______________________* O GOLPE vem aí __________________________________ ______________________* Caminhamos, SE chegarmos às eleições, CELEREMENTE para a GUERRA CIVIL. Opinião: Marco Antonio Villa ______________________*
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____________________ Universa ____________________
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O GOLPE vem aí ________________________________ Caminhamos, SE chegarmos às eleições, CELEREMENTE para a GUERRA CIVIL. ___________________________ Marco_Antonio_Villa
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Caso Bolsonaro NÃO recue, tente ROMPER com a ORDEM institucional, levará CARTÃO VERMELHO, poderá ser EXPULSO e PRESO. ____________________ Laurez_Cerqueira
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Bolsonaro ACHA que MANDA, mas NÃO comanda NADA a não ser fanáticos IMBECILIZADOS em REDES sociais" William_ Waack.
_________________________________________________RONILSO PACHECO - 7 de Setembro: 'PROFETADAS de pastores para atos confirma ABANDONO de JESUS
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TODOS em ALERTA com as PMs. O GOLPE bolsonarista CONTA com ELAS - Gilvandro_Filho
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Quem disser que SABE o que VAI ACONTECER está MENTINDO ou se ILUDINDO. Eu NÃO SEI. Mas não podemos deixar de enxergar os propósitos de Bolsonaro, que estão claros.
Tereza Cruvinel
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Não saia às ruas no 7 de Setembro | Ruth de Aquino
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Ensaio de ato bolsonarista prega ditadura com Bolsonaro - Tereza Cruvinel
Por Tereza Cruvinel

Por Tereza Cruvinel
Ninguém se engane: nunca antes, desde o final da ditadura, a democracia brasileira esteve tão ameaçada. E quem lidera a conspiração golpista, sacrificando também a economia do país, é o presidente da República.
As manifestações bolsonaristas de amanhã, serão grandes.
Recursos do governo e setores aliados foram empregados na convocação, para criar a falsa ideia de que a maioria da população quer "Bolsonaro no poder" com intervenção militar nos outros poderes. Ditadura.
Os hotéis de Brasilia estão lotados e as máquinas do agronegócio estão chegando.
Pesquisas mostram que 30% dos PMs pretendem participar dos atos, armados ou não.
Grupos religiosos também estão mobiliados.
O STF já está protegido por um cinturão policial.
Apesar disso, NÃO devemos temer o espetáculo prometido pela extrema-direita, e sim engrossar os atos "fora Bolsonaro", contra o golpe, em defesa da democracia, evitando as provocações previsíveis.
Ontem eu vi um ensaio dos atos de amanhã. Indo ao Lago Sul, desci a Esplanada dos Ministérios e na altura do Itamaraty a PM bloqueou o trânsito, criando o cenário ideal para uma manifestação prévia dos bolsonaristas.
Uma carreata com bandeiras do Brasil também se formou ali. Manifestantes ruidosos exibiam faixas que antecipam as bandeiras e palavras de ordem que serão brandidas amanhã, principalmente em Brasília e em São Paulo, palcos eleitos para os discursos que Bolsonaro fará.
Reproduzo aqui algumas das fotos que fiz ali ontem.
Ou seja:
Bolsonaro ditador, Constituição de 1988 rasgada e perseguição dos adversários.
Vejam esta outra faixa, que resume a palavra de ordem que será brandida amanhã: "Eu autorizo".
A próxima faixa foi escrita em português e em inglês, certamente na expectativa de que seja reproduzida em jornais e sites estrangeiros, para criar a ideia de que o golpismo de Bolsonaro tem apoio popular.
O golpe é para amanhã?
Não creio, apesar dos 30% de policiais militares que prometem participar, o que já seria uma perigosa força armada.
O que acontecerá amanhã, a meu ver, será a deflagração de um processo que ninguém sabe como, quando e onde vai terminar.
Bolsonaro claramente pretende não reconhecer sua derrota eleitoral no ano que vem, e pretende manter sua massa mobilizada até lá, para resistir dentro no Palácio do Planalto.
Seus radicais talvez repitam a invasão do Capitólio, só que invadindo o STF. Ou as sedes dos dois poderes.
Bolsonaro, acuado, parece não ter saída fora do golpe.
Talvez ele venha a tentá-lo antes da eleição, atacando o próprio calendário eleitoral.
Mas talvez também seja parado em sua loucura autoritária antes disso pelo STF, com os remédios já apontados pelo ministro Lewandowski em seu recente e fundamental artigo.
Ou pelo Congresso, com o impeachment, hipótese menos provável porque o Centrão só pretende desembarcar do governo no ano que vem, depois que sugar bem a teta das emendas.
Talvez pelo TSE, com a cassação da chapa Bolsonaro - Mourão.
Quem disser que sabe o que vai acontecer está mentindo ou se iludindo. Eu não sei.
Mas não podemos deixar de enxergar os propósitos de Bolsonaro, que estão claros, inclusive nas faixas que reproduzi acima.
Eles vão às ruas amanhã e há quem diga que isso faz parte da democracia. Não. A democracia não pode ser usada para uma conspiração contra a democracia.
Por isso, a depender do que acontecer amanhã, a depender do comportamento de Bolsonaro, o Supremo terá que responder.
Os dois outros poderes teriam que responder, mas a Câmara está arrendada ao Centrão.
Nós, democratas, e não apenas progressistas de esquerda, não podemos nos omitir. Nossa resposta deve ser a participação pacífica nos atos de resistência, contra o golpe e em defesa da democracia. Não devemos nos deixar impressionar pelo tamanho dos atos da extrema-direita. Eles podem ser muito maiores que os nossos, pelo poder empregado na mobilização e na organização, mas não representam a maioria dos brasileiros. A maioria, dizem todas as pesquisas, claramente reprova o governo e rejeita as pregações golpistas. O que eles vão criar é uma ilusão.
E Bolsonaro dará mais um tiro no pé, impulsionando com sua desnecessária agitação ideológica, a deterioração da economia, já em curso .
Ele, que se diz tão patriota, está cometendo com isso um crime de lesa-pátria.
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'Bolsonaro vai para o tudo ou nada neste 7 de setembro', diz Breno Altman

247 - O jornalista Breno Altman, editor do Opera Mundi, disse à TV 247 nesta segunda-feira (6) que o dia 8 de setembro não será o mesmo para Jair Bolsonaro, seja qual for o desempenho de sua base eleitoral nos atos golpistas marcados para 7 de setembro.
Para Altman, Bolsonaro parte para o "tudo ou nada" nesta terça-feira (7). "Os atos bolsonaristas estão concentrados em duas capitais, São Paulo e Brasília. A movimentação das forças de apoio ao Bolsonaro é bastante intensa. É muito difícil fazer uma previsão, mas podemos dizer que qualquer coisa abaixo de 50 mil pessoas em São Paulo e abaixo de 30 mil em Brasília seria um tremendo fracasso do Bolsonaro, porque ele faz um jogo de tudo ou nada. É uma demonstração de força que para ele é decisiva. O dia 8 de setembro não será igual para o Bolsonaro. Depende da sua capacidade de mobilização amanhã".
Já para os protestos de esquerda, disse o jornalista, a pressão não é tão grande. "A situação da oposição de esquerda é diferente. A oposição de esquerda não estará enfrentando uma batalha de vida ou morte amanhã. A oposição de esquerda vem de sucessivas mobilizações. É um processo de acumulação de forças em uma situação em que o Bolsonaro vai se desgastando".
Altman disse esperar protestos maiores dos bolsonaristas do que da esquerda em São Paulo em Brasília, mas lembrou que a oposição terá mais atos espalhados pelo país. "No conjunto da obra, em termos nacionais, devem ser forças que se equivalem, apesar do bolsonarismo estar travando uma batalha de vida ou morte e a oposição de esquerda estar em um calendário de acumulação de forças".
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Agora não é mais por engano - Cláudio da Costa Oliveira
Por Cláudio da Costa Oliveira

No final do último mês de junho o atual presidente da Petrobrás, Joaquim Silva e Luna, fez declarações em audiência pública na câmara federal que nos levaram a escrever o artigo “Será que o general Silva e Luna está sendo ludibriado?” (http://www.aepet.org.br/w3/index.php/conteudo-geral/item/6412-sera-que-o-gen-joaquim-silva-e-luna-esta-sendo-ludibriado), tais eram os equívocos pronunciados.
Naquele momento entendemos que tais equívocos poderiam acontecer tendo em vista que havia pouco tempo que o general tinha assumido a direção da empresa e provavelmente não tinha um claro conhecimento dos números da companhia.
Ocorre que no dia de hoje, domingo, 05 de setembro, em artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo (Estadão) Sila e Luna, entre outras coisas afirma “R$2 essa é a parcela da Petrobrás no preço da gasolina que ajuda a mover o Brasil”
Depois de passado tanto tempo não podemos continuar supondo que ele esteja sendo ludibriado. Não dá mais. Agora ele está tentando ludibriar.
Num ponto, pelo menos, temos de concordar com ele, o preço (da Petrobrás), ajuda a mover o Brasil. Ele não disse em qual direção. Aí afirmamos: para baixo.
Os R$ 2 cobrados pela Petrobrás é calculado com base no chamado Preço de Paridade de Importação - PPI. O PPI é calculado considerando o preço internacional lá nos EUA, sobre o qual é somado o custo do frete até o Brasil, o custo de internação no nosso mercado, o custo de transporte até a refinaria e ainda é atribuído um lucro. Ou seja, é como se estivesse importando o combustível.
Tal política de preços (absurda) está bem descrita no site da própria Petrobrás e também no site da Agência Nacional de Petróleo – ANP. Por que o general não explicou isto? Esquecimento?
É preciso saber que o custo da Petrobrás para produzir um litro de gasolina não passa de R$1. Portanto, se cobrasse R$ 1,5 estaria sendo muito bem remunerada, muito acima do que ocorre com outros países produtores.
Adotando o Preço de Paridade de Importação, a Petrobrás beneficia os importadores (traders) e as refinarias no exterior, que entram no mercado ocupando o espaço da própria Petrobrás.
Esta política prejudica o consumidor brasileiro, que paga um preço mais alto do que deveria. Prejudica a Petrobras que perde mercado e fica com suas refinarias na ociosidade e prejudica a economia brasileira que fica menos competitiva. Ou seja, move o Brasil para baixo.
O preço nas refinarias é a base de tudo. Quem aumenta e diminui preços é a Petrobrás e não os Estados.
Concordamos que a carga tributária sobre os combustíveis no Brasil é excessiva e tem de ser revista. Mas propor eliminar os impostos federais, que representam menos de 2% da receita da União, e querer que em compensação os Estados eliminem o ICMS, que representa mais de 20% de suas receitas, é demagogia barata.
Teríamos muito mais a falar, mas vamos ficar por aqui. Só recomendamos ao general Silva e Luna que aprofunde seus conhecimentos sobre a empresa e evite se comportar como a porca que senta sobre o próprio toucinho e fica falando do toucinho das outras.
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Em nova ameaça, homem diz que empresário “paga pela cabeça” de Moraes e ex-PM intimida familiares do ministro

247 - Às vésperas do 7 de setembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, que tem fechado o cerco contra defensores do golpe na internet, tem sido vítima, assim como sua família, de ameaças da base bolsonarista.
Desta vez, um homem em uma live no TikTok diz que um empresário paga “pela cabeça de Moraes”. “A partir de hoje, nós temos um grupamento no Brasil que vai caçar ministro [do STF] aonde quer que eles estejam”, diz um homem identificado como Márcio Giovani Nique ou “professor Marcinho” na rede social, segundo reportagem do Poder360.
Ele afirma que “tem um empresário grande (…) oferecendo grana pela cabeça de Moraes” e que não revelaria naquele momento seu nome, nem sob tortura. “Vivo ou morto querem trazer ele”, disse. “Agora no Brasil, com os ministros do Supremo, vai ser assim, vai ter prêmio pela cabeça deles”, completou.
No Twitter, em resposta a uma publicação do perfil do STF, o ex-PM Cássio Rodrigues Costa Souza chama Moraes de “careca filho da puta” e “advogado do PCC”, afirmando que vai matar o ministro e sua família.
Ministro prestou queixa contra ofensa
Na sexta-feira (3), outra ocorrência. Um segurança do ministro prestou queixa em nome do magistrado contra pessoas que o xingaram dentro do Clube Pinheiros, em São Paulo, na madrugada de quinta para sexta.
Apesar de não estar no local no momento, seus seguranças ouviram as ofensas e fizeram o registro em seu nome, informou também o Poder 360.
Segundo o boletim de ocorrência registrado no 14º Distrito Policial da capital paulista, “vigilantes particulares” avisaram a um integrante da escolta pessoal de Alexandre de Moraes que “indivíduos embriagados no interior do clube Pinheiros” estariam “proferindo ameaças e injúrias à pessoa da vítima”.
Bolsonaro insuflou base contra o ministro neste sábado
Ao discursar na CPAC, evento da extrema direita realizado em Brasília, Jair Bolsonaro confrontou o STF - “estão achando que eu vou recuar” - e insuflou sua base especificamente contra Alexandre de Moraes.
“Infelizmente tem um ministro do Supremo que está dando um tom completamente errado. Lá todos devem zelar pela Constituição”, disse. “Não vou dar conselho para ninguém do Supremo, todos são maiores de 35 anos de idade, pessoas responsáveis. Com certeza temos bons ministros lá. Agora esse um está contaminando a democracia. Esse um está simplesmente ignorando vários incisos do artigo V da Constituição e outro dispositivo que fala da liberdade de expressão”, continuou.
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Mais de 150 líderes progressistas do mundo alertam para tentativa de golpe no Brasil em 7 de Setembro

247 - Ex-presidentes, ex-primeiros-ministros e parlamentares de 26 países afirmam em carta que as manifestações convocadas por Jair Bolsonaro para o dia 7 de Setembro são “uma insurreição” que “colocará em risco a democracia no Brasil”.
O documento deve ser divulgado nesta segunda (6), informa a jornalista Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo. Entre os mais de 150 signatários estão o ex-presidente do Paraguai Fernando Lugo, o ex-presidente da Colômbia Ernesto Samper, o ex-presidente do Equador Rafael Correa, o ex-chefe de governo da Espanha José Luis Rodríguez Zapatero e o vice-presidente do Parlamento do Mercosul, Oscar Laborde.
Os professores Noam Chomsky e Cornel West, dos Estados Unidos, e o Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel também assinam, além de parlamentares de países como Grécia, Reino Unido, EUA, França, Nova Zelândia, Austrália, Equador, Chile e Uruguai.
A carta cita as ameaças golpistas propagadas por Bolsonaro nas últimas semanas, como a declaração de que as eleições de 2022 podem não ocorrer se não houver a adoção do voto impresso.
O documento foi coordenado pela Progressive International, rede global progressista que busca conter o avanço da direita no mundo.
Leia, abaixo, a íntegra da carta:
Nós, representantes eleitos e líderes de todo o mundo, estamos soando o alarme: em 7 de setembro de 2021, uma insurreição colocará em risco a democracia no Brasil. No momento, o presidente Jair Bolsonaro e seus aliados - incluindo grupos de supremacia branca, polícia militar e funcionários públicos em todos os níveis do governo - estão preparando uma marcha nacional contra a Suprema Corte e o Congresso em 7 de setembro, alimentando temores de um golpe na terceira maior democracia do mundo. O presidente Bolsonaro intensificou seus ataques às instituições democráticas do Brasil nas últimas semanas. Em 10 de agosto, ele dirigiu um desfile militar sem precedentes pela capital, Brasília, enquanto seus aliados no Congresso promoviam reformas radicais no sistema eleitoral do país, amplamente considerado um dos mais confiáveis do mundo. Bolsonaro e seu governo ameaçaram - várias vezes - cancelar as eleições presidenciais de 2022 se o Congresso falhar.
Agora, Bolsonaro convoca seus seguidores a viajarem a Brasília no dia 7 de setembro, em um ato de intimidação às instituições democráticas do país. De acordo com uma mensagem transmitida pelo presidente em 21 de agosto, a marcha é a preparação para um “contragolpe necessário” contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. A mensagem afirmava que a "constituição comunista" do Brasil tirou o poder de Bolsonaro e acusou "o Judiciário, a esquerda e todo um aparato de interesses ocultos" de conspirar contra ele. Membros do Congresso no Brasil alertaram que a mobilização de 7 de setembro teve como modelo a insurreição na capital dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, quando o então presidente Donald Trump encorajou seus partidários a “parar o roubo” com falsas alegações de fraude eleitoral em eleições presidenciais de 2020. Estamos seriamente preocupados com a ameaça iminente às instituições democráticas do Brasil - e estamos vigilantes para defendê-las antes de 7 de setembro e depois. O povo brasileiro tem lutado por décadas para proteger a democracia do regime militar. Bolsonaro não deve ter permissão para roubá-lo agora. ”
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Pesquisa mostra que três a cada dez PMs pretendem ir a atos a favor de Bolsonaro

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SÃO PAULO — Uma pesquisa do Instituto Atlas Intelligence mostra que 30% dos policiais militares entrevistados pretendem ir "com certeza" aos protestos desta terça-feira a favor do presidente Jair Bolsonaro e contra o Supremo Tribunal Federal (STF). O instituto chegou à conclusão após analisar respostas de 3.146 pessoas (511 deles se declararam policiais militares, civis e federais), que preencheram um questionário online entre 30 de agosto e o último sábado. Os pesquisadores separaram as respostas dadas por policiais daquelas da população em geral.
Os regulamentos das Polícias Militares proíbem a participação de agentes da ativa em atos políticos. Como mostrou o GLOBO no sábado, ao menos oito estados se comprometem a punir integrantes das tropas que participem das manifestações.
Em relação à presença nos atos, 44% dos policiais militares disseram que não pretendem ir às manifestações; 15% afirmaram que provavelmente não irão; 5% que "talvez" participarão e outros 6% não souberam responder.
Quando a mesma pergunta foi feita à população em geral, com outras profissões, 18% responderam que vão às ruas apoiar Bolsonaro com certeza e 47% disseram que não pretendem participar do ato.
A pesquisa ainda questionou se os entrevistados acham que policiais devem ter permissão para participar das manifestações do dia 7. Entre os PMs, 40 responderam que sim e 47% disseram que não. Na população geral, o resultado foi 36% a 46%, respectivamente.
Um levantamento feito pelo mesmo instituto em abril e publicado pela revista Época mostrou que 71% dos PMs declararam ter votado em Bolsonaro em 2018, e, desse total, 81% disseram que continuavam contentes com a opção de fizeram. Apenas 17% afirmaram ter se arrependido.
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Bolsonaro abandona promessas e se agarra à radicalização do discurso

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RIO E BRASÍLIA — Pressionado pela falta de resultados concretos do governo e sem uma saída clara para reverter a queda de popularidade, o presidente Jair Bolsonaro intensificou o apelo a nichos de apoiadores, radicalização simbolizada pela convocação para as manifestações de terça-feira. Levantamento feito pelo GLOBO mapeou 30 das principais promessas de campanha, direcionadas a setores mais amplos e a grupos fiéis — 18 não saíram do papel, nove foram implementadas e três foram entregues em parte. A lista foi feita com base no programa de governo e em declarações.
Uma delas, aposta para mudar a curva acentuada de rejeição identificada pelas pesquisas, é a criação de um programa com valor superior ao do Bolsa Família. Batizada recentemente de Auxílio Brasil, a iniciativa esbarra na falta de espaço fiscal: o Orçamento enviado ao Congresso prevê um valor igual ao do programa criado pelo seu potencial adversário em 2022, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Completam o cenário a desarticulação na relação com os parlamentares — ponto que a adesão do Centrão ainda não equacionou, haja vista a derrota imposta pelo Senado na rejeição da minirreforma trabalhista na quinta-feira — e as desconfianças mútuas entre equipe econômica e coordenação política: auxiliares do ministro Paulo Guedes se queixam da falta de empenho dos colegas do Planalto.

Na economia, área em que Bolsonaro investiu numa roupagem liberal para alargar seu eleitorado em 2018, houve a aprovação da reforma da Previdência, a autonomia do Banco Central e o novo marco do gás. As privatizações, no entanto, patinaram. Em entrevista na campanha, ele disse que extinguiria “no mínimo 50”, mas, durante a gestão, a atuação no setor se limitou a fazer concessões e abrir mão de participação em subsidiárias, caso da BR Distribuidora — uma estatal chegou a ser criada, a NAV Brasil.
As intenções de privatizar a Eletrobras e os Correios esbarram no Congresso — no caso da firma do setor postal, a proposta foi aprovada na Câmara, mas há resistências no Senado. O governo acrescentou itens ao texto, como estabilidade de 18 meses para funcionários e a impossibilidade de fechar agências em áreas remotas por cinco anos, para driblar senadores, mas até agora o projeto não andou na Casa. O texto precisa ser votado até novembro para que o cronograma do governo de privatizar os Correios no começo de 2022 se concretize.
"Ideia de ameaça"
Sem o indicativo de que terá uma agenda para atrair, em 2022, segmentos do eleitorado que o apoiaram há três anos, com sinais negativos na economia (crise hídrica, queda de 0,1% do PIB no trimestre e inflação em alta) e uma gestão na pandemia criticada pelo elevado número de mortes e a demora na compra de vacinas, Bolsonaro tem direcionado a atenção aos grupos cuja adesão é mais arraigada — 11% dos eleitores compõem o conjunto de quem votou nele em 2018, aprova a gestão e confia em tudo o que fala.
— O contexto político e social, além da pandemia, o deixam em maus lençóis com grupos distintos de apoiadores, então ele aposta na construção de uma narrativa baseada numa ideia de ameaça, de que existe um risco a ser contido — analisa a cientista política Flávia Biroli, da UnB.
O processo de radicalização é simbolizado por declarações (“Tem que todo mundo comprar fuzil, pô”), gestos — o desfile de tanques em Brasília no mesmo dia em que a Câmara analisou e rejeitou o voto impresso — e atitudes concretas, caso do pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), já arquivado pelo Senado. Ontem, o presidente voltou a falar em “ruptura”:
— O Supremo Tribunal Federal não pode ser diferente do Poder Executivo ou do Poder Legislativo. Se lá tem alguém que ousa continuar agindo fora das quatro linhas da Constituição, aquele Poder tem que chamar essa pessoa e enquadrá-la (...) Se assim não ocorrer, a tendência é acontecer uma ruptura.
Para o deputado Marcelo Ramos (PL-AM), vice-presidente da Câmara, a sequência de acontecimentos indica um “método”:
—Ele precisa criar esses factoides, para que a discussão seja no campo dele. Não é espontâneo. Quando perde uma bandeira, apresenta outra.
Mesmo os setores que Bolsonaro busca atingir mais diretamente, como integrantes de forças de segurança e representantes do agronegócio, não foram contemplados com tudo o que foi aventado na eleição. Flexibilizações em série facilitaram o acesso a armas de fogo, mas o porte seguiu vetado, com exceção para categorias profissionais específicas. A maioridade penal não foi reduzida para 16 anos e, no setor rural, se, por um lado, abrandamento de normas e redução de multas incentivaram a ação de desmatadores, de outro, os choques constantes com outros Poderes levaram entidades do agronegócio a se manifestarem em defesa da democracia, expondo uma fissura.
— A belicosidade do Bolsonaro e essa postura de confronto são decorrentes de uma escolha equivocada de governar sempre na condição de minoria. E isso foi paulatinamente fragilizando o governo, perante Legislativo, Judiciário e sociedade — define o cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getulio Vargas.
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Frase de Bolsonaro foi PONTO de INFLEXÃO que AFUGENTOU o capital. Existem US$_15_TRILHÕES sentados no EXTERIOR com juros perto de ZERO. Tem que ATRAIR esse capital, mas ele NÃO vem pra CÁ ”.
Por Míriam Leitão

Uma frase dita pelo presidente Bolsonaro piorou muito a percepção do mercado financeiro e dos investidores nacionais e estrangeiros sobre o Brasil. A afirmação de que ele tem três alternativas, a prisão, a morte ou a vitória, foi vista, na explicação de um banqueiro, da seguinte forma. “Quem entende que a derrota significa a sua morte tomará decisões irracionais. Essa fala foi para todos os investidores, com os quais eu converso, um marco, um ponto de inflexão”. E existem, explicou esse banqueiro, "US$ 15 trilhões sentados no exterior com juros perto de zero. Tem que atrair esse capital, mas ele não vem pra cá”.
O mundo da política e o da economia são bem diferentes. Mas o reflexo de um no outro é inevitável. Nos últimos dias, Bolsonaro conduziu uma escalada de ameaças institucionais, insinuações, truques de linguagem e manipulação como parte da mobilização para o ato de 7 de setembro, que ele convocou e comanda. Na política, cada palavra provoca reação, e o barulho aumenta. Na economia, tudo é visto com mais frieza e objetividade. Uma pergunta feita sempre é: o que isso muda de fato? Os que decidem o destino do dinheiro entenderam que Bolsonaro, assim desesperado, achando que está entre a morte e a vitória, não tomará decisões racionais.
— Esse marco recente mostrou que a coisa é bem pior. Até então tinha briga, muita tensão. A frase foi um ponto de inflexão — diz a fonte.
O que o presidente disse não foi tirado do contexto. Ele foi claro e depois repetiu o mesmo raciocínio. Em Goiânia, dia 28, falando para evangélicos para mobilizá-los a participar do evento do dia 7, Bolsonaro afirmou: “Eu tenho três alternativas para o meu futuro. Estar preso, ser morto, ou a vitória. Pode ter certeza, a primeira alternativa, ser preso, não existe.” Portanto, ele acha que tem duas opções: ser morto ou vencer.
Isso afasta investidores em geral. Ninguém quer vir para o país ou, se for local, fazer novos investimentos se o presidente está desesperado achando que luta pela própria vida e que a derrota o levaria à morte. Um presidente assim caminhará cada vez mais para a radicalização, elevando o nível de imprevisibilidades. Capital detesta o imprevisível.
Bolsonaro está encurralado e com muito medo. Aparecem cada vez mais denúncias sobre os crimes cometidos pelos seus quatro filhos e por uma de suas ex-mulheres. A popularidade dele está em queda, o que tem o efeito de derreter o apoio político. Para reverter esse quadro, Bolsonaro decidiu sequestrar a data nacional do 7 de setembro, como se ela fosse da sua facção.
Políticos de centro, com os quais conversei esta semana, afirmam que o evento será grande. Bolsonaro quer dar uma demonstração de força para o mundo político, para reverter esse clima de desidratação, assustar adversários e intimidar o Judiciário. O presidente usou de forma escancarada recursos públicos e a máquina pública para mobilizar seguidores. Em cidades do interior, panfletos são distribuídos convocando para a manifestação e caravanas estão sendo organizadas. Bolsonaro dedicou o tempo do expediente à organização dos atos. Que fique claro: não é uma manifestação à qual Bolsonaro comparecerá, é um ato organizado pelo presidente da República contra a democracia.
O governo perdeu a batalha dos manifestos empresariais. Primeiro, porque a maioria do capital — agronegócio exportador, industrial e financeiro — deixou claro que se opõe à escalada autoritária do presidente. Segundo, dividiu-se a área econômica do próprio governo. O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, foi “incendiário”, segundo eu ouvi de duas fontes oficiais. Mentiu dizendo que o documento da Febraban seria uma carta em favor do impeachment, tentou empurrar Bolsonaro para brigar pessoalmente com os bancos e, por fim, criou o clima de “vale tudo” ao fazer ameaças aos bancos. “O Pedro estava incendiário porque é candidato e tem aspiração política”, me disse uma fonte do governo, sobre o presidente da Caixa.
Ouvi de um integrante do governo a seguinte avaliação: “Esta tensão não é boa para o ingrediente mais importante para a reeleição, que é a recuperação econômica. Quanto mais politizar o setor produtivo, quem está fora não entra, quem está dentro prefere esperar”. Bolsonaro criou um bumerangue que atinge a economia e seu próprio projeto.
__________* Ives Gandra, pai e filho: o jurista e o juiz do golpe | Bernardo Mello Franco - O Globo
Por Bernardo Mello Franco

O advogado Ives Gandra da Silva Martins é o jurista de estimação do golpe. Sua leitura distorcida da Constituição, que atribui um “Poder Moderador” às Forças Armadas, embala o sonho autoritário dos bolsonaristas. A tese já foi desmentida até por ministros do Supremo. Mesmo assim, continua em voga entre defensores de uma “intervenção militar” em favor do capitão.
O ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho, do Tribunal Superior do Trabalho, é o juiz de estimação do golpe. Arroz de festa em solenidades do governo, ele usa as redes sociais para ostentar intimidade com Bolsonaro, a primeira-dama e os filhos do presidente. Em agosto, foi ao Planalto assistir ao desfile de tanques fumegantes da Marinha. Ontem reapareceu entre Michelle e Damares na Cpac, a conferência da extrema direita em Brasília.
Gandra Filho também frequentou o palácio no governo de Michel Temer, quando tentava cavar uma vaga no Supremo. Foi preterido por Alexandre de Moraes, que hoje é o principal alvo da ira presidencial.
__________* Opinião: Ronilso Pacheco - 7 de Setembro: 'Profecia' de pastores para atos confirma abandono de Jesus


Ronilso Pacheco
Colunista do UOL
04/09/2021 04h00
De pouco em pouco, o envolvimento e a convocação para a manifestação de apoio a Jair Bolsonaro feita por líderes evangélicos conservadores para o 7 de Setembro foi crescendo em dimensão e repercussão. Outrora discreta, a convocação se tornou insistente e, em alguns aspectos, intimidadora.
Sob o risco de não conseguirem mobilizar o quanto de fiéis esperavam, essas lideranças adotaram um discurso cada vez mais mentiroso e fatalista, mascarado de profecia, sobre um Brasil que se tornaria uma ameaça para cristãos, conservadores e defensores da "família tradicional".
Bolsonaro terá que decidir se deseja presidir o Brasil ou incendiar o circo
Mas profético mesmo era o discurso de Bolsonaro, usando passagens bíblicas e falando de "Deus acima de todos" como defesa da fé cristã, mas, desde sempre, sendo um catalisador e mobilizador de um movimento fundamentalista com o qual ele pudesse contar no futuro, quando estivesse pronto para destruir a democracia e impor sua agenda de extrema-direita.
Versículos bíblicos como "Conhecereis a verdade e a verdade o libertará" (retirados do Evangelho de João) e expressões como "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos", além da frequente reafirmação de que "o Brasil é um país de maioria cristã", têm sido a linguagem da imposição de uma gradativa soberania cristã.
Nunca importou que o governo Bolsonaro e seus mais cegos apoiadores respeitassem a verdade. Sentem-se confortáveis em meio a uma rede de mentiras e especulações feitas para manipular a opinião pública e inflar o radicalismo fundamentalista.
Não surpreende que Bolsonaro tenha conseguido a proeza de reunir em torno de si —e com forte apoio— os principais nomes do conservadorismo fundamentalista e reacionário do campo evangélico brasileiro.
A narrativa de "prioridade do cristianismo" supostamente por sua maioria e a construção de uma ideia de "perseguição religiosa" aos cristãos, principalmente evangélicos, tornaram-se fundamentais para legitimar a formação de uma supremacia conservadora religiosa, que tem prejudicado consideravelmente a condição da democracia no Brasil.
A ideia do "Deus acima de todos" é, numa análise fria, uma expressão cujo pêndulo se inclina mais para o fascismo do que para qualquer vestígio bíblico. Nas narrativas bíblicas, somente em dois contextos o nome de Deus foi utilizado ou qualquer ideia semelhante a colocar "Deus acima de tudo e de todos":
- O contexto em que havia uma disputa direta entre divindades, como é narrada no Primeiro Livro dos Reis, no capítulo 18, em que o profeta Elias desafia os profetas que representam a divindade Baal. Na disputa, os profetas de Baal são derrotados porque o deus deles não responde e todo o público que assiste passa a reconhecer que só o deus de Elias "é Deus".
- O segundo é em contextos bélicos, em que a afirmação é feita como parte de uma narrativa de enfrentamento de um inimigo que deve ser derrotado e dominado. Há diversos textos em que, numa compreensão bélica de um Deus guerreiro, o povo de Israel é autorizado a ocupar territórios e destruir povos inteiros. Há isso em livros como Josué e o Segundo Livro dos Reis.
Neste segundo contexto, tudo era feito para que não restasse dúvidas de que Deus seria o "Senhor dos Exércitos" e aquele cuja demonstração de poder o colocava de fato "acima de tudo e de todos".
Parece que estamos nesse contexto.
Para Bolsonaro, seu governo e seus profetas, 7 de Setembro é o dia de demonstrar força e poder contra os seus inimigos. Se possível, eliminar os inimigos. Eis a expressão 'Deus acima de todos' que sai da mente e da boca de Bolsonaro e seu exército pastoral bolsonarista. Ela está ancorada em uma tradição de violência, hostilidade, domínio e demonstração de superioridade."
Mas ao contrário desta compreensão ultrapassada debruçada sobre trechos do Antigo Testamento, a afirmação majoritária sobre Deus é de que ele não se coloca "acima", mas "ao lado". Esta é a compreensão dos profetas e autores bíblicos diversos que, ao descreverem Deus, pensaram situações de horizontalidade, de igualdade, mais do que em uma perspectiva hierárquica.
Além disso, basta lembrar das palavras de Jesus Cristo registradas no capítulo 18 do Evangelho de Mateus, que, ao ser perguntado pelos discípulos sobre quem entre eles seria o maior no Reino dos Céus, respondeu pegando uma criança como exemplo e disse que, se eles não fossem como uma criança na simplicidade e na humildade, eles sequer chegariam lá.
Pois os líderes evangélicos que têm insistentemente convocado o seu rebanho para o 7 de Setembro já atropelaram a mensagem do evangelho de Jesus Cristo há muito tempo.
Se encontraram razões para apoiar um admirador de torturadores, um entusiasta da militarização, um divulgador de mentiras, é porque há uma identificação entre eles e Bolsonaro. Aqui, nesse caso, Jesus e os seus ensinamentos é o que menos importa.
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Jamil Chade - Atos do 7 de setembro se transformam em preocupação internacional
Resumo da notícia
- Comissão Interamericana de Direitos Humanos indica que vai acompanhar as manifestações e qualifica a situação brasileira de "preocupante"
- O órgão não conseguirá enviar uma delegação ao país; entidades brasileiras solicitaram observadores da ONU e CIDH
- Situação amplia o constrangimento internacional do país e coloca diplomacias estrangeiras em alerta
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos informa que irá acompanhar as manifestações convocadas por aliados do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), no dia 7 de setembro. O objetivo será o de avaliar eventuais violações de direitos humanos por parte dos grupos e ataques contra setores que tentem defender a democracia. Não haverá, porém, o envio de uma delegação estrangeira ao Brasil.
Ainda assim, a situação é atípica no país e revela como os atos planejados para a próxima semana entraram na agenda internacional. A Comissão não esconde que existe uma "grande preocupação" com a situação brasileira.
Em 2018 e 2020, a OEA já havia enviado missões para acompanhar as eleições no país. Mas o monitoramento de manifestação é considerado como raro numa democracia e ocorre apenas em situações como a da Venezuela ou outros países onde oposição e governo vivem um contexto de enfrentamento.
A decisão da Comissão Interamericana de acompanhar a crise ocorre depois que o Conselho Nacional dos Direitos Humanos solicitou que a ONU e o órgão hemisférico fossem acionados.
O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) é um órgão colegiado que tem por finalidade a promoção e a defesa dos direitos humanos no Brasil. A entidade é formada por 11 representantes da sociedade civil e 11 do poder público, incluindo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais do Ministério Público dos estados e da União (CNPG) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Em cartas obtidas pela coluna e enviadas para as Nações Unidas e para o órgão americano, o Conselho pediu que o monitoramento internacional ocorresse principalmente nas cidades de São Paulo e Brasília e alerta que a ameaça à democracia é "iminente".
O objetivo dos observadores seria relatar violações aos direitos humanos de quem defende a democracia brasileira. Os ofícios foram endereçados ao representante regional do Alto Comissariado das Nações Unidas, Jan Jarab, e à presidenta da CIDH, Antonio Urrejola.
Pelo curto prazo até o 7 de setembro e pelos protocolos por conta da covid-19 e as negociações necessárias com os governos, a CIDH não conseguirá destacar um grupo internacional ao país.
Mas, segundo fontes em Washington, o clima no Brasil vem deixando entidades alarmadas com o risco de uma desestabilização política.
Um acompanhamento internacional não significa nenhum tipo de ingerência externa no país. Mas amplia o constrangimento sobre o governo de Jair Bolsonaro, com sua reputação pelo mundo já profundamente afetada.
Também chamou a atenção dos organismos o fato de que, no material convocando os atos, a ala mais radical do bolsonarismo preparou vídeos em inglês, explicando aos estrangeiros o objetivo das manifestações.
Se a CIDH já se pronunciou, por enquanto a ONU se mantém em silêncio diante do pedido feito pela entidade brasileira.
Na carta, o Conselho indica que, «além de ameaçarem que não haverá eleições presidenciais em 2022, ao passo em que se aproxima a data comemorativa da Independência do Brasil, 7 de setembro, setores antidemocráticos amparados pelo presidente da República têm propagado ameaças de um golpe de Estado".
"Por esse motivo, à medida que crescem em intensidade e magnitude as ameaças de um golpe em 7 de setembro, o CNDH dirige-se ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos solicitando que sejam designados observadores externos, especialmente às cidades de Brasília e de São Paulo, para relatar violações aos direitos humanos dos que defendem a democracia brasileira", solicita.
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Ultimatum para Bolsonaro

Ele quis o voto impresso. Barroso se opôs e o Congresso rejeitou. Ele quis cassar Alexandre de Moraes. O Senado rejeitou.
Agora, Bolsonaro diz que o 7 de Setembro será um ultimatum a ministros do STF.
Ou seja: ignorou as decisões legais de outro Poder e resolveu incitar a população contra o Supremo. Quer o voto impresso no grito e a destituição de Moraes na marra.
Nunca se viu nada parecido na história recente do Brasil.
Presidente que tenta impedir o livre exercício dos poderes Legislativo e Judiciário, que é o que ele está fazendo à luz do dia, está sujeito a impeachment, segundo a Lei 1079 da constituição federal.
O 7 de setembro deve ser um ultimatum para ele: ou para de conspirar ou será cassado.
__________* O Brasil sobreviverá a Bolsonaro - Emir Sader
Por Emir Sader

Ele veio para destruir. Disse com todas as letras. Como se tudo o que tivesse sido construído, especialmente durante o governo do PT, tivesse sido negativo e tivesse que ser destruído.
Essa é a versão popular da tese do Estado mínimo do neoliberalismo, segundo a qual se trata de reduzir tudo o que tiver que ver com o Estado à sua expressão mínima, para dar lugar à centralidade do mercado.
A ideia do neoliberalismo é que a ação do Estado falseia as condições de liberdade do mercado, favorece os setores menos competitivos, seria fonte de incompetência, de corrupção.
Um processo que tinha sido colocado em prática por Fernando Collor e por FHC nos anos 1990. A economia só voltou a crescer e a gerar empregos, quando essa estratégia foi negada e superada pelos governos do PT.
A economia voltou a crescer pela retomada dos investimentos estatais, pela elevação dos salários sempre acima da inflação, pela geração de milhões de empregos com carteira de trabalho. Foi um papel virtuoso, que não se espelhou nos debates públicos, que continuaram a manter a criminalização do Estado, pelos argumentos reiterados dos analistas da mídia, apologetas da economia de mercado.
O golpe de 2016 permitiu à direita retomar a destruição, com o governo Temer e, agora, com o governo Bolsonaro. Ela consiste na privatização de patrimônio público, com processos de privatização, que tiram empresas da esfera estatal e a colocam em mãos de grandes monopólios internacionais, muitas vezes estatais.
Consiste no corte radical de recursos para políticas públicas, especialmente de saúde e educação. Consiste, também, na promoção de todo tipo de trabalho precário. Consiste no abandono em qualquer forma de regulação do mercado por parte do Estado.
Consiste no fortalecimento da centralidade do mercado, típica do neoliberalismo. Na aceleração do processo de mercantilização das relações sociais, transformando em mercadoria o que era direito. Segundo a concepção neoliberal de que tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra, em que o consumidor é o sujeito central.
Com Bolsonaro, o Brasil, e não apenas o Estado brasileiro, passou por um processo de mercantilização, de degradação dos direitos das pessoas, de precarização da vida da maioria das pessoas.
Bolsonaro veio a destruir, não a construir nada. A retirada do Estado permite a deterioração das condições de vida da grande maioria das pessoas. O país vive a situação de maior miserabilidade que já teve na sua história. O Estado deixa abandonada a maioria da população, que luta para sobreviver nas condições mais penosas.
Bolsonaro terá que deixar a presidência deixando um Brasil miserável e faminto. Um país desfeito dos direitos das pessoas.
Mas o Brasil sobreviverá a Bolsonaro. Há forças democráticas suficientes para derrubá-lo e empreender a reconstrução do país.
Há consciência plena de que o país não pode continuar assim. Há uma grande maioria insatisfeita, que rejeita Bolsonaro e seu governo.
O favoritismo do Lula para ganhar, até no primeiro turno, expressa essa vontade popular de reconstrução do país, de retomada da democracia, do crescimento econômico e da geração de empregos.
Me lembro de ir a Brasília ver João Figueiredo sair do governo e terminar o ciclo da ditadura militar. Espero voltar a ir a Brasília para, senão ver o Bolsonaro abandonar o governo em helicóptero, como fez Donald Trump, pelo menos ver um presidente eleito pela grande maioria dos brasileiros, voltar à presidência, para comandar a reconstrução do Estado brasileiro e do Brasil como país, como nação e como democracia.
__________*Bolsonaro não é a única ameaça no horizonte - Evilázio Gonzaga Alves
Por Evilázio Gonzaga Alves

