Zerar emissões de gases de efeito estufa até 2050 é 'tarde demais' para evitar desastre global, diz relatório
Cientistas do Conselho Consultivo de Crise Climática (CCAG) alertam que países devem focar em metas de emissões negativas
Foto de arquivo tirada em 2013 mostra fumaça em uma usina térmica em Sofia, Bulgária Foto: AFP
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RIO — Zerar emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050 é “tarde demais” para evitar um desastre global e não será suficiente para atingir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC até o final do século, estabelecida no Acordo de Paris. O alerta é feito por cientistas do Conselho Consultivo de Crise Climática (CCAG, na sigla em inglês), em relatório divulgado na quarta-feira.
Com base nas descobertas publicadas recentemente pelo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os cientistas do CCAG afirmam que nunca tivemos tantas evidências científicas para demonstrar que estamos "no meio de uma emergência climática global".
Segundo o novo relatório, mesmo que os países atinjam zero emissões de gases de efeito estufa em meados do século — meta definida pela maioria das nações que participam do acordo, incluindo o Brasil, como anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima — isso não traz impactos para os mesmos gases que já estão na atmosfera, com concentrações de gás carbônico de até 540 partes por milhão.
Os pesquisadores destacam que os países devem se concentrar em metas de emissões negativas, focando em começar a remover rapidamente os gases de efeito estufa da atmosfera em grande escala e a reparar os sistemas climáticos "gravemente danificados".
— Quando se fala na neutralidade de carbono, estamos pensando que vamos passar a sequestrar a mesma quantidade de carbono que emitirmos. Isso é importante porque algumas emissões de CO2 não vamos conseguir evitar, então temos que contrabalançar. Mas e tudo que já foi emitido? É preciso trabalhar na redução da concentração atmosférica de CO2, além de outros gases de efeito estufa — afirma Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB) e membro do CCAG.
“Alcançar emissões zero até 2050 não é mais suficiente para garantir um futuro seguro para a humanidade. Devemos revisar as metas globais e nos comprometermos com estratégias negativas de emissão de gases de efeito estufa urgentemente”, afirma David King, ex-conselheiro científico do governo britânico e líder do CCAG, formado por 15 especialistas do clima de 10 países diferentes, em nota divulgada pela Agência Bori.
Sequestro de carbono
Bustamante afirma que o setor com mais potencial de ajudar a sequestrar carbono rapidamente é o de ecossistemas e de agricultura.
— Buscar formas de recuperar os ecossistemas é uma opção importante pensando em países tropicais, além da conservação. No caso da agricultura, trabalhar sistemas que aumentem o sequestro de carbono do solo e diminuam as emissões — afirma a pesquisadora, e acrescenta: — O Brasil poderia ter papel importante, como já representou há alguns anos atrás. Mas não se continuarmos considerando que os mecanismos de conservação ambiental são um entrave ao desenvolvimento.
Bustamante destaca que é preciso um esforço para limitar o aquecimento a 1,5ºC, mas lembra que mesmo esse aquecimento também terá consequências.
— Já temos impactos hoje, com aumento de quase 1,1ºC. Muitos eventos extremos recentes já são apontados como causados pelo impacto da atividade humana. Quando observamos o relatório do IPCC, se passar para 1,5ºC e depois 2ºC, vai aumentando a frequência desses eventos. Então precisamos nos preparar para responder a essas consequências — afirma.
Ela destaca que a conservação de ecossistemas contribui para a adaptação aos impactos da mudança do clima. A vegetação dentro das cidades, por exemplo, é importante para reduzir o calor, cita a pesquisadora.
Tudo o que constitui numa pressuposição necessária para a economia capitalista precisa figurar diretamente em nossa definição do que é o capitalismo
Reformismo
O protagonista do livro Capitalismo em debate – uma conversa em teoria crítica (Boitempo, 2020) que escrevi em co-autoria com Rahel Jaeggi é o capitalismo. Nosso objetivo lá é reviver a teorização social de “grande escala” ou englobante. Na verdade, esse não é um interesse novo para mim. Minha visão de mundo foi formada na Nova Esquerda, muito tempo atrás; quando entrei na academia, trouxe comigo a firme convicção de que o capitalismo era a categoria principal ou o conceito de enquadramento para toda teorização social séria.
Mas, à medida que as décadas passavam e o etos da Nova Esquerda se desvanecia, comecei a perceber que nem todos compartilhavam dessa suposição. Em vez disso, a posição padrão, pelo menos nos Estados Unidos, era (e ainda é) liberalismo de um tipo ou de outro, seja igualitário de esquerda ou individualista libertário. Quando essa compreensão ocorreu, vi que minha experiência formativa na Nova Esquerda havia sido uma aberração, assim como os anos 1930 o foram para uma geração anterior de radicais norte-americanos.
Foram períodos em que a fraqueza estrutural de todo o sistema social se tornou amplamente aparente, levando muitas pessoas a radicalizar seu pensamento, a pesquisar as raízes profundas dos problemas sociais e a identificar as mudanças estruturais necessárias para superá-los. Mas esses períodos foram excepcionais. Em tempos “normais”, quase todos os americanos, incluindo aqueles que se inclinaram para a esquerda, ficaram focados em reformar o sistema, buscando expandir direitos e oportunidades dentro dele.
Deixe-me ser clara: não me oponho a todos esses esforços; pode haver boas razões táticas para buscar certos tipos de reformas em situações historicamente específicas. Mas quando o reformismo se torna a perspectiva padrão tomada como correta, o efeito é desviar a atenção das estruturas fundamentais da totalidade social. E isso está fadado a ser política e intelectualmente incapacitante no longo prazo – principalmente em tempos de crise aguda, como presentemente.
De qualquer forma, chegou um ponto em que tomei ciência do problema: o interesse pela crítica estrutural da totalidade social estava diminuindo nos círculos progressistas. Em resposta, fiz uma série de intervenções destinadas a expor a amnésia da economia política – mostrando como ela havia ficado fora da crítica feminista e antirracista, da Teoria Crítica em todos os sentidos, assim como de todas as formas de pensamento igualitário.
Também argumentei que um foco unilateral em questões de reconhecimento ou política de identidade se encaixava no processo de neoliberalização então em andamento e o fortalecia. Passei, assim, do pensamento bem óbvio de que o capitalismo era a questão central na teorização crítica para a compreensão de que essa tese tinha de ser discutida. Com o objetivo de enfrentar a questão diretamente, comecei a tentar convencer meus leitores a redirecionar sua atenção para o capitalismo. Essa agenda foi posta em destaque no livro.
O livro também é uma tentativa de integrar os melhores insights do marxismo com os da teoria feminista e da LGBTQ, a teoria anti-imperialista e crítica do racismo, a teoria democrática e ecológica – resumindo tudo o que aprendemos desde os anos 1960. A meu ver, este processo não consiste em adicionar novas variáveis ou “sistemas” aos paradigmas marxistas existentes. Em vez disso, requer revisitar o conceito de capitalismo e pensá-lo de forma diferente.
Capitalismo
Muitas pessoas pensam que o capitalismo é simplesmente um sistema econômico. Essa é a visão dos economistas tradicionais e dirigentes das corporações. É também o senso comum da maioria das chamadas pessoas, incluindo os progressistas e, até mesmo, muitos que se autodenominam marxistas. Mas essa visão do capitalismo é muito estreita. Ela obscurece todas as condições básicas necessárias para uma economia capitalista prosperar, coisas das quais ela depende e das quais se apropria livremente, mas que despreza e não consegue recuperar.
Direi quais são essas condições concretamente em um minuto. Mas quero dizer algo primeiro: tudo o que constitui numa pressuposição necessária para a economia capitalista precisa figurar diretamente em nossa definição do que é o capitalismo. Longe de ser uma mera “economia”, o capitalismo é algo maior, uma “ordem social institucionalizada” no mesmo nível de que o foi, por exemplo, o feudalismo. Assim como o feudalismo não era simplesmente um sistema econômico, nem um sistema militar, nem um sistema político, mas uma ordem social ampla que abrangia tudo isso, o mesmo é verdade para o capitalismo. É uma forma de organização, não apenas da produção e troca econômicas, mas da relação da produção e da troca com uma ampla gama de relações, atividades e processos sociais, tidos como não econômicos, que tornam a economia possível. No livro, descrevo quatro dessas condições de fundo não econômicas sem as quais uma economia capitalista não poderia existir.
A primeira é a reprodução social – ou, como muitos agora o chamam, o “cuidado” (carework). Incluem-se aqui todas as atividades que criam, socializam, nutrem, sustentam e reabastecem os seres humanos que ocupam cargos na economia. Você não pode ter uma economia capitalista sem “trabalhadores” que produzem mercadorias sob a égide de empresas com fins lucrativos. E você não pode tê-los sem os “cuidadores” que reproduzem seres humanos em ambientes externos à economia oficial. O cuidado inclui a gestação, o parto, a amamentação, a alimentação, o banho, a socialização, a educação, a cura, a proteção, o consolo – em suma, tudo o que é essencial para sustentar seres que são ao mesmo tempo biológicos e sociais.
Historicamente, muito desse trabalho não era pago, pois era realizado por mulheres – frequentemente em famílias, mas também em comunidades, bairros e vilas; em associações da sociedade civil, agências do setor público e, cada vez mais agora, em empresas com fins lucrativos, como escolas e lares de idosos. Mas, onde quer que seja feita, a reprodução social é uma pré-condição indispensável para a produção econômica – portanto, para a obtenção de lucro e a acumulação de capital.
No entanto, o capital não mede esforços para evitar o pagamento desse serviço – e, quando não pode fazê-lo, se esforça para pagar o mínimo possível por ele. E isso tem de ser tomado como um problema. Como as sociedades capitalistas incentivam os negócios a se aproveitarem da assistência médica sem a obrigação de financiá-la, elas consolidam uma tendência profunda à crise sócio-reprodutiva, bem como uma ordenação de gênero que subordina as mulheres.
Uma segunda pré-condição para a economia capitalista prosperar é ecológica. Assim como uma economia capitalista depende dos serviços assistenciais, depende também da disponibilidade de energia para alimentar a produção e dos substratos materiais, incluindo as “matérias-primas” para a indústria de transformação. O capital depende, em suma, da “natureza” – primeiro, das substâncias específicas apropriadas diretamente pela produção; e segundo, das condições ambientais gerais, tais como ar respirável, água potável, solo fértil, níveis do mar relativamente estáveis, um clima habitável e assim por diante.
Mas aí se encontra o problema. Pela sua própria concepção, a sociedade capitalista incentiva os proprietários a tratar a natureza como um tesouro “não econômico” inesgotável, disponível para ser apropriado infinitamente, sem necessidade de reposição ou reparo, na suposição de que ele se autorregenera. Ora, isso é uma receita para o desastre que talvez agora finalmente compreendemos. As sociedades capitalistas institucionalizam uma tendência estrutural à crise ecológica – bem como aprofundam as vulnerabilidades da natureza que provêm de sua ação.
Essas disparidades apontam para uma terceira condição necessária para a acumulação de capital: a riqueza confiscada das populações subjugadas. Quase sempre dominadas racialmente, essas populações são destinadas à expropriação – e não à exploração. Privadas da proteção estatal e de direitos ativáveis, suas terras e trabalho podem ser tomados sem remuneração para serem canalizados para os circuitos de acumulação. A expropriação é muitas vezes vista como uma forma antiga e que foi substituída por uma de um sistema que acumula riqueza por meio da exploração (gratuita) de “trabalhadores” nas fábricas. Mas isso é um erro.
A produção capitalista não seria lucrativa sem um fluxo contínuo de insumos baratos, incluindo recursos naturais e trabalho não livre ou dependente, confiscados de populações sujeitas à conquista, escravidão, troca desigual, encarceramento ou dívida predatória e, portanto, incapaz de contra-atacar. Lembre-se: atrás de Manchester ficava o Mississippi, ou seja, era o trabalho escravo que fornecia algodão cru barato e que alimentava as icônicas fábricas de têxteis no início da industrialização. Mas o mesmo é verdade hoje: atrás de Cupertino fica Kinshasa, onde o “coltan” para iPhones é extraído de forma barata, às vezes por crianças congolesas escravizadas.
Na verdade, a sociedade capitalista é necessariamente imperialista. Ela cria continuamente populações indefesas para a expropriação. A sua economia não funciona se todos recebem salários que cobrem seus verdadeiros custos de reprodução. Ela não funciona sem uma linha de cor que divide globalmente as populações entre aquelas que são “meramente” exploráveis daquelas que são totalmente expropriadas. Ao institucionalizar essa divisão, o capitalismo também fortalece a opressão racial-imperial e as lutas políticas que a cercam.
Isso sugere uma quarta condição de fundo para a subsistência da economia capitalista: o poder público – paradigmaticamente, mas não apenas, o poder do Estado. A acumulação não pode prosseguir sem a atuação desse poder em seu núcleo histórico: sem sistemas jurídicos que garantam a propriedade privada e as trocas contratuais. Também são essenciais as forças repressivas que administram a dissidência, acabam com as rebeliões e reforçam as hierarquias de status que permitem às corporações expropriar populações dominadas racialmente em casa e no exterior.
E o sistema também não pode funcionar sem regulamentações e os bens públicos, incluindo as infraestruturas de vários tipos e da oferta monetária estável. Estes recursos são indispensáveis para a acumulação; contudo, eles não podem ser fornecidos pelo mercado. Em vez disso, eles só podem ser garantidos pelo exercício do poder público. O capital precisa, portanto, desse poder; mas também está preparado para miná-lo – sonegando os impostos, enfraquecendo as regulamentações, terceirizando as operações ou capturando agências públicas. O resultado disso tudo é um conjunto de tensões embutidas entre “o econômico” e “o político” – e esta é uma tendência profundamente arraigada da crise política.
Em todos os quatro casos, as sociedades capitalistas instituem relações contraditórias entre os seus sistemas econômicos e as condições não econômicas necessárias para que subsistam. Essas relações se tornam visíveis apenas quando entendemos o capitalismo de forma ampla – não como um “mero” sistema econômico, mas como uma ordem social institucionalizada que também inclui reprodução social, natureza, riqueza expropriada de populações subalternas e poder público – todos os quais são essenciais para acumulação, mas, ao mesmo tempo, são predados, desestabilizados e esgotados por ela.
Esse é o ponto principal do livro Capitalismo em debate – uma conversa em teoria crítica: substituir a definição estreita de capitalismo como um sistema econômico por uma visão ampliada dele. Esta abordagem amplia nossa visão das contradições do capitalismo e, portanto, explica por que as sociedades capitalistas são propriamente – e não acidentalmente – propensas a crises sistêmicas – algumas das quais parecem ser “não econômicas”. Ele busca também integrar o velho interesse dos socialistas na exploração com as preocupações das feministas, ambientalistas, antirracistas, anti-imperialistas e democratas radicais.
As falhas do sistema
As tensões estão fadadas a surgir em qualquer forma de sociedade capitalista – não importa exatamente como se encontram disjuntas a produção da reprodução social, a economia da política, a sociedade da natureza, a exploração do trabalho expropriado. Essas disjunções representam as falhas do sistema, as juntas que registram suas contradições, as quais se acirram à medida que o capital desestabiliza suas próprias condições de possibilidade. O capital ele está disposto, como disse, a canibalizar a assistência social, a natureza, o poder público, a riqueza das populações dominadas racialmente – e assim, periodicamente, passa a ameaçar o bem-estar de quase todas as pessoas que não são proprietários. Não importa o quão bem um determinado regime de acumulação consiga refinar essas contradições por um tempo, ele nunca poderá dominá-las totalmente. Eventualmente, eles ressurgem e o regime começa a se desintegrar.
O que se segue é um interregno, um período de incerteza entre regimes sociais e políticos, quando todas as irracionalidades e injustiças do sistema surgem à vista de todos. Em tais momentos – e houve apenas um punhado deles na história de mais de 500 anos do capitalismo –, o que emerge não é “apenas” uma crise setorial, mas uma crise completa de toda a ordem social, que abala o senso comum reinante. E isso abre a porta para um espaço público muito mais selvagem, onde atores sociais recentemente radicalizados apresentam uma ampla gama de ideias concorrentes sobre o que deve substituí-lo. Visando construir uma contra-hegemonia, eles lutam para montar um novo bloco histórico com peso suficiente para reorganizar a sociedade capitalista – não apenas reestruturando a economia, mas também refazendo as relações desta com suas condições “não econômicas” que o tornam possível.
O resultado em cada uma dessas situações até o momento tem sido uma nova forma de capitalismo, que supera, pelo menos por um tempo, as contradições geradas pelo regime anterior, até que o mais recente gere, também, as suas próprias contradições, cedendo então espaço para o próximo. Este é o padrão de desenvolvimento capitalista até hoje: uma sucessão de regimes, pontuada por crises de desenvolvimento.
Assim, podemos distinguir entre a “política normal”, quando uma massa crítica de pessoas aceita os termos da ordem social como dados e luta para melhorar a sua posição dentro dela – e a política “anormal”, quando toda a ordem parece instável e é posta em questão. As últimas situações representam episódios libertadores raros – e relativamente enfáticos –, quando podemos contemplar a mudança das regras do jogo.
Sou especialmente influenciada por O longo século XX (Contraponto/Unesp) de Giovanni Arrighi, assim como pela Escola da regulação francesa. Concordo com a sua ordem sucessiva de regimes: capitalismo mercantilista ou comercial; capitalismo laissez-faire ou liberal-colonial; capitalismo organizado pelo Estado ou social-democrata; capitalismo neoliberal ou financeirizado.
Mas concebo esses regimes de forma diferente. Aqueles pensadores enfocaram as relações entre Estados e mercados, mostrando como uma dada divisão entre eles tornou-se contestada e, depois, revisada. Isso é importante, com certeza. Mas é apenas um dos vários enredos de uma história maior. As mudanças de regime compreendem mais do que mudanças nas relações entre economia e política; também mudam a relação da produção com a reprodução, da economia com a natureza, da exploração com a expropriação. Essas outras vertentes foram negligenciadas na maioria das periodizações anteriores. Mas são centrais na compreensão que defendo. Como disse, estou empenhada em expandir nossa compreensão do capitalismo de modo a incluir gênero, ecologia, raça e império. E isso requer trazer as partes que foram negligenciadas da história para o interior de nossas periodizações.
*Nancy Fraseré professora de ciências políticas e sociais na New School University. Autora, entre outros livros, de O velho está morrendo e o novo não pode nascer (Autonomia Literária).
Tradução: Eleutério F. S. Prado.
Texto estabelecido a partir de entrevista concedida a Lara Monticeli durante a reunião anual da rede de pesquisa “Alternatives to Capitalism”, realizada na New School for Social Research em 2019.
O que está errado com o capitalismo? - Nancy Fraser
Por Nancy Fraser
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Por Nancy Fraser
Crítica ao capitalismo
O capítulo sobre as “críticas ao capitalismo” do livro Capitalismo em debate – uma conversa em teoria crítica (Boitempo), baseia-se em grande parte no trabalho de minha coautora, Rahel Jaeggi. Nos capítulos anteriores do livro (ou seja, “conceituando o capitalismo” e “historicizando o capitalismo”), discorri sobre o que é o capitalismo e como devemos entender sua história. Mas a próxima questão consiste nas perguntas: o que há de errado (se há algo errado nele) com o capitalismo? Como devemos criticá-lo?
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Um defeito central do capitalismo é sua tendência à crise – a sua tendência a canibalizar seus próprios pressupostos e, assim, a gerar periodicamente miséria galopante e em escala maciça. Portanto, a “crítica” que visa revelar as contradições ou tendências de crise embutidas no sistema, é importante. A sua força consiste em mostrar que a miséria decorrente das crises não é acidental, mas o resultado necessário da dinâmica constitutiva do sistema. Nos últimos anos, no entanto, esse tipo de crítica tem sido censurada. Tem sido rejeitada, junto com o marxismo, sob a acusação de que seria “funcionalista”, isto é, tratar-se-ia ela de uma crítica econômico-reducionista e determinista.
Não nego que algumas formas de marxismo merecem esses rótulos, mas não joguemos fora o bebê com a água suja do banho. Os tempos que vivemos clamam por uma crítica às tendências de crise profundamente arraigadas do capitalismo, cujas atualizações são agora dolorosamente óbvias. Portanto, tentei reconstruir a crítica da crise de uma forma que não fosse vulnerável a essas objeções. Ao destacar as tendências de crise não econômicas (ecológica, social, política), evitei o reducionismo econômico. E ao enfatizar a abertura de períodos de interregno, quando a hegemonia se desfaz e, assim, a imaginação política e a liberdade de ação se expandem, evitei o determinismo.
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Mas, como enfatiza Jaeggi, o capitalismo também pode ser criticado em bases normativas. Ao contrário de Marx, eu não hesitaria em usar o termo moralmente carregado de “injusto” para descrever esse sistema social. Eis que põe a existir múltiplas formas de dominação estrutural por meio das quais um grupo de pessoas floresce graças à opressão de outros. O relato marxista da dominação de classe, baseado na exploração dos trabalhadores assalariados (duplamente livres) por parte dos capitalistas, na esfera da produção, é certamente o caso.
A dominação de gênero está igualmente arraigada na sociedade capitalista. E o mesmo é verdade sobre a opressão racial e imperial quando se leva em conta a exploração e a expropriação. Essas injustiças são tão estruturais quanto a dominação de classe; nenhuma delas é secundária ou incidental. Em geral, então, sustento uma visão expandida do capitalismo como uma ordem social institucionalizada, a qual requer também uma crítica normativa expandida. São múltiplas as injustiças inerentes a esse sistema social.
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Enfim, Jaeggi explora o potencial de uma crítica ética ao capitalismo. Esta espécie de crítica também é normativa, mas não mais porque se concentra nas injustiças inerentes ao capitalismo. O seu foco, ao contrário, é a “maldade” do sistema, o seu entrincheiramento na alienação e na reificação, que nos impedem de viver uma vida boa. Em outras palavras: o capitalismo é uma forma de vida ruim – não porque algumas pessoas estão roubando outras, nem porque alguns estão nadando em águas turvas e, assim, afundando, mas porque tudo isso atrapalha e bloqueia a nossa capacidade de viver bem.
Claro, é notoriamente difícil aclarar o que tudo isso significa – e fazê-lo de uma forma que não seja tendenciosa ou sectária, que não seja, por exemplo, eurocêntrica. Jaeggi acha que encontrou uma maneira boa de fazê-lo. Pessoalmente, não tenho tanta certeza, embora concorde que devemos tentar. Seria uma grande perda se fôssemos forçados a abandonar a crítica da sociedade capitalista como algo intrinsecamente alienante, aceitando passivamente tais modos de vida ruins.
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A crítica a partir da ideia de “liberdade” é uma forma de se preocupar sem assumir uma visão concreta da vida boa. A ideia é que o capitalismo reforça necessariamente a heteronomia e impede a autonomia; trata-se de uma forma social inerentemente antidemocrática. As sociedades capitalistas removem uma vasta gama de questões fundamentais da tomada de decisão democrática coletiva. Elas deixam para o capital, ou melhor, para aqueles que possuem capital ou se dedicam à sua expansão ilimitada, a determinação da gramática básica de nossas vidas. Essa elite econômica decide o que vai ser produzido, quanto e por quem; em que base energética e por meio de quais tipos específicos de relações sociais.
Como resultado, determinam a forma das relações entre aqueles que trabalham na produção e entre eles e aqueles que não trabalham, incluindo os seus patrões, por um lado, e as suas famílias, por outro. Além disso, o investimento de capital dita as relações entre famílias, comunidades, regiões, estados e associações coletivas, bem como nossas relações com a natureza não humana e com as gerações futuras. Todas essas questões são retiradas da agenda e decididas às nossas costas. Ao pô-las nas mãos dos donos do capital e dos investidores, o capitalismo institucionaliza a heteronomia. E assim nega a todos os outros a capacidade coletiva de moldar as próprias vidas. Em geral, então, uma crítica baseada na liberdade direciona nossa atenção para a gramática da vida, incluindo essa “maldade” que temos sob o capitalismo. Mas, ela evita se envolver com a definição do que é bom e do que é ruim concretamente. Em vez disso, deixa isso para os cidadãos socialistas resolverem por si próprios.
A contestação do capitalismo
O último capítulo do livro mobiliza todo o trabalho conceitual anterior para analisar a conjuntura atual. O seu objetivo prático é revelar as potencialidades de nossa situação para buscar uma transformação social emancipatória. Portanto, trata-se de uma teorização crítica semelhante àquela do jovem Marx, qual seja, um esforço de “auto-clarificação das lutas e desejos da época”. A tarefa é, em parte, diagnosticar as contradições e as dificuldades, mas também identificar as forças sociais que podem se aglutinar em torno de um projeto contra-hegemônico que poderia superá-las. O capítulo examina as várias lutas sociais que nos cercam, tendo esse objetivo em mente.
Esse interesse sobre a questão de um sujeito emancipatório norteia o meu pensamento. Para mim, por essa questão é a melhor forma de atrair participantes em potencial para a constituição de um bloco contra-hegemônico, uma força que possa emergir tendo por fim um projeto emancipatório. Tudo o que eu disse até este ponto implica que o projeto deve ser anticapitalista – em um sentido expandido.
Pois as lutas por cuidado, pela natureza, raça e política são tão profundamente enraizadas na sociabilidade capitalista quanto as lutas contra a exploração na esfera da produção. Para mim, um bloco anticapitalista deve articular as preocupações de feministas, ambientalistas, antirracistas, anti-imperialistas e democratas radicais, uns com os outros e com os movimentos trabalhistas. Mas isso ainda deixa em aberto a questão de como interpelar os atores relevantes. Que tipo de abordagem subjetiva seria melhor para convidá-los a abraçar esse entendimento da mudança e a lutar juntos pelo projeto que vai torná-la uma nova realidade?
Parece-me que existem duas possibilidades. A primeira evita a ideia de um único agente de emancipação. No lugar de um sujeito abrangente que simplesmente inclui os vários constituintes do bloco, ele prevê uma aliança de múltiplos agentes cujas preocupações primárias diferem, mas estão enraizadas, no entanto, em um mesmo sistema social, que nenhum deles pode mudar por conta própria. O que os une não é uma posição de sujeito comum, mas uma compreensão compartilhada da sociedade capitalista como a fonte profunda dos vários problemas e do inimigo comum. Esse diagnóstico sustenta a solidariedade e motiva a cooperação.
Essa visão tem algumas vantagens óbvias. Não só está em sincronia com as suspeitas esquerdistas generalizadas do “leninismo”, mas é relativamente pouco exigente e não chega a ser ameaçadora: não requer que os atores sociais alterem suas identidades políticas existentes, mas apenas os seus diagnósticos cognitivos. Eu me pergunto, no entanto, se essa confiança na “cola” cognitiva em oposição à “cola” afetiva também não seria uma fraqueza. Tal objetivo seria forte o suficiente para manter o bloco unido? Em especial, se se considera a inevitabilidade dos estratagemas inerentes ao capitalismo que visam protegê-lo por meio de uma mistura inteligente de incentivos atraentes e porretes repressivos?
Uma segunda possibilidade poderia proporcionar uma “cola” mais forte, mas ela seria mais difícil de vender. A ideia aqui consiste em abordar o mesmo conjunto de forças sociais que acabamos de identificar, mas de uma forma um pouco mais unificada: como constituintes de uma classe trabalhadora expandida, ainda que com partes posicionadas de forma diferente na estrutura social. Essa ideia decorre, também, da visão expandida do capitalismo, que revela a dependência estrutural do capital no trabalho social-reprodutivo e expropriado, bem como no trabalho explorado.
Se a acumulação requer todos os três tipos de trabalho, então todos os três tipos de “trabalhadores” constituem a classe trabalhadora do capitalismo. Ora, isso inclui também o grande número de pessoas que realizam trabalhos que se encaixam em mais de um desses três tipos. Vista desta forma, a classe trabalhadora torna-se generalizada de modo constitutivo, bem como inerentemente global; ademais, ela se encontra discriminada como se fosse uma “raça inferior”. Ao contrário das visões padrão, que focam os homens de etnia majoritária e que trabalham em fábricas, minas e construção, a classe trabalhadora expandida também inclui pessoas de cor, mulheres e migrantes; donas de casa, camponeses e trabalhadores em serviços; aqueles que recebem um salário e aqueles que nada ganham.
A vantagem aqui consiste em ter um sujeito político que pode plausivelmente reivindicar estar constituído como unidade e generalidade, enquanto permanece internamente diferenciado e capaz de acomodar especificidades. O efeito dessa “cola” seria o fortalecimento da coesão solidária formadora de um bloco contra-hegemônico anticapitalista. Mas essa abordagem é consideravelmente mais exigente – ela requer um salto cognitivo-afetivo além da autocompreensão atual de muitas pessoas. Talvez a forte atuação de Bernie Sanders em duas campanhas presidenciais dos Estados Unidos tenha mostrado que esse salto não é impossível, pelo menos em condições relativamente favoráveis.
Mas, é claro, não há como prever se qualquer um desses dois cenários se afirmará no curso da história, supondo que isso de fato venha a ocorrer.
Movimentos sociais
Começo observando que as intervenções recentes dos movimentos sociais, tanto progressivas quanto regressivas, estão se desdobrando em um vácuo hegemônico. Portanto, o campo político está incrivelmente confuso. Antonio Gramsci expressou bem essa situação: “o velho está morrendo, mas o novo não pode nascer. No interregno aparecem todos os tipos de sintomas mórbidos”. Seria possível pedir uma melhor caracterização da situação atual!
Agora, quanto ao lado francamente regressivo desse campo histórico, quero fazer duas observações heréticas. Em primeiro lugar, os partidários dos movimentos e partidos de direita que você mencionou estão buscando em suas nações, ou melhor, em certos homens fortes que personificam essas nações, proteção social contra as forças que estão destruindo suas vidas, forças estas que eles não entendem de maneira correta ou plenamente. Assim, esses partidos e movimentos, por mais equivocados e autoritários que sejam, encarnam uma revolta contra o bom senso neoliberal – contra o mantra, repetido ad nauseum e por décadas, de que só os mercados podem nos libertar, de que o poder estatal não é a solução para nada – mas sim o problema que precisa ser atacado. Implicitamente, portanto, mesmo os movimentos de direita mais assustadores abrigam uma reavaliação do papel do poder público. Ora, uma esquerda sofisticada politicamente poderia construir também uma alternativa…
Em segundo lugar, há algo de vazio em gente como Trump, Bolsonaro, Modi, Erdogan, Salvinie assim por diante. Essas figuras me lembram “O Mágico de Oz”. Eles são como os homens-show que se exibem e se pavoneiam diante da cortina, enquanto o verdadeiro poder se esconde por trás dela. O verdadeiro poder é, claro, o do capital: as megacorporações, grandes investidores, bancos e instituições financeiras cuja sede insaciável de lucro condena bilhões de pessoas em todo o mundo a vidas atrofiadas e encurtadas.
Além do mais, tais homens-show não têm soluções para os problemas de seus adeptos; eles dormem com as próprias forças que os criaram. Tudo o que podem fazer é distrair a população com acrobacias e espetáculos. À medida que os impasses pioram e suas “soluções” deixam de se materializar, esses homens de frente são levados a aumentar a aposta com mentiras cada vez mais bizarras e bodes expiatórios perversos. Essa dinâmica tende a aumentar até que alguém puxa a cortina e expõe a farsa.
E isso é precisamente o que a oposição progressista dominante falhou em fazer. Longe de desmascarar os poderes por trás da cortina, as correntes dominantes dos “novos movimentos sociais” se enredaram neles. Estou pensando nas alas liberais-meritocráticas do feminismo, antirracismo, direitos LGBTQ +, ambientalismo etc., que operaram por muitos anos como parceiros juniores em um bloco “neoliberal progressista” que também incluía setores “com visão de futuro” do capital global (inteligência artificial, finanças, mídia, entretenimento).Então, eles também serviram como forças de frente, embora de uma certa maneira diferente, qual seja ele, lançando um verniz de carisma emancipatório sobre a economia política predatória do neoliberalismo. Sou tentada a chamar isso de “lavagem do arco-íris” porque combina lavagem rosa com lavagem verde e muito mais.
Mas seja como for que chamemos tais ações, o resultado não foi emancipatório. Não “apenas” porque essa aliança profana devastou as condições de vida da vasta maioria e, assim, criou o solo que alimentou a direita. Além disso, associou feminismo, antirracismo etc. com o neoliberalismo, garantindo-lhe uma defesa. Quando a barragem finalmente se rompesse e as massas populares passagem a rejeitar esse programa político, rejeitariam também aqueles que deveriam ser o seu oposto. E é por isso que o principal beneficiário, pelo menos até agora, tem sido o populismo de direita reacionário. É também por isso que agora estamos presos em um impasse político; fomos apanhados em uma batalha simulada e diversiva entre dois grupos de agentes rivais, um regressivo e o outro progressista, enquanto os poderes por trás se voltam mesmo para os bancos. Voltando a Gramsci, eu diria que “o novo não pode nascer” até que arranquemos a cortina e construamos uma esquerda que é totalmente anticapitalista.
A aliança contra-hegemônica
Cabe aqui alguns comentários sobre três termos-chave: separação, realinhamento e populismo. Deixe-me começar pela “separação”. Na verdade, estou propondo uma estratégia que abrange duas separações: uma que acaba com a aliança neoliberal progressista que acabei de descrever; e uma outra que derruba o bloco neoliberal reacionário que se opõe a ele. A primeira separação requer separar a maioria das mulheres, pessoas de cor, pessoas LGBTQ + e ambientalistas das forças corporativas liberais que os mantiveram reféns por décadas. O segundo envolve a divisão dos segmentos da base da direita que poderiam, em princípio, ser conquistados para a esquerda. Os elementos separados de ambos os lados estariam então disponíveis para um novo realinhamento.
Claro, essa estratégia também é baseada numa heresia. Ele rejeita o senso comum liberal reinante que diz que os fascistas estão às portas, então os esquerdistas devem arquivar suas ambições radicais, mover-se para o centro e cerrar fileiras com os liberais. Também se opõe à visão muito repetida de que as polarizações atuais estão tão entrincheiradas que não há chance de afastar da direita os eleitores da parte majoritária da classe trabalhadora. Ambos os pontos de vista estão errados e são contraproducentes.
O primeiro consiste numa tática para amedrontar. E ela foi usada nos EUA, no ano passado, para tirar Bernie Sanders, prematuramente, das primárias presidenciais do Partido Democrata. O segundo vem ser incapacitante, pois consiste numa receita para a derrota. A meu ver, este é um momento de divisão, não de unidade, porque os fascistas não estão realmente às portas. E a única maneira de mantê-los longe do poder é oferecer a seus apoiadores da classe trabalhadora uma alternativa anticapitalista progressista. Da mesma forma, os alinhamentos atuais não são realmente gravados em pedra. Pelo contrário, os eleitores são altamente voláteis; eles tentam diferentes posturas políticas para ver o que funciona. Nos EUA, por exemplo, uma grande parte dos que votaram em Trump, em 2016, havia votado anteriormente em Obama e/ou Sanders; depois eles retornaram para uma opção democrata, em 2020.
No Brasil, da mesma forma, muitos apoiadores de Jair Bolsonaro haviam votado anteriormente em Lula e em Dilma Rousseff; agora, eles estão prontos outra vez para votar em Lula. Trajetórias análogas foram observadas na Grã-Bretanha, França e Itália. Contra uma tese da ideologia neoliberal progressista, muitos eleitores de direita não são por princípio “racistas”, mas apenas “racistas oportunistas”: eles votam em um racista de fato quando ninguém mais está oferecendo uma opção em prol da classe trabalhadora. Logo, o jogo pode potencialmente mudar. Seria o cúmulo da tolice classificá-los como “deploráveis” em vez de tentar cortejá-los.
Isso me leva ao realinhamento. Suponhamos que os componentes-chave de qualquer novo bloco político sejam os elementos cindidos que acabamos de descrever. O que poderia motivá-los a se unirem? Onde está a “cola” que é forte o suficiente para superar a intensa animosidade que agora os divide?
Uma possibilidade, invocada no livro, é o populismo de esquerda. Mas meu entendimento dessa opção política difere do que delineiam outros pensadores, incluindo Chantal Mouffe. Para mim, o populismo não é uma característica inerente da política como tal, nem um objetivo político desejável. É antes uma formação de transição que muitas vezes surge em situações de crise hegemônica. Está centrado na rejeição das elites governantes e pode assumir duas formas principais. O populismo de direita que combina oposição às elites com demonização de uma classe inferior desprezada, enquanto valoriza “o povo” preso no meio desses dois polos.
O populismo de esquerda tem o topo como alvo principal, abstém-se de tratar a base como bode expiatório e define “o povo” de modo inclusivo, abrangendo tanto o meio quanto a base. Essa é uma grande diferença entre as duas variantes. O populismo de direita, ademais, identifica os seus inimigos em termos identitários concretos– como, por exemplo, muçulmanos, mexicanos, negros ou judeus. Em contraste, o populismo de esquerda define seus inimigos numericamente – por exemplo, o 1% superior da escala de renda ou a classe dos bilionários. Em ambas essas questões, o populismo de esquerda é largamente preferível ao seu homólogo de direita. Mas isso não é analiticamente preciso. Para realmente entender o que está acontecendo, é preciso uma análise de classe muito mais refinada; requer-se o conceito de capital e da visão ampliada da sociedade capitalista.
Para mim, então, o populismo de esquerda abriga possibilidades e limitações. Do lado da possibilidade, às vezes pode servir como uma formação de transição que obtém vitórias, amplia seu alcance, aprofunda sua crítica social e se torna mais radical. Mas pode educar as pessoas no curso da luta, esclarecendo contra qual sistema estão de fato lutando e explicando exatamente como esse sistema tem sido “manipulado”. Meu palpite é que o populismo de esquerda oferece um ponto de entrada acessível para a luta de classes. Tenho menos certeza de que ele pode gerar uma visão genuína de como o sistema realmente funciona e o que realmente precisa ser feito para mudá-lo.
É por isso que agora estou inclinado a contemplar as perspectivas de uma formação sucessora do populismo de esquerda – penso numa perspectiva “analiticamente mais precisa” e politicamente mais exigente.
Uma perspectiva possível, que nos Estados Unidos alguns chamam de “socialista democrática”, convida os participantes em potencial a se verem como membros de uma classe trabalhadora expandida no sentido antes aqui definido. O requisito seria satisfazer dois imperativos que muitas vezes são contrapostos como incompatíveis, mas que devem ser acomodados simultaneamente: primeiro, a necessidade de cultivar um senso robusto de pertencimento de classe compartilhada, com base em um inimigo sistêmico comum; e segundo, a necessidade de reconhecer a realidade da diferenciação interna tanto no eixo da classe – mas, especialmente, ao longo dos eixos do gênero, da raça e da nação.
Se isso parece difícil, não é impossível – graças à visão expandida do capitalismo que aqui foi elaborada resumidamente. Essa visão postula que deve haver um único sistema social que se alimenta de divisões, criadas por ela, entre os explorados, os expropriados e os domesticados – e várias combinações deles. Um realinhamento baseado nesse entendimento seria uma força poderosa para a transformação emancipatória.
Em qualquer caso, minha visão atual é que o populismo de esquerda é uma resposta relativamente espontânea à crise. Como tal, pode e deve ser trabalhado. Mas é mais bem entendido como um ponto de passagem de transição a caminho de um projeto emancipatório mais radical. Este último, eu sustento, deve ser anticapitalista no sentido expandido.
Tradução: Eleutério F. S. Prado.
Texto estabelecido a partir de entrevista concedida a Lara Monticeli durante a reunião anual da rede de pesquisa “Alternatives to Capitalism”, realizada na New School for Social Research em 2019.
Malafaia ataca e desafia Alexandre de Moraes: "quero ver me prender, ditador de toga, não tenho medo" (vídeo)
247 - Um vídeo que circula nas redes sociais mostra o empresário evangélico Silas Malafaia, que é braço direito de Jair Bolsonaro, disparando vários ataques ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
“Quero ver ele me prender, não tenho medo dele não. Ditador de toga, tem que sofrer impeachment mesmo”, disse.
Cynara ironiza Noblat e diz que jornalistas foram assessores de imprensa da Lava Jato
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247 - A jornalista Cynara Menezes criticou, em participação no programa Bom Dia 247 desta quarta-feira (15), a autocrítica de Ricardo Noblat em relação ao achincalhamento contra o ex-presidente Lula, baseado na farsa processual da operação Lava Jato. Segundo ela, há "um cinismo" presente na fala do jornalista.
Ela considera que os profissionais da mídia comercial que cobriram a Lava Jato atuaram como “meros assessores de imprensa” da força-tarefa.
“Por que os jornalistas acreditaram tão facilmente nas informações da Lava Jato? Para eles, era uma garantia de ascensão profissional, pois concordavam com as teses do patrão”, avaliou.
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De acordo com Cynara, “é uma mentira que aquilo [cobertura da Lava Jato] tenha sido jornalismo investigativo”. “Jornalistas recebiam de mão beijada vazamentos e publicavam nos jornais sem checagem alguma. Publicavam todos os tipos de baixaria, sem o menor critério”, completou.
A jornalista ainda ressaltou que o grande objetivo dos jornalistas que acompanham a força-tarefa “era agradar os patrões e promover o linchamento de Lula e do PT, por puro ódio”.
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O jornalista Ricardo Noblat, que atua há décadas na mídia corporativa, abriu um movimento de autocrítica da mídia brasileira em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois da revelação de que o delator Léo Pinheiro, da OAS, escreveu uma carta de próprio punho para voltar atrás em sua delação – provando que antes ele vinha sendo pressionado a delatar para que o verdadeiro objetivo da Lava Jato, a troca de um governo democrático e popular por um governo golpista e entreguista, fosse alcançado.
“Por que nós, jornalistas, acreditamos facilmente nas informações da Lava Jato? E agora, só com muita dificuldade, que ela também errou feio?”, escreveu Noblat.
Noblat abre autocrítica da mídia sobre Lula e Lava Jato
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247 – O jornalista Ricardo Noblat, que atua há décadas na mídia corporativa, abriu um movimento de autocrítica da mídia brasileira em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois da revelação de que o delator Léo Pinheiro, da OAS, escreveu uma carta de próprio punho para voltar atrás em sua delação – o que prova que antes ele vinha sendo pressionado a delatar para que o verdadeiro objetivo da Lava Jato, a troca de um governo democrático e popular por um governo golpista e entreguista, fosse alcançado. Confira abaixo seu tweet e saiba mais sobre o caso:
O ex-presidente da OAS, Leo Pinheiro, escreveu uma carta de próprio punho para voltar atrás em acusações que fez contra o ex-presidente Lula na sua delação premiada firmada com a Lava-Jato. A carta do empreiteiro foi um dos elementos que fez a investigação que acusava o petista de corrupção e tráfico de influência, junto ao governo da Costa Rica, ser arquivado, somando a 19ª vitória de Lula na Justiça.
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De acordo com a jornalista Bela Megale, em sua coluna no jornal O Globo. Na carta escrita em maio e anexada ao processo em junho, Pinheiro disse que nunca autorizou ou teve conhecimento de pagamentos de propina às autoridades citadas no caso. Também disse que não houve menção sobre vantagens indevidas durante o encontro ocorrido na Costa Rica. Esse documento foi uma das bases da defesa de Lula, liderada pelo advogado Cristiano Zanin, para solicitar à Justiça de São Paulo o arquivamento da investigação.
Na carta escrita de próprio punho, Pinheiro afirmou também que não sabe informar “se houve intercessão do Ex. Presidente Lula junto à Presidente (ex) Dilma e/ou Ex. Ministro Paulo Bernardo”. “A empresa OAS não obteve nenhuma vantagem, pois inclusive não foi beneficiada por empréstimos do BCIE – Banco Centro Americano de Integração Econômica. Não sabendo informar se houve efetividade da solicitação do Presidente do BCIE, senhor Nick Rischbieth Alöe junto ao senhor Ex. Presidente Lula e demais autoridades citadas”, concluiu Pinheiro.
"Foi como se tivesse vindo do PCC", diz deputada ameaçada por Eduardo Bolsonaro
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247 - "Me senti muito ameaçada, como se tivesse vindo do PCC, não vi diferença por causa da possível ligação com milícias" - é assim que a deputada federal Dayane Pimentel (PSL-BA) reagiu à nova onda de ameaças de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) contra ela.
Integrante da base de apoio a Jair Bolsonaro até o final de 2019, a deputada federal Dayane Pimentel (PSL-BA) ingressou nesta terça-feira (14) com uma representação no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e disse que pretende registrar um boletim de ocorrência. Ao abrir o Instagram na segunda-feira (13), um dia após participar do ato do MBL na avenida Paulista (SP), a congressista viu que o parlamentar lhe havia marcado em um story. Na imagem, ela aparecia de mãos dadas com Bolsonaro pai, era chamada de traidora e tinha um alvo em cima de seu rosto.
"Me senti muito ameaçada, como se tivesse vindo do PCC, não vi diferença por causa da possível ligação com milícias. E ele [Eduardo Bolsonaro] não é qualquer deputado, tem milhões de seguidores, é filho do presidente. Estava incentivando para que loucos façam alguma coisa contra mim, e essas pessoas são capazes de fazer, sim, porque acham que assim vão ser reconhecidos pela família Bolsonaro", afirmou à coluna Universa, publicada no portal Uol.
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"Estamos protocolando um boletim de ocorrência, farei denúncia ao Ministério Público e ingressei com uma representação no Conselho de Ética da Câmara. Vou usar todas as ferramentas possíveis. O que ele fez não foi uma brincadeira. Vieram muitas reações da claque dele, ataques, ofensas", complementou.
A deputada rebateu o rótulo de traidora. "Na verdade, fomos nós os parlamentares que nos sentimos traídos por Bolsonaro, porque ajudamos o presidente a ser eleito em busca de uma agenda que não foi cumprida. Mas nosso alcance é menor que os filhos do presidente, por exemplo. Seus aliados querem, com a força digital que tem, carimbar a traição em nós", continuou.
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"Comecei a me sentir traída já no início de 2019, quando apareceram os primeiros casos de corrupção envolvendo o Flávio [Bolsonaro, senador]. Sempre diziam para a gente que era mentira, perseguição", disse.
Principal general dos EUA fez ligações secretas para China por medo de Trump iniciar guerra no fim do mandato
Ligações ocorreram quatro dias antes da eleição presidencial americana e dois dias após apoiadores do então presidente invadirem o Capitólio, segundo novo livro do repórter Bob Woodward
General Mark Milley discute fim da missão militar no Afeganistão durante coletiva de imprensa no Pentágono em Washington Foto: EVELYN HOCKSTEIN / REUTERS/01-09-2021
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WASHINGTON — Por duas vezes, o chefe do alto comando militar dos EUA ligou secretamente para seu homólogo chinês por temer que o então presidente Donald Trump pudesse iniciar uma guerra com a China diante da perspectiva de derrota nas eleições do ano passado e também depois que se confirmaram os resultados, revela o novo livro do repórter Bob Woodward, em trechos divulgados pelo jornal Washington Post nesta terça-feira.
De acordo com o livro, o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, ligou para o general Li Zuocheng, do Exército Popular de Libertação, em 30 de outubro de 2020 — quatro dias antes da eleição presidencial americana — e novamente em 8 de janeiro, dois dias depois que apoiadores de Trump invadiram a sede do Congresso incentivados pelo próprio presidente.
Nas ligações, Milley buscou garantir a Li que os EUA estavam estáveis e não lançariam um ataque. Também declarou que, se houvesse algum sinal contrário disso, ele seria alertado com antecedência, ainda segundo o livro, intitulado "Peril" (Perigo) e que relata os últimos momentos de Trump na Casa Branca.
"Peril" foi escrito pelos jornalistas Bob Woodward e Robert Costa, que entrevistaram mais de 200 fontes. Seu lançamento está previsto para a próxima semana nos EUA. A assessoria de Milley não quis comentar. Representantes de Trump não puderam ser encontrados imediatamente.
Questionada sobre a revelação feita em "Peril" por jornalistas que viajavam com o presidente Joe Biden no avião presidencial Air Force One, a porta-voz da Casa Branca, Karine Jean-Pierre, recusou-se a comentar e encaminhou as perguntas ao Estado-Maior Conjunto e ao Departamento de Defesa.
O republicano Trump nomeou Milley para o posto militar mais alto dos EUA em 2018, mas começou a criticá-lo, assim como fez com outros indicados e ex-funcionários, após perder a eleição de novembro para Biden e deixar a Casa Branca em 20 de janeiro.
Milley teve a motivação para contatar Pequim pela segunda vez em parte por causa de uma ligação da presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, em 8 de janeiro. Ela perguntou ao general quais salvaguardas existiam para evitar que um "presidente instável" lançasse um ataque nuclear, segundo o livro, citando uma transcrição da chamada.
— Ele é louco. Você sabe que ele é louco — disse Pelosi a Milley na ligação, de acordo com o livro.
Ao que o general teria respondido, segundo o jornal:
O livro "I alone can fix it: Donald J. Trump's catastrophic final year" (Só eu posso consertar isso: o catastrófico ano final de Donald J. Trump") descreve como Milley e os chefes das Forças Armadas debateram a possibilidade de se demitirem, um a um, caso o presidente lhes desse ordens que considerassem ilegais ou perigosas para se manter no poder.
O militar mais graduado do país teria conversado com amigos, parlamentares e colegas sobre a ameaça de um golpe e acreditava que precisava estar "vigilante" perante os riscos: "Eles [Trump e seus aliados] podem tentar, mas não vão conseguir merda nenhuma", Milley teria dito a seus subordinados, segundo o livro.
Estrutura para atender turistas no Cristo Redentor, maior cartão postal do país, resume-se a geladeira para vender água e refrigerante
Em meio a briga judicial, lojas do alto do Corcovado estão fechadas desde o início de julho
Lojas e restaurantes no Corcovado estão fechados desde julho Foto: Ana Branco / Agência O Globo
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RIO — Uma geladeira, com água e refrigerante, às costas do Cristo Redentor, antes do último lance de escadas para um dos mais belos mirantes do planeta. Esse é o retrato da estrutura precária que hoje os turistas — em média três milhões por ano — encontram no monumento eleito uma das sete maravilhas do mundo moderno, a atração turística mais visitada do país. Desde o início de julho, nenhuma das sete lojas no alto do Corcovado está funcionando, em meio a uma briga judicial que envolve antigos comerciantes, o governo federal e a Arquidiocese do Rio.
