito anos contra o governo do dr. Bashar Al-Assad. Os terroristas perderam na Síria. Vão perder na Líbia, apesar de eles terem destruído e dividido o país, que vive num caos.
Por onde os Estados Unidos passaram no Oriente Médio e na Ásia Central, no caso do Afeganistão, deixaram um rastro de morte, humilhação, destruição, tráfico de drogas. Além da Al-Qaeda, tem o Estado Islâmico (que alguns conhecem pela sigla ISIS ou em árabe DAESH). Eles não são e nunca foram nem Estado e nem um grupo islâmico. Este é um grupo terrorista apoiado pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos.
9. Governo Pragmático
O Talibã fará um governo pragmático. Terão a participação de vários grupos políticos, portanto, não serão hegemônicos. Não farão nada do que fizeram antes. Aliás, esta é uma expectativa de todos os estudiosos de política internacional do mundo. Eu não vi nenhum artigo, dizendo que o Talibã vai oprimir, vai amordaçar as mulheres e retirar seus direitos. E se vier a fazer isso, ficará isolado do mundo inteiro.
Eu acho difícil hoje eles adotarem essa prática. Eles vão querer ter relações diplomáticas com o mundo inteiro. Eles já pediram para que os corpos diplomáticos não saiam de Cabul e estão protegendo todas as embaixadas. Até os Estados Unidos, provavelmente, reconhecerão o governo dos Talibãs.
O Talibã fará um governo pragmático. Terão a participação de vários grupos políticos, portanto, não serão hegemônicos. Não farão nada do que fizeram antes. Aliás, esta é uma expectativa de todos os estudiosos de política internacional do mundo. Eu não vi nenhum artigo, dizendo que o Talibã vai oprimir, vai amordaçar as mulheres e retirar seus direitos. E se vier a fazer isso, ficará isolado do mundo inteiro.
Eu acho difícil hoje eles adotarem essa prática. Eles vão querer ter relações diplomáticas com o mundo inteiro. Eles já pediram para que os corpos diplomáticos não saiam de Cabul e estão protegendo todas as embaixadas. Até os Estados Unidos, provavelmente, reconhecerão o governo dos Talibãs.
A violação dos direitos humanos nos 20 anos de ocupação (10)
Em 20 anos de ocupação no Afeganistão muitas barbaridades e violações dos direitos humanos básicos contra o povo afegão foram cometidas pelas tropas de ocupação. Milhares de mulheres afegãs foram estupradas pelos soldados. Mas, uma série de opiniões e notícias têm vindo a público e as reproduzo a seguir.
A China declarou que os EUA, Austrália e a Inglaterra devem prestar contas pelas violações dos direitos humanos cometidas pelas tropas de ocupação. Um relatório investigativo feito pela Austrália, entre 2009 e 2013, sobre seus soldados no Afeganistão, dão conta de mortes de 30 civis e até mencionam degolamentos.
A conceituada revista Rolling Stone acusa a Inglaterra de acobertamento das evidências dos abusos de suas tropas, assim como os acusam de uma política deliberada de assassinatos. O conceituado jornal The Guardian, da Inglaterra noticia que um ataque aereo dos EUA no Afeganistão matou 47 pessoas (civis) que iam a uma festa de casamento. A BBC londrina também informa que os EUA atacaram uma clínica na cidade de Kunduz que matou 42 pessoas. Por fim, a agência de notícias Reuters fala em um ataque com drones dos EUA que matou 30 trabalhadores rurais.
Todas essas e tantas outras atrocidades devem começar a vir à tona cada dia mais e devem ser apuradas às últimas consequências. Isso deve demolir de vez os que ainda falam que os tais 20 anos de ocupação estadunidense foram a maior maravilhosa para o povo e para as mulheres.
Em 20 anos de ocupação no Afeganistão muitas barbaridades e violações dos direitos humanos básicos contra o povo afegão foram cometidas pelas tropas de ocupação. Milhares de mulheres afegãs foram estupradas pelos soldados. Mas, uma série de opiniões e notícias têm vindo a público e as reproduzo a seguir.
A China declarou que os EUA, Austrália e a Inglaterra devem prestar contas pelas violações dos direitos humanos cometidas pelas tropas de ocupação. Um relatório investigativo feito pela Austrália, entre 2009 e 2013, sobre seus soldados no Afeganistão, dão conta de mortes de 30 civis e até mencionam degolamentos.