Os últimos movimentos do andar de cima do capitalismo indicam que independentemente do método de remoção do gângster da presidência, a direita liberal não desistiu de fabricar um candidato competitivo, para disputar as eleições de 2022. Dinheiro não vai faltar.
Ninguém pode prever como será o futuro. Entretanto é possível traçar cenários prováveis com um bom sistema de informações, que inclui pesquisas, coleta e processamento de dados relevantes.
As pesquisas indicam acelerada corrosão do bolsonarismo e os dados relevantes sugerem que os grupos fundamentalistas ou oportunistas, que apoiam o governo miliciano, poderão tentar tumultuar o cenário político no Sete de Setembro. É impossível saber se terão sucesso ou não.
Porém é perceptivo que as instituições da república, todas elas controladas pelas oligarquias brasileiras, se movimentam para esvaziar o potencial de violência dos apoiadores do gangster, que está na presidência.
O STF, a partir do ministro Alexandre de Moraes, amplia sua ofensiva sobre as bases financeiras e de propaganda da quadrilha bolsonarista. As investigações já atingem membros da família do capo miliciano.
Enquanto isso, a CPI avança desvendando um gigantesco esquema de corrupção, que foi instalado ainda no governo Temer e envolve a família Bolsonaro, oficiais das forças armadas, políticos golpistas do centrão, empresas e entidades do setor de medicina (inclusive o CFM), bancos, empresários gananciosos, lobistas e gangsters. A corrupção que vai sendo desvendada ocorre no ministério com o segundo maior orçamento da União e provocou centenas de milhares de óbitos, que não ocorreram somente pela pandemia do Covid19.
O descalabro na saúde faz supor esquemas semelhantes no ministério da educação, para o qual é destinado o maior orçamento do Brasil. É preciso investigar.
BILIONÁRIOS SE MOVIMENTAM
Enquanto isso, os setores mais poderosos do capital romperam com Bolsonaro, o que é sinalizado pelo manifesto lançado pela Febraban e por declarações dos superbilionários brasileiros, que desta forma rompem com os degraus mais baixos do capitalismo tupiniquim. Isso ocorre porque os interesses do andar de cima do capitalismo brasileiro, dominado pelo setor financeiro e os exportadores de commodities em grande escala (minerais, proteínas, grãos e essências), são globalizados. A desmoralização da marca Brasil é ruim para os negócios dos players globais.
As informações recentes indicam que os superbilionários brasileiros – cerca de 65 pessoas – e seus parceiros internacionais se movimentam intensamente para remover Bolsonaro do poder.
Pelas declarações dos representantes do andar de cima do capital, o projeto é retirar Bolsonaro e o desgastado Paulo Guedes, considerado incompetente pelo sistema financeiro, para manter um neoliberalismo mitigado – significa com alguma preocupação social, conforme tem declarado Armínio Fraga em suas entrevistas.
Sem saber o que discutem o baronato principal do capitalismo e os seus operadores, na intimidade do instituto Milleniun ou dos salões, não é possível determinar se o neoliberalismo mitigado de Armínio Fraga e Pérsio Arida caminhará na direção do novo New Deal do presidente Biden.
ANDAR DE CIMA DO CAPITALISMO NÃO DESISTE DA TERCEIRA VIA
De qualquer forma, essa gente tem um plano, que envolve a remoção de Bolsonaro – por impeachment, pela cassação da chapa com Mourão, ou nas próximas eleições. Os últimos movimentos do arco de alianças comandado pelo andar de cima do capitalismo indicam que independente do método de remoção do gângster da presidência, eles pretendem fabricar um candidato competitivo, para disputar as eleições de 2022. Dinheiro não vai faltar.
As movimentações para produzir um candidato viável, aparentemente, já começaram com alguns analistas forçando a barra para sugerir que as pesquisas abrem espaço para o surgimento da terceira via. Em uma análise mais cuidadosa é quase impossível chegar a esta conclusão, o que insinua uma ação orquestrada – difícil saber.
Porém, o sinal mais evidente do início da fabricação de uma terceira via competitiva é o anúncio da participação da Globo nos processos internos do PSDB. A empresa vai transmitir os debates dos pré-candidatos, que participarão das prévias do partido. Na prática a Globo se assume como órgão oficial dos tucanos.
Se a ideia prosperar, é um assunto tão ou mais sério do que o bolsonarismo (que se não ocorrer um trauma nacional grave está derrotado), para ocupar as preocupações do campo democrático. Quem se lembra de 2013 e 2016 sabe que não é prudente menosprezar o poder da Globo.
Rede Globo quer usar concessão pública para transmitir prévias do PSDB e golpear a lei e a democracia… De novo!
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Quem vai deter Bolsonaro? - Antônio Carlos Silva

Antônio Carlos, DCO
Nos aproximamos do 7 de setembro em meio a uma enorme turbulência econômica e política.
Com quase 600 mil mortos “oficiais” e recordes de fome, miséria e desemprego, que atingem a maioria do povo trabalhadora, a situação tem características explosivas, diante da revolta popular e leva a atritos cada vez maiores entres as frações da burguesia que se uniram e há cinco anos, consumaram a primeira etapa do golpe de Estado, em 31 de agosto de 2016, quando o mafioso Senado Federal, afastou definitivamente a presidenta Dilma Rousseff (PT).
Nessas condições, o presidente ilegítimo, Jair Bolsonaro – pressionado pela direita golpista, que usou da força que detém em setores mais conservadores do aparato burocrático do regime golpista (como o Senado Federal e o STF) para atacar-lo até mesmo de forma ilegal e arbtitrária – busca contra atacar mobilizando suas bases reacionárias para atos no dia 7 de setembro.
Bolsonaro agiu para mobilizar suas tropas reacionárias. Realizou eventos com latifundiários e empresários – principalmente do setor rural -, participou de encontros como a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), em Brasília, organizado por um instituto que tem o deputado federal Eduardo Bolsonaro como presidente e, acima de tudo, tratou de mobilizar os setores reacionários com intensa agitação junto às igrejas que lhe apoiam, aos quartéis da Polícia Militar, das Forças Armadas e outros setores decompostos que servem de sustentação ao “bolsonarismo”. De quase todas as regiões do País (com recursos estatais e de capitalistas que o apoiam), os bolsonaristas organizaram caravanas com o objetivo claro de realizar uma demonstração de força nos atos, principalmente, de São Paulo e Brasília, onde ele anunciou presença.
Mais do que a pregação ou “ensaio” para um golpe de Estado que aprofunde a ditadura vigente e o predomínio dos militares (já são mais de 6 mil em postos de comando no Executivo) e de seus comparsas sobre o regime político, trata-se de um contra-ataque diante da investida dos setores mais reacionários e mais poderosos da burguesia golpista que procuram conter Bolsonaro (não querem derrubá-lo) e impor algum controle sobre o governo improvisado, por meio da segunda etapa do golpe de Estado. A operação em torno dos atos se somou a outras iniciativas, como a campanha em favor do voto impresso, que obteve maioria dos votos na Câmara dos Deputados (229 votos favoráveis, 218 contrários e uma abstenção), apenas não alcançando a maioria necessária para se tornar Lei. Isso evidenciou o crescimento do “bolsonarismo” que se elegeu com o apoio apenas de alguns poucos deputados. Outra iniciativa foi o pedido de impeachment – rejeitado – contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, autor de ações arbitrárias (como a prisão sem condenação e sem o devido processo legal) de aliados de Bolsonaro.
Frente à reação de Bolsonaro, as principais organizações da burguesia golpista se mostram impotentes e covardes, sem apoio popular para liderar uma oposição real contra o governo atual, uma vez que seus chefes, como Doria, e partidos são mais odiados pelo povo explorado que Bolsonaro). Assim, apostam no agravamento da crise para tentar se livrar de Lula e da esquerda e impor a “terceira via”, em mais uma etapa do golpe de Estado.
Enquanto tramam a terceira etapa do golpe, mais uma vez (como na segunda) contra Lula e o povo brasileiro, impulsionam e pressionam o governo pela aprovação/imposição das principais medidas de ataques aos trabalhadores diante da crise, como as privatizações, a reforma administrativa e outras que transferem o ônus da crise para os trabalhadores e favorecem o grande capital imperialista e “nacional”. Ao mesmo tempo em que claramente recuava diante da iniciativa de Bolsonaro, João Doria (PSDB), por exemplo, deu preferência (por meio da PM) na cessão da Avenida Paulista para Bolsonaro e seus aliados desfilarem em campanha pelo golpe e, de quebra, ainda tentou impedir o ato da esquerda em todo o estado de São Paulo.
A direita “científica”, que se disfarça de centro, não é obstáculo ao avanço da ofensiva da extrema-direita contra o povo. No fundamental, apoia os aspectos centrais da política adotada por Bolsonaro e apenas gostaria de substituí-lo por um elemento de maior confiança, ainda mais afinado com seus interesses, que contivesse a polarização política que ameaça a estabilidade do regime golpista. Querem a “pacificação” à custa da manutenção do genocídio, recorde de fome, desemprego e todo sofrimento do povo, à custa da entrega do País para eles mesmos e seus chefes imperialistas. Enquanto isso, buscam preparar a terceira etapa do golpe, para tirar ou derrotar Lula em eleições fraudulentas.
Para se opor a todas essas manobras, a classe trabalhadora, suas organizações de luta e toda a esquerda precisam reagir para derrotar Bolsonaro e todos os golpistas.
Isso porque, a única força real capaz de deter a ofensiva de Bolsonaro e de toda a direita, é a mobilização nas ruas da classe trabalhadora, da juventude e demais setores explorados.
A convocação de mais de 200 atos (e podem ser ainda mais) pela esquerda em todo o País, bem como em diversas cidades no exterior, com expectativa de que outra vez centenas de milhares de pessoas saiam às ruas, demonstram, uma vez mais, que há uma ampla tendência de luta, capaz de derrotar e derrubar o governo. Isso, apesar da vacilação de setores dirigentes da esquerda burguesa e pequeno burguesa e da burocracia sindical que sabotaram os atos do dia 18 de agosto e demoraram para convocar os atos de 7 de setembro. Em alguns casos (como do deputado Marcelo Freixo, do PSB-RJ), até fizeram campanha contra os atos.
Também foram notórias as tentativas de conter a mobilização, colocando-a sob a tutela do tradicional e conciliador movimento Grito dos Excluídos, tradicionalmente liderado por setores vinculados à Igreja Católica, há quase 30 anos, e que sequer coloca como centro das atividades o Fora Bolsonaro. Isso se soma à clara ilusão de setores da esquerda – destacadamente os defensores da frente ampla com a direita golpista, como o PCdoB e a direita do PT – de que a situação vai ser resolvida pela “oposição” parlamentar a Bolsonaro (a mesma que vota com os bolsonaristas em tudo contra os trabalhadores e que, nem mesmo formalmente, apoia sequer um dos mais de 120 pedidos de impeachment protocolados na Câmara), por meio do palanque de campanha eleitoral da direita que é a CPI da pandemia ou por outras instituições dominadas pela direita, como o Judiciário, que estão arregando diante da iniciativa de Bolsonaro.
É preciso superar essa vacilação, bem como a crença – sem base na realidade – de que o povo pode esperar até 2023 – com a possível posse de um novo governo – para resolver a situação de fome, desemprego e miséria atuais, e que se pode confiar cegamente na via eleitoral, já que a mesma direita que derrubou Dilma, prendeu Lula etc., iria garantir eleições minimamente democráticas, nas quais o candidato com imenso apoio popular, Lula, possa ser vitorioso; sem que haja uma derrota prévia dos golpistas, por meio da mobilização popular.
Toda essa ilusão e vacilação, leva à busca de uma frente com a direita golpista, agora e no processo eleitoral, e mantém Lula afastado dos atos, quando ele é um fator de mobilização capaz de apressar a derrota de Bolsonaro e de toda a direita.
A esquerda se apresentou unida em torno da decisão de convocar os atos. Mas é preciso ir muito além. É necessário tirar as devidas conclusões do período recente em que a direita agiu para sabotar e paralisar a mobilização, as quais se ressentem ainda de um amplo processo de mobilização a partir dos locais de trabalho, moradia e estudo, que sirva para mobilizar, convocar e garantir condições para trazer para as ruas os pelotões dos setores decisivos da classe trabalhadora, como os metalúrgicos, petroleiros, trabalhadores dos Correios, servidores públicos, professores, bancários, os sem-terra etc., além de amplos setores da juventude trabalhadora e estudantil.
A CUT, os sindicatos, o MST e demais organizações populares e da esquerda têm que realizar um balanço da evolução dos acontecimentos, das derrotas e criar as condições para uma mobilização capaz de derrotar Bolsonaro e toda a direita.
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Caguei - Ediel Ribeiro

Se tem um órgão do Governo Federal que trabalha - e muito - é o Departamento de Recuos e Desmentidos (DRD).
Ligado à Secretaria de Comunicação - SECOM - o DRD funciona numa salinha nos fundos do Palácio do Planalto, ao lado do gabinete do ódio, sob o comando do secretário especial André de Souza Costa.
Todo mundo sabe que uma das funções mais importantes no governo, hoje em dia, é a de recuar e desmentir as histórias do capitão e de sua prole.
Se o presidente ficar adulterando fatos, desmentindo e fraudando todo tipo de informação, daqui a pouco ninguém mais vai acreditar nas suas declarações.
Depois que a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar se Bolsonaro prevaricou no caso de supostas irregularidades na negociação de compra da vacina indiana Covaxin, o presidente anda bastante agitado.
Quando o secretário entrou no gabinete do presidente, o capitão estava soletrando a palavra PRE-VA-RI-CA-ÇÃO.
- O que o senhor está fazendo, presidente? - perguntou o secretário.
- Estou tentando entender o que significa a palavra ‘prevaricação’.
- Prevaricação é o crime cometido por funcionário público quando, indevidamente, este retarda ou deixa de praticar ato de ofício, ou pratica-o contra disposição legal expressa, visando satisfazer interesse pessoal - explicou o secretário.
- Então isso daí não tem nada a ver com a minha pessoa. Pelo que eu entendi é uma pena aplicada a funcionários públicos, não ao presidente da República.
- Desculpe, senhor, mas o presidente é um funcionário público - ponderou o secretário.
- Que seja. Mas querer o meu impeachment por causa de um pedido de 1 dólar (hic!) de propina já é demais. Tão fazendo uma tempestade num copo d'água por um ‘trocinho’ desses daí?
- A propina pedida foi de 1 dólar por dose, presidente, e eram 400 milhões de doses. Logo, a propina era de 400 milhões de dólares! Dizem até que já há indícios, inclusive, da participação da primeira dama na negociação com a Covaxin - pigarreou o secretário.
- Zero! A Michelle não tem nada com essa compra de vacina. Zero. Isso é coisa do Ricardo Barros, taokey?
- O senhor, então, vai dizer que a culpa é do seu chefe de governo?
- Claro que não! O Ricardo Barros é meu amigo, e, depois, ele é líder do Centrão; e você sabe, não é bom mexer com essa gente! Outra coisa: pedir impeachment por causa de um Fiat Elba, um triplex ou por causa de uma pedalada fiscal, até se justifica, agora, querer ‘impixar’ um presidente por causa de 1 dólar, já é demais!!
O presidente soltou um soluçou (hic!):
- Isso é uma CA-LU-NIA!! Estão querendo envolver minha família nisso daí, taokey (hic!). Primeiro foi a tentativa de envolver minha família no caso das ‘rachadinhas’, agora querem provar a participação da minha mulher na compra (hic!) da Covaxin.
- Os investigadores estão estranhando a movimentação financeira atípica e a compra de diversos imóveis, loja de chocolate, carros e mansões, pelos seus filhos.
- O que é que eu tenho com isso daí. Filho é filho, não é parente. Os meus filhos são empreendedores. Puxaram o pai. Fazer o quê? Eu quando estava no Exército já terceirizava a pintura do meio-fio da minha unidade. Eu sempre fui assim, entende? Era uns rolos que a gente fazia para conseguir uns trocados pra ‘comer gente’, taokey?
O secretário insistiu:
- Não é um dólar, presidente, são 400 milhões de dólares! o valor da propina, no contrato da Covaxin, daria para comprar milhares de Fiat Elba, centenas de triplex e, quanto as pedaladas, diversos presidentes já haviam dado, antes da presidente Dilma.
- Eu não sei de nada, no tocante a isso daí. Não sei de preço de carro. Quem ficou rico vendendo carro foi o Fabrício Queiroz. Pergunta pra ele!
- Os integrantes da CPI da Covid-19 disseram que o senhor prometeu acionar a Polícia Federal quanto às irregularidades na compra da vacina e não o fez! Acharam um absurdo o governo ter comprado a vacina mais cara de todas, sem a aprovação da Anvisa, e, ainda por cima, em tempo recorde; enquanto na negociação com a Pfizer levaram 365 dias para fechar a compra. E tem mais! A compra tinha como intermediária uma empresa cheia de pendências na justiça brasileira. O que o senhor vai dizer para a CPI?
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STF traça estratégia de guerra contra golpismo de Bolsonaro no 7 de setembro

Por Ricardo Brito (Reuters) - O Supremo Tribunal Federal (STF) passou a adotar uma série de medidas para se contrapor a eventuais excessos que possam ocorrer nas manifestações do feriado de 7 de setembro, preocupado com ameaças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro e aliados dele, disseram fontes da corte com quem a Reuters conversou nos últimos dias.
A linha de atuação do Supremo em relação às manifestações terá duas principais balizas.
A primeira é a da responsabilização penal, com punições e até prisões, para quem financiar ou se envolver em atos de violência ou defender pautas antidemocráticas, como o fechamento do STF. A segunda é a da garantia da integridade dos ministros do STF e do prédio do Supremo, localizado na Praça dos Três Poderes, onde Bolsonaro deverá participar de atos na manhã do feriado de terça-feira.
Os ministros do Supremo têm se mostrado preocupados não do ponto de vista da integridade individual, mas em relação à amplitude da manifestação, disse uma fonte. A avaliação, disse a fonte, é que se houver um pedido em massa de fechamento do STF isso pode fragilizar o tribunal do ponto de vista institucional. Por isso, a atuação de Bolsonaro --insuflando ou não apoiadores-- poderá ser decisiva sobre o caso.
Após ameaças e recuos nos últimos dias, o presidente elevou o tom nesta sexta-feira dizendo que as manifestações servirão como um ultimato a ministros do Supremo, dizendo que uma ou duas pessoas querem pela força do poder dar novo rumo ao país.
Embora não tenha citado nomes, os alvos preferenciais de Bolsonaro são os ministros Alexandre de Moraes, que conduz uma série de investigações contra ele e aliados, e Luís Roberto Barroso, que preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e fez oposição aberta ao derrotado projeto de adoção do voto impresso nas urnas eletrônicas -- bandeira cara ao chefe do Executivo.
Nos últimos dias, segundo quatro fontes ouvidas pela Reuters, ministros conversaram entre si sobre as preocupações em relação aos atos. O nível de inquietação varia de uma apreensão baixa, em que não haverá incidentes e contará com baixo comparecimento, a uma elevada, em que grandes protestos podem tomar conta do país e, em especial de Brasília, com atos que podem descambar para depredação de prédios e até uma tentativa de ruptura com apoio de extremistas e de policiais militares bolsonaristas.
Por essa razão, em ações individuais, ministros começaram a expor publicamente a linha que divide manifestações democráticas das que defendem pautas ilegais.
No final de semana, o ministro Ricardo Lewandowski escreveu um artigo para o jornal Folha de S.Paulo em que destacou serem crimes imprescritíveis e inafiançáveis a ação de grupos armados civis ou militares contra a ordem constitucional e a democracia.
Na quinta-feira, foi a fez do presidente do Supremo, Luiz Fux, ter pregado responsabilidade para aqueles que vão participar das manifestações e alertado para eventuais consequências jurídicas ao destacar a necessidade que os atos sejam pacíficos.
"Esta Suprema Corte --guardiã maior da Constituição e árbitra da Federação-- aguarda que os cidadãos agirão em suas manifestações com senso de responsabilidade cívica, respeito institucional e cientes das consequências jurídicas dos seus atos, independentemente da posição político-ideológica que ostentam", disse.
A manifestação de ambos não foi combinada com os pares do Supremo, mas foi bem recebida na corte, segundo as fontes.
"As autoridades estão tomando todas as cautelas para evitar que excessos ocorram. Tomara que não ocorram", disse um ministro do STF à Reuters, sob a condição do anonimato em razão da delicadeza do caso.
"Não acredito que, na prática, vá ocorrer algo mesmo com essas declarações do presidente", emendou esse magistrado, após a fala de Bolsonaro sobre ultimato na sexta. "As pessoas têm visto que podem ter consequências", reforçou ele, após elogiar a fala da véspera de Fux.
SEGURANÇA MÁXIMA
Na outra frente de atuação, o prédio do Supremo e as pessoas que nele estiverem no dia da manifestação vão contar com segurança reforçada pela equipe da própria corte e também com o apoio das forças de segurança pública do Distrito Federal, segundo comunicado divulgado pelo tribunal.
Por razões estratégicas, detalhes do efetivo a ser empregado para blindar o STF --e também para reforçar a segurança individual de cada um dos ministros do Supremo e dos familiares deles, se quiserem-- não foram divulgados, segundo uma das fontes.
O prédio-sede do TSE, que fica fora da Praça dos Três Poderes e distante cerca de 2 quilômetros do Supremo, também vai contar com um reforço na segurança, disse uma fonte à Reuters. Tanto TSE quanto o STF terão ponto facultativo no dia 6, véspera do feriado, e têm contado com a maioria dos servidores trabalhando remotamente em razão da pandemia de Covid-19.
No caso do TSE, a avaliação de uma das fontes é que o foco das manifestações está no Supremo e que a pauta do voto impresso arrefeceu após o avanço da proposta ter sido barrada no plenário da Câmara no início do mês passado.
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Eleição contamina reação a Bolsonaro nas ruas e trava manifestação unificada da oposição
Enquanto bolsonaristas prometem mobilização histórica, detratores preveem divisão do público
As oposições a Jair Bolsonaro à esquerda e à direita convergem no discurso de que é preciso dar uma resposta também nas ruas ao ato de raiz golpista insuflado pelo presidente para este 7 de Setembro, mas, fragmentadas por interesses ligados às eleições de 2022, travam na falta de uma reação unificada.
Com a contaminação, manifestações contrárias ao governo tendem a manter como pano de fundo o apoio ou rejeição a pré-candidatos à Presidência. Oficialmente, líderes de movimentos e de partidos por trás das convocações falam que as pautas não se misturam, mas nos bastidores as resistências são muitas.
Bolsonaro e aliados têm se esmerado nos chamados para os atos do Dia da Independência, na próxima terça-feira, e buscam reunir multidões para embasar a retórica de amplo apoio popular. Pesquisa Datafolha de julho mostrou recorde na reprovação do presidente, rejeitado por 51% dos brasileiros.
Os principais palcos dos atos favoráveis serão a avenida Paulista e a capital federal. Bolsonaro, que confirmou presença nos dois locais, anuncia o levante como algo histórico e dissimula as pretensões de ruptura da ordem institucional e democrática que estão na raiz da mobilização.
À frente de quatro protestos de oposição desde maio, a Campanha Nacional Fora Bolsonaro tem forte influência do PT e de setores que apoiam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atual líder das pesquisas. O fórum é composto majoritariamente por partidos e coletivos de esquerda.
Ao longo do tempo, no entanto, o grupo conseguiu adesões de forças não alinhadas a Lula, com a participação de instâncias de legendas como PSDB e Cidadania, do PDT do presidenciável Ciro Gomes, crítico da candidatura do petista, e dos movimentos Acredito, Agora! e Livres.
A campanha tem manifestações nacionais também neste dia 7, organizadas em conjunto com o Grito dos Excluídos, promovido tradicionalmente na data por alas da Igreja Católica. Até esta sexta-feira (3), balanço parcial contabilizava a previsão de 176 atos em 168 cidades e quatro países.
Em São Paulo, o ato será no vale do Anhangabaú, escolhido após uma disputa pela avenida Paulista, que está reservada para os bolsonaristas, e um embate judicial com a gestão João Doria (PSDB), que chegou a proibir a realização no mesmo dia de protestos contra Bolsonaro, mas recuou.
"Tenho consciência de que nosso ato do dia 7 não vai ser grande", diz o líder estadual do Acredito, Marco Martins, que tem atuado pela aproximação de campos ideológicos. "Criou-se um clima de medo que é favorável ao bolsonarismo, mas precisamos estar lá e mostrar disposição de lutar pela democracia."
Martins admite também obstáculos para atos organizados por forças antagônicas no debate eleitoral. "Defendo que se coloquem as diferenças de lado pela democracia. Falta abrir mão [de interesses] por uma coisa maior, mas é difícil dissociar de 2022", diz ele, que é filiado à Rede Sustentabilidade.
Porta-vozes da campanha chegaram a conversar com MBL (Movimento Brasil Livre) e VPR (Vem Pra Rua), mas as divergências prevaleceram. Enquanto a esquerda remói mágoas com os grupos pelas marchas a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT), no outro lado a rejeição ao PT é regra.
MBL e VPR anunciaram em julho um protesto contra Bolsonaro para 12 de setembro, o domingo pós-feriado. Nos últimos dias, a mobilização ganhou conotação de apoio a uma terceira via para 2022, ancorada no mote "nem Lula nem Bolsonaro".
"Sempre deixei claro que sou a favor da ampliação, mas o que ouço de muita gente [na Campanha Fora Bolsonaro] é que há um desconforto de andar ao lado de quem está contra o Lula", diz Raimundo Bonfim, coordenador da CMP (Central de Movimentos Populares) e filiado ao PT.
Em conversas internas, mobilizadores tanto do dia 7 quanto do dia 12 avaliaram ser grande a chance de uma manifestação volumosa dos apoiadores do presidente, com o efeito colateral de que uma adesão menor aos atos contrários pode facilitar discursos distorcidos de Bolsonaro.
"Nós não estamos em um campeonato de uma partida só", afirma Bonfim, usando a analogia do futebol para sustentar que os protestos dos detratores têm ocorrido com regularidade e participação satisfatória, pulverizados por capitais e cidades médias no Brasil, além de outros países.
"É equivocado imaginar que apenas o Supremo [Tribunal Federal] e o Congresso são suficientes para barrar uma aventura golpista. A pressão das ruas é fundamental, um elemento indispensável", diz o representante da CMP.
Apesar dos acenos para fora, a participação na capital paulista dos diretórios municipais de PSDB e PDT foi atacada por integrantes do PCO. Militantes do partido chegaram a agredir tucanos na avenida Paulista em 3 de julho. Apoiadores de Ciro Gomes também relataram hostilidades.
O presidente do PSDB paulistano, Fernando Alfredo, diz que mantém a participação tucana nos atos dos dias 7 e 12, mas que a presença não tem caráter eleitoral. O diretório municipal anunciou ao longo da semana apoio a Doria nas prévias da legenda que escolherão o candidato a presidente.
"Estaremos em qualquer manifestação contra Bolsonaro, a favor da vida e da democracia. Não estamos indo para a rua para ideologia partidária ou para defender nome [de postulante]", afirma.
O presidente do diretório municipal do PDT, Antonio Neto, também prega a necessidade de deixar de lado a questão eleitoral e cobra maturidade das organizações envolvidas. "Estamos perdendo de vista o inimigo principal, que para mim é Bolsonaro. Se nos somássemos, teríamos mais força", diz.
Ele acusa de hipocrisia os setores que rechaçam contato com a direita sob o argumento de que ela patrocinou o chamado golpe contra Dilma. "Lula conversa com Renan [Calheiros], com Eunício [Oliveira]", lembra, citando políticos que estiveram nas articulações pelo impeachment.
Neto ecoa ainda a tese, difundida inclusive na esquerda, de que o PT não estaria tão empenhado assim na derrubada de Bolsonaro, mas apenas interessado em enfraquecê-lo o máximo possível até 2022 para polarizar o primeiro turno. A cúpula petista tem contestado a crítica e dito que ela não procede.
Segundo o dirigente do PDT, o diretório avalia participar do ato do dia 12, mas recomendou que filiados evitem ir às manifestações contra Bolsonaro na terça-feira por causa do risco de confrontos e violência nas ruas.
O PSB, que também se juntou às passeatas mais recentes da oposição, foi outro partido que desestimulou a ida de seus integrantes no dia 7 sob o argumento da insegurança.
Ao oficializar a orientação, o presidente nacional da sigla, Carlos Siqueira, sugeriu a realização em 19 de setembro "de uma grande manifestação de todas as forças políticas democráticas, juntamente com as organizações da sociedade civil que se opõem a pretensões ditatoriais" de Bolsonaro.
À Folha ele diz que pensou na data porque até lá daria tempo de organizar e mobilizar o ato. A Campanha Fora Bolsonaro não definiu ainda o dia do protesto seguinte ao de terça.
Embora diga que "os atos devem ter a maior amplitude possível" e reunir "todos os que são contra Bolsonaro", Siqueira descarta adesão ao dia 12. "Não podemos estar juntos com o MBL. É outra linha. Estamos com a esquerda, sempre que possível." O PSB é dado como certo pelo PT na aliança de 2022.
"Infelizmente, a questão eleitoral acaba por aparecer e atrapalhar. Minha avaliação é a de que estamos em um momento que não é esquerda versus direita, mas, sim, democracia versus autoritarismo. Sem negar as contradições [entre grupos], mas essa é a questão central", afirma o líder do PSB.
Segundo o coordenador nacional do MBL, Renan Santos, é "óbvio que a eleição contamina a percepção das pessoas sobre as manifestações", mas a do grupo passa longe de aspectos eleitorais. "Nosso foco é o 'fora, Bolsonaro'", resume. Ele afirma que o MBL não apoia candidato específico da terceira via.
"Estamos trabalhando com o mínimo denominador comum, que é o 'fora, Bolsonaro', para dar certo. A preocupação é que as pessoas compareçam e que seja um ato bonito. Não estamos escolhendo o público. Queremos mostrar que existe espaço para uma manifestação diferente das que estão aí", diz.
Representantes de partidos e pré-candidatos que tentam fabricar uma candidatura alternativa a Bolsonaro e Lula endossam o chamado para o dia 12. São os casos de Novo e PSL e de nomes aventados por esse campo, como os senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Simone Tebet (MDB-MS).
Ao anunciar a decisão da Secretaria da Segurança Pública, depois cancelada, de vetar manifestações antagônicas no Dia da Independência, o tucano disse que a oposição ao presidente poderia ir às ruas no dia 12. A fala irritou líderes da Campanha Fora Bolsonaro, que já estavam com o dia 7 agendado.
Para Santos, do MBL, unificação pode até ser discutida, mas com cláusulas. "Estamos abertos para conversar. Mas todos têm que estar dispostos a concessões. Não poderia cada um ficar brigando para pôr caminhão de som, faixa, bandeira. Precisaria 'baixar as armas' e se concentrar no foco principal."
A porta-voz do VPR, Luciana Alberto, diz considerar uma convergência difícil, mas não impossível. "É preciso ter diálogo, maturidade", afirma ela, partidária da terceira via. "Mas normalmente as manifestações de esquerda acabam sendo em defesa da candidatura de Lula."
Mesmo sem o engajamento da esquerda na organização, o ato do dia 12 poderá atrair simpatizantes desse campo ávidos por darem uma resposta à articulação bolsonarista do dia 7, crê a coordenadora do VPR. "Há um sentimento latente de negação aos radicais e extremistas que estão com Bolsonaro", diz ela.
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Opinião - Janio de Freitas: Provável intenção de Bolsonaro é situação conflituosa para exterminar democracia
Patético, mediocridade e vergonhoso são três ingredientes solidários dos atos de 7 de Setembro
Tudo pode acontecer no 7 de Setembro entre a mera reprise das manifestações bolsonaristas e, no outro extremo, eclosões de alta gravidade.
As ocorrências podem ser tão mais variadas quanto maior o número, que se anuncia alto, de cidades com manifestações programadas.
Em todo esse colar de imprevisões, já têm lugares assegurados três ingredientes solidários: o patético, a mediocridade e o vergonhoso.
É possível, mas sem indício nítido, que os pretendentes ao golpe obtenham o que lhes tem sido a carência impeditiva. Os militares bolsonaristas precisam de um pretexto, sem o qual sobram dificuldades até para conter a oficialidade restante, quanto mais para sustentar-se ante reações externas e o mal-estar interno.
Na atual situação do país, tudo deve ser pensado, creio, a partir desse problema político e técnico.
A agitação de Bolsonaro em Brasília será na parte da manhã. Como programa estar na onda paulista a meio da tarde, só por perda do controle haverá de manhã, em Brasília, ocorrências que o retenham aí. O risco forte chegaria à tarde. De encontro ao dispositivo de defesa que o Supremo e o Congresso consigam montar.
Sem confiar muito, é verdade, para outra vez enfrentar a situação patética de dois Poderes da República a proteger-se do governante que empossaram e sustentam no outro Poder.
As condições circunstanciais para um golpe já no 7 de Setembro precisariam de ações muito traumáticas do bolsonarismo, em especial nas ditas manifestações de São Paulo e Brasília.
E isso não se limita a arruaças. A provável intenção de Bolsonaro é iniciar uma situação conflituosa que, desenvolvendo-se, dê aos bolsonaristas militares o pretexto para exterminar a democracia "em defesa da democracia".
É o roteiro Trump, consta que elaborado pelo fascista Stefen Bannon, revisitado pelo discípulo Eduardo Bolsonaro no mês passado.
Trump discursou mandando os apoiadores para o Capitólio com a missão, puxada por incitadores, de deflagrar ali as circunstâncias impróprias para a instalação de um governo inexperiente, em organização, dali a duas semanas.
Se adiada a posse de Biden, que a campanha "Posse dia 20" inviabilizou, estaria dado o grande passo para a "solução pacificadora": anular a eleição contestada.
Aqui, Bolsonaro começou os ataques à eleição ainda na campanha, o que poderia ser um preparativo a arruaça e a intervenção militar em reação à esperada derrota.
Bolsonaro venceu, mas deixou, para posterior interpretação, os primeiros e inequívocos sinais de que sua candidatura veio de uma articulação externa. Assim como está indiciado sobre a Lava Jato, curitibana nas aparências.
No golpismo de Trump e do caudatário Bolsonaro, a convulsão pode ser vista como o trampolim para o golpe, sendo menos provável converter-se em golpe, propriamente.
Não falta quem anteveja neste 7 de Setembro já o começo da guerra civil. Isso exigiria alguma base armada no lado democrata, que não a tem (por ora?).
O dispositivo militar e policial de defesa da ordem constitucional já mostrou de que lado está: a rigor, é o lado em que esteve sempre que a ordem constitucional, os valores democráticos e os direitos civis foram envenenados —e logo sucumbiram.
Faltam militares e policiais autênticos. Nas instâncias civis, entre os encarregados de representar o Estado de Direito prevalecem a mediocridade, a venalidade política, a corrupção.
No patronato, o acúmulo de riqueza inútil é obsessivo e a indiferença pelos meios é o comum. Para esses segmentos, o país e suas multidões não têm interesse, é indiferente haver democracia ou autoritarismo, avanço ou retrocesso econômico, emprego ou pobreza: eles ganham sempre.
Por mais de dois anos e meio o Brasil vê, inerte, a construção de um golpe. Por criminosos e asseclas. Golpe que o inviabilizará talvez para sempre. Metade, ou mais, da população medianamente informada está aturdida. O país, parado, à espera.
É vergonhoso.
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Opinião: Bolsonaro terá que decidir se preside o país ou incendeia o circo

Josias de Souza Colunista do UOL 03/09/2021 18h14
Por maiores que sejam os atos convocados por Bolsonaro para 7 de Setembro —e eles não devem ser pequenos—, o presidente acordará no dia seguinte com os mesmos problemas sobre a mesa: a estagnação do PIB, a ruína fiscal, os reservatórios vazios, a crise institucional e a variante Delta. Arroubos e ultimatos não trarão o crescimento econômico, a bonança orçamentária, as chuvas, a harmonia entre os Poderes e o extermínio do vírus.
Nesta sexta-feira, alheio à realidade que engolfa o seu mandato, Bolsonaro foi à Bahia para assinar o contrato de concessão do trecho de uma ferrovia entre as cidades de Ilhéus e Caetité. Ao discursar, não disse uma palavra sobre os trilhos. Falou sobre o 7 de Setembro, sua obsessão. Expressou-se como se desejasse descarrilar as relações institucionais entre o Executivo e o Judiciário.
Bolsonaro referiu-se às manifestações de rua que convocou para o Dia da Independência como um "ultimato" do povo para uma ou duas pessoas do Supremo Tribunal Federal. Os dois desafetos do presidente, como se sabe, são os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, que integram também o Tribunal Superior Eleitoral.
O capitão reiterou que não precisa "sair das quatro linhas da Constituição." Mas avisou que sabe jogar à margem do campo constitucional. "Se alguém quiser jogar fora dessas quatro linhas nós mostraremos que poderemos fazer também valer a vontade e a força do povo." Seus devotos entoaram o coro de sempre: "Eu autorizo."
Na véspera, Bolsonaro dissera que o país está "em paz" e que "ninguém precisa temer o 7 de Setembro." Considerando-se a retomada do timbre bélico, o presidente não falava sério quando soou pacífico.
Os dicionários ensinam que ultimato é a palavra que se usa quando, numa guerra, o chefe militar exige a rendição do inimigo, sob a ameaça de obtê-la por meios mais violentos. Bolsonaro disse que não critica instituições ou poderes. Acha que está guerreando com duas pessoas. Engano.
O TSE e o Supremo avalizam Moraes e Barroso. Bolsonaro já responde a sete processos —quatro na Suprema Corte, três na Justiça Eleitoral. O presidente da Câmara, Arthur Lira, articulou para que os deputados enterrassem a proposta de voto impresso. O mandachuva do Senado, Rodrigo Pacheco, arquivou seu pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes.
Bolsonaro está mais isolado do que imagina. Em declínio nas pesquisas, confunde os devotos do cercadinho com o povo. A maioria dos brasileiros não quer fazer manifestação. Prefere fazer a barba —ou a maquiagem— antes de sair para o trabalho. Prefere fazer entrevistas de emprego.
No dia 8 de setembro, a conjuntura continuará cobrando de Bolsonaro uma definição. Ele precisa decidir se deseja presidir o Brasil ou tocar fogo no circo. Em 2022, o brasileiro, já bem chamuscado, irá às urnas para escolher um presidente, não um piromaníaco.
__________* Em aceno golpista, Bolsonaro ataca Supremo e diz que ruptura é alternativa
04/09/2021 13h11
Atualizada em 04/09/2021 14h43
Depois de um passeio de moto pelo agreste pernambucano, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez hoje um novo aceno golpista ao atacar o STF (Supremo Tribunal Federal) e afirmar que, caso ministros da Corte não sejam "enquadrados" pela população, há possibilidade real de ruptura institucional.
"[...] Ruptura essa que eu não quero e nem desejo. E tenho certeza nem o povo brasileiro assim o quer. Mas a responsabilidade cabe a cada poder. Apelo a esse poder que reveja a ação dessa pessoa que está prejudicando o destino do Brasil", disse Bolsonaro em discurso na cidade de Caruaru, em Pernambuco.

Liberais defendem que Guedes abandone reformas: 'vai piorar o que está ruim'
Caruaru foi o destino final uma "motociata" —termo cunhado pelos apoiadores do presidente em referência aos passeios de moto que ele tem feito pelo país. O evento começou em Santa Cruz da Capibaribe, também no agreste pernambucano, e passou pela cidade vizinha de Toritama. Houve diversos focos de aglomeração durante o trajeto.

Bolsonaro disse a apoiadores que, dentro do Supremo, há "um ou dois ministros" que estariam "prejudicando o destino do nosso Brasil". Ele se refere especificamente a Alexandre de Moraes e Luis Roberto Barroso (mas eles não foram citados nominalmente). Em movimento inédito na história da política brasileira, o chefe do Executivo federal tem tentado articular junto ao Senado para que sejam abertos pedidos de impeachment contra os integrantes da Corte.
"Temos um ou outro saindo da normalidade. Temos um ou dois jogando fora das quatro linhas da Constituição. Nós jogamos dentro das quatro linhas. Mas o povo, como poder moderador, não pode admitir que nenhum de nós jogue fora dessas quatro linhas."
Novamente com um discurso incongruente, que acena para um possível golpe, enquanto ao mesmo tempo indica a independência de cada Poder, o presidente citou sem apresentar provas, na visão dele, que o Supremo abusa do poder. "Não podemos admitir que um ou dois homens ameacem a nossa democracia ou a nossa liberdade".
Bolsonaro alegou que, caso um de seus ministros tenha "um comportamento fora da Constituição", o mesmo é repreendido por ele e, na hipótese de reincidência, demitido. Na visão do presidente, o mesmo deveria ocorrer no STF.
O STF não pode ser diferente do Poder Executivo ou Legislativo. Se tem alguém que ousa continuar agindo fora das quatro linhas da Constituição, o poder tem que chamar aquela pessoa e enquadrá-la. Se assim não ocorrer, qualquer um dos três Poderes... A tendência é acontecer uma rupturaJair Bolsonaro
A fala de Bolsonaro, no entanto, não corresponde às reais circunstâncias do funcionamento da Corte, que garante independência a seus membros na tomada de decisões. Em caso de divergências, há uma série de caminhos estabelecidos pelo regime democrático, como recursos, apelações, embargos e mandados de segurança. Não há qualquer tipo de respaldo à tese de ruptura institucional.
Barroso e Moraes viraram alvos do presidente após a Câmara rejeitar a PEC do voto impresso, na maior derrota do governo até aqui, e apoiadores bolsonaristas serem investigados pela PF (Polícia Federal) por incitação de violência contra Instituições.
"Ultimato"
Bolsonaro aproveitou a passagem pelo Nordeste para, mais uma vez, convocar seus apoiadores aos atos marcados para a próxima terça-feira, feriado de 7 de setembro —que devem esquentar ainda mais o já conturbado cenário político.
Segundo o presidente, a agenda de manifestações a favor do governo no aniversário da Independência seriam um "ultimato" a dois ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). A declaração, em tom ameaçador e golpista, foi dada ontem.
Na versão dele, se alguém "jogar fora" do que ele considera "as quatro linhas da Constituição", o chefe do Executivo federal poderá fazer o mesmo.
O "ultimato", porém, não depende da vontade do presidente ou de manifestações. A única forma de impeachment de ministros do STF é por meio de decisão do Senado. Recentemente, o governo teve um pedido de abertura de impeachment contra Alexandre de Moraes rejeitado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).
__________* Caravanas com PMs para Brasília e insurgências no Nordeste acendem alerta para 7 de Setembro
Governos estaduais monitoram possíveis atos de indisciplina, mas afirmam publicamente que não há clima para preocupação
A organização de caravanas rumo aos protestos de Brasília com a participação de policiais militares de outros estados e o clima tenso na relação entre parte das tropas e governos opositores ao presidente Jair Bolsonaro no Nordeste estão no centro das preocupações em relação aos protestos bolsonaristas de 7 de Setembro.
Em Mato Grosso, há relatos de policiais da ativa inscritos em caravanas que sairão de Cuiabá para o Distrito Federal. Em grupos privados, policiais da Bahia também se organizam para ir a Brasília e para participar do ato previsto para Salvador.
Governos estaduais monitoram possíveis atos de indisciplina, mas publicamente afirmam que não há clima para preocupação.