Em fevereiro, foram definidos os vencedores de um chamamento público feito pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, para a operação das lojas no alto do Cristo. Cinco dos sete pontos comerciais eram controlados por um mesmo grupo familiar, desde quando o patriarca, José Manoel Gonçalves, trabalhou na instalação da estátua. Essa concessão recente, porém, está sendo questionada na Justiça, sob acusação de direcionamento do resultado e ilegalidades administrativas — o Ministério Público Federal entende que o correto seria a realização de uma licitação, que tem maior divulgação e ferramentas de fiscalização.
Ao mesmo tempo, tramitam ações de reintegração de posse movidas pelo ICMBio, que quer assumir de vez a operação do comércio no santuário. Uma liminar deu razão ao órgão federal, no fim do ano passado, enquanto a Arquidiocese afirma ter o direito ao uso da área de 477 metros quadrados, que vai do primeiro degrau do espaço ao topo do Cristo, por meio de um acordo de 1934 e renovado em 1981. Mas, para a União, esses antigos documentos não têm mais validade, e a Igreja, que alega “ato de má-fé do ICMBio”, vem perdendo os recursos na Justiça.
Hoje não há ordem legal que impeça a concessão. Ainda assim, as lojas estão vazias. O Grupo Cataratas, que controla o transporte de visitantes por vans até o monumento, venceu o chamamento para administrar três dos estabelecimentos. A empresa afirmou que assinou o contrato na semana passada e que, nos próximos dias, serão iniciadas as reformas, sem prazo de conclusão. Outras duas lojas serão assumidas pela Foto&Gráfica LTDA e pela RV Capital, Empreendimentos, Comércio Importação e Exportação Eireli. Ao todo, as três empresas vão pagar aluguéis mensais de R$ 133,4 mil à União. O sexto ponto, onde era o restaurante, não recebeu ofertas, e o sétimo deverá ser transformado em um posto de serviço médico, então não constou do edital.
Fila por água
Ontem, com os termômetros perto dos 40 graus, turistas faziam fila em frente à geladeira improvisada para conseguir uma garrafa de água. As outras opções no alto do Corcovado, no momento, são duas pequenas bancas da Campanha Amigos do Cristo Redentor, que vende fotos e imagens religiosas. Moradora de Duque de Caxias, Elaine Lucena voltou ao Cristo pela primeira vez após décadas para levar sua filha, Luiza Souza.
— Eu achava que ia ter lanchonete e lojas, mas já na subida um rapaz avisou para gente comprar lanche antes, porque está tudo fechado. Não faz sentido não ter nada, até porque não existe limite de tempo de visita — lamentou Elaine.
Já o casal Leticia Azevedo e Arthuro Munay, de Natal (RN), não se surpreendeu com a falta de opção porque eles já tinham sido informados sobre o problema.
— O Pão de Açúcar é muito mais organizado, com várias lojas. É complicada essa situação aqui, uma pena — disse Leticia.
O guia de turismo Luiz Cláudio dos Santos, que trabalha há 28 anos no Cristo, diz que as reclamações são constantes:
— Já aviso antes para as pessoas não chegarem lá em cima de mãos vazias. Para levar água, lanche. Falo até do banheiro, porque lá em cima não é tão limpo, o que é pior nessa situação de pandemia.
Para Alfredo Lopes, presidente do Hotéis Rio, o retrato do comércio fechado no Cristo é mais uma prova da ineficiência do governo em potencializar as atrações do Parque da Tijuca.
— É um episódio lamentável. A gente tem aqui uma Disneylândia dentro do Rio, a maior floresta urbana do mundo. Se o produto fosse bem trabalhado, acho que os turistas, em média, estenderiam em um dia a estadia no Rio. Cansamos de ver problemas de funcionamento do Cristo em feriados. Acho que esse problema com o Padre Omar pode ter sido providencial para a gente repensar a administração — afirma Lopes, defensor de uma administração privada no local.
O entreveiro com Padre Omar, citado por Lopes, desencadeou ataques públicos entre o ICMBio e a Arquidiocese desde o último sábado, quando o religioso, reitor do Santuário do Cristo, foi impedido, por duas horas, de acessar o monumento para a celebração de um batizado. O caso foi registrado na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). Já o ICMBio alegou que, “por questões de segurança, todos os veículos que acessam as áreas restritas precisam se identificar”.
Em seu posicionamento, a Arquidiocese retomou a discussão sobre o uso da área e repudiou o despejo dos comerciantes. “Dessa forma, os visitantes não podem se alimentar nem ao menos se hidratar no local, sem que levem o próprio alimento ou a água”, diz o texto.
Lojistas querem licitação
Os movimentos do governo federal para retomar as lojas no Cristo começaram em 2019, quando a Secretaria de Patrimônio da União (SPU) entregou uma ordem de despejo aos comerciantes, o que motivou, em resposta, uma ação judicial, agora em fase de perícia para comprovar benfeitorias pagas pelos comerciantes e cálculo de possível indenização. Já em setembro de 2020, o ICMBio entrou com ação de reintegração de posse e conseguiu a liminar para desocupação da área.
Mas o advogado Ewerton Oliveira, bisneto de José Manoel Gonçalves, e cujos pais ainda trabalhavam nas lojas, lembra que os movimentos do ICMBio já ocorriam, nos bastidores, desde 2017. Na opinião dele, o chamamento público deveria ser anulado. Oliveira diz que, se houver uma licitação, os antigos lojistas se interessarão em concorrer. O Grupo Cataratas informou que “o processo de concessão das três lojas do Alto Corcovado seguiu os trâmites legais”. O ICMBio e o Ministério do Meio Ambiente não se manifestaram.
Massacre de 1,4 mil golfinhos deixa o mar vermelho de sangue nas Ilhas Faroe; veja vídeo
Massacre de golfinhos na praia de Skálabotnur, nas Ilhas Faroe Foto: Reprodução/Instagram
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ILHAS FAROE — Caçadores de golfinhos promoveram uma matança no último domingo, nas Ilhas Faroe, um território da Dinamarca localizado no Atlântico Norte. A morte de 1428 animais deixou vermelha a água da praia de Skálabotnur, na ilha de Eysturoy.
Imagens registradas pelo grupo Sea Shepherd, que tem feito campanha para impedir a tradicional caça de golfinhos e baleias, mostram homens segurando os animais e dando facadas enquanto os bichos se debatem até a morte.
De acordo com o Sea Shepherd, trata-se da "maior matança individual de golfinhos ou baleias-piloto na história das ilhas". Os animais foram levados para as águas rasas da praia e abatidos por caçadores. A prática é considerada tradicional nas Ilhas Faroe.
No entanto, a matança desse ano foi tão brutal que gerou repulsa até mesmo nos moradores mais tradicionais das ilhas, segundo o The Guardian.
Heri Petersen, presidente da associação de caça no local onde ocorreu a matança, disse que muitos golfinhos foram conduzidos para a baía de uma distância muito longa, com poucas pessoas esperando na praia para matá-los, prolongando a agonia dos bichos.
Golfinhos mortos nas Ilhas Faroe Foto: Reprodução/Instagram
- Estou chocado com o que aconteceu - disse Petersen, segundo The Guardian. - Os golfinhos ficaram na praia se contorcendo por muito tempo antes de serem mortos” - acrescentou.
O presidente da Associação Faroese de Caça, Hans Jacob Hermansen, disse à emissora local que ficou chocado com o evento. E declarou que a matança vai ajudar a “destruir todo o trabalho que fizemos para preservar a caça tradicional".
Golfinhos foram mortos com golpes de faca Foto: Reprodução/Instagram
O capitão Alex Cornelissen, executivo-chefe global da Sea Shepherd, disse que no meio de uma pandemia global foi “absolutamente terrível ver um ataque à natureza dessa escala nas Ilhas Faroe”.
A Sea Shepherd é uma organização internacional sem fins lucrativos de conservação marinha que promove campanhas para defender a vida selvagem e conservar e proteger os oceanos da exploração ilegal e destruição ambiental.
A síndrome de Babel e a disputa do poder global - Tarso Genro
Por Tarso Genro
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Por Tarso Genro
A síndrome de Babel e a disputa do poder global traz para a mesa da intelectualidade brasileira e para os círculos políticos do campo democrático – centristas progressistas, esquerda socialista e social democrata – uma contribuição que certamente estará entre as grandes obras que “a um só tempo (é de) teoria-história-conjuntura”. É um livro dramático, grandioso e realista, em que o espetáculo da história heroica da formação da cidadania moderna no capitalismo do Estado de Direito é narrada – ao mesmo tempo – com a moderada expectativa da difícil regeneração da utopia democrática moderna, com a prevenção que o pior ainda pode acontecer: para isso, Bolsonaro está aí.
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No livro, Fiori combina as reflexões sobre as mudanças estruturais na história do capitalismo moderno com o cotidiano da política, a busca de “mudanças chaves” e silenciosas no processo de acumulação global, com a sua integração – sempre – com as grandes políticas de Estado na formação dos Estados Nacionais. O livro contém 19 artigos-ensaios, sobre as transformações no mundo capitalista, e 23 sobre a América Latina e o Brasil, mais um Prefácio e um “Post-scriptum”. Este, no seu encerramento, formaliza a seguinte conclusão; “o mais importante está na capacidade de extrair as consequências e implicações estratégicas adequadas da tese formulada por Max Weber de que, “em última instância, os processos de desenvolvimento econômico são lutas de dominação.”
É impossível dizer quais são os artigos-ensaios mais importantes do livro, consideradas a riqueza e a profundidade temática dos seus textos, mas, como sugestão de roteiro para sua leitura imediatamente compreensiva eu indicaria “O lugar da Rússia na estratégia global dos Estados Unidos”, de uma parte, e, de outra, os dois ensaios que remetem ao título do livro: os textos “A síndrome de Babel” (1 e 2), na parte relacionada com as transformações mundiais e “A impotência dos economistas liberais”, na parte em que o autor discute o “Brasil e a América Latina.”
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Todo o livro é valioso e imprescindível e a minha indicação diz respeito a uma compreensão mais imediata do seu sentido estratégico: o mito de Babel, que o livro traz no seu título é a metáfora do desentendimento humano que os seres humanos, mesmo com mandato divino, não souberam superar, mas a mitologia grega de “Teseu e o Minotauro”, orientado pelo fio Ariadne, ficaram vinculados – segundo a imaginação de Borges – a um destino de emoções mais ligadas às emoções cotidianas. O método de Fiori, na verdade, procura viver nestes dois espaços da História.
As grandes narrativas de “classe x classe” no velho capitalismo industrial mostraram que estas lutas de dominação tinham forte conteúdo material-militar, no interior dos países coloniais e semicoloniais, que pretendiam se constituir como nações livres; Hoje, todavia, as agressões internas – mesmo entre os dominantes e dominados do mesmo país – vem mudando, da aniquilação direta de exércitos em confronto, para um controle dos corações e mentes, mensagens fundamentalistas do estilo religiões do dinheiro, dissolução e aniquilamento das identidades humanas específicas, redução das taxas de liberdade por prédicas mistificadoras e por técnicas de dominação psíquica em rede.
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As grosserias e psicoses dos líderes políticos mais mitômanos passam a compor uma agenda aparentemente desconexa, mas que tem, em cada ato dissimuladamente apolítico, um sentido político claro. De recuperação do patriarcalismo, instrumentalização da mulher, racismo, homofobia e ataques a populações originárias, mas – na totalidade do projeto neoliberal – está sempre a destruição dos programas sociais e a concentração de renda. A economia financeira do rentismo global amassa a memória das conquistas e espalha a miséria, que desperta entre os seres humanos os instintos mais brutais de luta pela vida, com a supressão natural do próximo.
O vídeo que circula nas redes exibindo o Presidente Bolsonaro cometendo uma grosseria contra o Governador do Rio Grande do Sul ao lado de sua ministra da Agricultura, nos seus termos machistas – doentios e desrespeitosos – além de ser a expressão óbvia de uma personalidade sociopata no seu momento mais delirante, também é um atestado do estado mental e cultural de boa parte dos seus seguidores gaúchos. E igualmente de todos aqueles que desprezam os protocolos da representação política, que até nos nossos piores momentos de Governo, caracterizaram o Rio Grande.
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Bolsonaro não se importa de iludir com brutalidade, porque esta é a sua forma de passar uma mensagem para os bandidos que lhe cercam e de promover um constrangimento, para “avisar” que ele continua o mesmo, aos que também lhe cercam, mas não são bandidos já configurados. A racionalidade democrática das luzes é substituída pela irracionalidade fascista, que impõe sua “razão como exceção”: os movimentos de Bolsonaro, na ação, fazem as suas próprias normas “legais” e de protocolo republicano, em cujo altar tombam a dignidade humana e qualquer sinal de grandeza da política da democracia liberal.
Os tempos curtos – até instantâneos de cada conjuntura – (este “fato conjuntural” amanhã será substituído por qualquer outro mais brutal!) somam cotidianos sem sentido: as políticas sem conteúdo estrutural, os modos de vida passivos e perplexos cercados pelo ódio – particularmente entre os pobres – ao mesmo tempo em que desunem, ao informalizar a política e substituí-la pelas expressões de uma contínua de símbolos. Estes símbolos, todavia, só aparentemente não se comunicam, porque sua sequência é uma face inversa da razão, já que ao invés de libertar, ela escraviza, ao invés de suscitar dúvidas individuais e coletivas, uniformiza pela bestialidade; ao invés de coesionar a sociedade como comunidade transforma-a em hordas. No entanto, a razão não está morta e ela reage.
Mas qual o tamanho e a força desta defesa? No final de seu conto “A casa de Asterión”, Borges faz ficção uma ficção do diálogo entre Ariadne e Teseu, que recebera dela – Ariadne – a espada para matar o Minotauro e também lhe entrega o “fio”, que depois de cumprida a missão o traria de volta pelos caminhos do labirinto. E o faz assim: “O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não restava nenhum vestígio de sangue. Acreditas, Ariadne? – disse Teseu –, o Minotauro pouco se defendeu. A “conjuntura”, que exigia a decisão de resistência de Teseu e a cumplicidade amorosa de Ariadne, no conto de Borges, mudara completamente de pele e a vitória do “Herói”, pois neste momento da história a mitologia foi apenas um enlace vulgar de cotidianos sensatos.
Como estamos saturados de análises conjunturais, tanto feitas por competentes analistas da imprensa, como por bedéis analíticos que apenas replicam as vozes dos donos desta mesma imprensa, ouso sugerir uma leitura para compreendermos melhor a longa conjuntura que estamos vivendo, fincada as suas raízes nestes dois últimos séculos.
O ex-Ministro Celso Mello, na minha opinião entre as grandes figuras do conservadorismo democrático-republicano, serve-se da História e fulmina: “Carta de Bolsonaro lembra pacto assinado por Hitler.” O que disse Celso Mello tem, na sua base, uma retrospectiva do que foi o nazifascismo nos últimos 100 anos, não aceitando que as manifestações oportunistas, nas conjunturas “curtas”, sejam capazes de representar uma nova moralidade política e uma nova ética pública para estabilizar o ritual democrático. Isto porque uma nova moralidade, a partir da palavra de quem estuprou os fundamentos desta mesma época – presentes da racionalidade iluminista de caráter democrático – só pode vir por dentro da democracia, jamais das cavernas monstruosas do fascismo e da dominação colonial.
Isso nos vem como conclusão, tanto da forma como do método, do livro de Fiori, um dos grandes documentos econômicos, políticos e morais, da luta por um Brasil justo e humanizado pela grandeza da luta democrática e social que a inteligência nos ajuda a promover e entender.
Referência
José Luís Fiori. A síndrome de Babel e a disputa do poder global. Petrópolis, Vozes, 2020, 200 págs.
Os detalhes que Temer deixou escapar sobre Carlos Bolsonaro e Alexandre de Moraes no jantar em São Paulo | Malu Gaspar - O Globo
Por Malu Gaspar
O filho 02 do presidente Jair Bolsonaro, Carlos, acompanhou toda a conversa do pai com o ex-presidente Michel Temer, na reunião que tiveram para fechar os detalhes da carta em que Bolsonaro recua das ameaças feitas ao Supremo durante os atos de 7 de setembro.
Esse foi um dos detalhes que Temer deixou escapar aos comensais reunidos ontem em sua homenagem na casa do empresário Naji Nahas, em São Paulo, sobre o episódio.
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Ao grupo, Temer repetiu a versão que ele já contou em entrevistas sobre o caso – a de que Bolsonaro o procurou na quarta (8) à noite pedindo que intermediasse um armistício com o Supremo, e que na quinta (9), depois de aprovado o texto da carta, o presidente mandou um avião da FAB buscá-lo para levar a Brasília.
Em privado, porém, Temer contou a um dos participantes encontro que o vereador Carlos Bolsonaro passou todo o tempo da reunião quieto em um canto da sala, observando tudo sem dizer palavra.
Na hora em que o ex-presidente fez a ligação para que Bolsonaro e Alexandre de Moraes pudessem conversar, porém, até Carluxo saiu do gabinete para que o pai pudesse falar a sós com o ministro do STF. O diálogo durou 15 minutos.
A outro comensal, Temer contou ainda não foi muito fácil a conversa com Alexandre de Moraes para que ele aceitasse a negociação que resultou na carta-recuo de Bolsonaro. Isso porque, segundo Moraes teria dito ao ex-presidente, as provas já reunidas pelo Supremo no inquérito das fake news são "muito contundentes" e o Supremo teria que agir. Se ao final ele conseguiu que Moraes prometesse algum alívio aos Bolsonaro no inquérito, porém, Temer não falou.
O que ele repetiu sim várias vezes durante o jantar foi que um impeachment não seria "bom para o país". "Eu sei o que é sofrer na presidência", disse Temer, durante o encontro em que só havia homens, muitos da comunidade árabe paulistana.
À mesa estavam o marqueteiro de Temer, Elsinho Mouco, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, o dono da rede Bandeirantes, Johnny Saad, o jornalista Roberto D'Ávila, o advogado José Rogério Cruz e Tucci (advogado e professor da USP) e o médico Raul Cutait, além do empresário Paulo Marinho (suplente de Flávio Bolsonaro, mas rompido com o bolsonarismo) e o imitador André Marinho.
O vídeo que mostra Temer gargalhando com a imitação que Marinho faz de Jair Bolsonaro, dizendo que ia "roubar a perucas do Fux (Luiz Fux, presidente do Supremo)", viralizou nesta manhã.
Mas foram gravados outros, de outras imitações feitas por Marinho à mesa, que circularam entre os participantes do jantar. Abaixo, o vídeo em que Marinho imita Temer e Trump, e depois a imitação de Bolsonaro.
Esse ditado popular se encaixa muito bem ao momento atual do País, em que os problemas econômicos ou são negados ou as responsabilidades são transferidas. O prêmio de maior rejeição de paternidade vai, certamente, para o presidente Bolsonaro – justamente em quem recai a maior culpa.
Nesse contexto, observa-se a mesma postura de membros do governo e aliados, como mostram os recentes ataques à gestão do presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, por conta do aumento dos preços dos combustíveis.
Bolsonaro não só não ajuda, como atrapalha bastante. Mesmo assim, cobra de Paulo Guedes a solução para os problemas, segundo a imprensa. Para começar, não é justo a cobrança recair apenas sobre o titular da Economia.
Os erros na gestão da saúde e o persistente jogo do contra de Bolsonaro penalizam a economia, pela necessidade de isolamento social prolongado e de se estender as medidas de socorro, afetando a saúde das contas públicas. Este ano, os gastos extras com Auxílio e Benefício Emergencial totalizam R$77 bilhões.
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A gestão falha do setor de energia também cobra sua fatura. Não é só a seca a responsável pela alta de tarifas e pelos riscos de apagão e racionamento - que prejudicam decisões de investimento.
O governo não deu continuidade ao ajuste iniciado na gestão Temer e tarda em resolver imbróglios, como o modelo de formação dos preços - o cálculo superestimado da chamada garantia física -, implicando contratação de energia aquém do necessário.
Como reflexo da postura do presidente, há a omissão da Casa Civil, que não cumpre seu papel de organizar o governo.
O presidente prejudica a economia com sua má gestão e por produzir incerteza política inédita para as atuais gerações.
Um canal é pela pressão cambial, elevando preços e tarifas. O real se descolou do que seria o patamar esperado diante do quadro internacional e da usual correlação com as demais moedas de emergentes.
Isso apesar da recuperação em “V” do PIB e do bom desempenho das exportações – destacando positivamente o Brasil dos demais da América Latina. Utilizando os parâmetros do passado, a taxa de câmbio deveria estar oscilando em torno de R$4,2/US$.
Como se não bastassem os entraves estruturais ao investimento, sendo a insegurança jurídica provavelmente o principal deles - um tema ignorado no governo -, o presidente adiciona mais ingredientes à receita de afugentar investidores.
O investimento estrangeiro direto recuou 62% em 2020, ante queda de apenas 8% em países em desenvolvimento ou mesmo de 33% no restante da América Latina e Caribe, nos cálculos da UNCTAD (o critério difere do utilizado pelo BC, que inclui o reinvestimento de lucro, e teve queda de 35%).
O clima de compasso de espera tende a crescer. A postura do presidente alimenta o sentimento não só de incerteza política até as eleições, mas de como será um possível segundo mandato. Além disso, a reeleição poderá implicar mais dificuldades do País em se inserir nas agendas globais, especialmente pela pauta ESG.
Há consequências também de longo prazo, pois Bolsonaro retrocede o Brasil institucionalmente – um país até recentemente reconhecido por ter instituições em funcionamento. O presidente enfraquece essa imagem ao testar limites e alimentar a desconfiança e a cisão da sociedade.
Paulo Guedes tem sua parcela de responsabilidade, por ter falhado em apresentar uma agenda econômica mais estruturada. Houve alguns avanços em temas estruturais, mas a gestão fiscal peca e ameaça a estabilidade macroeconômica.
O ministro fez também promessas em demasia, pois minimizou as dificuldades técnicas e politicas de reformas. Sua credibilidade sai arranhada, e também as perspectivas para um segundo mandato presidencial.
A responsabilidade final, no entanto, é do presidente. Não adiantam as tentativas de empurrar a culpa. O superministério pode muito, mas não pode tudo. Mesmo que houvesse uma agenda estruturada, com definição de prioridades e a necessária costura política, não funcionaria com Bolsonaro. Não se trata de buscar outro ministro.
A ideia de terceirização da política econômica ao “Posto Ipiranga” foi equivocadamente aceita por muitos, poupando Bolsonaro na campanha. Na realidade, era o prenúncio dos problemas que vivemos hoje. Pior, cada vez mais, o presidente terceiriza a agenda para o Centrão. O próximo da fila para levar a culpa.
Felipe Neto lança vídeo demolidor sobre o clã: "Bolso Família. O grande projeto de Jair Bolsonaro" (assista)
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Nele, é promovido o chamado "Bolso Família".
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"Já são cerca de 6 pessoas beneficiadas, com toda proteção da máquina do Estado. Enquanto as famílias do Brasil ficam sem auxílio, sem emprego e sem vacina, os beneficiários do Bolso Família já contam com: rachadinhas do salário de funcionários fantasma, 89 mil parcelados na conta da esposa, milhões em dinheiro vivo não declarado, dezenas de imóveis suspeitos e mansão própria de seis milhões de reais", diz a narração.
300 mil mortes por covid-19? Total já pode ter passado de 410 mil no Brasil, apontam pesquisadores [25/03/2021]
EUA deveriam mandar vacinas paradas 'imediatamente' ao Brasil, diz pesquisadora de Yale
Ambas se baseiam em dados oficiais de Srag (Síndrome Respiratória Aguda Grave), um quadro de saúde caracterizado por sintomas como febre e falta de ar.
A legislação brasileira estabelece que todo paciente que é internado no hospital com Srag precisa obrigatoriamente ter seus dados notificados ao Ministério da Saúde por meio do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (conhecido como Sivep-Gripe). Esse sistema é utilizado há anos e permite saber quantos casos de infecções respiratórias necessitaram de hospitalização e evoluíram para óbito no país.
No primeiro semestre de 2019, foram registrados 3.040 óbitos por síndrome respiratória aguda grave. No mesmo período em 2020, foram registrados 86.651. Até o momento, de todas as pessoas com Srag e resultado laboratorial para algum vírus na pandemia, mais de 99% acabaram diagnosticadas com covid.
Esses dados são considerados bons indicadores por não sofrerem tanto com a escassez de testes ou resultados falsos positivos. Mas há alguns problemas, entre eles o atraso: pode levar bastante tempo até uma internação ou uma morte ser contabilizada no sistema.
Então, como saber o número atual mais próximo da realidade? Como os pesquisadores chegaram à estimativa de 410 mil ou 415 mil mortes por doença respiratória grave?
Projeção do agora
Bem, os cientistas fazem o que se chama de nowcasting, que grosso modo é uma projeção não do futuro (forecasting), mas do agora. Isso se faz ainda mais necessário durante a pandemia por causa dessa demora da entrada dos registros de hospitalizações e mortes no sistema digitalizado.
É como se os dados disponíveis hoje no sistema oficial formassem um retrato desatualizado e cheio de buracos. Para preencher e atualizar essa imagem, é preciso calcular, por exemplo, qual é o tamanho desse atraso, de uma morte de fato à entrada do registro dela no sistema, a fim de "prever" o que está acontecendo atualmente.
Bastos lidera análises de nowcasting numa parceria que envolve o Mave, grupo da Fiocruz de Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica, e o Observatório Covid-19 BR, grupo que reúne cientistas de diversas instituições (como Fiocruz, USP, UFMA, UFSC, MIT e Harvard).
"(O nowcasting) corrige os atrasos do sistema de notificação vigente, isto é, adianta-se as notificações oficiais futuras pelo tempo médio entre a ocorrência dos primeiros sintomas no paciente e a hospitalização, quando há o registro dos seus dados no sistema de vigilância. Esse tempo abrange várias etapas: desde procurar um hospital, coletar o exame, o exame ser realizado e o resultado do teste positivo para covid-19 estar disponível para ser incluído no banco de dados. O tempo acumulado entre essas etapas do processo causa atrasos de vários dias entre o número de casos confirmados no Sivep-Gripe (plataforma oficial de vigilância epidemiológica) e os casos ainda não disponíveis no sistema, que são compensados somando aos casos já confirmados uma estimativa de casos que devem ser confirmados no futuro", detalha o Observatório Covid-19 BR.
A dificuldade de monitorar em "tempo real" o que acontece durante epidemias é global, e diversos cientistas ao redor do mundo tentam achar soluções para esse problema.
Os cálculos atuais sobre a pandemia no Brasil liderados por Bastos foram feitos a partir da adaptação de um modelo estatístico proposto em 2019 por ele e mais oito pesquisadores.
Para apontar um retrato atual mais preciso da pandemia, essa modelagem estatística (hierárquica bayesiana) corrige os atrasos dos dados incorporando nos cálculos, por exemplo, a partir do conhecimento prévio da ciência sobre o que costuma acontecer durante o espalhamento de doenças como gripe. Mais detalhes no artigo disponível neste link aqui.
Para chegar até o número de 415 mil mortes por Srag, Bastos explica à BBC News Brasil que são analisados primeiro os dados da semana atual e da anterior, a fim de identificar quantos casos e óbitos tiveram uma semana de atraso.
"Assim, aprendemos a respeito do atraso e usamos isso para 'prever'/corrigir a semana atual e as últimas 15 semanas. O total de 415 mil mortes por Srag é a soma dos casos observados acumulados até 15 semanas atrás com as estimativas mais recentes corrigidas."
Em sua análise, Miguel Buelta, professor da USP, aponta um número parecido.
Ele explica em seu perfil no Twitter que analisou os dados de óbitos por covid e Srag até 14 de março e calculou a subnotificação dos últimos 60 dias a partir dos dados atrasados que foram entrando no sistema no período. "Fiz o cálculo para 14/01/2021. Subnotificação = 37% naquela data. Se este valor fosse mantido até hoje, no lugar dos 300 mil óbitos, poderíamos ter hoje 410 mil."
Mas Buelta acredita que o valor pode ser ainda maior. "A situação atual é muito mais emergencial. É uma tragédia. Vamos todos lutar contra isso. Isolamento social e ajuda emergencial. Fora disso não há solução." Mais detalhes sobre o modelo estatístico usado por ele aqui neste link.
1,7 milhão de internados
Na análise liderada por Bastos, da Fiocruz, estima-se que o Brasil tenha registrado mais de 1,7 milhão de internações durante a pandemia de coronavírus por causa de doenças respiratórias graves. Na pandemia de H1N1, em 2009, o total foi de 202 mil hospitalizações.
Ao se debruçar sobre os dados, ele aponta ainda uma tendência de piora na ocupação de hospitais no Distrito Federal e em nove Estados: Rondônia, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Maranhão, Ceará e Minas Gerais.
Todos eles têm mais de 20 hospitalizações por 100 mil habitantes. Em Rondônia, essa taxa chega a 49, por exemplo.
Por outro lado, Rio Grande do Sul e Santa Catarina parecem ter conseguido conter a tendência de alta das hospitalizações. Isso, no entanto, pode significar tanto que a situação melhorou quanto que não tem mais como o número piorar dada a superlotação dos hospitais. De todo modo, ambos os Estados ainda estão em um patamar bastante elevado, acima de 20 hospitalizados por 100 mil habitantes.
"Hospitalizações e óbitos só vão reduzir quando uma boa parcela das populações prioritárias, segundo o Programa Nacional de Imunização, forem imunizadas. Antes disso, sem uma redução efetiva da transmissão, veremos onda depois de onda", afirma Bastos.
No dia 13 de maio de 1818 – nos meses da Inquisição – “onde a Corte se encontrava há cerca de uma década”, o Rei D. João VI firmou um decreto através do qual rogava ao Papa a designação de D. José da Cunha Azeredo Coutinho como último inquisidor-geral, a título de recompensa, porque ele não exortara – como fizeram a maioria dos prelados na época – os seus diocesanos a apoiarem os invasores franceses. A posse do novo inquisidor efetuou-se sob a luz trêmula e temível das luminárias da tradição, como ocorria nos antigos rituais do Santo Ofício.
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Mas a Europa mudara e a tradição de todas as gerações mortas deixava de oprimir – por um certo tempo – os cérebros dos vivos. Na História da “Inquisição Portuguesa” (G. Marcocci e J. P. Paiva, Ed. Esfera dos Livros”) os autores encerram a primeira página do capítulo “As últimas horas do Santo Ofício” (p. 430), com um período iluminado: “todavia, estas luzes não eclipsariam as sombras em que a Inquisição vinha a ocultar-se e que os ideais de igualdade e liberdade da Revolução Francesa ainda mais se acentuaram”.
Esta lembrança paira sobre nós como um chamado àqueles ideais. Todo o egoísmo nacional vital – que se acelerou com o domínio do capital financeiro sobre os Estados endividados e que vem dividindo a sociedade de forma cada vez mais acelerada entre pobres-miseráveis e ricos – nos levou a uma situação limite: ou compomos pela força da política uma ordem mundial minimamente solidária ou equânime, face às lições brutais da pandemia, ou teremos um estado de guerra permanente que levará à humanidade ao apocalipse pela peste. O discurso de Lula foi um alerta e uma esperança, que deve ser complementado com uma grande frente pela vida, contra o fascismo e a sua perversão ultraliberal.
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A fala do Presidente Lula ecoou em todo o mundo. O Brasil retornou à cena pública mundial pela voz de um estadista originário do mundo operário, que fez um governo original, em um país que nem a sofisticação intelectual de FHC – hoje mais Príncipe do que sociólogo – conseguiu projetar como um sujeito respeitado na ordem global. Personalidades políticas de várias posições do campo da democracia liberal olharam para o Brasil como se respirassem o ar fresco de uma manhã fantástica.
O destino da ordem mundial, no seu “novo” normal, será um velho normal piorado pela redistribuição do pagamento dos custos da tragédia, que os países ricos promoverão arbitrariamente, segundo os seus interesses. Por isso podemos prever – com pouca margem de erro – que derrotados o fascismo e a loucura instalada no poder, a política externa de países como o nosso vão ser determinantes para – a partir de uma relação cooperativa e interdependente com soberania – nos erguermos da crise melhores do que antes.
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FHC não teve o mesmo respeito adquirido por Lula não porque foi incompetente como governante, pois não o era. Mas sim porque mimetizou a política das nações “liberais” ao redor do globo, de forma gratuita e sem recompensas. Tornou o Brasil, com seu desempenho, um país de “baixo custo”, desrespeitado no sistema financeiro dos países ricos e facilitando a vida não dos seus investidores na produção, mas dos seus especuladores com a dívida dos países que estão dentro do círculo da fome.
A ordem mundial era (e é) assimétrica – como dizia o próprio FHC – achando que com essa “baita” descoberta já dispunha de uma justificativa da submissão do seu Governo à visão social democrata em declínio, que passava de uma posição que defendia a proteção do Estado aos mais débeis – economicamente – para a defesa de um destino “tecnológico” em que as ofertas de trabalho no capitalismo teriam, na tração humana dos entregadores, a substituição de um modo de vida sem serviços e trabalhos regulares.
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A política externa brasileira tem hoje como voz pública um adepto das ideias mais obscuras e retrógradas durante toda a existência da nossa República. Ele representa, no cenário exterior, a necrofilia política que orienta o governo Bolsonaro em suas questões internas, centradas no tripé: armamentismo irrestrito para fortalecer as milícias, negacionismo científico para expandir a morte e tornar a população indiferente à barbárie; e reformas para aniquilar o que nos resta do Estado Social, sem colocar nada no seu lugar.
Trata-se, assim, de destravar os instintos mais baixos e as fantasias mais perversas dos seres humanos, que serão colocados no limite – ao naturalizar a barbárie – entre morrer pela fome ou morrer pela doença e assim despertar a selvagem concorrência entre eles, para sobreviverem entre esmolas e ajudas emergenciais cada vez menores.
Seja quem for que nos governe no próximo período – com a vitória de um candidato do campo progressista e antifascista – temos que pensar rapidamente em um internacionalismo democrático concreto, para enfrentar o terrível quadro da pós-pandemia. Bolsonaro lutou para colocar o país numa “escolha de Sofia”, que no fundo se assentava na opção entre Trump e o seu séquito fascista ou um golpe de Estado, apoiado nas milícias que ele quer cada vez mais armadas.
O eixo central do antifascismo e da reconstrução produtiva e política do país deve nortear as relações exteriores do Brasil, retirada a direção do Estado das mãos dos insanos. Os cadáveres estão sendo empilhados e o insano maior continua governando. Da sua brutal indiferença sobre a vida humana – porque ele não é “maricas”, nem “coveiro” – brota uma lava de ódio numa sociedade cada vez mais desigual, que se dissemina em forma de uma pirâmide necrófila que se assemelha aos campos de Elsen, Berla, Buckenwals e Auschwitz.
Bolsonaro vai para o tudo ou nada neste 7 de setembro', diz Breno Altman
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247 - O jornalista Breno Altman, editor do Opera Mundi, disse à TV 247 nesta segunda-feira (6) que o dia 8 de setembro não será o mesmo para Jair Bolsonaro, seja qual for o desempenho de sua base eleitoral nos atos golpistas marcados para 7 de setembro.
Para Altman, Bolsonaro parte para o "tudo ou nada" nesta terça-feira (7). "Os atos bolsonaristas estão concentrados em duas capitais, São Paulo e Brasília. A movimentação das forças de apoio ao Bolsonaro é bastante intensa. É muito difícil fazer uma previsão, mas podemos dizer que qualquer coisa abaixo de 50 mil pessoas em São Paulo e abaixo de 30 mil em Brasília seria um tremendo fracasso do Bolsonaro, porque ele faz um jogo de tudo ou nada. É uma demonstração de força que para ele é decisiva. O dia 8 de setembro não será igual para o Bolsonaro. Depende da sua capacidade de mobilização amanhã".
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Já para os protestos de esquerda, disse o jornalista, a pressão não é tão grande. "A situação da oposição de esquerda é diferente. A oposição de esquerda não estará enfrentando uma batalha de vida ou morte amanhã. A oposição de esquerda vem de sucessivas mobilizações. É um processo de acumulação de forças em uma situação em que o Bolsonaro vai se desgastando".
Altman disse esperar protestos maiores dos bolsonaristas do que da esquerda em São Paulo em Brasília, mas lembrou que a oposição terá mais atos espalhados pelo país. "No conjunto da obra, em termos nacionais, devem ser forças que se equivalem, apesar do bolsonarismo estar travando uma batalha de vida ou morte e a oposição de esquerda estar em um calendário de acumulação de forças".
Reinaldo Azevedo - Esquerdas e 7 de Setembro. Não deem sangue a Bolsonaro, e o vampiro morrerá
Colunista do UOL
26/08/2021 22h25
Não acho prudente nem necessário que os manifestantes antibolsonaristas também saiam às ruas no dia 7 de Setembro. Um e outro lado podem se encontrar nos vagões de metrô, nos ônibus, nas praças. Como os seguidores da seita acham que algo de formidável e extraordinário vai acontecer na data — será a Parúsia, traduzida na volta de Jair Messias? —, tenho cá as minhas desconfianças sobre a sanidade mental e moral de parcela considerável dos fanáticos.
Não será uma disputa de ocupação do espaço público — quem fez a maior manifestação? — que vai definir os destinos do país. Até porque o bolsonarismo é hoje claramente minoritário, mas com possibilidade de botar mais gente na rua. Ao menos naquele que imaginam ser o "dia da virada".
Economia se deteriora, otimismo se vai, e o mulá só pensa no Bolsonaristão
Assim, faz sentido que se convidem os oposicionistas e favoráveis ao impeachment do presidente a que marquem um novo dia para o seu protesto. Agora, o que não faz sentido é o governador João Doria, depois de falar com a área de segurança, simplesmente proibir os protestos daqueles que se opõem a Bolsonaro.
Ainda que o argumento da (in)segurança pública seja relevante e que se tema que a Polícia Militar não possa oferecer aos manifestantes das duas correntes de opinião a proteção adequada, é claro que essa era uma questão que deveria ter sido negociada com os que organizam o protesto.
Que se faça a pergunta certa para encontrar a resposta certa, com a medida adequada. O que se quer? Evitar o confronto. Como se evita? Não havendo manifestações simultâneas, ainda que em pontos relativamente distantes da capital. Reitero: o sistema de transporte é integrado e será inevitável haver o encontro de grupos rivais.
JUSTIÇA Como a proibição está decidida, e na hipótese de governador e líderes do ato não conversarem antes, resta àqueles que pretendem ir às ruas contra o presidente recorrer à Justiça. Se a decisão for tornada sem efeito, ainda assim é possível o caminho da temperança: POSSO, MAS NÃO DEVO! Como Paulo, o Apóstolo. Caso a Justiça mantenha a proibição, parece-me que a única coisa que faz sentido, no contexto, é acatar a decisão. Afinal, quem está armando a patuscada para atropelar os tribunais são os fascistoides, certo?
O QUE QUER BOLSONARO? É muito importante saber o que quer Bolsonaro. E, convenham, ele não faz questão nenhuma de esconder. Ele quer golpe. Desde o primeiro dia de governo, anseia pela virada de mesa. Aliás, isso era vocalizado já na campanha eleitoral, certo? Lembram-se do "soldado e do cabo, sem nem um jipe", de Eduardo Bolsonaro, que bastariam para fechar o Supremo?
Há caminhos, no entanto, para isso. A pura e simples quartelada, como se sabe, é inviável. Ainda que haja, sim, golpistas nas Forças Armadas, não formam o grupo dominante. Li o discurso do comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, no Dia do Soldado, como uma declaração antigolpista. Publiquei a íntegra aqui e analisei. Ele ter lembrado que o presidente, que estava a seu lado, é o comandante máximo das Forças apenas repete a Constituição. Mas destacou que é esta que rege os militares.
É muito pouco provável — na verdade, acho improvável — que Bolsonaro consiga mover tropas sob a alegação, como faz hoje, de que o Supremo cria empecilhos a seu governo. Há, sim, parte considerável do alto oficialato que compartilha dessa leitura errada, mas isso não quer dizer que essa gente tope um golpe. Nota à margem: senhores generais, tentem listar em que o tribunal atrapalha o presidente... É mentira. Não fosse o Supremo, o governo não teria tido um "Orçamento de guerra" para enfrentar os piores tempos da Covid-19. Mais: o Brasil não é uma ilha, e não estamos em 1964. A Guerra Fria acabou.
MAS SERÁ QUE É ISSO MESMO? Mas será que Bolsonaro anseia mesmo um golpe à moda antiga, de modo que ele seja declarado o ditador do Brasil, liderando o que se chamava antigamente de "regime gorila"? Parece-me claro que não. A estratégia é esticar a corda e investir no confronto.
Vale dizer: todas as declarações do presidente e a militância de suas milícias nas redes sociais expõem ao risco dos distúrbios de rua, do enfrentamento direto entre litigantes, do quebra-pau, do pega pra capar...E, nessa hipótese, então, ele veria razões para evocar o Artigo 142 da Constituição.
O seu anseio é governar segundo um regime de exceção. E, para tanto, haver um outro lado que resolva comprar a briga é fundamental. Isso é claríssimo.
Até porque observem que a oposição parlamentar cria pouquíssimas dificuldades para o governo, não? Bolsonaro teme, sim, a oposição na exata medida em que um líder oposicionista, Lula, o desbancaria hoje da Presidência. Mas não são os partidos adversários a lhe criar dificuldades. O voto impresso não foi aprovado, como ficou evidente, com a ajuda do centrão, certo? E que se note: os enfrentamentos parlamentares são quase irrelevantes porque o governo é pouco operoso.
Sim, ele perderia para Lula em 2022, mas seus reais inimigos hoje, segundo a guerra que inventou, estão no Supremo. Essa é a bandeira que une os fanáticos. Mas, por intermédio dela, o que se quer é garantir poderes excepcionais para o presidente.
O CONFLITO É VITAL Todas as apostas de Bolsonaro para reverter a desvantagem eleitoral estão fazendo água -- ou melhor, falta-lhes até a água. Não houvesse outros sortilégios, a inflação e o crescimento baixo no ano que vem corroem as suas esperanças. Ele precisa de uma virada. E, dentro do seu padrão mental, a rua conflagrada é uma peça fundamental. E não creio que se deva dar isso a ele.
MENSAGEM CIFRADA Ontem, depois que Rodrigo Pacheco mandou arquivar a denúncia contra Alexandre de Moraes, seus seguidores ensandeceram e pediram golpe já. Bolsonaro, então, editou uma fala antiga sua, dando-lhe um novo sentido e postou nas redes. O conteúdo é este: "A gente só ganha a guerra, pessoal, se tiver informações. Se o povo estiver bem-informado, tiver ciência do que está acontecendo, a gente ganha essa guerra. Alguns querem que seja imediatista. Eu sei o que tem de fazer. Dentro das quatro linhas da Constituição. Dentro das quatro linhas da Constituição. Se o povo, cada vez mais, se inteirar, se informar, cutucar seu vizinho, começar a mostrar pra ele qual o futuro do nosso Brasil, a gente ganha essa guerra. Eu sei onde está o câncer do Brasil. Eu sei onde está o câncer do Brasil. Nós temos como ganhar essa guerra. Se esse câncer aí for curado, o corpo volta à sua normalidade. Estamos entendidos? Se alguém acha que eu tenho de ser mais explícito, lamento..."
Sim, há aí todas as fantasias do líder messiânico: desde o conhecimento de uma verdade revelada — a que só ele teve acesso — até o oferecimento da salvação. Mas Bolsonaro também está dizendo que a hora ainda não chegou — outra característica do messianismo. E não será no dia 7.
Mas e para chegar? Notem que ele fala de uma "conscientização" crescente, pessoas que iriam se agregando à luta para a batalha final. Ocorre que essa batalha final, não havendo o golpe à velha maneira, precisa da agitação e do caos. E, para tanto, ele conta com a conflagração e o enfrentamento de rua. E isso ele não pode ter.
Bolsonaro chegou à conclusão de que essa é a única vereda para que não tenha de entrega a faixa a Lula.
ENCERRO A decisão de Doria foi autoritária, ainda que não seja imprudente. E espero mesmo que se resolva a questão de outro modo. À parte essa questão, convém que as esquerdas leiam direito o jogo: Bolsonaro está perdido. E só elas podem lhe oferecer um caminho, o que sugiro que não façam.
Enquanto isso, Lula acerta e fala com o PSB, com o MDB, com quem quiser conversar...
Bolsonaro desaba em popularidade nas redes após nota de recuo sobre 7 de Setembro
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247 - Levantamento feito pela consultoria Quaest, divulgado nesta segunda-feira (13), mostra que Jair Bolsonaro teve uma queda expressiva de popularidade nas redes sociais, depois que divulgou uma nota em que recua nas declarações golpistas proferidas por ele contra o Supremo Tribunal Federal (STF) nas manifestações do dia 7 de setembro.
Segundo o Índice de Popularidade Digital, medido pela Quaest, Bolsonaro cresceu com os atos de apoiadores, chegando ao seu segundo melhor patamar desde o início do ano, com 81,8 pontos.
Mas logo no dia 8 de setembro, o índice cai para 62,4 e segue em queda livre para 53,7 na quinta-feira (9), dia da divulgação da carta, redigida com o apoio de Michel Temer, e 37,1 na sexta-feira (10), que é a pior marca de Bolsonaro em 2021.
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Segundo a consultoria, os 40 dias que antecederam os atos bolsonaristas tiveram mais de 3 milhões de postagens com esse tema. Horas após a carta, no entanto, explicações começaram a aparecer de forma sistemática nos grupos virtuais bolsonaristas. As teses variavam entre a nota fazer parte de uma estratégia de Bolsonaro ou de um suposto acordo com o STF.
No levantamento feito pela Quaest, são monitoradas seis dimensões nas redes: fama (número de seguidores), engajamento (comentários e curtidas por postagem), mobilização (compartilhamento das postagens), valência (reações positivas e negativas às postagens), presença (número de redes sociais em que a pessoa está ativa) e interesse (volume de buscas no Google, YouTube e Wikipedia).
A 'civilização perdida' que construiu mega-assentamentos na Europa há 7 mil anos
Templos com baixo-relevo e outras estruturas trypillianas gravadas oferecem pistas sobre a antiga cultura Imagem: Getty Images
Valeria Kovtun e Christine Sarkis
BBC Travel
12/09/2021 22h00
Atualizada em 13/09/2021 08h36
"Você sabia que existe um livro de Júlio Verne chamado A Ilha Misteriosa, no qual as pessoas se encontram em uma ilha e começam a construir uma civilização?", pergunta Mykhailo Videiko, arqueólogo da Universidade Borys Grinchenko Kyiv, na Ucrânia.
"Mas aqui não é uma história de ficção", ele faz uma pausa.
NY retoma tributo às vítimas do 11/09 no marco zero; entenda o simbolismo
"Esta é uma história real."
Silenciada duas vezes, uma vez pelo tempo, e depois pela política, a antiga civilização Cucuteni-Trypillia está mais uma vez encontrando vozes para compartilhar sua história.
A história de Trypillia, como é comumente conhecida, começou há 7 mil anos onde hoje é a Europa Oriental.
A maioria dos assentamentos foi descoberta na Moldávia, Romênia e Ucrânia, todas ex-repúblicas soviéticas.
Os assentamentos escavados oferecem aos arqueólogos modernos um dos primeiros exemplos conhecidos de urbanização e sugerem a existência de uma população com mais de um milhão de habitantes.
O povo de Trypillia "conseguiu implementar quase todas as inovações tecnológicas de seu tempo", diz Videiko.
Eles eram obcecados por cerâmica, e construíram os fornos mais avançados da época. As técnicas de construção permitiram erguer casas de até 700 m².
"Um assentamento pode se comparar à Londres medieval em tamanho", diz Videiko.
"Muitos pesquisadores não podiam acreditar que um assentamento assim realmente existisse. Eles descobriram 1,5 mil construções lá. Uma casa tinha 700 m². É muito para uma construção europeia de 5,5 mil anos."
E os objetos encontrados ali indicam uma cultura que adorava deusas femininas.
Um dos mistérios não desvendados sobre Trypillia era a destruição periódica dos assentamentos. Antes de deixar o local, eles queimavam as casas.
"O abandono e a queima das casas de Trypillia eram acompanhados pela destruição dos fornos. Os restos dos fornos eram removidos para o lado de fora da casa. Isso pode significar que eles 'matavam' a casa, tiravam o coração da casa e colocavam fogo em tudo", afirma Vladyslav Chabaniuk, diretor da reserva Trypillia.
As pesquisas sobre Trypillia foram inicialmente abraçadas pela União Soviética. As autoridades comunistas estabeleceram paralelos entre a impressionante civilização antiga e a ideologia marxista, que promovia uma sociedade sem classes e sem propriedade privada.
Por isso, destinaram grandes fundos para financiar projetos de estudo arqueológico sobre a civilização.
"Trypillia era uma ilustração maravilhosa de uma sociedade pré-classe, sem classes ou do comunismo primitivo", explica Videiko.
Mas quando surgiram indícios de que Trypillia pode não ter sido a utopia da sociedade sem classes que aparentava ser a princípio, as coisas mudaram rapidamente.
"À medida que os arqueólogos exploravam mais, eles começaram a descobrir mega sítios arqueológicos da civilização Trypillia. Começaram a encontrar todas essas construções enormes. E surge a pergunta: tudo isso poderia ser feito por uma sociedade sem classes?", conta Videiko.
"Tecnicamente, todas as descobertas científicas estavam destruindo a teoria marxista-leninista."
Nos anos que se seguiram, os pesquisadores que desafiaram a propaganda oficial foram considerados inimigos do Estado.
Alguns escavadores do sítio arqueológico de Trypillia foram condenados como membros de uma organização de espionagem terrorista.
"Sentença. 1937. Pelotão de fuzilamento."
Livros que promoviam o estudo de Trypillia foram publicados fora do país, mas, segundo Videiko, "nunca chegaram à Ucrânia".
"Estavam pesquisando algo, mas quase ninguém aqui sabia a respeito. Aqueles que sabiam, permaneceram em silêncio".
Hoje, o legado de Trypillia está sendo revivido por meio da moda.