A conceituada revista Rolling Stone acusa a Inglaterra de acobertamento das evidências dos abusos de suas tropas, assim como os acusam de uma política deliberada de assassinatos. O conceituado jornal The Guardian, da Inglaterra noticia que um ataque aereo dos EUA no Afeganistão matou 47 pessoas (civis) que iam a uma festa de casamento. A BBC londrina também informa que os EUA atacaram uma clínica na cidade de Kunduz que matou 42 pessoas. Por fim, a agência de notícias Reuters fala em um ataque com drones dos EUA que matou 30 trabalhadores rurais.
Todas essas e tantas outras atrocidades devem começar a vir à tona cada dia mais e devem ser apuradas às últimas consequências. Isso deve demolir de vez os que ainda falam que os tais 20 anos de ocupação estadunidense foram a maior maravilhosa para o povo e para as mulheres.
Algumas conclusões iniciais
Quem ganhou e quem perdeu nesse conflito? Não há dúvidas de que quem perdeu foi o imperialismo estadunidense. O presidente dos EUA, Joe Biden, com a falência de sua política externa – que foi tema de meu último ensaio (11), vive a sua mais profunda e derradeira decadência em toda a sua história. O próprio Donald Trump vem dizendo que a derrota foi tão magistral que não pode ser chamada de derrota, mas sim de uma rendição (12).
Indubitavelmente, ganharam o Irã, a China e a Rússia. Se um dia, o Talibã quiser, de fato implantar uma República Islâmica do Afeganistão – ou Emirado Islâmico como eles vem chamando, mantendo a tradição antiga de seu país –, nesta nova fase que o país viverá, espero que se espelhem muito no que é a República Islâmica do Irã, que tem 42 anos de existência.
No Irã eles já fizeram oito eleições presidenciais desde 1979, bem como têm um parlamento funcionando, tem o Poder Judiciário secular, civil, mas tem também um Poder Religioso baseado na Sharia. O Irã tem muito a ensinar a esta juventude Talibã.
Eu quero falar sobre a máquina midiática de “moer carne” que está em movimento. Mentiras, falsidades, reportagens distorcidas e enviesadas serão amplamente produzidas pelas grandes corporações midiáticas. Elas manipularão as cabeças das pessoas já pré-dispostas a verem o Talibã como o mesmo opressor das mulheres de há 20 anos.
Pior do que isso. Acho que o Afeganistão viverá, por mais que exista vontade política dos Talibãs de pacificar o país, possivelmente uma guerra civil, tendo contra eles grupos armados pelos Estados Unidos, especialmente o grupo chamado de Aliança do Norte, que era liderado pelo falecido Ahmad Shah Massoud (13). Hoje é seu filho, Ahmad Massoud, de apenas 32 anos que promete dar combate ao Talibã (14) e que poderá vir a ser apoiado pelos EUA.
O Talibã nos últimos dias emitiu um importante comunicado onde reconhece a República Popular da China como a principal potência mundial e que virá a ter um papel relevante nesta nova fase do Afeganistão, que poderá vir a contribuir para a reconstrução do país.
A impressão que fica, com a estrondosa derrota dos Estados Unidos e com o completo abandono dos seus aliados no Afeganistão, de vários países e mesmo as centenas de milhares de afegãos que com eles colaboraram, que o Ocidente e os seus aliados em todo o mundo estão literalmente em pânico pela atitude da potência estadunidense, que mostrou que abandona tudo e todos pensando exclusivamente em seus interesses.
Quero aqui me associar ao amigo, camarada e coautor de dois dos meus livros, o jornalista e editor internacional do portal Brasil 247, José Reinaldo Carvalho. Em recente artigo, ele tece considerações sobre as perspectivas na geopolítica mundial, decorrente da nova situação criada pela fragorosa derrota dos EUA na Ásia Central (15).
Ao finalizar esse (trabalhoso e grande) ensaio, não poderia deixar de falar sobre as riquezas do subsolo do Afeganistão. Pouco se está falando disso e, seguramente, os EUA exploraram essas riquezas nos 20 anos que ocuparam o país.
Trata-se dos minerais cobre, cobalto e lítio. As estimativas em função das reservas comprovadas são estimadas hoje em três trilhões de dólares (quase dois PIBs do Brasil). A imprensa despertou para isso, por certo, agora que tal riqueza será explorada pelo governo nacional e soberano do Afeganistão, que terá à frente o grupo guerrilheiro Talibã (16).
Uma questão fundamental que também tem sido omitido pela grande mídia ou noticiado sem qualquer destaque, são as reservas em dólares do Afeganistão, estimados hoje em 10 bilhões de dólares, que estão em papel moeda aos cuidados do Federal Reserve – uma espécie de Banco Central dos EUA.