Enquanto isso, promotores da Justiça Militar e até juízes têm se movimentado para coibir a presença de PMs da ativa nos atos, reiterando leis e regimentos que impedem manifestações de caráter político-partidário.
Alguns evocam até mesmo as consequências de ações antidemocráticas segundo o Código Penal Militar, que prevê penas de 2 a 8 anos de prisão para crimes como incitação à indisciplina, conspiração e motim. No limite, esses crimes levam ainda à exclusão da PM.
“É preciso blindar as polícias de investidas da política ruim, que segue a cartilha do quanto pior melhor”, afirma o coronel da reserva Nylton Rodrigues, ex-comandante da PM do Espírito Santo, convocado para assumir a força diante da greve de 2017.
“Os policiais devem estar atentos porque [o chamado para os atos] é o canto da sereia. Políticos querem construir seu capital sobre as cinzas da população e da própria tropa. E sobram processos e graves problemas de saúde para os PMs”, avalia ele, para quem o Espírito Santo amadureceu desde a greve de cinco anos atrás.
Oficialmente, corporações refutam a tese de aderência de parcelas das tropas aos atos, enquanto oficiais e praças de alguns estados admitem haver colegas da ativa manifestando apoio ao presidente em grupos e redes sociais.
Para além da simpatia por um presidente que elogia policiais de maneira insistente, ainda que não tenha entregado promessas de campanha, as movimentações da categoria são movidas menos por ideologia do que por problemas como baixos salários, más condições de trabalho e falta de reconhecimento.
“O que os policiais se queixam é sobre o reconhecimento ao trabalho que fazem, arriscando suas vidas. Quando há um deslize pontual, se faz uma generalização. Toda a instituição termina sendo execrada, e os policiais se ressentem disso”, afirma o coronel da reserva Washington França da Silva, diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Segurança e Justiça.
Quando essas carências se alinham a governadores de oposição, a situação fica mais delicada, como nas insurgências ocorridas nas polícias de Ceará, Pernambuco, Bahia e Alagoas.
Também é exemplo desta tensão o caso do coronel paulista Aleksander Lacerda, que manifestou nas redes apoio aos atos pró-presidente enquanto atacava o governador João Doria (PSDB), oficialmente o comandante em chefe da PM.
Agora, as tropas desses estados são aquelas monitoradas de perto, mas também sujeitas a forças políticas oriundas da PM e interessadas no capital político das manifestações do 7 de Setembro.
“Quem está radicalizando são os candidatos de 2022. Querem se posicionar para atrair a lealdade da tropa com promessas de proteção e de privilégios. Usam a pauta ideológica para justificar a questão corporativa”, explica Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional do Instituto de Relações Internacionais da USP.
Para José Luiz Ratton, professor do departamento de sociologia da UFPE (Universidade Federal do Pernambuco), “deputados e ex-deputados bolsonaristas oriundos da polícia e que são candidatos em 2022 têm interesse em ver muita gente na rua”. Mas, segundo ele, é preciso lembrar que “as polícias não são monolíticas”.
“Um comando externo às polícias, como o bolsonarismo, não é uma correia de transmissão direta. Porque ele encontra um ambiente já repleto de outras disputas internas sobre mecanismos de ascensão, de controle e de governança”, diz.
“Isso ameniza a ideia de que é possível mobilizar polícias numa eventual ruptura da ordem democrática.”
No Ceará, a relação entre tropas e governo permanece tensa desde o motim que paralisou a PM em fevereiro de 2020 e causou uma escalada no número de mortes violentas.
O secretário estadual de Segurança Pública, Sandro Caron, diz não ver indícios de articulação de policiais para os protestos, mas diz que o governo se mantém alerta.
A Assembleia Legislativa instalou uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar se os recursos recebidos por associações de PM e Bombeiros foram usados para financiar o motim.
O deputado estadual Salmito Filho (PDT), presidente da CPI, diz que a experiência com o motim de 2020 faz com que o Ceará esteja mais preparado para enfrentar possíveis atos de indisciplina.
Já passa de 400 o número de agentes de segurança denunciados pelo motim, e o Legislativo aprovou uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que proíbe anistia a policiais amotinados.
Presidente da Aspramece, entidade que representa praças no Ceará, o sargento reformado Pedro Queiroz diz que parte da tropa está angustiada com as possíveis punições e diz que “a relação entre governo do estado e forças de segurança não está amistosa”.
O componente eleitoral tem um peso ainda maior no estado, já que o principal nome da oposição é o deputado federal Capitão Wagner (Pros), que ascendeu na política após liderar um motim de policiais em 2012 e é pré-candidato ao governo em 2022.
Na Bahia, o governo do estado avalia que o clima é de relativa tranquilidade. Mas há movimentação entre policiais da reserva com pretensões eleitorais e que insuflam a adesão às manifestações.
Líder dos motins da PM da Bahia em 2012 e 2014, o deputado estadual Soldado Prisco (PSC) critica a escalada da violência na Bahia na gestão Rui Costa (PT) e cobra diálogo com as associações de policiais, entidades que não são reconhecidas pelo governo baiano.
“O governador prega a democracia, mas na prática age como um ditador.”
O deputado estadual Capitão Alden (PSL) endossa as críticas e reconhece que parte da tropa deve participar das manifestações em Salvador: “Por trás da farda, somos também cidadãos brasileiros amparados pela mesma Constituição.”
Adversários nas eleições de 2018, Alden e Prisco anunciaram há duas semanas uma aliança para o pleito de 2022. A união foi selada no momento em que outros policiais ensaiam candidaturas e também tem incentivado a adesão ao 7 de Setembro.
A Bahia registrou motins da PM em 2001, 2012 e 2014 e episódios de tensão como a morte do soldado Wesley Soares, em março deste ano.
Ele foi baleado após passar quatro horas dando tiros para o alto e gritando palavras de ordem no Farol da Barra, em Salvador, e atirar com um fuzil contra policiais que negociavam a sua rendição.
Soares é tratado como uma espécie de mártir entre parte da tropa. Em protestos bolsonaristas, há cartazes com sua foto e rodas de oração em sua homenagem.
Em maio, um coronel exonerado de um cargo de comando gravou um vídeo com arma em punho, cercado por outros policiais armados, no qual criticou seu afastamento e disse que “as Polícias Militares do Brasil são verdadeiras guardiãs do Estado democrático de Direito”.
Major da ativa da PM da Bahia, Dequex Araújo diz não acreditar em possíveis atos de indisciplina de policiais: “A última tentativa de greve, em 2019, não passou de uma fagulha. A tropa está mais amadurecida. Não vejo clima para qualquer situação de anormalidade”, diz ele, que é membro do Instituto Brasileiro de Segurança Pública.
Em Pernambuco, o clima de tensão entre governo e tropa subiu um degrau após uma manifestação contra o presidente Bolsonaro ter sido encerrada com bombas de gás lacrimogêneo e tiros de balas de borracha nas ruas do centro do Recife em 29 de maio.
O ato acontecia de forma pacífica, mas uma guarnição da tropa de choque da Polícia Militar bloqueou a rua no final do trajeto. Dois homens perderam a visão de um olho após terem sido atingidos por balas de borracha. O comandante-geral da PM foi exonerado pelo governador Paulo Câmara (PSB).
Para Ratton, da UFPE, "a lição dessas manifestações é que os governos estão atentos no sentido de estabelecer controles sobre suas polícias”. “Se não forem estabelecidos mecanismos de controle, é um desastre.”
__________* Opinião: Entendendo Bolsonaro - 7 de Setembro será laboratório para a extrema direita de Steve Bannon


* Warley Alves Gomes
Não é nenhuma novidade que as datas comemorativas são usadas para fins políticos. Nesse sentido, o 7 de Setembro é particularmente especial, pois não há data mais propensa ao chauvinismo, ao oportunismo e à demagogia de governantes.
Há quem se emocione com esse tipo de evento e isso não é um problema. Mas, no Brasil governado por Bolsonaro, uma frase me vem à cabeça com muita frequência: "É pouco Brasil para muito Policarpo". Me remeto aqui a Policarpo Quaresma, personagem patriota criado pelo escritor Lima Barreto no início do século XX.
O pobre do Policarpo sempre caía na lábia de aproveitadores. O Brasil de hoje não está tão longe disso, mas fico na dúvida se nossos Policarpos, que devem lotar as manifestações pró-Bolsonaro com suas camisas verde-amarelo, realmente têm boa intenção.
Esse ano, os clássicos desfiles de militares e tanques virão acompanhados de uma ameaça golpista do próprio presidente, que convoca seus apoiadores e policiais militares para embarcarem em uma "aventura" que pode custar muito caro, não só ao país, mas às próprias Forças Armadas e policiais.
O 7 de setembro de Bolsonaro, se não for um golpe, será pelo menos uma fraude. Aliás, o presidente é uma fraude, bem como suas justificativas para o golpe. Seu "patriotismo" não poderia ser outra coisa. Quem não se lembra de quando o capitão tresloucado bateu continência para a bandeira dos Estados Unidos e errou o bordão de seu próprio governo? Pois agora o presidente insiste na patetice e atrela a data na qual se comemora a Independência do Brasil aos interesses de um figurão da extrema direita norte-americana: Steve Bannon, o "guru" do ídolo de Bolsonaro, Donald Trump.
No último 10 de agosto, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) participou do Simpósio Cibernético de Mike Lindell (aliado do ex-presidente Donald Trump e de Steve Bannon), na Dakota do Sul. Lá, apresentado pelo próprio Bannon, lançou seus disparates sobre o sistema eleitoral brasileiro, sem apresentar provas, repetindo a velha estratégia do pai.
Pois bem, há que se dizer que a estratégia dos Bolsonaro não é aleatória e, ao que tudo indica, está integrada a uma rede internacional. A Polícia Federal vem investigando o próprio Steve Bannon, e averiguou que as redes bolsonaristas vêm aplicando a estratégia do guru de Trump no Brasil.
Bannon é um dos homens mais poderosos da política contemporânea e foi responsável direto pela vitória de Donald Trump nas eleições de 2016, nos Estados Unidos; atuou na campanha do Brexit, no mesmo ano; prestou serviços de consultoria na campanha de Jair Bolsonaro em 2018; recentemente se aproximou da AfD (Alternativa para a Alemanha). Tem, portanto, um projeto global de disseminar governos de extrema direita pelo mundo, mais especificamente, as doutrinas tradicionalistas, como enfatizou o pesquisador estadunidense Benjamin Teitelbaum.
Seguindo essa linha, é preciso considerar uma hipótese pouco explorada sobre o possível golpe de Bolsonaro: mais que um evento de falso patriotismo, ele pode ser um laboratório para as novas estratégias da extrema direita ligada a Bannon.
Esse até então seguia a estratégia de chegar ao poder via eleições, usando de fake news para mudar as intenções de voto do eleitorado. Mas isso parece ter mudado após a invasão ao Capitólio — a qual, não custa lembrar, teve em Eduardo Bolsonaro um ator presente nas reuniões de bastidores, segundo a imprensa estadunidense. A derrota de Trump pode ter sido o pontapé inicial para essa mudança de tática e, se lá foi apenas o ensaio, o Brasil parece ser o melhor lugar para um teste mais efetivo.
As condições são as melhores possíveis e não existe terreno mais fértil: à diferença dos Estados Unidos, temos uma democracia menos estável e um histórico de intervenções militares. Além disso, a política de Jair Bolsonaro foi caracterizada pela presença de fardados em cargos de governo e por uma politização das Forças Armadas e policiais. Já o cenário de fanatismo político, messianismo e negacionismo é bastante semelhante ao dos EUA.
Se lá se esperou a derrota de Donald Trump, no caso de Bolsonaro a espera por eleições se faz cada vez menos necessária: o presidente vem caindo nas pesquisas de intenção de voto para 2022 e já se cogita que não vá nem para o segundo turno. Caso isso ocorra, não há nem como o capitão insistir na retórica da fraude. Sem muitos recursos, Bolsonaro conclama o golpe, pois lhe resta cada vez menos espaço nas vias institucionais.
Aos poucos, essa rede internacional vai sendo traçada e a narrativa do golpe articulada. Não parece ser coincidência o fato de que, nesse momento, entre os dias 3 e 4 de setembro, esteja ocorrendo a segunda edição do CPAC Brasil (Conferência de Ação Política Conservadora, na sigla em inglês), evento que reúne representantes da extrema direita global, além do ex-chanceler Ernesto Araújo; o deputado Filipe Barros (PSL-PR), relator da proposta de voto impresso; Mario Frias, secretário de Cultura; e, claro, Eduardo Bolsonaro, um dos articuladores da iniciativa.
A proximidade das datas e o debate em torno das supostas "fraudes" nos sistemas eleitorais de distintos países colocam gasolina no já incendiado clima político do país e mostra que a extrema direita está de olho no que está ocorrendo no Brasil. De toda forma, o 7 de Setembro de Jair Bolsonaro vem aí. Se ele será a versão tupiniquim da Marcha sobre Roma do nosso protótipo de Mussolini, ou o 18 Brumário de Jair Bolsonaro, não sabemos, mas já é um fato que quem os convoca é um presidente que não tem mais nenhuma serventia ao país.
Resta saber se as Forças Armadas e policiais embarcarão nessa aventura golpista. Caso o façam, se mostrarão tão estúpidas e antipatriotas como o presidente. O certo mesmo é que, na próxima terça, forças internacionais estarão de olho no Brasil. E não é sequer o "imperialismo yankee". É coisa muito pior.
* Warley Alves Gomes é mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente leciona no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais - Campus Avançado Arcos. Também se dedica à escrita literária, tendo estreado com a publicação do romance O Vosso Reino, uma distopia realista que remete ao Brasil contemporâneo.
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'Andar de cima' manda recado para Bolsonaro, mas não quer impeachment - Milton Alves
Por Milton Alves

Em um manifesto curto, de 18 linhas, com o título “Eleições serão respeitadas”, publicado em grandes jornais na última quinta-feira [5], uma fatia de proa do PIB mandou para o presidente Jair Bolsonaro um recado em defesa do atual sistema de votação por urnas eletrônicas.
O manifesto puxado por banqueiros, empresários, políticos de direita, economistas e consultores do mercado financeiro defende a Justiça Eleitoral e o respeito aos resultados eleitorais: “O princípio chave de uma democracia saudável é a realização de eleições e a aceitação de seus resultados por todos os envolvidos. A Justiça Eleitoral brasileira é uma das mais modernas e respeitadas do mundo. Confiamos nela e no atual sistema de votação eletrônico. A sociedade brasileira é garantidora da Constituição e não aceitará aventuras autoritárias”, afirma o documento — que segue aberto para adesões nas redes sociais.
O manifesto reflete um certo cansaço do “andar de cima” com a pregação golpista de Bolsonaro, que inflama a parcela mais radicalizada da extrema direita contra as desgastadas instituições da República, entre elas, o STF e o Tribunal Superior Eleitoral [TSE].
Apesar da bronca em Bolsonaro, segmentos empresariais mais representativos do PIB continuam apoiando, no essencial, o governo e a aplicação da política de destruição nacional comandada pelo ministro da Economia Paulo Guedes. A boiada continua passando para a satisfação dos banqueiros e rentistas, do agronegócio, dos fabricantes de armas, mineradores, madeireiros, grandes redes de supermercados e de consultorias financeiras — que operam as privatizações em curso.
A movimentação mais crítica das diversas facções da burguesia nacional também sinaliza um desgaste político na relação com o governo Bolsonaro, que, apesar do discurso belicoso e golpista, tem entregado em dia o serviço encomendado pelo baronato que controla o grosso do PIB.
Vale lembrar que nesta semana foi a vez da entrega dos Correios para a saciar a voracidade dos privatistas e nos próximos dias uma draconiana “reforma administrativa”, a PEC 32 que projeta cortar fundo e enfraquecer a capacidade gerencial da máquina estatal na oferta dos serviços públicos para a população.
Apesar das tensões geradas por Bolsonaro, os donos do dinheiro não querem apeá-lo da presidência. Até porque não há ainda um candidato da chamada terceira via para substituí-lo. Aí reside a principal contradição da burguesia e, ao mesmo tempo, a sorte de Bolsonaro. Ou seja, Bolsonaro estica corda e as chamadas classes dominantes, suas instituições, partidos e congressistas, apenas ameaçam com futuras sanções. Ambos têm um acordo de fundo: O compromisso com a recolonização neoliberal do Brasil.
Uma saída democrática e progressista da crise, que supere ao mesmo tempo o golpismo de Bolsonaro, a tutela militar e o neoliberalismo, só será possível com a consolidação de uma frente das forças de esquerda, apoiada numa ampla mobilização popular.
Portanto, intensificar a campanha Fora Bolsonaro nas ruas [e em todos os territórios de concentração do povo trabalhador] é a aposta mais concreta para deter o desmonte do país por um governo de genocidas e milicianos fardados — e o meio mais eficaz para garantir o respeito aos resultados eleitorais no caso de um triunfo popular nas urnas em 2022.
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“Bolsonaro está claramente seguindo o roteiro de Trump”, avalia Celso Amorim

247 - O embaixador Celso Amorim, ex-chanceler e ex-ministro da Defesa, afirmou em entrevista à TV 247 que Jair Bolsonaro segue a cartilha golpista de Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, que, em 6 de janeiro, convocou seus aliados a invadir o Capitólio americano. A principal estratégia do presidente brasileiro, segundo ele, são as alegações de fraudes nas urnas eletrônicas.
“Não acho que isso vai vigorar, mas tenho uma preocupação. Muitas pessoas dizem, e eu concordo, que o roteiro que o Bolsonaro está seguindo é o roteiro do Trump, que ele começou a aplicar, pelo menos de maneira mais ostensiva, alguns meses antes da eleição. O Bolsonaro já a um ano e meio das eleições está aplicando. Este roteiro é se prevenir da derrota óbvia e facilmente previsível por meio dessas ameaças e alegações de fraude. Isso é uma coisa inaceitável”, disse.
Amorim reafirmou a segurança do sistema de votação brasileiro, que é reconhecida internacionalmente. “Houve muitas eleições de governador com menos de meio ponto percentual sem nenhuma alegação. É totalmente auditável, como disse o ministro Gilmar Mendes. Quando era embaixador em Londres, o ministro Nelson Jobim, então presidente do TSE, esteve lá para fazer uma apresentação a vários países. Eu tive o privilégio de ver, já quando a urna eletrônica não era apenas experimental, uma demonstração disso. É inacreditável. Fico muito preocupado em ver que existem alguns setores da sociedade que ainda dão apoio (às alegações de fraude)”, completou.
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Desconfiança é o fermento do golpe | Míriam Leitão - O Globo
Por Míriam Leitão

O Brasil está na pior crise institucional desde a redemocratização e é preciso entender os elementos desta crise.
Todos os autocratas que conspiram contra a liberdade usam a estratégia de atacar o sistema eleitoral.
Foi assim com Trump, foi o que fez a Venezuela chavista, foi a estratégia de Viktor Orbán na Hungria.
Houve uma escalada das agressões do presidente Jair Bolsonaro contra a urna eletrônica nos últimos dias.
Ele NÃO faz isso apenas para defender o voto impresso. Ele MIRA mais ALTO.
Quer a desconfiança no sistema eleitoral, almeja o conflito social, porque essas são as bases do golpe que pretende dar.
A última semana foi diferente, pela natureza da reação do Judiciário.
Em vez de notas de repúdio, um inquérito administrativo aberto no TSE e uma notícia-crime apresentada, pelo TSE, ao STF.
O ministro Alexandre de Moraes aceitou a denúncia e incluiu Jair Bolsonaro no inquérito das fake news.
O presidente Bolsonaro AMEAÇOU EXPLICITAMENTE agir FORA da CONSTITUIÇÃO.
O ministro Luiz Fux, diante da escalada de agressões, suspendeu a reunião entre os poderes e apontou para o responsável:
“o presidente da República tem reiterado ofensas e ataques de inverdades a integrantes desta Corte”.
Normalmente os pronunciamentos ABUSAM das orações SEM SUJEITO, e o país tem que depreender de quem se fala.
Desta vez, foi diferente.
O manifesto de economistas, empresários, intelectuais contra a radicalização do presidente foi outro ponto de mudança.
Além de assinar o documento, vários deles deram entrevistas confirmando o sentido do que estava dito no texto, que o país não aceitará ameaças às eleições.
Isso é uma virada.
Entre os que assinaram, há alguns notórios apoiadores de Jair Bolsonaro no começo do governo no mercado financeiro, ou pessoas que até bem pouco tempo continuavam apostando na tese simplista de que a economia iria crescer por causa das “reformas” e tudo ficaria bem.
Na segunda-feira eu entrevistei o general Santos Cruz e ele me disse que ERA PRECISO ATUAÇÃO dos OUTROS PODERES CONTRA as ameaças de não realização das eleições por parte de Jair Bolsonaro.
A gravação foi pela manhã, antes, portanto, da decisão do Tribunal Superior Eleitoral de reagir com atos às ameaças do presidente.
— O Judiciário, o Ministério Público e o próprio legislativo precisam atuar dentro das leis, e dos seus limites, e acionar quem coloca o sistema democrático em risco.
A eleição periódica é fundamento democrático — afirmou o general.
Santos Cruz também deu a explicação-chave para este momento.
Disse que Bolsonaro estava se aproveitando do “contexto geral de fanatismo”.
Porque aí “cria-se o tumulto social, cria-se o conflito, porque ele se sente melhor neste ambiente de conflito e tumulto”.
Esse é o ponto fundamental.
Bolsonaro está querendo criar um clima de CONVULSÃO SOCIAL, como aquele que levou trumpistas a invadirem o Congresso americano.
Já está preparando o momento seguinte à perda do poder, mobilizando MILÍCIAS bolsonaristas DIGITAIS e REAIS para que na confusão ele possa invocar o uso das Forças Armadas.
Uma autoridade de Brasília, que tem interlocutores entre militares, faz as seguintes reflexões.
Se houver um clima de convulsão social, só o presidente pode convocar as Forças Armadas.
Isso é privativo do chefe do Executivo, que é o comandante em chefe.
É isso que Bolsonaro planeja.
Desde o começo do governo, o presidente tem assediado os militares para que demonstrem apoio político a ele.
Os da ativa que discordam seguem o regulamento e nada falam.
Os que são ligados ao presidente se manifestam.
O general Braga Netto, pessoa de índole autoritária, é da reserva, mas como ministro da Defesa tem tentado envolver os comandantes militares em seus movimentos.
O comandante do Exército estava em um voo e só soube da nota contra a CPI quando pousou.
Não gostou, mas nada fez.
Outros integrantes do Alto Comando do Exército têm feito fortes críticas internas à maneira como Braga Netto tem empurrado as Forças Armadas para o apoio a Bolsonaro.
Bolsonaro se alimenta, na preparação do seu golpe, da confusão institucional, do ataque à urna eletrônica para estimular a dúvida sobre o processo eleitoral e da convulsão social que está instigando.
Ele já avançou muito em seu projeto.
Não há diálogo que o modere, porque Bolsonaro precisa da crise.
Com Alvaro Gribel (de São Paulo)
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Pedro Serrano: “Nós NÃO podemos ACREDITAR nas INSTITUIÇÕES brasileiras”

247 - Em entrevista ao Prerrogativas deste sábado (07) o jurista e professor Pedro Serrano destacou que no atual cenário “NÃO podemos ACREDITAR nas instituições brasileiras” e que há um sério risco à democracia e até de cancelamento das eleições de 2022.
Segundo Serrano, o sistema de Justiça como um todo contribuiu muito para a instabilidade política do Brasil, impedindo o Lula de ser candidato em 2018, por um processo penal fraudulento de exceção.
“Nós vamos esquecer o esquema de Justiça nisso. A responsabilidade da instabilidade está só no executivo e no legislativo?”
Serrano acredita que para poder oferecer mais estabilidade à democracia no Brasil é necessário reformar toda a estrutura do Estado.
“Vamos convocar o povo a que ele aprove uma constituinte que NÃO altere os direitos fundamentais e sociais e só debata a estrutura de estado”, afrima o jurista
O especialista acredita que a única forma de garantir a democracia neste momento é o povo na rua.
“Eles vão tentar todas as formas possíveis de impedir a chegada de governos progressistas ao poder na América Latina, sobretudo no Brasil”.
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"Não vai ter golpe", diz, em editorial, o Brazil Journal, jornal mais influente da Faria Lima

247 – O site Brazil Journal, editado por Geraldo Samor e um dos mais influentes da Faria Lima, publicou um editorial neste sábado, em que afirma "Não vai ter golpe". O texto saiu poucos dias depois do manifesto da elite financeira do Brasil, que também mandou um recado a Jair Bolsonaro, afirmando que o Brasil terá eleições limpas em 2022. Curiosamente, o golpe no Brasil já aconteceu, em 2016, quando o grande capital patrocinou a derrubada da presidente Dilma Rousseff por meio de um impeachment sem crime de responsabilidade, numa das maiores farsas da história do Brasil. Graças a este golpe dos liberais, o Brasil hoje se vê ameaçado por um governo fascista e de inclinações nazistas. Leia, abaixo, o editorial:
Não vai ter golpe
Pode comprar Brasil. Pode vender dólar, ficar ‘dado’ no juro e comprar a Bolsa.
A democracia brasileira — com todas as suas imperfeições — foi uma construção coletiva que envolveu toda a sociedade: da Igreja aos sindicatos, dos trabalhadores aos empresários, e até os próprios militares, que buscaram uma transição digna depois da fadiga de material causada por 21 anos de Poder usurpado.
Uma nova aventura golpista não interessa às pessoas de responsabilidade no País.
Não interessa aos donos do capital, porque tudo que esse assunto gera é volatilidade e desperdício de tempo, dinheiro e oportunidades.
Não interessa aos políticos porque, em cenários assim, eles acabam ou num porão fedorento ou silenciados e castrados.
Não interessa aos jovens brasileiros, que querem educação de qualidade e emprego — e estão construindo um País mais justo, aberto e humano, infinitamente melhor do que este que nossa geração está deixando.
E certamente não interessa aos militares, que sabem que estariam embarcando num Vietnã particular: herdando um país dramaticamente polarizado, com finanças em frangalhos e desafios que demandam construção coletiva.
Isso sem falar no inevitável isolamento internacional: a Casa Branca atual certamente não apoiaria um golpe de inspiração trumpista. Muito menos a União Europeia e a China, agredidas rotineiramente por Bolsonaro e seu círculo xiita.
A época em que o General Olímpio Mourão mudava o tabuleiro da Política colocando seus tanques na estrada de Juiz de Fora para o Rio é apenas uma referência histórica, um retrato antiquado numa era dominada pela internet e pela informação, em que milhões de pessoas são mobilizáveis em questão de minutos.
Na frase célebre de Marx, a história só se repete como farsa, mas esse teatrinho de agora — esse rato que ruge — sequer é farsa, é mais um meme de Whatsapp.
Bolsonaro criou uma realidade paralela e há muito tempo não governa. Apenas se envolve em paranoias e não-problemas, causando a suspeita generalizada de que seu comportamento transcende o campo da política e invade o da psiquiatria.
Ninguém mais aguenta o nível de atrito que o Presidente gera todos os dias. Para ele, tudo é guerra. Trump também agia assim. Os EUA se cansaram; o Brasil está esgotado.
Agora, esse papo de golpe é um diversionismo deletério que só ajuda a narrativa do próprio Bolsonaro, um homem que jamais deveria ter sido Presidente e agora se desespera diante da derrota iminente.
Esqueça os petistas e a esquerda. Se Bolsonaro soubesse o que o empresariado diz dele privadamente, entenderia que não tem mais o apoio na economia que Paulo Guedes um dia representou.
Aliás, Bolsonaro foi eleito como o anti-Lula. Mas agora, é o próprio 17 que pode trazer o 13 de volta, porque o petista só conseguirá vencer em 2022 contra Bolsonaro. Qualquer outro candidato ganharia fácil no segundo turno.
É importante e saudável que as pessoas se manifestem contra a narrativa golpista, mas não convém atribuir a “um cabo e um soldado” poderes que eles simplesmente não têm.
O Brasil é muito maior, mais complexo e melhor do que o hospício em que se transformou o Planalto.
A sabedoria milenar ensina que cão que ladra não morde, e as sombras na caverna sempre parecem maiores do que realmente são.
É hora do País acender a luz e acordar do pesadelo.
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Mario Vitor: além de autoritários, militares agora são vistos também como corruptos e ladrões

247 - O jornalista Mario Vitor Santos, em entrevista à TV 247, condenou a atribuição a 100 generais de Exército da patente de marechal, normalmente concedida a oficiais de alto escalão considerados heróis nacionais por comandarem tropas em guerras. Para ele, os chamados “heróis da pátria” causam vergonha ao povo brasileiro.
“Vejam bem a que ponto chegamos. Por causa de alguns milhares de reais, que são relevantes para eles, mas eles se apropriam do patrimônio público sem qualquer justificativa ou merecimento. Não há qualquer processo público, cívico que nos leve a nos orgulhar desses ‘heróis da pátria’. Ao contrário, eles nos causam vergonha”, afirmou o jornalista.
Mario Vitor lamentou o estado da formação militar brasileira, que, segundo ele, expulsou os setores nacionalistas. “Não basta que eles sejam acusados, e são, torturadores, golpistas, autoritários. Agora são também corruptos e ladrões, na calada da noite e secretamente. É isso que nós estamos presenciando. E, vamos combinar? Isso que é a verdade da formação militar brasileira. É isso que resultou o expurgo que fizeram em 64 dos militares nacionalistas, e que foram fazendo seguidamente ao longo das diversas fases da política brasileira nos últimos 50 anos. É isso que aconteceu com a noção muito nobre de um serviço militar voltado para o país e para as pessoas. Perdeu-se totalmente essa noção, e agora o que nós temos é um bando de oportunistas dispostos a vencer a qualquer preço de maneira criminosa”, completou.
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O preço do 7 de setembro para Bolsonaro | Malu Gaspar - O Globo
Por Malu Gaspar

Um extraterrestre que desse uma panorâmica sobre o noticiário brasileiro constataria que as instituições estão em atividade frenética: o Congresso votando pautas importantes, uma CPI produzindo descobertas de impacto em ritmo quase diário, o Judiciário tomando decisões históricas como a que define o marco temporal para a posse das terras indígenas… e o presidente da República em franca campanha pela reeleição. O alienígena não estaria errado. Mas teria, sem dúvida, uma visão limitada do cenário. Apesar de toda a agitação, o Brasil já completa quatro semanas em suspenso, esperando para ver o que acontecerá no dia 7 de Setembro.
Não é só a indicação de André Mendonça para uma vaga no Supremo que espera veredicto para depois das manifestações. Há um mês se discute como o governo poderá arcar com os quase R$ 90 bilhões em dívidas judiciais de pagamento obrigatório, sem romper o teto de gastos, e ainda quais serão o valor e as fontes de recursos do novo Bolsa Família. Das respostas, dependem tanto as projeções econômicas como as movimentações eleitorais para 2022 — e, portanto, também o destino de Jair Bolsonaro.
Num governo normal, tudo teria sido resolvido até a última terça-feira, quando venceu o prazo para a apresentação da Lei Orçamentária Anual. Mas o Orçamento que chegou ao Congresso não só não solucionou nenhum dos impasses, como previu o contrário do que o governo vinha anunciando: o pagamento integral das dívidas judiciais e zero reajuste para o Bolsa Família.
Não que não se tenham tentado soluções. Num esforço que há muito tempo não se via, o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, ao comandante da Câmara, Arthur Lira, e ao ministro do Supremo Gilmar Mendes apelar por um acordo. Não conseguiu coisa alguma, porque ninguém quer se comprometer com nada antes do 7 de Setembro.
Foi o próprio presidente da República quem criou essa situação, ao convocar para o feriado da Independência atos contra o Supremo e o Tribunal Superior Eleitoral. “Pode ter certeza, vamos ter uma fotografia para o mundo do que vocês querem. Eu só posso fazer uma coisa se vocês assim o desejarem”, disse Bolsonaro no mesmo dia em que entregou ao Senado o pedido de impeachment de Alexandre de Moraes.
Dias depois de o pedido ter sido rejeitado, ele subiu o tom: “Digo uma coisa aos senhores. Tenho três alternativas para meu futuro: estar preso, ser morto ou a vitória. Pode ter certeza: a primeira alternativa, preso, não existe. Nenhum homem aqui na Terra vai me amedrontar”.
Está claro que, para o presidente acuado pelo avanço das investigações do STF e da CPI e pelo clima de repúdio a seus gestos golpistas, tornou-se questão de sobrevivência produzir uma demonstração de força para “amedrontar” seus “inimigos”.
Por isso há quem ache que, uma vez feito o show, Bolsonaro poderá se acalmar e negociar o que realmente interessa ao Brasil. Ilusão à toa. Não precisa ser nenhum gênio para deduzir que, sejam os atos grandes ou pequenos, o presidente arranjará um novo pretexto para tumultuar o ambiente antes mesmo que o último manifestante tenha deixado a Avenida Paulista.
O problema é que, a menos que haja uma grave ruptura, quando o dia 8 amanhecer, as dívidas e precatórios, o Bolsa Família e o caso André Mendonça ainda estarão à espera de uma solução. Ficará ainda mais evidente que estamos diante de um governo fraco, que não sabe negociar nem aprovar seus projetos no Congresso e que, por isso, caminha para romper o teto de gastos.
Como lembrou outro dia um burocrata experimentado no assunto, com R$ 15 bilhões em emendas parlamentares, Michel Temer conseguiu aprovar justamente o teto de gastos e impedir o próprio impeachment. Bolsonaro já tem quase R$ 37 bilhões, R$ 20 bilhões das emendas regulares mais R$ 16,8 bilhões do orçamento secreto, e mesmo assim vive tomando bordoada. Por mais altos que sejam, os gritos que o presidente dará em cima do palanque não mudam essa realidade.
O que Bolsonaro finge não ver é que o preço do 7 de Setembro já começou a ser pago.
Quanto mais o tempo passa sem solução para problemas que qualquer governo normal já teria resolvido, piores são as perspectivas para a economia e mais custosas se tornam as negociações políticas.
E, claro, mais difícil fica sua busca pela reeleição.
O presidente pode até sair do palanque se sentindo mais forte.
Mas, se no dia 8 ele não tiver conseguido dar um golpe, muito provavelmente terá dado mais um passo rumo à própria derrota.
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Não saia às ruas no 7 de Setembro | Ruth de Aquino - O Globo
Por Ruth de Aquino

O que parece covardia pode ser sabedoria. Vamos deixar para sair no domingo 12. Tudo o que deseja o profeta da morte Jair Bolsonaro é um confronto direto, é a desordem, um pretexto para intervir e colocar os militares nas ruas. Esse golpista no Planalto insufla uma guerra civil – de preferência com vítimas. Não está satisfeito com os quase 600 mil mortos da pandemia. Quer mais. Quer o pandemônio.
“Uma guerra civil seria ideal para Bolsonaro agora, para tentar decretar o estado de sítio”, me disse o escritor e sociólogo Sérgio Abranches. “Vai ter agente provocador dele buscando pancadaria. Para Bolsonaro dizer, depois, que precisa restaurar a ordem. Por isso, governadores e prefeitos estão cautelosos. Tentam evitar o confronto. A ideia de protestar contra Bolsonaro em outra data, no domingo, tira dele seu maior trunfo”.
A obsessão de Bolsonaro é a morte. Não a independência. Vemos tudo isso há tanto tempo. Sempre adulou torturadores. Bolsonaro é o coveiro do Brasil e imita, com riso e galhofa, a falta de ar de pacientes de Covid. Explora suas cirurgias com imagens escatológicas. Ninguém merece ser exposto à barriga do presidente. Nem ao resto dele.
A morte é sua principal conselheira, não o tchutchuca do Paulo Guedes. E é por isso que afirma que só sai morto da política. A derrota ele rejeita. A prisão ele abomina. Convoca a população a uma batalha campal, enquanto se protege com sua guarda. É uma cilada.
Bolsonaro não é fascista, o fascismo era mais sofisticado, menos bronco. Eu temo concordar com Abranches. Geneticamente, Bolsonaro se identifica mais com o nazismo. Seu apoio se concentra em grupos armados da PM, das Forças Armadas e de civis que ele está conseguindo armar. “Hitler fez isso com as SA (Sturmabteilung ou Tropas de Assalto), as milícias paramilitares. Em outra medida, Chávez fez isso na Venezuela, com as milícias bolivarianas”.
O povo não está com Bolsonaro nem poderia, sem feijão, sem luz e sem emprego. Deus não está com ele. O Supremo Tribunal Federal tampouco. Os generais? Divididos. Em off não o apoiam. Em on, só criticam Bolsonaro os que já deixaram o governo. O Centrão está com Bolsonaro? Sim, até o barco naufragar. A Câmara está com Bolsonaro e por isso não analisa pedidos de impeachment? Mais ou menos. A Câmara tem medo. Da radicalização. Existe sim risco de golpe. Não há “ambiente”? Pois Bolsonaro está criando.
“Bolsonaro já percebeu que pode falar o que bem entende, ameaçar as instituições, ferir o decoro, cometer crimes de responsabilidade, tudo na mais absoluta impunidade. E com isso alforriou o lado podre da sociedade”, afirma Abranches. Seu nono livro, “O intérprete de borboletas”, é uma ficção inspirada em histórias reais de polarização em família, redes sociais, escolas e amizades desde a eleição de Bolsonaro.
Temos um presidente subversivo na pior concepção. O pandemônio é sua única saída. É o que pode livrá-lo da derrota fragorosa nas urnas e da prisão. A “fotografia” que Bolsonaro, o incendiário, quer transmitir para o mundo é o quebra-quebra. São seus apoiadores que sairão às ruas armados.
Aproveite o 7 de Setembro para celebrar a vida, entre os seus. Com máscara e vacina. Olhe pela TV a demonstração de ódio e intolerância, financiada por grupos poderosos. Esse é o conselho que dou a meus filhos. Proteste em outro dia, não bata boca com milícias bolsonaristas. A voz da Oposição será mais forte depois. Paz, amor e saúde para você.
Arrastão, a guerra da praia | Ruth de Aquino - O Globo
Por Ruth de Aquino

"Nós tamo entrando sem óleo nem creme/Precisando a gente se espreme/Trazendo a farofa e a galinha/Levando também a vitrolinha/Separa um lugar nessa areia/Nós vamos chacoalhar a sua aldeia/Mistura sua laia/Ou foge da raia/Sai da tocaia/Agora nós vamos invadir sua praia"
A música, do Ultraje a Rigor, de 1985, é atual. Não tem mais vitrolinha. Nem grana para galinha com farofa. Mas é só o Rio esquentar que a praia lota. Que beleza a praia democrática quando vista de cima, abstraindo a variante Delta. A falta de máscara e distanciamento é mero detalhe. A molecada nem-nem, que não estuda nem trabalha e está ainda mais abandonada na pandemia, resolveu já em setembro tocar o terror.
O arrastão 40 graus virou guerra há décadas. O rolo compressor de pivetes ladrões ataca o carioca quando ele está mais nu e embevecido. O epicentro dos arrastões é o trecho mais caro e deslumbrante, o Arpoador, com mar manso e a vista das montanhas. No calçadão e na areia, os assaltos se assemelham a uma algazarra. Quem cair caiu. Já era.
Não, o arrastão não tem nada a ver com o coisa ruim, o Bolsonaro. E quem é assaltado não é elite, é classe média e turista desavisado. Elite não vai a praia lotada. Impressionante ver a multidão de jovens ociosos numa tarde de quarta-feira. É retrato, em cores, de nossa absurda desigualdade. São pobres, a maioria negros, e não estão em escola, estágio ou trabalho. Nada. Não têm o que fazer. Vão zoar.
O roteiro do calor carioca da gema inclui os vandalismos. Teve gente surpresa no domingo com a garotada nos tetos dos ônibus, as janelas estilhaçadas. Espero que o Rio não esteja com Alzheimer. No ano de 2016, 339 ônibus da linha 474 foram depredados. O 474 liga o Jacaré, na Zona Norte, a Copacabana. Se você não viu os vídeos, precisa ver. Se viu, precisa rever. Motoristas acuados e feridos a faca, passageiros em pânico. A linha 474 foi apelidada de quatro-sete-crack naqueles tempos, dos governos Dilma e Temer.
O prefeito era Eduardo Paes. Nos arrastões de setembro de 2016, ele me disse que o problema não era social e sim policial. “Não pode chamar jovem que sobe em teto de ônibus de vulnerável. É delinquente”. Hoje, mantém o discurso. “Vivemos um momento de muita tensão, agravado pela pandemia. O tecido social no Brasil esgarçou. Mas nesse caso não tem jeito. É autoridade, autoridade e autoridade. Vamos aumentar a Guarda ali. E a Polícia Militar se comprometeu a entrar pesado. Com blitz em ônibus”.
No fim de semana teve tiro, brigalhada, assaltos aos montes. Tudo visto de camarote por moradores nas varandas. O secretário da Juventude de Paes, Salvino Oliveira, 23 anos, vem da Cidade de Deus. Também acha que arrastão é caso de polícia. “Pular a catraca, vandalizar e praticar arrastão é crime. Mas punir só não resolve. Se a gente não der lazer, transporte, estudo, estágio, pode fazer bloqueio, revistar ônibus, nada vai mudar. Precisamos ajudar a realizar sonhos”. Salvino já foi garçom, animador de festa, vendeu água em sinal, doce em ônibus.
Quem viu “La virgen de los sicarios” (‘Virgem dos assassinos’), filme colombiano baseado no romance autobiográfico de Fernando Vallejo, enxerga nossas semelhanças com a Medellín dos anos noventa. Hordas de jovens ligados a traficantes e milicianos vagam pelas ruas em busca de caça. É assustador e triste. E a gente vê tudo isso aqui, no Rio, essa cidade partida com mais de mil favelas desprezadas pelo Estado. Sem inclusão, vai ter sempre arrastão.
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__________* Oito estados prometem punir policiais militares por adesão a atos no 7 de setembro