A estilista ucraniana Svitlana Bevza se inspirou na arte da antiga civilização centrada na figura feminina — "no simbolismo da mulher como deusa, como símbolo de terras férteis, como símbolo do nascimento".
Ela usa sua linha de roupas e joias com influência Trypillia como uma forma de celebrar a cultura, a reverência pelas mulheres e a conexão com a natureza daquele povo.
Segundo ela, é injusto que "essa grande cultura não seja tão conhecida no mundo — como a egípcia, por exemplo".
"Não havia voz que pudesse falar para o mundo sobre essa cultura", completa.
Uma civilização avançada construída do nada não é apenas tema de romance de ficção, é também a verdadeira história de Cucuteni-Trypillia, sendo contada mais uma vez.
Racha escancarado após protesto contra Bolsonaro reforça entraves para atos unitários
Rivalidade com petistas ganha fôlego, e MBL e Vem Pra Rua desconversam sobre manifestação de 2 de outubro que tem PT entre os organizadores
São Paulo
A organização de atos unificados contra o presidente Jair Bolsonaro ganhou novos obstáculos com as cisões escancaradas após os atos de domingo (12) convocados por MBL (Movimento Brasil Livre) e VPR (Vem Pra Rua), que tiveram baixa adesão e não contaram com a participação do PT.
Os dois movimentos ligados à direita evitam, por enquanto, comprometer-se com um envolvimento em manifestações puxadas por outros setores. A Campanha Nacional Fora Bolsonaro, fórum majoritariamente de esquerda, indicou 2 de outubro como data de sua próxima mobilização.
MBL e VPR informaram à Folha nesta segunda-feira (13) que ainda vão discutir internamente datas para suas próximas manifestações e foram evasivos sobre uma entrada na articulação do dia 2. Não descartaram incisivamente uma aproximação, mas tampouco demonstraram entusiasmo com a ideia.
O principal ponto de discórdia estava no tom eleitoral do ato, com o apoio a uma terceira via para as eleições simbolizado no slogan "nem Bolsonaro nem Lula", presente nas convocações. Apesar da promessa de que a pauta comum seria o "fora, Bolsonaro", o petista foi criticado no domingo.
Entre membros do MBL, o sentimento é o de que petistas boicotaram a manifestação, estimulando o público de esquerda a não comparecer —inclusive com a hashtag "domingo em casa com Lula".
Na opinião do grupo, isso ampliou a distância entre o PT e o MBL, que já não participou das últimas cinco manifestações de oposição majoritariamente de esquerda feitas desde maio.
A expectativa no MBL é a de que o 2 de outubro seja novamente protagonizado por grupos favoráveis a Lula. A avaliação de que esses atos são demasiadamente vermelhos pesou para o grupo manter distância dos protestos anteriores, além de justificativas ligadas aos riscos da pandemia.
Após o domingo, a rivalidade se ampliou. Renan Santos, líder do MBL, diz que irá processar petistas e jornalistas que identificaram o grupo com o fascismo.
"A manifestação revelou as intenções do PT, com um trabalho bem-feito de desmobilizar a esquerda. Petismo e bolsonarismo agiram da mesma forma", afirmou.
Oficialmente, o PT divulgou nota afirmando que "saúda todas as manifestações 'fora, Bolsonaro'", embora tenha decidido não comparecer.
Do lado da esquerda, os receios de engrossar a manifestação da direita foram confirmados diante das críticas a Lula, inclusive com um boneco pixuleco do ex-presidente. Renan afirmou que esse foi "um dos erros" do ato e reconheceu que o argumento petista para ficar em casa acabou reforçado.
A ausência de público na manifestação do dia 12, admitida pelos nomes mais conhecidos do MBL, não é, contudo, creditada por eles à ausência da esquerda. "O público 'nem, nem', o eleitorado da terceira via, está desmobilizado. A massa ficou em casa", afirmou Renan.
Como previsto, os atos foram identificados com a terceira via, seja pela presença de presidenciáveis desse campo, como João Doria (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Ciro Gomes (PDT), seja pela relação entre o esvaziamento das ruas e a pontuação baixa desses nomes em pesquisas.
Renan, no entanto, considerou ter ficado claro que o protesto foi pelo impeachment. "Não tem que misturar com terceira via. Ninguém falou de candidatura."
De acordo com a porta-voz do VPR, Luciana Alberto, o movimento ainda não discutiu eventual engajamento no dia 2 ou em outras articulações.
"Alguns líderes de esquerda participaram no domingo. Tivemos no mesmo palco diversas vertentes ideológicas. Com isso, há um caminho aberto para essas possibilidades. Mas não houve também nenhum convite formalizado [para participarmos do dia 2]."
Na visão da ativista, "o dia 12 foi bastante razoável no sentido de construir esse entendimento, mas o movimento tem a sua articulação interna. É importante que a sociedade construa esse diálogo, sempre com um grupo respeitando as posições do outro".
Luciana avaliou o protesto de domingo como positivo. "Após a pandemia, há ainda um trabalho grande a ser feito para despertar as pessoas para a mobilização, mas a indignação [com Bolsonaro] existe."
No MBL, o ato é comparado às primeiras manifestações contra Dilma, em 2013, que, pequenas, deram o tom e a estética aos protestos que lotaram a avenida Paulista nos anos seguintes.
Para Renan, deve ocorrer o mesmo em relação ao impeachment de Bolsonaro, com a cor branca e um pacto de não agressão. "Vamos manter um processo de mobilização", diz ele.
"O que tínhamos eram pessoas bem intencionadas, dispostas a deixar as diferenças de lado para apoiar a democracia e o direito de discordar entre si", publicou Rubinho Nunes (PSL), membro do MBL e vereador em São Paulo. "Esquerda, centro e direita se unindo para derrotar um inimigo maior."
Gleisi disse ainda que "unidade não se improvisa, nem se impõe", mas se constrói com diálogo em torno de pautas comuns. "Para ter unidade, é preciso a construção conjunta, não a adesão", afirmou.
Ao UOL, também nesta segunda, Gleisi disse: "Não iremos em nenhum manifestação que ataque Lula e o PT". Ela afirmou que é preciso encontrar "pontos de convergência" para evitar ataques mútuos e que, hoje, o "ponto de convergência" que une PT, MBL e outros grupos é "o 'fora, Bolsonaro', o impeachment".
Integrantes do núcleo de esquerda que organizou cinco manifestações de alcance nacional dizem que o ambiente tem sido cada vez mais aberto à participação de segmentos de outras tonalidades ideológicas, mas a chegada de atores tem que ser deliberada para evitar conflitos.
Para um dos líderes da Campanha Fora Bolsonaro, Raimundo Bonfim, que é coordenador da CMP (Central de Movimentos Populares), o ato previsto para o dia 2 tende a ser um dos mais amplos, se houver o empenho do bloco dos partidos de oposição na preparação e divulgação.
Ele aposta, no entanto, que uma diversificação ainda maior só deva ocorrer em 15 de novembro, para quando está programada uma outra mobilização, também puxada pela coalizão de esquerda.
"Estamos dispostos a fazer esse debate dentro da Campanha Fora Bolsonaro", disse Bonfim sobre uma adesão de MBL e VPR. "Não dá para ter hegemonia de nenhum lado", segue ele, avaliando, contudo, que desentendimentos relacionados ao dia 12 poderão interferir na receptividade aos grupos.
Em outra frente, o grupo Direitos Já usará um evento seu agendado para esta quarta para sensibilizar dirigentes de partidos, entidades da sociedade civil e forças políticas a se unirem em uma coalizão que imite a da campanha pelas Diretas Já, nos anos 1980.
Segundo o porta-voz da iniciativa, Fernando Guimarães, a ideia é trabalhar pela superação de divergências. "Estamos dialogando com todas as forças, partidos e movimentos, fazendo essa mediação para conseguirmos ter um ato unificado", disse.
"A gente tem essa responsabilidade de buscar o diálogo a partir do momento em que percebemos que algumas divisões ainda existem. A questão não é se é A, B ou C convocando, mas se temos a capacidade de estarmos todos juntos. Não é hora de sectarismo ou de olhar para trás", afirmou.
José Nêumanne, do Estadão, elogia Joaquim de Carvalho e seu documentário sobre a fakeada de Juiz de Fora
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247 – O experiente jornalista José Nêumanne, que assina uma coluna no jornal Estado de S. Paulo, elogiou, em seu artigo desta terça-feira o documentário de Joaquim de Carvalho sobre a fakeada de Juiz de Fora e elogiou a seriedade do profissional. "No último fim de semana, outro assunto mereceu a atenção de muitos interessados na questão das mentiras à Goebbels do desgoverno do capitão artilheiro. O jornalista Joaquim de Carvalho divulgou no site 247, em que assina uma coluna, um documentário meticuloso, no qual levanta dúvidas consistentes sobre a facada de que o candidato eleito em 2018 se diz vítima por um ex-militante do PSOL em comício em Juiz de Fora, em 6 de setembro de 2018, durante a campanha", escreveu.
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"A estranheza ganhou corpo quando se tomou conhecimento de que a defesa da eventual vítima, na pessoa do lobista Frederick Wassef, perdeu bisonhamente o prazo do recurso contra a decisão do juiz da comarca da cidade mineira de confirmar a teoria da Polícia Federal de que o agressor seria um 'lobo solitário'. O documentário, de um jornalista com currículo respeitável, tendo sido subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos, e ganho os Prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa), poderá servir de pista para o deputado Alexandre Frota apontar razões para convocar CPI a respeito da facada, apelidada de fake-ada desde que sua colega Joice Hasselmann contou ter ouvido de Bolsonaro: 'se eu levasse facada, ganhava a eleição'”, escreveu ainda Nêumanne.
Garimpeiros cercam os últimos piripkura, indígenas que vivem isolados em MT
Com proteção legal da terra prestes a vencer, pedidos de exploração disparam; 'mapa do ouro' divulgado pelo governo federal chamou a atenção para os recursos
Uma terra indígena com data marcada para acabar, um estudo público que aponta a região onde ela está como promessa para a mineração do país e uma cooperativa de garimpo novata que chegou na frente de todas as grandes empresas e loteou para si a área.
Essa é a combinação de fatores que pode levar, em breve, à extinção dos piripkura, no norte de Mato Grosso.
Cena do documentário "Piripkura", de 2017, que mostra os dois únicos homens conhecidos do grupo que vivem na terra indígena - Divulgação
Se não for renovada, acaba a proteção legal ao território de Pakyî e Tamandua —como se chamam os dois únicos habitantes conhecidos da área.
"Tudo indica que a Funai não vai prorrogar", alerta Ricardo Pael Ardenghi, procurador da República em Mato Grosso. Ele ingressou com uma ação na Justiça para obrigar a manutenção da reserva, mas, a quatro dias do fim do prazo (que se encerra no sábado, 18), ainda não houve decisão.
Além de não dar sinais de que vai manter a proteção aos piripkura, nove meses antes do vencimento da portaria, em dezembro de 2020, o governo federal escolheu justamente a região que abrange o território tradicional para lançar o primeiro de uma série de “mapas do ouro”.
As Cartas de Anomalia, elaboradas pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), apontam os locais onde há mais chances de encontrar metais preciosos em todo o norte de Mato Grosso —incluindo a área dos piripkura.
Depois disso, a Cooperativa dos Mineradores do Vale do Guaporé, criada em 2020, solicitou à Agência Nacional de Mineração (ANM) uma área duas vezes maior que a própria terra indígena para explorar ouro, diamante, manganês e estanho.
São 575 mil hectares requeridos em 65 pedidos de mineração —63 deles iniciados depois que o estudo da CPRM se tornou público.
"A nossa expectativa é ser a cooperativa de maior produção de minério do Brasil, em um curto prazo", projeta Ezequiel Alves, um dos sócios do empreendimento.
Se autorizadas, segundo Alves, as primeiras extrações devem acontecer dentro de quatro ou cinco meses.
Além da Vale do Guaporé, outras sete cooperativas, empresas e pessoas físicas pediram autorização para explorar o subsolo do entorno da TI depois da divulgação das Cartas de Anomalias.
De 1994 a 2020, a região registrou 119 requerimentos. Após as cartas do Serviço Geológico Nacional serem publicadas, foram 202, um aumento de 70% em apenas oito meses.
Para acompanhar os pedidos de exploração do subsolo, o InfoAmazonia consultou as bases do Sistema de Informações Geográficas da Mineração (Sigmine), da ANM, com dados referentes até 26 de agosto de 2021.
O diretor de Geologia e Recursos Naturais do CPRM, Marcio Remédio, porém, rejeita a ideia de que os documentos da estatal estejam estimulando a cobiça pela área.
“Os dados indicam áreas potenciais para ocorrências de recursos minerais, mas também áreas de recarga de aquíferos e outras informações fundamentais para o conhecimento do meio físico. A visão de que dados geocientíficos são apenas para descoberta de recursos minerais é ultrapassada e equivocada”, defende.
Há também 55 pedidos de exploração minerária sobrepostos ao território tradicional, que constam como inativos no banco de dados da ANM. A mineração dentro de terras indígenas não é permitida no Brasil.
"Não tenho a menor dúvida de que [a portaria] é o que segura os mineradores do lado de fora. Hoje há um certo respeito. Não adianta fazer o requerimento dentro da terra porque o processo não vai avançar”, acredita o indigenista Fabrício Amorim, integrante do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI).
"Certamente a grande esperança dos mineradores é que a portaria não seja renovada", concorda Ricardo da Costa Carvalho, pesquisador da Opan (Operação Amazônia Nativa), entidade que lançou um relatório sobre as ameaças aos indígenas isolados em Mato Grosso.
O cerco minerário se soma às ameaças antigas de madeireiros, grileiros e fazendeiros que invadiram o território mesmo depois que a TI ganhou proteção temporária.
"Os poucos remanescentes dos piripkura já estão em risco de vida. A hora em que a portaria deixar de valer os invasores vão para dentro e vão matar os indígenas. E aí não tem como voltar atrás", prevê Ardenghi.
O temor é o mesmo de Rita Piripkura, a terceira indígena conhecida da etnia, que vive fora da TI.
"Tem muita gente andando lá. Vão matar eles dois. Se matar, aí não tem mais", afirma Rita em um vídeo lançado pela ONG Survival International para pressionar pela renovação da portaria.
A decisão que restringe o ingresso, a locomoção e a permanência de pessoas dentro dos 240 mil hectares da TI, com exceção dos quadros da Fundação Nacional do Índio (Funai), vem sendo continuamente renovada desde 2008, com duração de três anos. A última vez foi em 2018, no governo Michel Temer (MDB).
É um paliativo diante da demora para a conclusão da demarcação, que se arrasta desde que os indígenas foram contatados, nos anos 1980.
Elias dos Santos Bigio, pesquisador da Opan e ex-coordenador-geral de Índios Isolados e Recém Contatados da Funai, conta que já ouviu de Pakyî, Tamandua e Rita Piripkura que existem outros parentes vivendo na área.
São os sobreviventes de um processo de extermínio que começou na década de 1970, quando latifundiários se instalaram na região, com o apoio do governo de Mato Grosso, e desmataram áreas gigantescas.
Na década seguinte, —época dos primeiros contatos da Funai com os piripkura —ainda havia entre 15 e 20 indígenas vivendo em isolamento voluntário na região.
"É um mistério: onde estão os restantes dos piripkura que existiam na década de 1980? Morreram? É difícil saber, eles não falam muito sobre isso”, pondera Amorim, da OPI.
“Na nossa opinião, enquanto houver dúvida sobre a existência [de outros remanescentes], é preciso manter a terra indígena do tamanho que ela está”, avalia.
Os Pirikpura em retrato do acervo da Funai, tirado durante uma visita em 2010 - Acervo Funai
Até 2007, quando uma expedição da Funai localizou Pakyî e Tamandua, eles haviam permanecido dez anos sem nenhum tipo de contato.
Mesmo depois disso, foram vistos raras vezes, como no dia em que a dupla foi até a base da Funai pedir fogo para reacender sua tocha, momento que entrou para a história no documentário “Piripkura" (2017).
Embora os remanescentes mantenham a cultura e a língua tradicionais, restam dúvidas sobre até quando vão resistir às pressões.
"Tudo indica que eles abandonaram as roças e as aldeias para adotar um modo de vida um pouco nômade. Tornam-se coletores, pescadores e caçadores, porque o inimigo está vindo atrás deles, ocupando seu território e usurpando os recursos naturais", conta Ariovaldo José dos Santos, servidor aposentado da Funai que participou das primeiras expedições de localização dos piripkura.
Além dos piripkura, a campanha do OPI, ISA, Coiab e Survival International alerta para a necessidade de renovação das portarias de outras três TIs de povos isolados: os territórios dos pirititi, em Roraima, e dos jacareúba/katawixi, no Amazonas, ambos com proteção legal até dezembro de 2021, e Ituna/Itatá, no Pará, que vence em janeiro de 2022.
Procurada, a Funai não afirmou se a portaria será renovada, mas declarou que “adotará providências administrativas e técnicas” sobre estudos que estão sendo elaborados para “subsidiar a tomada de decisão”.
Acrescentou ainda que tem um grupo técnico capacitado trabalhando nas questões relacionadas à TI Piripkura e ressaltou que “as ações de proteção territorial são o principal mecanismo para a proteção de indígenas isolados e de recente contato”.
A reportagem foi produzida pelo InfoAmazonia com apoio da Opan (Operação Amazônia Nativa).
Opinião: Entendendo Bolsonaro - Militarização e negação da política empurram polícias para o bolsonarismo
7.set.2021 - Ex-comandante da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), tropa da PM, discursa em ato de apoio ao governo Bolsonaro, na Praça da República, em São Paulo Imagem: Leonardo Martins/UOL
No entanto, não foi isso que ocorreu no dia da Independência do Brasil. Se pesquisas recentes indicam haver apoio expressivo a Bolsonaro nas PMs, na prática, por enquanto, isso não resultou em episódios de insubordinação das tropas a favor do presidente. Essa ausência de adesão explícita dos policiais nas manifestações e de incidentes violentos tranquilizaram governadores e boa parte da população, que temiam uma escalada da violência e a quebra da ordem institucional.
Ainda assim, a questão do bolsonarismo entre as polícias permanece e a pergunta que fica é: o que levou essa ideologia a se tornar tão presente entre as forças de segurança do país? Para respondê-la, é imprescindível falar sobre a militarização da segurança pública.
É fato que o governo Bolsonaro tem na militarização uma das principais âncoras do seu discurso, reforçada pelo fato de sua gestão ter alocado milhares de militares na máquina pública federal.
"Sempre houve uma identificação de eleitores policiais militares com candidatos que têm uma pauta mais endurecida de combate na segurança pública, que defendem a eliminação do inimigo e condecorações a policiais que matam, ou seja, uma visão mais militarizada. Na minha percepção, isso ganhou amplitude com a eleição do Bolsonaro porque ele sempre defendeu esse discurso e agora, pela posição que ocupa, a sua voz é amplificada", afirma o tenente-coronel da reserva da PM paulista Adilson Paes de Souza, mestre em Direitos Humanos e doutor em Psicologia.
Segundo Souza, na visão da maioria dos policiais militares, Bolsonaro seria a encarnação da "autoridade em pessoa", e para eles, sendo uma autoridade, o presidente poderia falar e fazer o que quer sem consequências em nome da segurança pública. "Há um mecanismo de projeção. Os policiais se projetam no Bolsonaro, querem ser ele e se reconhecem nele".
A negação da política
Outro fator de extrema importância ligado à militarização da segurança que explica a inserção do bolsonarismo nas tropas é a despolitização das PMs, fruto do seu caráter militar, que inibe a livre manifestação de membros da corporação, principalmente da ativa.
"A militarização da segurança pública retira do policial a sua condição de trabalhador e os direitos decorrentes dela. Ele não possui direito de sindicalização, de fazer greve, de livre manifestação de pensamento. Nesse debate sobre a participação política de policiais, infelizmente nosso campo da esquerda tem se inclinado a uma ideia da qual discordamos, que é a de que a política tem que ser afastada das polícias por elas serem 'órgãos técnicos'", defende Orlando Zaccone, delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro e membro do movimento Policiais Antifascismo.
De acordo com Zaccone, o que ocorreu em São Paulo com o afastamento do comandante da PM Aleksander Lacerda pelo governador João Doria (PSDB) foi um ato absolutamente natural, fruto da administração pública. "Ninguém quer assumir que fez uma intervenção política, mas qual o problema de se fazer isso? É preciso compreender definitivamente que a escolha de um secretário de segurança, de um comandante da PM, são escolhas políticas. É natural que o governador indique para cargos de confiança pessoas politicamente alinhadas a ele. Infelizmente, quem veio com essa história de que a polícia é um 'órgão técnico' foi o campo da esquerda, que tem errado muito na área de segurança pública".
Para o delegado, a segurança pública é uma área de prestação de serviços com profissionais que devem ser qualificados enquanto trabalhadores para serem reconhecidos como tais. "Se os policiais se reconhecem enquanto trabalhadores, eles podem participar da luta dos demais trabalhadores e serem reconhecidos por eles como iguais, acabando com esse conflito fictício entre esses dois grupos", justifica.
Em 2017, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que servidores que atuam diretamente na área de segurança pública não podem entrar em greve porque desempenham atividade essencial à manutenção da ordem pública, estendendo a ausência do direito de greve também às polícias civis. "Tudo isso sob aplausos de setores da esquerda, o que gera paradoxos, porque queremos a desmilitarização, mas igualamos os policiais civis aos militares, tirando deles o direito de greve", alerta o delegado.
Para Zaccone, essa busca por uma polícia técnica idealizada acaba tendo um efeito reverso, servindo para jogá-la no "submundo" da política e a aproximando, por exemplo, de milícias. "É impossível afastar a política das polícias e esse 'submundo' é muito mais perigoso do que a participação institucional de policiais que se manifestam dentro de uma ordem constitucional, respeitando os limites do direito de manifestação", argumenta.
Cadeia de comando
A própria existência da PM como força de segurança que possui o papel de força auxiliar do Exército foi construída por meio da política e do lobby do Exército na Assembleia Nacional Constituinte, que deu origem à Constituição de 1988. "Ela existe nos moldes atuais pelo interesse do Exército em ter o controle total de mobilização do território brasileiro, sem a necessidade de movimentar o Comando Militar do Leste, por exemplo. As polícias já estão nos estados prontas para agir rapidamente inclusive, em determinadas situações, contra o próprio governador", explica.
De acordo com o antropólogo, cientista político e ex-secretário nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares em seu livro Desmilitarizar, "a legislação que rege as polícias militares no país (Constituição Federal; Decreto 88.777/83; Decreto-lei 667/69, modificado pelo Decreto-lei 1.406/75; e Decreto-lei 2010/83) determina que o Exército é responsável pelo 'controle e pela coordenação' das polícias militares, enquanto as secretarias de Segurança dos estados têm autoridade sobre sua 'orientação e planejamento'".
Essa situação resulta, na prática, em um paradoxo que faz com que os comandantes gerais das PMs se reportem a "dois senhores". Todas as polícias militares estão vinculadas, portanto, a duas cadeias de comando: uma delas ligada ao secretário de Segurança e ao governador; e a outra ao comandante do Exército, ao ministro da Defesa e ao presidente da República.
O tenente-coronel Adilson Paes de Souza concorda com a ideia de permitir a manifestação política por parte de policiais militares da ativa e reserva, assim como de agentes das polícias civis e federal. "São cidadãos, votam, têm expectativas políticas com os candidatos que escolheram e devem ter o direito de criticá-los e de apontar falhas dos governos e caminhos de acordo com as suas percepções. Tudo isso dentro dos limites estipulados pela Constituição, o que não inclui a defesa de ruptura democrática e ataque às instituições".
Ele lembra que os praças das polícias militares apenas adquiriram direito ao voto na Constituição de 88 e que é justamente o processo de militarização, fenômeno que se intensificou na ditadura militar, especialmente a partir de 1969, com o Decreto-lei 667/69, que colocou o controle e a coordenação das PMs sob o comando do Exército, o principal responsável pela falta de liberdade de expressão das polícias.
"Hoje temos uma PM a serviço de um poder militar que historicamente só serviu ao poder econômico, infelizmente. Isso só interessa aos próprios militares, que ainda temem o fantasma da 'Intentona Comunista'", afirma Zaccone.
O que, portanto, deveria ser feito em relação às polícias? O delegado responde: "Ao invés desse discurso ingênuo que esconde a total politização dos militares e policiais, defendemos disputar as ideias entre eles. Dizer que essa participação política não pode existir é manter essa tradição que faz com que militares e policiais entrem na política por um caminho 'subterrâneo'. Isso é o perigoso".
* Raul Galhardi é jornalista e mestre em Produção Jornalística e Mercado pela ESPM-SP
A ascensão do bolsonarismo foi amplamente viabilizada por conta do sentimento antissistema que o golpe organizado contra Dilma Rousseff gerou na maior parte da população brasileira.
Na ânsia de assumir o poder subvertendo o resultado das eleições de 2014, a direita liberal e a maior parte das mídias hegemônicas nacionais se utilizaram de movimentos políticos como o MBL (Movimento Brasil Livre), o Livres e o Vem Pra Rua para atacar a gestão petista, o que funcionou, mas acabou por desacreditar toda a política institucional do país e, consequentemente, elegeu o governo Frankenstein do bolsonarismo que hoje esses mesmos grupos tentam derrubar.
Figuras como João Amoedo, João Doria e Alvaro Dias são alguns dos principais líderes envolvidos na convocação para os atos desse domingo (12). Evidentemente, a causa é nobre e Bolsonaro deve, sim, sofrer o impeachment e responder pelos seus crimes, mas a desfaçatez desses grupos sociopolíticos não pode simplesmente passar incólume, até porque ela é parte fundamental para entender a situação dantesca que nos assola e evitar que ela se repita.
Essa desfaçatez e a falta de respeito ao jogo democrático são as mesmas características que fazem com que o próprio Bolsonaro declare guerra ao STF e às instituições brasileiras no dia 7 de Setembro e, apenas um dia depois, peça auxílio a Michel Temer, um dos grandes símbolos do golpismo e do fisiologismo brasileiro, para voltar atrás e dizer que agiu no "calor do momento".
Como no romance de Mary Shelley, o monstro criado por Victor Frankenstein adota métodos desumanos e antiéticos similares aos que foram empregados na sua criação e passa a fazer demandas, eliminando as pessoas para reforçar as suas exigências, inclusive, o seu próprio criador ao término do livro. Finalmente, o monstro chega a desejar o seu próprio fim por não aceitar a dor e a solidão que o acometem.
Sem dúvida, contudo, as principais lideranças da esquerda erraram ao não se anteciparem no sentido de lançar o primeiro ataque após a carta redigida por Temer e que enfraqueceu ainda mais a adesão ao bolsonarismo. Política institucional é feita de momentos e oportunidades. Senso oportunístico é o que essas figuras que convocam hoje às ruas têm de sobra, conforme já demonstraram em outras ocasiões.
A maior parte dos grupos que hoje saem para pedir o impeachment de Bolsonaro assim o fazem porque foram descartados das posições de poder que sempre almejaram conquistar.
Evidentemente, a questão central não é a defesa da democracia brasileira ou da soberania do voto popular. As análises que defendem a legitimidade dos atos de hoje por meio desses argumentos simplesmente esquecem de considerar que quem apoiou a recontagem de votos de Aécio Neves, o impeachment sem crime de responsabilidade de Dilma Rousseff, o conluio jurídico-midiático da Lava-Jato e a inelegibilidade de Lula em 2018 não pode estar muito preocupado com esses valores republicanos e democráticos apenas alguns anos depois.
Talvez, esses analistas também apoiem os atos de hoje, porque, assim como os grupos envolvidos com as convocações desse domingo, acabaram por se arrepender do monstro que ajudaram a criar.
* Cesar Calejoné jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente).
Opinião: Entendendo Bolsonaro - Na gramática bolsonarista, 'Rachadinha' não quer dizer corrupção
Queiroz é tietado com apoiadores de Bolsonaro Imagem: Reprodução: Arthur Guimarães/TV Globo
* Igor Tadeu Camilo Rocha
As inúmeras acusações de esquema de "rachadinha" — outro nome para o crime de peculato, fundamental frisar —, reforçadas por denúncias como as que vêm sendo publicadas pelo UOL e pelo Metrópoles, são substantivos indícios de que Jair Bolsonaro seja, sim, corrupto. Corrupto aqui definido como uso indevido do erário público e de posições na administração do Estado em benefício particular, sempre no atropelo da lei.
Não só Bolsonaro, mas sua família, agregados e pessoas próximas, a se confirmarem as denúncias, seriam corruptos nesse mesmo sentido. O atual presidente pensa o Estado, como já discuti nesse espaço à ocasião da sua escolha de um novo ministro da Saúde, segundo uma lógica em que ocupá-lo, disputá-lo e loteá-lo em benefício particular seria um fim em si mesmo. Bolsonaro pensa o Estado como extensão de sua casa.
A CPI da Covid, que começou investigando o gabinete paralelo e práticas negacionistas e anticientíficas no trato da covid-19, adentrou um escandaloso esquema de corrupção envolvendo o Ministério da Saúde, empresas e governistas do "centrão", dando à comissão contornos novos. A se confirmarem essas outras denúncias, podemos começar a conceber que a distância entre o negacionismo e o patrimonialismo não existe no bolsonarismo. Pelo contrário, se encontram nele, formando uma agenda política de aparelhamento e desmonte da própria máquina estatal.
Entendendo o bolsonarismo por essa via, podemos chegar à conclusão de que a corrupção seja um aspecto constitutivo deste grupo político. E assim, caberia uma pergunta óbvia: como foi possível a este mesmo governo se eleger sob forte discurso anticorrupção? Para respondê-la, é crucial ter em vista o real significado da palavra "corrupção" no vocabulário bolsonarista.
No sentido predominante ao bolsonarismo e com lastro no pensamento da direita brasileira, corrupção é uma categoria vaga, abstrata no nível quase religioso, e que constantemente serve como elemento de demonização do adversário; a segunda, complementar à primeira, é que o que se entende como corrupção seria o oposto daquilo que chamam de liberalismo, este segundo sua definição particular.
Para tentar clarear melhor esses dois pontos, revisitemos o "Caminho da Prosperidade", programa de governo apresentado por Bolsonaro nas eleições de 2018.
Na página 35 do documento, há o título "Sufocar a corrupção". Mas ele é somente um subtítulo do capítulo intitulado "Segurança Pública e Combate à Corrupção", que começa já na página 14. A linguagem punitivista perpassa os dois tópicos a ponto de quase se confundirem. Diria que o segundo se dilui no primeiro.
Na relativamente longa apresentação de dados (problemáticos) sobre segurança pública, armas e prisões são apresentadas como resolução de problemas. Posteriormente, o tópico específico sobre corrupção traz somente dois itens explicando quais seriam as medidas a serem adotadas no governo contra o problema. São eles: 1) "Transparência e Combate à Corrupção são metas inegociáveis", algo que em si nada diz, mas que é complementado por 2), que afirma "como pilar deste compromisso, iremos resgatar As Dez Medidas Contra a Corrupção, propostas pelo Ministério Público Federal e apoiadas por milhões de brasileiros."
A linguagem punitivista une os tópicos sobre uma corrupção generalizada e a respeito da segurança pública ("Brasil em guerra", usando seus termos). E se une de maneira mais clara ao definir o agente causador dos dois problemas: a esquerda. Ela aparece no texto como elo que une narcotráfico, políticas de desarmamento, corrupção em estados "governados pelo Foro de São Paulo" (do Nordeste, na sua maioria), a limitação de ações das autoridades policiais e ineficiência da máquina pública.
Não há, efetivamente, medidas concretas sobre como combater a corrupção, exceto uma evocação das "dez medidas" propostas pelo MPF, operação que se vale da imagem da Lava Jato como aquela operação que combateu a esquerda e o PT.
É nesse ponto que chegamos à primeira resposta, no caso, de a corrupção ser evocada por essa direita bolsonarista numa acepção semirreligiosa a fim de demonizar adversários, reduzindo-os a inimigos a serem eliminados. Não se trata de inovação do bolsonarismo, pois, no vocabulário político brasileiro, corrupção nessa acepção remonta ao udenismo ou às Marchas com Deus pela Família, só para ficar nesses exemplos.
Nessa acepção, corrupção é representada enquanto um mal ético-moral onipresente, que cerca o "cidadão de bem" cuja sensibilidade se quer atingir. O adversário político é colocado na posição de agente de um "pior dos mundos", no qual a honestidade e o patriotismo do "nós" são delimitados como contraponto a um "outro" enquanto "bandido", "comunista" etc.
Não é fortuito que o tema corrupção esteja diluído no da segurança pública, já que a construção de ambas, nessa retórica bolsonarista, se vale de chaves de leitura parecidas. Não é de hoje, por exemplo, a importância da linguagem do jornalismo "mundo cão" para a visão de mundo das direitas e do bolsonarismo. Assim, se atrela a corrupção à sensibilidade política do "cidadão de bem".
Cabe aqui menção ao lavajatismo, antipolítico na sua essência, e que por isso dialoga de maneira formidável com esse tipo de retórica. Combater a corrupção, nesse caso, é combater um inimigo e não importa os abusos jurídicos ou policiais que se cometa.
Complementar a isso, atrela-se o pânico moral como componente dessa forma semirreligiosa de entender a corrupção: doutrinação nas universidades e sexualização das crianças, que aparecem no título de educação como grandes marcas do inimigo (a esquerda) nesse campo, são bons exemplos.
Vemos o segundo ponto, da corrupção como oposto de liberalismo. Isso aparece já na página 5, no tópico "Liberdade e Fraternidade!". Nesse trecho, o programa adota como pressupostos que, "quebrando com o atual ciclo" de governos e, com isso, obtendo "o Brasil livre do crime, da corrupção e de ideologias perversas, haverá estabilidade, riqueza e oportunidades para todos tentarem buscar a felicidade da forma que acharem melhor." A isso, complementa que o programa do governo que seria eleito defende "liberdade para as pessoas, individualmente, poderem fazer suas escolhas afetivas, políticas, econômicas ou espirituais."
Também é dito na mesma parte que "qualquer forma de diferenciação entre os brasileiros não será admitida", além de uma constante reafirmação de que tais direitos seriam garantidos somente se alguns deveres fossem observados, como a obediência às leis brasileiras e à Constituição (ponto risível se pensarmos nas ameaças de Bolsonaro a ambas).
"A Liberdade é o caminho da prosperidade. Não permitiremos que o Brasil prossiga no caminho da servidão", aparece num trecho que talvez aluda ao influente livro de Friedrich Hayek, ícone do ultraliberalismo, publicado em 1944.
É a partir desses pressupostos que se desenvolve a ideia de corrupção como antítese de um liberalismo. Mas trata-se de um liberalismo que prescinde das formas políticas do mesmo liberalismo (a democracia liberal), aceitando perfeitamente uma sociedade e Estado autoritários, desde que disponha de livre mercado e que este sirva à manutenção e reforço de hierarquias sociais tradicionais.
Apontaria, ao menos, três bases nas quais essa construção da retórica anticorrupção bolsonarista se sustenta. A primeira é um completo esvaziamento do sentido de Estado como ente coletivo e promotor de progresso ou igualdade social. O "governo recuará, para que os cidadãos possam avançar", já que ele "confiará no cidadão, simplificando e quebrando a lógica que a esquerda nos impôs de desconfiar das pessoas corretas e trabalhadoras," diz.
Também podemos ver que, dentro desse universo ideológico, a própria política é reduzida, na medida em que é sobreposta a um tecnicismo neoliberal que vincula quaisquer outros projetos político-econômicos a aparelhamentos, distribuição de vantagens, "toma lá, dá cá" etc.
E então chegamos a uma segunda base, que é um atomismo quase absoluto, segundo o qual o indivíduo livre de amarras do Estado poderia realizar todos os seus objetivos. Embora haja título defendendo, por exemplo, renda mínima universal (fazendo questão de frisar que isso seria uma ideia liberal, e não de esquerda), é uma constante no programa insistir em valores de sucesso individual.
A própria ideia mencionada acima de se vetar qualquer diferenciação entre cidadãos brasileiros dialoga bem com essa concepção. Segundo o bolsonarismo, políticas para minorias, reparatórias ou promotoras de inclusão seriam também "corrupção" por tratarem indivíduos que são parte dessa "nação" de maneira diferente.
Por fim, esse liberalismo bolsonarista afirma uma necessidade de haver uma refundação da sociedade e do Estado brasileiros. Nesse "novo mundo", a corrupção, aqui concebida como um valor nacional que foi reforçado pelos governos anteriores, seria vencida pelo atual governo na medida em que ele destrói tudo o que havia antes e reconstrói o Brasil e o brasileiro à sua própria imagem.
O título "Liberalismo Econômico" (a partir da página 13) começa dizendo que "economias de mercado são historicamente o maior instrumento de geração de renda, emprego, prosperidade e inclusão social", mas que "o Brasil NUNCA adotou em sua História Republicana os princípios liberais". Pelo contrário, optou por ideias "obscuras, como o dirigismo, resultaram em inflação, recessão, desemprego e corrupção." E, claro, o principal exemplo dessas práticas que é apontado é o PT.
O programa de Bolsonaro se propõe a acabar com um Estado corrupto, deficitário, excessivamente burocrático e interventor, e assim finalmente implementar seu liberalismo. Com isso, haveria também uma profunda mudança social. "O Brasil passará por uma rápida transformação cultural, onde a impunidade, a corrupção, o crime, a 'vantagem', a esperteza, deixarão de ser aceitos como parte de nossa identidade nacional, POIS NÃO MAIS ENCONTRARÃO GUARIDA NO GOVERNO" (maiúsculas do original).
É importante entendermos que essa construção não é contraditória com as práticas do governo Bolsonaro. Há exceções claras ao esvaziamento e diminuição do Estado. Por exemplo, na educação, justiça e segurança pública, quanto mais presente for o Estado para banir a corrupção moral que teria sido imposta pela "doutrinação", criminalidade ou narcotráfico, melhor. Seria aceito qualquer tipo de ingerência ou autoritarismo nessa operação para o bem geral, nesse sentido.
Da mesma forma, não é contraditório querer implementar um liberalismo supostamente inédito no Brasil aliando-se ao centrão e a práticas patrimonialistas, uma vez que, partindo-se da concepção de que todo o Estado é corrupto, apropriar-se dele funciona como meio para implementar as reformas que visam a destruí-lo e refunda-lo segundo o desejo bolsonarista.
Nesse sentido, para concluir, essa leitura que concebe a corrupção como grande mal moral ou como antítese de uma certa ideia de liberalismo atua nas sensibilidades políticas conservadoras brasileiras de várias vertentes, desde os fãs de programas "pinga sangue" aos "farialimers" e simpatizantes que aceitariam um governo autoritário por reformas neoliberais. E isso é algo que o bolsonarismo não inventou, pois faz parte do imaginário político de direitas não democráticas brasileiras desde, pelo menos, meados do século XX e que permanecem presentes, servindo para que fenômenos como o bolsonarismo tenham adesão social.
* Igor Tadeu Camilo Rochaé doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais
Renan teme que trabalho da CPI acabe morrendo em gaveta da Câmara ou da PGR
Colaboração para o UOL
14/09/2021 10h13
Atualizada em 14/09/2021 16h08
O colunista do UOL Josias de Souza afirmou que o relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), teme que o investigação feita pela Comissão acabe morrendo no fundo de uma gaveta da Câmara dos Deputados ou da PGR (Procuradoria Geral da República), visto que atualmente os líderes dessas duas instituições, Arthur Lira e Augusto Aras, respectivamente, definem se o relatório final abrirá algum processo de impeachment ou não.
"A mera preocupação do Renan com esses superpoderes atribuídos ao Lira e ao Augusto Aras revela o receio da Cúpula da CPI de que o trabalho da Comissão, toda essa investigação parlamentar feita no Senado, acabe morrendo no fundo de uma gaveta: seja a gaveta da presidência da Câmara, seja a gaveta do procurador-geral", disse Josias, no UOL News dessa manhã.
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A opinião de Josias ocorre após Renan Calheiros ter acionado o criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, para apresentar propostas de mudanças legislativas para o relatório final da CPI e que teriam o intuito de tirar os "poderes imperiais" do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e do procurador-geral da República, Augusto Aras.
A abertura ou arquivamento de processos sobre crime de responsabilidade contra o presidente da República é decisão do presidente da Câmara, Arthur Lira, enquanto de crimes comuns é feita pelo procurador-geral da República, Augusto Aras. "Lira mantém num gavetão de pendências mais de 130 pedidos de impeachment formulados contra Jair Bolsonaro", contextualiza Josias.
Com a proposta que encantou o Renan Calheiros, a conclusão sobre a decisão de abertura de pedidos de impeachment por crime de responsabilidade seria transferida para o Plenário da Câmara, de modo que caberia aos deputados definir se o processo deve caminhar ou não. No caso de crimes comuns, a proposta seria de que mesmo que o procurador-geral Augusto Aras discorde dos crimes imputados pela CPI contra o presidente, uma decisão de arquivamento ainda poderia ser revertida por um um grupo pré-definido de sub-procuradores do MPF (Ministério Público Federal).
Opinião: Thaís Oyama - A "coincidência" do adiamento do julgamento de Flávio Bolsonaro no STF
Thaís Oyama
Colunista do UOL
14/09/2021 11h43
Cinco dias depois de o presidente Jair Bolsonaro divulgar sua carta-recuo à nação, amaciando ataques feitos ao STF, a Segunda Turma da Corte decidiu adiar o julgamento de uma questão de suprema importância para o presidente e sua família.
Estava marcada para hoje a sessão que decidiria em que instância deveria ser julgado o senador Flávio Bolsonaro, réu por peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro no caso da rachadinha.
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A defesa de Flávio briga pelo foro privilegiado — quer que o STF mantenha a decisão que tirou o senador das temidas mãos do juiz de primeira instância Flávio Itabaiana e o levou para o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio, na segunda instância.
Já o Ministério Público do Rio quer que Flávio volte a ser julgado na primeira instância.
A Segunda Turma do STF, responsável por decidir o impasse, é composta por cinco ministros, mas atualmente só tem quatro: Kassio Nunes Marques, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Edson Fachin.
Carmem Lúcia, que era o quinto nome, pediu para ser transferida para a Primeira Turma, que também estava desfalcada com a saída do ex-ministro Marco Aurélio Mello e agora está completa.
Se o caso Flávio fosse julgado hoje, portanto, o resultado mais provável seria o empate, dado que apenas dois votos estariam garantidos em favor do senador: o de Kassio Nunes Marques, o novato indicado pelo presidente, e o de Gilmar Mendes, que já se declarou favorável à manutenção do foro privilegiado para Flávio em decisão liminar dada em janeiro.
O empate seria um mau resultado para o filho mais velho de Bolsonaro, dado que, nessa circunstância, o princípio do in dubio pro reo não seria aplicável.
O pressuposto que converte o resultado em benefício do réu diante do empate só vale para questões "de mérito", ou seja, que discutem culpa e inocência, validade ou não de provas. Não é o caso da discussão que envolve Flávio, esta apenas processual.
Se, no entanto, o julgamento do senador ocorrer depois da nomeação do novo ministro indicado por Bolsonaro, o placar altamente provável será a sua vitória, dado que o novato terá de ir necessariamente para a Segunda Turma e não é razoável esperar que ele seja alguém com independência suficiente para votar em desalinho com os interesses do presidente e de seu filho.
Só que, para incluir o voto do novo ministro, o julgamento do senador teria de ser adiado.
O número de dias extremamente quentes, quando a temperatura passa de 50°C, registrados a cada ano dobrou desde a década de 1980.
Essa foi a conclusão de um estudo realizado pela BBC, que apontou também que isso acontece agora em mais áreas do mundo do que antes, criando desafios sem precedentes à saúde humana e à forma como vivemos.
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O número total de dias com temperaturas acima de 50ºC aumentou em cada uma das últimas quatro décadas.
Entre 1980 e 2009, as temperaturas ultrapassaram os 50ºC cerca de 14 dias por ano em média, subindo para 26 dias por ano entre 2010 e 2019.
No mesmo período, temperaturas de 45ºC e acima ocorreram em média duas semanas a mais por ano.
"O aumento pode ser 100% atribuído à queima de combustíveis fósseis", disse Friederike Otto, cientista do clima, do Instituto de Mudança Ambiental da Universidade de Oxford.
À medida que o mundo inteiro esquenta, as temperaturas extremas se tornam mais prováveis e intensas.
O calor intenso pode ser mortal para os humanos e a natureza, além de causar grandes problemas para edifícios, estradas e sistemas de energia.
Temperaturas de 50°C acontecem predominantemente nas regiões do Oriente Médio e do Golfo.
E, depois de temperaturas recordes de 48,8ºC na Itália e 49,6ºC no Canadá neste verão, os cientistas alertaram que dias acima de 50ºC acontecerão em outros lugares, a menos que reduzamos as emissões de combustíveis fósseis.
"Precisamos agir rapidamente. Quanto mais rápido cortarmos nossas emissões, melhor para todos", disse o pesquisador do clima Sihan Li, da Universidade de Oxford, no Reino Unido
"Com as emissões contínuas e a inação, não apenas esses eventos de calor extremo se tornarão mais graves e mais frequentes, mas a resposta de emergência e a recuperação se tornarão mais desafiadoras", alerta Li.
A análise da BBC também descobriu que, na década mais recente, as temperaturas máximas aumentaram 0,5°C em comparação com a média de longo prazo de 1980 a 2009.
Mas esses aumentos não foram sentidos igualmente em todo o mundo: a Europa Oriental, o sul da África e o Brasil viram algumas temperaturas máximas subirem mais de 1°C, e partes do Ártico e do Oriente Médio registraram aumentos de mais de 2°C.
Os cientistas estão pedindo uma ação urgente dos líderes mundiais na cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU) em novembro, onde os governos serão solicitados a se comprometer com novos cortes de emissões a fim de limitar o aumento da temperatura global.
Impactos do calor extremo
Esta análise da BBC lança uma série de documentários chamada Life at 50ºC (Vida a 50ºC, em tradução livre), que investiga como o calor extremo está afetando vidas em todo o mundo.
Mesmo abaixo de 50°C, altas temperaturas e umidade podem criar graves riscos à saúde.
Cerca de 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo podem enfrentar condições de estresse por causa do calor até 2100 se os níveis atuais de aquecimento global continuarem, de acordo com um estudo da Universidade Rutgers (EUA) publicado no ano passado. Isso é pelo menos quatro vezes mais do que os afetados hoje.
As pessoas também enfrentam escolhas difíceis à medida que a paisagem ao redor muda, já que o calor extremo aumenta a probabilidade de secas e incêndios florestais.
Sheikh Kazem Al Kaabi é um agricultor de trigo de uma vila no centro do Iraque, que sofre com as temperaturas extremas quase todos os anos.
A terra ao seu redor já foi fértil o suficiente para sustentar ele e seus vizinhos, mas aos poucos se tornou seca. "Toda essa terra era verde, mas tudo isso se foi. Agora é um deserto, seca."
Quase todas as pessoas de sua aldeia se mudaram para procurar trabalho em outras regiões. "Perdi meu irmão, queridos amigos e vizinhos leais. Eles compartilharam tudo comigo, até meu riso. Agora ninguém compartilha nada comigo, estou só nesta terra vazia."
Metodologia
O local onde moro ultrapassou os 50ºC, por que ele não está representado?
Relatórios de temperaturas recordes geralmente vêm de medições feitas por uma estação meteorológica individual. Mas os dados estudados representam áreas maiores do que aquelas cobertas por uma única estação.
Por exemplo, o Parque Nacional do Vale da Morte, no sul da Califórnia, nos Estados Unidos, é um dos lugares mais quentes da Terra. As temperaturas em certas partes do parque regularmente passam de 50ºC no verão.
Mas ao criar uma média para as temperaturas máximas para a área mais ampla, usando várias fontes diferentes, um valor abaixo de 50ºC é alcançado.
De onde vêm os dados?
A BBC usou as temperaturas máximas diárias do conjunto de dados ERA5 global de alta resolução, produzido pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus. Estes dados são frequentemente usados ??para estudar tendências climáticas globais.
O ERA5 combina observações meteorológicas reais de muitas fontes, como estações e satélites, com dados de modelos modernos de previsão do tempo.
O processo preenche lacunas criadas pela cobertura deficiente de estações em muitas partes do mundo e nos ajuda a entender as mudanças climáticas.
Que análise fizemos?
Usando a temperatura máxima para todos os dias de 1980 a 2020, identificamos com que frequência as temperaturas ultrapassavam os 50ºC.
Contamos o número de dias e locais com temperatura máxima de 50ºC ou mais para cada ano, para determinar a tendência ao longo do tempo.
Também observamos a mudança nas temperaturas máximas. Fizemos isso calculando a diferença entre a temperatura máxima média em terra e no mar para a década mais recente (2010-2019) em comparação com os 30 anos anteriores (1980-2009).
Médias de pelo menos 30 anos consecutivos são conhecidas como climatologias. As climatologias de 30 anos são usadas para mostrar como os períodos recentes se comparam a uma média do clima.
O que queremos dizer com 'local'?
Cada local tem aproximadamente 25 km², ou cerca de 27-28 km² na região do equador. Essas grades podem cobrir grandes áreas e conter muitos tipos diferentes de paisagem.
As áreas quadriculadas são formadas por quadrados de 0,25º de latitude por 0,25º de longitude.
Créditos
Metodologia desenvolvida com o apoio de Sihan Li, da Escola de Geografia e Meio Ambiente da Universidade de Oxford, e de Zeke Hausfather de Berkeley Earth e The Breakthrough Institute.
Análise externa do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo.
Agradecimentos especiais a Ed Hawkins, da University of Reading, bem como a Richard Betts e a John Caesar, do Met Office.
Análise de dados e jornalismo por Nassos Stylianou e Becky Dale.
Design de Prina Shah, Sana Jasemi e Joy Roxas.
Desenvolvimento de Catriona Morrison, Becky Rush e Scott Jarvis.
Engenharia de dados por Alison Benjamin.
Estudo de caso de Namak Khoshnaw e Stephanie Stafford.
Entrevista com Otto por Monica Garnsey.
A visualização clima é cortesia de Ed Hawkins e da University of Reading.