Existem também uma parte dessas reservas na forma de títulos do Tesouro dos EUA. Mas, o pior de tudo isso é que o imperialismo estadunidense está tomando providências e já bloqueou todos esses recursos, para evitar que eles “caiam nas mãos do Talibã”. Um verdadeiro absurdo. Até acho que eles, que devem vir a reconhecer o novo governo, devem liberar esses recursos. Mas, por ora eles estão bloqueados (17).
Finalizo este trabalho com uma questão relacionada à possibilidade de os EUA virem – ou não – a reconhecerem o novo governo dos Talibãs. Pessoalmente, acho que isso vai acabar ocorrendo, pois eles não querem um governo de um importante país, se opondo a eles. E o fato que eles têm um governo anti-imperialista que os derrotaram, em nada modifica essa situação.
O caso do Vietnã é mais flagrante para provar que vale o pragmatismo. Os EUA mantêm com o Vietnã, governado por um Partido Comunista, muito boas relações de todos os tipos. Nesta quarta-feira, dia 25 de agosto, a vice-presidente Kamala Harris, esteve em visita exatamente ao Vietnã, no Sudoeste asiático, como que para garantir parcerias e amizade (18).
Como vários autores têm afirmado – e encontro-me entre esses – o mundo vive de forma acelerada, um processo de mudança. A ordem em transição da unipolaridade para a multipolaridade já foi concluída. Vivemos já um mundo praticamente multipolar, com a força emergente da Rússia e da China, que vem sendo capaz de conter a fúria agressiva do imperialismo dos Estados Unidos. E o Irã vem jogando a cada dia um papel maior nessa conjuntura política internacional.
Ainda voltaremos mais vezes ao tema do Afeganistão e ao seu novo governo dos Talibãs, que ficará na nossa ordem do dia, na geopolítica mundial, por muito tempo ainda.
Quem ganhou e quem perdeu nesse conflito? Não há dúvidas de que quem perdeu foi o imperialismo estadunidense. O presidente dos EUA, Joe Biden, com a falência de sua política externa – que foi tema de meu último ensaio (11), vive a sua mais profunda e derradeira decadência em toda a sua história. O próprio Donald Trump vem dizendo que a derrota foi tão magistral que não pode ser chamada de derrota, mas sim de uma rendição (12).
Indubitavelmente, ganharam o Irã, a China e a Rússia. Se um dia, o Talibã quiser, de fato implantar uma República Islâmica do Afeganistão – ou Emirado Islâmico como eles vem chamando, mantendo a tradição antiga de seu país –, nesta nova fase que o país viverá, espero que se espelhem muito no que é a República Islâmica do Irã, que tem 42 anos de existência.
No Irã eles já fizeram oito eleições presidenciais desde 1979, bem como têm um parlamento funcionando, tem o Poder Judiciário secular, civil, mas tem também um Poder Religioso baseado na Sharia. O Irã tem muito a ensinar a esta juventude Talibã.
Eu quero falar sobre a máquina midiática de “moer carne” que está em movimento. Mentiras, falsidades, reportagens distorcidas e enviesadas serão amplamente produzidas pelas grandes corporações midiáticas. Elas manipularão as cabeças das pessoas já pré-dispostas a verem o Talibã como o mesmo opressor das mulheres de há 20 anos.
Pior do que isso. Acho que o Afeganistão viverá, por mais que exista vontade política dos Talibãs de pacificar o país, possivelmente uma guerra civil, tendo contra eles grupos armados pelos Estados Unidos, especialmente o grupo chamado de Aliança do Norte, que era liderado pelo falecido Ahmad Shah Massoud (13). Hoje é seu filho, Ahmad Massoud, de apenas 32 anos que promete dar combate ao Talibã (14) e que poderá vir a ser apoiado pelos EUA.
O Talibã nos últimos dias emitiu um importante comunicado onde reconhece a República Popular da China como a principal potência mundial e que virá a ter um papel relevante nesta nova fase do Afeganistão, que poderá vir a contribuir para a reconstrução do país.
A impressão que fica, com a estrondosa derrota dos Estados Unidos e com o completo abandono dos seus aliados no Afeganistão, de vários países e mesmo as centenas de milhares de afegãos que com eles colaboraram, que o Ocidente e os seus aliados em todo o mundo estão literalmente em pânico pela atitude da potência estadunidense, que mostrou que abandona tudo e todos pensando exclusivamente em seus interesses.