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RIO E SÃO PAULO — Às vésperas da manifestação do dia 7 de setembro, governadores pelo Brasil se preparam de diferentes formas para a possibilidade de policiais militares participarem dos atos a favor do presidente Jair Bolsonaro. Levantamento do GLOBO com os 26 governos estaduais e mais o Distrito Federal revela que oito chefes de executivo se comprometem a punir oficiais e praças que participarem das manifestações. Dez governadores não deixam claro nas respostas quais serão as suas condutas; dois afirmam que seus regimentos preveem a ida aos atos desde que sem farda; e sete não responderam ao questionamento.
A preocupação dos governos com a presença de policiais militares nas manifestações veio a público na semana passada após o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), exonerar um comandante da Polícia Militar, o coronel Aleksander Lacerda. Nas redes sociais, o oficial atacava o Supremo Tribunal Federal (STF) e convocava para os atos da próxima terça-feira. A mobilização de policiais pela internet também acendeu o alerta de ministérios públicos pelo Brasil, que abriram investigações para apurar a ida de agentes de segurança às ruas no dia 7.
As regras para a presença em manifestações políticas variam de acordo com o texto dos regimentos internos das polícias militares em cada estado. Os três estados que deverão concentrar os maiores públicos nos protestos — São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro — têm entendimentos distintos sobre o assunto.
Por meio de nota, o Governo do Estado do Rio reiterou “ser defensor da liberdade de expressão e respeita qualquer ato de manifestação pacífica. A ação da Polícia Militar em atos públicos é regulada pelo Regimento Interno.” O Palácio Guanabara tem à frente Cláudio Castro (PL), governador aliado do presidente. Candidato à reeleição, Castro trabalha pelo apoio da família Bolsonaro à sua campanha.
Já o governo paulista informou que os “policiais militares da ativa, conforme a legislação, são proibidos de participar de eventos de caráter político-partidário. Toda e qualquer denúncia de descumprimento das normas vigentes são rigorosamente apuradas e punidas, se confirmadas”.
No Distrito Federal, a Polícia Militar esclareceu, por meio de nota, “que os policiais militares são cidadãos e ao exercerem a sua cidadania, podem se manifestar de maneira democrática, desde que não representem a instituição.” No entanto, em entrevista no início desta semana, o governador Ibaneis Rocha (MDB) disse que PMs da ativa que participarem das manifestações com pautas antidemocráticas em 7 de setembro serão punidos.
Regras diferentes
Cada uma das 27 Polícias Militares do Brasil tem seu próprio regulamento disciplinar, e há diferenças entre eles. Consultora em segurança pública e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a pesquisadora Isabel Figueiredo diz que corporações “mais consolidadas”, como em São Paulo e Minas Gerais, criaram seus próprios estatutos, enquanto em outros estados as polícias optaram por “copiá-los” do regulamento do Exército.
Ainda que tenham inspirado as regras disciplinares das polícias, os estatutos militares não se sobrepõem às regras dos estados, diz Isabel, “embora as PMs sejam entendidas como forças auxiliares e de reserva”. O comportamento de agentes de segurança pública estaduais é regido, portanto, pelo estatuto de cada estado.
Para a pesquisadora, no entanto, mesmo que haja variações locais nas regras, todos os documentos trazem vedações diretas da participação caracterizada de PMs em manifestações. No estatuto da PM de São Paulo, por exemplo, manifestações políticas são consideradas transgressões disciplinares e atentados aos “deveres éticos”.
— A corda foi sendo esticada, e isso está cobrando um preço agora. No 7 de Setembro, os governadores terão que mostrar o poder que têm. É muito ruim a gente ter deixado esse teste para um momento tão sensível — avalia Isabel.
Envolvimento político
Além de São Paulo, estão entre os estados que pretendem punir policiais que se manifestarem Bahia, Paraíba, Espírito Santo, Maranhão, Piauí, Amazonas e Roraima.
Nos últimos anos, o envolvimento de policiais militares em atos políticos resultaram, em alguns casos, em crescimento da violência. Em fevereiro de 2017, uma motim da Polícia Militar do Espírito Santo deixou as ruas do estado sem PMs por uma semana, aumentando os índices de criminalidade em Vitória e nos municípios da Região Metropolitana. O movimento começou com a ocupação dos acessos aos quartéis por mulheres e familiares dos policiais, impedindo a saída da tropa. O governo do estado e a cúpula da Segurança Pública entendeu que a manifestação foi articulada pelos próprios policiais, proibidos de fazerem greve. As famílias teriam sido “usadas” para burlar a lei.
Na Bahia, uma uma greve de PMs, em abril de 2014, levou o governo federal a autorizar, por meio da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), o uso de tropas federais para garantir a segurança. O movimento por melhores salários tirou os policiais das ruas e a criminalidade disparou.
Há cerca de três meses, familiares de policiais e bombeiros militares fecharam quartéis da PM de Rondônia em Porto Velho, Ji-Paraná e Jaru. Eles reivindicaram reajuste salarial para ambas as categorias. Comerciantes de Ji-Paraná contrataram seguranças particulares para evitar possíveis roubos e furtos.
No Rio Grande Sul, estado que não impedirá manifestações , o governador Eduardo Leite (PSDB) enfrenta, desde o início da gestão, resistências por parte de PMs. A categoria participou de movimentos de servidores que cobraram reajuste salarial e melhores condições de trabalho.
Em julho desde ano, uma mulher de 47 anos foi detida, algemada e levada por policiais militares à delegacia enquanto fazia um panelaço contra o presidente Jair Bolsonaro no mesmo local em que acontecia o passeio de moto promovido por apoiadores em Porto Alegre. Ela assinou um termo circunstanciado por desobediência e foi liberada. Leite precisou ir às redes sociais, em que foi questionado pela prisão da manifestante. A Brigada Militar abriu procedimento para apurar o caso.
Diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo diz que, ainda que haja essas diferenças nos regulamentos entre os estados, se um chefe de polícia, um comandante-geral ou um governador quiser aplicar uma punição para esses casos de politização excessiva, há arcabouços normativos suficientes. Para ela, “é muito mais uma questão de bancar essa decisão do que de regulamentação”.
— O que não tem hoje é uma regulamentação que trate de redes sociais, e aí tem uma defasagem importante. Ninguém nunca pensou, quando fizeram os estatutos, que ia ter WhatsApp, Instagram, influencers — diz ela.
Para Carolina, os recursos que os governadores têm para punir eventuais participações de PMs no 7 de Setembro são os regulamentos disciplinares. Se houver o excessos como participação armada, PMs podem recorrer em crimes penais. Segundo o artigo 5º da Constituição Federal, “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização”.
— Não é só uma questão de punição depois do que acontece, mas uma orientação mais firme antes de acontecer. Que o governador se articule com o comandante-geral, para que ele passe mensagens claras à tropa, que ele articule com comandantes intermediários dentro da polícia. E, claro, tem que deixar sinalizado que, se houver excesso, terá punição. É difícil para os governadores, porque eles podem ser vistos de forma negativa pela tropa. Em São Paulo, o Aleksander foi visto como mártir. Mas quando a própria polícia adota essa postura, você tende a ter um controle maior da tropa.
Salvo-conduto negado
Na última quarta-feira, a ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Laurita Vaz considerou incabíveis e mandou arquivar dois pedidos de salvo-conduto formulados no mesmo dia para que um policial militar e um militar reformado pudessem participar de manifestações no dia 7, sem correrem risco de prisão ou qualquer tipo de restrição. Os pedidos de habeas corpus preventivo foram formulados contra os governadores de DF, Paraná, São Paulo, Minas e Goiás. Na petição inicial, os interessados solicitaram o salvo-conduto para que pudessem se locomover no país com o objetivo de participar dos atos.
__________*A terceira via ou o lunático
Oresultado da maior mobilização popular já convocada em favor de Jair Bolsonaro e contra a democracia, marcada para o 7 de setembro, servirá paradoxalmente para isolar ainda mais o presidente com os seus radicais e o que resta do grupo parlamentar fisiológico que ainda lhe dá sustentação. Dois terços da população brasileira já disseram não aos seus atos criminosos reiterados. As pesquisas mostram que sua degradação se mede na casa de dois pontos ou mais por levantamento (no último, PoderData de 1º de setembro, perdeu cinco pontos para Lula). Agora, Bolsonaro viu empresários e banqueiros lhe virarem as costas através dos manifestos de diversos setores em favor da democracia e contra a aventura golpista do presidente.
Pode ser gigante, pode ser barulhenta. Mas não vai funcionar. Bolsonaro nunca esteve tão solitário. Todo governante começa a perder apoio no dia seguinte à sua posse. Alguns se recuperam e voltam a crescer, como ocorreu com os três presidentes que se reelegeram, com destaque para Lula que saiu mais forte do que entrou. Nenhum dos três, contudo, dinamitou pontes antes da reeleição. FHC queimou seu capital político no segundo mandato. Dilma, que maquiou os números da economia no primeiro mandato, foi descoberta no segundo e deu no que deu. Bolsonaro desmilinguiu-se antes de completar três anos de governo.
Com o desembarque do PIB nacional da aventura, o capitão terá que seguir com parlamentares fisiológicos, que se fingem de patriotas e que dizem pensar na nação quando defendem uma solução com Bolsonaro, com os radicais organizados, com os ignorantes políticos e com os antipetistas que só enxergam corrupção e comunismo quando miram a estrela vermelha. Mais grave para o presidente é que os manifestos em favor da democracia assinados pela Febraban, por sete entidades do agronegócios e outros setores organizados da economia apontam para uma fadiga que vai alimentar de maneira vigorosa daqui em diante a busca pela terceira via. Por um candidato que possa enfrentar Lula em condições de ganhar a eleição presidencial.
Sim, porque quem quer que seja este candidato, ele não entrará em campo para tirar Lula do segundo turno, mas sim para afastar Bolsonaro. A ideia de buscar um nome que pudesse substituir o petista no segundo turno vem se dissipando na medida em que Lula consolida seu poder eleitoral. Com as seguidas quedas de popularidade do presidente, e com este grito antidemocrático e golpista armado para o 7 de setembro, o objetivo agora é expurgar o atual ocupante da cadeira presidencial da disputa derradeira de 2022. Bolsonaro virou alvo porque é estúpido. Ele mesmo construiu o caminho que o trouxe até aqui.
Os candidatos lançados para ocupar este espaço (Ciro Gomes, João Doria, Eduardo Leite, Luiz Mandetta e agora Alessandro Vieira e Datena) terão um trabalho difícil pela frente, mas não impossível. Não é fácil derrotar um candidato à reeleição, ainda mais no primeiro turno. Nos Estados Unidos, apenas 11 dos 45 presidentes não conseguiram um segundo mandato. No Brasil nunca ocorreu. Os pré-candidatos de direita, centro-direita e centro-esquerda vão precisar formar uma ampla aliança em torno de projetos que sejam distintos dos do PT, embora da mesma forma inclusivos. Até Ciro pode ocupar este espaço, embora as concessões que terá de fazer acabarão por desfigurar sua candidatura.
A chance desta terceira via ter sucesso defenestrando Bolsonaro aumentou muito com a convocação para a parada golpista, e é aí que reside o paradoxo. Ela trouxe para o campo de jogo o capital nacional. Sem este apoio, Bolsonaro fica obviamente muito mais fraco. Os parlamentares que ainda o acompanham saberão medir de que lado será melhor se situar num futuro muito breve. E os conservadores e liberais brasileiros, muitos deles marcharão no 7 de setembro em apoio a Bolsonaro, terão uma opção fora do PT para seguir. Aí, poderão esclarecer se querem mesmo construir um país democrático ou preferem seguir um lunático.
Bom pai
Primeiro foram as rachadinhas, que começaram no gabinete de Jair e se espalharam pelos escritórios dos filhos parlamentares. Depois do Zerinho senador, agora o Zerinho vereador foi apanhado em flagrante delito. Não bastasse isso, aquela vontade de levar vantagem em tudo, como desviar dinheiro do auxílio moradia “para comer gente”, se esparrama entre todos os entes da família Bolsonaro. O filhote Jairzinho foi outro que entendeu bem a aula paterna, a ponto de se alinhar a um lobista investigado pela CPI da Covid (Marconny Albernaz, aquele que inventou uma doença e depois se escondeu para não depor) para abrir uma empresa de eventos e fazer tretas. Este também, como o primogênito da família, arrumou uma mansão para chamar de sua em Brasília. Não se pode negar que o presidente seja um “bom” pai. Tudo o que sabe, passou para os filhos. Dos métodos políticos ultradireitistas até as pequenas falcatruas do dia a dia.
Cara de bobo 1
O que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal têm contra a democracia? Ao tentar sem sucesso dinamitar o manifesto em favor da harmonia entre os Poderes, o torpedeador-chefe, Pedro Guimarães, presidente da CEF, ameaçou bancos privados com retaliações se o manifesto, já redigido e conhecido, fosse publicado. Guimarães é o mais frequente papagaio de pirata das lives presidenciais. Fica sempre ali, ao lado de Bolsonaro, rindo com aquela cara de bobo e aplaudindo todas as barbaridades proferidas pelo chefe. Quer ser seu vice na chapa de 2022. Naufragando, como tudo indica, imagina-se que vai buscar emprego no mercado financeiro, este mesmo que ele ameaçou por assinar o manifesto democrático.
Cara de bobo 2
André Esteves, do BTG, mostrou que se pela de medo de retaliações governamentais. Por que? Não sei. Segundo a jornalista Malu Gaspar, ele tentou “desfazer” a adesão da Febraban ao manifesto em favor da democracia. Agiu internamente contra o manifesto quando CEF e BB ameaçaram deixar a entidade se o documento saísse. Depois que o documento saiu, os bancos oficiais recuaram e Esteves ficou com o mico na mão. Pode dar emprego para seu amigo Pedro em 2022.
Momento pub
Não deixe para amanhã, compre hoje ainda mais uma arma para a sua defesa e segurança. Aproveite a legislação em vigor e amplie seu arsenal. Atenção, uma hora esta lei vai mudar. Compre agora o seu fuzil e tenha certeza que um dia ele vai estar sendo usado em Araçatuba. Ou na Rocinha.
Vossa senhoria
O brasileiro da camada de cima, por mais cordial que seja, trata de maneira desigual seus conterrâneos. Os mais abastados merecem salamaleques. Os mais humildes ganham no máximo um respeito condescendente. Isso ocorre por toda parte. Vejam o caso do motoboy Ivanildo Gonçalves da Silva, na CPI da Covid. O tratamento dispensado a todos os depoentes sem cargo público foi de “vossa senhoria”. Alguns senadores até se enganavam, mas para cima, chamando o depoente sem função de “vossa excelência”. Aí chegou o Ivanildo. Ele foi tratado de “senhor” por todos os senadores. Diversos se enganaram, mas para baixo, tratando o motoboy por “você”. Agora, me diga, qual a diferença entre Carlos Wizard e Ivanildo Gonçalves da Silva, além de um ser branco e rico e o outro preto e pobre?
Espanhol obrigatório
A deputada estadual Juliana Brizola (PDT) pediu e o Ministério Público do Rio Grande do Sul instaurou inquérito para investigar o governador e pré-candidato a presidente Eduardo Leite por descumprimento de preceito da constituição estadual estabelecido por emenda da deputada em 2018. Pela emenda, as escolas públicas gaúchas são obrigadas a oferecer aulas de língua espanhola aos alunos, determinação que Leite não efetivou. O argumento é simples e faz sentido. O estado tem extensa fronteira com Uruguai e Argentina, são 1774 quilômetros e 27 cidades nas divisas.
Brasil no passado
Brasileiro que vive no exterior e precisa de serviços consulares, como registrar nascimentos, casamentos e óbitos, tem que fazê-lo pessoalmente. Na era da informação, nenhum atendimento, a não ser consultas, pode ser feito de maneira remota, via internet. Não é tão difícil para quem mora em cidades estrangeiras em que haja base consular brasileira. O problema são as outras cidades, como Darwin, na Austrália. Se um brasileiro vier a morar lá e precisar de um serviço consular, terá de viajar 4.400 quilômetros até Perth. Se pudesse, com certeza este nacional pegaria um voo até Dili, no Timor Leste, 720 quilômetros ao norte, para resolver seu problema.
Greve geral
Já tem gente pensando na melhor forma de dar o troco ao 7 de setembro antidemocrático. Convocar uma greve geral em favor da democracia e contra o golpismo instalado no Palácio do Planalto. Tarefa difícil, mas levando-se em conta que os partidos de esquerda ainda mandam na maioria dos sindicatos e das federações sindicais, vai que cola.
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Há tempo para ERGUER uma BARREIRA de CONTENÇÃO aos BOLSONARISTAS
O desembarque | Opinião - O Globo
Por Carlos Alberto Sardenberg
Tomara que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, esteja certo. Ao contrário de um monte de gente que teme pelo pior com as manifestações bolsonaristas do 7 de Setembro, Paes disse para a Malu Gaspar: “Posso estar absolutamente cego, equivocado. Mas minha impressão é que não vai ter nada. Vai ter uma cota grande de irresponsáveis, que defendem teses estapafúrdias, golpe militar, AI-5. Nem eles sabem do que estão falando, essa é a verdade”.
Seria o melhor para o país e, claro, o pior para Bolsonaro e sua turma, incluída a família. E o que seria o pior para o país? Motins de policiais militares e caminhoneiros tentando parar tudo.
Se a gente lembrar que o então deputado Jair Bolsonaro já apoiou motins e baderna de caminhoneiros, parece claro que há uma chance de se realizar esse pior cenário. O presidente colabora para isso todo dia.
O que fazer para impedi-lo?
Primeiro, os governadores estaduais têm uma tarefa crucial: manter o controle sobre suas PMs, mandando os policiais para a rua para evitar a baderna, e não para ajudar os golpistas.
Parece óbvio dizer isso. E é mesmo.
Mas não é também uma obviedade quando o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, neste caso representando outras autoridades, diz que não se negocia a democracia?
Eis o ponto a que chegamos. Presidentes de instituições da República, líderes políticos, empresários, banqueiros, membros de destaque da sociedade civil e do mundo econômico precisando vir a público para defender a democracia e a paz entre os Poderes.
Isso era para ser um ambiente dado por todos. Aqui é democracia e ponto final. Os governadores mandam nas PMs e ponto final.
Mas é por causa do presidente Bolsonaro. Em vez de governar e de lidar com uma sequência de dificuldades econômicas, ele passa o tempo estimulando seus golpistas e sua tropa de choque.
Ainda assim, nos diversos manifestos e pronunciamentos em prol da democracia, muita gente tem medo de dizer que se trata, sim, de uma crítica e uma resposta explícita aos desatinos bolsonaristas.
Isso vale para boa parte do PIB. A turma aqui se dividiu. Pode-se dizer que a ampla maioria já desembarcou do governo Bolsonaro e do assim chamado liberal Paulo Guedes. Parte desse grupo, entretanto, ainda não assumiu.
Sabe como é. A economia brasileira tem muito Estado e, pois, muito negócio com o governo federal e com as empresas e bancos públicos. Daí a quase irresistível tendência governista de boa parte dos representantes da produção e das finanças.
Vale para qualquer governo, de Lula e Temer a Bolsonaro das eleições e dos primeiros meses.
Ocorre que Bolsonaro é tão ruim para o país, a sociedade e a economia, que mesmo os mais governistas e mais temerosos estão desembarcando dessa canoa.
Mas, assim como os governadores precisam cumprir a tarefa básica de controlar as PMs, o PIB, a sociedade e as lideranças políticas precisam conter as loucuras do presidente Bolsonaro.
Como?
Primeiro, dizendo isso clara e publicamente. Segundo, recorrendo aos instrumentos disponíveis (impeachment, denúncias nos tribunais, pressão no Legislativo, campanhas etc.).
Faltam três dias para o 7 de Setembro, e as ameaças dos bolsonaristas. Há tempo para erguer uma barreira de contenção.
Necessária porque o presidente, sua família, sua tropa estão sendo cercados por diversos lados. Correm os inquéritos no STF, as investigações do Ministério Público sobre as rachadinhas, funcionários-fantasmas e, pois, lavagem de dinheiro. Acrescente-se aí a CPI que a cada dia descobre mais picaretagem e roubalheira em negócios com o governo, especialmente na área da Saúde.
Na área da Saúde, gente. Ali mesmo onde se deveria encontrar uma ação organizada para conter o vírus. Em vez disso, temos o ministro da Saúde dizendo ser contra a exigência de certificado e do uso de máscaras.
Passaram muito além do limite.

Por Carlos Alberto Sardenberg
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O 7 de Setembro pode ser a nossa invasão do Capitólio?
Por Pablo Ortellado
Há muita expectativa quanto à dimensão e às consequências da manifestação em apoio a Bolsonaro no 7 de Setembro.
O principal temor é que o 7 de Setembro possa ser uma espécie de 6 de janeiro brasileiro — manifestantes pró-Trump invadiram o prédio do Congresso nos Estados Unidos naquele dia para tumultuar a sessão que confirmaria a vitória eleitoral de Joe Biden. Cinco pessoas morreram, e 138 policiais ficaram feridos.
Mas há diferenças importantes entre o 6 de janeiro americano e o 7 de Setembro brasileiro. A principal delas é que a invasão do Capitólio foi um movimento ousado, que tomou as autoridades de surpresa.
Aqui, todos os piores cenários foram antecipados pelas autoridades: a participação na manifestação de policiais militares armados, o bloqueio de estradas por caminhoneiros e uma invasão ao prédio do Supremo Tribunal Federal ou do Congresso. Pode ser que as precauções tomadas não sejam suficientes, mas a Justiça e os governadores tomaram medidas para monitorar e impedir essas ações.
Outra diferença importante é que o 6 de janeiro americano foi um gesto desesperado do trumpismo, que havia sido derrotado eleitoralmente. Aqui, embora as pesquisas indiquem que o apoio a Bolsonaro está caindo, ainda falta mais de um ano para as eleições.
Os bolsonaristas têm feito um grande esforço de mobilização — provavelmente o maior desde que o presidente tomou posse. Esse esforço se justifica. Bolsonaro tem perdido apoio mês a mês, e as perspectivas da economia e o avanço da variante Delta não sugerem uma inversão de rumo.
As aspirações golpistas de Bolsonaro precisam de respaldo popular ou pelo menos de uma imagem de respaldo popular. Seu discurso é que ele, na condição de chefe supremo das Forças Armadas, vai fazer “o que o povo pedir”.
No entanto, até agora, o saldo da mobilização de rua tem sido amplamente favorável à esquerda. As manifestações contra Bolsonaro em maio, junho e julho foram muito grandes, e a maior manifestação bolsonarista até agora, no 1º de Maio, deve ter sido pelo menos três vezes menor.
Talvez a opção pelas motociatas tenha sido uma maneira de mascarar essa diferença, seja porque motociata é um gênero de mobilização não diretamente comparável com uma passeata ou comício, seja porque a reunião de motos amplifica a sensação de multidão. A concentração das manifestações do 7 de Setembro em apenas duas cidades, São Paulo e Brasília, compõe essa estratégia de aumentar artificialmente a sensação de apoio.
Além disso, Bolsonaro recebeu um presente da esquerda. A tradicional manifestação do Grito dos Excluídos, que acontece todo 7 de Setembro, neste ano foi convocada sem muito empenho e organização, e a expectativa é que seja pequena.
É absolutamente certo que o bolsonarismo vai comparar registros fotográficos das duas manifestações para desmentir os institutos de pesquisa, “provar” a popularidade do presidente e dizer que “o povo” o está autorizando a agir.

Por Pablo Ortellado
__________* Bolsonaro diz que 7 de Setembro é ultimato a 2 ministros do STF e ameaça
03/09/2021 11h31 - Atualizada em 03/09/2021 13h11
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse hoje que as manifestações de seus apoiadores no dia 7 de Setembro serão "ultimato" para dois ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e deu a entender que, se alguém jogar fora do que considera as quatro linhas da Constituição, poderá fazer o mesmo.
Os ultimatos, porém, não dependem da vontade do presidente ou de manifestações. A única forma de impeachment de ministros do STF é através de decisão do Senado. Recentemente, o governo teve um pedido de abertura de impeachment contra Alexandre Moraes rejeitado pelo presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

'Bolsonaro levou o país a temer o 7 de setembro', diz Josias
A ameaça ocorreu em discurso para uma plateia de apoiadores em cerimônia em Tanhaçu (BA) para assinatura de contrato de concessão da Ferrovia Integração Oeste Leste (Fiol).
Bolsonaro não citou a quem se referia especificamente ao falar em ultimato, mas recentemente ele tem concentrado críticas aos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), embora também tenha feito críticas a Luís Felipe Salomão, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em falas nas últimas semanas.
"Não podemos admitir que uma ou duas pessoas, usando da força do poder, queiram dar outro rumo ao nosso país. Essas uma ou duas pessoas precisam entender o seu lugar. O recado de vocês nas ruas, na próxima terça-feira, será um ultimato para essas duas pessoas. Curvem-se à Constituição, respeitem a nossa a liberdade e entendam que vocês dois estão no caminho errado, porque sempre há tempo de se redimir", disse o presidente.
Bolsonaro disse a frase após falar em "renovação no Supremo" e que não criticava instituições e poderes. "Somos pontuais", disse.
Bolsonaro tem incentivado os protestos do Dia da Independência com discursos muitas vezes considerados golpistas. Nesta semana, por exemplo, Bolsonaro disse que "nunca uma outra oportunidade para o povo brasileiro será tão importante" ao se referir ao dia 7 de setembro. Em outro discurso, disse que uma guerra não se ganha com flores: "quem quer a paz, se prepare para a guerra".
Ontem, o presidente da República chegou a dizer em live que o Brasil 'estava em paz", ignorando que seus ataques ao Supremo já levaram até o presidente do STF, Luiz Fux, a cancelar uma reunião entre os três Poderes há cerca de um mês.
4 linhas da Constituição
Em outro trecho do discurso, Bolsonaro disse a frase que soa como ameaça golpista diante de manifestações que comportam também pautas antidemocráticas, como o fechamento do STF (Supremo Tribunal Federal).
Inicialmente, manifesto tinha como bandeira a defesa do voto impresso, defendido por Bolsonaro em meio a alegações infundadas de que urnas eletrônicas são passíveis de fraude. Porém, recentemente o presidente passou a se referir aos protestos, nos quais promete comparecer, como em defesa da liberdade.
"Nós não precisamos sair da quatro linhas da Constituição, ali tem tudo que precisamos. Mas se alguém quiser jogar fora destas 4 linhas, nós mostraremos que poderemos fazer também", disse Bolsonaro, para depois de uma pausa para aplausos completar com "valer a vontade e a força do seu povo".
Na sequência, apoiadores presentes no evento gritaram a frase "Eu Autorizo", que marcou manifestações bolsonaristas anteriores e fazem referência a uma frase do chefe do Executivo, que em abril disse que aguardava "uma sinalização" dos brasileiros para "tomar providências" contra medidas de restrição de circulação decretadas por governadores e prefeitos contra a covid-19.
Bolsonaro então complementou, dizendo que quem dá o ultimato é o povo.
"Após o 7 de setembro, que ficará para todos nós com essa demonstração gigante de patriotismo visto em todos os cantos do nosso Brasil, duvido que aqueles um ou dois que ousam nos desafiar, desafiar a Constituição, desrespeitar povo brasileiro, saberá voltar para o seu lugar, Quem dá o ultimato não sou eu, é o povo brasileiro", disse.
"Futuro bem distante"
Em seu discurso, Bolsonaro também falou em entregar "em um futuro bem distante" um Brasil melhor do que recebeu. Ele não explicou se sua referência era a uma eventual reeleição em 2022. O presidente ainda disse que sairá vitorioso.
"Vamos derrotar os que querem nos levar para o caminho da Venezuela. Somos a maioria, pessoas de bem, e respeitamos as regras do jogo, Juntos sairemos vitoriosos", disse.
"Peço uma coisa Deus, além de sabedoria e coragem para decidir, que eu realmente possa no futuro lá adiante, bem distante, entregar um Brasil muito melhor do que recebi. Se essa for a vontade dele, posso dizer que o Brasil, mais do que um país do futuro, é um país do presente", completou.
Ataques a membros do STF e TSE
Bolsonaro tem atacado o ministro Alexandre de Moraes por causa da sua inclusão no inquérito das fake news e de prisões recentes de bolsonaristas como o deputado Daniel Silveira e o presidente do PTB, Roberto Jefferson.
Bolsonaro diz que defende uma liberdade de expressão absoluta, ignorando o entendimento majoritário de que os direitos previstos na Constituição não são absolutos quando entram em conflito com outros, cabendo ao juiz sobrepesar caso a caso qual deve prevalecer.
Já Barroso é alvo de ataques desde que Bolsonaro iniciou sua campanha pela implementação do voto impresso, que foi rejeitada pela Câmara dos Deputados.
O corregedor-geral da TSE, Luís Felipe Salomão, também entrou na mira de Bolsonaro depois de determinar a desmonetização de perfis e canais investigados por disseminar fake news sobre as eleições no Brasil.
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ELITES econômicas já traçam PLANO para SE LIVRAR de BOLSONARO, diz William Waack
A certeza de que com Bolsonaro vai tudo só ficar PIOR,

247 – "Diante dos olhos das principais elites da economia brasileira Jair Bolsonaro repete uma conhecida trajetória.
De mal menor, está virando aos olhos dessas elites o pior dos males", escreve o jornalista William Waack, editor da CNN, em sua coluna no jornal Estado de S. Paulo.
"A forte rejeição a Jair Bolsonaro facilmente detectável nesses segmentos vem de uma visão de mundo – portanto, ideológica – para a qual o presidente simboliza o contrário dos princípios fundamentais de uma sociedade aberta, tolerante e liberal no sentido europeu da palavra.
Foi nessas áreas que mais rápido Bolsonaro trafegou da condição de personagem político 'tolerável' à de 'insuportável'”, prossegue.
"O 'tipping point' (ou palha que quebra o lombo do burro) é o momento em que o receio da severa turbulência causada por um processo de impeachment é menor do que a certeza de que com Bolsonaro vai tudo só ficar pior, e que não dá para aguentar até as distantes eleições do ano que vem, pois a velocidade e profundidade da crise encurtaram drasticamente os horizontes de tempo.
É o momento no qual a crise brasileira se encontra", alerta.
"Com o 7 de setembro Bolsonaro está se esforçando para ver quanto o burro aguenta", finaliza.
__________* O que vai acontecer no Brasil nos próximos dias? - Cora Ronai
Na última terça-feira, dia 31, Tom Phillips, o correspondente para América Latina do jornal inglês The Guardian, lançou ao Twitter uma mensagem desesperada:
“Can someone, pelo amor de Deus, please tell me what on earth is going to happen in Brazil in the next seven days?”
Entendi que, ao pedir que alguém lhe esclareça o que vai acontecer no Brasil nos próximos sete dias, ele não espera um exercício de futurismo, mas uma explicação lógica. Tom não é um principiante. Ele trabalha há quase 15 anos como correspondente estrangeiro, foi chefe de sucursal na China e já cobriu de tudo, de terremoto no Haiti a tufão nas Filipinas, de manifestação em Hong Kong a eleições no México. A questão é que nem alguém com a sua experiência consegue mais lidar com o Brasil, em que é “Vixe!” em cima de “Eita!” 24 horas por dia, fins de semana inclusive.
Acompanhei o tuíte para ver se, por acaso, aparecia alguma luz. Eu também gostaria que alguém me dissesse o que raios vai acontecer por aqui nos próximos dias. Não rolou.
“Não fazemos planos para o futuro”, respondeu @Cardoso.
“Conseguimos previsões de, no máximo, 7 minutos. Sorry”, escreveu @SamPancher.
“Boa. Próximos sete não sabemos. Mas depois do dia 8 vai ter cada nota de repúdio que você nem imagina...”, previu @lesalles.
“Ainda não entendi o que aconteceu nos últimos sete”, constatou @gustavo_spier.
Foram 268 respostas durante as três horas em que segui o tuíte, mas nada nos trouxe qualquer esclarecimento (nem Deus, que atende por @OCriador, ajudou).
“O presidente não vai trabalhar durante seis dias, e descansará no sétimo”, concluiu @salvadormor_tt.
A gente ri, mas é de nervoso.
Não respondi ao apelo de @tomphillipsin. Não tinha nem boa resposta, nem bola de cristal à mão. A verdade é que, no fundo, confio na incompetência e na falta de ambição do presidente. Acho que, ao longo dos próximos dias, vamos ver mais do mesmo — o que não é pouco, e pode ser perigoso, sobretudo se torcidas antagônicas ocuparem os mesmos espaços.
Mas golpe? Golpes precisam de ambiente propício, de um elemento de surpresa e de alguma inteligência por trás, coisas que não existem no caso.
Ainda assim, ter na presidência um homem tão prejudicado intelectual e emocionalmente é um risco enorme para a democracia. Um golpe não é a única ameaça que existe à vida saudável de um país; o estado de insegurança permanente em que vivemos, a tensão constante, as crises armadas a partir do nada — tudo isso corrói o tecido social e impede a paz.
O presidente não tem noção do que seja “paz”. O conceito é abstrato demais para ele, um homem atormentado, em luta consigo mesmo, que não concebe a vida sem ressentimento e conflito.
Mais do que os próximos sete dias, me preocupam de verdade os próximos 484, que é o tempo que ainda falta até o fim do mandato. Se ninguém tomar uma providência antes disso, vamos viver até janeiro de 2023 nesse sobressalto, míseros personagens do jogo de um cretino que sonha com guerra civil.
__________* Apoio de PMs a pautas antidemocráticas aumenta às vésperas do 7 de Setembro

Igor Mello
Do UOL, no Rio
02/09/2021 00h01
A uma semana dos atos em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) marcados para 7 de setembro, um estudo do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) mostra que a adesão de policiais a ambientes bolsonaristas radicais nas redes sociais disparou em relação a 2020, quando o primeiro levantamento desse tipo foi feito.
Segundo dados de agosto, essa adesão é puxada pelas polícias militares: 51% dos praças (agentes de baixa patente, incluindo soldados, cabos, sargentos e subtenentes) são bolsonaristas —um aumento de dez pontos percentuais em relação aos 41% em 2020. Desses praças, 30% interagem hoje com conteúdos radicais, como pautas antidemocráticas e de ataque a instituições, contra 25% no ano passado.
Punição de Doria a coronel vira arma de bolsonaristas para divulgar ato
Já entre os oficiais (membros da alta patente, incluindo aspirantes a oficiais, tenentes, capitães, majores, tenentes-coronéis e coronéis), a adesão ao bolsonarismo chega a 44% da tropa —23% deles interagem com conteúdos radicais ante 17% no ano passado. Em 2020, o alinhamento com o bolsonarismo não passava de 34%. O aumento expressivo é encarado pelo FBSP com ainda mais preocupação.

A adesão ao grupo político do presidente é bem menor nas outras corporações: chega a 17% na Polícia Federal e a apenas 13% nas polícias civis.
A pesquisa mostra que existem riscos reais [de ruptura democrática]. Esses riscos cresceram do ano passado para esse ano. Existe uma confusão entre a liberdade de expressão dos policiais e das contenções necessárias na democracia."Renato Sérgio de Lima, presidente do FBSP
O sociólogo pontua que, mesmo que esses riscos não gerem uma ruptura em 7 de setembro, vê-se um processo muito intenso de degradação institucional nas polícias. "O problema não é uma ruptura abrupta, mas o esgarçamento dos controles civis. Não é algo que começou com Bolsonaro e nem vai acabar em 2022."
Na pesquisa de 2020, o FBSP mostrou que, além do apoio ao grupo político do presidente, esses policiais também reproduziam discursos de ódio, o que também foi verificado no novo levantamento. Há adesão significativa a pautas racistas e contra os direitos LGBTQI+, além de rejeição à defesa dos direitos humanos.
Os dados são fruto de um cruzamento feito pelo FBSP entre as listagens de policiais da ativa contidas nos Portais de Transparência dos governos estaduais e um levantamento para identificar os perfis desses agentes no Facebook e no Instagram.
A partir disso, foi feita uma amostra com fundamentos estatísticos para representar proporcionalmente o efetivo policial no país. Foram selecionados 651 perfis, cujas ações foram monitoradas de maneira anônima. O estudo utilizou apenas informações públicas disponibilizadas pelas redes sociais a pesquisadores.
A pesquisa tem índice de confiança de 95% e margem de erro de 3%.
7 de Setembro aumenta pressão
A pressão sobre os comandos e governadores por conta da politização dos quartéis aumentou com a aproximação do 7 de Setembro, com Bolsonaro convocando atos em seu apoio em capitais como São Paulo e Brasília.
Como o UOL revelou na última semana, apoiadores do presidente vêm tentando mobilizar policiais da ativa para engrossar os protestos e demonstrar um suposto apoio da categoria ao governo —a presença de PMs da ativa em manifestações políticas é ilegal.
A tensão se intensificou após o coronel Aleksander Lacerda, da PM de São Paulo, convocar colegas para o ato na avenida Paulista por meio de suas redes sociais. No dia seguinte, o governador João Doria (PSDB) determinou seu afastamento do comando de um batalhão no interior do estado, enquanto a Polícia Militar abriu um procedimento contra o oficial.
A defesa de Lacerda foi usada por apoiadores do presidente como uma forma de tentar inflamar a base bolsonarista a comparecer à manifestação.
Segundo Lima, o bolsonarismo tenta mobilizar suas bases —sobretudo nas polícias— em 7 de setembro não para dar um golpe de Estado, mas para gerar imagens que justifiquem um discurso de que a radicalização realizada pelo presidente nos últimos meses tem amparo popular.
"Vai ter gente provocando para causar comoção e ter uma imagem que seja usada para desestabilizar politicamente os governadores. Não é que o PM vai sair na rua para impor um golpe. Mas vai sair para defender o bolsonarismo. E, se tiver provocadores e com gente interessada em ampliar a fissura, pode haver problemas mais sérios", projeta.
"Talvez tenhamos a tradução para o mundo real da adesão dos policiais ao bolsonarismo."
Ele destaca o crescimento expressivo do apoio ao bolsonarismo radical entre os oficiais da PM. Na visão do presidente do FBSP, isso é uma ameaça adicional, já que são esses agentes os responsáveis por zelar pela hierarquia e pela disciplina nas corporações.
"O discurso de que as instituições estão funcionando é baseado na hierarquia e na disciplina, e quem tem que controlar isso são os oficiais. Só que tivemos um crescimento de 35% no engajamento com ambientes radicais", completa.
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“É ILUSÃO achar que militares NÃO estarão COM BOLSONARO numa eventual AVENTURA GOLPISTA ”, diz Cynara Menezes

247 - A jornalista Cynara Menezes, em entrevista à TV 247, criticou o apoio dos militares ao projeto golpista de Jair Bolsonaro e avaliou que, apesar de sinais de que as Forças Armadas estejam se aproximando da institucionalidade, é uma “ilusão” acreditar que elas rejeitariam uma aventura golpista.
“O que a gente precisa é que as pessoas acordem e que a gente tenha uma rejeição do Bolsonaro cada vez maior. Enquanto o Bolsonaro ainda tiver apoio de parte da população, esses setores golpistas vão ficar cada vez mais assanhados.
Se ILUDE quem acha que as Forças Armadas vão ficar contra o Bolsonaro numa INICIATIVA GOLPISTA.
NÃO tem NENHUM SINAL vindo das Forças Armadas de que eles vão ficar CONTRA uma INICIATIVA GOLPISTA.
Pelo CONTRÁRIO, a gente SÓ RECEBE sinais A FAVOR ”, disse.
Cynara comentou ainda o encontro entre o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, general Luiz Eduardo Ramos, e o presidente extremista do PTB, Roberto Jefferson, que já fez ameaças diretas ao Supremo Tribunal Federal.
Na interpretação de Cynara, RESTAM nas Forças Armadas POUCAS VOZES CONTRÁRIAS ao bolsonarismo.
“Eles estão o tempo inteiro dando sinais de que estão ao lado do Bolsonaro nessa aventura golpista.
Eu queria ver a hora que vai surgir, por parte de algum general que tenha algum compromisso com a democracia, uma reação à altura.
Eu nunca vi, só o Santos Cruz de vem em quando fala alguma coisa contra.
O resto, é todo mundo conivente com o que está acontecendo”, completou.
__________* Jovem que viralizou ao “surtar” contra o PT nas eleições de 2014 e tatuar homenagem a Bolsonaro se filia ao PSB

247- Quem acompanhou de perto as eleições de 2014 recorda de um vídeo que viralizou nas redes sociais de uma jovem, com vários adesivos de Aécio Neves, aos berros, gritando “Fora PT” e dizendo que o “Brasil poderia virar uma Venezuela”.
Isabella Trevisani ganhou notoriedade com o vídeo e seguiu o caminho da extrema-direita. Nas redes sociais, no passado, ela não só posou ao lado de Bolsonaro, mas também tatuou a frase do mandatário. “Brasil acima de tudo” e “Brasil ame ou deixe-o", jargão da ditadura militar.
Relembre o vídeo que viralizou nas eleições de 2014:
Hoje, a jovem abandonou a carreira entre os bolsonaristas e se filiou ao PSB, legenda que acolhe figuras políticas como Flávio Dino e Marcelo Freixo.
Nas redes sociais, ela publica posts contra o governo e mobiliza manifestações pelo Fora Bolsonaro, organizadas pelo MBL, que ocorrerão no próximo dia 12 de setembro.