Leonardo Sakamoto - Os 7 erros do jantar em que Temer riu (da imitação) de Bolsonaro
14/09/2021 12h19
Atualizada em 14/09/2021 15h04
Viralizou nas redes um vídeo em que o humorista André Marinho imita Jair Bolsonaro em um jantar de homenagem a Michel Temer nesta segunda (13). A gravação chama a atenção por trazer, além de uma boa imitação, um pacote simbólico do que representa o poder no Brasil. Incluindo os erros desse poder frente à realidade.
1) O local do rega-bofe, que juntou parte da nata da sociedade, é a residência do investidor Naji Nahas, um antigo conhecido da polícia e amigo de Temer. Foi preso pela Polícia Federal em meio à operação Satiagraha, em uma investigação de corrupção e lavagem de dinheiro em 2008. Não era figurinha nova: quase 20 anos antes, em 1989, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro despencava por conta de golpes que ele aplicou no sistema financeiro. Também foi apontado como interessado no trágico despejo dos moradores do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), que ficou conhecido pela violência contra os sem-teto.
Renan teme que trabalho da CPI acabe morrendo em gaveta da Câmara ou da PGR
2) Todos os sentados à mesa são homens, brancos e ricos, uma fotografia do poder tradicional. Dentre as 18 pessoas, não há uma mulher ou pessoa negra, apesar de ambos os grupos serem maioria no país. A imagem é de 2021, mas poderia muito bem ter sido usada para representar a "Convenção de Itu de 1873" no lugar da famosa pintura de Jonas de Barros, que representava os republicanos no Império ainda escravagista.
No jantar, estavam políticos, como Gilberto Kassab, presidente do PSD; empresários, como Paulo Marinho, ex-amigo de Jair Bolsonaro e pai do humorista, e Johnny Saad, proprietário do Grupo Bandeirantes; jornalistas como Antonio Carlos Pereira, ex-editorialista do jornal O Estado de S. Paulo, e Roberto d'Ávila, apresentador e diretor da GloboNews; médicos como Raul Cutait, cirurgião do hospital Sírio-Libanês; advogados, como José Yunes, próximo a Temer. Com algumas variações, lembra o pequenino círculo do poder da Sucupira, de Dias Gomes.
3) Os presentes trataram Bolsonaro como fanfarrão. Temer e os demais riram efusivamente da imitação, mostrando que uma parte da elite brasileira considera o presidente como uma piada e não como um agente de corrosão da democracia. Os risos ajudam a explicar a razão do impeachment estar longe da agenda de uma parte do PIB.
4) Tortura com pau de arara foi recebida com risos. Em determinado trecho da imitação de Bolsonaro por André Marinho, ele diz a Temer sobre a carta que o ex-presidente o ajudou a escrever: "Cadê a parte que eu combinei de botar o pau de arara na Praça dos Três Poderes e dar de chicote no lombo de Alexandre de Moraes?" Por mais que esteja ridicularizando um presidente que instalaria, de fato, um pelourinho público se pudesse, os risos diante do equipamento usado na ditadura para abrir o bico de críticos ao regime geraram azia e má digestão.
5) Os presentes, principalmente Michel Temer, acharam graça que, na imitação, ele aparece como salvador de Bolsonaro. De fato, o ex-presidente desempenhou um papel útil, emprestando sua credibilidade junto ao centrão para acalmar os ânimos no Congresso Nacional após as micaretas golpistas. Mas isso não é parte do plano de Temer, mas da estratégia de Bolsonaro que, desde que assumiu o governo, realiza aproximações sucessivas em direção a um golpe de Estado, atacando e recuando. O recuo tático desta vez foi maior porque o avanço do dia 7 de setembro também havia sido. Temer prestou um favor ao ajudar a baixar a fervura até a próxima investida.
6) O vídeo não vazou por descuido, como muitos dizem. O registro foi feito pelo marqueteiro do ex-presidente Temer, Elsinho Mouco, que vem trabalhando para fortalecer a imagem de seu cliente nas redes sociais, e foi divulgado por ele e por Paulo Marinho, antigo apoiador de Bolsonaro que se tornou inimigo ao ser abandonado por ele. Sabiam que chegaria no presidente, e talvez fosse essa a intenção. Contudo, o vídeo pode sair pela culatra, sendo útil ao capitão. Por que um grupo da elite tradicional, ou seja, do sistema, rindo de Bolsonaro em um jantar chique, pode fortalecer a imagem do presidente junto ao seu público mais radical - que anda criticando bastante o "mito", frustrado com a arregada tática que ele deu.
7) Houve outras imitações, inclusive a do próprio Temer, mas nenhuma provocou tanto riso quanto a de Bolsonaro. O PIB prefere humilhá-lo entre quatro paredes do que permitir que seja substituído por tudo o que já fez. A cena ganhou dimensão na internet porque contou com Temer logo após as micaretas golpistas, mas situações iguais se repetem em outras residências dos Jardins, do Leblon, do Lago Sul. A questão é que, enquanto isso, o Brasil real produziu quase 600 mil mortes, 14,4 milhões de desempregados, 19 milhões de famintos e deve viver apagões de energia elétrica até dezembro.
O que pensa de tudo isso o garçom, que aparece no vídeo, o único usando máscara? Será que ele pode rir de Bolsonaro como os demais em torno da mesa?
Em jantar em homenagem a Temer, Bolsonaro vira piada de salão, o que é um erro grave | Vera Magalhães
Por Vera Magalhães
Um jantar na casa do investidor Naji Nahas em São Paulo nesta segunda-feira em homenagem ao ex-presidente Michel Temer foi a mostra mais eloquente e risonha de que o impeachment de Jair Bolsonaro não sairá.
Em torno da mesa e de vinhos estrelados se reuniram políticos, advogados, empresários, jornalistas, médicos e um humorista, André Marinho, que imitou o homenageado e o capitão, para gáudio da plateia. Mas será prudente, ou mesmo inteligente, tratar Bolsonaro como piada de salão? Não parece.
Estavam no jantar, entre outros, o ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro de Temer Gilberto Kassab, o empresário Paulo Marinho, o advogado José Rogério Tucci, o médico Raul Cutait e o empresário de comunicações Johnny Saad.
Vídeo que foi feito pelo marqueteiro de Temer, Elsinho Mouco, e enviado a jornalistas, viralizou nas redes sociais. Nele, André Marinho imita um abobalhado Bolsonaro reclamando da capitulação a que Temer o teria obrigado diante do Supremo Tribunal Federal, mas agradece ter tido a pele salva.
O ex-presidente, vermelho, foi quem mais gargalhou, satisfeito da própria relevância. No jantar, houve agradecimentos a ele por ter "salvado" o país de uma crise mais grave. Temer contou que só aceitou ir a Brasília e intermediar a conversa com Alexandre de Moraes quando Bolsonaro se comprometeu, com antecedência, a assinar uma carta.
Os presentes demonstraram ceticismo quanto à moderação de Bolsonaro. Acham que outros arroubos virão. Mas viram na desmoralização do avanço golpista do capitão um sinal de que ele não logrará êxito em conspurcar a democracia.
A primeira impressão da cena pode mostrar um presidente humilhado, desacreditado, carta fora do baralho. Afinal, seu antecessor, que foi chamado às pressas para socorrê-lo quando houve risco real de que sua pregação golpista inviabilizasse sua permanência na Presidência, estava lá se dobrando de rir da situação.
Mas tratar Bolsonaro como café com leite mostra profunda incompreensão do mix de fatores que o levou à Presidência, do enraizamento de seu discurso golpista e autoritário em grandes setores da sociedade e, sobretudo, da força que a máquina, principalmente o Orçamento, tem num regime presidencialista com reeleição.
Ainda resta mais de um ano para as eleições. Bolsonaro está disposto a implodir o teto e o que mais precisar para voltar a ser competitivo. E vai continuar minando o Judiciário, Poder que se mostrou minimamente disposto a contê-lo, daqui até o pleito, investindo principalmente contra a credibilidade do sistema eleitoral.
Esse discurso que pode parecer insano aos olhos de quem está acostumado, como os comensais, a analisar a política pela régua tradicional, levou centenas de milhares às ruas num feriado.
Está nos almoços de família a desconfiança na urna eletrônica, algo impensável apenas alguns anos atrás. A fala de que o STF pratica uma "ditadura branca" está na boca da tia do interior, ou do cunhado de muitos de nós.
Não é pouca coisa e não deveria ser tratado como entretenimento para homens endinheirados, muitos dos quais têm responsabilidade política de ajudar o Brasil a superar essa crise que, na base da pirâmide social, está provocando mortes (por covid-19 ou não), miséria, fome e desemprego.
Temer, o homenageado, prestou um desserviço ao ajudar a acomodar as abóboras na carroça golpista de Bolsonaro. Para ficar numa piada ao gosto do capitão, adaptada para este texto, mas que cairia bem na imitação talentosa de André Marinho, Bolsonaro é do tipo que se faz de morto para atingir o coveiro.
O mercado acordou hoje eufórico. A bolsa disparou e o dólar recuou. Céu de brigadeiro até perder de vista. O que há poucos dias parecia impossível tornou-se real: conseguiram colocar o gênio bagunceiro - o Amok brasileiro - de volta na sua garrafa. E de forma humilhante. De certo, para nós comuns dos mortais, só parte da história é cognoscível. A outra, muito provavelmente menos republicana, ficará para a especulação.
O dia 7 de setembro era para ser uma data da virada. Apoiadores de todos os rincões do Brasil encheram boa parte da Esplanada dos Ministérios em Brasília e a Avenida Paulista em São Paulo para ouvirem seu líder, o capitão-presidente Bolsonaro. Vendo tamanha turba em júbilo, não se conteve e distribuiu rasteiras para seus supostos inimigos, ministros do STF. Falou grosso. Disse que não cumpriria mais decisões advindas do Ministro Alexandre de Moraes, a quem chamou de “canalha”. A massa foi a êxtase. E, para dar respaldo às ameaças do líder, empresários organizadores das manifestações bloquearam a Esplanada dos Ministérios em Brasília com seus caminhões e desafiaram a polícia a deixarem-nos passar à Praça dos Três Poderes, onde pretendiam invadir o STF.
O jogo de empurra entre a irada turba e as forças de segurança causou calafrios aos democratas no País. Havia medo real de perda de controle e de sucumbir, a política, à violência em larga escala, com possível intervenção das Forças Armadas na chamada “garantia da lei e da ordem”. Tudo parecia calculado. Bolsonaro, acreditava-se, estava forçando, mais uma vez, os limites do estado de direito para instalar uma ditadura no país. E o movimento dos empresários do agronegócio a promoverem um lock-out da logística de transporte Brasil afora encaixava-se nessa tática. Pretendia-se paralisar o país para submeter as instituições à máxima pressão.
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Foi um jogo do tudo ou nada. Com essa intentona, Bolsonaro despejou à lixeira toda a política econômica de Paulo Guedes. O Congresso não parecia mais disposto a apoiar um governo tresloucado. O judiciário que vinha negociando o parcelamento dos precatórios com dívidas da União, abandonou o trato. A economia estava indo ladeira abaixo sem freios. O mercado reagia com extremo mau humor, ainda mais nervoso com os dados sobre a marcha da inflação em direção aos dois dígitos anuais.
Acendeu-se a luz vermelha. Bolsonaro foi convencido a pedir a seus apoiadores que abandonassem o bloqueio de rodovias para permitir que suprimentos chegassem a seus destinos. O recuo causou mal estar e incredulidade. Muitos empresários não queriam ceder antes de atingir seu objetivo: forçar o STF a uma mudança de rumo no tratamento dos crimes praticados por gente do governo e da política indígena, com estabelecimento de um marco temporal para a ocupação territorial tradicional. Mas a pressão da economia sobre o governo era imensa. Esperava-se que Bolsonaro determinasse, se necessário, o uso da força, para controlar sua turba.
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Eis que, no meio do rebuliço, surge o salvador: o mestre em golpes políticos, Michel Temer. Um Bolsonaro desesperado com a perda de controle sobre a massa de seus apoiadores urgiu sua vinda a Brasília para negociar uma trégua com o legislativo e o judiciário. E, no final da tarde do dia 9 de setembro, no meio da disputa de espaço em rodovias e na Esplanada dos Ministérios, acontece o inusitado: Bolsonaro manda publicar no Diário Oficial da União uma “Mensagem à Nação” em que desdiz tudo que dissera do palanque perante as massas: não queria confronto com os outros poderes que devem ser harmônicos entre si, as palavras de agressão teriam sido proferidas no “calor dos acontecimentos”, etc. etc.
A turba que marchara para Brasília e São Paulo ficou perdida. Afinal, não haveria mais ruptura? Seu líder fora cooptado “pelo sistema”? Ninguém parecia entender a abrupta mudança de rumos. Aliás, sequer os ministros agredidos queriam dar crédito às palavras de desculpas de Bolsonaro.
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Mas passadas as horas, vê-se com mais clareza o que aconteceu: Bolsonaro que foi útil para derrotar a esquerda em 2018 estava se tornando um estorvo não só na condução do país, mas sobretudo na perspectiva das eleições presidenciais de 2022. Quanto pior governasse, mais o campo da esquerda ia se robustecendo, não deixando espaço para um conservador liberal do mercado se tornar ungido nas urnas. Sabedores de que mais um mandato para Bolsonaro seria um desastre para o país que consideram só seu, os representantes do capital também não estariam dispostos a embarcar na canoa da oposição progressista. Ao mesmo tempo, as chances de uma “terceira via” pareciam muito remotas. Precisava-se, pois, neutralizar Bolsonaro para enfrentar a esquerda.
Com sua mensagem à nação, o presidente-capitão perdeu enorme capital político. Decepcionou sua base e, aparentemente, não recebeu nada em troca. Seus supostos contraentes no STF não foram obrigados a ceder em nada e, no Congresso, pouca ou nenhuma credibilidade lhe restava. Talvez seja cedo para dizer que Bolsonaro se tornou um defunto político, mas que saiu muito desgastado desse episódio, disso não há dúvida.
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O que teria feito Bolsonaro desistir do confronto? Aqui entra a especulação, mas é fato noticiado que havia movimentação frenética de atores políticos em Brasília. Os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados se reuniram com o decano do STF. Buscavam desesperadamente uma saída para a crise inaugurada com as agressões presidenciais ao STF. E foi aí que entrou Michel Temer.
O ex-presidente da República que golpeara Dilma Rousseff passou o dia em Brasília, para cá e para lá. Queria apascentar. Afinal, é ele o padrinho de Alexandre de Moraes, o principal alvo dos desaforos indecorosos de Bolsonaro. Foi Temer quem nomeou o ministro para o STF. E conseguiu o improvável: fez Bolsonaro ligar para o magistrado, como se fosse para pedir desculpas. O cão doido voltava para a coleira. O mercado, a elite, a casa grande, a Avenida Faria Lima - seja como se queira denominar esse ser etéreo que mantém as rédeas do país desde tempos imemoriais - suspirava aliviada: tinha vencido a fúria do gênio imprevisível.
Em troca de que? Essa é a pergunta que não quer calar. De certo, Bolsonaro sabia que tinha se metido numa enrascada. O que fizera do palanque era, como dizem os alemães, “starker Tobak” - tabaco forte. Não passaria incólume pela ira de seus poderosos adversários. Enquanto aumentavam as pressões por iminente abertura de processo de impeachment, circulavam notícias de reações no âmbito do TSE que pudessem tornar o presidente-capitão inelegível em 2022. Mas, o pior de tudo, o cerco aos fanáticos conselheiros de Bolsonaro ia se fechando, falando-se em possível prisão dos filhos presidenciais. Dizem que Bolsonaro ficou sem dormir por duas noites até jogar a toalha.
A dúvida que remanesce é se o presidente-capitão obteve alguma garantia de que, deixando de acirrar o ambiente político, poderia contar com a leniência da justiça para consigo e seus filhos. Essa seria a parte pouco republicana do acordo “com Supremo e com tudo” com que Michel Temer se notabilizou. Se houve ou não, só pode ser objeto de conjectura. Os próximos dias dirão. Há que se ver se a CPI da COVID abrandará seu tom no relatório final; se o ministro Alexandre de Moraes refluirá em suas diligências contra os organizadores da turba antidemocrática; se o STF poupará Augusto Aras dos pedidos de investigação por prevaricação a si atribuída. Mas é compreensível a incredulidade sobre uma gratuita desistência de Bolsonaro à via do confronto. É compreensível também que não se queira dar fé à sustentabilidade do acordo - ou contragolpe - engendrado por Michel Temer. Por ora, o que se tem apenas é um Bolsonaro humilhado com um exército de apoiadores perdidos feito baratas tontas.
E o estamento militar? Um curioso silêncio tomou conta dos eloquentes fardados de outros momentos. Sabem muito bem que a briga agora é de cachorro grande. Não estão mais antagonizando com a turma da esquerda civilizada. A casa grande soube fazer valer sua autoridade. Afinal, não se dá conta, neste país, de qualquer episódio de rebeldia de capitães do mato contra os senhores. Os militares sabem muito bem que a alternativa ao acordo - ou contragolpe - é a vitória das forças progressistas em 2022. Se querem evitá-la - e o querem muito mais até do que uma vitória de Bolsonaro - precisam deixar agora os profissionais trabalhar. E isso passa pela neutralização do capitão-presidente, para que a improvável “terceira via” se torne primeira e, quiçá, consiga derrotar, num confronto direto, o bicho de sete cabeças, o ex-presidente Lula.
A segurança de que a esquerda não volta ao poder, para o estamento militar, vale até a perda de umas boquinhas. E ninguém sabe se, no trato, um jabá não tenha sido incluído. Mas uma coisa é certa: com o humilhante acordo - o contragolpe da elite - o panorama político mudou e a casa grande volta a ser um player respeitável no jogo eleitoral de 2022, concentrando seu poder de fogo contra os adversários de sempre: os trabalhadores e oprimidos do Brasil. Não haverá frente única contra Bolsonaro. Haverá frente única contra a esquerda.
Opinião: Olga Curado - Bolsonaro é informado de que pode ir para a cadeia e faz recuo forçado
O presidente Jair Bolsonaro em entrevista ao Canal Rural Imagem: Reprodução
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O capitão faz uma declaração à Nação.
A seguir, a íntegra do texto divulgado por ele, com pequenas notas desta revisora.
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Declaração à Nação
Ok.
No instante em que o país se encontra dividido entre instituições é meu dever, como Presidente da República, vir a público para dizer:
O fato: O país não se encontra dividido. O capitão promove a divisão entre as instituições.
1. Nunca tive nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes. A harmonia entre eles não é vontade minha, mas determinação constitucional que todos, sem exceção, devem respeitar.
A dúvida: desconhecimento do idioma? Uso involuntário de palavras? Foi coagido a imprecar contra as instituições?
2. Sei que boa parte dessas divergências decorrem de conflitos de entendimento acerca das decisões adotadas pelo Ministro Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das fake news.
O desconhecimento: não saber que decisão de Justiça não é debate fora do processo legal.
3. Mas na vida pública as pessoas que exercem o poder não têm o direito de "esticar a corda", a ponto de prejudicar a vida dos brasileiros e sua economia.
A realidade: a corda estava sendo esticada pelo capitão. Estava arrebentando no lado do capitão e o prejuízo tem sido para toda a população.
4. Por isso quero declarar que minhas palavras, por vezes contundentes, decorreram do calor do momento e dos embates que sempre visaram o bem comum.
Aqui é preciso ter fé: a opção é arranjar um leque ou um ansiolítico e talvez um redator competente.
5. Em que pesem suas qualidades como jurista e professor, existem naturais divergências em algumas decisões do Ministro Alexandre de Moraes.
O foro: de novo, usar o devido processo legal, que tem sido desprezado.
6. Sendo assim, essas questões devem ser resolvidas por medidas judiciais que serão tomadas de forma a assegurar a observância dos direitos e garantias fundamentais previsto no Art 5º da Constituição Federal.
Opa! A lição pode ter sido aprendida. Por enquanto.
7. Reitero meu respeito pelas instituições da República, forças motoras que ajudam a governar o país.
Só vendo.
8. Democracia é isso: Executivo, Legislativo e Judiciário trabalhando juntos em favor do povo e todos respeitando a Constituição.
A aula de Direito Constitucional goela abaixo.
9. Sempre estive disposto a manter diálogo permanente com os demais Poderes pela manutenção da harmonia e independência entre eles.
Melhor não lembrar a história. Não há elementos que confirmem a afirmação acima.
10. Finalmente, quero registrar e agradecer o extraordinário apoio do povo brasileiro, com quem alinho meus princípios e valores, e conduzo os destinos do nosso Brasil.
'Fiquei frustrada como no dia que Moro pediu demissão', diz Zambelli sobre nota de Bolsonaro | Lauro Jardim - O Globo
Por Amanda Almeida
Carla Zambelli subiu à tribuna da Câmara para dizer que, a princípio, a nota de Jair Bolsonaro nesta quinta-feira a frustrou. A fala da deputada reflete o choque que a nota causou na base bolsonarista, seja nas redes sociais, seja nos grupos de WhatsApp. Disse Zambelli:
— A principio, vou dizer que fiquei até um pouco frustrada, frustrada como no dia que Moro pediu demissão. Queria que Moro ficasse.
Para a deputada, no entanto, "a história vai mostrar que Bolsonaro estava certo", assim como no caso de Moro, comparou.
— Quando Bolsonaro coloca carta dessa, em que se põe como humilde, para harmonizar Poderes e fazer com que Poderes fiquem tranquilos e o país andar para frente, vocês (oposição) acham ruim, porque para vocês, quanto pior, melhor.
Augusto Nunes é ridicularizado após defender Bolsonaro humilhado diante do STF
247 - Fiel, Augusto Nunes saiu em defesa de Jair Bolsonaro após a nota de recuo articulada por Michel Temer, reconhecendo divergências com o ministro Alexandre de Moraes, mas destacando o "respeito pelas instituições, forças motoras que ajudam a governar o país".
“Um presidente não pode brigar em várias frentes a todos os momentos, isso que queriam seus inimigos”, justificou Nunes.
O assunto virou logo piada entre os internautas. Um deles escreveu que, "no circo bolsonarista, o que não faltam são malabaristas".
Horas após recuo, Bolsonaro volta a atacar Barroso
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247 - Horas depois de assinar e publicar nesta quinta-feira (9) uma carta sinalizando que recua de ameaças golpistas e que respeita as instituições, Jair Bolsonaro voltou a defender o voto impresso nas eleições, mudança já rejeitada pela Câmara dos Deputados.
Ele ainda disse que "palavras bonitas" do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Luís Roberto Barroso, não convencem ninguém.
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"Palavras bonitas, que sei que o ministro Barroso tem, dada a sua formação de jurista, diferente da minha, que tem palavrão de vez em quando, mas não convence ninguém", disse Bolsonaro nesta quinta-feira (9) em transmissão nas redes sociais, destaca reportagem daFolha de S. Paulo.
O presidente do TSE e ministro do Supremo, Luís Roberto Barroso, em pronunciamento na manhã de quinta, chamou Bolsonaro de farsante por investidas contra as urnas eletrônicas.
Base política de extrema direita fica desnorteada com recuo de Bolsonaro
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247 - O recuo de Jair Bolsonaro nas críticas que fez ao STF, intermediado por Michel Temer, deixou desnorteada sua base de apoio de extrema direita, sempre tão estridente nas redes sociais.
Os influenciadores bolsonaristas nas mídias agora falam em "fim de jogo". "A nota do Temer foi para mostrar que o povo não deve exercer seu poder diretamente. Não votei no Temer", disse Allan dos Santos.
Já o comentarista Rodrigo Constantino escreveu: "Dia 7: multidão nas ruas com pauta patriótica condenando o arbítrio. Dia 9: Bolsonaro elogia China como essencial e pede desculpas ao STF. Game over".
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Também houve reações de sarcasmo. Um meme bastante compartilhado foi o que mostra a transmissão da faixa presidencial de Temer para Bolsonaro em modo reverso, como se o emedebista estivesse voltando ao cargo.
"Impressão inicial, ainda provisória: com o ato de hoje, Bolsonaro está abrindo mão da candidatura à reeleição", disse o influenciador bolsonarista Leandro Ruschel.
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Bernardo Kuster, editor do jornal olavista Brasil Sem Medo, afirmou que "este é o país do acordão e da negociação", informa a colunaPainel da Folha de S.Paulo, que cita outras reações negativas de bolsonaristas.
Repórter insinua novo "grande acordo nacional" por trás da rendição humilhante de Bolsonaro
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247 – O usurpador Michel Temer, que se tornou presidente após um "grande acordo nacional, com Supremo, com tudo", para golpear a democracia e derrubar a ex-presidente Dilma Rousseff, teria construído algo semelhante para obter a rendição humilhante de Jair Bolsonaro. "A nota de recuo de Jair Bolsonaro, articulada por Michel Temer, deve ajudar a restabelecer um acordo que vinha sendo costurado há três semanas com Ciro Nogueira, Gilmar Mendes, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco. Ele consiste na rejeição da ação que pede no Supremo a derrubada dos decretos das armas, uma nova regulamentação em torno da reserva Raposa Serra do Sol e a transferência do inquérito das fake news para Augusto Aras — evitando que ele avance sobre Jair Bolsonaro e seus filhos", segundo escreve o jornalista Claudio Dantas, do site de extrema-direita Antagonista.
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"Temer também teria apoio para se candidatar a deputado federal em 2022 e presidir a Câmara após o biênio de Lira. Ninguém tem claro se esse acordo será cumprido na íntegra, considerando as questões complexas envolvidas e o próprio comportamento imprevisível de Bolsonaro", prossegue o jornalista. "Para acalmá-la, será preciso evitar novas medidas cautelares por parte de Moraes (também imprevisível) e incutir — à base de muita fake news — a ideia de que o presidente da República tem um plano mirabolante para implodir o sistema e libertar seu povo", finaliza.
Bela Megale diz que generais não gostaram da rendição que desmoralizou Bolsonaro publicamente
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247 – "O recuo de Bolsonaro sobre os ataques que proferiu ao Supremo Tribunal Federal (STF), em especial ao ministro Alexandre de Moraes, desagradou a ala militar do governo. A avaliação feita por integrantes das Forças Armadas que atuam no Palácio do Planalto é que Bolsonaro mostrou 'subserviência' a Moraes sem ter recebido uma contrapartida do ministro", informa a jornalista Bela Megale, em sua coluna no Globo.
De acordo com a avaliação dos generais, a imagem que Bolsonaro “cedeu sem receber nada em troca” é negativa.
No entanto, é possível que os termos do "novo grande acordo nacional" NÃO possam ser tornados PÚBLICOS, por NÃO serem propriamente republicanos.
Olavo de Carvalho entra em desespero após debandada de bolsonaristas: "eu não abandono" (vídeo)
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247 - Guru do clã bolsonaro, Olavo de Carvalho anda bastante nervoso com a onda de extremistas que abandonam o barco, após o ex-capitão recuar de um golpe de estado e ainda contar com Michel Temer para redigir uma carta de desculpas ao Supremo Tribunal Federal (STF), em especial ao ministro Alexandre de Moraes, eleito seu inimigo número 1 em discurso na Avenida Paulista e também em Brasília, no 7 de setembro.
Como de praxe, o guru atacou o ex-presidente Lula para fazer a defesa de Bolsonaro.
“Nenhum petista ignorou Lula depois do roubo de três trilhões, mas o Bolsonaro dá um peido e já mil bolsonaristas o abandonam. Eu não abandono, dou esporro, mas não abandono”, disse.
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Nas redes sociais, viralizam mensagens de ex-bolsonaristas que estão revoltados com a postura de Bolsonaro.
Já o ex-bolsonarista também fez um desabafo, como mostra as cenas abaixo:
Deputado bolsonarista se revolta com nota assinada por @jairbolsonaro. Otoni de Paula (PSC-RJ) usou a tribuna da Câmara para mostrar indignação com a ‘carta à nação’ redigida com a ajuda de @MichelTemer.
“Lamento, presidente. O senhor ficou pequeno”, disse o governista.
Leão que não ruge vira gatinho.
E é nisso que estão tentando transformar o grande leão dessa república, Jair Messias Bolsonaro.
Nós estamos vivendo uma ditadura da toga e o povo foi pra rua pra gritar.
Daniel Silveira, está preso.
Roberto Jefferson, está preso.
Zé Trovão, está preso.
Wellington Macedo, está preso. (¿•?)
Oswaldo Eustáquio, está preso. (¿•?)
Não é tempo de paz quando o inimigo não quer paz, Quando o adversário só quer guerra.
Base política de extrema direita fica desnorteada com recuo de Bolsonaro
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247 - O recuo de Jair Bolsonaro nas críticas que fez ao STF, intermediado por Michel Temer, deixou desnorteada sua base de apoio de extrema direita, sempre tão estridente nas redes sociais.
Os influenciadores bolsonaristas nas mídias agora falam em "fim de jogo". "A nota do Temer foi para mostrar que o povo não deve exercer seu poder diretamente. Não votei no Temer", disse Allan dos Santos.
Já o comentarista Rodrigo Constantino escreveu: "Dia 7: multidão nas ruas com pauta patriótica condenando o arbítrio. Dia 9: Bolsonaro elogia China como essencial e pede desculpas ao STF. Game over".
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Também houve reações de sarcasmo. Um meme bastante compartilhado foi o que mostra a transmissão da faixa presidencial de Temer para Bolsonaro em modo reverso, como se o emedebista estivesse voltando ao cargo.
"Impressão inicial, ainda provisória: com o ato de hoje, Bolsonaro está abrindo mão da candidatura à reeleição", disse o influenciador bolsonarista Leandro Ruschel.
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Bernardo Kuster, editor do jornal olavista Brasil Sem Medo, afirmou que "este é o país do acordão e da negociação", informa a colunaPainel da Folha de S.Paulo, que cita outras reações negativas de bolsonaristas.
Vergonha’, ‘decepção’ e ‘covardia’: base bolsonarista se indigna nas redes com recuo de Bolsonaro em declaração à nação | Sonar - A Escuta das Redes - O Globo
Jair Bolsonaro em solenidade do Dia Nacional do Voluntariado | Cristiano Mariz
Filipe Vidon
Após as declarações de tom golpista com ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro Alexandre de Moraes nas manifestações de 7 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro recuou nesta quinta-feira com uma "declaração à nação" e não agradou sua base de apoiadores nas redes sociais. Em nota, o chefe do Executivo disse que nunca teve "a intenção de agredir quaisquer Poderes", e que suas "palavras, por vezes contundentes, decorreram do calor do momento e dos embates que sempre visaram o bem comum."
No Twitter, a reação de aliados do presidente foi imediata e termos como “covarde”, “Bolsonaro arregou” e a #BolsonaroAcabou rapidamente foram alçados à lista de assuntos mais comentados da rede social. Em uma mensagem publicada na plataforma, um aliado do presidente afirma que brigou com toda família, foi em manifestações e agora está “decepcionado”.
Outro seguidor contou que se deslocou até Brasília para participar dos atos com pautas antidemocráticas, e se disse surpreso com o posicionamento de Bolsonaro. “Não se cale ao STF, meu presidente!”, pediu o apoiador.
Um dos seguidores de Jair Bolsonaro pontuou que o presidente “deixou de ser confiável” quando se aliou ao Centrão. Na mensagem, o apoiador afirma que “por sua culpa (Bolsonaro), a esquerda acaba de renascer, e está mais forte do nunca”. Outro apoiador destacou o fato de a nota ter sido redigida pelo ex-presidente Michel Temer e declarou: “o sistema venceu”.
Imagens que circulam nas redes sociais também mostram apoiadores do presidente revoltados em grupos privados de mensagem. Alguns dos integrantes do grupo corroboraram a ideia de que “a esquerda vai voltar com força”, outro afirmou que o governo chinês “está por trás de tudo isso”. Veja as reações:
Opinião: Marco Antonio Villa - Bolsonaro, o Mussolini tropical, precisa ser contido
Marco Antonio Villa - Colunista do UOL - 09/09/2021 10h03
Tudo indica que estamos assistindo os últimos momentos de Jair Bolsonaro à frente da Presidência da República. Isto não significa que a crise política mais grave desde, no mínimo, a promulgação da Constituição de 1988, deva se encerrar nos próximos dias.
Evidentemente que não. É mais um momento no movimento da história, mas que tem um norte: Bolsonaro não estará presente no processo eleitoral de 2022.
Paulo Coelho detona comício da Terceira Via do MBL: "Aécios travestidos"
Antes disso será levado ao impeachment ou à renúncia. Isto é inevitável.
Inevitável pois nenhum país suportaria um presidente da República, candidato à reeleição, sem chances de sequer chegar ao segundo turno, atacando o sistema eleitoral e denunciando fraude sem ao menos apresentar uma prova.
Isto levaria, certamente, a confrontos gravíssimos e estaríamos muito próximos da guerra civil.
A cada dia fica mais claro que o maior obstáculo para o restabelecimento da normalidade democrática, para o enfrentamento dos graves problemas nacionais, tem nome: é Jair Bolsonaro.
A mente doentia do primeiro mandatário já conseguiu decodificar o óbvio: seu governo acabou. Governo, entenda-se, em termos absolutamente cronológicos, pois desde 1º de janeiro de 2019 estamos assistindo ao caos como política de Estado. É uma situação anômala que os historiadores, no futuro, vão ter dificuldade de compreender no sentido indicado por Lucien Febvre.
Uma das maiores economias do mundo tendo à frente um beócio, nazifascista, com sérios problemas cognitivos, sem projeto de governo, cercado por uma caterva semiletrada e que vive ideologicamente nos estertores da Idade Média. Em um processo avançado de loucura, de descolamento do real, Bolsonaro está a cada dia mais isolado politicamente. E como parte deste quadro, ao invés de rever suas posições e buscar alguma forma de convívio democrático, deve radicalizar suas posições, ampliando o distanciamento das forças políticas e logo produzindo um ato de martírio, típico destas patologias.
Não está descartado, junto com a malta que o segue, forjar um atentado. De Bolsonaro não é possível duvidar de nada. Fará tudo para se manter no poder. Sabe que apenas ganha tempo, pois seu destino está traçado: irá para a cadeia.
As manifestações golpistas de 7 de setembro foram um fracasso. Os ataques criminosos ao Supremo Tribunal Federal e, em especial, ao ministro Alexandre de Moraes ainda não receberam a devida resposta. Descumprir decisão judicial é crime de responsabilidade - a lei 1079 de 10 de abril de 1950 é muito clara (ver artigo 6º, 5 e 6). E mais: ameaçou fechar o STF caso não se "enquadre" à sua miliciana interpretação da Constituição.
Depois do que vimos em Brasília e em São Paulo é impossível buscar algum tipo de negociação com Bolsonaro e seus sequazes. Nem o doutor Pangloss, com seu otimismo incorrigível, acreditaria que ainda estamos em uma democracia plena, que os Poderes estão em harmonia e que temos um governo - isso, um governo. Mais ainda, um Presidente da República que comungue dos valores constitucionais que ele jurou defender.
O Mussolini tropical tem de ser contido - e o mais rápido possível. É um homem doente, perigoso, sórdido e criminoso. Não tem escrúpulos. Rebaixou a Presidência da República à sua altura. Transformou o Palácio do Planalto em covil de malfeitores. Conspira diuturnamente contra a Constituição. A abulia da sociedade civil fornece indiretamente combustível para Bolsonaro incendiar o Brasil.
Se há razões explicativas para este estado de paralisia - e a década passada apresenta inúmeros exemplos -, o atual momento político tem necessariamente de levar à ação, antes que seja tarde. Um golpe bolsonarista teria vida curta, muito curta. A questão central não é essa. O fulcro do problema nacional é impedir que o meliante permaneça destruindo, solapando, as bases do Estado democrático de Direito, fomentando o ódio e desorganizando a estrutura governamental edificada nas últimas décadas.
Somos testemunhas presenciais do maior desafio da história republicana. Pelo voto e utilizando de todos os direitos consubstanciados na Carta de 1988, uma súcia tomou o poder. Querem impor a ditadura utilizando-se - suprema ironia da História - da Constituição cidadã. A cidadania tem todos os instrumentos legais para o bom combate. A hora é agora.
Também conhecida como síndrome do esgotamento profissional, a síndrome de burnout consiste em uma espécie de estresse crônico e de maior gravidade relativa ao contexto de trabalho. Ela se caracteriza por três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e baixo sentimento de realização.
Desde sua primeira descrição na década de 1970, o entendimento sobre o tema evoluiu. A OMS (Organização Mundial da Saúde), por meio da Classificação Internacional das Doenças, já reconhece a síndrome de burnout como um problema grave na sociedade contemporânea.
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A seguir, vamos falar de cada um deles e também de outros sinais que podem indicar que você está com essa condição que atinge pessoas de todo o mundo e cerca de 32% dos mais de 100 milhões de trabalhadores brasileiros, segundo estimativa da International Stress Management Association.
1. Exaustão emocional
Se você experimenta constantemente sentimentos de fadiga e a sensação de que faltam recursos emocionais, é bom ficar atento. A exaustão é uma das características mais importantes para a identificação do burnout e acontece quando o profissional sente que não tem energia para lidar com situações estressoras e com as exigências comuns do trabalho, além da perda do entusiasmo.
2. Despersonalização
A despersonalização é uma característica que se manifesta entre as pessoas com a síndrome. Ela é importante de ser observada uma vez que é categórica para diferenciar o burnout do estresse. Também denominada cinismo, ela ocorre quando as pessoas passam a agir com indiferença, a ter comportamentos de hostilidade e uma atitude negativa em relação à profissão e às pessoas envolvidas no ambiente de trabalho, como colegas, chefes e, no caso de profissionais que lidam com o público, pacientes e clientes, por exemplo. A despersonalização é chamada assim devido ao distanciamento emocional com as outras pessoas.
Se você se sente desanimado com frequência no trabalho, insuficiente, com ansiedade, insônia e sintomas de depressão, é bom procurar ajuda de um psicólogo e/ou psiquiatra Imagem: iStock
3. Baixo sentimento de realização
Trabalhadores com burnout tendem a apresentar menores índices de realização do que aqueles sem a síndrome. Eles se sentem frustrados, desmotivados, constantemente insatisfeitos com suas habilidades profissionais, pensam que suas habilidades são aquém daquelas necessárias, que eles não têm a devida competência e estão descontentes com o ambiente de trabalho. Tudo no trabalho se torna motivo de insatisfação e desprazer.
Assim como um jogador de futebol com a perna machucada terá dificuldade em fazer um bom jogo, o trabalhador com burnout não estará na plenitude de suas habilidades cognitivas, o que pode impactar negativamente no seu desempenho, levando a uma menor realização. Esse problema é ainda mais preocupante pois, em vez de se ausentar do ambiente profissional, a pessoa com burnout, muitas vezes, desconhece o quadro e continua trabalhando. Ela invalida sua própria dificuldade por achar que é "normal" esse processo.
4. Ansiedade
A ansiedade prolongada ou em níveis mais intensos pode resultar em um sofrimento psicológico que afeta o funcionamento diário de um indivíduo, gerando sintomas tanto cognitivos quanto físicos como, por exemplo, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, dores musculares etc. Pesquisas demonstraram que o burnout possui uma correlação com sintomas de ansiedade. Uma meta-análise (Maske et al. 2016) identificou que 59% dos indivíduos com diagnóstico de burnout também foram diagnosticados com transtorno de ansiedade.
5. Isolamento
O burnout é multifatorial, isto é, existem questões orgânicas, sociais e psicológicas envolvidas. Por essa razão, esses indivíduos tendem a apresentar também sintomas depressivos, ideias de inutilidade, fracasso, alta irritabilidade, e dificilmente irão se inserir socialmente. Manter o contato com outras pessoas, ser empático, interagir, ponderar e comunicar são funções do cérebro que ficam acometidas quando se tem burnout. Com esse desbalanço do funcionamento cerebral normal é inevitável uma busca por maior isolamento e diminuição da interação social, já que esses eventos demandariam do cérebro uma atividade que transitoriamente para ele são mais complexas.
6. Insônia
A insônia é um sintoma comum no quadro de burnout. Ela surge como um efeito de todo o acometimento psicológico, físico e social. Ela também é intensificada porque esses indivíduos tendem a se engajar em autocobranças relacionadas ao trabalho e em um estilo de vida nada saudável. A sobrecarga de trabalho, que surge como uma estratégia compensatória para o constante sentimento de fracasso, na qual podem se envolver eventualmente, pode prejudicar as medidas necessárias para um sono reparador, como encontrar um horário para descansar, ter hora para ir para a cama, dormir em ambiente tranquilo sem iluminação e ruído, entre outros.
7. Sintomas físicos
Quando estamos passando por uma fase de desequilíbrio emocional, seja por qual motivo for, é comum que o corpo, devido a reações neurobiológicas e hormonais, também apresente sintomas físicos. No caso do burnout, pesquisas sinalizam que ele está relacionado a uma série de desordens físicas, como: síndromes metabólicas, imunidade prejudicada e doença cardiovascular. Também é possível que surjam sintomas como dores musculares, cefaleias e enxaqueca, problemas gastrointestinais, disfunções sexuais, fadiga, falta de ar, taquicardia, tontura, vertigem, sensação de formigamento, entre outros.
O burnout acomete cerca de 32% dos mais de 100 milhões de trabalhadores brasileiros, segundo estimativa da International Stress Management Association Imagem: iStock
8. Alterações no apetite
Nosso organismo tende a modificar em parte seu funcionamento para lidar com as adversidades, por meio da mediação de hormônios, como o cortisol. Entre essas modificações fisiológicas pode ocorrer a redução do apetite em quadros de burnout ou mesmo na depressão. No entanto, é importante dizer que o contrário também pode acontecer e haver um aumento do apetite em decorrência do predomínio da ação de outras substâncias e sistemas, como o sistema da recompensa cerebral, modulado pela dopamina.
9. Irritabilidade
Nossa habilidade de ponderar e mediar conflitos decorre de ativações específicas no córtex pré-frontal. Em resumo, ele é o grande moderador entre nossos impulsos e o ambiente externo. No burnout, essa região apresenta redução da atividade inibitória, e outras áreas são mais ativadas, o que deixa o indivíduo vulnerável a responder de maneira mais impulsiva, irritável e imediatista.
10. Dificuldade de concentração/ esquecimento
É comum termos prejuízo de memória e falha de concentração em quadros da síndrome de esgotamento profissional. Dada as dificuldades de sono, cansaço e sintomas emocionais, como ansiedade, paramos de prestar atenção ao ambiente que nos cerca, algo que na psiquiatria é chamado de hipotenacidade.
11. Sentimentos de derrota/incompetência
O trabalhador sente uma redução da sua eficácia profissional, o que significa que ele experimenta constantemente frustração, apresenta baixas expectativas em relação ao seu próprio desempenho e cognições relacionadas a fracasso.
12. Depressão
O burnout acomete o funcionamento do cérebro saudável, afetando o funcionamento de diferentes vias cerebrais, como o córtex pré-frontal, que em sua porção mais lateral é responsável pela presença de sintomas depressivos como tristeza excessiva, falta de prazer em atividades que a pessoa gostava, falta de concentração.
Burnout e depressão possuem uma elevada correlação. Um estudo, inclusive, apontou que 53% dos pacientes com burnout grave também foram diagnosticados com depressão. No entanto, é importante ressaltar que apesar de compartilharem características em comum, tratam-se de condições diferentes. Enquanto a síndrome do esgotamento profissional está relacionada ao contexto do trabalho, a depressão acontece de modo mais abrangente em diferentes áreas.
Fontes: Pedro Shiozawa, médico psiquiatra, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, co-fundador e COO da Jungle, startup de saúde mental voltada para o ambiente organizacional, e um dos autores do livro "Desvendando o Burn-out: Uma Análise Interdisciplinar da Síndrome do esgotamento profissional"; Leonardo Baldaçara, médico psiquiatra, diretor regional centro-oeste da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), e professor da Universidade Federal do Tocantins; Anelisa Vaz de Carvalho, doutora e mestre em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo), especialista em terapia cognitivo-comportamental, autora do livro "Terapia Cognitivo Comportamental na Síndrome de Burnout", docente de psicologia e fundadora dos projetos @dra.anevaz e @anevaz.clinic)
Ricardo Feltrin - Globo teme nova fuga de artistas, apresentadores e jornalistas
Colunista do UOL
09/09/2021 00h09
Dessa vez não é a emissora que vai decidir boa parte dos cortes, e sim o próprio elenco.
Muita gente na Globo está descontente com as raríssimas ofertas para renovação de contrato que estão sendo ofertadas.
As raras renovações incluem redução salarial, registro em carteira e, vejam só, a volta dos famigerados contratos de exclusividade (com a Globoplay, aliás).
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Ou seja, mesmo para fazer cinema ou teatro, a emissora terá de dar seu aval (justo dizer que a Globo jamais negou esse tipo de trabalho, mas já no caso de um trabalho para uma Disney ou Star+, por exemplo, não se sabe a reação).
Quem entrou na fila antes já se deu bem: foi o caso de Marcos Mion —que já assinou contrato com a Netflix antes mesmo de fechar com a Globo.
Concorrência aumentou
O problema maior é justamente que, pela primeira vez na história da TV, a Globo tem concorrentes de peso, produções em andamento e cargos sobrando em outras plataformas (especialmente o streaming).
A expectativa é que com a aceleração da vacinação contra a covid-19, as produções vão crescer —e a oferta de empregos também.
Isso vale também para eventos esportivos, um setor em que a Globo está enfraquecendo já há muitos anos.
Uma das primeiras insatisfeitas que já colocou a (linda) boquinha na trombeta foi a atriz Grazi Massafera —que está sendo sondada para uma série de filmes em plafatormas de streaming.
Isolado, o presidente tenta enganar os olhos de um país em crise
Presidente Jair Bolsonaro em discurso do 7 de setembro Foto: Foto: Alan Santos/PR / Agência O Globo
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O truque é antigo. No século V a.C., o pintor grego Zêuxis retratava uvas tão realistas que os pássaros chegavam a bicá-las na tela. A técnica, adotada por artistas renascentistas e barrocos, foi batizada de "trompe l'oeil", que, em francês, significa "engana o olho". A essência dessa arte consiste em fazer o espectador acreditar que o objeto representado parece real. Essa ilusão ótica foi adaptada com o passar do tempo e tem sido utilizada com frequência pelo presidente Jair Bolsonaro.
Dia após dia, em seu discursos, Bolsonaro tenta distorcer valores constitucionais como a liberdade de expressão e o direito de ir e vir para convencer os seus espectadores de que os ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) são, na verdade, uma defesa da democracia. Nesse cenário pintado pelo presidente, a liberdade de expressão consiste em divulgar notícias falsas sem qualquer punição e o direito de ir e vir nada mais é que um salvo-conduto para aglomerar. Ainda de acordo com esse retrato, os inimigos do país são os membros da Corte, e não os problemas reais que assolam os brasileiros.
Esse artifício tem distraído a claque que não enxerga -- ou finge não ver -- o desgoverno de Bolsonaro. Enquanto apoiadores do presidente defendem de forma isolada uma intervenção militar, outros fantasmas do passado voltam a assombrar o Brasil: a crise hídrica traz de volta o risco de apagão, a alta da inflação corrói o orçamento familiar e o desemprego agrava a situação de miséria. Além disso, o país segue numa marcha irrefreável rumo a 600 mil mortos por Covid-19.
Não fosse o bastante, o presidente enfrenta os seus próprios percalços. Acuado pela CPI da Covid e investigado no Supremo Tribunal Federal, ele agoniza uma queda expressiva em sua popularidade. Os sinais de fraqueza são escamoteados por encenações públicas de força -- da celebração do desfile de tanques em frente à Praça dos Três Poderes a disparos de peças de artilharia para simular um bombardeio de inimigos num treinamento militar. A estratégia é criar um alvoroço político e desviar a atenção da alta do preço do combustível, da região amazônica em chamas e da suspeitas de irregularidades no Ministério da Saúde.
A arte de criar distrações é própria de um presidente isolado. À deriva dos demais poderes, Jânio Quadros instalou dois jumentos, com chapéus de palha, pastando a grama do Palácio da Alvorada. Essa cena nem se compara à imagem de Bolsonaro exibindo uma caixa de cloroquina a emas. Tampouco à de um chefe da nação chamando um ministro do STF de "canalha". Em seu discurso realizado em São Paulo no dia 7 de setembro, o presidente comemorou: "Hoje temos uma fotografia para mostrar para o Brasil e o mundo". O retrato que Bolsonaro quer pintar de si mesmo e do seu governo pode até convencer alguns apoiadores, mas não passa de um truque para enganar os olhos de um país em crise.
Fux LATIU, mas NÃO MORDEU, diz ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão
Por Paulo Henrique Arantes, para o 247 - Nem Luiz Fux, nem Arthur Lira. Os presidentes do Supremo Tribunal Federal e da Câmara dos Deputados não demonstraram a ousadia esperada ao responderem aos ataques feitos nesta terça-feira (7) às instituições pelo presidente da República. O primeiro alertou que descumprir decisão judicial será crime – ou seja, quanto à ameaça feita, tudo bem se Bolsonaro limitar-se a ela. O segundo, nenhuma surpresa, concitou à concórdia geral, como se a discórdia não fosse semeada por uma só pessoa.
“Ameaçar o Judiciário já constitui crime de responsabilidade. Fux, pelo jeito, acha que ainda não houve esse crime. Está só latindo. Morder que é bom, nada”, avaliou o ex-ministro da Justiça (governo Dilma Rousseff) Eugênio Aragão, em conversa com o Brasil 247. “Afora que o presidente também cometeu crime de responsabilidade por faltar com o decoro do cargo, ao chamar um ministro do STF de canalha”, acrescentou.
Sobre a manifestação de Lira, Aragão disse considerá-la “chocha, colocando STF e Bolsonaro como dois contraentes com a mesma culpa pelo clima político”.
Eugênio Aragão foi o último ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, tendo substituído José Eduardo Martins Cardozo quando este foi transferido para a Advocacia-Geral da União. Integrou o Ministério Público Federal por 30 anos (1987-2017).
Aragão disse também por que razão uma pessoa como Dilma Rousseff sofreu um processo de impeachment quase sumário, enquanto Jair Bolsonaro colhe apenas manifestos insossos das instituições a cada crime que comete: “Dilma não dividiu o jabá com o Centrão. Aliás, botou para correr quem mostrava sinais de gestão ímproba. Ela não foi destituída porque cometeu crime de responsabilidade, mas porque era um estorvo à preservação de interesses de atores políticos e do mercado”.