Quero aqui me associar ao amigo, camarada e coautor de dois dos meus livros, o jornalista e editor internacional do portal Brasil 247, José Reinaldo Carvalho. Em recente artigo, ele tece considerações sobre as perspectivas na geopolítica mundial, decorrente da nova situação criada pela fragorosa derrota dos EUA na Ásia Central (15).
Ao finalizar esse (trabalhoso e grande) ensaio, não poderia deixar de falar sobre as riquezas do subsolo do Afeganistão. Pouco se está falando disso e, seguramente, os EUA exploraram essas riquezas nos 20 anos que ocuparam o país.
Trata-se dos minerais cobre, cobalto e lítio. As estimativas em função das reservas comprovadas são estimadas hoje em três trilhões de dólares (quase dois PIBs do Brasil). A imprensa despertou para isso, por certo, agora que tal riqueza será explorada pelo governo nacional e soberano do Afeganistão, que terá à frente o grupo guerrilheiro Talibã (16).
Uma questão fundamental que também tem sido omitido pela grande mídia ou noticiado sem qualquer destaque, são as reservas em dólares do Afeganistão, estimados hoje em 10 bilhões de dólares, que estão em papel moeda aos cuidados do Federal Reserve – uma espécie de Banco Central dos EUA.
Existem também uma parte dessas reservas na forma de títulos do Tesouro dos EUA. Mas, o pior de tudo isso é que o imperialismo estadunidense está tomando providências e já bloqueou todos esses recursos, para evitar que eles “caiam nas mãos do Talibã”. Um verdadeiro absurdo. Até acho que eles, que devem vir a reconhecer o novo governo, devem liberar esses recursos. Mas, por ora eles estão bloqueados (17).
Finalizo este trabalho com uma questão relacionada à possibilidade de os EUA virem – ou não – a reconhecerem o novo governo dos Talibãs. Pessoalmente, acho que isso vai acabar ocorrendo, pois eles não querem um governo de um importante país, se opondo a eles. E o fato que eles têm um governo anti-imperialista que os derrotaram, em nada modifica essa situação.
O caso do Vietnã é mais flagrante para provar que vale o pragmatismo. Os EUA mantêm com o Vietnã, governado por um Partido Comunista, muito boas relações de todos os tipos. Nesta quarta-feira, dia 25 de agosto, a vice-presidente Kamala Harris, esteve em visita exatamente ao Vietnã, no Sudoeste asiático, como que para garantir parcerias e amizade (18).
Como vários autores têm afirmado – e encontro-me entre esses – o mundo vive de forma acelerada, um processo de mudança. A ordem em transição da unipolaridade para a multipolaridade já foi concluída. Vivemos já um mundo praticamente multipolar, com a força emergente da Rússia e da China, que vem sendo capaz de conter a fúria agressiva do imperialismo dos Estados Unidos. E o Irã vem jogando a cada dia um papel maior nessa conjuntura política internacional.
Ainda voltaremos mais vezes ao tema do Afeganistão e ao seu novo governo dos Talibãs, que ficará na nossa ordem do dia, na geopolítica mundial, por muito tempo ainda.
Notas:
1. Vejam maiores informações sobre essa operação neste link <https://bit.ly/3jcr26Z>;
2. Veja neste link informações completas sobre o Afeganistão <https://bit.ly/3sKydqm>;
3. Aqui neste link, maiores informações sobre o Talibã <https://bit.ly/3B8a1kD>;
4. Mais detalhes sobre essa teoria de Mao Zedong veja neste link <https://bit.ly/3diZGJA>;
5. O excelente artigo de Pepe Escobar, traduzido pelo coletivo Vila Vudu de tradutores cujo título é O emirado islâmico do Afeganistão volta retumbante e pode ser lido no original neste link <https://bit.ly/2UKZvQV>;
6. Os termos foram traduzidos direto do russo para o inglês e do inglês para a nossa língua pelo coletivo Vila Vudu de tradutores. O original pode ser lido neste link <https://bit.ly/3kjNeLT>;
7. Vejam no link a seguir o excelente artigo de John Pilger, sobre a destruição que os EUA cometeram contra um país moderno e próspero, que era o Afeganistão, ao apoiarem guerrilheiros fundamentalistas de extrema direita: <https://bit.ly/3khKy1e>;
8. Veja em Joseph Stálin: Sobre os Fundamentos do Leninismo. VI - A Questão Nacional, Editora Parceria A. M. Pereira, Portugal, 1974, Lisboa, 154 páginas;
9. A matéria a que me refiro saiu publicada no Russia Today com o título traduzido de “O que o momento Saigon do Afeganistão nos ensina sobre as ‘guerras humanitárias’ da América” e pode ser lido no original neste endereço <https://bit.ly/3sLra0L>;