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Ministério da Defesa recomenda que Bolsonaro vete projeto do Congresso e mantenha em vigor Lei de Segurança Nacional

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BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro recebeu recomendação do Ministério da Defesa para que a Lei de Segurança Nacional (LSN) continue em vigor com o argumento de defesa da soberania nacional. Trecho de um projeto aprovado no Congresso revoga a lei criada em 1983, nos últimos anos da ditadura militar. O prazo para o presidente definir se sanciona ou veta o texto que também estabelece crimes contra o Estado Democrático de Direito, entre os quais o golpe de estado ou impedimento das eleições, termina nesta quarta-feira.
No Palácio do Planalto, o assunto é tratado com reserva e auxiliares dizem que, apesar das recomendações, será uma decisão política do presidente, embora vetos estejam previstos. O argumento de militares é que trechos colocam em risco a soberania nacional em temas como tentativa de desmembramento de território e sabotagem.
Além da Defesa, também foram consultados o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Justiça, que, segundo apurou O GLOBO, não teriam pedido o veto da revogação da Lei de Segurança Nacional.
Levantamento do GLOBO, com dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, mostrou que mais da metade dos inquéritos policiais instaurados com dispositivos da LSN, entre 2010 e 2021, ocorreram no governo Bolsonaro, justamente contra adversários. Por outro lado, a legislação também serviu de base para o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinar a prisão em flagrantes do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), após ameaças aos integrantes da Corte.
Aprovada no Senado no dia 10 de agosto, o projeto que extingue a LSN define crimes contra a democracia, como golpe de estado, impedir ou perturbar a realização das eleições, incitação de crime às Forças Armadas, comunicação enganosa em massa, atentado contra a soberania e espionagem, entre outros pontos.
A aprovação no Senado ocorreu no mesmo dia em que houve um desfile militar na Esplanada do Ministérios. Agora, a sanção ou veto de Bolsonaro ocorrerá dias antes das manifestações pró-governo, convocadas para o dia 7 de setembro em meio à crise entre os Poderes. A militância bolsonarista promete ir às ruas com críticas ao STF.
O projeto que cria um novo texto para a Lei de Segurança Nacional teve origem em uma proposta apresentada em 1991, pelo ex-promotor e então deputado federal Hélio Bicudo. A essa proposta foram apensadas outros 14 projetos, apresentados entre 2000 e 2021. A matéria foi aprovada na Câmara em maio deste ano após o Supremo Tribunal Federal (STF) sinalizar que poderia derrubar trechos da LSN, após ser acionado por partidos políticos.
Principais pontos
- Golpe de Estado: Tentar, com violência ou grave ameaça, depor o governo constituído. Pena de quatro a doze anos de reclusão;
- Abolição violenta do Estado Democrático de Direito: Tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, impedir ou dificultar o exercício dos Poderes. Pena de quatro a oito anos de reclusão;
- Interrupção do processo eleitoral: Impedir ou perturbar a eleição ou a aferição de seu resultado, mediante violação indevida de mecanismos de segurança do sistema eletrônico de votação estabelecido pela Justiça Eleitoral. Pena de três a seis anos reclusão e multa;
- Comunicação enganosa em massa: Promover ou financiar campanha ou iniciativa para disseminar fatos que sabe inverídicos capazes de comprometer o processo eleitoral. Pena de um a cinco anos de reclusão e multa;
- Incitação de crime às Forças Armadas: Incitar publicamente a animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e os poderes constitucionais, as instituições civis ou a sociedade. Pena de três a seis meses de detenção;
- Atentado ao direito de manifestação: Impedir, mediante violência ou grave ameaça, o livre e pacífico exercício de manifestação de partidos ou grupos políticos. Pena de um a quatro anos de reclusão;
- Violência política: Restringir, impedir ou dificultar, com emprego de violência física, sexual, psicológica, moral ou patrimonial, o exercício de direitos políticos a qualquer pessoa em razão de seu sexo, orientação sexual, raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena de três a seis anos e multa de reclusão.
__________* Metade dos jovens brasileiros relata problemas de saúde mental

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SÃO PAULO — Uma pesquisa realizada em capitais brasileiras mostrou que metade dos jovens de 18 a 24 anos consideram sua saúde mental como "ruim" (39%) ou "muito ruim" (11%).
No mesmo grupo, somente 4% classifica sua saúde mental como muito boa.
A análise lança luz sobre o atual período, altamente afetado pela pandemia da Covid-19.
O estudo — que avaliou respostas de homens e mulheres com 18 anos ou mais — mostra que os jovens se sentem mais afetados do que os outros grupos.
Considerando o público geral, o número de pessoas que classificou a saúde mental como "muito ruim" foi de 5% e "ruim", 25%.
Do total dos pesquisados, as queixas mais comuns foram:
tristeza (42%), insônia (38%), irritação (38%), angústia ou medo (36%), além de crises de choro (21%).
Ao todo, 2 mil pessoas responderam ao questionário em São Paulo, capital, e nas regiões metropolitanas de Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Salvador.
O levantamento é da consultoria Ipec e foi apresentado pela Pfizer nesta quarta-feira.
O estudo também analisou a busca dos participantes por ajuda especializada:
21% chegaram a procurar ajuda profissional, e 11% fazem acompanhamento de maneira contínua.
Os diagnósticos mais detectados foram de ansiedade, com 16% dos respondentes, e depressão, detectado em 8%.
Também foram relatadas síndrome do pânico (3%) e fobia social (2%).
Em entrevista coletiva realizada pela farmacêutica, o médico e pesquisador do departamento de Psiquiatria da Unifesp Michel Haddad explicou que o aparecimento desse tipo de transtorno está ligado a uma série de fatores combinados.
— A escalada de transtornos mentais já acontece há pelo menos duas décadas, a pandemia só escancarou o problema — disse o especialista.
Em busca de soluções
O levantamento mostra as soluções buscadas pelos respondentes para aplacar o impacto psicológico imposto pela pandemia.
Do total, 19% praticam atividade física ao ar livre, e 18% em casa.
Outros (17%) apostam na leitura de livros.
Embora, seja importante reafirmar, assim como desordens de saúde física, o tratamento de doenças que afetem a saúde mental necessitam de acompanhamento médico e, por vezes, de tratamento farmacológico.
Ao todo, quatro em cada cinco participantes declararam que a pandemia impactou sua saúde mental de alguma forma.
Em especial, a preocupação com acúmulo de dívidas foi a mais relatada, com 23% dos respondentes.
Na sequência, aparecem o medo de testar positivo para a Covid-19 (18%) e a morte de alguém próximo (12%).
__________* Desastres climáticos aumentaram cinco vezes nos últimos 50 anos, aponta relatório da ONU

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GENEBRA — O número de desastres, como inundações e ondas de calor, causados pela mudança climática aumentou cinco vezes nos últimos 50 anos, matando mais de 2 milhões de pessoas e custando US$ 3,64 trilhões em perdas totais, informou a ONU em relatório divulgado nesta quarta-feira.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirma que seu "Atlas" é a análise mais abrangente de mortalidade e perdas econômicas causadas por clima, água e extremos climáticos já produzida.
Foram analisados cerca de 11 mil desastres ocorridos entre 1970 e 2019, incluindo grandes catástrofes como a seca de 1983 na Etiópia, que foi o evento mais fatal com 300 mil mortes, e o furacão Katrina em 2005, que foi o mais caro, com perdas de US$ 163,61 bilhões.
O relatório mostra uma tendência de aceleração, com o número de desastres aumentando quase cinco vezes da década de 1970 até a década mais recente, reforçando os sinais de que eventos climáticos extremos estão se tornando mais frequentes devido ao aquecimento global.
"O número de fenômenos extremos está aumentando. Devido à mudança climática, estes serão mais frequentes e severos em muitas partes do mundo", afirmou em comunicado o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.
Os custos dos eventos também aumentaram de US$ 175,4 bilhões na década de 1970 para US$ 1,38 trilhão na década de 2010, quando tempestades como Harvey, Maria e Irma devastaram os EUA. Segundo Taalas, “as perdas econômicas estão aumentando à medida que a exposição [de áreas povoadas] aumenta".
O furacão Ida, que afetou a Louisiana e o Mississippi na semana passada, é um exemplo claro. Taalas afirmou que esta pode ser a catástrofe meteorológica mais cara da história, superando o furacão Katrina em 2005, em Nova Orleans, que custou US$ 163,6 bilhões.
Apesar de os eventos serem mais caros e frequentes, o número anual de mortes caiu de mais de 50 mil na década de 1970 para cerca de 18 mil na década de 2010, sugerindo que “sistemas aprimorados de alerta precoce levaram a uma redução significativa na mortalidade”, acrescentou o secretário-geral da OMM. No caso do Ida, foram registradas quatro mortes.
"A diferença desta vez foi a prevenção", destacou em comunicado Mami Mizutori, que dirige a Agência da ONU para Redução de Risco de Desastres (UNDRR, na sigla em inglês). Ele recordou que, após o Katrina, Nova Orleans investiu US$ 14,5 bilhões em dispositivos de combate às inundações.
Um desastre por dia
De acordo com a OMM, é possível afirmar que, em média, aconteceu um desastre vinculado ao clima a cada dia dos últimos 50 anos, provocando o equivalente à morte de 115 pessoas e perdas materiais de US$ 202 milhões por dia.
As secas foram responsáveis pelas perdas humanas mais graves durante o período, com quase 650 mil vítimas fatais, enquanto as tempestades tiraram a vida de mais de 577 mil pessoas. Já as inundações mataram 59 mil pessoas e as temperaturas extremas quase 56 mil, segundo o relatório.
A organização também explica que mais de 91% das 2 milhões de mortes ocorreram em países em desenvolvimento, observando que apenas metade dos 193 membros da OMM têm sistemas de alerta precoce.
Nesse sentido, Mizutori exortou as principais economias do mundo a ajudarem os países em desenvolvimento a investirem em sistemas de alerta e modelagem de risco, alertando para a necessidade de melhorar as redes de observação meteorológica em países da África, em certas áreas da América Latina e nas ilhas do Pacífico e Caribe.
Ele celebrou no comunicado as vidas que foram salvas graças aos sistemas de alerta, mas advertiu que "o número de pessoas expostas a riscos aumenta devido ao crescimento da população em áreas que podem sofrer catástrofes e a uma intensidade e frequência crescentes dos fenômenos" extremos.
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"A praça dos Três Poderes" ___________ Skaf continua recolhendo apoios para o manifesto 'A praça dos Três Poderes' | Lauro Jardim - O Globo

Apesar do adiamento da publicação prevista para esta semana e das dúvidas sobre se afinal algo se tornará público de forma oficial, Paulo Skaf aparenta continuar trabalhando para que o manifesto "A praça dos Três Poderes" se torne uma realidade. Ou seja, vire um anúncio nas páginas de jornais.
Skaf mandou ontem um e-mail às entidades que apoiam o manifesto, mesmo depois de todo o barulho criado pela ameaça da Caixa e do Banco do Brasil se desligarem da Febraban se o documento for publicado.
Nele, informou que "dezenas de outras entidades também manifestaram interesse em participar. Em função desse cenário, informamos que estendemos o prazo para novas adesões, que poderão ser feitas ao longo desta semana".
Agora, portanto, sexta-feira é o prazo final para a adesão. Quanto à publicação, o e-mail não crava qualquer data. E é aí que mora a dúvida crucial: o manifesto será mesmo publicado?
Apesar do texto quase aguado do manifesto, um documento que foi várias vezes suavizado, as relações de Skaf com o governo Bolsonaro levantam todo tipo de dúvida sobre a vontade real dele de levar isso adiante.
De qualquer forma, repita-se, oficialmente continua tudo de pé — e o e-mail de ontem sustenta a afirmação.
Pedro Guimarães, o presidente da Caixa, repetiu ontem a interlocutores que, se o manifesto sair com a assinatura da Febraban, enviará à entidade o seu comunicado de desligamento no mesmo dia.
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Com medo da cadeia, Bolsonaro tenta transformar país em refém
Por Bernardo Mello Franco 01/09/2021 • 00:00

Em três dias, Jair Bolsonaro admitiu duas vezes que está com medo da cadeia. No sábado, ele disse ver três alternativas para o próprio futuro: “estar preso, ser morto ou a vitória”. Acrescentou que “a primeira alternativa, preso, não existe”. Faltou explicar o motivo: ausência de crime ou de espaço no xadrez?
Na segunda-feira, o capitão voltou ao tema. Garantiu que o Supremo Tribunal Federal estaria decidido a mandá-lo para a tranca. “O que eles querem? Aguardar o momento para me aplicar uma sanção restritiva, quem sabe quando eu deixar o governo lá na frente”, afirmou. Pelo que indicam as pesquisas, o “lá na frente” deve chegar mais cedo do que ele gostaria.
Bolsonaro tem razões para perder o sono. Até aqui, ele é alvo de quatro investigações simultâneas no Supremo. Os inquéritos apuram a eventual prática de crimes no exercício do mandato, da interferência indevida na Polícia Federal à prevaricação no escândalo da Covaxin. A conta não inclui outros delitos ligados à gestão da pandemia, que serão listados no relatório final da CPI da Covid.
Quando descer a rampa, o capitão também terá que enfrentar esqueletos do passado. Os rolos começam na contratação de assessores-fantasmas e podem chegar às relações suspeitas com milicianos. Ele ainda responde a duas ações penais por injúria e incitação ao estupro. Os processos estão congelados e voltarão a correr assim que o réu pisar fora do palácio.
Assombrado pela visão da cadeia, Bolsonaro age como fera acuada. Mostra as garras e range os dentes para quem pode capturá-lo. O objetivo desse jogo é forçar uma inversão de papéis. O presidente está com medo, mas quer transformar o resto do país em refém de suas ameaças.
O impasse que antecede o Sete de Setembro indica que a armadilha está dando certo. Bolsonaro conseguiu difundir a ideia de que está prestes a dar um golpe. As instituições se assustaram e entraram em estado de paralisia. A CPI suspendeu depoimentos, a oposição desmarcou protestos e o Supremo decretou ponto facultativo. Se o truque continuar funcionando, vamos assim até janeiro de 2023.
__________* Opinião - Marcelo Coelho: Se os atos de 7 de setembro forem grandes, a ditadura se aproximará do Brasil
A esperança, no entanto, é que protestos sejam um fracasso patético, como os do americano Donald Trump
Não parece plausível que Bolsonaro e seu bando consigam dar um golpe e acabar com a democracia daqui a menos de uma semana.
Mas, seja lá o que venha a acontecer, não foi por falta de aviso.
Sete de setembro, em todo caso, é uma boa data.
Se as manifestações da extrema direita forem expressivas, a simbologia verde e amarela ajudará a cimentar o caminho para os próximos passos no rumo de uma ditadura.
Formulo a pior hipótese —a coisa dá certo para Bolsonaro.
Um bando de malucos, não tão pequeno quanto o dos americanos que invadiram o Capitólio, ocupa o STF.
Instaura-se o impasse.
Como nas velhas teorias revolucionárias, surge a tal da “dualidade de poder”.
São os casos em que as forças da “ordem” (polícia, Exército) já não sabem a quem obedecer.
Expulsam os manifestantes, como manda o Judiciário?
Ou aderem aos rebeldes, como quer Bolsonaro?
Prossigo imaginando o pior possível.
Forças Armadas e polícia abstêm-se de reprimir o movimento.
Joga-se na cartada da negociação, com Bolsonaro numa posição de força.
Os democratas de “bom senso” pedem calma.
Alguns, é claro, organizam manifestações contra o golpe.
Os indignados vão às ruas.
A maioria, entretanto, pode achar melhor esperar para ver —o momento não recomenda confrontos, meus amigos.
É preciso buscar o entendimento, sem radicalizações.
A “polarização” não interessa a ninguém etc.
Supondo que as coisas fiquem nesse pé por um tempo, Bolsonaro pode ainda dobrar a aposta —confusão com caminhoneiros, estradas interrompidas, tratores nas estradas, um quartel ou outro em insurgência.
Loucura, você pode pensar.
Nem os bancos estão a favor de Bolsonaro.
A popularidade dele é baixíssima.
A inflação cresce, há uma crise energética pela frente, a situação da saúde é isso que se vê, o desemprego continua…
Mas é aí que Bolsonaro pode avançar.
Requer do Congresso uma autorização extraordinária, do tipo Hugo Chávez, para governar por decreto.
Entra Paulo Guedes —com todas as reformas que o Congresso não quer aprovar.
As chamadas “classes conservadoras” coçam a cabeça.
“Haha, esse Bolsonaro é um maluco… Mas o Paulo Guedes sabe o que está fazendo…”
O banqueiro, o empresário, o economista liberal, o “formador de opinião” começam a pensar.
Mais de um ano até as eleições, nessa confusão toda, com Bolsonaro enfraquecido, um impeachment “traumático”, o Congresso mandando sem fazer nada?
“Não, meu caro, não há nada de desejável nisso.”
Esperar?
Para que em 2022 ganhe Lula, com um novo plano de reformas liberais?
A alternativa de plenos poderes a Paulo Guedes pode parecer bem mais sedutora.
Um estado de exceção de seis meses, sem o Congresso e o STF para atrapalhar…
Por que não?
O momento é de pacificar os ânimos... Já vejo os debates.
É golpe? Não é golpe?
“Afinal, o Congresso delegou poderes ao chefe do Executivo.
O que há de tão irregular assim?”
Surgem novos protestos.
“Ah, mas isso é só a esquerda contra o pacote do Paulo Guedes.
Nenhum desses caras está pensando em defender a democracia.”
A coisa arrefece.
Caminhoneiros, agricultores, polícia, Exército, tudo volta subitamente ao “normal”.
Como cereja do bolo, o presidente aceita ser vacinado, sorridente.
Entramos num “período excepcional”, com muita gente dizendo que será de curta duração.
Se você chamar isso de golpe ou de ditadura, será “radical”.
Os autoritarismos contemporâneos não seguem o padrão do Brasil em 1964 ou do Chile em 1973.
De Fujimori em diante, a fórmula do “autogolpe” parece melhor e foi levada à perfeição por Chávez.

Bolsonaro tem força para isso?
Hoje eu diria que não.
Como disse, imaginei apenas a pior hipótese.
Acho difícil que as manifestações do Sete de Setembro levem a um impasse tão nítido.
A esperança é que sejam um fracasso patético, como os de Donald Trump.
Se não forem, deixam Bolsonaro numa posição melhor do que a que ele tem hoje.
Não se trata exatamente de um tudo ou nada.
Mas a aposta de Bolsonaro está bem clara.
Quanto mais ele blefa, mais se torna caro, para a democracia, pagar para ver.
__________* Josias de Souza - Atos de 7 de Setembro viraram uma estratégia suicida de Bolsonaro
Colunista do UOL
31/08/2021 08h50
Bolsonaro meteu-se numa estratégia suicida. E não sabe como sair da armadilha que criou para si mesmo. O presidente busca nas ruas o poder que perde nos gabinetes e nos salões da Capital. Por maiores que sejam os atos programados para o Dia da Independência, eles não conseguirão apagar as evidências de que a base eleitoral de Bolsonaro não para de encolher.
O presidente informa que discursará em Brasília e São Paulo no 7 de Setembro. Mas a característica fundamental da dificuldade de julgamento de um governante que chama de "idiota" quem prefere o feijão aos fuzis é ter que ouvir o personagem por dois anos e oito meses para chegar à conclusão de que ele não tem nada de útil a dizer.
Na campanha presidencial de 2018, havia três grandes problemas sobre a mesa: ruína fiscal, estagnação econômica e corrupção endêmica. Jair Bolsonaro manda em Brasília desde janeiro de 2019. Para dar certo, precisaria aprovar reformas no Congresso, destravar a economia e higienizar o Estado. Num cenário agravado pela pandemia, forneceu aos brasileiros tuítes, crises, ineficiência e remédios mágicos.
Depois da reforma da Previdência, o governo não aprovou nenhuma outra reforma de peso. Assiste à evolução do desemprego. Convive com malfeitos atribuídos ao primogênito Flávio Bolsonaro. Alega ser vítima de uma orquestração capitaneada pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Tribunal Superior Eleitoral para roubar a eleição de 2022. O presidente vive num mundo 100% feito de mentiras.
Como os problemas não deixam de existir apenas porque Bolsonaro finge não enxergá-los, o Planalto perdeu a relevância. Houve uma pulverização do poder. O presidente foi cedendo pedaços de sua autoridade ao longo do caminho. Em meio a uma confluência de crises —política, institucional, econômica e social—, o poder se espraia entre o Supremo, o centrão, a presidência do Senado, a CPI da Covid, os governadores...
No feriado, o pedaço da sociedade que ainda tem simpatia por Bolsonaro irá às ruas para gritar em seu apoio. Imaginar que isso fortalecerá o presidente é uma fantasia. Na campanha de 2022, se tudo o que Bolsonaro tiver a apresentar contra o buraco fiscal, a sedação econômica e a perversão ética for um conjunto de desculpas, parte do asfalto que ainda o ovaciona pode rosnar para ele.
Não é que o governo está sem rumo. A questão é que o rumo do governo é a crise perpétua. Bolsonaro está em processo de autocombustão. O que obriga o Brasil a se desdobrar para não virar cinzas junto com ele.
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Reportagem revela aspecto golpista das Forças Armadas contra regime democrático

Lucas Pedretti, Agência Pública - No início de 1989, o chefe do Centro de Informações do Exército (CIE), general Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, mudou o formato dos Relatórios Periódicos Mensais (RPM) do órgão para a “difusão de conhecimentos destinados ao seu público interno”. Com alterações na diagramação, na linguagem e na distribuição, o militar tentava ampliar a influência dos chamados RPMs na formação da tropa. Era um tempo de transformações no país, e o Exército se estruturava para o novo momento: a redemocratização.
Após mais de duas décadas de ditadura militar (1964-1985), o Brasil vivia sob a vigência da chamada Constituição Cidadã. Aprovada em outubro de 1988, a nova Carta Magna vinha com a promessa de aprofundamento da democracia, ampliação dos direitos sociais e respeito aos direitos humanos. Mas para o CIE as mudanças não eram positivas, ao menos segundo os informes RPMs obtidos pela Agência Pública que vão de fevereiro de 1989 a julho de 1991.
Esses informes são parte de um conjunto de RPMs do CIE, alguns deles inéditos, e transferidos para o Arquivo Nacional junto ao acervo do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI).
No RPM de dezembro de 1989, por exemplo, a Nova República seria caracterizada como um “regime de permissividade política e social sem precedentes”, o que abriria espaço para uma nova “tentativa de tomada do poder” pelas esquerdas. Como consta nesses documentos, foi ampliando a disseminação dos RPMs que o CIE buscou melhor preparar os oficiais da força para enfrentar a nova ameaça.
O material indica que a principal influência do general Avellar Coutinho ao elaborar os relatórios de inteligência do Exército, já na vigência do regime democrático, era o Orvil, um projeto secreto do CIE desenvolvido entre 1985 e 1988.
A história do Orvil se tornou pública desde que o jornalista Lucas Figueiredo, autor de Olho por olho: os livros secretos da ditadura, revelou sua existência em 2007. O documento de pouco menos de mil páginas, cujo nome oficial é “As tentativas de tomada do poder”, sempre circulou entre militares da reserva que haviam integrado a estrutura repressiva da ditadura. Foi a fonte de inspiração para livros escritos por esses militares, como por exemplo Rompendo o silêncio, publicado em 1987 pelo único militar reconhecido pela Justiça brasileira como torturador, Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Os relatórios inéditos do CIE, que podem ser lidos abaixo, apontam para um capítulo ainda desconhecido desta história, revelado agora. Os documentos analisados indicam que os ideais do Orvil – que significa livro ao contrário – não circularam apenas entre pequenos núcleos de militares da reserva. Eles foram disseminados, de forma oficial, dentro da instituição.
Da perspectiva do Exército
Em 1984, o tenente-coronel Romeu Antonio Ferreira, lotado no CIE, parecia indignado com a proliferação de denúncias sobre violações de direitos humanos cometidas por militares na ditadura. Essa indignação transparece no documento intitulado Apreciação s/nº A1 de 27 de março de 1984. A “apreciação” é um tipo de documento produzido pela inteligência militar em que, para além de repassar um informe ou uma informação aos seus superiores, o analista elabora um juízo de valor sobre determinada situação, com o intuito de sugerir linhas de ação.
Os relatos de tortura eram cada vez mais difundidos desde o início da abertura “lenta, gradual e segura”, e o militar, ainda segundo o documento, decidiu tomar uma atitude para combater o que julgava ser uma injustiça histórica.
Como revelou o jornalista Marcelo Godoy, foi Ferreira quem elaborou a “apreciação” que daria origem ao Orvil. Explicitando seu incômodo com o que ele considerava uma “reescrita da história” pelos comunistas, ele desenhou um projeto e apresentou aos seus superiores do CIE. Sua proposta era elaborar livros, cartilhas e outras iniciativas de divulgação da perspectiva do Exército sobre a luta armada. Analisado pelas historiadoras Priscila Carlos Brandão e Isabel Cristina Leite em artigo de 2012, o documento do tenente-coronel Ferreira argumentava, para defender a proposta, que os comunistas estavam adotando um novo front prioritário de batalha: o “campo da História”. Era preciso mudar, então, o teatro de operações.
“O objetivo era elaborar uma narrativa para criar uma proteção aos militares que haviam atuado na repressão”, explica Priscila Brandão, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de SNI & Abin: uma leitura da atuação dos serviços secretos brasileiros ao longo do século XX. Priscila enfatiza, porém, que os militares não estavam apenas preocupados com a possibilidade de serem julgados pelos crimes cometidos. Marcados por valores conservadores, eles acreditavam que o comunismo seguia representando um perigo real para o futuro.
Em 1985, foi publicado o livro Brasil: nunca mais, que documentava de forma sistemática as torturas ocorridas desde 1964. A grande repercussão da obra teria convencido o general Leônidas sobre a proposta de Ferreira. Segundo o livro de Lucas Figueiredo, o ministro determinou, então, que agentes do CIE reunissem documentos da agência para contar, de sua perspectiva, o que havia sido a luta armada no país. A coordenação dos trabalhos ficou a cargo do coronel Agnaldo Del Nero Augusto, chefe da Seção de Informações do CIE. Três anos depois, nasceria o Orvil.
“O Orvil sistematiza na forma de uma narrativa uma mentalidade que é importante desde 1935”, explica João Cezar de Castro Rocha, que tem se dedicado à análise do documento nos últimos anos. Castro Rocha é autor de Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas do Brasil e aponta que o vocabulário usado no documento remonta aos ideais anticomunistas existentes no Exército desde a chamada Intentona Comunista, quando militares ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) tentaram promover uma insurreição armada em 1935.
Embora dedicasse algumas páginas às duas primeiras “tentativas de tomada do poder” – em 1935 e 1964 –, o foco do Orvil recaiu sobre a terceira: a luta armada. Em linhas gerais, o texto traz apenas a reafirmação das versões oficiais sobre os assassinatos cometidos pela ditadura.
Mas a novidade do Orvil está no argumento de que estava em curso uma “quarta tentativa de tomada do poder”, baseada em uma nova forma de luta. “Vencida na forma de luta que escolheu – a luta armada, a esquerda revolucionária tem buscado transformar a derrota militar que lhe foi imposta, em todos os quadrantes do território nacional, em vitória política”, registra um trecho do Orvil.
A “quarta tentativa de tomada do poder” seria ainda mais perigosa que as anteriores. Isso porque ela não era baseada na força das armas, mas sim na tentativa de manipulação da opinião pública. O intuito dos comunistas, segundo o texto, era estabelecer uma visão crítica sobre as Forças Armadas na sociedade. Quando essa narrativa estivesse consolidada, a nação estaria definitivamente desprotegida, já que eram exatamente eles, os militares, o último bastião de defesa contra o comunismo. Só então os “subversivos” lançariam mão das armas.
O jornalista Lucas Figueiredo narra em seu livro que, no início de 1988, Leônidas Pires Gonçalves levou os originais do Orvil para José Sarney, então presidente da República. No encontro, Sarney vetou a publicação da obra. Como consequência do veto, formou-se uma espécie de confraria, composta por poucos militares e civis de extrema direita, que detinham cópias do documento. Um desses militares era o general Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, como citado acima, o militar que mudou o formato dos RPMs.
Confidencial, pero no mucho
“O Exército brasileiro tem sido o fator decisivo que tem impedido a tomada do poder por minorias ideológicas totalitárias de inspiração marxista-leninista.” Assim escreveu Avellar Coutinho no primeiro Relatório Periódico Mensal do CIE produzido no novo formato. “Por isto mesmo, os órgãos de comunicação social têm, de modo insistente, feito veicular notícias e comentários adversos ao Exército.” O informe, classificado como confidencial, foi distribuído em março de 1989. Com as mudanças propostas pelo general Avellar Coutinho, aumentou de forma significativa a quantidade de exemplares de cada RPM circulando no Exército. Pelo menos 343 cópias foram distribuídas e enviadas para diferentes unidades militares.
Em maio de 1989, o RPM trouxe um texto intitulado “A nova esquerda e o processo revolucionário”, que se dedicava a entender a relação entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Segundo o documento da inteligência do Exército, essas organizações eram as principais responsáveis pela nova estratégia das esquerdas revolucionárias: o “trabalho de massas”. “As organizações concluíram que a estratégia adotada para a tomada do poder pela via militarista – a luta armada – fracassara por falta de apoio popular. Reformularam sua estratégia desenvolvendo o Trabalho de Massa necessário para conquistar o apoio da população”, diz um trecho do documento.
Um ano depois do veto de Sarney, os ecos do Orvil apareciam de forma evidente na leitura que o CIE fazia da realidade nacional. Ao longo de 1989, os sucessivos RPMs trariam análises com o mesmo teor, diretamente inspiradas pelas ideias do projeto desenvolvido entre 1985 e 1988, que supostamente fora engavetado.
O RPM de dezembro de 1989 trouxe de forma explícita o conteúdo do Orvil. No informe, Avellar Coutinho apontava que a Nova República era marcada por um “clima de ilimitada tolerância que tem dado às esquerdas completa liberdade de ação e crescente complacência, simpatia e aceitações”. Nesse novo cenário, escreve o general, “a esquerda marxista-leninista, com uma nova estratégia e uma feição ‘democraticamente palatável’, desencadeou a quarta tentativa de tomada de poder”.
Avellar Coutinho saiu da chefia do CIE no início de 1990. Mas já em março daquele ano, no segundo RPM, assinado pelo coronel Ary dos Santos, que assumiu como chefe interino da agência, o Orvil voltava a dar o tom. “No Brasil”, afirma o relatório, “procurando não mais repetir erros realizados nas três tentativas anteriores de tomada do poder, as lideranças da Nova Esquerda planejaram uma paciente e bem articulada concepção estratégica para a implementação do socialismo”. O trecho aparecia em um texto de avaliação da tática eleitoral do PT para as eleições municipais de 1990.
O último RPM disponível neste conjunto documental data de julho de 1991. Uma de suas análises intitula-se “A crise do comunismo e as instituições militares”. O texto afirma que, com a derrocada da União Soviética, o comunismo entrou em declínio. Como consequência, vinha sendo observado um “clima de aparente segurança, levando muitos governos a uma apressada redução das medidas de defesa interna, esquecendo-se que as esquerdas jamais abdicarão da tomada do poder”. Em face do cenário, restava apenas uma saída: o fortalecimento das instituições militares.
A Pública solicitou ao Comando do Exército, via Lei de Acesso à Informação (LAI), todos os relatórios periódicos mensais do CIE produzidos nos anos 1990. Com eles, seria possível entender se o Orvil seguiu influenciando a instituição. No entanto, o Exército afirmou que a documentação foi destruída (a íntegra da resposta).
A despeito da dificuldade de acessar documentos da instituição, estudiosos reforçam que as Forças Armadas não passaram por reformas institucionais no pós-ditadura. “Para a inteligência do Exército, a questão política nunca deixou de ser o grande foco”, afirma a historiadora Priscila Brandão.
“A gente não consolidou uma democracia, do ponto de vista das relações civis-militares”, atesta a pesquisadora. “Os militares criaram um discurso de que eles são o lugar por excelência da idoneidade, de que eles são um quarto poder moderador. Quando a sociedade não tem condições, eles são a força que consegue manter a ordem. A gente vai até onde os militares permitem”, conclui.
“Marxismo cultural”: de Avellar Coutinho a Olavo de Carvalho
“Inspirados e influenciados quando de sua estada no estrangeiro pelos pensamentos do ideólogo italiano Antonio Gramsci, considerado depois de Lênin o maior teórico do marxismo, [os líderes subversivos] passaram a buscar o domínio das instituições culturais e da educação. Pretendiam, assim, criar uma contra-hegemonia social, viabilizando as transformações que permitiram a conquista do poder e a modificação da estrutura vigente.”
O trecho acima está no RPM de maio de 1989. Como notou o jornalista Marcelo Godoy em artigo recente, publicado no livro Os militares e a crise brasileira, com a inclusão do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci entre os intelectuais influenciadores da “nova esquerda”, Avellar Coutinho antecipava o argumento do “marxismo cultural”. A ideia se tornaria célebre nos últimos anos por conta do trabalho de Olavo de Carvalho, guru do presidente Jair Bolsonaro. Hoje, é Carvalho o nome que vem à cabeça quando se fala em “marxismo cultural”. Mas nem sempre foi assim.
No final dos anos 1980, Marcelo Pimentel Jorge de Souza recém-ingressara na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Segundo contou à Pública, ele via, nos quartéis, que o maior responsável pela circulação das ideias sobre o “marxismo cultural” era o general Avellar Coutinho. Para além da difusão em canais oficiais do Exército, por meio dos relatórios de inteligência, Pimentel diz que o general Avellar Coutinho teria apoiado um jornal produzido por militares da reserva intitulado Inconfidência. “Esses jornais iam por lista de correspondência para coronéis que tinham vivido todo o período da ditadura como capitães e majores”, explica Pimentel, que hoje é coronel da reserva do Exército brasileiro.
Pimentel diz que os oficiais superiores tinham receio do que ocorreria com eles no novo regime, o que abria espaço para a influência de Avellar Coutinho. “Com o fim da União Soviética e do Muro de Berlim”, afirma, “as bandeiras do anticomunismo estavam soltas, perdidas. E o general Coutinho foi fundamental para agarrar essas bandeiras, por intermédio dessa leitura ‘gramscista’, e divulgá-las. Nos anos 1990 só se falava disso. Eu já estava como tenente, capitão, e recebia no meu quartel esses jornaizinhos”, revela.
A partir da documentação, a reportagem identificou que as ideias do Orvil e a perspectiva do “marxismo cultural” são próximas. Quando o tenente-coronel Romeu Antonio Ferreira escreveu a Apreciação s/nº A1 de 27 de março de 1984, que daria o pontapé inicial para o projeto do CIE, o militar citou apenas um intelectual para embasar seus argumentos.
Era Jorge Boaventura, professor da Escola Superior de Guerra (ESG) e membro do conselho editorial da revista A Defesa Nacional, publicada pelo Exército. Como destacou Ferreira, Boaventura apontava em seu livro Ocidente traído, publicado pela editora do Exército em 1980, que estava em curso uma “interferência cultural que, além de modificar os valores, procura criar novas noções e conceitos, de acordo com a ótica marxista”.
No início dos anos 1970, Boaventura fora designado por Emílio Garrastazu Médici para representar o Brasil na Junta Interamericana de Defesa, chegando ao posto de chefe da Divisão de Estudos Sociais do Colégio Interamericano de Defesa. “Desde os anos 1960, havia um debate entre os conservadores norte-americanos sobre algo que às vezes recebe o nome de ‘marxismo cultural’, às vezes de ‘guerra cultural’. É a ideia de que a cultura ocidental cristã vai ser destruída pois seus valores estão sob ataque”, esclarece Eduardo Costa Pinto. Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele tem se dedicado a entender as origens ideológicas do atual pensamento da extrema direita brasileira e explica que a discussão ganhou força com a chegada de Ronald Reagan ao poder em 1981.
Nominalmente citado por Ferreira em 1984, Boaventura e suas ideais seguiriam influenciando os militares envolvidos na escrita do Orvil. Em 1987, o professor da ESG daria uma palestra sobre como o comunismo internacional utilizava a “estratégia de Gramsci de infiltrar-se nas instituições e corroê-las”.
O pronunciamento de Boaventura sobre Gramsci, dois anos antes de a ideia estar estampada em um RPM assinado pelo general Avellar Coutinho – e muito antes de Olavo de Carvalho se tornar uma figura bolsonarista –, foi feito em uma noite de festa. Era o lançamento da Associação Brasileira de Defesa da Democracia (ABDD).
O nome parecia esconder o real objetivo do grupo, que reunia militares da ativa e da reserva descontentes com os rumos da abertura. No lugar de defender a democracia, eles pretendiam miná-la. Em reportagem sobre a associação, o Jornal do Brasil revelou os nomes de alguns dos líderes da iniciativa. Entre eles estavam Romeu Antonio Ferreira e Agnaldo Del Nero Augusto.
Orvil e Bolsonaro
Décadas depois de municiar a inteligência do Exército, o vocabulário da “tomada do poder” aparece diretamente nas manifestações do presidente. O mais explícito veio como resposta a uma liminar emitida em 12 de junho de 2020 por Luiz Fux, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito de uma ação que questionava os limites do papel constitucional das Forças Armadas.
“As Forças Armadas do Brasil não cumprem ordens absurdas, como p. ex. a tomada de Poder. Também não aceitam tentativas de tomada de Poder por outro Poder da República.” Os termos são de uma nota oficial assinada por Jair Bolsonaro, seu vice, Hamilton Mourão, e o então ministro da Defesa Fernando Azevedo.
Mas os ecos do Orvil estão presentes também em outras manifestações do governo. Nas três Ordens do Dia alusivas ao 31 de março assinadas pelos ministros da Defesa de Bolsonaro, está presente a visão do golpe de Estado de 1964 como uma ação em defesa da democracia. “O Movimento de 1964 é um marco para a democracia brasileira. O Brasil reagiu com determinação às ameaças que se formavam àquela época”, afirma o documento assinado em 2020 pelo então ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva e pelos comandantes das três forças.
Também as redes sociais da Presidência da República parecem revelar ideais do Orvil. Quando o tenente-coronel Sebastião Curió foi recebido por Bolsonaro no Planalto, o twitter da Secretaria de Comunicação do governo publicou uma foto do encontro, caracterizando o militar como “herói de guerra”. Assassino confesso de militantes que lutavam contra a ditadura na Guerrilha do Araguaia, Curió é alvo de sete ações do Ministério Público Federal (MPF) relativas ao seu envolvimento em crimes cometidos durante a repressão ao movimento. “A Guerrilha do Araguaia tentou tomar o Brasil via luta armada”, diz a postagem. “A dedicação deste e de outros heróis ajudou a livrar o país de um dos maiores flagelos da História da Humanidade.”
“A parte do Exército que está no poder é a que vê como comunismo tudo que não é o seu anticomunismo”, explica o professor João Cezar de Castro Rocha. “Para esses militares, o Orvil não é apenas uma narrativa, mas é a expressão fiel da realidade. É uma bíblia. E segue absolutamente vigente, o mundo segue sendo aquele mundo bipolar presente no livro.”
Com a ascensão da extrema direita brasileira nos últimos anos, especialmente após a eleição de Bolsonaro, as ideias de Avellar Coutinho e os argumentos do Orvil passaram, com adaptações ao discurso, a aparecer no primeiro plano do debate público. Uma delas foi a centralidade que a crítica ao “politicamente correto” ganhou.
“Parte dos representantes dessa ideologia conservadora usa o ‘politicamente correto’ como sinônimo de ‘marxismo cultural’”, explica o professor da UFRJ Eduardo Costa Pinto. “Isso porque o ‘politicamente correto’ estaria incutindo nas pessoas valores que se chocam com os valores ocidentais cristãos, abrindo caminho para a revolução comunista.”
Na entrevista que deu ao pesquisador Celso Castro, da Fundação Getulio Vargas (FGV), o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas menciona a expressão “politicamente correto” oito vezes, segundo apuração da Pública. Em uma delas, argumenta que a esquerda, “com pautas esvaziadas desde a queda do comunismo”, aderiu ao “politicamente correto”. Sem mencionar diretamente o vocabulário das “tomadas do poder”, os ecos do Orvil estão presentes no argumento. “Esse conjunto de pensamentos espraiou-se por nossa sociedade, estimulado pela militância da esquerda. O politicamente correto adquiriu um caráter de ideologia”, diz Villas Bôas.
Se por um lado a ideologia do Orvil parece ter ganhado na crítica ao “politicamente correto” uma nova feição, ela também se beneficiou enormemente de mudanças na tecnologia.
Desde que o jornalista Lucas Figueiredo revelou a existência do Orvil, em 2007, uma cópia do relatório de quase mil páginas foi postada na internet. Hospedado no site do grupo Ternuma (Terrorismo Nunca Mais) e na página de Carlos Aberto Brilhante Ustra, o arquivo em pdf passou a alimentar as redes de extrema direita, ampliando a difusão de narrativas legitimadoras do golpe e da ditadura. Quando, em 2012, tiveram início os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, os militares finalmente conseguiram driblar o veto de Sarney, publicando o Orvil na forma de livro – hoje, ele pode ser comprado inclusive na Amazon.
“Com o advento das redes sociais, primeiro com as listas de e-mail e depois com o zap, a divulgação de ideias sobre o ‘marxismo cultural’ entre os militares se tornou uma festa”, afirma o coronel da reserva Marcelo Pimentel. “Transformaram o Orvil em meme”, sintetiza.
Para João Cezar de Castro Rocha, não é à toa que a lógica “orviliana” tenha ganhado tanta força com as redes sociais. “A força que o universo digital para qualquer retórica de ódio é que esses discursos são algorítmicos antes mesmo da existência do universo digital, pois dividem o mundo em dois lados”, explica. “Há um casamento inesperado entre essa estrutura dicotômica e o universo das redes sociais.” Essa convergência, aponta o professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ajuda a explicar a situação atual. “O que o Orvil realmente pretendia? Disputar a memória do futuro. E nós estamos vivendo o momento de trevas em que estamos é porque, em alguma medida, o Orvil triunfou”, avalia.
Tanto triunfou que o Orvil é também leitura sugerida em cursos de aperfeiçoamento para militares, segundo fontes ouvidas pela reportagem. O historiador Victor Traldi, mestrando em história na Universidade Federal Fluminense (UFF), ao trabalhar com planos de disciplina de matérias oferecidas na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, identificou que tanto o Orvil quanto as obras de Avellar Coutinho fazem parte da bibliografia básica exigida dos estudantes.
“Em disciplinas como História Militar, Liderança Militar e Ética Profissional Militar, o que se estuda em relação à ditadura militar são obras como o Orvil e os livros de Avellar Coutinho”, diz Traldi. “É uma formação alijada do que é feito na academia, marcada por ataques à produção acadêmica e ao que historiadores profissionais produzem sobre o período.”
Marcelo Pimentel lamenta que esses materiais voltem a frequentar a formação dos militares. “Isso é um problema não só para agora, mas também para o futuro, para as próximas gerações militares, que vão crescer e desenvolver as ideias do Avellar Coutinho, do Ustra”, aponta. “A minha geração tinha tudo para virar essa página, mas a geração de 1970 tampou a panela e hoje nós estamos nessa panela. Com isso, a gente perdeu o que seria nosso grande papel na história, que é fazer essa página da ditadura passar.”
O general Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, que nos primeiros anos de democracia denunciou a Nova República como um regime muito permissivo para a atuação da esquerda, morreu em 2011. Não teve tempo de ver, por exemplo, suas ideias do Orvil ecoando entre policiais e militares em defesa de Bolsonaro em 2021. O receio foi abertamente manifestado por governadores em reunião realizada no dia 23 de agosto.
Entre os casos que chamaram atenção, está o de Ricardo Nascimento de Mello Araújo, coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo, que gravou um vídeo convocando seus colegas de farda para a manifestação bolsonarista do próximo dia 7 de setembro. Ex-comandante da Rota, força de elite da PM paulista, Araújo explicou no vídeo por que considera tão importante a manifestação do dia da Independência.
“Nesse momento”, afirma Araújo logo depois de chamar de “revolução” o golpe de 1964, “em que o país passa por essa crise, em que nós percebemos o comunismo querendo entrar de forma lenta, trabalhada ao longo dos anos, eles vêm implantando, mudando o ensino, querendo entrar no nosso país.”
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__________* Reportagem: Thaís Oyama - Serviços de inteligência mostram que temperatura do 7 de setembro baixou