O ex-ministro também comentou a atuação do procurador-geral da República, Augusto Aras, apadrinhado de Bolsonaro em quem a pecha de “engavetador” já grudou na testa. Não se pode esquecer que o relatório final da CPI da Covid, que deve apontar responsabilidades do presidente da República relacionadas à tragédia da pandemia no país, dependerá do procurador-geral para surtir efeitos práticos. “O PGR está mudando. Já tomou iniciativas contra dois bolsonaristas ensandecidos. Resta saber se isso é uma nova orientação ou se foi só um soluço. De qualquer sorte, há uma guerra interna no MPF e ele está enfraquecido”, avalia Aragão.
E o manifesto da Fiesp? Morreu | Lauro Jardim - O Globo
Por Lauro Jardim 09/09/2021 • 06:05
E o manifesto "A Praça dos Três Poderes", capitaneado pela Fiesp, que contaria com a assinatura de 200 entidades e foi bombardeado pela Caixa e pelo Banco do Brasil, causando um inédito racha na Febraban?
Seria publicado há duas semanas. Depois, quando a confusão estourou, ficou de sair após a manifestação de 7 de setembro.
E agora? Oficialmente, a Fiesp diz que o documento virá a público "no momento oportuno".
Mas o manifesto morreu.
Até por que, de acordo com o governo Bolsonaro, com quem Paulo Skaf mantém relações muito próximas, sua divulgação nunca será oportuna.
ARTHUR LIRA terá que ACATAR pedido de IMPEACHMENT contra Bolsonaro a QUALQUER MOMENTO
A crise mal começou e NÃO será CONTIDA a não ser com o remédio amargo do IMPEACHMENT.
| Merval Pereira
Por Merval Pereira 09/09/2021 • 04:30
Nem todos foram tão contundentes e certeiros com as palavras como o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux. Mas todos os que se pronunciaram com críticas à retórica belicista do presidente Bolsonaro na terça-feira o fizeram como se avisassem ao presidente que está chegando o momento da verdade.
A fala do procurador-geral da República, Augusto Aras, foi acadêmica e clara na defesa da tese de que a democracia não existe sem o respeito entre os três Poderes. Não cometeu o erro do presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, de igualar na responsabilidade pela crise o Judiciário e o Executivo, quando claramente é o último que estica a corda e quer submeter o primeiro a seus interesses familiares e políticos. Colocando-se em posição proativa, Aras reafirma uma nova postura independente.
Lira colocou o Legislativo no centro da Praça dos Três Poderes, como se fosse a ponte entre os outros dois, na concepção que atribuiu a Niemeyer e Lucio Costa. A mesma tentativa de explicar a praça foi feita no documento que Febraban e Fiesp organizaram, e acabou não dando certo pela tibieza de seus termos.
Na carta, dizia-se que o espaço da praça “foi construído formando um triângulo equilátero, cujos vértices são os edifícios-sede de cada um dos Poderes. Esta disposição deixa claro que nenhum dos prédios é superior em importância, nenhum invade o limite dos outros, um não pode prescindir dos demais”. Os dois, o discurso de Lira e o manifesto da Fiesp, com essa metáfora arquitetônica, queriam não criticar diretamente o presidente da República, fingindo que a culpa pela crise que vivemos é dos dois outros Poderes, quando, na verdade, somente o Executivo está em pé de guerra com o Judiciário e também com o Legislativo, quando Bolsonaro se recusa a aceitar a derrota do voto impresso.
O presidente da Câmara, que tem a chave do pedido de impeachment, não poderia ter se referido, como fez o ministro Luiz Fux, a crime de responsabilidade de Bolsonaro ao anunciar que não acataria mais decisões emanadas do ministro Alexandre de Moraes. Como cabe somente a ele abrir o processo de impeachment, uma palavra nesse sentido seria terminativa. Fux acusou o presidente de ter agido fora das quatro linhas a que tanto alude, mas lembrou que a investigação cabe ao Legislativo. O fato é que todas as autoridades se pronunciaram ainda impactadas pelas multidões que foram às ruas aderir ao discurso golpista de Bolsonaro.
Muitos continuavam ontem em Brasília fazendo arruaças. Tanto Fux quanto Lira aplaudiram quem foi à rua em manifestação pacífica, afirmando que assim funciona a democracia. Mas coube ao presidente do Supremo ressaltar que a forma era boa, mas o conteúdo não. Defender a extinção do STF ou a substituição de ministros, sem utilizar os meios legais para isso, é fora das quatro linhas. Assim como Bolsonaro não aceita a decisão do Congresso sobre o voto impresso, também não acata a decisão do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, de arquivar o pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes.
Mesmo que Arthur Lira alegue não ver razão para acatar um dentre as dezenas de pedidos de impeachment contra Bolsonaro, terá de fazê-lo a qualquer momento, pois ninguém, nem mesmo ele, acredita em acordos com Bolsonaro para que se modere. Ontem mesmo, na reunião do Conselho de Governo que improvisou depois de ter dito que convocaria o Conselho da República como ameaça, mostrou fotos das manifestações do dia 7 de setembro para garantir que o povo está com ele.
O ministro que pula de ministério em ministério de acordo com a conveniência de Bolsonaro teve a petulância de sugerir ao ministro da Justiça que proíba a Polícia Federal de acatar ordens emanadas do ministro Alexandre de Moraes. Como se a PF não fosse polícia judiciária e autônoma — e pudesse ser manipulada pelo governo. Ou como se isso não representasse mais um crime de responsabilidade.
A fala absurda de Bolsonaro, assim como estimulou Lorenzoni a propor besteiras, fará com que militantes bolsonaristas, como blogueiros e caminhoneiros a soldo, se sintam estimulados a resistir a um mandado de prisão, o que poderá ter sérias consequências. A crise mal começou e, como depende apenas de Bolsonaro, não será contida a não ser com o remédio amargo do impeachment.
"Cadê o mar de gente? Flopou”, internautas apontam fracasso nas manifestações golpistas
Manifestações, que foram divulgadas com fervor nas redes sociais pelos bolsonaristas, não atingiram as expectativas de um “mar de gente” nas ruas, como foi anunciado
Bolsonaristas
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247- As manifestações que foram divulgadas com fervor nas redes sociais pelos bolsonaristas, em defesa de um golpe de estado, não atingiram as expectativas de “mar de gente” nas ruas, como foi anunciado.
Nesta manhã imagens aéreas mostravam que Brasília e São Paulo, principais capitais de mobilização, não estavam com suas vias lotadas, frustando a expectativa dos extremistas.
A estimativa de público em Brasília equivale apenas a 5% do previsto
O coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos, afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) "está acuado, aposta no medo e na intimidação" para se manter no governo. Em entrevista ao UOL News, o ativista social destacou a "expressividade" das manifestações pró-governo realizadas neste 7 de Setembro, mas destacou que o mandatário não tem forças para aplicar um golpe de estado.
Para Boulos, as manifestações realizadas em várias cidades do país hoje "não estão fora do esperado" e Bolsonaro "jogou todas as suas fichas" nesses atos, sobretudo em um momento no qual a popularidade do presidente continua caindo, a inflação "explosiva", aumentos consecutivos nos preços da gasolina, botijão de gás, conta de luz, alimentos, além da "tragédia humanitária" provocada pela pandemia de coronavírus da qual, diz ele, o mandatário "é sócio".
Discurso golpista de Bolsonaro ataca Fux e STF em manifestação em Brasília
"Bolsonaro dobra a aposta, essa tem sido a tática dele ao longo do governo. Esse 7 de Setembro também revela um Bolsonaro fragilizado, com 25% de aprovação na sociedade, uma inflação explosiva no Brasil, o preço da gasolina elevado, do botijão de gás, nos alimentos, sem capacidade de dar uma resposta para a crise econômica, e depois de uma tragédia humanitária, da qual ele é sócio, no enfrentamento a pandemia. Esse cenário fez o Bolsonaro ficar acuado", declarou.
Ao UOL News, Guilherme Boulos destacou que o presidenta também teme investigações em curso no STF (Supremo Tribunal Federal) que estão próximas do chefe do Executivo Federal e dos filhos dele. Como alternativa, Bolsonaro "faz uma espécie de fuga para a frente, radicalizando, polarizando cada vez mais o discurso, inclusive porque não tem saída, e porque o cenário eleitoral, hoje, para ele, é muito desfavorável".
Não podemos subestimar Bolsonaro, diz Boulos
Na entrevista ao UOL News, Guilherme Boulos disse que "não podemos subestimar" o perigo que Jair Bolsonaro representa para a democracia no Brasil, pois o presidente "não joga dentro do campo democrático". Entretanto, ele destaca que o mandatário não tem o apoio da cúpula das Forças Armadas tampouco da maioria da população para concretizar um golpe, o que levaria o país a um "isolamento internacional".
"Hoje, Bolsonaro não tem o apoio da cúpula das Forças Armadas, das instituições de segurança para poder fazer uma ruptura institucional. Ele aposta em milicianos, na turma do clube de tiros, em infiltrações e comandos paralelos na PM", disse, ressaltado que "a gente não pode se levar pela intimidação".
"Bolsonaro joga com o medo como ativo político, ele ganhou as eleições em 2018 explorando o ódio e o medo e tem governado da mesma forma. Não podemos não ter reação a isso", Guilherme Boulos.
Segundo o coordenador do MTST, é preciso haver uma união entre a sociedade civil, os partidos de esquerda e os de centro que não coadunam com os ímpetos golpistas do presidente. Ainda, ele defendeu a presença dos militantes de esquerda nas ruas, a exemplo das manifestações do Grito dos Excluídos marcadas para hoje em protestos contra o governo, para que os "fascistas não se sintam os donos das ruas".
"Barrar o Bolsonaro nas suas iniciativas golpistas depende da participação social. Não acho que a gente tem que esperar passivamente as eleições de 2022. Defendo todas as mobilizações de ruas contra o Bolsonaro, porque quando os fascistas se colocam nas ruas sozinhos, eles se sentem os donos das ruas. Se essa turma que hoje é minoria se sentir dono da rua ninguém segura mais", afirmou.
Por fim, Guilherme Boulos repercutiu o discurso feito pelo presidente mais cedo para manifestantes em Brasília, e disse que Jair Bolsonaro repete "a mesma ladainha golpista" que consiste em ataques ao STF, às urnas eletrônicas e ao sistema eleitoral brasileiro, além de fazer "muita fumaça", e acreditar que as manifestações de hoje representam "uma inflexão na história brasileira", o que, diz ele, não é verdade.
Leonardo Sakamoto - Bolsonaro ignora inflação, fome e desemprego e elege Moraes vilão do Brasil
Colunista do UOL
07/09/2021 17h14
O combate à inflação, ao desemprego, à fome e às crises energética e hídrica foram os grandes ausentes nos dois discursos que Jair Bolsonaro fez sobre os problemas do país, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e na avenida Paulista, em São Paulo, nesta terça (7). Ignorando que governa para 213 milhões de pessoas, o presidente produziu uma peça para excitar o rebanho bolsonarista, elegendo como o grande vilão nacional o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Apesar das pautas econômicas estarem em primeiro lugar na preocupação dos brasileiros, seguidas pela saúde (pandemia), segundo levantamento da Quaest Pesquisa e Consultoria, Bolsonaro convenceu seus fãs que a principal crise do país é de ameaça à liberdade. No caso, a sua liberdade de atacar a democracia. Paradoxalmente, ele faz isso citando a defesa da democracia, repetindo a fórmula de governantes autoritários antes dele.
Jair dedicou seus discursos a alimentar a ideia de que o STF quer criar uma ditadura no país porque impede o bolsonarismo de ter liberdade absoluta, seja para atacar o sistema eleitoral, difundir remédios sem eficácia para a covid-19 ou propagar notícias falsas. Tanto que editou uma Medida Provisória, nesta segunda (6), impedindo a remoção de conteúdo de ódio e desinformação por parte do Facebook, Twitter e Google. Quer manter o direito de produzir cortinas de fumaça sobre a incompetência e corrupção de seu governo. Mas não só.
Bolsonaro trabalha duro para implantar o cada um por si no lugar do Estado
Nos dois atos em que esteve presente, o presidente não citou ações para resolver os problemas que atingem 14,4 milhões de desempregados, segundo o IBGE, e 19 milhões de famintos, nem afirmou como vai reduzir uma inflação que aumentou em 22% a cesta básica em 12 meses, segundo o Dieese. Muito menos falou sobre a sua estratégia para garantir que o preço dos combustíveis, do gás de cozinha e da energia elétrica parem de escalar. Ou como vai impedir apagões e racionamento de água até o final do ano.
Pior: as micaretas golpistas que ele organiza e seu comportamento antidemocrático só atrasam a retomada porque jogam incerteza política sobre o país, afastando investidores e consumidores.
Após atacar Alexandre de Moraes, responsável pelos inquéritos das fake news e das milícias digitais contra a democracia, investigações que atingem em cheio ele, seus filhos e aliados, afirmou que não obedecerá mais ordens judiciais que o ministro vier a proferir. Se cumprir a bravata, estará dando um golpe no Estado, implementando o caos.
Desde que assumiu o poder, o presidente trabalha para vender a ideia de que o interesse dos indivíduos é sempre mais importante do que o bem-estar da coletividade. Nem todo indivíduo, claro, apenas os que atuam sob uma lógica bolsonarista, sejam eles ruralistas, madeireiros e garimpeiros ilegais, policiais e militares que agem como milicianos, religiosos fundamentalistas, empresários gananciosos.
Ou seja, a liberdade individual de não usar máscara é mais importante que salvar vidas na pandemia; a de desmatar a Amazônia é maior do que a consequente falta de água; a de lucrar a qualquer custo é mais relevante do que a de garantir um mínimo de dignidade aos trabalhadores.
Erra quem pensa que os apoiadores de Bolsonaro são apenas um rebanho acéfalo. Há muita gente interessada em um Estado que saia de cena, permitindo que se implemente a lei do mais forte. Ou melhor, a do mais armado ou do mais rico. Existe quem age como gado, mas quem é sócio na fazenda.
Em um jantar com lideranças conservadores em Washington DC, capital dos Estados Unidos, em março de 2019, Bolsonaro foi bem sincero em seu intento de demolir o país para construir algo novo - à sua imagem e semelhança : "O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz".
Após as manifestações desta terça, ele deve estar exultante. Pois não trouxe soluções para problemas nacionais, apenas erodiu mais um pouco as instituições, para o bem dele mesmo e dos seus. Subiu um degrau nas ameaças às instituições. Nos próximos dias, o país vai se debruçar em resolver a porcaria deixada pelo presidente ao invés de se dedicar ao que realmente importa, como o combate à inflação, ao desemprego, à fome e às crises energética e hídrica.
"Não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos Três Poderes continue barbarizando a nossa população", bradou Bolsonaro em Brasília. Chegamos realmente a um ponto de inflexão. Ele e seus seguidores pensam em Alexandre de Moraes quando dizem e repetem essa declaração. Mas a maioria da população, que não quer guerra, apenas sobreviver no dia a dia, pensa nele.
Bolsonaro sabe disso. Tanto que demonstrou medo da cadeia em seu discurso em São Paulo ao afirmar que para lá, ele não irá nunca. Por isso, o golpe não é uma opção, mas uma necessidade. Afinal, a única forma de ele não sair preso após deixar o cargo é não deixar o cargo.
O vice-presidente da CPI da Covid, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), lembrou hoje a rapidez no processo de impeachment contra Fernando Collor em 1992 para dizer que considera viável um eventual afastamento de Jair Bolsonaro (sem partido) ainda neste ano.
Bolsonaro comete crime de responsabilidade ao incitar população contra STF
"É bom lembrar, o impeachment de Collor iniciou em fins de agosto de 1992. Em 29/09 ele foi preventivamente afastado e em dezembro condenado pelo Senado. Se todo mundo pegar logo no serviço a gente se livra dessa tragédia antes que o ano acabe", escreveu Randolfe.
Ontem, diversos partidos que ainda não haviam se manifestado favoravelmente a um processo de impeachment contra Bolsonaro emitiram notas de repúdio aos atos antidemocráticos promovidos pelo presidente, o que pode indicar uma mudança de postura e um aumento de pressão em cima do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).
Lira ainda não se manifestou sobre as manifestações de ontem. Até o momento, o presidente da Câmara não colocou em andamento nenhum dos diversos pedidos de impeachment que a Casa recebeu.
'Bolsonaro descontrolado' e 'manifestação de força': as diferentes visões da imprensa internacional sobre 7 de setembro
Num cartaz em inglês, manifestante pede a destituição dos ministros do STF no protesto em São Paulo Imagem: AFP
08/09/2021 09h12
Atualizada em 08/09/2021 09h22
A imprensa internacional continuou repercutindo nesta quarta-feira (08/09) a manifestação convocada pelo presidente Jair Bolsonaro para o 7 de setembro.
Atos reuniram milhares de pessoas em Brasília, São Paulo e outras cidades. Em dois discursos diante de seus apoiadores, Bolsonaro chamou as eleições de 2022 de "farsa", disse que só sai da presidência "preso ou morto" e exaltou a desobediência à Justiça.
7 de Setembro: grupos bolsonaristas se dividem entre euforia e frustração com manifestações
O jornal argentino La Nacion disse que "a imagem do dia é um presidente descontrolado, jogando tudo ou nada".
"Enquanto a economia desacelera, a inflação sobe e uma potencial crise energética assusta a população brasileira, Bolsonaro opta por não governar e se dedicar a uma campanha eleitoral antecipada", afirma a reportagem do periódico argentino.
"Haverá um antes e um depois das manifestações convocadas nesta terça-feira pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, para defendê-lo e, ao mesmo tempo, atacar aqueles que ele elege como inimigos. Há consenso entre acadêmicos, intelectuais e no mundo político não-alinhado com o chefe de Estado de que foram atos antidemocráticos, nos quais Bolsonaro fez 'um discurso golpista', com foco em sua luta acirrada com o Supremo Tribunal Federal."
Para dois jornais europeus, no entanto, os protestos foram uma demonstração de força do presidente brasileiro.
O espanhol El País afirmou que Bolsonaro "conseguiu a demonstração de força que procurava neste 7 de setembro, 199º aniversário da independência do Brasil de Portugal".
"Com o patriotismo e a liberdade como bandeiras, o ultradireitista trouxe grandes multidões às ruas em meio à pandemia de Brasília, São Paulo e outras cidades", escreve o diário espanhol.
"Seu discurso, em tom messiânico e diante de uma multidão, incluiu uma ameaça de golpe aos juízes da Suprema Corte que o investigam por espalhar notícias falsas."
Imprensa internacional voltou a destacar nesta quarta-feira os protestos de 7 de setembros convocados por Bolsonaro Imagem: REUTERS
"Como bom populista, o presidente de extrema direita fala constantemente ao povo e se coloca acima do Congresso, como o máximo intérprete dos desejos populares. Seus constantes ataques à separação de poderes e seus gestos autoritários alimentam periodicamente o temor de um autogolpe ou de algum tipo de quebra da ordem constitucional na terceira maior democracia do mundo."
O jornal espanhol também traz uma coluna de opinião da jornalista brasileira Eliane Brum no qual ela escreve: "O que fazer quando um presidente se comporta como um terrorista e impõe o terror de Estado a seus oponentes na data cívica mais simbólica do país?"
Le Monde destacou: 'Para o dia nacional do Brasil, Bolsonaro consegue mobilizar amplamente e ameaça um pouco mais a democracia' Imagem: REPRODUÇÃO
O jornal francês Le Monde também destacou a adesão aos protestos convocados por Bolsonaro.
"Se dizia que ele está encurralado, cambaleando. À beira do abismo, enfraquecido por uma impopularidade recorde, vários inquéritos judiciais e crises repetidas. Mas talvez o tenham enterrado um pouco cedo demais. Contra todas as probabilidades, Jair Bolsonaro conseguiu na terça-feira, 7 de setembro, mobilizar seus apoiadores em massa nas ruas do Brasil, por ocasião do Dia da Independêncial."
Brasil 'no limite'
Os jornais financeiros destacaram as incertezas do Brasil diante das manifestações ? e ressaltaram que pesquisas de opinião mostram que o apoio a Bolsonaro está encolhendo no Brasil.
A manifestação convocada pelo presidente Jair Bolsonaro para o 7 de setembro "alimentou a tensão que existe no Brasil" e colocou o país "no limite", na avaliação do jornal britânico Financial Times publicada na edição desta quarta-feira.
Segundo o britânico Financial Times, "os protestos (convocados por Bolsonaro) geram medo de violência contra juízes após críticas do presidente".
"Apesar das grandes multidões esperadas ontem, um feriado nacional, a popularidade de Bolsonaro está diminuindo drasticamente, já que sua retórica antidemocrática assustou muitos antigos apoiadores, como a comunidade empresarial", afirma o Financial Times.
"Na avenida Faria Lima, em São Paulo, a versão brasileira de Wall Street, executivos admitem silenciosamente que a turbulência política está prejudicando os investimentos na maior economia da América Latina."
Outro jornal influente na comunidade financeira internacional, o Wall Street Journal, também publicou nesta quarta-feira reportagem sobre os protestos de 7 de setembro.
Wall Street Journal: "Presidente Bolsonaro reúne apoiadores antes da campanha de reeleição" Imagem: REPRODUÇÃO
"Com seu índice de aprovação caindo em meio ao aumento da inflação e 584 mil mortes por covid-19, Bolsonaro convocou seus partidários para se manifestarem na terça-feira ? o Dia da Independência do Brasil ? contra as instituições que ele afirma que estão prestes a derrubá-lo. Além do tribunal superior, Bolsonaro está lutando contra promotores, adversários no Congresso, a justiça eleitoral e alguns governadores de Estado, incluindo o de São Paulo, João Doria. Ele também enfrenta o desafio de tentar vencer o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição do próximo ano", destaca o jornal.
O jornal americano também destacou os ataques de Bolsonaro contra a urna eletrônica.
"Observadores internacionais de democracia elogiam amplamente o sistema de votação eletrônica do Brasil, mas Bolsonaro disse que ele é vulnerável a fraudes", escreve o Wall Street Journal.
O jornal também cita entrevistas com cientistas políticos que alertam que "o discurso inflamado de Bolsonaro na terça-feira corre o risco de minar ainda mais a confiança dos brasileiros em suas instituições, que já era baixa antes de ele assumir o cargo no início de 2019".
O jornal americano Washington Post destacou a prisão de Jason Miller, ex-conselheiro do ex-presidente americano Donald Trump e criador da rede social GETTR, que pretende abrigar os principais representantes da direita global.
Quando deixava o país, na manhã de terça-feira, Jason Miller foi conduzido à sala da Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Brasília para ser ouvido no âmbito do inquérito das fake news, sob o comando do ministro do STF Alexandre de Moraes.
"Jason Miller, ex-conselheiro sênior de Donald Trump, disse na terça-feira que foi brevemente detido e interrogado pelas autoridades brasileiras em um dia em que o país sul-americano se aproximava ainda mais de uma crise constitucional completa", escreveu o Washington Post.
"A popularidade de Bolsonaro despencou nos últimos meses, à medida que o coronavírus devastou o país, a economia eliminou milhões de empregos e as investigações sobre sua conduta se intensificaram. Seu desconforto com as investigações tem alimentado comentários cada vez mais belicosos, tanto dele quanto de seus apoiadores, alguns dos quais o pediram repetidamente para liderar uma tomada militar do país e depor aqueles que procuraram restringir seu poder."
O jornal britânico The Guardian destacava na sua capa nesta quarta-feira uma reportagem intitulada: "Os obstinados apoiadores de Bolsonaro vão às ruas do Brasil para incitar pelotões de fuzilamento e golpes".
Na terça-feira, outros veículos como o The Guardian, o New York Times, a Der Spiegel e o El Clarin também haviam noticiado os protestos no Brasil.
UE quer sanções contra Polônia por falta de independência do Judiciário
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A União Europeia anunciou nesta terça-feira (7) que pediu ao Tribunal de Justiça da UE que aplique multas à Polônia pela falta de independência do sistema Judiciário, uma medida que Varsóvia chamou de "agressão".AP - Geert Vanden Wijngaert
Texto por:RFI
2 min
A União Europeia (UE) anunciou nesta terça-feira (7) que pediu ao Tribunal de Justiça do bloco que aplique multas à Polônia pela falta de independência do sistema Judiciário do país. Varsóvia chamou a medida de "agressão".
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Em nota, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, justificou a iniciativa e destacou que "os sistemas judiciários da União Europeia devem ser independentes e justos".
Momentos após o anúncio, o vice-ministro da Justiça polonês, Sebastian Kaleta, destacou no Twitter que a Comissão Europeia "bloqueia ilegalmente fundos da Polônia e pede sanções. Esses são atos de agressão".
Agora, o Tribunal Europeu deve decidir no prazo máximo de seis meses sobre o pedido de multas, segundo uma fonte judicial.
Em julho, o Tribunal concluiu que a reforma adotada na Polônia para a implementação de uma Câmara Disciplinar para juízes afetava seriamente a independência do Judiciário e exigiu a anulação da iniciativa. O Tribunal considerou que a nova norma "desprotegia o Judiciário da influência direta ou indireta dos poderes Legislativo e Executivo".
A Polônia respondeu em agosto, mas, de acordo com a Comissão Europeia, os peritos concluíram que o governo polonês não tomou medidas para alinhar suas regras internas à decisão do Tribunal. Por este motivo, a Comissão anunciou que enviou à Polônia uma carta formal sobre o pedido ao Tribunal para a aplicação de uma multa por falta de ajuste de suas regras internas, consideradas incompatíveis com a legislação europeia.
Direitos
Na opinião de Von der Leyen, "os direitos dos cidadãos europeus devem ser garantidos de forma igual, onde quer que vivam na UE". Por sua vez, o comissário europeu para a Justiça, Didier Reynders, lembrou em julho que o Tribunal emitiu decisões "essenciais para proteger a independência judicial na Polônia". "É crucial que a Polônia cumpra essas decisões. É por isso que a Comissão agiu", disse ele.
Vera Jourova, vice-presidente da Comissão Europeia, afirmou que "os acórdãos do Tribunal de Justiça da UE devem ser respeitados em toda a UE". "É imperativo construir e fomentar a confiança mútua necessária entre os Estados-membros e os cidadãos", acrescentou.
Câmara disciplinar
A implementação da Câmara Disciplinar para juízes tem provocado desacordos entre a Polônia e a UE há quase um ano, visto que Bruxelas a considera uma ingerência inaceitável na independência do poder Judiciário.
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Diante da decisão do Tribunal em julho, o partido no poder na Polônia (o ultraconservador PiS) chegou a prometer uma estrutura "completamente diferente" no lugar da controversa Câmara Disciplinar.
No entanto, tanto o PiS como o Tribunal Constitucional polonês questionaram a competência do Tribunal europeu para intervir no caso e, desta forma, a dificuldade na comunicação entre Bruxelas e Varsóvia tornou-se mais evidente.
Os protestos ocorridos no feriado de 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, tiveram forte repercussão na imprensa francesa hoje. Três grandes jornais do país dão sua visão sobre as manifestações ocorridas nas capitais brasileiras.
Para o Le Monde, Bolsonaro conseguiu mobilizar amplamente seus apoiadores e ameaça um pouco mais a democracia. "Ele parecia estar encurralado, cambaleante, à beira do abismo, enfraquecido por uma impopularidade recorde, vários inquéritos judiciais e repetidas crises. Mas talvez o tenhamos enterrado cedo demais", diz o correspondente do jornal francês em São Paulo. "Contra todas as probabilidades, Jair Bolsonaro conseguiu mobilizar seus apoiadores em massa nas ruas do Brasil, por ocasião do Dia da Independência Nacional", sublinha a reportagem.
Leia a íntegra do discurso de Bolsonaro em São Paulo no 7 de setembro
Libération, jornal de esquerda, nota que "o presidente brasileiro adotou um tom ameaçador em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF), podendo aprofundar a crise institucional". Bolsonaro atacou ferozmente um dos juízes da Suprema Corte, Alexandre de Moraes, que ordenou investigações contra ele, apoiadores e aliados por espalhar informações falsas, relata a reportagem. Atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas eleitorais para 2022, Bolsonaro "segue o modelo de Donald Trump e busca jogar as ruas contra as instituições democráticas", escreve o diário.
O Libération ouviu o cientista político Maurício Santoro. Para ele, "o mais preocupante são os discursos do presidente contra as instituições democráticas, em particular o STF, sem precedentes desde o retorno da democracia", após a ditadura militar de 1964 a 1985. "É um pouco como a Hungria, Polônia, Venezuela ou os Estados Unidos da época de Trump: retórica autoritária que enfraquece a democracia por dentro", conclui.
A reportagem observa que a maioria dos presentes não usava máscara de proteção, enquanto, "apesar do progresso da vacinação, a pandemia está longe de ser controlada no país onde mais de 580.000 pessoas morreram de Covid-19". A mobilização em Brasília foi forte, diz o texto, mas "alguns comentaristas políticos esperavam ver uma multidão maior".
Num dia de discursos inflamados, opositores também protestaram. "A oposição pede a saída de um presidente acusado de ameaçar a democracia, de ter administrado de forma lamentável a crise da Covid-19 e a economia, com desemprego quase recorde e inflação preocupante", relata a reportagem, acrescentando que os manifestantes se dispersaram no fim da tarde, sem nenhum incidente grave.
Com 51% dos brasileiros desfavoráveis à sua gestão, Bolsonaro nunca foi tão impopular desde que assumiu o poder, em janeiro de 2019, conclui o Libération.
Le Figaro vê Bolsonaro num impasse
O jornal Le Figaro destaca o apoio dos bolsonaristas ao presidente neste 7 de setembro, mas recorda que três quartos dos brasileiros são a favor da democracia, de acordo com pesquisa do Instituto Datafolha de junho de 2020, e que 8 em cada 10 reprovam o clima de nostalgia em relação ao regime militar.
O diário de linha editorial conservadora destaca que "nos últimos meses, Bolsonaro viu sua popularidade cair nas pesquisas, teve seus projetos rejeitados no Congresso e viu o Judiciário se voltar contra seus aliados", enquanto "uma seca de intensidade recorde ameaça a retomada econômica do gigante latino-americano".
"O ex-capitão do Exército está num impasse", diz o Le Figaro, mas mantém apoio de 30% de seu eleitorado, com demonstrações em seu favor em praticamente todas as capitais.
Para o cientista político Thomas Traumann, citado pela publicação, "Bolsonaro apostou tudo nesse evento que é uma demonstração de força", dentro de uma estratégia de confrontação e combate, analisa o diário.
O Le Figaro também destaca que o presidente Bolsonaro "acentuou as críticas sobre o sistema eleitoral brasileiro, semeando dúvidas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas sem fornecer provas".
Bolsonaro só lidera a parcela que o segue cegamente como zumbi, diz Renan
O comentário do senador foi feito um dia após as manifestações de 7 de setembro, marcadas por pautas antidemocráticas Imagem: Pedro França/Agência Senado
Do UOL, em São Paulo
08/09/2021 11h19
O senador Renan Calheiros (MDB-AL), líder da maioria no Senado e relator da CPI da Covid, disse hoje que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) "só lidera a parcela que o segue cegamente como zumbi". O comentário foi feito um dia após as manifestações de 7 de setembro, marcadas por pautas antidemocráticas, como pedidos de fechamento do STF (Supremo Tribunal Federal) e intervenção militar.
"Comemora o desemprego, a volta da fome e a fila do osso, o aumento da comida, da conta de luz, da gasolina, boicota a vacina, espalha o vírus, ri dos enlutados e prega a anarquia militar. Felizmente, são minoria", acrescentou o parlamentar em sua publicação no Twitter.
Mourão: Não há clima para impeachment e governo tem base no Congresso
Além da inflação, o país enfrenta aceleração do desemprego e alta no endividamento das famílias. Segundo o IBGE, o Brasil fechou o segundo trimestre de 2021 com 14,4 milhões de desempregados.
Opinião: Fernanda Magnotta - Bolsonaro dobrou a aposta e quem paga o preço é o Brasil
O presidente Jair Bolsonaro discursa em carro de som durante ato com pautas antidemocráticas na avenida Paulista Imagem: DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO
Fernanda Magnotta
Colunista do UOL
08/09/2021 11h25
Desde que diversos movimentos da direita radical ganharam força mundo afora, muitos de nós, analistas políticos, recorremos à obra de Max Weber, um dos maiores sociólogos de todos os tempos, para defender a tese da progressiva normalização de discursos extremistas.
Ao distinguir a "ética da convicção" da "ética da responsabilidade", Weber propõe que, se na esfera privada, o conjunto de valores individuais orienta o comportamento político, no caso da vida pública, enquanto governantes, os homens seriam pautados pela racionalização desses princípios e do permanente cálculo de custos relacionados às decisões tomadas. Com base nisso, faria sentido supor que, uma vez no poder, certos líderes não mais estariam dispostos a lidar com as consequências práticas de afirmações e bravatas feitas nos moldes da vida pregressa.
Na contramão dessa lógica, no entanto, fomos surpreendidos por figuras como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, ambos interessados não só em manter as narrativas que os alçaram ao cargo, mas dispostos a dobrar a aposta em momentos de contestação ou tensionamento.
Nos dois casos, a estratégia incluiu a negação sistemática da realidade e a tentativa de criar um mundo distópico para explicar escolhas mal fadadas e a própria rejeição. A diferença central entre Estados Unidos e Brasil, no entanto, está, como já discutimos nessa coluna outras vezes, na enorme disparidade de capacidades entre os dois atores.
Sabemos que a competitividade internacional dos países é condicionada por um conjunto de fatores que vão desde aspectos internos e estruturais até elementos sistêmicos. Não basta falar de concorrência e mercado, de vantagens competitivas, de estratégia, grau de inovação ou qualidade de recursos humanos de uma sociedade. É premente observar também as externalidades, variáveis que afetam a reputação e a competição no plano externo. Nessa chave estão contidos elementos como infraestrutura, saúde, educação, tecnologia, estabilidade macroeconômica e da atmosfera política.
Se, nos Estados Unidos, o "efeito Trump" causou mal estar em algumas dessas frentes, os efeitos foram equivalentes a apenas uma gripezinha passageira. Já no caso brasileiro, os sintomas parecem sugerir um quadro bem mais grave e com implicações de longa duração.
A má gestão é generalizada. Se a crise derivada da pandemia de covid-19 e os desajustes econômicos do governo Bolsonaro já preocupavam investidores e lideranças internacionais há meses, os discursos de 07 de setembro certamente elevaram o risco Brasil a patamares preocupantes.
O presidente reforçou a percepção de que é um moribundo político que radicaliza para as bases na medida em que reconhece o próprio isolamento. A História tem sido implacável em mostrar que aventuras populistas não resistem à dureza da realidade. Para além do que sugerem as bolhas que monopolizaram a bandeira verde e amarela, o Brasil da vida real tem outras cores: é o Brasil da crise política, econômica, social, intelectual e moral.
Há algumas décadas estamos discutindo como promover uma melhor alocação de recursos no campo da educação, Ciência e tecnologia. Falamos em teorias sobre a melhoria do ambiente de negócios, de Schumpeter à Levine. Do ponto de vista da gestão macroeconômica, discutimos as elevadas taxas de juros no mercado interno, os spreads bancários excessivamente altos, o câmbio apreciado, a reestruturação do Estado e a carência na infraestrutura. Falamos da baixa exposição ao mercado internacional e da composição da pauta de exportações com forte dependência em commodities. Enfrentamos os desafios dos escândalos de corrupção, da insegurança jurídica e da necessidade de amplas reformas. Nada disso é novidade.
A novidade é que, hoje, não apenas seguimos com o mesmo cardápio diante de nossos olhos, sem nenhum avanço significativo e com diversos retrocessos em várias dessas matérias, como acrescentamos um componente inédito: a ameaça de ruptura de nosso sistema de governança.
O Brasil de 2021 é o Brasil do caos na saúde pública, da "rachadinha", do desemprego recorde, da inflação galopante, do câmbio desgovernado, da fuga de investimentos e de cérebros. É o Brasil da crise institucional, da polarização e do discurso autoritário. Do desrespeito à imprensa profissional, às instituições educacionais e aos poderes constituídos. O Brasil de 2021 é o Brasil em que a "ética da convicção" colonizou a "ética da responsabilidade".
Para além dos efeitos óbvios que vivemos por aqui, não se pode ignorar que a nossa reputação está derretendo no exterior. O Brasil é visto como um país que foi sequestrado por fanáticos auto interessados. Sempre tivemos os nossos gargalos, mas a situação agora é bem mais crítica. Não basta que o governo comemore suas multidões com registros nas redes sociais. A realidade nua e crua é que ninguém quer sair na foto com o Brasil.
Opinião: Felipe Moura Brasil - A bolha bolsonarista e o crepúsculo de Bolsonaro
Bolsonaro discursa em São Paulo no dia 7 de setembro Imagem: Reprodução
Felipe Moura Brasil
Colunista do UOL
08/09/2021 13h09
Em 1927, dez anos antes do Grande Terror de Stalin e seis anos antes de Hitler chegar ao poder, o ensaísta francês Julien Benda, autor do livro "A traição dos intelectuais" (no original, "La trahison des clercs"), "já temia que os escritores, jornalistas e ensaístas que haviam se transformado em empreendedores e propagandistas pudessem levar civilizações inteiras a atos de violência. E foi o que aconteceu", resumiu a escritora americana Ann Applebaum em "O crepúsculo da democracia", publicado em 2020.F
Em seu tempo, Benda acusou os ideólogos de extrema-direita e extrema-esquerda de traírem a busca pela verdade, em favor de causas políticas particulares. "Se acontecer, a queda da democracia liberal em nosso próprio tempo não terá a mesma aparência das décadas de 1920 ou 1930", comparou Applebaum, mas "precisará de uma nova geração dos clercs" para "minar nossos valores atuais e imaginar um novo sistema".
Para manter o controle quase absoluto sobre as instituições do Estado húngaro, no regime que ele próprio chamou de "democracia iliberal", Viktor Orbán, por exemplo, também conta com seus propagandistas. No cargo, "o político iliberal quer enfraquecer os tribunais a fim de obter mais poder para si mesmo, mas como persuade os eleitores a aceitarem essas mudanças? Na Roma Antiga, César tinha escultores para criar múltiplas versões de sua imagem. Nenhum autoritarismo pode ter sucesso sem o equivalente moderno: os escritores, intelectuais, panfletários, blogueiros, assessores de imprensa, produtores de TV e criadores de memes que vendem sua imagem para o público."
Eu, Felipe, chamo os "clercs" de Jair Bolsonaro de claque bolsonarista. Desde que avançaram as investigações sobre a apropriação criminosa de dinheiro público nos gabinetes da família, os mecanismos obscuros de financiamento dos blogueiros de crachá e a omissão dolosa de socorro do governo ao povo brasileiro durante a pandemia de Covid-19, o presidente quer enfraquecer os tribunais a fim de obter mais poder para evitar a própria prisão e conta com sua claque para ajudá-lo a persuadir os eleitores não apenas a aceitarem essas potenciais mudanças, mas também a reivindicá-las nas ruas, como aconteceu em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo no feriado de 7 de setembro.
"O método de Orbán funciona: fale sobre questões emocionais. Apresente-se como defensor da civilização ocidental, especialmente no exterior. Dessa maneira, ninguém notará o nepotismo e a corrupção no ambiente doméstico", explicou Applebaum. Para lançar fumaça sobre seus telhados de vidro, Bolsonaro também fala sobre questões emocionais, apresentando-se como defensor das "liberdades", em contraposição ao ministro do STF Alexandre de Moraes. "Nós também não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos Três Poderes continue barbarizando a nossa população. Não podemos aceitar mais prisões políticas para o nosso Brasil. Ou o chefe desse Poder [Luiz Fux] enquadra o seu [ministro], ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos", ameaçou o presidente, flertando com um golpe de Estado.
As liberdades de expressão e crítica precisam de defesa, na verdade, contra tentativas reacionárias de perverter seu conceito, embutindo nele incitações ao crime e ameaças à integridade física, à vida humana e à democracia. Ninguém pode ameaçar os outros e as instituições impunemente. "Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave" é crime previsto no artigo 147 do Código Penal. A pena é detenção, de um a seis meses, ou multa.
As tentativas de golpe ou ameaças de cunho golpista também estavam previstas nos artigos 17, 18, 22 e 23 da Lei de Segurança Nacional (7.170/73), agora revogada, mas incorporada ao Código Penal, onde o artigo 359-L mantém criminalizadas tais práticas: "tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais: pena - reclusão, de 4 a 8 anos, além da pena correspondente à violência".
Como o apelo emocional da narrativa sobre "presos políticos" perderia força se Bolsonaro e sua claque citassem as declarações delinquentes dos bolsonaristas detidos e as respectivas leis nas quais eles foram enquadrados, todas elas são providencialmente omitidas em prol de uma mensagem tanto mais conveniente e apelativa quanto mais genérica e rudimentar. No caso das prisões decretadas às vésperas da manifestação, eles também omitiram que os pedidos acatados por Moraes partiram da subprocuradora Lindôra Araújo, que ganhou poder na PGR de Augusto Aras, escolhido por Bolsonaro.
Eis alguns exemplos:
"Morte ao Careca do STF e a toda sua família!"; "terça-feira [7 de setembro] vamos te matar e matar toda a sua família, seu vagabundo"; "nós militares te eliminaremos"; "vou te dar um tiro de 762 no seu focinho e acabar com sua família. Morte ao Alexandre Imoral" - Cássio Rodrigues Costa Souza.
"Nós temos um grupamento no Brasil que nós vamos caçar ministros em qualquer lugar que eles estejam. Portugal, Espanha, Argentina... Tem um empresário grande que tá oferecendo, tem até uma grana federal que vai sair o valor pela cabeça do Alexandre de Moraes, vivo ou morto, pra quem trazer ele" - Márcio Giovani Nique.
"Tem 80% de chance de isso acontecer... O povo está vindo para Brasília para retomar o poder. E retomar o poder significa invadir a estrutura física, sim, tanto do Supremo Tribunal Federal como do Congresso Nacional" - Wellington Macedo.
As três prisões preventivas ocorreram em razão dessas e de outras barbaridades, mas, na propaganda vitimista da claque, elas se deram por "crime de opinião".
Em 1895, o psicólogo social francês Gustave Le Bon já mostrava, em "Psicologia das multidões", que "as multidões não são influenciáveis pelos raciocínios e só conseguem compreender grosseiras associações de ideias". "Por isso, é para os seus sentimentos, nunca para a sua razão, que apelam os oradores que sabem impressioná-las, que sabem que a lógica racional não exerce qualquer ação sobre elas."
"O poder das palavras", destacava Le Bon, "está ligado à imagem que elas evocam e é completamente independente do seu significado real. As palavras cujo sentido se encontra mais mal definido são por vezes as que possuem uma maior influência", "um poder verdadeiramente mágico, como se elas contivessem em si a solução de todos os problemas." Ele citava, entre outros exemplos, justamente "liberdade". De fato, o conceito mal entendido dessa palavra não soluciona o preço do feijão, da gasolina, do gás de cozinha, da luz e do dólar; a dívida de 89 bilhões de reais com precatórios; o desmantelamento de forças-tarefa anticorrupção; o desemprego de 14,8 milhões de brasileiros; muito menos 584 mil mortos por Covid-19. Mas, como apontava Le Bon: "a razão e os argumentos lutariam em vão contra certas palavras e certas fórmulas."
"Renovação" também pode ser uma delas. Bolsonaro havia dito que, com ele, o STF começou a ser renovado. Seu primeiro indicado, Kassio Nunes Marques, no entanto, ajudou a blindar Aécio Neves e Eduardo Azeredo, do PSDB, Ciro Nogueira e Arthur Lira, do Centrão, e contribuiu para retirar a delação de Antônio Palocci de um dos processos contra Lula, que o ministro também ajudou a blindar endossando em plenário o julgamento da suspeição de Sergio Moro. Os bolsonaristas saíram às ruas contra o Supremo, enquanto o presidente só renova na Corte a impunidade geral, da qual ele próprio quer um quinhão para si e seus filhos. Tanto que seu segundo indicado é André Mendonça, ex-assessor de Dias Toffoli para quem até José Dirceu faz campanha.
E daí?
"As multidões nunca tiveram sede de verdade", dizia Le Bon. "Diante de evidências que lhes desagradam, viram as costas e preferem divinizar o erro, se ele as seduzir. Quem as souber iludir, facilmente será seu senhor; quem as tentar desiludir, será sempre a sua vítima." Ou, como dizia Eric Voegelin (que citei no artigo "Dom Bolsonaro Del Centrão", um ano atrás): "Se a segunda realidade se torna dominante numa sociedade, quem quer que não esteja alienado da primeira pode apenas cometer alta traição."
A multidão de cadáveres e a inflação atrapalharam a segunda realidade bolsonarista a se tornar dominante na sociedade brasileira, mas 125 mil pessoas ainda estiveram na Av. Paulista para terceirizar as responsabilidades de Bolsonaro aos "traidores" da suposta pátria, como fazem nas redes sociais diariamente. "Não é o anseio de liberdade, mas o da servidão que sempre domina a alma das multidões. A fome de obediência que elas têm leva-as a submeterem-se instintivamente a quem se proclamar seu senhor", afirmava Le Bon, décadas antes de Friedrich Hayek publicar "O caminho para a servidão" (que citei em "Breve história do bolsolavismo").
O psicólogo social francês listava "a pouca aptidão para o raciocínio, a ausência de espírito crítico, a irritabilidade, a credulidade e o simplismo" como características da multidão eleitoral, agora tão bombardeada virtualmente com fake news que se dispõe a defender as "liberdades" da claque de desinformá-la e incitá-la ao golpismo.
"O apelo emocional de uma teoria da conspiração reside em sua simplicidade", escreveu Applebaum. "Ela explica fenômenos complexos, responde por acasos e acidentes e oferece ao apoiador a satisfatória sensação de ter acesso especial e privilegiado à verdade... As pessoas sempre tiveram opiniões diferentes. Agora têm fatos diferentes... Narrativas falsas, partidárias ou de algum modo enganosas se disseminam como incêndios digitais, como cascatas de falsidades que se movem rápido demais para que os fatos sejam conferidos. E, mesmo que fossem, já não importa: parte do público jamais lerá sites de checagem de fatos e, se o fizer, não acreditará no que ler... os próprios algoritmos das mídias sociais encorajam falsas percepções do mundo" e "também radicalizam os usuários... O resultado é um hiperpartidarismo..."
"Esse novo mundo da informação", prosseguiu Applebaum, "também fornece um novo conjunto de ferramentas e táticas que outra geração de clercs pode usar para chegar às pessoas que querem linguagem simples, símbolos poderosos e identidades claras. Não é preciso organizar um movimento nas ruas para apelar àqueles que possuem predisposição autoritária. É possível organizar um no escritório, em frente ao computador. Testar as mensagens e avaliar as respostas. Criar campanhas publicitárias direcionadas. Organizar grupos de fãs no WhatsApp ou no Telegram. Escolher temas... e ajustá-los sob medida para plateias particulares. Inventar memes, criar vídeos e elaborar slogans projetados para apelar precisamente ao medo e à raiva..."
Com foco na retórica do líder, não em suas ações, com distribuição de boquinhas em gabinetes a militantes virtuais e com aumento de verbas públicas para veículos que empregam a claque, é possível, até certo ponto, formar uma bolha onde verdades incômodas e nuances indesejadas não penetram e quem ousa trazê-las de fora para dentro é visto como Judas, assim como quem aplica as leis da primeira realidade contra qualquer membro da segunda, sobretudo no período ruidoso de adaptação do arcabouço legal ao avanço tecnológico usado para fabricar a fantasia política.
É exatamente isto que o bolsonarismo faz e que viabiliza um 7 de setembro permanente. A bolha bolsonarista, embora já minoritária na população, é fanatizada o suficiente tanto para ocupar alguns quarteirões em grandes cidades quanto para gerar monetização aos ideólogos que - por reacionarismo aloprado, oportunismo financeiro ou ambos os fatores - traíram a busca pela verdade, em favor de causas políticas particulares. Restou a Bolsonaro explorar essa bolha, como se fosse o povo nos braços do qual estará protegido contra as decisões de Moraes que ameaçou descumprir. "Eu nunca serei preso", disse o presidente, passando recibo de seu maior temor.
Contudo, a imagem de um mendigo deitado no chão, enquanto passavam por ele bolsonaristas com cartazes messiânicos, valeu mais do que mil palavras para mostrar que ainda há uma primeira realidade no caminho da segunda e que o governo Bolsonaro já vive o seu crepúsculo.
Leonardo Sakamoto - Lira avisa que não vai sacrificar Bolsonaro, sua galinha dos ovos de ouro
Colunista do UOL
08/09/2021 14h06
Pressionado a se manifestar após as micaretas golpistas de Jair Bolsonaro, nesta terça (7), o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), não deu sinais de que vai analisar qualquer um dos 136 pedidos de impeachment sobre os quais está sentado. Apesar de ter dito que é hora de dar fim às bravatas e que é preciso voltar ao trabalho, em clara referência ao presidente, afirmou que os brasileiros têm um encontro marcado com as eleições em 3 de outubro de 2022, dando a entender que essa deve ser a saída política para o país.
A palavra impeachment voltou à arena política de Brasília mais pelo desejo de analistas e políticos do que por uma mudança de conjuntura que permitiria cassar o presidente. Os ataques às instituições, apesar de aviltantes, têm se mostrado insuficientes para levar deputados do centrão a entregar a cabeça de Jair Bolsonaro. O mesmo não se pode dizer da piora da crise socioeconômica.
Em seu pronunciamento, Lira reclamou do preço da gasolina, que atingiu R$ 7 em alguns lugares, e do preço de gás de cozinha, uma crítica direta à (falta de) ação do presidente e de sua equipe. E alertou para a crise. E é aí, nesse combo inflação, desemprego, fome e crises hídrica e elétrica, que reside a possibilidade de um ponto de inflexão do presidente da Câmara.
Lira controla emendas, mas também a agenda legislativa do país
Há 136 pedidos de impeachment que estão no limbo, sem serem aprovados, nem arquivados. Lira, que está com a reeleição garantida, dada a quantidade de recursos que despeja no interior de Alagoas, não quer perder a galinha dos ovos de ouro do centrão.