10. Todas as informações que utilizo neste pequeno capítulo foram obtidas neste link <https://bit.ly/3guIbXN> que é uma reportagem no canal Russia Today em Espanhol, cujo título é Ex-militar acredita que os EUA tentam apagar as pegadas de suas atrocidades no Afeganistão;
11. Este meu mais recente ensaio pode ser lido no meu site pessoal neste link <https://bit.ly/3AWRKql>;
12. Esta afirmação foi feita em um comício que Trump realizou no domingo, dia 22 de agosto e pode ser lida neste link <https://bit.ly/3jend1n>;
13. Mais informações desse grupo neste link <https://bit.ly/3jcapbN>;
14. Massoud Jr. promete combater o governo do Talibã na região do Panjshir. Veja mais detalhes neste link <https://bit.ly/3gubHNI>;
15. Pode-se ler o mencionado artigo no link a seguir <https://bit.ly/3zhNnpD>;
16. Esta notícia foi publicada no Brasil apenas recentemente e em apenas um grupo de mídia, que é o sistema Globo de jornalismo, através dos seus portais G1, que pode ser lido neste link <https://glo.bo/38fFmpk>;
17. Veja nesta matéria de 18 de agosto do portal da CNN Brasil sobre esse assunto neste link <https://glo.bo/38fFmpk>;
18. Sobre a viagem que a vice-presidente dos EUA fez ao Vietnã pode ser lida neste link <https://bit.ly/3sQD6Oz>.
1. Vejam maiores informações sobre essa operação neste link <https://bit.ly/3jcr26Z>;
2. Veja neste link informações completas sobre o Afeganistão <https://bit.ly/3sKydqm>;
3. Aqui neste link, maiores informações sobre o Talibã <https://bit.ly/3B8a1kD>;
4. Mais detalhes sobre essa teoria de Mao Zedong veja neste link <https://bit.ly/3diZGJA>;
5. O excelente artigo de Pepe Escobar, traduzido pelo coletivo Vila Vudu de tradutores cujo título é O emirado islâmico do Afeganistão volta retumbante e pode ser lido no original neste link <https://bit.ly/2UKZvQV>;
6. Os termos foram traduzidos direto do russo para o inglês e do inglês para a nossa língua pelo coletivo Vila Vudu de tradutores. O original pode ser lido neste link <https://bit.ly/3kjNeLT>;
7. Vejam no link a seguir o excelente artigo de John Pilger, sobre a destruição que os EUA cometeram contra um país moderno e próspero, que era o Afeganistão, ao apoiarem guerrilheiros fundamentalistas de extrema direita: <https://bit.ly/3khKy1e>;
8. Veja em Joseph Stálin: Sobre os Fundamentos do Leninismo. VI - A Questão Nacional, Editora Parceria A. M. Pereira, Portugal, 1974, Lisboa, 154 páginas;
9. A matéria a que me refiro saiu publicada no Russia Today com o título traduzido de “O que o momento Saigon do Afeganistão nos ensina sobre as ‘guerras humanitárias’ da América” e pode ser lido no original neste endereço <https://bit.ly/3sLra0L>;
10. Todas as informações que utilizo neste pequeno capítulo foram obtidas neste link <https://bit.ly/3guIbXN> que é uma reportagem no canal Russia Today em Espanhol, cujo título é Ex-militar acredita que os EUA tentam apagar as pegadas de suas atrocidades no Afeganistão;
11. Este meu mais recente ensaio pode ser lido no meu site pessoal neste link <https://bit.ly/3AWRKql>;
12. Esta afirmação foi feita em um comício que Trump realizou no domingo, dia 22 de agosto e pode ser lida neste link <https://bit.ly/3jend1n>;
13. Mais informações desse grupo neste link <https://bit.ly/3jcapbN>;
14. Massoud Jr. promete combater o governo do Talibã na região do Panjshir. Veja mais detalhes neste link <https://bit.ly/3gubHNI>;
15. Pode-se ler o mencionado artigo no link a seguir <https://bit.ly/3zhNnpD>;
16. Esta notícia foi publicada no Brasil apenas recentemente e em apenas um grupo de mídia, que é o sistema Globo de jornalismo, através dos seus portais G1, que pode ser lido neste link <https://glo.bo/38fFmpk>;
17. Veja nesta matéria de 18 de agosto do portal da CNN Brasil sobre esse assunto neste link <https://glo.bo/38fFmpk>;
18. Sobre a viagem que a vice-presidente dos EUA fez ao Vietnã pode ser lida neste link <https://bit.ly/3sQD6Oz>.
__________*
Nos 60 anos da Campanha da Legalidade, Brasil segue acossado pelos militares - Jeferson Miola
Por Jeferson Miola
PUBLICIDADEAvante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a igualdade
Avante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a liberdade
Protesta contra o tirano
Se recusa a traição
Que um povo só é bem grande
Se for livre como a Nação
PUBLICIDADEAvante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a liberdade
Hino da Legalidade, letra de Lara de Lemos e Demósthenes Gonzalez e música de Paulo César Pereio.