Thaís Oyama
Colunista do UOL
31/08/2021 12h52
Atualizada em 31/08/2021 13h49
Numa escala de risco das manifestações previstas para o dia 7 de setembro, a possibilidade de ocorrência de conflitos violentos, de zero a dez, desceu de 7 para 5 desde a semana passada.
A avaliação é de um general do Exército que participa das reuniões de monitoramento que vêm sendo realizadas entre a Força e as Polícias Militares de áreas consideradas mais sensíveis, como São Paulo e o Distrito Federal.
Mulher empoderada também sofre: equilíbrio emocional não é autossufiência
Esse monitoramento — feito pelos serviços de inteligência das polícias, do Exército e também pela Abin — visa a aferir o grau de risco de "quebra da ordem pública" durante as manifestações e leva em conta três indicadores principais: os planos de deslocamento e posicionamento de grupos potencialmente perigosos; a presença de armas brancas e de fogo nas mãos desses grupos; e a suficiência ou insuficiência dos meios de contenção dos encarregados de dissipar eventuais focos de conflito (nesse caso, as PMs dos estados).
Até o momento, os responsáveis pelos monitoramentos não identificaram um número significativo de grupos de perfil agressivo dispostos a confrontar frentes antagônicas e nem a presença de armas em seu poder. Sobre a capacidade dos meios de contenção das polícias militares, a conclusão dos serviços de inteligência é de que, tanto em São Paulo quanto no Distrito Federal, ela é suficiente para evitar que conflitos pontuais resultem em distúrbios de massa no dia 7.
Esse esfriamento de ânimos ficou especialmente nítido a partir do dia 25 de agosto. Na data, em que se comemora o Dia do Soldado, setores do Exército temiam que Jair Bolsonaro fizesse um discurso incendiário. O presidente não falou e o comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, optou por um pronunciamento protocolar — o comportamento de um e de outro, na avaliação de militares, ajudou a desarmar espíritos.
Mesmo diante da avaliação de baixo risco das manifestações, as reuniões entre comandantes de área do Exército e comandantes das polícias militares de estados contemplaram a hipótese de intervenção da Força no caso de conflitos que saiam do controle dos estados.
A lei prevê que, em situações como essas, governadores podem dirigir-se diretamente ao presidente da República ou ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), hoje chefiado pelo general Augusto Heleno, para pedir a ajuda das Forças de modo a garantir a lei e a ordem. A solicitação dos estados pode envolver o envio de tropas ou apenas equipamentos e meios de transporte. Em quaisquer dos casos, a decisão de atender ou não ao pedido é do presidente.
__________* Mesmo sem bola de cristal, palpites sobre o dia 7 - Bepe Damasco
Por Bepe Damasco

Antes de entrar no mérito deste artigo, dou a minha opinião sobre a presença da oposição de esquerda nas manifestações de 7 de setembro: sou favorável, mas com todos os cuidados preventivos possíveis, que incluem horários diferentes e pontos distantes geograficamente dos atos dos fascistas, além, é claro, de se evitar todo e qualquer tipo de provocação.
Isto posto, vamos a alguns pitacos sobre o 7 de setembro, especialmente focados na propalada intentona golpista que se anuncia. Correndo, evidentemente, o risco do erro, que faz parte da vida, vamos a eles:
1) Bolsonaro colocará muita gente nas ruas, notadamente em São Paulo e Brasília. A ampla convocação radicalizada nas redes sociais bolsonaristas e o fato inequívoco de as mobilizações antidemocráticas terem sido alçadas ao topo da agenda política e das preocupações nacionais em muito contribuíram para sua disseminação. Cabe lembrar que, embora francamente minoritário na sociedade, contando com algo em torno de 25% de seguidores, o contingente de seguidores cegos de Bolsonaro é mais do que suficiente para garantir sucesso de público aos protestos.
2) Bolsonaro está longe de ter força e respaldo político para perpetrar um golpe no dia 7. Não que ele não pretenda. Mas, isolado como nunca e colecionando fracassos retumbantes em seu governo, o capitão nazista não tem o apoio de segmentos da sociedade que foram decisivos para o golpe clássico de 1964 e a ruptura democrática de novo estilo de 2016. Os veículos de comunicação não apoiam a intenção totalitária de Bolsonaro, nem a forças do capital, nem o Judiciário, nem a Igreja Católica, tampouco a maioria esmagadora do meio político e da sociedade civil. E as Forças Armadas, onde Bolsonaro desfruta de forte apoio, estaria mesmo disposta a embarcar nessa aventura inconsequente? Tenho minhas dúvidas. Também no mundo globalizado em que vivemos não há o menor ambiente para a implantação de uma ditadura em um país do tamanho e da importância do Brasil.
3) Contudo, procede a preocupação quanto à integridade da sede dos poderes, em Brasília. Em que pese o cenário mais provável seja o cerco puro e simples às sedes do STF, principalmente, e do Congresso Nacional, com a exibição de faixas, cartazes e palavras de ordem raivosas pela quebra da ordem constitucional, não se pode descartar a possibilidade de tentativa de invasão por parte de integrantes das hordas de descerebrados que lá comparecerão.
4) Também faz sentido a apreensão quanto à segurança e a vulnerabilidade dos prédios públicos devido ao envolvimento das PMs nas mobilizações, como base de apoio ao golpe. Depois que o governador Dória afastou um comandante em São Paulo e vários outros governadores deram declarações enquadrando suas PMs, penso que esse perigo já foi maior. Agora, a tendência é que a adesão das polícias ao golpismo se limite ao comparecimento de praças e oficiais fora de serviço. O mesmo imagino deva ser o procedimento dos membros das Forças Armadas.
5) Mas isso não elimina a ameaça de algum nível de baderna. Não satisfeitos em participar de protestos contra o sistema democrático, o que de per si é crime, arruaceiros a serviço do caos que interessa a Bolsonaro podem recorrer a ações de terror, tais como incendiar ônibus e outros equipamentos públicos, agredir pessoas ou coisa pior. Cabe aos democratas denunciar e cobrar a atuação das forças de segurança, pagas pela sociedade para protegê-la.
6) Com as pessoas fazendo fila para recolher restos de ossos para comer, já que o arroz, o feijão, a carne e o gás de cozinha atingiram preços inacessíveis, o desemprego batendo recordes sucessivos, os biomas do país ardendo em chamas, um apagão de energia elétrica à vista, 570 mil mortos pelo coronavírus e uma CPI que a cada dia desnuda mais a picaretagem das vacinas no Ministério da Saúde, resta a um governante sem escrúpulos e sem compromisso democrático como Bolsonaro apelar para a confusão, pois ninguém mais do que ele sabe que a eleição do próximo ano está perdida.
7) Neste sentido, o dia 7 de setembro para Bolsonaro tem o nítido propósito de fazer a tese do golpe, ou da intervenção militar, ou da decretação do estado de sítio com a suspensão de algumas ou de muitas garantias constitucionais, ande algumas casas. E, de quebra, manter acessa a chama da militância antidemocrática entre os idiotas fanáticos que o apoiam.
8) O grande temor de Bolsonaro hoje é o da cadeia para ele e seus filhos. Aí se mete em um beco sem saída. Se esticar a corda demais, pode perder o mandato. Se recuar, seus seguidores o abandonam. Mas o cerco se fecha. Hoje leio que até a Fiesp, bastião do conservadorismo reacionário e endinheirado, divulgará um manifesto em defesa da democracia.
9) Como apontou o professor Gilberto Maringoni em um artigo publicado no seu perfil do facebook, Bolsonaro é mau militar e, portanto, ruim de estratégia. Ele pode estar metendo os pés pelas mãos ao dobrar a aposta no confronto com o regime democrático. E quando reconhece que seu futuro é “a cadeia, a morte ou a vitória”, quem sabe não esteja buscando uma anistia para não pagar por seus crimes, o que, na certa, não obterá.
10) Bolsonaro sairá do 7 de setembro ainda menor e mais inviável como governante do que hoje.
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Quem articula com a cúpula das Forças Armadas é o vice, Hamilton Mourão, e não Bolsonaro - Laurez Cerqueira
Por Laurez Cerqueira

O vice, Hamilton Mourão, tem dado demonstrações claras de que é ele quem articula com a cúpula militar e não o titular. Bolsonaro tornou-se um presidente decorativo. Não governa, vive fazendo arruaças para postar nas redes sociais, criar um “Brasil paralelo” e alimentar o ódio de seus seguidores à democracia, enquanto o país afunda na crise econômica, social e moral. Desemprego, inflação, fome e corrupção.
Mourão tem feito contrapontos aos desvarios de Bolsonaro com postura de equilibrado, com palavras comedidas, sinalizando que está pronto para sucedê-lo. Esse parece ser um dos pontos nevrálgicos mais agudos da crise política, que tem levado Bolsonaro a protagonizar cenas grotescas de insegurança e desequilíbrio. Nas reuniões, ele não tem se dirigido a Mourão. Apesar do vice dizer que lhe é leal.
A desconfiança de Bolsonaro de que poderia ser derrubado pelo vice surgiu logo depois da posse. No início do governo, Mourão esteve em visita oficial à China, onde foi recebido pelo presidente chinês, Xi Jinping, e presidiu a 5a reunião da Comissão Sino Brasileira de Concertação e Cooperação, em Pequim. Uma presença marcante na relação bilateral com nosso maior parceiro comercial, que garantiu resultados vigorosos das nossas exportações.
O ciúme subiu à cumeeira do Palácio do Planalto. Afinal, chefes de Estado não devem querer aparecer numa foto ao lado de Bolsonaro. A postura de Mourão contrasta com os ataques de Bolsonaro e seus filhos à China, acusada por eles de ter criado o Coronavírus como arma de guerra.
Mourão afastou Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro e dos filhos, quando ele andava intrometendo no governo. Disse que o guru deveria limitar-se à função de astrólogo. E enquadrou Eduardo Bolsonaro, a quem ele denominou de “bananinha”, no episódio de acusação à China de ter disseminado o vírus da pandemia.
Mourão tem conversado com ministros do STF e do TSE. Indagado pela imprensa sobre o pedido de impeachment do ministro do STF, Alexandre de Moraes, ele disse: “Eu não calço os sapatos do presidente”. Deixou claro que não compactua com o disparate do titular. Declarou que não haverá golpe e que as eleições estão garantidas. O vice desautorizou o titular publicamente. Ou seja, os contrapontos continuam.
O pedido de impeachment de Alexandre de Moraes foi mais um desastre político do titular, que resultou na união inédita do judiciário em solidariedade ao magistrado, na defesa das instituições e da democracia, atacadas permanentemente por Bolsonaro e seus seguidores.
O ministro da Defesa, Braga Neto, ao perceber a gravidade da situação, disparou telefonemas para ministros do STF e para a PGR, após a operação da PF contra o cantor Sérgio Reis, o caminhoneiro Zé Trovão, e outros oito integrantes do grupo que organizam as manifestações de ataques contra o STF e o Estado Democrático de Direito, dia 7 de setembro.
Bolsonaro se desespera ao ver os filhos enredados nos seus crimes perante a justiça e sabe que poderão ser presos a qualquer momento. Carlos Bolsonaro pediu socorro ao pai, mas Bolsonaro percebeu que não pode tudo. Para agravar a situação, queimou os navios com as instituições. Está isolado, na ilha de ódio que ele mesmo criou.
Carlos Bolsonaro pode ser preso, a mando do ministro Alexandre de Moraes, junto com o blogueiro Allan dos Santos e outros integrantes da organização criminosa que comanda a máquina produtora e disseminadora de fake news, no âmbito das investigações em curso no STF. Prisões vão acontecer. É uma questão de tempo. Bolsonaro sabe também que será responsabilizado pelo desastre do seu governo na presidência da República.
A CPI da pandemia, deve encerrar os trabalhos no final de setembro, apresentará à Câmara o relatório apontando os indícios de crimes praticados por Bolsonaro, e, ao STF, para averiguação da prática de crimes comuns. A acusação de genocídio, apurado pela CPI, deverá ser encaminhada aos tribunais internacionais de Haia e de Direitos Humanos. À Câmara cabe decidir se acata ou não a abertura de processo de impeachment.
O Centrão, esteio do governo, não é de carregar andor de presidente pesado com tantos pecados, em queda acentuada nas pesquisas de opinião, e que pode ficar fora do segundo turno nas eleições de 2022. Bolsonaro nomeou Ciro Nogueira para a Casa Civil, órgão de coordenação do governo, mas parece que não se deu conta de que pode ter levado o inimigo para dentro de casa.
Bolsonaro está perdido, não governa mais, chegou na linha do descarte. O Centrão ocupa mais espaço, quer agora quatro ministérios, mais cargos e dinheiro. Mas nada disso garante que o impeachment não será pautado. Vai depender da evolução da crise. Banqueiros e grandes empresários nacionais e internacionais dão sinais de basta a Bolsonaro. Caso ele seja destituído, Mourão pode vir a ser candidato à reeleição, com apoio do famoso centro, num acordão envolvendo uma ampla reforma ministerial, capaz de salvar o projeto neoliberal, que é o que está em jogo, no Brasil. Basta Ciro Nogueira combinar com Arthur Lira. Isso, se o TSE não cassar a chapa Bolsonaro-Mourão. O processo ainda não foi concluído.
Os deputados estão na espreita. O que vai definir o momento certo do desembarque do governo são as próximas pesquisas. Abaixo de 20%, procuram o candidato à presidência mais bem posicionado na disputa eleitoral. Pegam cargos e dinheiro e votam no impeachment na cara dura.
O desembarque dos parlamentares depende também da composição das chapas que estão sendo formadas nos estados para eleição dos governadores. Os partidos têm seus indicados aos cargos nos governos. É nessa encruzilhada que pode entrar em pauta, na Câmara, o impeachment de Bolsonaro. Rápido e cirúrgico.
Ele não sabe fazer política. Sabe fazer arruaça e alimentar a máquina de fake news, agora desmonetizada pelo corte de verbas públicas, determinado pela justiça, que eram distribuídas aos sites bolsonaristas. As empresas de aplicativos de comunicação também baniram canais, páginas e grupos do YouTube, Facebook, twitter, WhatsApp, por divulgarem notícias falsas, conteúdo de ódio e pregação de golpe militar. O Centrão e a máquina de fake news, os mais importantes esteios de Bolsonaro, estão ruindo e junto com eles o desastrado governo.
A reunião de emergência do Fórum de Governadores para tentar conter a crise política, defender as instituições atacadas, e o Estado Democrático de Direito, decidiu propor reuniões com os chefes dos poderes da República. Foi discutido também o enquadramento da Polícia Militar, convocada por bolsonaristas para as manifestações. Punições exemplares e demissões, por sublevação, estão previstas. Quem se sentir prejudicado com as punições e recorrer à justiça atacada por Bolsonaro, pode ter o pedido de reintegração ao serviço público negado.
A reação à atitude desesperada de Bolsonaro, de pedir o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, foi generalizada no judiciário, no Congresso, e nas organizações democráticas.
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, disse que não vai pautar o pedido de impeachment do ministro e o senador David Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado também disse que não vai pautar na comissão. Bolsonaro recuou com o pedido de impeachment do ministro Roberto Barroso. A indicação de André Mendonça para ocupar vaga no STF também foi congelada por conta do clima de beligerância.
As investigações no STF, com o ministro Alexandre de Moraes à frente e, no TSE, com o ministro Roberto Barroso, sobre fake news, ataques às instituições e atos antidemocráticos, na CPI da Pandemia, com escândalos de corrupção, acenderam a luz amarela para Bolsonaro. Caso ele não recue, tente romper com a ordem institucional, levará cartão vermelho, poderá ser expulso e preso.
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Todos em alerta com as PMs. O golpe bolsonarista conta com elas - Gilvandro Filho
Por Gilvandro Filho

Por Gilvandro Filho, para o Jornalistas pela Democracia
A proximidade do dia 7 de setembro e a promessa de protestos bolsonaristas por todo o Brasil deixam os democratas de cabelo em pé. Manifestações da ultra-direita já estão programadas e prometem acirrar o clima de confronto e desrespeito às instituições republicanas, mais propriamente ao Judiciário, com foco no Supremo Tribunal Federal (STF), e ao Legislativo, com o risco até de ataques físicos ao Congresso Nacional. A coisa piora na medida em que o próprio presidente da República anuncia, irresponsavelmente lampeiro, seu apoio a esses atos insurrecionais e promete estar presente em, pelo menos, dois deles, em Brasília e São Paulo.
Infelizmente, os arreganhos golpistas e a realização de atos antidemocráticos em nosso país não se limitam a elementos folclóricos como Sérgio Reis, Eduardo Araújo, o véio da Havan, Batoré ou Amado Batista. Nem abrange apenas o universo de generais vetustos como os que escamoteiam sua falta do que fazer nas quermesses emboloradas dos clubes militares. Temos outro elemento, muito mais deletério, a compor o cenário pré-ditadura em que o Brasil perigosamente se encontra. Estamos falando dos policiais militares, uma categoria hoje majoritariamente em pé de guerra pelo bolsonarismo e contra a democracia.
Em todo o País, as PMs constituem, hoje, um risco e uma ameaça, às vezes velada, outras não. É o caso dos militares paulistas: todo dia um comandante de batalhão rompe com o bom senso e convoca seus pares aos atos do próximo dia 7. De nada adiantam punições, como a imposta pelo governador João Dória, que afastou o comandante da PM de Sorocaba, bolsonarista convicto e participante declarado do ato pró-Bolsonaro e contra o STF. Ato contínuo, mais três oficiais convocaram a tropa para as manifestações, praticamente com as mesmas palavras de ordem. Não estão nem aí.
Este quadro de SP está longe de ser exceção. De norte a sul, a Polícia Militar é hoje um berço de insurretos e um contingente com o qual Bolsonaro conta para transformar o Brasil na ditadura dos seus sonhos. Isto, junto com os insanos à paisana que ele armou ao flexibilizar o comércio de armas de fogo e equipar seu exército civil para a guerra. No Rio de Janeiro, em Minas Gerais, em Pernambuco ou na Bahia, em termos de PM bolsonarista, muda apenas o local. Exemplos saltam aos olhos e comprovam que, na hora de defender as instituições, essas forças de segurança são, infelizmente, os elementos menos confiáveis para a população que lhe paga o salário.
O Brasil tem cerca de 416 mil policiais militares (números de 2019, contra 425 mil de 2014), dos quais 100 mil são de São Paulo, onde está o maior contingente militar da América Latina. Um exército hoje dedicado às ideias de um louco que o agrada com benesses salariais e prestígio. Isto faz da PM, veladamente como instituição, o suporte do bolsonarismo e do seu “mito”, junto com uma parcela significativa das Forças Armadas, esta com seus líderes maiores inclusos. A PM, entende Bolsonaro, é o seu grande apoio armado operacional para o golpe que, ele acredita, virá.
Vinculadas, formalmente, aos governos dos estados, as corporações da Polícia Militar são, no momento, a grande preocupação dos governadores. Essa semana, eles se reuniram para tratar do perigo real que assola o Brasil, que é a ruptura do regime democrático a partir de uma escalada golpista comandada a partir do Palácio do Planalto, com o possível suporte técnico e bélico de suas próprias forças policiais. Sabem os chefes de governo que se trata de um problema grande que eles terão que enfrentar, e logo. Se já não for tarde.
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Reinaldo Azevedo - Discurso de comandante do Exército, ao lado de Bolsonaro, é antigolpista
Colunista do UOL
25/08/2021 17h06
Nunca se sabe o que pode sair da cabeça de alguém clinicamente imprevisível — e esse é um mistério que a medicina não conseguiu até hoje desvendar. Há moléstias, mesmo as psíquicas, cuja etiologia é conhecida. E, pois, sabendo-se a origem, pode-se antever com margem aceitável de incerteza o comportamento do vivente. Mas há aquelas ainda cobertas de sombras... Vamos ver.
Colo essa introdução ao que vem agora. Se o presidente Jair Bolsonaro dedicar um minuto de seu tempo a ler o discurso que ouviu, saído da boca do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército, na solenidade em homenagem ao Dia do Soldado, vai refrear seu ânimo golpista.

Juíza toma crime por liberdade de expressão; decisão incentiva o vale-tudo
Como se sabe, a data escolhida marca o nascimento de Duque de Caxias. Ao exaltar as virtudes que enxerga no patrono do Exército Brasileiro — as controvérsias não cabem neste texto porque me fixo na leitura que o general faz do homenageado —, o comandante destaca caráter, integridade, honradez, disciplina, honestidade, ética, espírito pacificador... Eis as características que não combinam com arruaceiros.
"Ah, mas o general lembrou que o presidente da República, que estava a seu lado, é o 'comandante supremo das Forças Armadas'. Isso não quer dizer alguma coisa?". Quer dizer que ele apenas está citando a Constituição. Razão por que lembra que as Forças Armadas também são garantidoras dos Poderes constitucionais. GARANTIDORAS, não agentes golpistas.
O general deixou claro de que Exército fala. Destaco trechos:
- "um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente";
- "sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem";
- "historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!";
- dotado de "espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias" (...) "inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça";
- um Exército que tem "compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento".
Mas as coisas são assim mesmo? Ele fala por todos os militares? Bem, ele fala, com apoio pleno do Alto Comando, pelo Exército, a principal das três Forças. Nenhum presidente conseguiu plantar a desídia nos três pilares da Defesa no país, ainda que haja ruídos, e os há, na Marinha e na Aeronáutica mais afinados com as tentações golpistas do presidente da República.
É importante que se diga: o discurso de Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira se dá sob pressão — inclusive do general Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria-Geral da Presidência. Um comandante do Exército, Edson Leal Pujol, já foi defenestrado por se opor claramente ao golpismo. Há feiticeiros querendo derrubar também o atual.
Não! Bolsonaro não está apenas brincando de golpe. Na sua cabeça, ou as coisas são como ele quer, ou, então, ele vira a mesa, hipótese em que cobra a lealdade dos militares não à Constituição, mas a seus delírios.
CONSEQUÊNCIAS
Qualquer militar com um mínimo de juízo sabe que a aventura teria curta duração, transformaria o país em pária no mundo, provocaria um racha inédito nas Forças Armadas, derramaria sangue dos próprios brasileiros, conferiria aos militares a feição de carniceiros e implicaria décadas de atraso no esforço de profissionalização e de aprimoramento técnico das três Armas.
Destaque-se, sim, que a indisposição do alto oficialato das Três Forças com o STF, por exemplo, é grande. Os dois anos e oito meses de ataques permanentes de Bolsonaro a esse Poder em particular — que é, afinal, aquele lhe impõe os limites da lei — fizeram frutos. Militares não são os melhores intérpretes da Constituição. Muitos caíram na conversa do presidente de que os togados não o deixam governar, o que é, obviamente, conversa mole.
Ao contrário: sem a colaboração do Supremo, o presidente não teria em mãos os meios para enfrentar a crise gerada pela pandemia. Ocorre que, em vez de se fortalecer politicamente com facilidades inéditas que lhe foram dadas, preferiu investir no negacionismo e no confronto.
Perguntem-se, senhores do Alto Comando, e respondam: de que instrumento o Supremo privou Bolsonaro, impedindo-o de governar? Não existe resposta. Nem mesmo lhe tirou a prerrogativa, que nunca existiu, de ser o único a decidir sobre medidas sanitárias de combate à doença. E ainda bem que não se deu assim! Fosse como ele queria, teríamos as Forças Armadas, em meio a múltiplas tarefas, também a enterrar corpos. Ou os quase 600 mil mortos parecem número corriqueiro?
Bolsonaro quer o confronto, sim. É sua única saída — e, pois, saída não é.
O discurso do comandante do Exército diz, por outras palavras: "Não vai ter golpe, vai ter democracia".
ENCERRAMENTO
O general encerra a sua fala com "Brasil acima de tudo". Por várias razões, mergulhando na história, é uma palavra de ordem que pode remeter a coisas um tanto sinistras.
Dado o contexto, no entanto, é inevitável observar que alude também ao lema da campanha eleitoral de Bolsonaro, mas só pela metade.
Acho que se está a dizer, nas circunstâncias da ora, o seguinte: o Exército é leal à Constituição, não ao presidente de turno se este não for, igualmente, fiel servidor da Carta.
O discurso é antigolpista. Nem por isso a situação deixa de ser delicada e perigosa.
Segue a íntegra da fala do comandante do Exército, com destaques meus:
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"Contar os seus feitos requer imenso esforço de concisão. Não há eloquência capaz de fazer sua figura ainda maior. Seu principal atributo foi a simplicidade na grandeza!"
Meus comandados!
As palavras inspiradas na homenagem do Visconde de Taunay nas despedidas ao Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, sintetizam o que foi a vida do mais ilustre Soldado do Brasil e trazem à reflexão a essência dos soldados que somos: almas simples, mas grandiosas na defesa da Pátria.
Com entusiasmo, celebramos a memória do Patrono do Exército Brasileiro e reverenciamos nossos militares, homens e mulheres que abraçaram o nobre sacerdócio de servir ao País, com abnegação e sem medir o sacrifício próprio e familiar.
Foi na caserna que Caxias teve forjadas suas admiráveis virtudes. Em mais de cinquenta anos de serviços dedicados ao nosso Povo, de Cadete a Marechal, Caxias pautou sua conduta pelo caráter íntegro, honrado, sereno e justo, ao tempo que foi modelo de bravura e de atitude profissional e resoluta no cumprimento do dever.
O esplendor de sua carreira recebeu o batismo de fogo na luta pela consolidação da independência, ganhou vulto na pacificação dos conflitos internos que ameaçavam a unidade nacional e consagrou-se nas campanhas externas em defesa do Brasil.
Na vida política nacional, Caxias foi Senador e Presidente do Conselho de Ministros, notabilizando-se nas tribunas do Parlamento como indelével exemplo de honestidade, ética e postura pública.
O resultado de seus feitos traduziu-se, sempre, no restabelecimento da paz, na restauração da lei e da ordem e na manutenção da integridade do País.
Enaltecida pelo Povo brasileiro, a atuação de Caxias foi marcada pela conciliação, pela superação de posições antagônicas, e, sobretudo, pela prevalência da legalidade, da justiça e do respeito a todos.
Enfim, Caxias foi notável líder militar, estadista e herói. Representa, portanto, a expressão máxima do soldado e do cidadão. Com justíssima razão, a história o proclama Conselheiro da Paz, o Pacificador do Brasil.
Fiéis herdeiros do legado de Caxias e alicerçados na hierarquia, na disciplina e nos valores pátrios, os soldados de ontem e de hoje, da ativa e veteranos, e suas estimadas famílias formam a genuína alma do Exército, retrato fiel de nossa sociedade, e são o patrimônio mais valioso da nossa Instituição.
Graças a você, soldado, a identidade do Exército Brasileiro é moldada pelos valores militares que você cultua e pratica.
Graças a você, soldado, contamos com um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente, cuja história funde-se de maneira indissolúvel com a própria história da Nação brasileira. Um Exército que se moderniza e se transforma continuamente, inserindo-se na Era do Conhecimento e ajustando-se às demandas das novas gerações.
Graças a você, soldado, na fronteira, nas cidades, nos distantes rincões, a qualquer hora e sob quaisquer condições, o Exército — Braço Forte da Nação — preserva a integridade do território, combate os ilícitos ambientais e transfronteiriços e salvaguarda os interesses nacionais.
Graças a você, soldado, provido de sólido sentimento de solidariedade, nos unimos para dar forma à Mão Amiga do Exército, que se estende a todos os brasileiros em prol do bem-estar social, nas situações de calamidade, na distribuição de água no semiárido nordestino, no apoio de saúde aos indígenas, na construção de estradas e ferrovias, na preservação dos biomas, na acolhida de irmãos estrangeiros, no estímulo à cultura e aos desportos, bem como na histórica e significativa contribuição com a comunidade internacional na manutenção da paz.
Graças a você, soldado, testemunhamos o obstinado esforço e o empenho diuturno do Exército para preservar vidas e ajudar a população nas ações de enfrentamento à pandemia da COVID-19, nesse mister ombreando com os profissionais de saúde — verdadeiros heróis de branco!
Sob a autoridade do Presidente da República — Comandante Supremo das Forças Armadas — e integrado à direção superior do Ministro da Defesa, o Exército Brasileiro não para em circunstância alguma e, irmanado com a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira, mantém-se sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem são, portanto, o farol que orienta o contínuo preparo e o emprego da Força Terrestre.
No seu dia, agradecer a você soldado é mais que um dever! É um gesto que nos enche de satisfação e orgulho!
A você, soldado, cujo modo de vida é servir incondicionalmente e em permanente estado de prontidão!
A você, soldado, que se solidariza e ajuda nossa gente sem hesitar!
A você, soldado, que, lutando sem temor, derramou seu sangue além-fronteiras, no continente e nos campos da Europa, pela defesa da democracia e contra o totalitarismo!
A você, soldado, historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!
A você, soldado, a gratidão por tudo o que fez e faz pela Nação brasileira! Presto a você a minha mais vibrante e respeitosa continência!
O momento desta justa homenagem aos soldados, que muito contribuíram e contribuem para a unidade e a grandeza do Brasil, nos motiva a reafirmar o compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento.
Neste curto tempo, desde que assumi o Comando do Exército, estive presente junto à tropa em diversos locais do País, acompanhando seu contínuo preparo. O elevado nível de capacitação e prontidão da Força Terrestre que pude constatar e, principalmente, o profissionalismo, a liderança, o entusiasmo e a coesão de nossos militares têm ratificado a plena certeza de que honramos nossos antepassados ao continuarmos a fazer do Exército Brasileiro essa Instituição que tem merecido a ampla aprovação e a confiança do Povo brasileiro.
Meus comandados!
Mantenhamos, sempre, a fé inabalável na missão do Exército Brasileiro e a crença nos princípios da nossa nacionalidade. Sob as bênçãos do Todo Poderoso Deus dos Exércitos e iluminados pelo espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias, sejamos, junto aos irmãos brasileiros, inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça, ordem e progresso — que o nosso Povo tanto almeja e merece — dedicando-nos, inteiramente, à defesa da soberania nacional e ao bem do nosso amado País.
Soldado brasileiro, parabéns pelo seu Dia! Orgulhe-se, pois sua alma singela é, e sempre será, de têmpera forte como o aço da invicta espada de Caxias!
Brasil, acima de tudo!
Brasília-DF, 25 de agosto de 2021.
General de Exército PAULO SÉRGIO NOGUEIRA DE OLIVEIRA
Comandante do Exército
__________* Manifesto empresarial adiado por Skaf é covarde e diz obviedades, mas reforça isolamento de Bolsonaro

247 - O manifesto empresarial que seria divulgado nesta terça-feira (31), mas foi adiado para depois de 7 de setembro por Paulo Skaf, presidente da Fiesp, reforça o isolamento de Jair Bolsonaro, ao demonstrar a insatisfação de setores da economia. No entanto, diz obviedades e é covarde, uma vez que não tem coragem de citar o principal responsável pela crise institucional que é alvo principal de protesto da nota.
O documento, dirigido aos comandantes dos três poderes, pede harmonia entre eles, ignorando o fato de que a tensão existentes hoje só existe porque Bolsonaro a criou. “Mais do que nunca, o momento exige do Legislativo, do Executivo e do Judiciário aproximação e cooperação. Que cada um atue com responsabilidade nos limites de sua competência, obedecidos os preceitos estabelecidos em nossa Carta Magna”, diz trecho.
Mais cedo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, havia dito que o texto foi modificado por “alguém” da Febraban com o objetivo de atacar o governo Bolsonaro. “Nenhum outro texto foi proposto e a aprovação foi específica para o documento submetido pela Fiesp”, rebateu a federação dos bancos em nota.
A decisão de adiar a publicação do documento partiu exclusivamente de Skaf - após conversa com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e gerou bastante incômodo entre empresários e industriais, segundo reportagem do Globo.
Leia a íntegra do documento:
A praça é dos três poderes
A praça dos três poderes encarna a representação arquitetônica da independência e harmonia entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, essência da República. Esse espaço foi construído formando um triângulo equilátero, cujos vértices são os edifícios-sede de cada um dos poderes.
Esta disposição deixa claro que nenhum dos prédios é superior em importância, nenhum invade o limite dos outros, um não pode prescindir dos demais. Em resumo, a harmonia tem de ser a regra entre eles.
Este princípio está presente de forma clara na Constituição Federal, pilar do ordenamento jurídico do país. Diante disso, é primordial que todos os ocupantes de cargos relevantes da República sigam o que a Constituição nos impõe.
As entidades da sociedade civil que assinam este manifesto veem com grande preocupação a escalada de tensões e hostilidades entre as autoridades públicas. O momento exige de todos serenidade, diálogo, pacificação política, estabilidade institucional e, sobretudo, foco em ações e medidas urgentes e necessárias para que o Brasil supere a pandemia, volte a crescer, a gerar empregos e assim possa reduzir as carências sociais que atingem amplos segmentos da população.
Mais do que nunca, o momento exige do Legislativo, do Executivo e do Judiciário aproximação e cooperação. Que cada um atue com responsabilidade nos limites de sua competência, obedecidos os preceitos estabelecidos em nossa Carta Magna. Este é o anseio da Nação brasileira.
__________* Implosão do Poder Executivo já começou - Marcos Coimbra
Por Marcos Coimbra

O sistema político brasileiro tende a um colapso profundo e rápido. O principal motivo para isso é a implosão do Poder Executivo, que já começou.
A analogia que vem à mente é o chamado derretimento do núcleo, que acontece nos acidentes em usinas nucleares. Consiste em um processo, quase sempre resultante de erros humanos, de superaquecimento do reator, que conduz à liberação de material radioativo no meio ambiente e coloca em risco todas as formas de vida.
No plano institucional, estamos no limiar de um fenômeno desse tipo. O perigo é real.
No desgoverno caótico do capitão Bolsonaro, o Poder Executivo está parando de funcionar ou não funciona mais. Ele não é apenas o pior presidente de todos os tempos, mas também o que menos trabalha, menos se dedica às suas obrigações. Faz tempo que sua agenda é subordinada a uma única obsessão: a busca da reeleição.
Não é a primeira vez que, no Brasil moderno, temos um chefe de governo que não sabe ou não consegue governar. Em função de seus erros, Collor perdeu condições de governabilidade com pouco mais de dois anos de mandato. Dilma sofreu um golpe, no início do segundo, que impediu que governasse. Quanto a Sarney, Itamar e Temer, os três não receberam mandatos próprios e assumiram o governo por impedimento dos titulares, o que sempre limitou sua autoridade.
O caso do capitão é pior. Nos anteriores, o sistema político conseguiu compensar, pelo menos em parte, a ausência da capacidade governativa pessoal do presidente. Em alguns casos, com sua colaboração: Sarney se apegou à “liturgia do cargo”, Collor tentou um ministério de “notáveis”; Itamar logo promoveu a transição para um novo governo. Sem sua ação, as crises que enfrentaram teriam sido piores.
Bolsonaro não tem as qualidades de seus antecessores e seu governo é feito com gente sem preparo e respeitabilidade. É impossível esperar dele um gesto de honra e grandeza. Sua equipe é de última categoria. Estão há dois anos e meio à frente do Executivo e não conseguiram fazer qualquer coisa em benefício da maioria.
Bolsonaro é o rosto de um governo responsável por uma catástrofe sanitária, com centenas de milhares de mortes evitáveis. É causador de uma crise na economia que produziu 15 milhões de desempregados, 6 milhões de desalentados e 33 milhões de pessoas subutilizadas. É culpado por um imenso retrocesso nas políticas ambientais, justo quando o mundo afunda em uma crise climática que pode ser terminal. Sob seu comando, a educação foi desorganizada, jogando fora décadas de avanços e se transformou em séria ameaça ao futuro
E ele só quer saber de como se manter no poder, custe o que custar.
Não bastasse sua omissão, seus vínculos com pequenas e grandes corrupções, sua preguiça e incompetência, o capitão não aceita as regras da vida civilizada. Ataca, agride, xinga, dá os piores exemplos, encoraja as pessoas ao desrespeito, à truculência e à violência. Vai perdendo o apoio dos que têm sentimentos normais e fica com o aplauso de uma parcela cada vez menor e mais desequilibrada.
Perde autoridade e, sem ela, o poder presidencial passa a ser fundado somente na ameaça. Sem autoridade, o poder não passa de força.
Subordinado a alguém como Bolsonaro, o Poder Executivo não consegue funcionar adequadamente. Com seus desvios de personalidade, caráter e formação, o capitão promove a dissolução, de dentro para fora, do poder que nominalmente chefia.
Seu desejo é fazer o mesmo com o Legislativo e o Judiciário. Se aceitarem a subordinação, venham de cabeça baixa. Se quiserem vender-se, está disposto a pagar (naturalmente que usando os recursos da coletividade). Se não toparem por bem, que seja por mal: ameaça usar as Forças Armadas e bravateia que dispõe de um exército de policiais dispostos a tudo.
As elites brasileiras (com auxílio relevante de seus amigos no exterior) nos trouxeram até aqui e são responsáveis pelo que Bolsonaro é e ameaça tornar-se. A coalizão golpista que permitiu o bolsonarismo está parcialmente desfeita, com a correção de rumo empreendida pelo Judiciário. Os governadores parecem dispostos a assumir o papel que deveriam ter em uma federação. Aqui e ali, a mídia corporativa tenta voltar a ser respeitável. Um pedaço grande do apoio social que o capitão teve em sua escalada foi perdido.
Há muito tempo até a eleição do ano que vem. Vamos ver se o sistema político resiste à contaminação que o derretimento de Bolsonaro vai provocar.
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__________* Villa: Bolsonaro vai terminar preso no nosso Tribunal de Nuremberg
30/08/2021 12h50
Atualizada em 30/08/2021 13h21
Para o historiador Marco Antonio Villa, com Jair Bolsonaro (sem partido), apontando como criminoso pelo colunista do UOL, ocupando o posto de presidente, o Brasil deu um "grande salto para trás".
"Ele (Bolsonaro) vai terminar preso. Ele é ladrão, corrupto, assassino e vai terminar no nosso Tribunal de Nuremberg", avaliou Villa ao UOL News, programa do Canal UOL, fazendo referência aos julgamentos de lideranças nazistas após o fim da Segunda Guerra Mundial, entre 1945 e 1946.