E não são apenas as dezenas de bilhões de reais em emendas. A possibilidade de impor uma agenda de votação legislativa que interessa a poderosos grupos de lobby, de ruralistas a construtoras, não seria igual caso estivéssemos em uma normalidade democrática.
Sob a sua batuta, projetos, como o PL da Grilagem de Terras, passaram facilmente na Câmara, embutidos como jabutis em Medidas Provisórias ou através de trâmites sem o devido tempo para debate. A nova Reforma Trabalhista, que atrapalhava até o combate ao trabalho escravo, foi aprovada a toque de caixa e só não viu a luz do dia porque o Senado a rejeitou.
Mesmo juntando a maioria do MDB, PSD, PSDB e defecções no PSL, no DEM e no PL aos 130 votos da oposição, o afastamento do presidente se mantém algo distante devido às possibilidades trazidas por um presidente no cadafalso.
O outro "leão de chácara" que impede o início de um processo de cassação do presidente da República, o procurador-geral da República, Augusto Aras, foi reconduzido a mais dois anos à frente da PGR. Torce para herdar a indicação de André Mendonça ao Supremo, apesar de não ser "terrivelmente evangélico". Até lá, segue protegendo o pescoço do padrinho.
Permanecendo no cargo, se vier a demonstrar que se lembra do texto constitucional e resolver denunciar Bolsonaro criminalmente, o processo ainda precisaria da anuência de 342 votos de deputados para ser aberto pelo STF.
Uma solução via Tribunal Superior Eleitoral também é algo difícil de ocorrer - ela, em última instância, seria política, não jurídica, e levaria em conta que Bolsonaro mantém o apoio de 24% da população. Se as multidões em São Paulo e Brasília foram muito menores que o presidente esperava, tampouco não foram politicamente desprezíveis.
Lira mandou recados ao presidente, mas também ao STF
O presidente da Câmara reforçou que as eleições vão ocorrer com o uso das urnas eletrônicas, em uma crítica clara a Bolsonaro, que insiste na introdução do voto impresso. Após presidir a sessão legislativa que rejeitou essa demanda, o deputado afirmou que o assunto estava encerrado e que o presidente saberia respeitar isso - coisa que, claro, não ocorreu.
Lira também deu uma cutucada no Supremo Tribunal Federal, ao afirmar que a punição de deputados deve ser feita pela própria Câmara. Daniel Silveira (PSL-RJ) foi preso após decisão do ministro Alexandre de Moraes, que foi confirmada posteriormente pelo parlamento.
Ele criticou bravatas em seu pronunciamento desta quarta. A declaração de Bolsonaro de que não obedecerá mais decisões de Alexandre de Moraes é, provavelmente, a maior dita na República nestes 33 meses de mandato. Se isso vier a acontecer, o que, na prática, é um golpe de Estado, Lira será pressionado a abrir um processo de impeachment.
Uma coisa, contudo, é abrir e outro conseguir os 342 votos. Se fosse hoje, "bombeiros" entrariam na jogada para botar panos quentes e salvar a tal galinha - como ocorreu com Michel Temer.
Por mais absurdo que seja isso, mas será difícil responsabilizar Bolsonaro pelos ataques que vêm fazendo às instituições se ele continuar provocando uma lenta erosão à democracia. É uma situação gravíssima, mas não desperta o grosso da população e, portanto, não gera o mesmo impacto na base de apoio ao governo.
O mesmo não pode ser dito se a vida dos brasileiros mais pobres e da classe média se tornar um inferno.
Bolsonaro não resiste ao combo apagão, inflação, desemprego alto, fome e falta de água
Postos de trabalho têm sido gerados a passo de tartaruga e, com isso, temos ainda 14,4 milhões de desempregados. Se considerarmos o total de pessoas subutilizadas, são 32,2 milhões. Outros 5,6 milhões estão em desalento: simplesmente não procuram emprego porque sabem que não vão encontra-lo.
A inflação da cesta básica acumula 22% nos últimos 12 meses, de acordo com o Dieese. Gasolina e gás de cozinha não param de subir, corroendo a renda dos brasileiros que, segundo o IBGE, também vem caindo - houve redução de 6,6% no segundo trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado.
O aumento no preço da energia elétrica, como forma de contornar a crise gerada pela incompetência do governo federal (que ignorou os efeitos das mudanças climáticas sobre a vazão da água dos rios e permitiu que os reservatórios das usinas ao limite sem tomar medidas), também vem produzindo ranger de dentes.
Caso a seca reduza o nível das hidrelétricas a ponto de gerar apagões de energia e um racionamento de água mais forte do que aquele que os mais pobres já estão "acostumados", teremos a raiva popular contra Bolsonaro entrando em ebulição.
O escuro e as torneiras secas, somadas a uma inflação que caminha para os dois dígitos e o desemprego ainda alto, são elementos mais do que suficientes para justificar e engrossar protestos nas ruas diante de um presidente que não governa. Protestos que serão ainda maiores se a variante Delta não criar uma terceira onda de mortes por covid-19.
Entre manter sua galinha dos ovos de ouro e ver sua reeleição na berlinda, o centrão pode fazer os cálculos e perceber que sacrificar Jair em 2021 é mais vantajoso do que correr o risco de se contaminar para abandonar o barco apenas em abril de 2022, no início do calendário eleitoral. Nesse caso, os pronunciamentos de Lira podem mudar de conteúdo.
Da mesma forma que a economia decolando em céu de brigadeiro levou à reeleição de Lula em 2006, mesmo com escândalo do Mensalão, e uma crise econômica permitiu a cassação de Dilma Rousseff, dez anos depois, por questões muito menores que o mal causado pela atual gestão, a economia será novamente o fator decisivo. Por mais que a parte anacrônica do empresariado esteja lucrando com o projeto de Bolsonaro, do cada um por si e Deus acima de todos, há um limite.
Jair Messias deve estar rezando para São Pedro mandar um dilúvio. Todos os dias.
Se fosse comprometido com democracia, Lira pautaria impeachment, diz Doria
25.ago.2021 - Governador de São Paulo, João Doria, participa de coletiva de imprensa para falar sobre o combate ao Coronavírus, (Covid-19) no Palácio dos Bandeirantes, Imagem: Roberto Casimiro/Estadão Conteúdo
Leonardo Martins, Letícia Mutchnik e Manuela Ferraro
Do UOL, em São Paulo
08/09/2021 14h08
Atualizada em 08/09/2021 14h40
O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), criticou hoje a postura do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), ao dizer que não há mais espaço para "radicalismos e excessos", sem mencionar a abertura de um processo de impeachment contra o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido).
Em entrevista no Palácio dos Bandeirantes, Doria lamentou o posicionamento de Lira. "Eu lamento que ele não tenha compromisso com a democracia porque, se tivesse, teria colocado em pauta o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Lamento sinceramente a postura, a atitude e o descompromisso do presidente da Câmara Federal com a democracia", afirmou Doria.
Vacinas de lote suspenso pela Anvisa não causaram intercorrência, diz SP
Se esta de fato é a posição do presidente Arthur Lira, que ele mesmo faça o encaminhamento do pedido de impeachment. Se ele, de fato, entende que é hora de dar basta à escalada de bravatas, que proceda dentro da democracia e dentro dos procedimentos do Congresso Nacional à apresentação do processo de impeachment. Não é só na palavra, é na atitude que se faz."João Doria
O posicionamento de Lira foi tornado público após os atos do dia 7 de setembro, ontem, em que o presidente, tanto em Brasília como em São Paulo, fez manifestações golpistas, dizendo que não iria obedecer decisões do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).
Em um pronunciamento, Lira disse que ainda não se manifestara sobre o tema "porque não queria ser contaminado pelo calor do momento". "[A Câmara] estende a mão aos demais poderes para que se voltem ao trabalho encerrando desentendimentos. Temos a nossa Constituição, que jamais será rasgada", disse ele.
Eu lamento que o presidente da República continue flertando com o autoritarismo e afirmo que aqui em São Paulo ele não encontrará eco no governo do estado. Nós inclusive garantimos a proteção física aos ministros do Supremo que residem em SP e a seus familiares."João Doria
Questionado se há possibilidade de se reunir com partidos de oposição para aderir ao pedido de impeachment de Bolsonaro, Doria afirmou que essa responsabilidade é da presidência nacional do PSDB. "Essa é uma decisão que cabe ao presidente nacional do nosso partido, Bruno Araújo. Ela, a deputada Gleisi Hoffmann, é presidente nacional do PT, portanto é uma questão partidária", disse o mandatário, relembrando que é a favor da saída do presidente do poder.
O governador de São Paulo também disse que, ontem, falou com governadores de estados brasileiros — sem especificar quais — sobre o discurso de Bolsonaro nos atos.
"Não se trata de articular com governadores, mas, sim, compartilhar com governadores. Eu fiz isso ontem e vários governadores manifestaram como eu contrariamente aos arroubos autoritários de Bolsonaro", disse.
Atos no dia 12
Estão marcados para o próximo domingo (12), na avenida Paulista, novas manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro, dessa vez convocadas e organizadas por outros movimentos sociais, como MBL (Movimento Brasil Livre) e Vem Pra Rua.
É esperada pelos organizadores a participação de políticos do espectro políticos da direita e centro-direita, que não costumam participar de manifestações contra Bolsonaro organizadas por movimentos sociais de esquerda. São eles, por exemplo, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e o senador Alvaro Dias (Podemos-PR).
Doria afirmou que sua participação no ato ainda está sendo estudada. "Sobre mina presença ou não ainda está em avaliação, porém, como cidadão e brasileiro, defendo e apoio toda manifestação seja em São Paulo ou em outras cidades do país a favor da democracia, da Constituição", disse.
Ao vivo: Fux reage a Bolsonaro e dizVice-presidente da Câmara diz que abertura de impeachment é inevitável
Vice-presidente da Câmara, deputado Marcelo Ramos (PL-AM), diz que abertura de impeachment contra Bolsonaro é inevitável Imagem: Michel Jesus/Câmara dos Deputados
Do UOL, em São Paulo
08/09/2021 12h01
Atualizada em 08/09/2021 13h49
O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PL-AM), disse que é "inevitável" a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) após os atos antidemocráticos de 7 de setembro.
Em post publicado nas redes sociais, Marcelo Ramos diz "não ter dúvida" de que qualquer ato de violência contra o Congresso ou o STF (Supremo Tribunal Federal) em ato com a participação do presidente abre precedente para que a Câmara aceite um dos pedidos contra Bolsonaro.
Bolsonaro 'estourou a corda e não há retorno', diz Rodrigo Maia
Em entrevista hoje à CNN, o vice-presidente da Câmara afirmou que, do ponto de vista jurídico, Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade. "O presidente disse, claramente, que não cumprirá ordens judiciais do ministro Alexandre de Moraes e ele claramente agiu para afrontar e constranger o poder Judiciário e Legislativo".
"Acredito que a manifestação do dia 12 e seguintes vão mostrar o clima político necessário para a abertura de impeachment".
Após os protestos de ontem, movimentos planejam novo ato no próximo domingo (12) contra o presidente Bolsonaro. As manifestações estão sendo organizadas pelo MBL (Movimento Brasil Livre) e recebem apoio dos movimentos Livres e Vem pra Rua e do partido Novo.
Marcelo Ramos ainda disse que os atos antidemocráticos de ontem, apesar de significativos, "não demonstraram a força necessária para um golpe". Segundo ele, do ponto de vista democrático, isolou completamente Bolsonaro.
Ao vivo: Fux reage a Bolsonaro e diz que desrespeitar decisão do STF é crime de responsabilidade: 'Ninguém fechará esta Corte'
Em discurso durante manifestação, presidente da República havia afirmado que 'não cumprirá' determinações de Alexandre de Moraes
O presidente do STF, ministro Luiz Fux, durante sessão realizada por videoconferência Foto: Fellipe Sampaio/STF/25-03-2021
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BRASÍLIA – O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux, deu um forte recado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na abertura da sessão de julgamentos da Corte nesta quarta-feira, em que alertou sobre o desrespeito a ordens judiciais o Supremo, seja de qual for o ministro. O discurso foi uma resposta aos ataques desferidos por Bolsonaro contra o STF durante discursos feitos por ocasião do 7 de Setembro.
No discurso, Fux deixou claro que, caso de fato desrespeite ordem judicial do Supremo, seja de qual for o ministro, Bolsonaro vai incorrer em crime de responsabilidade - o que pode ensejar um pedido de impeachment.
– O Supremo Tribunal Federal também não tolerará ameaças à autoridade de suas decisões. Se o desprezo às decisões judiciais ocorre por iniciativa do Chefe de qualquer dos Poderes, essa atitude, além de representar atentado à democracia, configura crime de responsabilidade, a ser analisado pelo Congresso Nacional –, afirmou o presidente do STF.
Luiz Fux pediu respeito ao STF e às decisões judiciais, que devem ser questionadas por meio de recursos, e não da "desobediência, e disse que o Supremo, como um todo, observou a forma e o conteúdo dos dizeres contra a Corte que foram vistos nas manifestações desta terça-feira, "muitas delas também vocalizadas pelo Senhor Presidente da República, em seus discursos em Brasília e em São Paulo".
Presidente disse que não vai mais aceitar ordens de Alexandre de Moraes
– Ninguém fechará esta Corte. Nós a manteremos de pé, com suor e perseverança. No exercício de seu papel, o Supremo Tribunal Federal não se cansará de pregar fidelidade à Constituição e, ao assim proceder, esta Corte reafirmará, ao longo de sua perene existência, o seu necessário compromisso com a democracia, com os direitos humanos e com o respeito aos poderes e às instituições deste país – disse.
Ao falar para seus apoiadores na Avenida Paulista nesta terça-feira, Bolsonaro chamou o ministro Alexandre de Moraes de "canalha", disse que ele deveria "pegar o chapéu" e deixar a Corte e afirmou que não vai mais cumprir decisões de Moraes. Descumprimento de medidas judiciais é crime, segundo o artigo 330 do Código Penal.
Moraes é o relator de quatro inquéritos que tramitam contra Bolsonaro no STF e tem sido o responsável por decisões contra apoiadores do presidente que ameaçam as instituições e a democracia, alguns atendendo a pedidos da Procuradoria-Geral da República (PGR), como é o caso do ex-deputado federal Roberto Jefferson.
– Ofender a honra dos Ministros, incitar a população a propagar discursos de ódio contra a instituição do Supremo Tribunal Federal e incentivar o descumprimento de decisões judiciais são práticas antidemocráticas, ilícitas e intoleráveis, que não podemos tolerar em respeito ao juramento constitucional que fizemos ao assumir uma cadeira na Corte – avisou.
Ainda segundo Fux, o Supremo "jamais aceitará ameaças à sua independência nem intimidações ao exercício regular de suas funções".
O presidente da Corte também fez um alerta para que as pessoas não caiam "na tentação das narrativas fáceis e messiânicas, que criam falsos inimigos da nação". Segundo Fux, a crítica institucional não se confunde com "narrativas de descredibilização do Supremo", "como vem sendo gravemente difundidas pelo Chefe da Nação".
– Mais do que nunca, o nosso tempo requer respeito aos poderes constituídos. O verdadeiro patriota não fecha os olhos para os problemas reais e urgentes do Brasil. Pelo contrário, procura enfrentá-los, tal como um incansável artesão, tecendo consensos mínimos entre os grupos que naturalmente pensam diferentes. Só assim é possível pacificar e revigorar uma nação inteira –, ressaltou.
Ataques de Bolsonaro
Os novos ataques de Bolsonaro contra o Supremo foram recebidos com indignação pelos ministros, que se reuniram no final da tarde de terça, após as falas do presidente em São Paulo, para discutir como seria a reação da Corte.
Antes de fazer as ameaças explícitas na capital paulista, em Brasília Bolsonaro disse, em cima de um carro de som, que “uma pessoa específica" da Praça dos Três Poderes, onde fica a sede do STF, não pode continuar "barbarizando”.
— Não mais aceitaremos qualquer medida, qualquer ação ou sentença que venha de fora das quatro linhas da Constituição. Também não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos três Poderes continue barbarizando a nossa população. Ou chefe desse poder enquadra o seu ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos — afirmou.
Em outro momento, o presidente voltou a falar em "ultimato" para a Praça dos Três Poderes, onde estão localizados, além do Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o STF.
— É um ultimato para todos na Praça dos Três Poderes. Todos devemos nos curvar à nossa Constituição — disse o presidente.
Durante os atos de 7 de setembro, que contaram com forte aparato governamental para que fossem realizados, Bolsonaro também atacou o sistema de eleições brasileiro e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As seguidas investidas do presidente contra as urnas eletrônicas fez com que o mandatário fosse incluído no inquérito das fake news.
— Acreditamos e queremos a democracia. A alma da democracia é o voto. Não podemos admitir um sistema eleitoral que não oferece qualquer segurança (...) para as eleições. Dizer também que não é uma pessoa do Tribunal Superior Eleitoral que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável. (...) Não podemos admitir um ministro (...) usar sua caneta ... — afirmou o presidente, que completou com uma defesa do voto impresso:
— Queremos eleições limpas, democráticas, com voto auditável e contagem pública dos votos. Não podemos ter eleições que pairem dúvidas para os eleitores. Não posso participar de uma farsa como essa patrocinada ainda pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
“Piroca verde e amarela” foi brincadeira de estudantes infiltrados no ato golpista
Portal Fórum - Durante a concentração do ato dos bolsonaristas na Avenida Paulistas, na cidade de São Paulo, uma cena chamou atenção: uma piroca inflável e enorme foi alçada no meio do ato.
A partir daí surgiram várias análises na rede, de que a piroca inflável seria uma espécie de objeto de adoração feito pelos bolsonaristas.
Mas, a verdade é que a piroca verde e amarela foi uma trollagem de estudantes que se infiltraram na manifestação e ergueram o “pirocão verde e amarelo”.
Como zueira pouca é bobagem, o pirocão vinha acompanhado de uma frase do exército: “Braço forte, mão amiga”.
A revelação foi feita pelo perfil do twitter Jairmearrenpi, confira abaixo.
Nenhum PM da ativa participou dos atos golpistas a favor de Bolsonaro
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247 - O comando da Polícia Militar de São Paulo informou que nenhum PM da ativa participou dos atos golpistas favoráveis a Jair Bolsonaro, nessa terça-feira (7).
Somente policiais aposentados foram identificados no protesto da avenida Paulista, o que não configura transgressão disciplinar.
De acordo com a pesquisa da Quaest Consultoria encomendada pela Genial Investimentos, divulgada na última quarta-feira (1), a avaliação negativa de Bolsonaro atingiu 48% dos brasileiros, alta de quatro pontos percentuais sobre o levantamento anterior, publicado no começo de agosto.
Democracia acabou? ARTHUR LIRA fecha os olhos aos novos CRIMES de BOLSONARO, torna-se CÚMPLICE e decide IGNORAR clamor por IMPEACHMENT
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247 - O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), afirmou em pronunciamento nesta quarta-feira (8), um dia após as manifestações golpistas convocadas por Jair Bolsonaro, que é preciso "dar um basta nessa escalada e nas bravatas” do chefe do governo federal.
Lira, no entanto, não falou em nenhum momento diretamente sobre os mais de 120 pedidos de impeachment protocolados na Casa.
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"A Câmara não parou diante de crises que só fazem o Brasil perder tempo. O tal quadrado deve circunscrever. Não posso admitir questionamentos a decisões judiciais e da Casa, como a do Voto Impresso. Vou seguir defendendo o direito dos parlamentares a livre expressão. É hora de dar um basta nessa escalada e em bravatas em redes sociais, que acabam amplificadas, e vídeos em um eterno palanque passaram a impactar o dia-a-dia do Brasil de verdade”, disse Lira.
O presidente da Câmara também reforçou o compromisso do país com a eleição de 2022, ressaltando que o pleito será realizado na data prevista e com as urnas eletrônicas, classificadas por ele como "seguras".
Análise: Pastores evangélicos partem para o tudo ou nada ao saírem na foto com Bolsonaro
Líderes religiosos estavam acostumados a apoiar governos de diferentes colorações partidárias
São Paulo
“Ih, tem que virar à esquerda”, brinca um dos integrantes da comitiva que acelera o passo rumo à avenida Paulista, àquela altura já tomada por milhares de manifestantes.
Recalcular a rota foi fundamental para que alguns dos líderes evangélicos com maior expressão nacional pudessem marchar com todos os presidentes eleitos desde a redemocratização: Fernando Collor, FHC, Lula, Dilma e, agora, Bolsonaro.
Parlamentares com quilometragem para ver um mesmo pastor modular seu discurso ao sabor do governante da vez apontam que a pecha do fisiologismo já escoltava a primeira bancada evangélica do Congresso, na Constituinte de 1987-1988.
Bolsonaro discursa na avenida Paulista acompanhado de Marcos Feliciano e Silas Malafaia - Danilo Verpa/Folhapress
Quando essa cúpula pastoral escuda o atual mandatário em sua sanha contra o STF (Supremo Tribunal Federal), aproxima-se do ponto de não retorno —quando não há pirueta retórica que dê conta de uma reconciliação com forças de esquerda e centro-esquerda, caso elas saiam vitoriosas das eleições de 2022.
O ex-presidente Lula (PT) não fala sobre isso publicamente, mas gostaria de reconstruir pontes com pastores que já o apoiaram e têm uma ascendência considerável sobre um segmento tão pulverizado quanto o evangélico, com suas milhares de igrejas espraiadas pelo país.
Na falta de uma hierarquia vertical que sirva de ordem de comando, muitos pastores de pequeno e médio porte veem nesses líderes graúdos uma referência intelectual e espiritual.
Vencer uma eleição, como o provável presidenciável petista certamente quer em 2022, será uma missão mais ingrata se nenhuma das grandes lideranças religiosas que fecharam com Bolsonaro em 2018 voltar atrás.
Com o Brasil metido numa Guernica ideológica, hoje parece até fake news dizer que Malafaia já apareceu na propaganda eleitoral de Lula, ou que o deputado Marco Feliciano (Republicanos-SP) tratou Lula, então de saída do Planalto, como uma figura “messiânica” que “desperta a esperança no coração do povo”.
A marcha à ré para justificar a adesão ao bolsonarismo é replicada por todos: os pastores se dizem enganados pelo PT, que teria se esborrachado com eles não só por se revelar corrupto, mas também por intensificar a defesa de pautas identitárias —espinho eleitoral menos sobressalente nos anos Lula, mas que ganhou tração na última década.
Feliciano estava no grupo que partiu de um hotel na alameda Santos, paralela à Paulista, até o trio onde Bolsonaro discursaria três horas depois.
O ex-senador Magno Malta (PL-ES), que aos poucos volta a orbitar o círculo presidencial após uma temporada na geladeira, era outro. Estampada no verso de sua camisa, a frase “segundo o Datafolha, eu não estou aqui” reproduz a ideia de que institutos de pesquisa mentem sobre a quantidade de pessoas dispostas a sair nas ruas por Bolsonaro.
Os pastores abraçaram a versão dos organizadores de que milhões se aglomeraram na Paulista. O governo de São Paulo, liderado pelo desafeto João Doria (PSDB), estimou o público em 125 mil.
Para uma multidão espremida à espera de Bolsonaro, os religiosos apelaram aos valores cristãos, velha fórmula bolsonarista, em mais de uma oportunidade. No microfone, o apóstolo Estevam Hernandes, que idealizou a Marcha para Jesus 28 anos atrás, comparou o presidente a Jesus Cristo.
Hernandes lembrou da passagem bíblica que narra como Pôncio Pilatos lavou suas mãos quando o povo preferiu liberar o bandido Barrabás e crucificar Cristo. “Hoje é uma decisão importante”, e é preciso “escolher o lado certo”, segundo ele. Uma escolha fácil.
O mesmo apóstolo disse à Folha, em julho, que “estamos vivendo a república do ódio, e aí fica muito complicado falar sobre tolerância”. Seria um salvo-conduto para Bolsonaro reagir com pulso a quem, ao seu ver, é injusto com o presidente.
Ainda há chão para 2022, claro. Lula já conseguiu um retrato com Manoel Ferreira, bispo primaz do Ministério Madureira, um dos ramos mais poderosos da Assembleia de Deus.
Tudo bem que falta combinar com os filhos do quase nonagenário Manoel, sobretudo Samuel, o líder de fato da denominação hoje. Mas já é um começo.
Petistas também nutrem esperança de voltar às boas com a Igreja Universal do Reino de Deus, que já deu sinais de insatisfação com o atual governo, que para ela não se empenha o bastante para reverter a crise que envolve suas filiais em Angola e autoridades locais.
Há os que lembram, ainda, que romper com o governo da rodada não é vantajoso para muitas igrejas, que têm interesse em ver suas pautas andarem em Brasília, como a imunidade tributária para templos.
Sempre há um jeitinho para reconfigurar o GPS eleitoral. Mas a decisão de sair na foto, num ato que desde o começo foi tratado como termômetro histórico para o bolsonarismo, mostra que parte considerável da elite pastoral brasileira, assim como o presidente, também partiu para o tudo ou nada.
Opinião - Vinicius Torres Freire: Ruas foram espuma, projeto de golpe continua, elite ainda é conivente com Bolsonaro
Não houve putsch das falanges bolsonaristas, mas mais um dia de progresso do golpe
No 7 de Setembro, Jair Bolsonaro cometeu mais alguns crimes de responsabilidade, motivo de processo de impeachment, entre outros que podem se tornar objeto de inquérito e condenação no STF. Na noite desta terça-feira (7) lúgubre, uns senadores haviam decido ir ao Supremo pedir a investigação por meio de uma “notícia-crime”. Os ministros, por sua vez, por ora ainda discutiam a elaboração de uma “mensagem dura” (hum...), apesar de Bolsonaro ter chamado alguns deles de “canalhas” e de dizer, aliás outra vez, que pode ou não obedecer a decisões do tribunal maior.
Vai ter consequência? Uns governadores, uns gatos pingados do PSDB e um ou outro partido centróide passaram a sussurrar a palavra “impeachment”. Um tucano manco, aliás meio bolsonarista, umas andorinhas depenadas e um monte de galinhas gordas de emendas não fazem um verão neste tenebroso inverno de Bolsonaro. As elites precisam tomar vergonha na cara (...), pois o tirano não vai parar a não ser que seja confrontado objetivamente. Se não o fazem, estão a dizer, na prática, que essa alternativa ou qualquer outra são piores do que Bolsonaro. Em geral, o mundo político se ocupa apenas e mal e mal de eleição, sem que ao menos exista oposição organizada, menos ainda da “terceira via”.
Que mais aconteceu em mais um dia de golpeamento da República e do projeto dos Bolsonaro de fugir da polícia? A espuma das ruas.
Sim, Bolsonaro até que juntou muita gente em São Paulo, cerca de 125 mil pessoas na Paulista, na conta razoável da Polícia Militar (este jornalista esteve lá), o equivalente a 1% da população da cidade. Sim, poderia ter acontecido algo de muito mais grave, mortes, depredação das sedes dos Poderes etc. No essencial, foi o de sempre.
Grosso modo, nas ruas houve a espuma de aglomerações covidárias em São Paulo e uns arreganhos de falangistas mais organizados em Brasília, financiados pelo agro ogro e por outros empresários bolsonaristas. No entanto, o Domingo no Parque autoritário paulista foi uma reunião meio cansada e não muito sensacional de gente convertida, não de batalhões fascistas prontos para a marcha (ainda reclusos em certos quartéis, clubes de tiro e milícias).
Bolsonaro falou para o “público interno” e não tratou de assunto real do país, nem para fazer demagogia: fome, inflação, falta d’água e luz, de emprego. Em Brasília, disse ao público que chamaria o “Conselho da República”, a quem mostraria fotos da sua força nas ruas. Era uma bravata para a galera e uma ameaça avacalhada e inviável de decretar um estado de sítio ou algo assim.
A espuma fez borbulha em mais um dia de trabalho do bolsonarismo: a normalização do golpe e a tentativa de espalhar medo, de intimidação física, um tanto frustrada. O problema está aí: Bolsonaro continua a tocar o seu projeto sem que seja impedido de maneira decisiva, um sucesso relativo. Normalizou a discussão de golpe. Sujeitou o país à tutela militar: gente da política e dos Poderes vai até os quarteis perguntar se vai haver golpe.
Na prática, conseguiu fazer com que a maior parte da elite política e econômica aceitasse seu programa de destruição do “sistema”, elite que apenas se moveu diante da ameaça explícita e reiterada do golpe de Estado. Até agora, a degradação selvagem do país havia sido tolerada: saúde, educação, desumanidade, preconceito, cafajestagem, “rachadinha”, administração comezinha do governo, desprezo internacional, em parte e por alguns justificada pelos 30 dinheiros de meia dúzia de “reformas”, muitas delas porcas.
Bolsonaro 'ESTOUROU a corda e NÃO há RETORNO, diz Rodrigo Maia
Colaboração para o UOL 08/09/2021 09h54
Na análise de Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara e deputado federal (sem partido), os atos de 7 de setembro a favor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foram um divisor de águas.
O presidente estourou a corda e não há retorno em relação à posição dele contra as instituições", disse ao UOL News.
Para 6 em 10 bolsonaristas, o principal inimigo é o STF, e não a esquerda
Segundo o ex-presidente da Câmara, Bolsonaro é "populista clássico" e "nada mais do que o Hugo Chávez da direita".
O presidente estaria tentando criar um poder dele diretamente com o povo, algo que não é novo.
"Em 2019 e 2020, falamos muito sobre esse assunto, tivemos apoio mas não o suficiente.
Ontem acelerou muito,
Bolsonaro deixou claro que democracia não é um tema de preocupação dele", falou.
Apesar de não acreditar que um processo de impeachment contra Bolsonaro seria aprovado hoje, Maia disse que tudo é um processo e fez paralelos com a retirada de Dilma, com o Centrão "desembarcando do governo e embarcando no processo de impeachment".
O ex-presidente da Câmara chamou atenção também para os encontros das lideranças de partidos de centro e direita hoje para discutir o tema.
Uma preocupação das legendas pode ser a subida do vice-presidente Hamilton Mourão ao poder.
"Mourão é mais distante da política, não sei se os excessos de Bolsonaro pesam mais do que a falta de relação de Mourão com Centrão", disse Maia.
Com a saída do DEM, o deputado está sem partido e expressou não ter pressa para escolher um novo, mesmo com as eleições de 2022 se aproximando.
"A crise no Brasil é tão grande que vou decidir minha filiação mais para frente", explicou.
Reinaldo Azevedo - Apoteose de terça vira Quarta de Cinzas para Bolsonaro; impeachment voltou
Colunista do UOL
08/09/2021 02h46
E chegamos ao "dia" depois do dia. Os fanáticos mobilizados por Jair Bolsonaro estão voltando para casa levando nas malas e nas mochilas algum cansaço e certamente uma grande frustração. Afinal, para muitos, tudo deveria ter se resolvido na terça. E, nesta quarta, é preciso que os bolsomínions saibam: seu chefe está bem pior do que antes. Estamos diante de uma particularíssima Quarta-feira de Cinzas.
A noite de segunda começou bem para os golpistas, com uma falha gritante no esquema de segurança da Polícia Militar de Brasília, com o bloqueio sendo furado por caminhoneiros e consequente invasão da Esplanada dos Ministérios. O governador Ibaneis Rocha ficou com as orelhas quentes, assim como a Secretaria de Segurança Pública do DF. E o recado foi um só: ou põem ordem na bagunça ou arcam com as consequências. Policiais militares fizeram o seu trabalho e repeliram várias tentativas de invasão do STF.
Analiso fala do golpista em SP. Foi diferente. Advogado-geral afronta a lei
As hostes que se dirigiram a Brasília estavam muito mais excitadas e dispostas ao vale-tudo do que aquelas que se reuniram em São Paulo. Afinal, lá está a sede do Supremo, alvo do rancor golpista do presidente e daqueles que seguem as suas orientações. Havia, sim, muita gente, mas eis o problema de se anunciar a refundação do mundo, não é? Jamais haverá evento correspondente à expectativa. Sim, havia milhares de pessoas nas ruas, mas não o suficiente para caracterizar "a vontade do povo".
Até porque não é mesmo, e o presidente e seus seguidores sabem disso. São, hoje, uma minoria obviamente expressiva, que tem se mostrado aguerrida para conduzir, por ora ao menos, o seu líder ao segundo turno das eleições. Ocorre que Bolsonaro tem — e até a gente se esquece disto às vezes — um país para governar. A percepção crescente é a de que o país está à deriva. No discurso de São Paulo, Bolsonaro afirmou que sua gestão está fazendo o que ninguém fez. Dada a inflação do prato de comida dos pobres, a frase ganha um especial sentido.
Mesmo com Braga Netto, ministro da Defesa, fazendo sua escolta no mais golpista de todos os discursos que fez até agora — o de Brasília é menos burlesco do que o de São Paulo, mas muito mais grave —, ele sabe duas coisas: a) não existe meio golpe; b) não conseguirá dar o golpe inteiro. E, pois, ou algo de formidável se daria nesta terça, ou teria de arcar, como terá, com a sua particularíssima Quarta-Feira de Cinzas.
E O BOTÃO AMARELO DE LIRA? Não! O golpe não aconteceu. E o que Bolsonaro conseguiu foi devolver para o rol das possibilidades o impeachment. Difícil? Difícil. Mas o que terá a dizer Arthur Lira (PP-AL), nesta quarta, o presidente da Câmara, que tem a prerrogativa de dar o primeiro passo rumo à possibilidade de impedimento? Em entrevistas passadas, o deputado chegou a dizer que não via crime de responsabilidade que justificasse a medida. E agora?
Em Brasília, Bolsonaro afirmou que estava dando um ultimato ao presidente do Supremo, Luiz Fux, que vai se pronunciar daqui a pouco. Pontificou o começo "de uma nova história". Em São Paulo, anunciou que não atenderá a decisões judiciais. Repetiu a conversa de que um de três destinos o aguarda: a prisão, a morte ou vitória. E emendou que "canalha" nenhum o prenderia, que a morte é com Deus (e ele se considera ungido) e que, pois, só lhe resta a vitória.
Criou uma questão e tanto para Lira, o seu aliado, a quem, na prática terceirizou o governo. Até porque ressuscitou a pauta do voto impresso, aquela que o presidente da Câmara, obviamente, já havia dado, porque está, por enterrada. O esforço, já deixei claro, é para tentar sobreviver eleitoralmente sem ter nenhum feito a oferecer à população que não sejam suas guerras do outro mundo. Aqueles milhares que foram às ruas e muitos outros que nem foram, mas que compõem os seus vinte e poucos por cento de aprovação, podem até garantir a sua presença no segundo turno, mas também o tornam refém de um discurso — que, de resto, é mesmo o seu.
REAÇÃO PIOR POSSÍVEL Na seara política, as consequências são as piores possíveis. Partidos que passavam longe do impeachment, como PSD, PSDB e MDB começaram a considerar a hipótese -- os tucanos, claro!, estão divididos porque existe lá um vergonhoso núcleo entre bolsonarista e oportunista. Para esses, certamente, tudo o que Bolsonaro disse sobre o Supremo terá parecido justo.
No Senado, em sinal de contrariedade, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) anunciou: "A Presidência comunica às Senadoras e aos Senadores que estão canceladas as sessões deliberativas remotas e as reuniões de comissões previstas para os dias 8 e 9 de setembro". Trata-se de um protesto. Se as coisas já não caminhavam bem para o governo na Casa, é certo que pioraram substancialmente.
André Mendonça, o indicado de Bolsonaro para o Supremo, tinha, avaliava-se até o fim da semana passada, apenas 35 do mínimo de 42 votos para ser aprovado — e esse mínimo já seria um vexame. Há quem especule sobre a possibilidade de a 11ª vaga do tribunal ser preenchida só no próximo mandato. E, hoje ao menos, pode se dizer com muitos pontos de diferença que não seria, então, Bolsonaro a fazer a indicação.
O Supremo mais tem colaborado com Bolsonaro do que criado embaraços. Ele depende, aliás, de uma negociação com o tribunal para tentar dar o calote nos precatórios, hipótese em que sobrariam recursos para a ampliação do Bolsa Família, hoje um fiapo de esperança para a reeleição. Como Bolsonaro pouco se ocupa de governar o país — ele quer apenas o poder —, saiu vituperando contra STF, embora dependa da boa-vontade dos ministros. Não que a Corte possa aplicar uma retaliação. O ponto não é esse. Mas só se negocia quando há uma relação de respeito.
O dinheiro grosso, que há havia dado início ao desembarque, entrega os pontos de vez. A manifestação dos fanáticos e os discursos arreganhadamente golpistas do presidente acenam para um futuro tenebroso. E, no dizer de um desses potentados, "tanto pior se ele conseguisse reverter a desvantagem". O raciocínio simples e cristalino é este: se, podendo disputar a reeleição, dentro das regras do jogo, ele tenta virar a mesa, como seria caso viesse a ter sucesso nas urnas e não dependesse mais da aprovação do eleitorado? Da turma do dinheiro, só restou mesmo a adesão de alguns bucaneiros disfarçados de empresários.
COM QUEM ESTÁ A BOLA? Ouviremos daqui a pouco a fala de Luiz Fux, que se manifestará em nome dos demais ministros, que Bolsonaro conseguiu, de maneira inédita, unir. Os caminhos para contê-lo passam, sim, pelo tribunal, como Casa de chegada das demandas. A tramitação do processo de impeachment tem início na Câmara, e não dá para adivinhar que caminhos retóricos percorreria Lira para negar os discursos violentamente golpistas.
Na esfera do crime comum, a demanda é da Procuradoria Geral da República. Cumpre lembrar que decisões recentes de Moraes contra fascistoides do golpismo atendiam à provocação da PGR. O ministro apenas expressou a sua concordância com petições oriundas do Ministério Público.
É evidente que, a partir desta quarta-feira, notícias-crime contra Bolsonaro vão povoar a mesa de Augusto Aras. Não há afinidade possível, parece-me, sem uma mácula na biografia que ficará por gerações, que pudesse levar o procurador-geral a considerar que Bolsonaro exercitou apenas a tal "liberdade de expressão". E, como se sabe, caso Aras encaminhe um pedido de abertura de inquérito, será o Supremo de novo — com grande chance de a tarefa cair, por prevenção, no gabinete de Moraes — a decidir se a investigação será ou não aberta. Caso sobrevenha uma denúncia, aí a arbitragem será da Câmara, e são necessários dois terços dos deputados para autorizar o Supremo a julgar a abertura de uma ação penal. Se acontecesse, o presidente teria de ser afastado.
E Bolsonaro não responderá a tudo isso, de modo eficaz, xingando as autoridades de "canalhas". Não o amigão de Fabrício Queiroz, o ex-arrecadador de rachadinha que foi às ruas do Rio defender golpe de estado, tendo sido recebido com entusiasmo por partidários do presidente, essa gente cheia de honra que pede intervenção militar em nome da moralidade...
Bolsonaro planejou para esta terça-feira o seu grande dia. E milhares assistiram ao enterro de sua quimera. Mas são muitos milhões a querer vê-lo pelas costas.
Bolsonaro reúne ministros no Conselho de Governo sem participação de Mourão
Daniel Weterman e Eduardo Gayer
Brasília
08/09/2021 10h32
Atualizada em 08/09/2021 11h59
O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), reúne ministros do governo no Palácio do Planalto no período da manhã de hoje após as manifestações do 7 de Setembro. A reunião do Conselho de Governo foi convocada ontem pelo presidente, que ainda anunciou a pretensão de convocar o Conselho da República para "enquadrar" os demais poderes.
O encontro ainda não entrou na agenda oficial do Planalto. O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, não participa da reunião e deve cumprir agenda no Pará.
Bolsonaro sobre 'racha' com Mourão: 'vou conversar com ele nos próximos dias'
O Conselho de Governo tem caráter consultivo, para discutir ações da gestão federal. É o próprio presidente quem convoca os membros para a reunião e designa um deles para presidir o encontro.
Dois ministros ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo na terça afirmaram que a pauta da reunião será a análise dos atos do dia 7 e negaram que a convocação do Conselho da República esteja entre os temas do encontro.
Citada pelo presidente em seu discurso durante as manifestações de 7 de Setembro em Brasília, a reunião do Conselho da República, que avalia pedidos de intervenção federal ou de decretos de estado de sítio, não está agendada.
No discurso em tom de ameaça aos outros Poderes, Bolsonaro disse que os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, também participariam da reunião, mas até agora nenhum foi convidado. Nos últimos meses, Lira e Pacheco têm sinalizado que não apoiarão tentativas de ruptura institucional por parte de Bolsonaro.
Fux, que não participa formalmente do Conselho da República, já afirmou por meio de sua assessoria que não iria a qualquer reunião do colegiado, uma vez que não faz parte dele, de acordo com a previsão constitucional.
Em seu discurso em São Paulo, onde manteve o tom de ataques ao Supremo, Bolsonaro não mencionou qualquer encontro com integrantes de outros poderes.
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Mourão: Não há clima para impeachment e governo tem base no Congresso
General Hamilton Mourão, vice-presidente da República Imagem: Foto: Adnilton Farias/Flickr
Do UOL, em São Paulo
08/09/2021 10h06
Atualizada em 08/09/2021 12h41
O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) minimizou hoje o risco de um impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), dizendo que "não há clima" nas ruas e que o governo tem base no Congresso para barrar processos contra o mandatário.
"Eu não vejo que haja clima para o impeachment do presidente, tanto na população como um todo como dentro do próprio Congresso. Acho que nosso governo tem hoje uma maioria confortável, de mais de 200 deputados, lá dentro. Não é a maioria para aprovar grandes projetos, mas é uma maioria capaz de impedir que algum processo prospere contra a pessoa do presidente da República", afirmou o vice antes do embarque para mais uma viagem a Amazônia.
Partidos discutirão impeachment de Bolsonaro após ataques ao STF e discurso golpista
Existem hoje 130 pedidos de impeachment contra Bolsonaro sob a guarda do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Cabe a ele decidir sobre a aceitação e abertura de processo contra o presidente. Até o momento, Lira não se manifestou sobre as falas de Bolsonaro ontem.
Depois de ter dito que não compareceria às manifestações, Mourão esteve ao lado Bolsonaro no ato do Dia da Independência e ouviu as ameaças do presidente contra o Supremo. O vice considerou as manifestações "expressivas", mas não quis comentar o discurso alegando uma questão ética.
"Na minha visão existe um tensionamento principalmente entre o Judiciário e o Executivo. Eu tenho a ideia muito clara que o inquérito que é conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes não está correto, juiz não pode conduzir inquérito. Eu acho que tudo se resolveria se o inquérito passasse para a mão da PGR [Procuradoria-Geral da República] e acabou. Isso aí distensionaria todos os problemas", alegou.
Moraes é responsável por inquéritos que apuram o financiamento e a organização dos atos antidemocráticos realizados por aliados do presidente neste 7 de setembro, feriado da Independência. O magistrado também conduz a investigação que apura ameaças e notícias falsas que miram os integrantes do STF.
Bolsonaro está sem rumo: há três setes na mesa dele
Bolsonaro está sem rumo
Se Donald Trump tinha um plano para a insurreição de 6 de janeiro, durou cerca de seis horas. Se Bolsonaro tinha o seu plano para o 7 de Setembro, durou menos de quatro horas. Às 11h43, ele anunciou a convocação do Conselho da República, sabe-se lá para que, e lá pelas 15h o Palácio do Planalto informou que a reunião estava esquecida.
No seu discurso matutino, Bolsonaro mostrou-se desorientado. Referindo-se ao ministro Luiz Fux, ele disse: “Ou o chefe desse Poder enquadra o seu, ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”. A frase não faz sentido. O presidente do Supremo não tem poder para “enquadrar” a Corte. (A menos que Bolsonaro esteja fazendo fé na faixa preta de jiu-jítsu de Fux.) Também não tem sentido o “sofrer aquilo que não queremos”. Primeiro, porque falta dizer o que “queremos”, depois porque falta explicitar o que significa “sofrer”. À tarde, Bolsonaro fulanizou sua carga contra o ministro Alexandre de Moraes: “Ou ele se enquadra ou pede para sair”. Não disse como, nem por quê. Também não explicou o mecanismo legal que poderá livrá-lo de Moraes.
Hoje, ao chegar ao Planalto, Bolsonaro não terá na agenda a tal reunião com o Conselho da República, mas lá estarão os três setes que assombram o Brasil no seu 199º ano de existência:
O litro da gasolina a R$ 7, com a inflação e os juros arriscando chegar a 7%.
Isso para não falar nos 14 milhões de desempregados num país que rala em pandemia que já matou mais de 580 mil pessoas. Todos esses problemas exigem que o governo trabalhe. É serviço para formigas, não para cigarras.
Se qualquer dos problemas que estão sobre a mesa de Bolsonaro pudesse ser resolvido tirando Moraes ou qualquer outro ministro do Supremo, eles certamente mandariam as togas para o Planalto. Contudo, no seu discurso vespertino, Bolsonaro pronunciou a palavra mágica de suas ansiedades: “inelegibilidade”.
Bolsonaro tem uma só preocupação: continuar na Presidência. Teme perder a eleição, por isso continua satanizando as urnas eletrônicas. Sabe que corre o risco de ser declarado inelegível pelo que fez e deixou fazer em suas campanhas e antecipa-se. Declará-lo inelegível em 2022 por malfeitorias de 2018 dará ao processo legal um cheiro desagradável de tapetão.
Nada melhor que chamar os eleitores, computar os votos e empossar o candidato que tiver mais votos.
Até a hora em que Bolsonaro terminou seu segundo discurso, o 7 de Setembro de 2021 transcorreu em paz. Ficou apenas uma ameaça de Bolsonaro: ele diz que não cumprirá ordens da Justiça que vierem a desagradá-lo. A ver.
Bolsonaro diz que continuará dentro das quatro linhas da Constituição, mas ameaça sair do quadrado, sem dizer como.
Falta pouco mais de um ano para a eleição, e novas crises virão.
Os três setes continuarão sobre a mesa do presidente, com suas próprias tensões.
As ruas continuarão abrigando gente que acredita em cloroquina, no grafeno, no nióbio e nas fraudes das urnas eletrônicas.
A História oferece um refresco.
Os restos mortais de Napoleão chegaram a Paris em 1840, 19 anos depois de sua morte.
Naqueles dias, só no manicômio de Bicêtre, havia 14 Napoleões.
LEANDRO NARLOCH: ABUSOS e ILEGALIDADES (¿•?) do STF dão força ao bolsonarismo
Decisões políticas dos ministros do Supremo reavivam o bolsonarismo mesmo em quem já começava a se arrepender de apoiar o presidente
Por que, depois de tantas decepções, alguém ainda defende Jair Bolsonaro? Um motivo trivial, mas poderoso, é ódio. Foi o ódio ao STF que levou tanta gente para a rua nesta terça-feira (7).
Gostamos de acreditar que os cidadãos são movidos pela razão ou por bons sentimentos; a verdade crua é que o ódio –e o sentimento de injustiça– são os motores mais potentes de mobilização.
Anos atrás, o ódio a Dilma Rousseff e aos escândalos de corrupção do PT formavam a agenda negativa que unificava pessoas diversas. Era possível ver Eduardo Leite e Levy Fidélix na mesma passeata, unidos pelo antipetismo.
Agora, Alexandre de Moraes e o STF como um todo geram a repulsa a carregar as baterias, que andavam meio arriadas, do bolsonarismo.
É fácil tomar como loucos e inebriados por fake news os brasileiros que chamam o STF de vergonha nacional. Mais difícil é fazer uma autocrítica e admitir que diversos ministros do Supremo tomaram atitudes pra lá de vergonhosas.
O STF proibiu o TCU de examinar denúncias de mordomias concedidas pela Itaipu a... ministros do STF.
Proibiu a investigação contra Dias Toffoli, apesar dos fortes indícios de venda de sentenças do TSE (curioso esse fato não ter gerado um clamor na imprensa equivalente ao caso Temer e JBS).
O STF enterrou a Lava Jato em Brasília, sendo que ele próprio tinha determinado que o lugar dela era no Paraná.
Alexandre de Moraes assopra a brasa do bolsonarismo quando mantém inquéritos ilegais, bloqueia a conta de organizadores de passeatas, desmonetiza canais de humor que o satirizam no YouTube ou prende deputados baseado em termos controversos como o “mandado de prisão em flagrante”.
A melhor forma de conquistar respeito é fazer por merecê-lo. Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski não contribuem para a respeitabilidade do STF quando contrariam o que diz com toda a clareza a Constituição.
Foi o caso de voto desses quatro a favor da possibilidade de reeleição de Maia e Alcolumbre. Ou a decisão de Lewandowski de manter os direitos políticos de Dilma, em 2016.
Quando os ministros se incumbem da tarefa de determinar o que é fake news ou “anticientífico”, sem haver nas leis nacionais um parágrafo dizendo que a sociedade cedeu ao Estado o direito de determinar o que é científico, o STF perde respeito e gera ódio.
É verdade que juízes não devem tomar decisões pensando em popularidade, e sim no que é juridicamente correto. Mas isso lhes dá direito de agir como políticos. Está claro, para muitos brasileiros, que boa parte dos ministros do Supremo é de atores políticos, e não juízes imparciais.
Se querem deter o bolsonarismo, os ministros do STF precisam parar de dar motivos tão óbvios para bolsonaristas se mobilizarem.
RAYMUNDO DE LIMA
1)Narloch não menciona o inquérito das fake news [mentiras e distorções de fatos] comandado por Alexandre Moraes, o qual aponta o presidente e seus milicianos digitais, contra as instituições democráticas. Mentira virou coisa boa? Liberdade de expressão dá direito ao crime de injúria, calúnia, difamação, conspiração?2)Folha deveria checar este texto do Narloch, p/ex: Foi o STF ou o Procurador Aras que desmontou e enterrou a Lava-Jato, de Curitiba para Brasília?
TOMEH SAPIENZA
Preguiça desse tipo de articulista. Ninguém é obrigado a estudar, a aprender. Mas nós não somos obrigados a ler "achismos" em um jornal como a FSP. Ao que parece, pela forma como escreve, o articulista não tem a mínima noção sobre a diferença entre um "parágrafo" e um "inciso", ou o que seja Lei Ordinária e Lei Complementar, mas se julga apto a dar um "parecer" sobre questão constitucional. É pra acabar. Em breve escreverá sobre o acerto ou desacerto do médico em uma cirurgia. Sabe muito.