PUBLICIDADEÉ brutal o processo de apagamento da memória e da verdade histórica do Brasil.
Ontem, 24 de agosto de 2021, quando se completaram 67 anos do suicídio de Getúlio Vargas, não se viu um único registro sequer – não só nos maiores jornais do país, como também nos noticiários dos principais [senão de todos] canais de televisão.
PUBLICIDADENeste 25 de agosto de 2021 a Campanha da Legalidade liderada pelo governador gaúcho Leonel Brizola para garantir a posse do Jango na presidência completa exatos 60 anos [aqui].
Apesar da relevância deste acontecimento para a luta democrática e para a modernização democrática do Brasil, nenhuma linha foi dedicada ao assunto em nenhum jornal do centro do país.
PUBLICIDADEEste apagamento histórico estimula, por exemplo, que ainda hoje comandantes militares inescrupulosos e usurpadores classifiquem o golpe de 1964 como “revolução” e neguem que o terror sanguinário de Estado tenha sido uma ditadura.
A alienação do povo brasileiro acerca da sua própria história, ao lado da impunidade dos perpetradores de crimes contra a democracia e a humanidade, favorece a repetição do comportamento autoritário, antidemocrático e golpista das oligarquias dominantes e das Forças Armadas.
O suicídio do Vargas e a Campanha da Legalidade possuem especificidades próprias. Apesar destes acontecimentos estarem datados no início da segunda metade do século 20, são processos que estão na raiz da tragédia atual do Brasil.
Estes dois episódios guardam semelhanças significativas com o atual período histórico. Destacam-se, em relação a isso, [i] a incompatibilidade hereditária das classes dominantes com a democracia e o desprezo delas pela soberania popular; e [ii] a atuação das Forças Armadas, em especial do Exército, como facção partidária reacionária e de extrema-direita.
Assim como naquele momento da vida nacional, hoje a democracia brasileira continua acossada pela interferência indevida e inconstitucional dos militares.
O humorista Millôr Fernandes tinha razão quando dizia que o Brasil tem um enorme passado pela frente. O Brasil só conseguirá se encontrar com um futuro almejável – e alcançável – de liberdade, justiça, democracia, desenvolvimento soberano e igualdade social quando o destino do país estiver nas mãos das maiorias sociais.
Como diz o Hino da Legalidade, Avante brasileiros de pé, Marchemos todos juntos de pé, Que um povo só é bem grande Se for livre como a Nação.
Por Jeferson Miola

Avante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a igualdade
Avante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a liberdade
Protesta contra o tirano
Se recusa a traição
Que um povo só é bem grande
Se for livre como a Nação
Avante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a liberdade
Hino da Legalidade, letra de Lara de Lemos e Demósthenes Gonzalez e música de Paulo César Pereio.
É brutal o processo de apagamento da memória e da verdade histórica do Brasil.
Ontem, 24 de agosto de 2021, quando se completaram 67 anos do suicídio de Getúlio Vargas, não se viu um único registro sequer – não só nos maiores jornais do país, como também nos noticiários dos principais [senão de todos] canais de televisão.
Neste 25 de agosto de 2021 a Campanha da Legalidade liderada pelo governador gaúcho Leonel Brizola para garantir a posse do Jango na presidência completa exatos 60 anos [aqui].
Apesar da relevância deste acontecimento para a luta democrática e para a modernização democrática do Brasil, nenhuma linha foi dedicada ao assunto em nenhum jornal do centro do país.
Este apagamento histórico estimula, por exemplo, que ainda hoje comandantes militares inescrupulosos e usurpadores classifiquem o golpe de 1964 como “revolução” e neguem que o terror sanguinário de Estado tenha sido uma ditadura.
A alienação do povo brasileiro acerca da sua própria história, ao lado da impunidade dos perpetradores de crimes contra a democracia e a humanidade, favorece a repetição do comportamento autoritário, antidemocrático e golpista das oligarquias dominantes e das Forças Armadas.