Frente de prefeitos pede harmonia entre Poderes: 'País e povo merecem paz'
"Não podemos virar essa página da história sem colocar no banco dos réus o nosso principal criminoso", opinou Villa. "É caso de cadeia. Ele sabe que, ao sair da presidência, vai para Bangu 8 (cadeia do Complexo Penitenciário de Gericinó, na zona oeste do Rio de Janeiro)", frisou.
A fala de Villa vem após, no último sábado (28), em discurso para lideranças evangélicas em Goiás, Bolsonaro dizer que tem três alternativas para o futuro: "estar preso, ser morto ou a vitória" — mas que não vê risco de acontecer o primeiro caso.
Atos bolsonaristas
Para o colunista, é "triste, trágico e sombrio" a questão da convocação de atos bolsonaristas para 7 de setembro, Dia da Independência, em meio a uma crise entre o Executivo — representado por Bolsonaro — e o Judiciário — representado pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Na avaliação do historiador, por mais que uma tentativa golpe não seja feita ou não se concretize, o retrocesso já está dado. "Há muito tempo não tínhamos manchetes do tipo: vai ter golpe? Não vai ter golpe? O Exército vai participar?", disse.
"Enquanto isso, o Brasil caminha para o buraco", acrescentou, citando questões de aspecto econômico, como a alta no preço dos combustíveis, especialmente a gasolina, e a inflação no preço dos alimentos.
Ainda no encontro com lideranças evangélicas em GO, Bolsonaro disse, em mais uma ameaça golpista, que "não deseja" e "nem provoca" tentativas de rupturas institucionais, mas que "tudo tem limite".
__________* Ameaça de deixar Febraban mostra captura política dos bancos públicos | Vera Magalhães - O Globo

A cada dia de governo Jair Bolsonaro cai por terra uma falácia da campanha. Aquelas mentiras que foram usadas por largos setores do empresariado e do setor financeiro para justificar o apoio a um candidato notadamente iliberal.
A última é a de que, sob Bolsonaro e Paulo Guedes, haveria gestão empresarial, técnica, orientada pelo mercado e, quem sabe, até voltada à privatização, no futuro, dos bancos públicos.
Essa balela já caiu faz tempo, mas, agora, ao dar piti e ameaçar sair da Febraban graças ao manifesto da entidade que representa os bancos cobrando o fim da crise entre os Poderes e estabilidade institucional para que a economia volte a crescer, a Caixa e o Banco do Brasil rasgam a fantasia e escancaram o que se tornaram: estruturas capturadas pelo projeto político-ideológico do governo.
O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, é um dos mínions mais fervorosos de Brasília. Bate ponto quase toda semana na live de Bolsonaro, aquele evento preferencial em que o presidente barbariza contra os demais Poderes. Sob sua presidência, a Caixa virou o que o bolsonarismo sempre acusou o PT de fazer: um braço financeiro para fazer política e tentar melhorar a situação eleitoral do chefe.
Já o Banco do Brasil está em seu terceiro presidente desde que Bolsonaro assumiu. Os dois anteriores saíram ou foram saídos em movimentos que evidenciaram que também tinham comprado gato por lebre do discurso liberal de Guedes, que nunca virou ação.
Não seria necessário dizer isso em um governo de fato liberal, mas BB e Caixa são entidades financeiras regidas por estatutos, não braços políticos do governo. O BB, inclusive, é uma empresa de economia mista, da qual a União é acionista majoritária, e não senhora absoluta.
O desespero demonstrado pelo governo, inclusive por Guedes, com o manifesto urdido por várias entidades empresariais, não só a Febraban, é a percepção da evidência de que começa a erodir o solo que até aqui sustentou Bolsonaro, a despeito de suas absurdas investidas contra a vida, a ciência, a economia, o meio ambiente, os direitos civis, a segurança pública, as liberdades e quase todas as instutuições.
__________* 'Bolsonaro cometeu crime comum ao estimular que população se arme como opção política', diz Santos Cruz

247 - O general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-secretário de Governo de Jair Bolsonaro, afirmou, nesta segunda-feira (30), que Jair Bolsonaro incorreu em “crime comum” ao estimular que a população civil adquira armas e munições como uma “opção política”.
“Uma autoridade dizer que o cidadão armado é uma opção política, é completa falta de responsabilidade. Por que está acontecendo isso? Por conta das características pessoais do presidente e também pela falta de atuação do nosso Congresso e da nossa Justiça, tem que ser mais firme em relação a tudo. E não precisa ser necessariamente impeachment. Existem outras medidas para isso, até de crime comum”, disse Santos Cruz em entrevista ao programa Despertador, da TV Democracia.
Ainda segundo o militar, “isso aí é um absurdo, estimular uma população a se armar, achando que pode concretizar as suas opções, aquilo que tem na cabeça. Isso aí fica incontrolável, principalmente num ambiente de fanatismo. Nós estamos vivendo num ambiente de fanatismo que está entrando numa histeria, uma esquizofrenia absurda. Nesta véspera de sete de setembro, isso aí para desaguar em violência é um passo. E isso está no horizonte. Então, não pode haver a irresponsabilidade de um governante que é eleito para governar, para unir um país, ele radicalizar e fazer um país dividido entre amigos e inimigos, ou então dando a sensação de que cada um pode, com uma arma, concretizar aquilo que o presidente acha que está correto. É um problema seríssimo.”
A declaração de Santos Cruz faz referência a uma conversa de Bolsonaro com apoiadores na saída do Palácio do Alvorada, em transmissão ao vivo pelas redes sociais, na última sexta-feira (27). Na ocasião, ele disse que "todo mundo precisa comprar fuzil" e que tem idiota que reclama que "tem que comprar feijão". No sábado, ao receber um violão de presente o ocupante do Palácio do Planalto usou o instrumento como se fosse um fuzil.
Confira a entrevista na íntegra.
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Conselheiros de Biden relatam um encontro "nonsense" e "tenso" com Bolsonaro, que insinuou fraude na eleição dos EUA

247 - A reunião que Jair Bolsonaro manteve com Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, e o Assessor Especial do presidente norte-americano Joe Biden, Juan González, no último dia 5, foi definida por oficiais estadunidenses como um encontro “nonsense” e “tenso”. O motivo foi a sequência de comentários críticos de Bolsonaro contra as eleições nos EUA, vencidas por Biden. Bolsonaro insinuou que elas teriam sido roubadas para prejudicar Trump, o que faria de Biden um “presidente ilegítimo”.
De acordo reportagem da BBC News Brasil, “a administração Biden sempre esteve ciente de que Bolsonaro defendia publicamente as falsas alegações de Trump sobre as eleições”, mas “o que os americanos não esperavam é que Bolsonaro dissesse tais coisas diante de Sullivan e Gonzalez, ambos altos representantes do governo a serviços dos democratas há anos”.
O texto ressalta, ainda, que conforme “autoridades com conhecimento dos fatos, ambos ouviram o suficiente para deixar o encontro preocupados com a democracia no Brasil”. Apesar da preocupação com a retórica golpista, os norte-americanos avaliam que os militares não devem apoiar uma eventual tentativa de golpe que venha a ser tentada por Jair Bolsonaro.
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Mourão apoia manifesto do empresariado e diz que Fiesp e Febraban são "pilares da civilização"

247 - O vice-presidente, Hamilton Mourão (PRTB), disse nesta segunda-feira (30), ao chegar em seu gabinete, em Brasília, que entidades como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) - que participam da elaboração de um texto em defesa do equilíbrio dos Poderes - são pilares da "nossa civilização".
Segundo Mourão, em reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, Febraban e Fiesp “São entidades da sociedade civil, com representatividade, e que consequentemente elas têm que sempre fazer valer às pessoas que foram eleitas por eles, o pensamento deles e as necessidades para que haja uma harmonia maior, vamos dizer, e uma comunhão de esforços e interesses entre os encarregados de governar, legislar, e o restante da nação".
O posicionamento da Febraban gerou desconforto entre algumas instituições financeiras como os bancos públicos Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, que ameaçaram desfiliar-se da entidade.
Segundo BB e Caixa, permanecer na Federação gera um conflito de interesses, já que na opinião dos bancos, a Federação tem um lado político contrário ao seu maior acionista: o governo. (!!!)
Apesar da expectativa de que o manifesto tenha uma linguagem neutra, a defesa do equilíbrio entre os poderes é uma referência a Bolsonaro, que nas últimas semanas vem disparando ataques contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Mourão destacou ainda que acredita que o alívio da tensão entre os Poderes é uma questão de tempo.
"Eu não vejo que haja... Há uma retórica daqui pra lá, de lá pra cá. Nós temos as nossas visões, as nossas propostas, muitas vezes entram em choque com outras visões. Eu vejo que o tempo é o senhor da razão, ele vai distensionando as coisas", afirmou.
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__________* Bolsonaro convoca golpe porque é um desastre em todas as áreas, diz Miriam Leitão

247 – Por que Jair Bolsonaro está convocando um golpe de estado para implantar uma ditadura no Brasil. Porque seu governo é incompetente em todas as áreas, escreve a jornalista Miriam Leitão. "A inflação beira os dois dígitos, o desemprego e o desalento deixam de fora do mercado de trabalho 20 milhões de brasileiros, a miséria está aumentando, a educação foi entregue a três ministros sem os atributos mínimos para estar no cargo, a Saúde elevou o número de mortes na pandemia pela mistura perigosa de negacionismo e picaretagem, a crise hídrica se agravou por falta de planejamento e o preço da energia está explodindo. O presidente briga, ofende, ameaça, exatamente por isso. Tenta esconder o desempenho desastroso do seu governo", diz ela, em sua coluna no Globo.
"Se fosse só incompetente, o governo Bolsonaro já seria um enorme problema, mas ele ainda provoca crises e quer tocar o terror, como o estímulo a que pessoas tenham fuzil. É importante entender que há uma conexão entre uma coisa e outra. Seu governo vai mal em inúmeras áreas, o país perdeu prestígio internacional, desperdiçou oportunidades, aumentou o desmatamento, aprofundou o fosso social, deixará um terrível legado. O presidente atormenta o país para que a discussão seja sobre os seus absurdos e não um debate de mérito sobre o seu governo", prossegue.
"O espaço é curto para a lista dos fracassos deste governo. Por ser muito incompetente, o presidente Bolsonaro agride o país, as instituições, os valores da civilização. Com o surreal ele tenta esconder o real de um governo absolutamente incapaz", finaliza.
__________* Lewandowski alerta: Bolsonaro e sua milícia podem cometer crime inafiançável e imprescritível no 7 de setembro

247 – O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, publica neste domingo um importante alerta para todos aqueles que estejam eventualmente planejando um golpe de estado ou um ataque a outros poderes no dia 7 de setembro. "No Brasil, como reação ao regime autoritário instalado no passado ainda próximo, a Constituição de 1988 estabeleceu, no capítulo relativo aos direitos e garantias fundamentais, que 'constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis e militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático'”, escreve o ministro, em artigo publicado na Folha.
"O projeto de lei há pouco aprovado pelo Parlamento brasileiro, que revogou a Lei de Segurança Nacional, desdobrou esse crime em vários delitos autônomos, inserindo-os no Código Penal, com destaque para a conduta de subverter as instituições vigentes, 'impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais'. Outro comportamento delituoso corresponde ao golpe de Estado, caracterizado como 'tentar depor, por meio de violência ou grave ameaça, o governo legitimamente constituído'. Ambos os ilícitos são sancionados com penas severas, agravadas se houver o emprego da violência", lembra ainda o ministro.
"E aqui cumpre registrar que não constitui excludente de culpabilidade a eventual convocação das Forças Armadas e tropas auxiliares, com fundamento no artigo 142 da Lei Maior, para a 'defesa da lei e da ordem', quando realizada fora das hipóteses legais, cuja configuração, aliás, pode ser apreciada em momento posterior pelos órgãos competentes", destaca o ministro. "Como se vê, pode ser alto o preço a pagar por aqueles que se dispõem a transpassar o Rubicão", finaliza.
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Bolsonaro é desprovido de humanidade e ninguém aguenta mais conviver com esse "tresloucado", diz Lula

247 - Em manifestação no Twitter, o ex-presidente Lula criticou Jair Bolsonaro pela defesa de fuzil no lugar de comida na mesa do povo brsileiro.
"Bolsonaro é desprovido de qualquer resquício de humanidade. Chamou de idiota quem diz que a prioridade do governo devia ser comida na mesa do povo ao invés de fuzil. Ninguém aguenta mais conviver com um presidente tresloucado, governando na base do absurdo. O país precisa de paz", afirmou.
Lula lidera com folga as pesquisas de intenção de voto para presidente em 2022 e poderá vencer a eleição em primeiro turno.
Bolsonaro, por sua vez, vê corroer a própria popularidade, segundo indicam as mesmas pesquisas.
Sob Bolsonaro, o País voltou ao Mapa da Fome da ONU.
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Freixo diz que Bolsonaro não tem força política para implantar uma nova ditadura__________*

Da Rede Brasil Atual – O deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ) diz ser “inacreditável” o Brasil debater a possibilidade de um golpe por parte do presidente da República em pleno 2021. Segundo ele, diariamente Jair Bolsonaro atenta contra a democracia, participando, inclusive, da convocação de novos atos antidemocráticos para 7 de setembro.
Em entrevista ao jornalista Juca Kfouri, no Entre Vistas, da TVT, Freixo afirma que Jair Bolsonaro tem como objetivo destruir a materialização da vitória contra um período sombrio da história brasileira: a criação da Constituição Federal de 1988. “É exatamente ela que está ameaçada pelo governo Bolsonaro”, aponta o parlamentar.
“A gente vê a tentativa de anular a Constituição de 1988. Bolsonaro é um projeto de extrema-direita que tenta anular a resposta principal ao golpe de 1964. O governo Bolsonaro é em si um golpe. Isso não significa que ele vai repetir a ditadura, porque não tem força política. Como está cada vez mais enfraquecido, ele tenta adensar mais o fanatismo e a radicalização política”, explicou Marcelo Freixo.
Disputa pelo 7 de setembro
Bolsonaro e seus apoiadores marcaram manifestações em todo o Brasil para o próximo dia 7, com o objetivo de intimidar instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF). Por outro lado, movimentos sociais articulam, no mesmo dia, novos atos da Campanha Nacional Fora Bolsonaro.
O deputado federal não acredita que ocupar as ruas contra Bolsonaro, num dia de extrema tensão, seja positivo. Na avaliação de Freixo, o presidente mira uma “democracia fragilizada” e as articulações progressistas e de esquerda precisam estar ao lado das instituições, sem entrar em qualquer tipo de enfrentamento físico, o que faria parte do “jogo da extrema-direita”, como ele define.
“Não podemos disputar a defesa da democracia no campo do Bolsonaro. O 7 de setembro vai marcar mais uma ruptura democrática e outro enfraquecimento de Bolsonaro, então não é um momento de fazer outro ato contra ele. Há vídeos falando sobre invasão ao Congresso e ao Supremo, e não podemos estar nesse cenário. Nosso lugar é na democracia e ao lado das instituições, ou seja, não se pode dar palanque a uma falsa simetria. Nós não podemos cair numa isca tão previsível como essa”, apontou o parlamentar.
A milícia e o bolsonarismo
Marcelo Freixo também falou sobre suas perspectivas ao longo prazo e a necessidade de derrubar o fascismo nas eleições de 2022. O deputado acredita que desidratar o movimento bolsonarista será um trabalho mais demorado, após dar o primeiro passo: vencer Bolsonaro nas urnas.
“É a primeira vez que a extrema-direita vence uma eleição. Ela já existiu, desde o integralismo, mas nunca teve mais de 10%. Agora, ela venceu e pode disputar de novo em 2022. Por isso, precisamos ter responsabilidade e um projeto de país. Derrotar o bolsonarismo não é possível agora, mas precisamos reduzir o efeito dele para voltar aos seus 10% anteriores. Derrubar o voto impresso foi um passo, as eleições de 2022 serão mais um e, depois, será preciso criar uma comunicação capaz de reduzir o bolsonarismo”, finalizou. Confira:
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Tribunais Constitucionais sempre foram um pesadelo para governantes autocratas - Othoniel Pinheiro Neto
Por Othoniel Pinheiro Neto

O Estado Absolutista foi um fenômeno predominante na Europa entre os séculos XVI e XVIII, quando ainda não estavam consolidadas a separação dos poderes, a supremacia da lei e as próprias constituições modernas como forma de limitação do poder. O Rei Luís XIV (1638-1715) personificou bem essa época, sendo a ele atribuída a famosa frase “O Estado sou Eu”, representando a absoluta concentração dos poderes em sua pessoa.
Com o descontentamento crescente da centralização de poderes na figura do Rei, a Revolução Francesa vai surgir como fruto de uma combinação de diversos fatores de origem social, econômica, política e filosófica, cujo objetivo central foi derrotar o absolutismo para estabelecer barreiras às pretensões autoritárias dos governantes, por meio de uma Constituição que obrigatoriamente estabelecesse a separação dos poderes e a lei como baliza para atuação estatal, daí o princípio constitucional da legalidade administrativa: a Administração Pública só poderá fazer o que a lei autoriza!
Na história da humanidade, governantes autoritários tiveram enormes dificuldades de conviver com o modelo de separação dos poderes, sempre procurando aparelhar ou aniquilar um dos poderes que não se curvasse as suas vontades, trazendo para si mesmo a personificação da vontade popular.
No Brasil de 2021, percebe-se que o atual ocupante da cadeira de Presidente da República apresenta-se, não somente como o autêntico representante da vontade popular, mas também como uma espécie de mensageiro do divino por meio de sua célebre frase “Deus acima de tudo”. Não é à toa que, por mais de uma vez, ele afirmou que acima da Constituição Federal está a vontade popular, cuja personificação, por óbvio, está em sua própria pessoa.
Guardadas as devidas proporções e fazendo justiça científica que o caso requer, as atitudes e declarações de Jair Bolsonaro fazem lembrar a concepção política de constituição elaborada pelo jurista alemão Carl Schmitt (1888 – 1985), que foi o primeiro a elaborar sistematicamente uma teoria da constituição. Para Schmitt, a constituição é a decisão!
Conhecido por suas ligações com o nazismo, o que lhe rendeu a acunha de “o jurista maldito”, Schmitt publicou sua famosa e importante obra “Teoria da Constituição” em 1928, sistematizando preceitos de doutrina constitucional de forma nunca antes vista na história do direito[1]. A obra de Schmitt aborda assuntos como poder constituinte (como vontade política), legitimidade da constituição, princípios do Estado burguês de direito, elementos políticos da constituição moderna e, especialmente, o conceito de constituição como decisão política, desprezando o viés da normatividade constitucional construído pelo judeu e jurista Hans Kelsen.
Na esteira dos pensamentos de Carl Schmitt, sem a decisão, a norma não passará de abstração. Assim, a constituição vale pela vontade política de quem possuir poder para institui-la.
Ao contrário do normativismo de Kelsen, o decisionismo de Schmitt nega autonomia científica ao direito, atribuindo-lhe profunda ligação com a política. Essa perspectiva de Schmitt mostra que o poder soberano é exercido e orientado por parte de uma ordem superior e sobreposta à ordem jurídica, ou seja, por um sujeito ou sujeitos com poderes para decidir sobre a norma ou sobre o estado de exceção que possa suspender sua aplicação.
Em verdade, Carl Schmitt foi apelidado de jurista maldito porque alguns vislumbraram em seus pensamentos justificativas para a legitimação do nazismo, especialmente para o poder político de Adolf Hitler, uma vez que a vontade expressada na decisão política do ditador seria a própria constituição.
Mas é importante consignar que esse poder político mencionado por Carl Schmitt refere-se ao povo na democracia e ao monarca na monarquia autêntica. Portanto, ao contrário do que dizem, não se pode, de maneira alguma, afirmar que sua obra apoiou o totalitarismo, uma vez que o autor, por diversas vezes, enfatiza a necessidade de eleições democráticas, proclamando que o povo sempre está antes e acima da constituição. Todavia, é justamente aí onde pode morar o perigo, pois a constituição não pode ser vista como algo sempre inferior ao povo, pois esse pode estar contaminado com pretensões de aniquilação das minorias em momentos de instabilidade ou pode ser usado como massa de manobra por ditadores. E o que dizer de autocratas que, distante da realidade, julgam-se detentores da vontade popular?
Nesse prisma, acusações de que os pensamentos de Schmitt possam ter dado respaldo ao estabelecimento de regimes totalitários podem ter decorrido da própria fundamentação da constituição como decisão política. Assim, a crítica a ser feita à perspectiva decisionista pode residir no fato dela subestimar a normatividade constitucional, que fica esvaziada diante da força decisiva do poder político. Em verdade, não se pode deixar a supremacia da constituição e seu caráter vinculatório sempre subordinados a uma decisão política de maiorias ocasionais ou daquele que detenha o poder, sob pena de esgotarmos, por completo, os valores constitucionais e as próprias cláusulas pétreas.
É justamente por esse caminho, ou seja, subordinação da constituição ao poder decisivo da política, que Jair Bolsonaro pode encontrar respaldo para suas pretensões autoritárias de interpretação do art. 142 da Constituição Federal no sentido de dar a ele, como autoridade suprema das Forças Armadas, o poder de palavra final para interpretar e avaliar quando o Supremo Tribunal Federal viola ou não a Constituição. Assim, caso Bolsonaro julgue que o Supremo Tribunal Federal descumpriu a nossa Carta Magna, acionaria as Forças Armadas para forçar a Corte a “voltar aos trilhos”, tese defendida publicamente por alguns juristas e jornalistas conhecidos. Não é sem razão que, beirando a insanidade, Bolsonaro proclama aos quatro cantos que nas mãos das Forças Armadas está o “poder moderador”.
Lembremos também que, em maio de 2020, em um ato pró-golpe militar, Bolsonaro declarou abertamente: “Eu sou a Constituição”.
É claro que Bolsonaro está bem longe de representar a vontade da maioria da população brasileira, mas o seu poder de persuasão sobre as forças policiais e militares no Brasil é uma situação preocupante, que exige atenção redobrada das instituições fiscalizadoras, que possuem grande responsabilidade neste momento delicado de nossa história para a preservação da normatividade da Constituição.
É salutar lembrar que o desprezo pela normatividade constitucional e pela separação dos poderes trouxeram consequências trágicas com a Segunda Guerra Mundial, situação que, logo em seguida, exigiu da civilização Ocidental uma maior atenção à força normativa da Constituição e aos direitos fundamentais, fazendo surgir o que todos nós conhecemos por neoconstitucionalismo.
É justamente com o neoconstitucionalismo que se passou a conceder um maior valor às normas constitucionais e, principalmente, um fortalecimento dos Tribunais Constitucionais como equalizador das tensões entre o direito e a política, fazendo um importante papel de guardiões das constituições como forma de assegurar a democracia, diminuir as tensões sociais e preservar os direitos das minorias frente a vontades autoritárias das maiorias.
Diante desse quadro, todo governante com pretensão de instaurar ditadura sempre vai enxergar nos Tribunais Constitucionais uma barreira em seus objetivos totalitários e absolutistas, razão pela qual sempre tentará cooptá-los ou destruí-los. É justamente essa a leitura de Dieter Grimm, que aponta que “a jurisdição constitucional é, antes, uma aquisição tardia que, além do mais, continua sempre em perigo, porque os detentores do poder podem, em particular, sentir como extremamente impeditiva a existência de tal instituição, mesmo se, no geral, a aprovarem e, por isso, sempre cairão novamente na tentação de influenciar a instituição ou suas decisões em seu favor ou passar por cima delas[2]”.
No caso de Jair Bolsonaro, para tentar desviar o foco dos fracassos em várias áreas de seu governo e preocupado com a derrota nas eleições de 2022, observamos uma sequência crescente de ataques às instituições democráticas com um discurso público de golpe de Estado, convocação de manifestações contra a democracia e cooptação das forças militares em favor de seu projeto autoritário.
E diante dessa escalada autoritária no Brasil, o papel obrigatório dos democratas é encontrar meios para proteger a força e a independência do Poder Judiciário, especialmente do Supremo Tribunal Federal, para que esses se firmem como barreiras ao autoritarismo do atual ocupante da cadeira presidencial.
[1] SCHMITT, Carl. Teoría de la Constitución, trad. Francisco Ayala. Madird: Alianza, 1996. [2] GRIMM, Dieter. Constituição e Política. Tradução: Geraldo de Carvalho. Belo Horizonte: Del rey, 2006, p. 169.
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Bolsonaro diz que 'câncer' chegou ao TSE, que é preciso colocar 'ponto final nisso' e volta a ameaçar com golpe

247 - Jair Bolsonaro voltou a atacar o Judiciário ao afirmar que o "câncer" chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que é necessário colocar “um ponto final nisso”. Ainda segundo ele, “é difícil governar um país desta maneira" (obedecendo a Constituição).
“Não sou machão, não sou o único certo. Agora, do outro lado, não pode um ou dois caras estragarem a democracia do Brasil. Começar a prender na base do canetaço, bloquear redes sociais. E agora o câncer já foi lá para o TSE. Lá tem um cara também que manda desmonetizar as coisas. Tem que botar um ponto final nisso. E isso é dentro das quatro linhas (da Constituição)”, disse Bolsonaro a apoiadores nesta sexta-feira (27), de acordo com o jornal O Globo.
A declaração fez referência a uma decisão do corregedor-geral do TSE, Luis Felipe Salomão, que determinou a desmonetização de páginas e perfis que divulgam fake news sobre as eleições no Brasil, e, também, ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que determinou a prisão de aliados do ex-capitão.
Ainda segundo Bolsonaro, "tem ferramentas lá dentro (da Constituição) para ganhar a guerra. Tem gente que está do lado de fora. Difícil governar um país desta maneira. O único dos Poderes que é vigiado o tempo todo e cobrado sou eu. O que acontece para o lado de lá não tem problema nenhum. Eu não quero interferir para o lado de lá, nem vou. Agora, tem que deixar a gente trabalhar para o lado de cá”, completou.
Na conversa com apoiadores, ele também defendeu que toda a população compre fuzis e afirmou que aqueles que não querem adquirir o armamento não devem "encher o saco".
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José Dirceu: "se ele esticar a corda, o 7 de setembro vira contra o próprio Bolsonaro"

247 - Em entrevista para o programa Sua Excelência, O Fato (link para a íntegra no fim desse texto) na manhã desta sexta-feira, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu avalia que os atos antidemocráticos chamados por Jair Bolsonaro, contra o STF, contra a Constituição e para chancelar as ameaças que faz ao Estado de Direito podem ser grande revés para ele mesmo.
"Há um lado liberal e democrático na direita.
Esse lado sempre teve 30%, 35%, 40% do País.
Esse lado da sociedade já se descolou do Bolsonaro.
Se ele esticar demais a corda no 7 de setembro, ela pode arrebentar para o lado dele e contra ele", diz Dirceu.
Perguntado pelo jornalista Luís Costa Pinto, que integra a bancada fixa do programa junto com Eumano Silva, se o "arrebentar de cordas" era, enfim, a senha para o impeachment tramitar conduzido pela centro-direita, Dirceu que "sim".
O ex-deputado e ex-presidente do PT crê que as chances de vitória eleitoral de Lula em 2022 são amplas e que elas se constroem a partir do Nordeste.
Dirceu elogiou a agenda de conversas e articulações do ex-presidente na região.
Para ele, o PT vem demonstrando maturidade e pragmatismo político na estruturação de alianças.
José Dirceu saúda, ainda, a aliança de Geraldo Alckmin com Márcio França em São Paulo, deixando claro que ela dialoga com o lado democrático da sociedade.
"Será espetacular ter uma disputa em São Paulo com Boulos, Haddad, Alckmin, e o candidato do Doria", crê.
"Talvez, São Paulo tenha percebido que é hora de mudar no estado", diz na entrevista.
Em que pese persistirem as ameaças de confrontos e conflitos nos atos de rua do dia 7 de setembro, José Dirceu não acha razoável que os movimentos democráticos e o conjunto de movimentos sociais que reagem aos avanços bolsonaristas contra a democracia deixem de se manifestar no Dia da Independência.
"Não se deve ir para a Avenida Paulista, mas é claro que demos ter manifestações contrárias a isso.
Sem, claro, cair em provocações.
Tem de ser algo muito bem organizado, muito estruturado, porque já passamos do tempo de cair em provocações.
E haverá infiltrados do lado de lá nos movimentos que nós organizarmos", adverte.
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CHÁVEZ virou MODELO para o CAPITÃO. Qual PESADELO é pior: chavismo de ESQUERDA ou de DIREITA?
Basta de agosto: primavera já!
“O Rio amanheceu cantando / toda a cidade amanheceu em flor/ os namorados vão pra rua em bandos / porque a primavera é a estação do amor.”
Amanheci com a voz de Dalva de Oliveira na cabeça cantando os versos de Braguinha, mas eles não me levaram a esse tempo de ventura que não vivi, mas ao próximo setembro, por todos os motivos que tenho para esperá-lo, para antecipar a chegada da primavera. Ao menos como metáfora.
É a esperança que a vacinação continue avançando, que cada um faça o que tem que ser feito, que aos poucos a vida volte a florescer depois da devastação da peste, é o que o mundo espera. É o que sempre acontece depois de guerras e epidemias. Embora no Brasil tudo seja mais difícil, com a economia em frangalhos, transformado em um pária internacional, sob ameaças de um golpe de Estado que ou vira uma ditadura ou uma inconcebível guerra civil (entre o Exército e a Polícia Militar?), ou fica como mais uma bravata irresponsável para tentar intimidar a oposição, o Congresso e o Judiciário. E incendiar suas legiões de fanáticos e suas milícias digitais, que as pesquisas estimam em torno 25% da população. Não é pouca gente. Mas é bem menos que os 65% que rejeitam Bolsonaro. Seria uma novidade: um golpe da minoria contra a maioria absoluta.
Quem consegue imaginar os comandantes das Forças Armadas, com 30 anos de estudos e serviços, apoiando uma ditadura do Jair? O que aconteceria se Bolsonaro tivesse poder para fazer o que quer sem o Congresso e o STF para atrapalhar? É só lembrar algumas de suas tentativas subversivas que foram barradas por tribunais, pela Câmara e pelo Senado. Sem controle, teria obrigado os estados a tratamento da Covid-19 com cloroquina e ivermectina, não teria comprado as vacinas porque não acreditava nelas, submeteria o Brasil a uma imunidade de rebanho como se fosse gado em que alguns têm que morrer para a sobrevivência da manada. Proibiria lockdowns e isolamentos. Por ignorância e má-fé proibiria o trabalho remoto. ( “O presidente da Petrobras que eu demiti ficou dez meses em casa sem trabalhar”). Liberaria a venda de armas para milícias populares inspiradas nas brigadas chavistas. Obrigaria os presidentes dos três poderes a abrir suas sessões com uma oração. Teria nomeado o filho Eduardo embaixador em Washington e arquivado todos os processos contra o filho Flávio. Teria fechado a TV Globo e aposentado metade do Supremo para substitui-los por “gente nossa”, seguindo a receita de Hugo Chávez de minar a democracia por dentro, corrompendo as instituições.
O curioso é que ao mesmo tempo em que é demonizado pelo bolsonarismo como comunista, o bolivariano virou um modelo para o capitão, que está tentando se tornar uma espécie de Chávez de baixo coturno, mas sem a inteligência, o carisma e a coragem do coronel.
Qual pesadelo pode ser pior: um chavismo de esquerda ou de direita ?
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Sairemos minúsculos, exauridos e com muito trabalho do governo atual
Debate que apequena | Flávia Oliveira
Democracia é essencialmente o regime do diálogo, da negociação, da busca do consenso, a partir da escolha do povo. É a política do debate. O problema é que há debates que engrandecem democracias e seus atores; outros apequenam. Muita gente acreditou que, ao fim da longa temporada de doença, luto e crises decorrentes da pandemia, o mundo e o Brasil, em particular, sairiam melhores, amadurecidos, fortalecidos. É verdade que organizações da sociedade civil se reaproximaram e assumiram o protagonismo em ações humanitárias de enfrentamento à Covid-19. Está claro que atribuições — à frente, saúde e assistência social — de um Estado intensamente demonizado em anos anteriores foram reconhecidas e, hoje, são cobradas. Mas, ao fim da jornada, sairemos mais exauridos que satisfeitos, mais esfarrapados que aprumados, mais famintos que saciados. Sairemos menores.
Não há como fingir que não foi devastador perder dois, três, talvez quatro anos reiniciando debates sobre temas superados, pacificados, resolvidos, à luz de pactos civilizatórios há muito firmados. O Brasil sob Jair Bolsonaro e seu grupo político implodiu qualquer traço de normalidade democrática. Hoje, gastamos tempo que não temos em discussões que, um par de anos atrás, eram completamente irrelevantes. Quase três décadas e meia depois de promulgada a atual Constituição, somos obrigados a lembrar que democracia é inegociável e tem de haver harmonia e independência entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Como numa classe de alfabetização cidadã, temos de explicar que ofender e ameaçar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) não é liberdade de expressão, mas ataque às instituições.
Mais de meio milênio depois da chegada dos colonizadores, a Justiça é chamada a decidir se o direito dos povos indígenas sobre terras que ocupavam antes de o Brasil ser Brasil terminou com a entrada em vigor da última Carta Magna. É disso que trata o marco temporal que o STF volta a julgar em 1º de setembro. O mundo todo, boquiaberto, vê a Amazônia ser derrubada e incendiada com a anuência do governo. O debate se apequena quando a ministra da Mulher quer impor a maternidade a uma criança de 11 anos, que engravidou de um estupro; ou determina que meninas vestem rosa, e meninos azul.
Quando a pandemia completou um ano, Ana Paula Lisboa, amiga querida, colunista no Segundo Caderno, expressou num encontro virtual o espanto com a polêmica brasileira sobre uso de máscara como medida não farmacológica para conter a transmissão da Covid-19. Ela vive em Luanda, capital angolana, há quatro anos e contou que lá máscara não é tema de debate: “As pessoas usam”. No Brasil, um quarto da população completamente imunizada, variante Delta do coronavírus em acelerada multiplicação, e o presidente da República cobra do ministro da Saúde o uso facultativo da proteção. Diariamente, repetimos que haver mais de 577 mil pessoas mortas pela pandemia é inaceitável.
Nos dois anos e meio do atual governo, fomos levados a explicar por que brasileiros como Elza Soares, Martinho da Vila, Benedita da Silva, Gilberto Gil, Zezé Motta, Conceição Evaristo são dignos de reconhecimento pela Fundação Cultural Palmares. E a reagir à inclusão do Palácio Gustavo Capanema, joia da arquitetura modernista, numa lista de imóveis da União a ser privatizados. É cansativo lidar com gestores públicos que não sabem a diferença entre bem imobiliário e patrimônio histórico; desprezam a relevância da cultura, das artes, do carnaval.
Cá estamos a produzir estudos e resgatar evidências de que flexibilizar o acesso a armas de fogo não diminuiu a violência, aumentou. Estamos em 2021 fazendo pessoas submetidas à tortura, à brutalidade do regime militar revisitar suas dores, exumar seus mortos para provar que houve ditadura no Brasil de 1964 a 1985. Temos de repetir que o Estado é laico e que Forças Armadas a ele se subordinam.
Somos impelidos a ensinar ao ministro da Economia que pobres não podem se alimentar de sobras; inflação de 7% é jogo perigoso para um país engolfado pelo desemprego, pela informalidade, pela fome; 52% de aumento na bandeira tarifária que onera a conta de luz é uma barbaridade. Precismos ensinar ao titular da Educação que crianças com deficiência têm de ir à escola, educação é direito constitucional de todos os brasileiros, e universidade não é para poucos.
Sairemos exauridos, minúsculos. E com muito trabalho pela frente.

Por Flávia Oliveira
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Reinaldo Azevedo - Discurso de comandante do Exército, ao lado de Bolsonaro, é antigolpista
Colunista do UOL
25/08/2021 17h06
Nunca se sabe o que pode sair da cabeça de alguém clinicamente imprevisível — e esse é um mistério que a medicina não conseguiu até hoje desvendar. Há moléstias, mesmo as psíquicas, cuja etiologia é conhecida. E, pois, sabendo-se a origem, pode-se antever com margem aceitável de incerteza o comportamento do vivente. Mas há aquelas ainda cobertas de sombras... Vamos ver.
Colo essa introdução ao que vem agora. Se o presidente Jair Bolsonaro dedicar um minuto de seu tempo a ler o discurso que ouviu, saído da boca do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército, na solenidade em homenagem ao Dia do Soldado, vai refrear seu ânimo golpista.