EDUARDO HENRIQUE
Mas que péssimo artigo. Quanta mentira. O articulista foca em justificar o autoritarismo do cappetta da república, mas não se preocupa com as ilegalidades cometidas pelo presidente, seus filhos e sua quadrilha q está no governo. Defende criminosos q usam as redes sociais pra atacar e ameaçar autoridades e instituições sob o falso argumento de liberdade de expressão. Como a folha da espaço a um ser que mal sabe o que escreve....
ROBERTO VIETRI
Há 2 min
Narloch, você é muito fraco, seus comentários são sempre superficiais e levam a um certo maniqueísmo que apenas desinforma. Não forma. Uma falsa dicotomia disfarçada de lucidez. Aprofunde-se mais, explore melhor as contradições. Nesse mergulho, talvez você conclua que críticas ao STF não ensejam ruptura institucional. E que, no fundo, o problema é de espelho, empatia com o líder que você parece ter simpatia, o resto é cortina de fumaça e alienação. Na qual você faz tempo colabora...
Florestan: Bolsonaro sai menor e mais preocupado deste 7 de setembro
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247 - Em entrevista à TV 247, o jornalista Florestan Fernandes afirmou que os atos convocados por Jair Bolsonaro neste 7 de Setembro não atendeu às suas expectativas e ele sai menor e mais preocupado.
“O movimento que ele aguardava de uma multidão não se concretizou em Brasília e nem em outros lugares do país. Muita gente foi para a rua, mas foi a bolha dele, analisou Florestan,
E acrescenta: “Acho que ele esticou a corda porque está preocupado com o futuro dele e da família, porque o cerco se fecha com relação a malfeitos quando ele era parlamentar e ele que levou os filhos para o parlamento”.
Para o jornalista, Bolsonaro está esticando a corda “para enfiar o pescoço e hoje ele colocou uma boa parte do seu pescoço”.
“Os militares estão derretendo junto com ele. O ato de hoje mostra isso. Ele fala que está defendendo a democracia, mas as faixas pedem intervenção militar. Ele fala que defende as quatro linhas da Constituição, mas as faixas pedem a prisão de membros do Supremo ou o fechamento do próprio Supremo”, salientou.
Josias de Souza - Preocupado com 7 de Setembro? Pois vem aí 8 de setembro! E 9 de setembro...
Colunista do UOL
07/09/2021 04h43
Neste 7 de Setembro, Bolsonaro consolida-se como um presidente paradoxal. Apropriou-se do Dia da Independência para realçar sua dependência à histeria. Exalta o patriotismo piorando a pátria. Ao levar às ruas sua política de atear fogo sistematicamente ao quadro político-institucional, Bolsonaro não prejudica apenas o Brasil. Trabalha contra os próprios interesses.
O presidente se deixa levar por seus reflexos condicionados. O que estas últimas semanas evidenciaram foi que Bolsonaro não deseja —ou não consegue— se livrar dos acessos de histeria que lhe marcam a vida política. Durante três décadas, sempre que se viu em apuros, o capitão preferiu virar a mesa a sentar-se em torno dela.
Bolsonaro busca nas ruas um álibi para continuar botando a culpa em alguém pelo que não consegue fazer no gabinete. Adiciona raiva ao seu caldeirão de prioridades. Nele, misturam-se o hipotético complô de ministros do Supremo, as acusações sem provas ao sistema eleitoral, a confusão entre asfalto e "ultimato", a ameaça de "ruptura"... Esse caldo espesso pode interessar a muita gente, não a um presidente em pleno exercício do mandato.
No momento em que exerce a Presidência de olho na próxima cartada nacional de 2022, não calha bem a Bolsonaro o clima de histeria, muito menos as ameaças à estabilidade institucional. O problema é que ele não dispõe de coisa diferente para oferecer ao país. Demora a se dar conta de que, no regime presidencialista, o rosto do presidente costuma ser a cara da crise.
Para o brasileiro que não vê Bolsonaro como mito, a imagem do presidente aparece nos instantes mais indigestos: quando enche o tanque do carro, quando paga a conta de luz, quando vai à mercearia, quando sobra mês no fim do salário... Em momentos como o atual, em que o país é moído por uma confluência de crises —a tempestade econômica, a ruína fiscal, o flagelo sanitário, o drama social— o presidente precisaria ser a imagem da tranquilidade.
Ao utilizar o 7 de Setembro para fornecer mais do mesmo combustível que prolonga as crises desde a sua posse, há dois anos e oito meses, Bolsonaro condena-se a, no futuro próximo, ser vítima da própria histeria. Se tudo o que o presidente tiver para exibir na vitrine de 2022 for um clima de Apocalipse e um conjunto de desculpas, a perspectiva de obter um segundo mandato é reduzida.
Noutros tempos, cabia aos partidos de oposição envenenar a conjuntura. Hoje, é Bolsonaro quem puxa o próprio tapete, flertando com a ruptura institucional. Se você acordou preocupado com a eletrificação do 7 de Setembro, relaxe. Vem aí o 8 de setembro! E o 9 de setembro. E o 10, o 11, o 12...
Como a histeria não produz crescimento econômico, não faz chover, não barateia a gasolina, não cria empregos e não enche a geladeira, Bolsonaro continuará tirando uma crise de dentro da outra. Ele cultiva o hábito de magnificar crises pequenas, tornando-as gigantescas, barulhentas e ameaçadoras.
Com o beneplácito do centrão e dos demais Poderes da República, será assim pelo menos até 31 de dezembro de 2022. Não é que falta rumo ao governo. A questão é que Bolsonaro tomou o rumo do brejo. E leva o Brasil junto.
'Bolsonaro vai para o tudo ou nada neste 7 de setembro', diz Breno Altman
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247 - O jornalista Breno Altman, editor do Opera Mundi, disse à TV 247 nesta segunda-feira (6) que o dia 8 de setembro não será o mesmo para Jair Bolsonaro, seja qual for o desempenho de sua base eleitoral nos atos golpistas marcados para 7 de setembro.
Para Altman, Bolsonaro parte para o "tudo ou nada" nesta terça-feira (7). "Os atos bolsonaristas estão concentrados em duas capitais, São Paulo e Brasília. A movimentação das forças de apoio ao Bolsonaro é bastante intensa. É muito difícil fazer uma previsão, mas podemos dizer que qualquer coisa abaixo de 50 mil pessoas em São Paulo e abaixo de 30 mil em Brasília seria um tremendo fracasso do Bolsonaro, porque ele faz um jogo de tudo ou nada. É uma demonstração de força que para ele é decisiva. O dia 8 de setembro não será igual para o Bolsonaro. Depende da sua capacidade de mobilização amanhã".
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Já para os protestos de esquerda, disse o jornalista, a pressão não é tão grande. "A situação da oposição de esquerda é diferente. A oposição de esquerda não estará enfrentando uma batalha de vida ou morte amanhã. A oposição de esquerda vem de sucessivas mobilizações. É um processo de acumulação de forças em uma situação em que o Bolsonaro vai se desgastando".
Altman disse esperar protestos maiores dos bolsonaristas do que da esquerda em São Paulo em Brasília, mas lembrou que a oposição terá mais atos espalhados pelo país. "No conjunto da obra, em termos nacionais, devem ser forças que se equivalem, apesar do bolsonarismo estar travando uma batalha de vida ou morte e a oposição de esquerda estar em um calendário de acumulação de forças".
Breno Altman: Elites fizeram do Brasil um ‘puxadinho’ da ordem neocolonial
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No programa 20 MINUTOS ANÁLISE desta terça-feira (07/09), o jornalista e fundador de Opera Mundi, Breno Altman, refletiu sobre o nacionalismo no Brasil. Nos últimos anos, o termo foi apropriado pelas forças de direita, fortemente identificados com a camiseta verde e amarela, a bandeira e símbolos nacionais, enquanto a esquerda fez do vermelho sua identidade contraposta. Por isso, o jornalista se perguntou se o campo progressista deveria ser ou não nacionalista, questionando se há um único nacionalismo.
“A direita defende uma nação mitológica, muitas vezes fundida ao fundamentalismo religioso – Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. As elites fizeram do Brasil um ‘puxadinho’ da ordem neocolonial. Dos bandeirantes caçadores de escravos à ditadura militar de 1964, todos são fatos que orgulham e são reivindicados pelo reacionarismo. Por outro lado, a esquerda defende todos os grupos sociais vilipendiados desde a colonização”, citou.
Essa lógica aponta para uma dupla situação de exploração, de acordo com o jornalista. A primeira, interna: as classes proprietárias submetem a maioria do povo, especialmente as classes trabalhadoras, com todos os seus componentes de opressão racista e patriarcal. A segunda, externa, isto é, de subordinação do desenvolvimento nacional aos interesses de Estados coloniais e imperialistas ao longo da história.
Como consequência, historicamente, as classes dominantes sempre “funcionaram como sócias minoritárias do sistema de acumulação capitalista. Nasceram e se reproduziram a partir das concessões coloniais a cidadãos portugueses que, com o tempo, se fizeram brasileiros”, disse.
“Há uma linha de continuidade, jamais rompida, entre os donatários do século XVI e as modernas elites econômicas de hoje, particularmente as do agronegócio e dos latifúndios. Para essa gente, a nação nunca passou de um território no qual ganham dinheiro em associação com os centros colonizadores e imperialistas. Desprezam e odeiam o povo brasileiro, ancorados em um racismo ancestral. Aos seus olhos, o Brasil sempre foi uma fazenda, a sua fazenda. O povo, os seus escravos”, defendeu Altman.
Ele relembrou que, ao contrário do que ocorreu em outros países, as classes dominantes brasileiras jamais tiveram um papel revolucionário, anticolonial ou anti-imperialista. Assim, segundo ele, “a própria independência é uma fraude”.
“Embora tenha havido dissidências anticoloniais entre as classes dominantes, incluindo levantes e rebeliões, o fator dominante foi uma transição por cima, dentro da própria monarquia portuguesa, quando o sistema colonial perdeu funcionalidade tanto para as elites brasileiras quanto para a enfraquecida coroa metropolitana”, enfatizou.
Altman destacou o Tratado do Rio de Janeiro como episódio simbólico de seu argumento. Assinado em 29 de agosto de 1825, foi o momento em que Portugal finalmente reconheceu a autonomia brasileira, mas sob pressão britânica e após serem fixadas indenizações a serem pagas tanto à coroa portuguesa quanto aos portugueses que eventualmente tivessem terras confiscadas no Brasil.
“As mudanças de regime político simplesmente representavam, ao mesmo tempo, uma resposta das elites a pressões populares e uma autorreforma que preservasse os mesmos interesses materiais das mesmas classes proprietárias de sempre. Nenhum episódio relevante – como a Guerra do Paraguai ou a proclamação da República – teve a ver com a questão nacional, que servia apenas de pretexto e narrativa para buscar apoio popular aos movimentos das classes dominantes fundadas pelas relações escravistas-coloniais”, reforçou.
‘Bandeira brasileira é uma farsa’
“A própria bandeira brasileira é uma farsa. Nos últimos 120 anos, desde a proclamação da República, suas cores foram apresentadas como o verde de nossas matas, o amarelo de nosso ouro e o azul de nossos céus e mares”, denunciou Altman.
Citando as obras de Mary Del Priore e Clóvis Ribeiro, Altman contou que o verde da bandeira, é, na verdade, uma alusão à Casa de Bragança, a dinastia portuguesa. O amarelo remete à Casa de Habsburgo, origem da Imperatriz Leopoldina.
Marcelo Camargo/Agência Brasil Protesto contra impostos com o pato amarelo da Fiesp em 2016: elites colocaram Brasil como 'puxadinho' da ordem neocolonial, diz Altman
“Essas cores estavam presentes na bandeira imperial e continuaram vigentes na republicana. Querem símbolo maior da continuidade sem ruptura? A bandeira brasileira, da República Federativa do Brasil, é composta pelas cores de casas monárquicas! Uma delas, os Bragança, diretamente responsável pela colonização do país!”, ressaltou.
Para ele, as cores ditas nacionais deveriam ter sido abolidas e substituídas há muito tempo “se tivéssemos efetivamente sido capazes de conquistas nossa efetiva independência nacional e a construção de uma república democrática”.
Esquerda nacionalista
Altman diz que, atualmente, o nacionalismo burguês não passa de “história para boi dormir”, como fica claro com o bolsonarismo “em seu neofascismo entreguista e subordinado até o talo ao imperialismo estadunidense”.
“Há muito tempo as classes dominantes brasileira já traíram a pátria, pois nasceram de costas voltadas à ideia de nação. Somente as classes trabalhadoras, no Brasil, são efetivamente patrióticas, pois sua emancipação e futuro dependem de se livrarem, ao mesmo tempo, da exploração interna e da dependência externa”, argumentou.
Dentro dessa lógica, para ele, a esquerda deve ser claramente nacionalista, mas liberta do falso nacionalismo burguês, de suas narrativas e símbolos, associando a questão nacional, a luta pela soberania nacional, com a luta anti-imperialista e anticapitalista.
“A pedra angular de nossos tempos é a luta contra o imperialismo, especialmente contra o imperialismo estadunidense, que ainda comanda o sistema mundial do capital. Sua derrota levaria ao desmoronamento tanto da dominação externa quanto interna, em países periféricos como é o nosso”, explicou.
Por isso, segundo o jornalista, o nacionalismo popular, das classes trabalhadoras, deve ser “profundamente internacionalista”, associando o povo brasileiro a todos os povos, especialmente os latino-americanos, contra um inimigo comum.
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Após fazer um discurso citando indiretamente os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro atacou Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso nominalmente em um palanque montado na Avenida Paulista, em São Paulo, na tarde desta terça-feira (07/09).
Dizendo que a "paciência do povo acabou", o mandatário atacou Moraes citando os inquéritos que foram abertos por ordem do ministro, como o do esquema de divulgação de notícias falsas e a desmonetização de páginas que divulgam fake news, e disse que não vai mais respeitar as ordens judiciais dele.
Já para Barroso, que é presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele voltou a citar que o sistema eleitoral "não é seguro" e defendeu o voto impresso. A pauta já foi derrubada pelo Congresso e é um dos argumentos mais usados por seu governo para fazer declarações antidemocráticas e golpistas.
"Queremos eleições limpas, democráticas e auditáveis. Não posso participar de uma farsa patrocinada pelo presidente do STF", disse ainda afirmando que "não é uma pessoa" que vai garantir que o sistema seguro. Bolsonaro, além dos inquéritos das fake news, também foi intimado pela Justiça a apresentar provas das fraudes que ele afirma ter. No entanto, tanto na defesa como em suas lives, o presidente nunca apresentou provas para suas alegações.
O mandatário ainda voltou a repetir a frase de que "morreria pela pátria" e que "só Deus me tira de lá", da posição de presidente. "Ou saio de lá morto ou preso. Mas, vou dizer aos canalhas que nunca serei preso. A minha vida pertence a Deus", pontuou. Em tom abertamente golpista, a afirmação é mais uma declaração que afronta o sistema eleitoral e demonstra que ele não vai reconhecer uma derrota nas urnas.
O discurso foi mais pesado que o feito pela manhã, em que ele não citou os nomes dos ministros, citando-os indiretamente. Em Brasília, Bolsonaro ainda afirmou que o presidente do STF, Luiz Fux, deveria "enquadrar" Moraes e Barroso.
Marcos Corrêa/PR Bolsonaro ainda voltou a repetir a frase de que 'morreria pela pátria' e que 'só Deus me tira de lá', da posição de presidente
Bolsonaro fala em Brasília
Pela manhã, o presidente participou de um ato de extrema direita em Brasília e utilizou em fez ameaças ao STF em seu discurso. Bolsonaro atacou e ameaçou o próprio presidente da Suprema Corte, Luiz Fux. “Ou o chefe desse Poder enquadra os seus ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos. Porque nós valorizamos e reconhecemos o Poder de cada República. Nós todos aqui na Praça dos Três Poderes juramos respeitar a nossa Constituição. Quem age fora dela se enquadra ou pede para sair”, disse.
O pedido de enquadramento é uma referência ao ministro Alexandre de Moraes, que vem tomando medidas duras contra o bolsonarismo.
O mandatário ainda disse que vai se reunir amanhã (08/09) com o Conselho da República. Este é um órgão consultivo que tem a seguinte composição: vice-presidente da República, presidente da Câmara dos Deputados, presidente do Senado, líderes da maioria e da minoria na Câmara, líderes da maioria e da minoria no Senado, ministro da Justiça, além de seis cidadãos brasileiros natos, com mais de 35 anos de idade.
“Amanhã estarei no Conselho da República, juntamente com ministros, juntamente com o presidente da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal, com essa fotografia de vocês mostrar para onde nós todos devemos ir”, prometeu. Segundo o portal G1, nenhum dos chefes dos Poderes foi avisado da reunião.
*Com Ansa e Rede Brasil Atual
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Análise: Bolsonaro admite delinquência e tenta colocar país refém de seu medo de ser preso
Atos foram grandes, mas menores do que o desejado pelo presidente, e sugerem um pastiche de 'Götterdämmerung'
São Paulo
Os protestos do 7 de Setembro juntaram grandes quantidades de apoiadores de Jair Bolsonaro, mas nada avassalador e sugerindo um ato final de sua Presidência —ao menos no desejo farsesco do mandatário de transformar seu medo de ser preso em cativeiro político da nação.
É um "Götterdämmerung", um crepúsculo dos deuses sem divindades envolvidas, num pastiche tropical de fazer corar os fãs de Wagner na Alemanha dos anos 1930.
Manifestação em favor de Jair Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo - Amanda Perobelli/Reuters
Os dois discursos do presidente neste feriado, particularmente o realizado na avenida Paulista, mostram um Bolsonaro pintado para uma guerra pessoal: seria mais fácil colocá-lo num ringue com Alexandre de Moraes para definir o destino do país, na visão apresentada sem nenhum pudor pelo mandatário.
A anomia vem se desenhando desde 2019, mas obviamente ganhou contornos dramáticos nas últimas semanas. Bolsonaro agora é um presidente em estado de delinquência anunciada: afirmou que não respeitará decisões do ministro do Supremo a quem elegeu como inimigo.
Na prática, isso não diz nada, exceto que ele mande a Polícia Federal ignorar a corte. Mas é uma sinalização de desespero terminal.
Nesta terça, o presidente não se satisfez em repetir os itens abertamente golpistas de sua fala. Sugeriu, ao inventar uma reunião extraordinária do Conselho da República, que poderia tomar alguma medida que poderia requerer a presença do colegiado: estado de sítio, de defesa, intervenções federais.
E o fez elencando todo o rosário de condução ilusória da crise institucional que ele mesmo criou: a suposta ditadura dos estados no manejo da pandemia, o torniquete do inquérito das fake news sendo apertado pelo Supremo e, com todas as letras, seu temor maior.
Exceto que ele se pretenda um Salvador Allende sofrendo um golpe imaginário com metralhadora nas mãos, é curioso imaginar qual hombridade que seus discípulos veem no líder.
Pouco importa: ele mantém o seu público raiz fidelizado, esperando chegar até 2022 com alguma viabilidade. E esperando que os rombos no seu dique (inflação, crise energética, paralisação do governo etc.) não o afoguem.
Havia gente na rua, claro, mas para quem esperava colocar 2 milhões na Paulista os 125 mil aferidos pela Polícia Militar são um balde de água fria relativa.
A reação ensaiada pelos candidatos a encarnar uma alternativa a Bolsonaro na disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ano que vem foi colocada na mesa imediatamente: impeachment.
Saindo do campo da esquerda, a quimérica solução agora está na boca do PSDB —do jeito típico do partido, com o presidenciável João Doria pedindo a cabeça de Bolsonaro e a sigla marcando reunião para debater o caso, com a previsível oposição da ala do deixa-disso aliada ao centrão.
Seja como for, também de forma esperada, os atos divididos da esquerda não fizeram sombra à Paulista de Bolsonaro, mas nem tampouco foram desprezíveis.
Resta saber o que acontecerá na próxima parada da crise, nos protestos da antiga direita que ajudou a derrubar Dilma Rousseff (PT) em 2016, marcados contra Bolsonaro para o domingo (12). Até aqui, ela tem sido a franja no campo conservador, enquanto as exceções que pediam intervenção militar cinco anos atrás agora são o "mainstream" em termos de barulho.
As peças, de todo modo, se mexem.
Mais de um ator importante do mundo político disse que a construção do caso jurídico contra Bolsonaro, em especial no Tribunal Superior Eleitoral, ganhou tração.
Isso tudo gera um caldo de pressão sobre o centrão que carrega as chaves da sobrevivência política de Bolsonaro com a Procuradoria-Geral da República.
A proverbial Faria Lima não ficará contente com o arrazoado desta terça, e isso cobrará um preço que talvez até os aliados de Bolsonaro terão de aceitar.
Os movimento dos militares desgastados pela associação com Bolsonaro de se distanciar dos atos deste dia 7, inclusive com a chamativa ausência do pitbull Walter Braga Netto (Defesa) na Paulista, foram notados com inquieto alívio por políticos e membros da cúpula do Judiciário.
Mas é pouco.
A partir desta quarta (8), o país tem um líder que se declara em desobediência civil. Isso não é trivial, por mais vulgar que Bolsonaro torne a situação.
Mônica Bergamo: Ou tiramos Bolsonaro ou ele implanta a ditadura, diz integrante do Judiciário em Brasília
Presidente discursou em Brasília e em SP fazendo ataques e diz que só sai morto
Um integrante de um tribunal superior em Brasília se diz "abismado" com as falas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nas manifestações desta terça (7) e definiu o episódio como "surreal".
"Parece um filme de ficção", disse a fonte à coluna, preferindo não ser identificada. "Ele focou no Alexandre [de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)], mas o ataque é ao Judiciário. Frontal", avaliou.
Na opinião deste membro do Judiciário, o presidente da República quer, com a sua atitude, "cavar o golpe". "Ou tiramos ele ou ele implanta a ditadura."
"A questão é que ele tem apoio, isso é um fato. Mas acho que agora não tem volta. Tem que parar o cara, ou ele é que nos para. Estamos pensando ainda em como reagir."
Pela manhã, na Esplanada dos Ministérios, Bolsonaro fez uma ameaça direta ao presidente do STF, ministro Luiz Fux. "Ou o chefe desse Poder [Fux] enquadra o seu [ministro] ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos", disse, referindo-se às recentes decisões de Moraes contra bolsonaristas.
"Nós todos aqui na Praça dos Três Poderes juramos respeitar a nossa Constituição. Quem age fora dela se enquadra ou pede para sair", disse o presidente, em um caminhão de som no gramado em frente ao Congresso.
O presidente Jair Bolsonaro ao lado de apoiadores em cima de um carro de som na avenida Paulista, em São Paulo, durante protesto na tarde desta terça (7) - Danilo Verpa/Folhapress
"Não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos Três Poderes continue barbarizando a nossa população. Não podemos aceitar mais prisões políticas no nosso Brasil", disse Bolsonaro em outra referência a Moraes.
Moraes foi o responsável por decisões recentes contra bolsonaristas que ameaçam as instituições. O ministro tem agido a partir de pedidos da PGR (Procuradoria-Geral da República), sob o comando de Augusto Aras, indicado por Bolsonaro, e da Polícia Federal, órgão subordinado ao presidente.
Os atos desta terça foram dominados por discursos golpistas do presidente e por faixas, cartazes e gritos autoritários e antidemocráticos de seus apoiadores. O STF foi o principal alvo.
À tarde, na avenida Paulista, exortou desobediência a decisões da Justiça.
"Nós devemos sim, porque eu falo em nome de vocês, determinar que todos os presos políticos sejam postos em liberdade. Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá. A paciência do nosso povo já se esgotou", afirmou Bolsonaro.
"[Quero] dizer aos canalhas que eu nunca serei preso", disse o presidente, que prosseguiu. "Ou esse ministro se enquadra ou ele pede para sair. Não se pode admitir que uma pessoa apenas, um homem apenas turve a nossa liberdade."
"Dizer a esse ministro que ele tem tempo ainda para se redimir. Tem tempo ainda de arquivar seus inquéritos. Sai Alexandre de Moraes, deixa de ser canalha, deixa de oprimir o povo brasileiro."
Ainda na Paulista, assim como tem dito em discursos no interior do país, Bolsonaro afirmou que as únicas opções para ele são ser preso, ser morto ou a vitória, afirmando na sequência, porém, que nunca será preso. "Dizer àqueles que querem me tornar inelegível em Brasília: só Deus me tira de lá."
No discurso em São Paulo, ele voltou a mirar o sistema eleitoral e o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do TSE. "Não é uma pessoa que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável, porque não é", afirmou. "Não posso participar de uma farsa como essa patrocinada ainda pelo presidente do TSE."
Bolsonaro também atacou a decisão do corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Luís Felipe Salomão, que vetou repasses de dinheiro a páginas bolsonaristas investigadas por disseminar fake news sobre a urna eletrônica.
"Não podemos admitir um ministro do TSE também, usando a sua caneta, desmonetizar páginas que criticam esse sistema de votação."
O STF analisa atualmente cinco inquéritos que miram o presidente Jair Bolsonaro, seus filhos ou apoiadores na área criminal. Já no TSE tramitam outras duas apurações que envolvem o chefe do Executivo.
Apesar de a maioria estar em curso há mais de um ano, essas investigações foram impulsionadas nas últimas semanas após a escalada nos ataques golpistas do chefe do Executivo a ministros das duas cortes e a uma série de acusações sem provas de fraude nas eleições.
No discurso da Paulista, o mandatário lembrou em diversas frases a importância de seus apoiadores e agradeceu a todos os que chamou de patriotas, que se manifestaram pelo país na data. "Não existe satisfação maior do que estar no meio de vocês", "onde vocês estiverem eu estarei".
"O apoio de vocês é primordial, é indispensável para seguirmos adiante. Nesse momento eu quero mais uma vez agradecer a todos vocês. Agradecer a Deus pela minha vida e pela missão."
O feriado da Independência também foi marcado por um factoide do chefe do Executivo que envolveu STF e Congresso.
Bolsonaro chegou a anunciar uma reunião para esta quarta-feira (8) com os presidentes de Supremo, Câmara e Senado, mas as assessorias de Luiz Fux (STF), Rodrigo Pacheco (Senado) e Arthur Lira (Câmara) disseram que não há nenhuma previsão de reunião.
Diziam “Queremos um STF que cumpra a nossa Constituição. SOS Forças Armadas” (em inglês), “Supremo Talibã Federal”, “11 communist judges”, “Bolsonaro, chame as Forças Armadas para erradicar o comunismo do Brasil” (em inglês) etc.
Era possível comprar cartazes prontos por R$ 10, bandeiras por R$ 5, camisetas “7 de Setembro com Bolsonaro” por R$ 30 e faixinhas por R$ 2, no cartão ou no Pix. Gente que veio em comitivas do interior usava camisetas: “Itupeva”, “Boituva”, “Atibaia”, “Botucatu” etc.
O público não parecia militante, como não costuma parecer nas manifestações bolsonaristas em São Paulo. Havia muitas famílias com um ar um tanto cansado, gente sem pinta de engajado político, no máximo com jeito de “tios do zap”, em geral na casa dos 40 anos ou mais.
Fisicamente, não pareciam as falanges de uma Marcha sobre São Paulo mussoliana, nem de longe, embora as motociatas pareçam. Além das palavras dos cartazes, o clima era muito pacífico, um domingo no parque fascistoide, cheio de polícia, como era o caso da cidade quase inteira.
O pessoal dos carros de som era de meter medo, sim, mas seus slogans, assim como o discurso de Bolsonaro, não suscitavam mais do que uns gritos coletivos de “mito”, “eu autorizo” e “supremo é o povo”, que duravam pouco.
A mais ou menos 60 metros do carro de Bolsonaro, já não se ouvia direito o discurso, aquela barafunda assintática iletrada, para piorar. Em pelo menos dois carros, havia mulheres com cocares. Ao lado delas, pessoas desconhecidas diziam que tinha ficado presas por um ano, por serem “conservadoras”. O ataque do STF à “liberdade” dava o tom de muita falação.
A gente que estava na Paulista reagia um tanto como o povo de programas de auditório em dia ou momento de atrações fracas, apesar da animação no momento da chegada do “mito”. O dia foi parecido com outros “protestos” dos bolsonaristas na Paulista, em resumo —a diferença era o estágio do programa golpista de Bolsonaro.
Foi uma tarde bem menos animada e muitíssimo menos lotada do que as manifestações que pediam a cabeça de Dilma Rousseff. Neste 7 de Setembro, pedia-se a “cabeça de ovo” de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo, objeto central dos protestos.
As pessoas não pareciam pobres, nem de longe, até porque os pobres de São Paulo moram longe —a maioria foi expulsa para a periferia faz décadas e mal tem dinheiro da condução para vir à região central para trabalhar, que dirá para perder o dia de folga.
O público parecia a gente habitual que anda pela Paulista, por seus metrôs, pelo Parque Ibirapuera de domingos lotados ou que enchia saguões do embarque nacional do aeroporto de Guarulhos nos anos petistas melhores.
Menos ainda tinha cara de ricos, que não perderiam um feriado na praia, no sítio ou no clube para pegar Covid em um Paulista com muita sujeira pelo chão, ainda mais com a dificuldade de estacionar, um impeditivo sério.
Sim, a maioria dos manifestantes não usava máscaras. Ainda que o olhômetro faça más estatísticas, por várias vezes contei 100 pessoas que cruzavam o meu caminho. Pelo menos duas de três não usavam máscara, no mínimo.
Opinião: Maria Carolina Trevisan - Juventude falta a atos antidemocráticos de Bolsonaro, retrato do retrocesso
Ato pró-Bolsonaro e a favor do voto impresso na Avenida Paulista, em São Paulo Imagem: José Dacau/UOL
Maria Carolina Trevisan
Colunista do UOL
07/09/2021 18h12
O que se viu nas manifestações antidemocráticas capitaneadas por Bolsonaro neste sete de setembro foi a presença majoritária de homens, brancos, mais velhos. Gente que vibra na frequência dos confrontos, da violência e do xingamento. Um público que despreza o olhar coletivo, o respeito ao outro.
Rejeição a Bolsonaro mostra que população quer vacina, e não golpismo
É cada vez menor a fatia da população brasileira que apoia o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Sua rejeição não para de aumentar, alcançando recordes a cada semana. Sobrou a ele uma minoria ruidosa e raivosa, composta de negacionistas, parte do agronegócio e parte dos evangélicos, mais homens que mulheres.
Os jovens correspondem à faixa etária que menos se alinha ao presidente do Brasil: 73% dos brasileiros entre 16 e 24 anos desaprovam Bolsonaro, como mostrou a pesquisa do Instituto Atlas Político, divulgada nesta segunda (6). Nessa faixa etária, 69% disseram que "com certeza" não participariam das manifestações neste sete de setembro.
É característica do bolsonarismo radical se colocar acima das leis e das regras, como se esses "homens de bem" pudessem violar a democracia sem consequências e sem freios. Como se essas pessoas se considerassem acima da cidadania de mais de 64% de brasileiros que desaprovam Bolsonaro. Soberba de quem se acha invencível, como tantas vezes declarou o próprio Jair Bolsonaro.
São 24% que defendem o presidente com unhas, dentes e armas, que consideram seu governo "ótimo/bom". Nas ruas, esses manifestantes capazes de cantar "eu autorizo" em alusão a medidas contra a democracia e as instituições. Brincam com a vida do país como se nossa realidade não fosse de desemprego, inflação, fome e morte. Fizeram questão de não usar máscaras de proteção contra a covid-19. Sentem-se "imorríveis", para citar uma palavra que Jair Bolsonaro utiliza em referência a si mesmo.
O fato é que sem juventude não há esperança, não há alegria, não há leveza, não há futuro. Os atos antidemocráticos desta terça celebraram uma ideia de retrocesso que não cabe mais ao Brasil. Bolsonaro se mostra cada vez mais sem saída, ao insuflar sua base de eleitores fanáticos contra as instituições. A reação às provocações contra a democracia deve ser forte e pode pavimentar um caminho cada vez mais sólido a favor do impeachment.
Opinião: Carolina Brígido - Atacado por Bolsonaro, Moraes tenta sozinho frear impulsos do presidente
Jair Bolsonaro e Alexandre de Moraes Imagem: Montagem
Carolina Brígido
Colunista do UOL
07/09/2021 16h43
O presidente Jair Bolsonaro conseguiu alçar o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), ao posto de inimigo número um de sua militância. Tem feito isso ao longo dos últimos meses e, nesta tarde, consolidou essa ideia ao dizer, com todas as letras, que não obedece mais às ordens de Moraes. Na Avenida Paulista, foi coberto de aplausos.
A rixa de Bolsonaro é com a cúpula do Judiciário. Mas, então, por que personificar os ataques em Alexandre de Moraes? Vale lembrar: o ministro é relator das principais investigações que correm contra o presidente. Ele mandou incluir no inquérito das fake news a live que Bolsonaro atacou ministros do STF e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), além de por em xeque a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro.
Moraes também comanda o inquérito que apura se Bolsonaro tentou interferir indevidamente nas atividades da PF (Polícia Federal). E, em outra frente, investiga o vazamento por parte do presidente de uma investigação sigilosa da PF. Em outro inquérito, Moraes apura o financiamento e a organização de atos antidemocráticos. A investigação mira aliados e apoiadores de Bolsonaro.
No discurso desta tarde, Bolsonaro ultrapassou as quatro linhas da Constituição, como ele mesmo gosta de dizer. Seja lá o que são essas quatro linhas, dizer em voz alta que não cumpre decisões da mais alta corte de justiça do país é atentar contra as instituições democráticas. É desafiar um dos Poderes da República, quando a Constituição prega a harmonia e independência entre eles.
Ao desafiar o STF e o TSE, Bolsonaro disse que só sai do Palácio do Planalto morto, preso, ou com a vitória das urnas. Na sequência, disse que nunca será preso. E que não deve morrer por agora. Ou seja, ele só aceita a vitória. O presidente avisou novamente que, se as eleições forem realizadas com urnas eletrônicas, sem voto impresso, o resultado não terá validade.
Com essas declarações, ele deixa registrado que não admite derrota, que o TSE frauda eleições e que, se for derrotado nas urnas, nem preso ele deixa o Planalto.
A partir dessas premissas, o que o STF pode fazer? Não muito. O tribunal não expedirá ordem de prisão contra o presidente se o procurador-geral da República, Augusto Aras, não concordar. E é óbvio ele não concordaria. Durante os dois anos de mandato, Aras tem se mostrado fiel a Bolsonaro. Como prêmio, foi nomeado para mais dois anos na cadeira. Não é agora que o procurador vai azedar a relação com o presidente.
As armas do STF, portanto, são limitadas. O ministro que mais tem conseguido tentar frear os arroubos autoritários de Bolsonaro é Alexandre de Moraes. Daí ter sido eleito o inimigo principal do presidente. Mas, sozinho, Moraes pode muito - mas não pode tudo.
O poder para encerrar o discurso golpista de Bolsonaro não é agora do STF, mas do Congresso Nacional. No Senado, a CPI avança, mas não promete muita coisa. Afinal, a partir do resultado dos trabalhos, será necessário que Aras apresente pedido de abertura de investigação contra Bolsonaro ao STF. Novamente, o impasse.
Na Câmara dos Deputados, acumulam-se pedidos de impeachment contra Bolsonaro. O presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), não parece muito disposto colocar os processos para andar.
Nesse cenário, resta ao país ouvir os discursos inflamados de Bolsonaro contra as instituições democráticas até as eleições de 2022.
Josias de Souza - Bolsonaro recoloca no baralho carta do impeachment, intimando país a reagir
Colunista do UOL
07/09/2021 19h34
Com seu comportamento inusitado, Bolsonaro tornou-se protagonista de uma originalidade histórica. Desceu ao verbete da enciclopédia como primeiro chefe do Executivo a utilizar o 7 de Setembro como palco de uma confrontação com os outros dois Poderes da República. Declarou guerra ao Judiciário. E colocou em posição subalterna o Legislativo. Discursou para multidões de devotos em Brasília e São Paulo. Soou mais explícito na Avenida Paulista.
Como de hábito, o cérebro de Bolsonaro começou a funcionar neste feriado no instante em que ele acordou. E não parou até o seu encontro com o primeiro microfone do dia. Antes de discursar, era um presidente sem partido e sem rumo. Já nas primeiras palavras, colocou o seu governo no rumo de uma crise institucional sem retorno. Foi como se intimasse a República a reagir contra os seus ataques ao regime democrático.
Bolsonaro chamou de "canalha" o ministro Alexandre de Moraes, que preside inquéritos contra ele no Supremo. Acusou-o de decretar prisões políticas. Declarou que não cumprirá decisões judiciais proferidas pelo magistrado. Insinuou que o Supremo pode sofrer intervenção se o seu presidente, Luiz Fux, não enquadrar Moraes.
Considerando-se que Moraes é avalizado pela Corte e que Fux não dispõe de poderes para enquadrar seus pares, Bolsonaro comprou briga com o Judiciário, não com um de seus ministros. Fux conversou com os colegas de toga sobre a forma e o conteúdo da resposta da Corte Suprema. O ministro ainda não se deu conta. Mas vive um daqueles momentos históricos em que as horas mais preciosas são as mais rápidas. Como demoram as outras!
Em novo ataque às urnas eletrônicas, Bolsonaro disse que não admite participar em 2022 de uma "farsa" conduzida pelo ministro Luís Roberto Barroso, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Exigiu voto impresso e auditável. As mentiras de Bolsonaro sobre o sistema eleitoral eletrônico, seguro e já sujeito a auditagem, lhe renderam a abertura de um inquérito na Justiça Eleitoral. Foi inaugurado por decisão unânime dos sete ministros do TSE, não apenas de Barroso.
Entre os que votaram a favor da conversão de Bolsonaro em investigado também no âmbito da Justiça Eleitoral está Alexandre de Moraes, que presidirá o TSE na sucessão do ano que vem. Levando-se em conta que a Câmara já enterrou a proposta de voto impresso e que Rodrigo Pacheco, presidente do Senado e do Congresso, já arquivou o pedido de impeachment que Bolsonaro formulou contra Moraes, o presidente da República desafia também o Legislativo.
É como se Bolsonaro estimulasse o pedaço do país que não o chama de "mito" a cutucar com o pé o deputado Arthur Lira, presidente da Câmara, para ver se ele morde seu principal aliado, abrindo a gaveta que guarda mais de 130 pedidos de impeachment. A contragosto do centrão, Bolsonaro recolocou no baralho a carta do impeachment.
Num dia em que pretendia exibir os músculos, Bolsonaro acabou escancarando sua fragilidade. Desde que assumiu a Presidência, ele declara guerra ao mundo. Passou a guerrear contra a estabilidade da democracia. Pela lógica, um governante que derrete nas pesquisas deveria buscar aliados e evitar brigas. Mas a única lógica que Bolsonaro conhece é a lógica do confronto.
A obsessão pela guerra tem suas raízes nos 28 anos de exercício de mandato parlamentar. O problema é que, na Câmara, o custo do destempero e dos xingamentos de Bolsonaro limitava-se ao desperdício de verbas públicas com o pagamento do seu contracheque e com as rachadinhas proporcionadas pela estrutura administrativa do seu gabinete.
No Planalto, o custo é mais alto. Em campanha permanente, Bolsonaro se abstém de presidir as crises que inquietam o país. Em condições normais, presidentes fracos interessam ao centrão. No momento, as emendas orçamentárias que remuneram a cumplicidade de parlamentares com códigos de barra na lapela custam R$ 37 bilhões anuais ao Tesouro.
Entretanto, ao cometer crimes comuns e de responsabilidade em série, Bolsonaro leva até o centrão a fazer um cálculo do tipo custo-benefício.
Empresários pressionam o grupo a exibir uma reação.
Nem que seja uma cara de nojo.
Num cenário assim, a democracia brasileira precisa morrer um pouco a cada dia para que Bolsonaro sobreviva no cargo.
Balaio do Kotscho - Muito barulho para nada: perdeu, Bolsonaro, vai trabalhar!
Bolsonaro discursa em SP Imagem: Reprodução
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Ricardo Kotscho
Colunista do UOL
07/09/2021 17h55
Só um em cada cinco brasileiros ainda apoia o governo Bolsonaro, segundo todas as últimas pesquisas, 32 meses após a posse em janeiro de 2019.
Se ele imaginava que poderia estancar a sangria na sua popularidade, mobilizando seus seguidores para ocupar as ruas neste 7 de Setembro, Bolsonaro deu mais um tiro no pé.
Foi muito barulho para nada, só muita fumaça e bravatas, com mais ameaças antidemocráticas para agradar os já convertidos da seita bolsonarista.
Sim, havia muita gente nas ruas em Brasília, no Rio e em São Paulo, mas muito menos do que ele sonhava para virar o jogo. Em vez de milhões, foram milhares, os mesmos de sempre, enrolados em bandeiras para gritar "mito!".
Bolsonaro partiu para o tudo ou nada, e não ganhou nada.
De manhã, em Brasília, ao ameaçar novamente o Supremo Tribunal Federal, do alto de um carro de som, ele convocou uma reunião do Conselho da República para amanhã.
Mas, à tarde em São Paulo, já tinha desistido da ideia, diante do fracasso da sua nova cloroquina, bombardeada por todos os lados, demonstrando como está completamente perdido.
O capitão queria dar uma demonstração de força, mas colheu mais rejeição ao seu governo, já isolado politicamente, e perdendo apoio até entre o Centrão e nos setores do mercado que o apoiaram e bancaram na campanha de 2018.
Durante os últimos dois meses, Bolsonaro largou de vez o trabalho de governar o país, algo que ainda não começou a fazer, para viajar pelo país às nossas custas e mobilizar os devotos, com discursos cada vez mais radicais contra as instituições.
Quando isto custou ao país, com o uso da estrutura do Estado, paralisado à espera do 7 de Setembro de Bolsonaro?
Em nenhum dos discursos, entre uma e outra motociata, o capitão apresentou soluções para os graves problemas reais que assolam o país.
Amanhã, o desemprego, a fome, a inflação, a pandemia e a crise hídrica que pode nos deixar sem água e sem energia elétrica, tudo continuará do mesmo tamanho. Nada disso preocupa o presidente, não está na sua pauta.
No seu alucinado discurso da avenida Paulista, Bolsonaro voltou às suas obsessões: falou do "voto impresso e auditável", ameaçou o ministro Alexandre Moraes, do STF, e avisou os "canalhas" que nunca será preso, porque não vai mais respeitar as ordens da Justiça.
O inimigo oculto da sua fala, porém, foi o ex-presidente Lula, que lidera todas as pesquisas de 2022 e é o maior obstáculo à sua permanência no poder.
Como sabe que, em condições normais de temperatura e pressão, com as leis vigentes, não terá a menor condição de se reeleger, e ainda corre o risco de ser apeado do poder antes do fim do mandato, o presidente atacou o sistema eleitoral e apelou mais uma vez a Deus, a sua última defesa, já no desespero.
Se a democracia brasileira não estivesse tão esgarçada, normalizando o absurdo, Bolsonaro sairia de cima do carro de som na Paulista direto para a cadeia, acenando pela última vez aos seus devotos.
Caso as instituições democráticas reajam a seus ataques constantes e repetidos, sempre os mesmos, este pode ter sido o discurso do começo do fim do governo Bolsonaro.
Para quem conhece sua história no Exército e na Câmara, não deveria ser nada surpreendente. Sempre foi um arruaceiro, cafajeste, terrorista
Como tenente, queria jogar bombas nos quartéis e na estação de águas do Rio de Janeiro. Foi reformado como capitão, função que nunca exerceu, aos 33 anos.
Agora, ele ameaça um país inteiro para salvar a sua pele e a dos filhos das "rachadinhas", que deram origem a um império imobiliário.
Como esse elemento pode ter sido eleito presidente do Brasil com 58 milhões de votos?
É isso que não consigo responder.
A melhor imagem desses atos antidemocráticos, que Bolsonaro tanto procurava para mostrar ao mundo, é a dos seus fiéis indo embora dos protestos a favor, de cabeça baixa, arrastando suas bandeiras pelo asfalto, neste dia quente de inverno que passou como a fumaça daqueles tanques velhos que desfilaram para ele em frente ao Palácio do Planalto.
E agora, Jair?, perguntaria o poeta Drummond.
Só lhe resta uma saída: começar a trabalhar, governar o país.
Mas, pensando bem, é melhor deixar como está.
Ainda pode piorar.
Vida que segue.
Em tempo: a Polícia Militar de São Paulo acaba de divulgar a estimativa de público na avenida Paulista: 125 mil pessoas. Bolsonaro esperava 2 milhões... A rebelião bolsonarista flopou.
Braga Netto repete antecessor, sobrevoa atos em Brasília ao lado de Bolsonaro e causa desconforto em militares
Ministro da Defesa tem acompanhado presidente em eventos políticos
Na foto, General Braga Netto, ministro da Defesa. Foto: Cristiano Mariz / O Globo
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BRASÍLIA — Interlocutor do governo Bolsonaro com as Forças Armadas, o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, sobrevoou ao lado do presidente o ato deste 7 de setembro realizado em Brasília. A participação do general da reserva em eventos políticos têm gerado desconforto na caserna.
Ao embarcar no helicóptero, o ministro da Defesa reproduziu um episódio protagonizado por seu antecessor, o ex-chefe da pasta Fernando Azevedo e Silva, que, em 2020, também subiu a bordo de uma aeronave para sobrevoar ao lado de Bolsonaro os atos antidemocráticos em Brasília, que atacavam os ministros do Supremo Tribunal Federal.
A ação de Azevedo e Silva, à época, foi questionada pelo então presidente do Supremo, ministro Antonio Dias Toffoli, que cobrou uma explicação sobre o ocorrido. Antes de assumir a pasta, Azevedo era assessor do magistrado na Corte.
Naquele episódio, a Defesa alegou que o general acompanhara Bolsonaro "para checar as condições de segurança" na Esplanada dos Ministérios, mesma justificativa adotada agora por Braga Netto.
Azevedo e Silva deixou as Forças Armadas após relação dúbia com a política. Ele foi substituído por Braga Netto, que trocou o comando de Exército, Marinha e Aeronáutica. Agora, Braga Netto repete os passos do antecessor. Estavam também no helicóptero o deputado federal Eduardo Bolsonaro, e o senador Marcos Rogério, integrante da CPI da Covid.
Esta não é a primeira vez que Braga Netto participa de manifestações políticas ao lado do presidente. Em maio passado, já no comando do Ministério da Defesa, o general da reserva esteve em um ato pró-governo, o que também motivou críticas na caserna.
À época, Braga Netto discursou e manifestantes gritavam “eu autorizo”, bordão criado para manifestar apoio a uma ação do presidente Jair Bolsonaro contra medidas restritivas de governadores e prefeitos. O grito não foi feito no discurso de outros ministros presentes.
Além de Braga Netto, a participação do ex-ministro e general da ativa Eduardo Pazuello em um ato político no Rio de Janeiro, também irritou integrantes das Forças Armadas. Da ativa, Pazuello precisa cumprir regras militares que vedam participação em atos políticos.
Distante de Bolsonaro, Mourão justifica ida a ato de 7 de setembro: 'A nobreza obriga'
Apesar da relação estremecida, presidente e vice participaram juntos de evento na Esplanada dos Ministérios
Presidente Jair Bolsonaro, acompanhado do vice, Hamilton Mourãoem ato do 7 de setembro Foto: SERGIO LIMA / AFP
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BRASÍLIA - Embora mantenha uma relação distante do presidente Jair Bolsonaro, o vice Hamilton Mourão esteve ao lado dele no ato deste 7 de setembro em Brasília, em que foram vistas faixas com pedidos de ações antidemocráticas, como intervenção no Judiciário e Legislativo. Mourão, que frequentemente se coloca como um contraponto às ideias de Bolsonaro, acompanhou de perto o discurso em que o presidente fez intimidações ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Questionado pelo GLOBO por que decidiu ir ao ato, o vice-presidente justificou, por mensagem de texto: “Noblesse oblige”. A expressão em francês significa “a nobreza obriga” e é utilizada para explicar que ocupantes de certos postos precisam se comportar de determinada maneira em algumas situações.
Mais cedo, Mourão esteve ao lado do presidente na cerimônia de hasteamento da bandeira nacional, diante do Palácio Alvorada. Em seguida, o acompanhou à Esplanada dos Ministérios e subiu no caminhão de onde Bolsonaro discursou e fez ameaças ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Bolsonaro e Mourão vivem uma crise permanente desde o início do governo. Conforme O GLOBO revelou no mês passado, o presidente se sentiu traído ao saber que seu vice havia se encontrado num compromisso fora da agenda com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Barroso, um dos alvos preferenciais de Bolsonaro nos últimos tempos. Já Mourão, no ápice da sua insatisfação, chegou a dizer para o presidente no final do ano passado que estaria disposto a renunciar ao cargo.
Ao lado dos ministros-generais Walter Braga Netto (Defesa), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) em cima do trio elétrico, Bolsonaro tentou pressionar o presidente do STF, ministro Luiz Fux.
- Não mais aceitaremos qualquer medida, qualquer ação ou sentença que venha de fora das quatro linhas da Constituição. Também não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos três Poderes continue barbarizando a nossa população. Ou chefe desse poder enquadra o seu ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos - disse.
Também estiveram nos atos os ministros Anderson Torres (Justiça), Fábio Faria (Comunicações), Gilson Machado (Turismo), João Roma (Cidadania), Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) e Onyx Lorenzoni (Trabalho). No final de semana, o presidente, em evento da direita em Brasília, convocou os 23 ministros.
Já os ministros responsáveis pela articulação política, Ciro Nogueira (Casa Civil) e Flávia Arruda (Secretaria de Governo) foram embora do Alvorada após o hasteamento da bandeira. Com o agravamento da crise com o Judiciário, os dois têm tentando atuar para distensionar a relação com os ministros do Supremo. Até agora não obtiveram êxito, porém.
Sobrevoo de helicóptero
Após o encerramento da cerimônia de hasteamento da bandeira no Palácio do Alvorada, Bolsonaro seguiu de helicóptero para a Esplanada dos Ministérios e sobrevoou o evento organizado por seus apoiadores. O ministro da Defesa estava ao lado do presidente. No helicóptero, também estavam o filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), e o senador Marcos Rogério (DEM-RO). As imagens foram transmitidas pelas redes sociais de Eduardo.