O suicídio do Vargas e a Campanha da Legalidade possuem especificidades próprias. Apesar destes acontecimentos estarem datados no início da segunda metade do século 20, são processos que estão na raiz da tragédia atual do Brasil.
Estes dois episódios guardam semelhanças significativas com o atual período histórico. Destacam-se, em relação a isso, [i] a incompatibilidade hereditária das classes dominantes com a democracia e o desprezo delas pela soberania popular; e [ii] a atuação das Forças Armadas, em especial do Exército, como facção partidária reacionária e de extrema-direita.
Assim como naquele momento da vida nacional, hoje a democracia brasileira continua acossada pela interferência indevida e inconstitucional dos militares.
O humorista Millôr Fernandes tinha razão quando dizia que o Brasil tem um enorme passado pela frente. O Brasil só conseguirá se encontrar com um futuro almejável – e alcançável – de liberdade, justiça, democracia, desenvolvimento soberano e igualdade social quando o destino do país estiver nas mãos das maiorias sociais.
Como diz o Hino da Legalidade, Avante brasileiros de pé, Marchemos todos juntos de pé, Que um povo só é bem grande Se for livre como a Nação.
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Arrastão, a guerra da praia | Ruth de Aquino - O Globo
Por Ruth de Aquino

"Nós tamo entrando sem óleo nem creme/Precisando a gente se espreme/Trazendo a farofa e a galinha/Levando também a vitrolinha/Separa um lugar nessa areia/Nós vamos chacoalhar a sua aldeia/Mistura sua laia/Ou foge da raia/Sai da tocaia/Agora nós vamos invadir sua praia"
A música, do Ultraje a Rigor, de 1985, é atual. Não tem mais vitrolinha. Nem grana para galinha com farofa. Mas é só o Rio esquentar que a praia lota. Que beleza a praia democrática quando vista de cima, abstraindo a variante Delta. A falta de máscara e distanciamento é mero detalhe. A molecada nem-nem, que não estuda nem trabalha e está ainda mais abandonada na pandemia, resolveu já em setembro tocar o terror.
O arrastão 40 graus virou guerra há décadas. O rolo compressor de pivetes ladrões ataca o carioca quando ele está mais nu e embevecido. O epicentro dos arrastões é o trecho mais caro e deslumbrante, o Arpoador, com mar manso e a vista das montanhas. No calçadão e na areia, os assaltos se assemelham a uma algazarra. Quem cair caiu. Já era.
Não, o arrastão não tem nada a ver com o coisa ruim, o Bolsonaro. E quem é assaltado não é elite, é classe média e turista desavisado. Elite não vai a praia lotada. Impressionante ver a multidão de jovens ociosos numa tarde de quarta-feira. É retrato, em cores, de nossa absurda desigualdade. São pobres, a maioria negros, e não estão em escola, estágio ou trabalho. Nada. Não têm o que fazer. Vão zoar.
O roteiro do calor carioca da gema inclui os vandalismos. Teve gente surpresa no domingo com a garotada nos tetos dos ônibus, as janelas estilhaçadas. Espero que o Rio não esteja com Alzheimer. No ano de 2016, 339 ônibus da linha 474 foram depredados. O 474 liga o Jacaré, na Zona Norte, a Copacabana. Se você não viu os vídeos, precisa ver. Se viu, precisa rever. Motoristas acuados e feridos a faca, passageiros em pânico. A linha 474 foi apelidada de quatro-sete-crack naqueles tempos, dos governos Dilma e Temer.
O prefeito era Eduardo Paes. Nos arrastões de setembro de 2016, ele me disse que o problema não era social e sim policial. “Não pode chamar jovem que sobe em teto de ônibus de vulnerável. É delinquente”. Hoje, mantém o discurso. “Vivemos um momento de muita tensão, agravado pela pandemia. O tecido social no Brasil esgarçou. Mas nesse caso não tem jeito. É autoridade, autoridade e autoridade. Vamos aumentar a Guarda ali. E a Polícia Militar se comprometeu a entrar pesado. Com blitz em ônibus”.
No fim de semana teve tiro, brigalhada, assaltos aos montes. Tudo visto de camarote por moradores nas varandas. O secretário da Juventude de Paes, Salvino Oliveira, 23 anos, vem da Cidade de Deus. Também acha que arrastão é caso de polícia. “Pular a catraca, vandalizar e praticar arrastão é crime. Mas punir só não resolve. Se a gente não der lazer, transporte, estudo, estágio, pode fazer bloqueio, revistar ônibus, nada vai mudar. Precisamos ajudar a realizar sonhos”. Salvino já foi garçom, animador de festa, vendeu água em sinal, doce em ônibus.