Juíza toma crime por liberdade de expressão; decisão incentiva o vale-tudo
Como se sabe, a data escolhida marca o nascimento de Duque de Caxias. Ao exaltar as virtudes que enxerga no patrono do Exército Brasileiro — as controvérsias não cabem neste texto porque me fixo na leitura que o general faz do homenageado —, o comandante destaca caráter, integridade, honradez, disciplina, honestidade, ética, espírito pacificador... Eis as características que não combinam com arruaceiros.
"Ah, mas o general lembrou que o presidente da República, que estava a seu lado, é o 'comandante supremo das Forças Armadas'. Isso não quer dizer alguma coisa?". Quer dizer que ele apenas está citando a Constituição. Razão por que lembra que as Forças Armadas também são garantidoras dos Poderes constitucionais. GARANTIDORAS, não agentes golpistas.
O general deixou claro de que Exército fala. Destaco trechos:
- "um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente";
- "sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem";
- "historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!";
- dotado de "espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias" (...) "inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça";
- um Exército que tem "compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento".
Mas as coisas são assim mesmo? Ele fala por todos os militares? Bem, ele fala, com apoio pleno do Alto Comando, pelo Exército, a principal das três Forças. Nenhum presidente conseguiu plantar a desídia nos três pilares da Defesa no país, ainda que haja ruídos, e os há, na Marinha e na Aeronáutica mais afinados com as tentações golpistas do presidente da República.
É importante que se diga: o discurso de Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira se dá sob pressão — inclusive do general Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria-Geral da Presidência. Um comandante do Exército, Edson Leal Pujol, já foi defenestrado por se opor claramente ao golpismo. Há feiticeiros querendo derrubar também o atual.
Não! Bolsonaro não está apenas brincando de golpe. Na sua cabeça, ou as coisas são como ele quer, ou, então, ele vira a mesa, hipótese em que cobra a lealdade dos militares não à Constituição, mas a seus delírios.
CONSEQUÊNCIAS
Qualquer militar com um mínimo de juízo sabe que a aventura teria curta duração, transformaria o país em pária no mundo, provocaria um racha inédito nas Forças Armadas, derramaria sangue dos próprios brasileiros, conferiria aos militares a feição de carniceiros e implicaria décadas de atraso no esforço de profissionalização e de aprimoramento técnico das três Armas.
Destaque-se, sim, que a indisposição do alto oficialato das Três Forças com o STF, por exemplo, é grande. Os dois anos e oito meses de ataques permanentes de Bolsonaro a esse Poder em particular — que é, afinal, aquele lhe impõe os limites da lei — fizeram frutos. Militares não são os melhores intérpretes da Constituição. Muitos caíram na conversa do presidente de que os togados não o deixam governar, o que é, obviamente, conversa mole.
Ao contrário: sem a colaboração do Supremo, o presidente não teria em mãos os meios para enfrentar a crise gerada pela pandemia. Ocorre que, em vez de se fortalecer politicamente com facilidades inéditas que lhe foram dadas, preferiu investir no negacionismo e no confronto.
Perguntem-se, senhores do Alto Comando, e respondam: de que instrumento o Supremo privou Bolsonaro, impedindo-o de governar? Não existe resposta. Nem mesmo lhe tirou a prerrogativa, que nunca existiu, de ser o único a decidir sobre medidas sanitárias de combate à doença. E ainda bem que não se deu assim! Fosse como ele queria, teríamos as Forças Armadas, em meio a múltiplas tarefas, também a enterrar corpos. Ou os quase 600 mil mortos parecem número corriqueiro?
Bolsonaro quer o confronto, sim. É sua única saída — e, pois, saída não é.
O discurso do comandante do Exército diz, por outras palavras: "Não vai ter golpe, vai ter democracia".
ENCERRAMENTO
O general encerra a sua fala com "Brasil acima de tudo". Por várias razões, mergulhando na história, é uma palavra de ordem que pode remeter a coisas um tanto sinistras.
Dado o contexto, no entanto, é inevitável observar que alude também ao lema da campanha eleitoral de Bolsonaro, mas só pela metade.
Acho que se está a dizer, nas circunstâncias da ora, o seguinte: o Exército é leal à Constituição, não ao presidente de turno se este não for, igualmente, fiel servidor da Carta.
O discurso é antigolpista. Nem por isso a situação deixa de ser delicada e perigosa.
Segue a íntegra da fala do comandante do Exército, com destaques meus:
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"Contar os seus feitos requer imenso esforço de concisão. Não há eloquência capaz de fazer sua figura ainda maior. Seu principal atributo foi a simplicidade na grandeza!"
Meus comandados!
As palavras inspiradas na homenagem do Visconde de Taunay nas despedidas ao Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, sintetizam o que foi a vida do mais ilustre Soldado do Brasil e trazem à reflexão a essência dos soldados que somos: almas simples, mas grandiosas na defesa da Pátria.
Com entusiasmo, celebramos a memória do Patrono do Exército Brasileiro e reverenciamos nossos militares, homens e mulheres que abraçaram o nobre sacerdócio de servir ao País, com abnegação e sem medir o sacrifício próprio e familiar.
Foi na caserna que Caxias teve forjadas suas admiráveis virtudes. Em mais de cinquenta anos de serviços dedicados ao nosso Povo, de Cadete a Marechal, Caxias pautou sua conduta pelo caráter íntegro, honrado, sereno e justo, ao tempo que foi modelo de bravura e de atitude profissional e resoluta no cumprimento do dever.
O esplendor de sua carreira recebeu o batismo de fogo na luta pela consolidação da independência, ganhou vulto na pacificação dos conflitos internos que ameaçavam a unidade nacional e consagrou-se nas campanhas externas em defesa do Brasil.
Na vida política nacional, Caxias foi Senador e Presidente do Conselho de Ministros, notabilizando-se nas tribunas do Parlamento como indelével exemplo de honestidade, ética e postura pública.
O resultado de seus feitos traduziu-se, sempre, no restabelecimento da paz, na restauração da lei e da ordem e na manutenção da integridade do País.
Enaltecida pelo Povo brasileiro, a atuação de Caxias foi marcada pela conciliação, pela superação de posições antagônicas, e, sobretudo, pela prevalência da legalidade, da justiça e do respeito a todos.
Enfim, Caxias foi notável líder militar, estadista e herói. Representa, portanto, a expressão máxima do soldado e do cidadão. Com justíssima razão, a história o proclama Conselheiro da Paz, o Pacificador do Brasil.
Fiéis herdeiros do legado de Caxias e alicerçados na hierarquia, na disciplina e nos valores pátrios, os soldados de ontem e de hoje, da ativa e veteranos, e suas estimadas famílias formam a genuína alma do Exército, retrato fiel de nossa sociedade, e são o patrimônio mais valioso da nossa Instituição.
Graças a você, soldado, a identidade do Exército Brasileiro é moldada pelos valores militares que você cultua e pratica.
Graças a você, soldado, contamos com um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente, cuja história funde-se de maneira indissolúvel com a própria história da Nação brasileira. Um Exército que se moderniza e se transforma continuamente, inserindo-se na Era do Conhecimento e ajustando-se às demandas das novas gerações.
Graças a você, soldado, na fronteira, nas cidades, nos distantes rincões, a qualquer hora e sob quaisquer condições, o Exército — Braço Forte da Nação — preserva a integridade do território, combate os ilícitos ambientais e transfronteiriços e salvaguarda os interesses nacionais.
Graças a você, soldado, provido de sólido sentimento de solidariedade, nos unimos para dar forma à Mão Amiga do Exército, que se estende a todos os brasileiros em prol do bem-estar social, nas situações de calamidade, na distribuição de água no semiárido nordestino, no apoio de saúde aos indígenas, na construção de estradas e ferrovias, na preservação dos biomas, na acolhida de irmãos estrangeiros, no estímulo à cultura e aos desportos, bem como na histórica e significativa contribuição com a comunidade internacional na manutenção da paz.
Graças a você, soldado, testemunhamos o obstinado esforço e o empenho diuturno do Exército para preservar vidas e ajudar a população nas ações de enfrentamento à pandemia da COVID-19, nesse mister ombreando com os profissionais de saúde — verdadeiros heróis de branco!
Sob a autoridade do Presidente da República — Comandante Supremo das Forças Armadas — e integrado à direção superior do Ministro da Defesa, o Exército Brasileiro não para em circunstância alguma e, irmanado com a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira, mantém-se sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem são, portanto, o farol que orienta o contínuo preparo e o emprego da Força Terrestre.
No seu dia, agradecer a você soldado é mais que um dever! É um gesto que nos enche de satisfação e orgulho!
A você, soldado, cujo modo de vida é servir incondicionalmente e em permanente estado de prontidão!
A você, soldado, que se solidariza e ajuda nossa gente sem hesitar!
A você, soldado, que, lutando sem temor, derramou seu sangue além-fronteiras, no continente e nos campos da Europa, pela defesa da democracia e contra o totalitarismo!
A você, soldado, historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!
A você, soldado, a gratidão por tudo o que fez e faz pela Nação brasileira! Presto a você a minha mais vibrante e respeitosa continência!
O momento desta justa homenagem aos soldados, que muito contribuíram e contribuem para a unidade e a grandeza do Brasil, nos motiva a reafirmar o compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento.
Neste curto tempo, desde que assumi o Comando do Exército, estive presente junto à tropa em diversos locais do País, acompanhando seu contínuo preparo. O elevado nível de capacitação e prontidão da Força Terrestre que pude constatar e, principalmente, o profissionalismo, a liderança, o entusiasmo e a coesão de nossos militares têm ratificado a plena certeza de que honramos nossos antepassados ao continuarmos a fazer do Exército Brasileiro essa Instituição que tem merecido a ampla aprovação e a confiança do Povo brasileiro.
Meus comandados!
Mantenhamos, sempre, a fé inabalável na missão do Exército Brasileiro e a crença nos princípios da nossa nacionalidade. Sob as bênçãos do Todo Poderoso Deus dos Exércitos e iluminados pelo espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias, sejamos, junto aos irmãos brasileiros, inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça, ordem e progresso — que o nosso Povo tanto almeja e merece — dedicando-nos, inteiramente, à defesa da soberania nacional e ao bem do nosso amado País.
Soldado brasileiro, parabéns pelo seu Dia! Orgulhe-se, pois sua alma singela é, e sempre será, de têmpera forte como o aço da invicta espada de Caxias!
Brasil, acima de tudo!
Brasília-DF, 25 de agosto de 2021.
General de Exército PAULO SÉRGIO NOGUEIRA DE OLIVEIRA
Comandante do Exército
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Reinaldo Azevedo - Golpistas do dia 7 isolarão Bolsonaro ainda mais; é o lado bom da patuscada
Colunista do UOL
25/08/2021 06h59
Certas formulações de jerico começam a frequentar até os textos de pessoas obviamente comprometidas com a defesa da ordem democrática e que repudiam alguns trogloditas fascistoides hoje aboletados no Estado. E aí se diz então: "Ah, se a manifestação do dia 7 de Setembro for gigantesca, Jair Bolsonaro obterá uma vitória importante..." Calma lá.
Se for um fiasco, é óbvio que ele estará acabado antes da fim do festa — ou do festim diabólico a que estamos submetidos. Mas, obviamente, não será. Podem contar que haverá muitos milhares nas ruas. E isso significará o quê? Nada! Coisa de um quarto do eleitorado ainda vota nele. Parte dessa gente é composta de fanáticos que acreditam em tudo o que diz e que seguem o seu comando. E vão para as ruas: pelo voto impresso, pelo fechamento do Supremo, contra os comunistas, contra as vacinas com chip... Escolham aí a causa.
Juíza toma crime por liberdade de expressão; decisão incentiva o vale-tudo
Isso terá o condão de intimidar o Supremo? Acreditem: não vai mesmo. Se Bolsonaro espera alguma concessão arrancada na base da intimidação, então não sabe o erro que está cometendo. De resto, vamos ver: se a oposição fizer, na sequência, uma manifestação ainda maior em favor do impeachment, isso quererá dizer que o ogro vai cair? Nem uma coisa nem outra.
O dia 7 vai servir apenas para Bolsonaro evidenciar que continua competitivo. Digamos que se trata de um esforço para tentar impedir que surja o tal nome da terceira via, que, para ser viável, tem de arrancar mais eleitores seus do que de Lula. Como é crescente o descontentamento de setores da elite que estavam fechados com o "capitão" até ontem, ele sabe que o risco existe — ainda que pequeno hoje. É crescente a constatação, na turma do dinheiro grosso (não me refiro a bucaneiros exibidos), de que o país não tem futuro "com esse cara". E ele precisa dar uma demonstração de força.
"Mas Bolsonaro não sonha, Reinaldo, com uma manifestação gigantesca de pessoas pedindo o fechamento do Supremo, saudando-o como o grande líder, seguida de uma quartelada que o chamasse de chefe?" Sonha, sim, caras e caros. Mas sabem quantos são, no momento em que você lê este texto, os Napoleões de hospício e de si mesmos mundo afora? Entre o sonho e a realidade, costuma estar a impossibilidade.
Nesta quarta, no Dia do Soldado, os militares devem se pronunciar. Fiquemos atentos.
De um importante empresário — que nunca foi bolsonarista, mas que convive num meio altamente bolsonarizado (até outro dia...) —, ouvi uma avaliação que já está sendo feita entre seus pares: "E se ele ganhar? Está queimando tantas pontes e incendiando tantos navios que o futuro se torna ainda mais sombrio".
Pois é. Sabemos que Bolsonaro não precisa de motivos objetivos para declarar guerra contra adversários que só litigam na sua imaginação, naquela terra devastada que tem entre as orelhas. Ou suas milícias não teriam começado a atacar o Judiciário e o Legislativo já no dia 2 de janeiro de 2019, dando continuidade à linguagem da campanha eleitoral.
REUNIÃO COM PODERES?
É por isso que não faz muito sentido, na sua estratégia ao menos, uma reunião entre os Poderes, com a presença dos governadores. E aí pouco importa a sua ojeriza a João Doria. Ocorre que Congresso e STF não têm concessões a fazer. O único que teria algo a ceder seria ele próprio: teria de pôr fim à sua postulação golpista. Mas aí vai dizer a seus fanáticos o quê?
Até o centrão, que vive as delícias orçamentárias do poder, sabe que a equação não tem futuro. Vai tentando empurrar Bolsonaro com a barriga até a disputa eleitoral, numa estratégia de redução de danos.
E quais as chances de o presidente amenizar o discurso depois do dia 7? Bem, respondo com outra pergunta: amenizaria por quê? Lá estarão os seus lunáticos, certos de que podem se impor pelo berro e esperançosos de que as Forças Armadas, na hora h, não faltarão e impedirão a sua derrota — o que não vai acontecer.
O FUTURO
O que os democratas têm de fazer desde já -- e essa costura tem de começar agora, não mais tarde -- é um pacto em favor da governabilidade a partir de 2023. A instabilidade que Bolsonaro levou à política tenderá a durar bastante tempo. A besta não voltará facilmente para a caverna. A corrosão institucional nestes dois anos e oito meses de desordem é grande. Crimes em penca foram e estão sendo cometidos. Os militantes do golpe de estado terão de ser contidos pela lei.
Vejam, a propósito, a pregação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), insuflando a PM de São Paulo contra o governador e falando abertamente em ruptura institucional. É evidente que a democracia não pode tolerar esse tipo de pregação se não quiser conviver com a instabilidade permanente e com a condenação ao atraso. Há setores importantes no país, inclusive na imprensa, que não se deram conta da dimensão da corrosão em curso.
Não. Não haverá golpe. Mas precisaremos de muito tempo para rearranjar as coisas quando esse pesadelo passar. E haverá muito a fazer em defesa da ordem democrática. Especialmente num país em que até alguns juízes confundem crime com liberdade de expressão.
CONCLUO
Bolsonaro não vai desistir na pregação golpista. Não é que seja a sua melhor opção. É a única. Sem isso, não existe. E conta, sim, com um apoio expressivo, especialmente quando se consideram as enormidades que diz. Conseguiu a proeza de encarnar todos os reacionarismos do país -- os novos e os ancestrais. E haverá, pois, muita gente na rua no dia 7. E isso só vai evidenciar por que ele não pode continuar na Presidência da República. Tem de sair por meio do impeachment (chance ainda remota) ou das eleições.
Na planície, terá de pagar por seus crimes.
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A Folha, a falha e a farda: resistência já! - Roberto Bueno

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Análise: Olga Curado - "Chega pra lá" em Sérgio Reis pôs água na fervura de comboio golpista
24/08/2021 16h18
Atualizada em 24/08/2021 18h41
Os bolsonaristas de caminhão e de retroescavadeiras perderam o entusiasmo com a manifestação conclamada pelo cantor passadista Sérgio Reis, e os seus próximos. O pragmatismo em relação às consequências da realização de atos antidemocráticos estaria se disseminando no meio dessa "tropa", depois da decisão "corajosa" da PGR (Procuradoria-Geral da República), que pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal), no que foi atendida, a busca e apreensão nas propriedades do ruralista-cantor.
Agentes de segurança e de informação não estão antecipando uma marcha sobre Brasília no dia 7 de Setembro pelos "sobrinhos do capitão". Vamos presumir que aqueles sejam mais bem informados que os espiões de Biden, surpreendidos com a tomada de Cabul pelo Talibã.
Nada em excesso faz bem: entenda a ortorexia nervosa e o vício em exercício
Não seria surpresa se a Praça dos Três Poderes, em Brasília, for visitada apenas por um grupo de locais, frequentadores do cercadinho do capitão, para hipotecar seu apreço a ele. E a bandeira hasteada seria o maior dos espetáculos. Mais que isso pode não acontecer.
Claro, se houver ímpeto de uns tantos para reproduzir as cenas que inspiram os movimentos golpistas - como a invasão do Congresso dos Estados Unidos, no dia 6 de janeiro deste ano, depois que Trump foi escorraçado pelas urnas - os manifestantes vão se deparar com barreiras intransponíveis. Ninguém vai pagar para ver.
O ato preventivo de ameaçar as instituições deverá ficar fora do Distrito Federal, especula-se, embora os impropérios sejam escutados em todos os níveis, da rede profunda - a deep web - às páginas conhecidas de compartilhamentos de milícias digitais, feitas a céu aberto. São Paulo é o destino do destempero dos milicianos infiltrados nas forças de segurança. A ideia é mostrar que o capitão tem o "seu Exército", com poder de acossar o arqui-inimigo Doria e demonstrar que o governador pode pouco e controla menos ainda.
Mas, antes do dia 7 de Setembro tem outros dias.
Tem a data do salvo-conduto que o Senado dá ao Aras, o incorrigível PGR, nos seus esforços de blindar o capitão. A recondução no cargo deve alterar o modus operandi do procurador. Terá ganho, pelo voto dos senadores, mais dois anos de emprego, sem correr risco de ir atrás de seguro-desemprego. Mas está distante o sonho acalentado de ocupar uma cadeira no STF. Perdeu a chance - pelo vaticínio inquestionável das pesquisas de opinião, que cravam a derrota, pelo voto, do capitão, no ano que vem. Esvai-se na névoa dos sonhos a toga de ministro da Corte.
Pode-se esperar que a tristeza de Aras, frustrado na sua ambição, venha a ser materializada em comportamento mais autônomo em relação ao capitão reformado. Promessas, à boca pequena, estão sendo feitas para acalmar instituições que ele desafia pela inação. A pressão da corporação também é uma parte, para que respeite a função. Além disso tem a vingança. O troco a ser dado por ter imolado a própria biografia a um chefe que não soube, não quis e não agiu para lhe dar o emprego desejado.
Mas, por enquanto, é a dona Lindôra, o alter ego de Aras, sua porta-voz, para que ele tenha os argumentos usados na audiência de indicação/confirmação no Senado pela heterodoxa interpretação da lei, em favor do capitão reformado. Pois é, diz ele, quem decidiu não fui eu, quando é lembrado da flexibilidade semântica da subprocuradora, ao considerar que o capitão nada fez de errado disseminando o desuso de máscara e a irresponsabilidade por aglomerações, foco de contágio do coronavírus.
Como se não bastassem tantos dias a serem vividos na corda bamba das ameaças e impropérios do capitão, determinado a testar os limites das instituições, há que se superar o Dia do Soldado.
A preocupação dos assessores, de militares, é para com a língua incontrolada e incontrolável do capitão, determinado a botar fogo no paiol, e nesse fogaréu sequestrar a honorabilidade Exército, num discurso previsto na cerimônia.
Os presidentes do Judiciário e do Legislativo foram convidados para o evento. Ninguém pode pedir o rascunho do discurso do capitão. Cada qual tem a opção de tomar um antiácido, olhar para o lado quando o capitão não se contiver na sua vocação golpista. E sair mais cedo para evitar a vergonha da foto.
Cada dia é um dia. E cada qual com a sua agonia, naturalmente agravada pelo capitão.
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Liderados por Malafaia, pastores convocam evangélicos para apoiar Bolsonaro no 7 de Setembro
Engajamento do segmento na data é inédito, segundo líderes evangélicos e especialistas
Enquanto antigos aliados viram as costas, líderes evangélicos permanecem de joelhos, em oração, por Jair Bolsonaro num inédito engajamento do segmento no 7 de Setembro.
Alguns dos principais pastores do país se uniram para convocar fiéis ao ato de apoio ao presidente que, em São Paulo, ocupará a avenida Paulista. Entre eles estão Estevam Hernandes, idealizador da Marcha para Jesus, Samuel Câmara, à frente da Igreja Mãe, a primeira das Assembleias de Deus no Brasil, fundada há um século em Belém, e Renê Terra Nova, uma das vozes pastorais mais influentes no Norte.

“Não podemos ficar omissos nem sermos covardes neste momento crucial”, disse em vídeo o líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia, que puxou o movimento. “O povo brasileiro é o supremo poder, e Deus é o supremo juiz.”
Não que pastores tenham passado ao largo da data no passado. Em 2019, por exemplo, o bispo Edir Macedo (Igreja Universal do Reino de Deus) dividiu as atenções de Bolsonaro com o apresentador Silvio Santos no palanque montado em Brasília para autoridades assistirem ao desfile do Dia da Independência.
Parece outra era, e não só porque o presidente fez questão de andar abraçado com seu então ministro da Justiça, Sergio Moro, que logo cairia nas desgraças do chefe. Naquele ato, o último pré-pandemia, a popularidade de Bolsonaro ainda não havia se liquefeito, e a crise institucional era uma marolinha perto do tsunami que hoje se forma no Distrito Federal.
A diferença é que agora os evangélicos se alinham a Bolsonaro não para um evento oficial, como fez Edir Macedo dois anos atrás, mas para manifestações que prometem agravar o estresse institucional. Tudo numa data historicamente marcada por um cortejo de tropas militares.
“Entre a Bíblia e a bala”, como disse, numa pretensa piada, um pastor que lá estará no dia 7. As Forças Armadas e o cinturão evangélico são dois guinchos nos quais hoje o bolsonarismo se escora.
Por ora, há poucas rachaduras no respaldo dos pastores —muitos deles associados aos governos petistas de Lula (sobretudo) e Dilma Rousseff (menos)— ao atual mandatário. Nos vídeos para chamar fiéis às ruas, eles usam expressões como “povo abençoado de Deus” (Malafaia) e “graça e paz” (Cláudio Duarte). Seria preciso protestar “pela nossa liberdade”, nas palavras de Magno Malta, ex-senador que ajudou a costurar a rede religiosa pró-Bolsonaro nas eleições de 2018 e acabou alijado de seu governo.
“Nessa magnitude, é inédito”, diz Malafaia à Folha sobre a presença evangélica no Sete de Setembro. “Evangélicos sempre participaram, mas de maneira tímida. Nunca vi na história do país uma mobilização de evangélicos para um evento como esse. Nós sempre ficamos na nossa. Desta vez, há um envolvimento monstro de lideranças e de povo.”

O apóstolo César Augusto, líder da Igreja Apostólica Fonte da Vida e visitante frequente no Palácio do Planalto, diz que sua ideia é levar “uma mensagem de pacificação à sociedade brasileira, que vive uma atmosfera de conflitos”.
Estevam Hernandes, fundador da Renascer em Cristo, também recorre ao discurso conciliador. “Acredito que, de maneira democrática e pacífica, podemos, com manifestação popular, orações e clamor a Deus, viver a harmonia dos Poderes e um novo tempo de paz e prosperidade para o Brasil.”
Na prática, o que se vê é a adesão aos argumentos que, ao menos na capital federal, isolaram Bolsonaro em sua sanha contra o Judiciário: haveria em marcha um ataque à Constituição promovido por quem deveria guardá-la, o STF (Supremo Tribunal Federal).
César Augusto inclui entre os motivos para ir à Paulista a necessidade de defender "a liberdade de expressão e opinião, o direito de ir e vir e liberdade religiosa, direitos que vejo sutilmente ameaçados nesse momento".
“Hoje é a liberdade de expressão, amanhã é a liberdade religiosa. O que está em jogo é muito mais do que Bolsonaro”, afirma Malafaia. “A Constituição está sendo rasgada por quem mais deveria honrá-la.”
O pastor carioca é um dos que evocam o artigo 142 da Constituição, que trata do papel das Forças Armadas na República, para justificar uma eventual intervenção militar, tese repudiada por instituições como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e o Congresso Nacional. Diz esse trecho constitucional que, “sob a autoridade suprema do Presidente da República”, os militares “destinam-se à defesa da pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.
No começo de agosto, Malafaia disse que Bolsonaro deveria convocar as Forças Armadas contra a “ditadura da toga" que teria tomado de assalto o STF.
Essa manifestação pública de pastores num feriado cívico como o 7 de setembro é fora da curva, segundo Ricardo Mariano, professor de sociologia da USP que anos atrás cunhou o termo “neopentecostais” em sua tese de mestrado.
Para Mariano, assistimos a expoentes da direita cristã bradarem contra as forças políticas de oposição —nomeadas por Malafaia de “gente má”— e a mais alta corte do país. “Para mobilizar os irmãos de fé, o pastor os conclama a se manifestarem para impedir que ‘isso aqui’ vire uma Venezuela, o que é paradoxal, já que é justamente Bolsonaro que não se cansa de estimular manifestações golpistas, de ameaçar os demais Poderes com o que considera ser ‘suas Forças Armadas’."
Pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião, Magali Cunha lembra da Marcha pela Família de 2014 como outro catalisador de "mobilização via pânico moral".
Já o 7 de Setembro nunca foi data destacada em igrejas.
"Algumas usavam como semana de oração pela pátria, contra os males sociais. Mas NUNCA NADA como estamos vendo HOJE."
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Em meio a crise com poderes, Bolsonaro diz que 'tem que todo mundo comprar fuzil'

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BRASÍLIA — Em meio a uma crise que se arrasta nos últimos dias com membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) subiu o tom dos ataques e sugeriu que "todo mundo" tem que comprar um fuzil. A afirmação foi dada a apoiadores na manhã desta sexta-feira, ao ser questionado se ele iria "parar de brigar dentro das quatro linhas" da Constituição e "partir para o ringue".
— Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Daí tem um idiota que diz "ah, tem que comprar feijão". Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar — declarou.

Ainda durante a conversa, Bolsonaro respondeu que não quer "interferir" em outros Poderes, mas afirmou que é "difícil governar desta maneira".
— Tem ferramentas lá dentro (da Constituição) para ganhar a guerra. Tem gente que está do lado de fora. Difícil governar um país desta maneira. O único dos Poderes que é vigiado o tempo todo e cobrado sou eu. O que acontece para o lado de lá não tem problema nenhum. Eu não quero interferir para o lado de lá, nem vou. Agora, tem que deixar a gente trabalhar para o lado de cá.
O chefe do Executivo afirmou que o "câncer" chegou à Corte Eleitoral e que é preciso colocar um "ponto final". Ao falar em "câncer", Bolsonaro fez referência a uma decisão do corregedor-geral do TSE, Luis Felipe Salomão, de desmonetizar páginas que divulgam informações falsas sobre as eleições.
— Não sou machão, não sou o único certo. Agora, do outro lado não pode um ou dois caras estragarem a democracia do Brasil. Começar a prender na base do canetaço, bloquear redes sociais. E agora o câncer já foi lá para TSE, lá tem um cara também que manda desmonetizar as coisas.Tem que botar um ponto final nisso. E isso é dentro das quatro linhas (da Constituição) — disse Bolsonaro, em conversa com apoiadores no Palácio da Alvorada.
O tensionamento das relações entre os demais Poderes com Bolsonaro não dá sinais de que vá diminuir. Os ataques do presidente contra o Judiciário ganharam força durante a discussão sobre a implementação do voto impresso no país, defendido por Bolsonaro e rejeitado no Congresso, há duas semanas. À época, Bolsonaro deu inúmeras declarações atacando os magistrados do STF, em especial ao ministro Luís Roberto Barros, a favor do sistema atual de votação.
Em outra frente, o chefe do Executivo ataca o chamado inquérito das 'fake news', que mira numa suposta milícia digital suspeita de disseminar notícias falsas. Recentemente, por ordem do ministro do STF Alexandre de Moraes, Bolsonaro passou a condição de investigado no processo.
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Todos em alerta com as PMs. O golpe bolsonarista conta com elas - Gilvandro Filho
Por Gilvandro Filho

Por Gilvandro Filho, para o Jornalistas pela Democracia
A proximidade do dia 7 de setembro e a promessa de protestos bolsonaristas por todo o Brasil deixam os democratas de cabelo em pé. Manifestações da ultra-direita já estão programadas e prometem acirrar o clima de confronto e desrespeito às instituições republicanas, mais propriamente ao Judiciário, com foco no Supremo Tribunal Federal (STF), e ao Legislativo, com o risco até de ataques físicos ao Congresso Nacional. A coisa piora na medida em que o próprio presidente da República anuncia, irresponsavelmente lampeiro, seu apoio a esses atos insurrecionais e promete estar presente em, pelo menos, dois deles, em Brasília e São Paulo.
Infelizmente, os arreganhos golpistas e a realização de atos antidemocráticos em nosso país não se limitam a elementos folclóricos como Sérgio Reis, Eduardo Araújo, o véio da Havan, Batoré ou Amado Batista. Nem abrange apenas o universo de generais vetustos como os que escamoteiam sua falta do que fazer nas quermesses emboloradas dos clubes militares. Temos outro elemento, muito mais deletério, a compor o cenário pré-ditadura em que o Brasil perigosamente se encontra. Estamos falando dos policiais militares, uma categoria hoje majoritariamente em pé de guerra pelo bolsonarismo e contra a democracia.
Em todo o País, as PMs constituem, hoje, um risco e uma ameaça, às vezes velada, outras não. É o caso dos militares paulistas: todo dia um comandante de batalhão rompe com o bom senso e convoca seus pares aos atos do próximo dia 7. De nada adiantam punições, como a imposta pelo governador João Dória, que afastou o comandante da PM de Sorocaba, bolsonarista convicto e participante declarado do ato pró-Bolsonaro e contra o STF. Ato contínuo, mais três oficiais convocaram a tropa para as manifestações, praticamente com as mesmas palavras de ordem. Não estão nem aí.
Este quadro de SP está longe de ser exceção. De norte a sul, a Polícia Militar é hoje um berço de insurretos e um contingente com o qual Bolsonaro conta para transformar o Brasil na ditadura dos seus sonhos. Isto, junto com os insanos à paisana que ele armou ao flexibilizar o comércio de armas de fogo e equipar seu exército civil para a guerra. No Rio de Janeiro, em Minas Gerais, em Pernambuco ou na Bahia, em termos de PM bolsonarista, muda apenas o local. Exemplos saltam aos olhos e comprovam que, na hora de defender as instituições, essas forças de segurança são, infelizmente, os elementos menos confiáveis para a população que lhe paga o salário.
O Brasil tem cerca de 416 mil policiais militares (números de 2019, contra 425 mil de 2014), dos quais 100 mil são de São Paulo, onde está o maior contingente militar da América Latina. Um exército hoje dedicado às ideias de um louco que o agrada com benesses salariais e prestígio. Isto faz da PM, veladamente como instituição, o suporte do bolsonarismo e do seu “mito”, junto com uma parcela significativa das Forças Armadas, esta com seus líderes maiores inclusos. A PM, entende Bolsonaro, é o seu grande apoio armado operacional para o golpe que, ele acredita, virá.
Vinculadas, formalmente, aos governos dos estados, as corporações da Polícia Militar são, no momento, a grande preocupação dos governadores. Essa semana, eles se reuniram para tratar do perigo real que assola o Brasil, que é a ruptura do regime democrático a partir de uma escalada golpista comandada a partir do Palácio do Planalto, com o possível suporte técnico e bélico de suas próprias forças policiais. Sabem os chefes de governo que se trata de um problema grande que eles terão que enfrentar, e logo. Se já não for tarde.
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"Quadro mental de Bolsonaro é para lá de preocupante", escreve William Waack
Bolsonaro ACHA que manda, mas NÃO comanda NADA
a não ser FANÁTICOS IMBECILIZADOS em REDES sociais",
escreve ainda Waack.

247 – O jornalista William Waack, editor do Estado de S. Paulo, escreve um importante artigo nesta quinta-feira, em que alerta para as perturbações mentais de Jair Bolsonaro. "De tanto se atormentar com fantasmas, Jair Bolsonaro está conseguindo que eles se tornem realidade. Cristaliza-se em círculos do Judiciário, Congresso e também entre oficiais-generais a ideia de que o arruaceiro institucional precisaria no mínimo ser declarado inelegível. E o caminho seria através dos tribunais superiores", escreve, em sua coluna.
"Setores do Congresso, do STF e das Forças Armadas estão conversando informalmente, e já se falou no Alto Comando do Exército em atribuir ao comandante dessa arma a missão de 'pôr uma coleira' em Bolsonaro. Dois personagens políticos de peso nessa paisagem – os caciques do Centrão Arthur Lira e Ciro Nogueira – têm dito a jornalistas que desistiram disso", prossegue.
"Quem conversa quase que diariamente com o presidente o descreve como possuído de um quadro mental para lá de preocupante. Bolsonaro está totalmente convencido de que a 'conspiração' contra seu mandato começou já no primeiro dia do governo, e é conduzida por uma difusa e ao mesmo tempo bem entrincheirada coligação de corruptos no Congresso, corporativistas na administração pública, empresários que perderam dinheiro, esquerdistas treinados em Cuba, governadores gananciosos e todos unidos em torno de alguns ministros do STF", diz ainda Waack.
O jornalista também afirma que o desequilíbrio presidencial é um perigo real diante da crença de que ele disporia de instrumentos de poder tais como irresistível quantidade de “povo nas ruas”, “adesão de setores das Forças Armadas” além de PMs amotinados, insubordinados e levados às ruas por lideranças corporativistas. "Em outras palavras, ele acha que estaria em posição de superioridade em se tratando da relação das forças treinadas para exercer violência", afirma.
"Sem ter criado uma organização política capilarizada e sem ter a adesão das cadeias de comando das Forças Armadas, Bolsonaro acha que manda, mas não comanda nada a não ser fanáticos imbecilizados em redes sociais", escreve ainda Waack.
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Quem articula com a cúpula das Forças Armadas é o vice, Hamilton Mourão, e não Bolsonaro - Laurez Cerqueira
Por Laurez Cerqueira

O vice, Hamilton Mourão, tem dado demonstrações claras de que é ele quem articula com a cúpula militar e não o titular. Bolsonaro tornou-se um presidente decorativo. Não governa, vive fazendo arruaças para postar nas redes sociais, criar um “Brasil paralelo” e alimentar o ódio de seus seguidores à democracia, enquanto o país afunda na crise econômica, social e moral. Desemprego, inflação, fome e corrupção.
Mourão tem feito contrapontos aos desvarios de Bolsonaro com postura de equilibrado, com palavras comedidas, sinalizando que está pronto para sucedê-lo. Esse parece ser um dos pontos nevrálgicos mais agudos da crise política, que tem levado Bolsonaro a protagonizar cenas grotescas de insegurança e desequilíbrio. Nas reuniões, ele não tem se dirigido a Mourão. Apesar do vice dizer que lhe é leal.
A desconfiança de Bolsonaro de que poderia ser derrubado pelo vice surgiu logo depois da posse. No início do governo, Mourão esteve em visita oficial à China, onde foi recebido pelo presidente chinês, Xi Jinping, e presidiu a 5a reunião da Comissão Sino Brasileira de Concertação e Cooperação, em Pequim. Uma presença marcante na relação bilateral com nosso maior parceiro comercial, que garantiu resultados vigorosos das nossas exportações.
O ciúme subiu à cumeeira do Palácio do Planalto. Afinal, chefes de Estado não devem querer aparecer numa foto ao lado de Bolsonaro. A postura de Mourão contrasta com os ataques de Bolsonaro e seus filhos à China, acusada por eles de ter criado o Coronavírus como arma de guerra.
Mourão afastou Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro e dos filhos, quando ele andava intrometendo no governo. Disse que o guru deveria limitar-se à função de astrólogo. E enquadrou Eduardo Bolsonaro, a quem ele denominou de “bananinha”, no episódio de acusação à China de ter disseminado o vírus da pandemia.
Mourão tem conversado com ministros do STF e do TSE. Indagado pela imprensa sobre o pedido de impeachment do ministro do STF, Alexandre de Moraes, ele disse: “Eu não calço os sapatos do presidente”. Deixou claro que não compactua com o disparate do titular. Declarou que não haverá golpe e que as eleições estão garantidas. O vice desautorizou o titular publicamente. Ou seja, os contrapontos continuam.
O pedido de impeachment de Alexandre de Moraes foi mais um desastre político do titular, que resultou na união inédita do judiciário em solidariedade ao magistrado, na defesa das instituições e da democracia, atacadas permanentemente por Bolsonaro e seus seguidores.
O ministro da Defesa, Braga Neto, ao perceber a gravidade da situação, disparou telefonemas para ministros do STF e para a PGR, após a operação da PF contra o cantor Sérgio Reis, o caminhoneiro Zé Trovão, e outros oito integrantes do grupo que organizam as manifestações de ataques contra o STF e o Estado Democrático de Direito, dia 7 de setembro.
Bolsonaro se desespera ao ver os filhos enredados nos seus crimes perante a justiça e sabe que poderão ser presos a qualquer momento. Carlos Bolsonaro pediu socorro ao pai, mas Bolsonaro percebeu que não pode tudo. Para agravar a situação, queimou os navios com as instituições. Está isolado, na ilha de ódio que ele mesmo criou.
Carlos Bolsonaro pode ser preso, a mando do ministro Alexandre de Moraes, junto com o blogueiro Allan dos Santos e outros integrantes da organização criminosa que comanda a máquina produtora e disseminadora de fake news, no âmbito das investigações em curso no STF. Prisões vão acontecer. É uma questão de tempo. Bolsonaro sabe também que será responsabilizado pelo desastre do seu governo na presidência da República.
A CPI da pandemia, deve encerrar os trabalhos no final de setembro, apresentará à Câmara o relatório apontando os indícios de crimes praticados por Bolsonaro, e, ao STF, para averiguação da prática de crimes comuns. A acusação de genocídio, apurado pela CPI, deverá ser encaminhada aos tribunais internacionais de Haia e de Direitos Humanos. À Câmara cabe decidir se acata ou não a abertura de processo de impeachment.
O Centrão, esteio do governo, não é de carregar andor de presidente pesado com tantos pecados, em queda acentuada nas pesquisas de opinião, e que pode ficar fora do segundo turno nas eleições de 2022. Bolsonaro nomeou Ciro Nogueira para a Casa Civil, órgão de coordenação do governo, mas parece que não se deu conta de que pode ter levado o inimigo para dentro de casa.
Bolsonaro está perdido, não governa mais, chegou na linha do descarte. O Centrão ocupa mais espaço, quer agora quatro ministérios, mais cargos e dinheiro. Mas nada disso garante que o impeachment não será pautado. Vai depender da evolução da crise. Banqueiros e grandes empresários nacionais e internacionais dão sinais de basta a Bolsonaro. Caso ele seja destituído, Mourão pode vir a ser candidato à reeleição, com apoio do famoso centro, num acordão envolvendo uma ampla reforma ministerial, capaz de salvar o projeto neoliberal, que é o que está em jogo, no Brasil. Basta Ciro Nogueira combinar com Arthur Lira. Isso, se o TSE não cassar a chapa Bolsonaro-Mourão. O processo ainda não foi concluído.
Os deputados estão na espreita. O que vai definir o momento certo do desembarque do governo são as próximas pesquisas. Abaixo de 20%, procuram o candidato à presidência mais bem posicionado na disputa eleitoral. Pegam cargos e dinheiro e votam no impeachment na cara dura.
O desembarque dos parlamentares depende também da composição das chapas que estão sendo formadas nos estados para eleição dos governadores. Os partidos têm seus indicados aos cargos nos governos. É nessa encruzilhada que pode entrar em pauta, na Câmara, o impeachment de Bolsonaro. Rápido e cirúrgico.
Ele não sabe fazer política. Sabe fazer arruaça e alimentar a máquina de fake news, agora desmonetizada pelo corte de verbas públicas, determinado pela justiça, que eram distribuídas aos sites bolsonaristas. As empresas de aplicativos de comunicação também baniram canais, páginas e grupos do YouTube, Facebook, twitter, WhatsApp, por divulgarem notícias falsas, conteúdo de ódio e pregação de golpe militar. O Centrão e a máquina de fake news, os mais importantes esteios de Bolsonaro, estão ruindo e junto com eles o desastrado governo.
A reunião de emergência do Fórum de Governadores para tentar conter a crise política, defender as instituições atacadas, e o Estado Democrático de Direito, decidiu propor reuniões com os chefes dos poderes da República. Foi discutido também o enquadramento da Polícia Militar, convocada por bolsonaristas para as manifestações. Punições exemplares e demissões, por sublevação, estão previstas. Quem se sentir prejudicado com as punições e recorrer à justiça atacada por Bolsonaro, pode ter o pedido de reintegração ao serviço público negado.
A reação à atitude desesperada de Bolsonaro, de pedir o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, foi generalizada no judiciário, no Congresso, e nas organizações democráticas.
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, disse que não vai pautar o pedido de impeachment do ministro e o senador David Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado também disse que não vai pautar na comissão. Bolsonaro recuou com o pedido de impeachment do ministro Roberto Barroso. A indicação de André Mendonça para ocupar vaga no STF também foi congelada por conta do clima de beligerância.
As investigações no STF, com o ministro Alexandre de Moraes à frente e, no TSE, com o ministro Roberto Barroso, sobre fake news, ataques às instituições e atos antidemocráticos, na CPI da Pandemia, com escândalos de corrupção, acenderam a luz amarela para Bolsonaro. Caso ele não recue, tente romper com a ordem institucional, levará cartão vermelho, poderá ser expulso e preso.
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Doria proíbe ato Fora Bolsonaro e Boulos reage: "Ele não está acima da lei"
26/08/2021 09h55
Atualizada em 26/08/2021 15h43
1)
O Brasil não vai resistir ao processo eleitoral de outubro de 2022 tendo Jair Bolsonaro na Presidência da República. E mais: como candidato à reeleição.
O cenário que está sendo desenhado é de transformar o longo caminho até a posse do novo presidente da República, a 1º de janeiro de 2023, em uma sucessão de crises que elevará a temperatura política a um GRAU NUNCA alcançado na história republicana.
2)
Diferentemente de Donald Trump que questionou o resultado eleitoral após a realização do pleito, Bolsonaro vêm atacando - sem apresentar provas - as urnas eletrônicas desde o ano passado.
3)
Caminhamos, se chegarmos às eleições, celeremente para a guerra civil.
Nada indica que Bolsonaro vá aceitar a inevitável derrota eleitoral.
Assim como um processo eleitoral democrático, debatendo ideias e projetos para o país.
Tal dinâmica iria expor a fragilidade política do "mito." Não custa imaginar um debate entre Lula, Ciro, Doria, Mandetta e.... Bolsonaro.
Como o "mito" se sairia? Sacaria um revólver? Ameaçaria o oponente com palavras de baixo calão?
Seria arrasado, desmoralizado. Iria fazer de tudo para fugir dos debates.
Bolsonaro não rima com democracia. Nunca rimou.
4)
Ele vai - e não faltam demonstrações EXPLÍCITAS - partir para o golpe de Estado.
Deve ser reconhecido que tem trabalhado muito - e bem - para este objetivo.
5)
Desde 1º de janeiro de 2019 atacou sistematicamente os fundamentos do Estado democrático de Direito.
6)
Nos ministérios destruiu o que foi edificado desde o processo de redemocratização.
7)
Fomentou o ódio em dezenas de pronunciamentos, mentiu sobre o passado político recente - em especial, a ditadura militar -, defendeu torturadores, desmoralizou a política externa, isolou o Brasil na comunidade internacional e agiu deliberadamente contra a compra das vacinas que levou a óbito mais de 575 mil brasileiros.
8)
Desde o ano passado tem incentivado manifestações golpistas - participando pessoalmente de várias delas.
9)
Numa articulação nunca vista na história republicana, reuniu um grupo de sequazes financiados com dinheiro público e privado - neste caso, da elite rastaquera - para caluniar e difamar autoridades, falsificar notícias e desmoralizar as instituições republicanas.
E se não fosse a AÇÃO FIRME do Supremo Tribunal Federal, HOJE estaríamos numa DITADURA.
10)
Bolsonaro conseguiu DESARTICULAR a ESTRUTURA de COMANDO das polícias militares de TODOS os estados da Federação.
O efeito desta ação subversiva vai certamente trazer sérios problemas à segurança pública.
Nada indica que, à curto prazo, será possível restabelecer a cadeia de comando.
Os princípios da hierarquia e obediência foram abandonados e substituídos pela relação direta com Bolsonaro.
11)
A liberação indiscriminada para a compra de armas levou a formação de grupos informais de paramilitares - e são milhares espalhados pelo Brasil - que poderão ser mobilizados no momento do golpe de Estado.
12)
A conquista das Forças Armadas para a tomada violenta do poder - e a interrupção do processo democrático - está sendo realizada com eficiência.
Das três Forças, o que importa é ter o controle de uma delas, a principal: o Exército.
Se o general Edson Pujol foi um obstáculo para Bolsonaro, o mesmo NÃO se aplica ao general Paulo Sérgio.
Este age AFINADO plenamente com o capitão TERRORISTA.
NÃO puniu o general Eduardo Pazuello que praticou um ato gravíssimo de indisciplina.
No Dia do Soldado fez um pronunciamento que sinalizou apoio irrestrito a Bolsonaro.
13)
Depois das platitudes sobre a vida de Caxias, o general deu o seu recado.
Afirmou que o Exército vai cumprir a sua "missão" que, segundo ele, foi delegada pelos brasileiros na Carta Magna.
É uma clara referência ao que os golpistas chamam de "intervenção militar."
No texto - um pouco confuso, para dizer o mínimo - o general Paulo Sérgio fez questão de afirmar, antes de expor a "missão" do Exército, que age sempre sob o comando de Bolsonaro.
Ou seja, "sob a autoridade do Presidente da República."
Qual missão?
A "delegada pelos brasileiros na Carta Magna."
Mais claro, impossível:
o general afirmou que o Exército está pronto para agir contra as instituições democráticas.
E como?
Quando Bolsonaro impuser o estado de sítio para "restabelecer a ordem."
Exagero? Veremos.
Jair Bolsonaro não discursou na cerimônia.
Nem precisava.
O general Paulo Sérgio falou por ele.
E NÃO deixou DÚVIDA:
está alinhado com o golpe bolsonarista.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL



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