Quem viu “La virgen de los sicarios” (‘Virgem dos assassinos’), filme colombiano baseado no romance autobiográfico de Fernando Vallejo, enxerga nossas semelhanças com a Medellín dos anos noventa. Hordas de jovens ligados a traficantes e milicianos vagam pelas ruas em busca de caça. É assustador e triste. E a gente vê tudo isso aqui, no Rio, essa cidade partida com mais de mil favelas desprezadas pelo Estado. Sem inclusão, vai ter sempre arrastão.
Por Ruth de Aquino

"Nós tamo entrando sem óleo nem creme/Precisando a gente se espreme/Trazendo a farofa e a galinha/Levando também a vitrolinha/Separa um lugar nessa areia/Nós vamos chacoalhar a sua aldeia/Mistura sua laia/Ou foge da raia/Sai da tocaia/Agora nós vamos invadir sua praia"
A música, do Ultraje a Rigor, de 1985, é atual. Não tem mais vitrolinha. Nem grana para galinha com farofa. Mas é só o Rio esquentar que a praia lota. Que beleza a praia democrática quando vista de cima, abstraindo a variante Delta. A falta de máscara e distanciamento é mero detalhe. A molecada nem-nem, que não estuda nem trabalha e está ainda mais abandonada na pandemia, resolveu já em setembro tocar o terror.
O arrastão 40 graus virou guerra há décadas. O rolo compressor de pivetes ladrões ataca o carioca quando ele está mais nu e embevecido. O epicentro dos arrastões é o trecho mais caro e deslumbrante, o Arpoador, com mar manso e a vista das montanhas. No calçadão e na areia, os assaltos se assemelham a uma algazarra. Quem cair caiu. Já era.
Não, o arrastão não tem nada a ver com o coisa ruim, o Bolsonaro. E quem é assaltado não é elite, é classe média e turista desavisado. Elite não vai a praia lotada. Impressionante ver a multidão de jovens ociosos numa tarde de quarta-feira. É retrato, em cores, de nossa absurda desigualdade. São pobres, a maioria negros, e não estão em escola, estágio ou trabalho. Nada. Não têm o que fazer. Vão zoar.
O roteiro do calor carioca da gema inclui os vandalismos. Teve gente surpresa no domingo com a garotada nos tetos dos ônibus, as janelas estilhaçadas. Espero que o Rio não esteja com Alzheimer. No ano de 2016, 339 ônibus da linha 474 foram depredados. O 474 liga o Jacaré, na Zona Norte, a Copacabana. Se você não viu os vídeos, precisa ver. Se viu, precisa rever. Motoristas acuados e feridos a faca, passageiros em pânico. A linha 474 foi apelidada de quatro-sete-crack naqueles tempos, dos governos Dilma e Temer.
O prefeito era Eduardo Paes. Nos arrastões de setembro de 2016, ele me disse que o problema não era social e sim policial. “Não pode chamar jovem que sobe em teto de ônibus de vulnerável. É delinquente”. Hoje, mantém o discurso. “Vivemos um momento de muita tensão, agravado pela pandemia. O tecido social no Brasil esgarçou. Mas nesse caso não tem jeito. É autoridade, autoridade e autoridade. Vamos aumentar a Guarda ali. E a Polícia Militar se comprometeu a entrar pesado. Com blitz em ônibus”.
No fim de semana teve tiro, brigalhada, assaltos aos montes. Tudo visto de camarote por moradores nas varandas. O secretário da Juventude de Paes, Salvino Oliveira, 23 anos, vem da Cidade de Deus. Também acha que arrastão é caso de polícia. “Pular a catraca, vandalizar e praticar arrastão é crime. Mas punir só não resolve. Se a gente não der lazer, transporte, estudo, estágio, pode fazer bloqueio, revistar ônibus, nada vai mudar. Precisamos ajudar a realizar sonhos”. Salvino já foi garçom, animador de festa, vendeu água em sinal, doce em ônibus.
Quem viu “La virgen de los sicarios” (‘Virgem dos assassinos’), filme colombiano baseado no romance autobiográfico de Fernando Vallejo, enxerga nossas semelhanças com a Medellín dos anos noventa. Hordas de jovens ligados a traficantes e milicianos vagam pelas ruas em busca de caça. É assustador e triste. E a gente vê tudo isso aqui, no Rio, essa cidade partida com mais de mil favelas desprezadas pelo Estado. Sem inclusão, vai ter sempre arrastão.




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