O deputado Hélio Lopes (PSL-SP) também transmitiu o sobrevoo ao vivo de outra aeronave, em que estavam o ministro Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), João Roma (Cidadania) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral da Presidência).
Não é a primeira vez que Braga Netto participa de uma manifestação política ao lado de Bolsonaro. A presença é alvo de críticas por parte de militares da ativa.
Embaixadores acreditam que crise será longa após atos do 7 de Setembro
Representantes estrangeiros trocaram mensagens com colegas para debater crise institucional no Brasil
Henrique Gomes Batista e Eliane Oliveira
07/09/2021 - 16:40 / Atualizado em 07/09/2021 - 18:54
MARIZ PA BRASILIA - DF 07/09/2021 MANIFESTAÇÃO 7 DE SETEMBRO/JAIR BOLSONARO Apoiadores do governo Bolsonaro mostram cartazes. Foto: Cristiano Mariz / O Globo Foto: Cristiano Mariz / O Globo
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BRASÍLIA. As manifestações de 7 de Setembro foram observadas com atenção pelos diplomatas estrangeiros que atuam em Brasília. Embaixadores avaliam que a crise institucional está longe de acabar com o presidente Jair Bolsnaro reforçando a narrativa contrária ao Supremo Tribunal Federal (STF). Representantes de diversos países trocaram mensagens neste feriado, reservadamente, para debater suas impressões sobre a situação política do Brasil.
O GLOBO conversou com alguns deles, entre embaixadores, chefes de representação e diplomatas graduados de nove países relevantes na relação externa brasileira, das Américas, da Europa, do Oriente Médio e da África, que pediram para não serem identificados.
A avaliação dominante é que a situação ainda é bastante preocupante, mesmo sem atos de violência ou ruptura formal institucional nesta terça-feira em Brasília.
O tom da fala de Bolsonaro indica que a instabilidade deve seguir, o que pode prejudicar relações bilaterais e investimentos.
— Nenhum governo estrangeiro quer se envolver nesta questão, mas é claro que, para o Brasil e para as relações bilaterais o ideal é que o país saísse com um clima melhor deste dia, e não estamos vendo isso — afirmou um representante de um país europeu. — As incertezas sobre o Brasil vão continuar.
Um embaixador de um importante país americano afirmou que, após as manifestações, ficou mais claro que Bolsonaro segue com seu mesmo discurso de algumas semanas, sem força para dar um próximo passo. E que, assim, o ator que deve ditar o ritmo dos acontecimentos será o Judiciário:
— Bolsonaro já está se repetindo, com pequenas variações, é a sua fala de alguns dias. Ele estancou. Vamos ver como será a reação dos demais poderes, em especial do Judiciário. Esta é uma peculiaridade desta situação brasileira: diante de discursos tão fortes há poucas medidas práticas, na verdade, vira uma guerra de narrativas, mas que precisa de um desfecho — disse.
O embaixador de um outro país americano relevante comericalmente para o Brasil afirmou que chegou a "temer pelo pior", ou seja, uma invasão ao STF, quando manifestantes, na noite de segunda-feira, furaram o bloqueio da Polícia Militar do Distrito Federal e entraram na Esplanada dos Ministérios com caminhões e carros. Para ele, embora os discursos duros do presidente e de seus apoiadores contra o Judiciário sejam muito preocupantes, o simbolismo da invasão do prédio do STF poderia ter consequências drásticas.
— Ainda está no mundo das palavras e das ameaças. É preocupante, mas a linha vermelha ainda não foi cruzada — afirmou um embaixador de um importante país do continente americano.
Outro diplomata, também sob sigilo, lembrou que as manifestações do 7 de Setembro em Brasília seguiram o script previsto por muitos analistas: um discurso duro, mas sem ruptura de fato. Entretanto, ele afirmou que o episódio, em sua avaliação, piora ainda mais as relações institucionais, indicando que a instabilidade deve prevalecer por longo tempo no Brasil.
Outros representantes já esperavam um desfecho sem ruptura. Um embaixador africano disse que não temia pelo pior, por considerar que parte do que se anunciava por integrantes do governo Bolsonaro se inseria mais em um contexto de propaganda, ou seja, era algo maior do que realmente foi. Outro diplomata, desta vez europeu, concorda com essa avaliação. Os preparativos despertavam mais interesse do que temor propriamente dito.
O risco de violência nos atos gerou preocupação em diversos governos. Algumas embaixadas, como a dos Estados Unidos e a de Angola, alertaram seus cidadãos sobre os riscos. Algumas representações europeias instruíram seus nacionais a não aparecerem na Esplanada dos Ministérios nesta terça-feira.
Em um comunicado, a embaixada angolana destacou a existência de indícios de confrontação e prováveis atos violentos" e, por isso, recomendava aos cidadãos do país a evitarem deslocamentos desnecessários.
O governo americano fez o mesmo e orientou que todos evitassem ir a áreas de manifestações nas cidades brasileiras no dia 7 de setembro, sob o argumento de que mesmo os movimentos mais pacíficos poderiam ter confrontos.
Na manhã desta terça-feira, Antony Blinken, secretário de Estados dos EUA, publicou uma nota comemorando o aniversário da independência do Brasil.
"Os Estados Unidos e o Brasil compartilham um relacionamento estratégico de longa data com forte cooperação em nossas prioridades compartilhadas de democracia regional, segurança e prosperidade, e nossos povos são unidos por laços familiares, acadêmicos e comerciais", disse o texto. " Estou confiante de que, trabalhando juntos, veremos um futuro melhor e uma parceria ainda mais forte entre nossas duas nações".
Para diplomatas ouvidos pelo GLOBO, a convocação do Conselho da República por Bolsonaro pode ser o "preâmbulo de algo mais sério" e se transformou em um fator preocupante. Outro embaixador enfatizou que o presidente brasileiro não surpreendeu, enquanto a população demonstrou maturidade nas manifestações.
Discurso radical faz Bolsonaro perder mais apoio da elite econômica | Míriam Leitão - O Globo
Por Alvaro Gribel
O discurso golpista de Jair Bolsonaro faz o presidente perder mais apoio da elite econômica. Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, a radicalização do discurso neste 7 de setembro aprofunda as incertezas no setor produtivo e no mundo financeiro.
Vale, da MB Associados, avalia que o processo de perda de apoio do presidente na elite econômica é irreversível e crescente, e isso vai acabar aprofundando a crise econômica.
- Acho que o presidente perde ainda mais apoio na elite econômica. Já estavam desembarcando, agora é irreversível e crescente. A crise econômica vai se aprofundar e tem um único culpado que é ele – afirmou.
Na visão do economista, é preciso uma resposta política à altura, como um processo de impeachment, para evitar uma sangria maior da economia.
- Com a eleição ainda distante e a total paralisia das reformas, vamos ver a economia afundando até que a política dê a saída. Precisamos rapidamente de ter uma reversão de expectativas como tivemos com o Collor em 1992 e a Dilma em 2016 – disse.
– Sem fazer juízo de valor sobre as manifestações em si, essa fricção do Executivo com diferentes instituições gera ruídos que tornam mais difíceis as decisões de investimento e de gasto. É difícil conviver com essa tensão permanente do governo com todos os outros poderes. Quem investe fica mais apreensivo. Esse é o canal de contágio macroeconômico desses ruídos – afirmou .
Já o economista-chefe de um outro grande banco, no entanto, acredita que Bolsonaro fortalece os seus 20% de apoio para tentar se garantir no segundo turno. Mas alerta: o grande risco para a economia é o aumento de gastos em uma guinada populista no ano eleitoral.
Ato pró-Bolsonaro em SP reúne apenas 6% do esperado por organizadores
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247 - O ato pró-Bolsonaro realizado nesta terça-feira (7) na Avenida Paulista, em São Paulo, reuniu apenas 6% do esperado pelos organizadores. Segundo estimativas da Secretaria de Segurança Pública, cerca de 125 mil pessoas compareceram ao ato antidemocrático que, explicitamente, desafiou o Supremo Tribunal Federal (STF).
Os organizadores esperavam um público entre dois milhões e três milhões de participantes no protesto. No entanto, o ápice da concentração reuniu pouco menos de 6% de apoiadores, informou o UOL.
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Cartazes com pedidos antidemocráticos ilustravam os protestos pedindo o fechamento do STF, voto impresso e a instituição de um tribunal militar. Bolsonaristas também atacaram o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a imprensa.
A derrota do extremismo de Bolsonaro nas manifestações - Jose Carlos de Assis
Por Jose Carlos de Assis
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Por Jose Carlos de Assis
Se havia suspeita da existência de radicais na CUT e no PT, como alega um preconceito arraigado da direita bolsonarista, ela se revelou inexistente ou inexpressiva nas manifestações pró e contra Bolsonaro, ontem, nas principais metrópoles do Sudeste. O que houve foi uma declaração pública de confiança e de defesa da democracia, por parte das correntes sociais e políticas progressistas, do mais claro repúdio ao apelo extremista do maior agitador fascista da história brasileira, Jair Bolsonaro, desde seu posto institucional de Presidente da República.
Como sustentei em dois artigos anteriores, falhou redondamente a tática desesperada dele para escapar do cerco que lhe impõem os dois outro poderes da República, o Judiciário e o Congresso Nacional. Falhou, portanto, sua escalada fascista para manter-se no Planalto a qualquer custo e impor sua ditadura pessoal ao país. Quando um não quer, dois não brigam. O resultado das manifestações de ontem foi uma vitória inequívoca das esquerdas e a evidência de seu comprometimento com o processo democrático para conquistar o poder político por via pacífica.
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O que Bolsonaro queria era o confronto, que lhe parecia inevitável, de seus seguidores fanáticos com os fanáticos que ele imagina existirem na CUT e no PT. Eu temia, sinceramente, que isso poderia acontecer. Não conheço a intimidade política dessas entidades . Mas a organização de qualquer grupo, por alguma de suas características – por exemplo, a altura de seus indivíduos - se apresenta através de uma figura que a estatística chama de curva normal. Na política, o centro da curva, em forma de sino, representa a maioria, os moderados. Radicais ficam nos extremos.
O erro de Bolsonaro foi considerar que existe no Brasil hoje, em oposição ao extremismo de direita que ele representa e lidera, um extremismo de esquerda que se contrapõe a ele. Sabemos agora que não há. As manifestações de ontem foram uma oportunidade para que, em resposta à convocação golpista do próprio Presidente da República, o extremismo de esquerda, que se vê que só existe em sua imaginação, entrasse em confronto de rua com seus seguidores fanáticos, desencadeando a seu favor uma convulsão que levasse à intervenção da Força Nacional e do Exército.
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Esse erro significou a declaração de morte da vida política de Bolsonaro. Está literalmente encurralado pela democracia e por 85% da população brasileira que o rejeitam – não só os que se dizem de esquerda, mas também progressistas, democratas sinceros, opositores do governo que se revelou o pior de nossa história, em todos os tempos. Apelando no desespero a seus seguidores manipulados, cometeu publicamente um crime explícito contra a Constituição ao atacar diretamente o princípio constitucional pétreo de independência e harmonia entre os poderes.
Esse crime não pode ser ignorado por Augusto Aras, o Procurador Geral da República a quem a Magna Carta confere a autoridade exclusiva de denunciar o Presidente por crime de responsabilidade, ou por Arthur Lira, a quem cabe dar início ao processo de impeachment contra ele. Há remédios, na democracia, também contra a omissão. Se a opinião pública, os 85% contra Bolsonaro que exigem sua destituição, se vir frustrada em seu desejo manifesto de o depor, quem estará instigando o ódio, a violência e o extremismo não é só Jair Bolsonaro, mas Aras e Lira.
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A paz é fruto da Justiça e a Tranquilidade se funda no Direito, diz a citação do Deuteronômio bíblico que aparece na epígrafe da encíclica Mater et Magistra, de João XXIII. Este foi o Papa que antecipou, em seis décadas, outro dos dirigentes mais progressistas da história da Igreja Católica, o Papa Francisco. Francisco assumiu a bandeira da proteção dos oprimidos, destacando-se na crítica ao capitalismo predatório e a corrupção do sistema financeiro, e convocando os homens de boa vontade à união contra as terríveis crises que assolam atualmente a humanidade.
Aproxima-se o tempo pós-Bolsonaro. Nesse tempo, teremos que buscar saídas para as maiores crises já enfrentadas pela sociedade em toda a nossa história. Não há alternativa, no meu entender, senão um grande Pacto Social ao nível da Sociedade Civil organizada para influir em decisões políticas de salvação da Pátria. Também pela primeira vez na história há condições objetivas para esse Pacto. Ricos e pobres, elites e gente comum, afortunados e deserdados, todos estão no mesmo barco. Ou agimos de comum acordo em torno de interesses comuns, ou afundamos todos.
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As crises ambiental, energética, urbana e de segurança pública não escolhem, nas nossas metrópoles, entre os habitantes da cidade rica e da cidade periférica. A inflação crescente, a escalada do custo de vida, os aumentos sucessivos e injustificados dos preços da gasolina, do diesel, do gás e da energia elétrica, o desemprego, o subemprego e a miséria, todas se abatem sobre todos os cidadãos, embora muito mais fortemente sobre pobres, desempregados e classe médias. É preciso que entidades que representam esses grupos entrem em negociação para decidir rumos.
Terá de ser uma construção coletiva. Se a Sociedade Civil, através de propostas objetivas e unitárias aprovadas na mesa do Pacto, levá-las ao Congresso Nacional, o Congresso atuará como representante efetivo do povo e certamente as transformará em leis. Já está sendo formulada, com esse propósito, uma sugestão de Emenda Constitucional para controle imediato dos preços fundamentais que respondem pela alta acelerada do custo de vida, pelo aumento do desemprego e do subemprego, e por um valor digno de auxílio emergencial enquanto durar a pandemia.
Depois, porém não muito mais tarde, terão de ser discutidas as condições e as leis para a retomada do desenvolvimento econômico sustentável. Tudo isso está ao alcance do Brasil. A sociedade já está organizada em várias entidades que defendem interesse específicos. É preciso reuni-las num projeto comum, que possa ser levado também aos partidos e aos candidatos presidenciais para as próximas eleições. Esse é o caminho de Confúcio para superar as crises, o caminho do meio. É o caminho que evita extremos. Já sabemos que, do lado das esquerdas, é o caminho escolhido.
Não se iludam, o OPOSITOR de BOLSONARO em 2022 é ALEXANDRE de MORAES
Os discursos feitos por Jair Bolsonaro em Brasília e na Avenida Paulista neste 7 de setembro NÃO deixam dúvida de que o GRANDE_OPOSITOR de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2002 NÃO É LULA e sim, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ALEXANDRE de MORAES.
Por Paulo Emilio 7 de setembro de 2021
Os discursos feitos por Jair Bolsonaro em Brasília e na Avenida Paulista neste 7 de setembro não deixam dúvida de que o GRANDE OPOSITOR de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2002 NÃO É
o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
o governador de São Paulo, João Doria (PSDB),
o ex-ministro Ciro Gomes (PDT),
ou qualquer outro que não seja
o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ALEXANDRE de MORAES.
O magistrado foi o principal alvo das manifestações antidemocráticas convocadas pelo ex-capitão.
A razão é simples:
Moraes irá presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no próximo ano e, também, é o relator dos processos que correm na Corte contra o ocupante do Palácio do Planalto e seus filhos.
Este é o temor de Bolsonaro.
Sem ter nada para mostrar à população - inflação em quase dois dígitos, mais de 14 milhões de desempregados, reformas que foram prometidas ao mercado e que nunca saíram do papel, com investidores estrangeiros cada vez mais distantes do Brasil, com mais de 580 mil mortos pela Covid-19 devido à inação do governo federal, com os filhos enrolados, ex-mulher e ex-assessores envolvidos em denúncias de rachadinhas e com a compra de mansões milionárias para a família, refém do Centrão, e, principalmente, em queda livre nas pesquisas eleitorais - só resta ao ex-capitão encontrar alguém para culpar pela seu fracasso.
Daí, o alvo: Alexandre de Moraes .
Indicado para o cargo por Michel Temer, Moraes assumirá o cargo de presidente do TSE no próximo ano, tendo nas mãos o poder de decidir se aceitará ou não uma candidatura cheia de ataques à Constituição e eivada de suspeitas de irregularidades.
Com Lula liderando com folga as pesquisas de intenção de voto, com a possibilidade de se tornar inelegível e sentindo o “bafo no cangote”, Bolsonaro apela para insuflar seus apoiadores ao ataque puro e simples contra as instituições e a democracia que o elegeu.
Ao mesmo tempo em que faz isso, o ocupante do Palácio do Planalto não exerce a função para a qual foi eleito, que é a de governar e de apresentar alguma solução concreta para os problemas reais enfrentados pela população.
Ao defender o voto impresso - pauta já superada pelo Congresso - e ao afirmar que não mais cumprirá as decisões da Justiça, Bolsonaro não apenas solapa a democracia e a Constituição, mas PREGA um GOLPE ABERTO.
Resta saber como os demais poderes, Legislativo e Judiciário, irão reagir, se com mais uma notinha de repúdio ou se posicionando de maneira firme e veemente em defesa do povo brasileiro, contra a retórica golpista que parece ganhar corpo pelo Brasil afora.
Essas manifestações de hoje foram desastrosas. Mais de três meses pra organizar, dinheiro AGRO chovendo na horta, dólares da direita americana. Farta distribuição de bonés, camisas, lanche e '100 real'. Ônibus refrigerados. E o que conseguiu?
Em Copacabana, bairro oficial dos milicos aposentados e pensionistas e dos mineiros reacionários, 4 quarteirões!!!!
Nos réveillons, a Atlantica lota do Leme ao Forte. Multidão compacta, em todas as pistas, na areia e gente até dentro d'água. Quatro quarteirões é piada.
As imagens de Brasília: em qualquer posse de Lula tinha mais gente, muito mais.
Av Paulista, com tantos brindes, até eu, se fosse despolitizada, iria, pra passear meu cachorro com uma écharpe verde e amarela no pescoço (do cachorro; no meu não, que eu sou chique).
Essa micareta foi prenúncio da morte política de Jair Bolsonaro, com o corpo já em decomposição.
Os políticos 'aliados', com faro bom pra defunto político, começaram a dar declaração 'em off' de que vão se afastar, de que não aprovam e blá-blá-blá.
Os militares do Planalto devem ter ido todos ao mesmo churrasco. A agenda já estava ocupada, sorry.
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Os militares sentiram a roubada, não teve nem Parada. E isso é muito evidente. Nunca vi abrirem mão espontaneamente de evento de data patriótica, boa ocasião pra dar passo de ganso e usar a farda de gala com todas as medalhas, os colares, barretes, condecorações locais, regionais, internacionais e até interplanetárias, se houver.
Alguém ouviu hino evangélico, cantora gospel, Pai Nosso? Eu também não.
Enfim, do elenco-lixo de Bolsonaro, só compareceu o chorume.
Flávio Dino: Bolsonaro já iniciou o golpe, resta saber até onde ele vai
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247 - O governador do Maranhão, Flávio Dino (PSB), afirmou que Jair Bolsonaro iniciou a sua tentativa de golpe de estado. Em entrevista ao UOL, o governador maranhense enfatizou que, agora, resta saber até onde ele irá em suas investidas antidemocráticas, e qual será a resposta que as instituições e a sociedade civil darão ao mandatário.
"[Bolsonaro] já está tentando um golpe, não se trata mais de uma previsão. No momento em que ele faz essas marchas milicianas, com ele à frente e esse tipo de emulação criminosa, não se trata mais de discutir se ele tentará ou não um golpe, uma ruptura, ele já está naquilo que nós chamamos de itinerário criminoso. A questão é saber até onde ele vai", declarou o governador
Mas cedo, em suas redes sociais, Flávio Dino citou o o artigo 359-L do Código Penal, que estabelece os crimes contra o Estado Democrático de Direito, que estabelece que "tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais: Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, além da pena correspondente à violência".
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Ele citou ainda a Lei 1.079/50, que define os "crimes de responsabilidade: "usar de violência ou ameaça, para constranger juiz, ou jurado, a proferir ou deixar de proferir despacho, sentença ou voto, ou a fazer ou deixar de fazer ato do seu ofício".
Em ato na Esplanada, Bolsonaro diz que "o momento chegou" e ameaça: Judiciário pode “sofrer aquilo que não queremos”.
247 - O ex-ministro José Dirceu usou as suas redes sociais nesta terça-feira (7) para dizer que as atitudes e discurso de Bolsonaro no 7 de setembro só revelam que o que ele verdadeiramente teme, além da prisão, é enfrentar Lula nas urnas em 2022.
“Cada vez que Bolsonaro abre a boca, o que ele realmente expressa, e de forma gritante, é o medo de enfrentar Lula nas urnas. Bolsonaro acabou!”
Ex-bolsonaristas, Mamãe Falei e Nando Moura são expulsos de ato na Paulista
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247 - O deputado estadual Arthur do Val, conhecido como Mamãe Falei, e o músico e youtuber Nando Moura, ambos ex-apoiadores de Jair Bolsonaro, foram expulsos da manifestação bolsonarista na Avenida Paulista, em São Paulo, nesta terça-feira (7).
Dia da Independência mostra dois Brasis: um para todos e um de poucos
As imagens dos grandes e isolados atos em verde e amarelo em Brasília e em São Paulo e dos mais de 200 protestos de cores distintas espalhados pelo Brasil deram o tom deste 7 de Setembro, Dia da Independência. E desenham um país dividido. De um lado, os cerca de 30% de brasileiros que, segundo as pesquisas, ainda apoiam o governo de Jair Bolsonaro, diante da maioria que, não necessariamente de esquerda, gostaria de ver seu fim. Essa minoria barulhenta, de forma incompreensível, se manifesta a favor de um presidente que negou a ciência, atrapalhou como pôde o acesso às vacinas contra a covid-19, zombou das mortes diante da “gripezinha”. E permanecem ao lado de um mandatário que entregou o país à própria sorte e assiste, sem mover uma palha, o desemprego crescer, a fome aumentar, a inflação subir, o país arder sem água e galopar rumo a um apagão elétrico.
Segundo a Polícia Militar do Distrito Federal, 105 mil pessoas se espalharam pelo seco gramado da Esplanada dos Ministérios em Brasília. As ameaças de invasão ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Congresso Nacional, proferidas ao som das buzinas de enormes caminhões e motorhomes na noite do dia 6, não se concretizaram. Sob um sol escaldante, a maioria – composta de homens brancos e mais velhos que jovens – poderia ter deixado para ouvir no “cercadinho” o repetitivo discurso do presidente da República contra as instituições que deveria respeitar.
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Santo nome em vão
Bolsonaro falou momentos depois de utilizar helicópteros comprados e mantidos com recursos públicos para sobrevoar o ato. Talvez o tamanho da manifestação – maior do que deveria, mas muito menor do que esperava quem apostava no golpe – tenha desanimado os ímpetos do ex-capitão. “A partir de hoje uma nova história começa a ser escrita no Brasil. Peço a Deus, mais que sabedoria, força e coragem para bem decidir”, disse.
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O nome santo foi usado novamente em vão em São Paulo, para onde Bolsonaro se dirigiu igualmente bancado pelo suado dinheiro do povo brasileiro. “Nesse momento, eu quero mais uma vez agradecer a todos vocês. Agradecer a Deus, pela minha vida e pela missão. E dizer àqueles que querem me tornar inelegível em Brasília que só Deus me tira de lá.”
Segundo a PM paulista, 115 mil pessoas vestiram verde amarelo para ouvir seu presidente. O tom foi igualmente antidemocrático, mas um pouco mais cauteloso que o usado em Brasília. Como se no rápido voo entre as duas capitais, o atual presidente da República tivesse sido alertado para os perigos que rondam quem realmente atenta contra as leis brasileiras.
Crimes de Bolsonaro
Bolsonaro coleciona cerca de 130 pedidos de impeachment que repousam em eterna “análise” na mesa diretora da Câmara dos Deputados desde os tempos de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e agora sob Arthur Lira (DEM-AL). São muitos os crimes de responsabilidade diuturnamente cometidos na presidência da República pelo ex-capitão.
Segundo esclareceu o jurista e governador do Maranhão, Flavio Dino, em suas redes sociais, na Lei 1.079/50, Artigo 6º, figura como crime de responsabilidade “usar de violência ou ameaça, para constranger juiz, ou jurado, a proferir ou deixar de proferir despacho, sentença ou voto, ou a fazer ou deixar de fazer ato do seu ofício”. Já no artigo 359 L, do Código Penal, “tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais”, pode resultar em pena de reclusão, de quatro a oito anos, além da pena correspondente à violência.
Fora Bolsonaro tomou Anhangabaú
Por outro lado, o Vale do Anhangabaú, em São Paulo, encerrou as manifestações do Grito dos Excluídos e pelo Fora Bolsonaro no Brasil. E reuniu as forças progressistas empenhadas em acabar com os riscos representados pela manutenção de Jair Bolsonaro na Presidência da República.
Participaram o ex-prefeito da capital paulista e ex-ministro da Educação, Fernando Haddad; a liderança do MTST e do Psol, Guilherme Boulos; a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann (PR); a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bruna Belaz. Lideranças sindicais e de movimentos sociais também se manifestaram.
“A democracia não caiu do céu, ela veio da luta da classe trabalhadora”, alertou o presidente da CUT, Sérgio Nobre. “Esse ato, ao contrário do na Avenida Paulista é um ato de solidariedade”, comparou, lembrando as quase 600 mil mortes pela covid-19 no Brasil. Nobre criticou ainda as privatizações, a retirada de direitos, os ataques ao serviço público convocando apoio popular para a mobilização, no dia 14, em defesa do funcionalismo e contra a PEC 32. “É um dia de toda classe trabalhadora brasileira.”
Povo nas ruas
Gleisi afirmou que os discursos de Bolsonaro neste 7 de Setembro escancararam o medo que ele tem da Justiça. “Ele terá de explicar de onde veio o dinheiro para bancar seus atos de intimidação”, disse, parabenizando a participação dos brasileiros no Grito do Excluídos em todo o Brasil. Em muitos das centenas de atos houve distribuição de alimentos aos mais carentes. “Nossa causa é a pauta do povo”, afirmou.
Fernando Haddad acusou Bolsonaro de “defender a filharada” e afirmou que o dia de o presidente responder na Justiça está chegando. O ex-prefeito ressaltou as diferenças entre as duas manifestações que ocorriam na cidade. No Anhangabaú estavam os defensores da democracia. Na Paulista, os que defendiam a ditadura e o fascismo. “Depois de três anos de destruição de empregos, da vida e da esperança, o que essas pessoas estão fazendo na Paulista? Por que não estão aqui com a gente?”, questionou.
Boulos reforçou a importância deste 7 de Setembro que mostrou que a esquerda não vai “deixar a rua para eles”, os bolsonaristas. “Nós não temos medo de ameaças golpistas. O medo está do lado de lá. O medo é do Carluxo (o vereador Carlos Bolsonaro), que deve ser preso logo mais.”
A turba esperava que Bolsonaro anunciasse, em Brasília e na Paulista, os próximos passos em direção ao poder absoluto. E o que o sujeito ofereceu ao seu povo foi de novo o medo de ser preso.
Preocupam-se os democratas com o discurso com um tom um pouco acima do usual. Mas saem frustrados os que foram às ruas certos de que o Dia da Independência seria o começo de alguma coisa maior.
Não houve quase nada além do previsto, mas o discurso requentado das ameaças e das agressões. Tudo o que Bolsonaro gritou em Brasília e na Paulista já havia sido dito antes.
As advertências aos ministros do Supremo, a apresentação das três hipóteses (ser preso, morrer ou ser vitorioso), a insinuação do golpe como coisa que deve ser decidida logo e a conversa chata do voto impresso.
A novidade, porque explicitou o que vinha sendo sugerido, foi o anúncio de que não cumprirá mais “qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes”.
Mas há um detalhe. Bolsonaro disse que “esse presidente” não cumprirá as decisões. E os filhos, envolvidos em dois inquéritos, das fake news e dos atos pró-golpe, poderão cumprir? Moraes preside os dois casos.
É possível que Bolsonaro tenha insinuado que os filhos também estão protegidos pela sua decisão de afrontar as decisões do ministro do Supremo? E se um dos garotos receber ordem de prisão?
Bolsonaro requentou, com amplificação, o que já diz nas falas do cercadinho do Alvorada e nas lives de quinta-feira.
Ficou a sensação de que não soube aproveitar a chance de avançar. Ganhou dois palcos gigantescos, diante de plateias que nunca havia reunido, e apresentou mais do mesmo.
Bolsonaro não tem repertório para grandes públicos e não entregou o que estava prometendo. O bolsonarista incondicional, que fez longa viagem de ônibus para ver Bolsonaro, em Brasília ou São Paulo, não teve o que esperava.
O público não queria mais um aquecimento para o golpe. Esperava o sinal tão esperado da deflagração do golpe.
Bolsonaro acovardou-se e agora mergulha numa ressaca profunda, se não conseguir inventar a próxima etapa. Será preciso retomar o roteiro, se é que existe, depois do que aconteceu nessa terça.
Bolsonaro pode ter ficado à espera do imponderável, do fato surpreendente que acionasse o caos. Poderia ser uma briga gigante de militantes dos dois lados e, quem sabe, até uma morte. A invasão do Supremo?
O sujeito aguardava algo que paralisasse a política e as instituições, acionasse mecanismos de exceção e lhe assegurasse, mesmo que provisoriamente, o poder absoluto.
Vem agora a depressão pós-sete de setembro. Bolsonaro não quer a eleição. Ser humilhado por Lula é o pesadelo do genocida. Tudo o que Bolsonaro deseja é um evento qualquer que interrompa o processo até a eleição do ano que vem.
O ideal seria o golpe. Mas pode ser a cassação da chapa, que levaria seu inimigo Hamilton Mourão junto. E pode até ser o impeachment. Tudo, menos a eleição.
Essa é a armadilha para as esquerdas. Bolsonaro deseja, se ficar de fora da eleição, ser transformado em mártir. Ele precisa se reafirmar como vítima do sistema, por achar que assim poderá espernear e sobreviver.
Mas sabe que não sobreviverá a uma derrota avassaladora para Lula. Bolsonaro está, em desespero, em busca de uma cruz.
CRISE ENTRE OS PODERES - As CONDIÇÕES para Fux RESPONDER ao discurso GOLPISTA de Bolsonaro
Por Bela Megale 07/09/2021 • 16:26
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, ainda não sabe se vai falar sobre as ameaças do presidente Bolsonaro à corte e à democracia neste 7 de setembro.
Inicialmente, o magistrado decidiu que só se pronunciaria se houvesse violência, mas tinha duas certezas: só falaria após os dois discursos de Bolsonaro, em Brasília e São Paulo, e, após ouvir a opinião dos demais colegas do Supremo.
Bolsonaro conclama o golpe sem meias palavras; ficará sem resposta? | Vera Magalhães - O Globo
Jair Bolsonaro foi além dos prognósticos sempre Pollyana que nós, ainda engatinhando na tarefa árdua de cobrir um governo golpista, insistimos em traçar como moderados, leves ou inócuos. Sem meias palavras, do alto de um carro de som, o presidente da República Federativa do Brasil ameaçou ministros do Supremo Tribunal Federal e o próprio Judiciário, deu um "ultimato" ao presidente do STF, Luiz Fux, pela deposição do colega Alexandre de Moraes e disse que convocará para amanhã, dia 8, uma reunião do Conselho da República.
O Conselho da República vem a ser um órgão consultivo, de aconselhamento do presidente da República, que tem as atribuições pronunciar-se sobre "intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio". É composto pelo vice-presidente, os presidentes da Câmara e do Senado, os líderes da maioria e da minoria nas duas Casas, o ministro da Justiça e seis cidadãos acima de 35 anos.
Os demais integrantes do Conselho não receberam até agora nenhuma convocação para reunião. Talvez ela nem venha. Talvez, se vier, os membros não compareçam. Ainda que compareçam, não deverão referendar uma conclamação a qualquer dessas medidas de exceção.
Nada disso importa minimamente. No discurso que seria o mais "moderado" dos que fará hoje, Bolsonaro conclamou sem meias palavras para um golpe de Estado, uma espécie de autogolpe, uma ruptura do tecido institucional que compõe o Estado democrático de direito. Exorbitou em muito o que os condescendentes esperavam de hoje.
Não se pode condescender mais. Minimamente. Este discurso de Bolsonaro é a mais grave expressão golpista vinda de um chefe de Estado no Brasil no período republicano. Nenhum ditador ou protoditador ousou tanto em público, num período em que a única ameaça à democracia vem dele próprio.
Se calarem ou minimizarem a gravidade do que houve hoje em Brasília, Luiz Fux, Arthur Lira, Rodrigo Pacheco, Augusto Aras e os comandantes militares serão não apenas cúmplices dessa escalada insana rumo à completa bagunça da vida nacional, mas reféns das ameaças de um presidente que passa semanas arregimentando uma turba violenta e armada para ir às ruas acossar os Poderes e as autoridades constituídas. Ou seja: eles próprios.
Bolsonaro promete uma fala ainda mais "robusta" na avenida Paulista. Robustez não é, nem pode virar nas manchetes e relatos da imprensa comprometida com a democracia, sinônimo de arrivismo, golpismo, incitação à desordem, que é o que promove Bolsonaro.
Ele precisa ser duramente responsabilizado por essas que são ações vindas do chefe do Executivo, e não palavras ao léu de alguém desobrigado de responsabilidades. Ele jurou, no ato de posse, respeitar, cumprir e se curvar à Constituição, e vem tratando de rasgá-la, capítulo a capítulo, página a página, artigo a artigo, sob olhos pasmos e acovardados dos que têm a missão, dada pela própria Carta, de contê-lo, e removê-lo do gabinete caso insista nessa escalada sem volta rumo ao caos.
E qual o caminho dessa contenção? A abertura imeadiata de um processo de impeachment seria a resposta do Congresso, mas ainda não se pode esperar isso de Arthur Lira, que é cúmplice deste governo.
Outro é seguir a bula fornecida pelo ministro Ricardo Lewandowski em recente artigo na Folha de S.Paulo: a Constituição estabelece que constitui crime imprescritível e inafiançável a ação de grupos armados civis e militares contra a ordem constitucional e o Estado democrático.
O projeto recentemente aprovado pelo Congresso para substituir a Lei de Segurança Nacional desdobrou esses crimes e os inscreveu no Código Penal. O ministro, em seu texto, também mostra que há tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, além de outras legislações, como o Código Penal Militar, que estabelecem como crimes tentativas de golpe de Estado.
O problema de se avançar na responsabilização por esta via é que ela depende de denúncia do procurador-geral da República e autorização da Câmara para que ele seja processado. O que de novo torna a passagem estreita.
É preciso usar esse arcabouço legal para responsabilizar Bolsonaro pelas suas ameaças explícitas.
Bolsonaro dobra a aposta na Paulista: será que o STF, a PGR e o Congresso fingirão que não ouviram as ameaças golpistas? | Lauro Jardim - O Globo
Por Lauro Jardim
Jair Bolsonaro dobrou a aposta em seu discurso de 20 minutos diante de uma Avenida Paulista lotada.
Se em Brasília, no fim da manhã, já havia feito uma pregação golpista às claras, agora atacou diretamente o STF.
Citou nominalmente Alexandre de Moraes ("Sai, Alexandre de Moraes. Deixa de ser canalha!"). E antecipou que não respeitará qualquer decisão judicial proferida por ele.
Em suma, se colocou acima da lei.
Como o Supremo, a PGR e o Congresso reagirão a essa nova leva de ameaças golpistas? Fingirão que não ouviram? Que não foram afrontados?
Como o Brasil pode ser governado por um presidente que diz a quem quiser ouvir que faz o que quiser e que não respeitará a Constituição?
O país, que vive em meio a uma crise econômica, hídrica e sanitária, tem neste momento que lidar com um problema muito mais grave, um presidente da República que vai às ruas pregar o desmonte do estado de Direito.
Bolsonaro cria clima para seu impeachment | Merval Pereira - O Globo
Por Merval Pereira
Mesmo tendo tido menos gente nas ruas do que o governo previu – Bolsonaro chegou a falar em dois milhões de pessoas – a manifestação de Brasília teve claramente o caráter golpista, reforçado pelo próprio presidente da República que, em seu discurso, deu um ultimato ao presidente do STF, Luis Fux, para enquadrar os ministros Alexandre Moraes e Luis Roberto Barroso ou pedir para sair. Ele não pode achar que seja um discurso normal de um presidente da República. Na verdade, Bolsonaro faz exatamente o que acusa o STF de fazer: vai contra a Constituição, contra os outros poderes e se não aceitar os outros poderes, tem que pedir para sair. O discurso de hoje poderia ter sido feito por alguém contra ele e seria verdadeiro. O que ele faz em relação ao STF é ilegal.
A possível reunião do Conselho da República que ele anunciou no palanque para amanhã, mas não convocou ninguém, poderá ser a crise final, caso os presidentes da Câmara e do Senado não aceitem, se for proposto, o estado de defesa. Nesse caso, ou Bolsonaro recua, ou dá o golpe. E se recuar, abre brecha para o impeachment
O presidente do PSDB, deputado Bruno Araújo, já pediu hoje uma reunião para começar a analisar um pedido de impeachment de Bolsonaro. E acredito que isso irá acontecer com vários partidos. Bolsonaro está criando um clima política favorável ao seu impeachment. Não é possível deixar na presidência da República uma pessoa que vai a uma manifestação que tem faixas – em várias línguas – que pedem o fechamento do STF, que faz o que fez hoje, ataca e exige do presidente do STF um enquadramento de ministros.
Ele mandou fazer faixas em inglês para o mundo entender o que está acontecendo no Brasil, como se a maioria do povo quisesse o fechamento do STF. Não é nem a maioria do país que o apoia, e nem a maioria dos que o apoiam quer o fechamento do Congresso. Tentou criar um fato consumado, mas pode sair pela culatra.
"Bolsonaro acabou". Personalidades destacam "FRACASSO_RETUMBANTE" de atos bolsonaristas
7 de setembro de 2021
247 - Diante do número menor que o esperado por governistas para os atos golpistas desta terça-feira, 7 de setembro, convocados por Jair Bolsonaro, personalidades classificaram as manifestações como um "fracasso" do governo federal.
Ex-deputado federal, Jean Wyllys, por exemplo, disse que os atos foram um "fracasso retumbante". O youtuber Felipe Neto afirmou que a presença dos bolsonaristas nas ruas mostra que "Bolsonaro acabou".
Membro do Conselho da República, Freixo avisa que não se dobrará à ameaça golpista de Bolsonaro (vídeo) - Joaquim de Carvalho
Por Joaquim de Carvalho
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O deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ), que é líder da minoria na Câmara dos Deputados, disse que não irá à reunião do Conselho da República, se convocado por Jair Bolsonaro.
"Ele não convocou, nem acredito que convocará. Fez a declaração no microfone. Se convocar, não vou. Não vou aceitar chantagem de presidente golpista", declarou ao 247.
Em discurso na Praça dos Três Poderes, na manhã deste 7 de setembro, Bolsonaro disse que iria a São Paulo logo depois e voltaria na quarta-feira, para se reunir com o Conselho da República.
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Este órgão exste desde 1992, quando foi criado por lei sancionada por Fernando Collor de Mello. O Conselho é previsto no artigo 89 da Constituição e sua função é decidir sobre "intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio; e as questões relevantes para a estabilidade das instituições democráticas."
Como líder da minoria, Freixo é integrante do Conselho, previsto na Constituição e regulamentado pela lei 8.490, de 1992, sancionada por Fernando Collor de Mello.
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Além do líder da minoria na Câmara, integram o Conselho, presidido hoje por Bolsonaro, o vice-presidente da República; o Presidente da Câmara dos Deputados; o presidente do Senado Federal; o líder da maioria na Câmara dos Deputados; os líderes da maioria e da minoria no Senado Federal; o ministro da Justiça; e seis cidadãos brasileiros natos, com mais de 35 anos de idade, sendo dois nomeados pelo presidente da República; dois eleitos pelo Senado Federal: e dois eleitos pela Câmara dos Deputados.
Bolsonaro pode estar apenas blefando, mas sua declaração atende, sem dúvida, a um projeto de convulsionar a sociedade brasileira.
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As instituições democráticas estão ameaçadas, é fato, mas pelo presidente da República. A decisão correta, nesse caso, seria aconselhar Bolsnaro a renunciar, para por fim à crise institucional gerada por ele.
O Conselho é "órgão superior de consulta do Presidente da República", como prevê a lei.
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Claro que Bolsonaro não quer ouvir esse aconselhamento. Portanto, o que ele faz é tensionar ainda mais o ambiente democrático, para avançar no seu projeto de autogolpe.
Se ele não renuncia, deve ser denunciado pelo procurador-geral da república, por crime comum, ou responder a processo de impeachment no Congresso Nacional.
Para isso, Arthur Lira, presidente da Câmara, tem que agir, e colocar em tramitação uma das muitas denúncias por crime de responsabilidade protocoladas na casa.
Por enquanto, diante da ameaça explícita contra a democracia, Lira silencia. Ele é cúmplice desse projeto autoritário.
Jornais estrangeiros destacam atos golpistas convocados por Bolsonaro: "prelúdio de golpe"
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247 - Diversos jornais estrangeiros estamparam nesta terça-feira, 7 de setembro, reportagens sobre os atos golpistas convocados por Jair Bolsonaro.
O New York Times, um dos principais jornais dos Estados Unidos, disse que as manifestações anunciam um possível golpe no país. “Protestos a favor de Bolsonaro podem ser um prelúdio a um golpe, dizem críticos”, diz o título da matéria. “Nos últimos dias, o presidente descreveu o momento como o ponto de ‘ou vai ou morre’ de seu movimento político, pedindo para que a considerável minoria de eleitores que o apoia vá às ruas”.
Na Argentina, o 'La Nación' e o 'Clarín' também deram destaque aos protestos: "minutos depois de participar de uma cerimônia com ministros e legisladores no Palácio da Alvorada em que a bandeira brasileira foi içada, o presidente Jair Bolsonaro deu uma forte declaração sobre o Supremo Tribunal Federal", publicou o La Nación.
O Clarín, por sua vez, lembrou: "nas últimas semanas, Bolsonaro intensificou as críticas contra os juízes Alexandre de Moraes e Roberto Barroso, ambos do Supremo Tribunal Federal, e repetiu a expressão de que não vai transgredir as 'quatro linhas' da Constituição".
Principal jornal da Inglaterra, o 'The Guardian' deu destaque aos conflitos entre bolsonaristas e a Polícia Militar do Distrito Federal e pontuou a preocupação com violência nos atos. “Muitos cidadãos temem que haja violência quando os apoiadores de Bolsonaro forem às ruas para exaltar o líder, cujas taxas de aprovação caíram como resultado de escândalos de corrupção que envolvem seus aliados e familiares e a forma como ele gerenciou a pandemia de Covid-19, que matou mais de 580 mil pessoas [no Brasil]”.
Em São Paulo, Bolsonaro ameaça novamente Moraes: “ou esse ministro se enquadra, ou ele pede pra sair”
247 - Jair Bolsonaro voltou a disparar vários ataques contra o ministro do STF Alexandre Moraes, que enquadra diversos bolsonaristas que defendem um golpe de estado no país e que também ameaçam a Suprema Corte. Ele discursou na Avenida Paulista, em manifestações golpistas que exigem o fim das instituições democráticas.
“Alexandre de Moares não vai mais açoitar nossa democracia. A paciência do nosso povo já esgotou”, disse Bolsonaro em um novo ataque ao ministro do STF.
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Ele também voltou a fazer a defesa do voto impresso, proposta que foi derrotada recentemente na Câmara.
“Não é o TSE que vai dizer que o sistema atual é seguro”, disse ele em mais um ataque contra o presidente da Corte, Luís Roberto Barroso.
Bolsonaro ainda declarou que, “aos canalhas, digo que nunca serei preso”.
Mourão diz desconhecer reunião do conselho da República convocada por Bolsonaro: “creio que se equivocou”
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247 - Vice-presidente e integrante do Conselho da República que supostamente será convocado por Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão tem agenda nesta quarta na Amazônia e é outra autoridade do governo a ser surpreendida pela fala do presidente. A informação é do portal Veja.
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Se Bolsonaro vai mesmo cumprir a promessa que fez a seus apoiadores em Brasília, esqueceu de combinar com as autoridades que integram o colegiado. Mourão é claro: “Julgo que o presidente se equivocou, pois ninguém sabe disso”.
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Assim como Mourão, o presidente do STF, Luiz Fux, e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, também não participarão da reunião.
Bolsonaro fala como criminoso, mas diz: "nunca serei preso"
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247 - Jair Bolsonaro promoveu diversos ataques às instituições democráticas durante seu discurso na Avenida Paulista, na tarde desta terça-feira (7), em ato que defende um golpe de estado no país Apesar do tom criminoso, ele disse ao final de sua fala que “nunca será preso”.
“Aos canalhas, digo que nunca serei preso”, disparou.
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Ele também voltou a fazer a defesa do voto impresso, proposta que foi derrotada recentemente na Câmara.“Não é o TSE que vai dizer que o sistema atual é seguro”, disse ele em mais um ataque contra o presidente da Corte, Luís Roberto Barroso.
Bolsonaro também usou seu discurso para promover ameaças contra o STF. “Alexandre de Moares não vai mais açoitar nossa democracia. A paciência do nosso povo já esgotou”.
Não faltam motivos para a preocupação com o dia de hoje.
Ele foi tão politizado que o “7 de Setembro” deixou de ser o festivo ato cívico de comemoração de um de nossos maiores feitos históricos para se transformar em apoio às belicosas (¿•?) intenções do presidente.
Enquanto instituições da República, líderes políticos, empresários e banqueiros se uniram em favor da pacificação do tenso ambiente político, Jair Bolsonaro atiça suas milícias em sentido contrário com provocações e ameaças, como classificar as manifestações de “ultimato” a dois membros do STF.
Em vez de revidar, a Corte está respondendo com uma atuação de bastidores, dialogando com emissários do Congresso para reduzir o clima de tensão instalado.
Há PMs apoiando e até pastor evangélico recorrendo ao Apocalipse, ao fim do mundo, para convocar os fiéis a comparecer aos atos bolsonaristas.
Autoridades mais precavidas se prepararam contra uma possibilidade de golpe, embora as agitações de agora não devam passar de um ensaio, não de uma tentativa, o que não impedirá o efeito demonstração, isto é, a baderna.
Dos governadores, só dois autorizaram a participação de PMs — os do
Distrito Federal [Ibaneis Rocha Barros Junior (MDB)]
Rio Grande do Sul . [Eduardo Leite (GAY PSDB)]
Pelo menos oito ameaçam punir.
Bolsonaro pretende “usar da palavra na Esplanada e, logo depois, ocupar um carro de som na Paulista, onde deve ter umas 2 milhões de pessoas”.
E completou: “Nunca uma oportunidade para o povo brasileiro será tão importante quanto o dia 7”, disse, sem esclarecer: “oportunidade” para quê?
A dúvida desaparece quando se recorda que há pouco, diante de uma cerimônia de entrega de medalhas a atletas olímpicos militares, ele voltou a defender que a população seja armada.
“Se você quer paz, se prepare para a guerra”, repetiu uma famosa recomendação da Roma Antiga que alguém traduziu para ele: si vis pacem, para bellum.
Ele acha que entende “o que o povo está querendo”, apesar da crescente queda nas pesquisas de opinião.
No Datafolha, Lula ampliou sua vantagem, com 58% contra 31%.
Num segundo turno, Bolsonaro perderia ainda para Ciro Gomes e João Doria.
O percentual dos que não votariam nele de “jeito nenhum” chega a 59%.
Se isso não bastasse para azedar o humor do presidente, há as novas revelações sobre o famoso escândalo das rachadinhas.
Um ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro admitiu, em entrevista ao site Metrópoles, que era obrigado a devolver mais de 80% da remuneração que recebia como funcionário do gabinete do ex-deputado estadual.
E que a maior parte dessa devolução era para a advogada Ana Cristina Valle, então mulher de Jair Bolsonaro.
Os filhos Carlos e Jair Renan também estão sendo investigados.
A campanha de mobilização pela internet, o financiamento de ônibus transportando apoiadores a Brasília, o empenho do governo, tudo isso deve levar muita gente às manifestações.
Tomara que isso funcione como calmante.
Isolado e acuado, Bolsonaro parte para os desvarios.
Ele deve usar as manifestações de hoje como cortina de fumaça para encobrir os problemas políticos e familiares que o atormentam.
“Há soldados armados/ amados ou não/ Quase todos perdidos/ de armas na mão”.
A rodinha do violão sabia o que estava cantando, pena que a gente não prestou atenção.
Crônica de um golpe anunciado
Hoje, décadas depois, tem gente nas ruas querendo engatar a ré até 1964. tão transtornados e confusos que pensam que a solução é o retorno da ditadura
Passeata dos Cem Mil, em 1968, uma manifestação popular contra a ditadura militar brasileira Foto: Agência O Globo
O que estará acontecendo, quando você, leitor, tiver esta coluna na tela ou na mão? Escrevi esta coluna ontem, então não sei se hoje está tudo normal, se há apenas uma manifestação pacífica dos que ainda apoiam este governo ou se a vaca já foi para o brejo — ou para o quartel — e tem um cabo e um soldado a caminho do STF.
Difícil escrever sobre o futuro.
Então vou falar de algo leve: de música, de memórias, da vida. Outro dia ouvia Roberto Carlos. Dei para gostar dele, veja você. Na verdade, já faz tempo, mas quando era adolescente, Robertão era coisa de gente velha, símbolo de caretice. Terno branco? Faça-me o favor... “Detalhes”, então, era o suprassumo do cafona: que dramalhão! Eu gostava era de rock, de som alto e agressivo.
Aí um dia eu levei um pé na bunda. O primeiro. De repente os detalhes que somem na longa estrada e o tempo que transforma todo o amor em quase nada fizeram todo sentido. Não adiantou nem tentar esquecer o Roberto: com seu terno branco e seu dramalhão ele sabia das coisas.
“Like a rolling stone” era apenas uma música quilométrica do Bob Dylan, aquele cara dos anos 1960 que os meus pais ouviam muito. Perfeita, mas não me dizia nada. Tem tanta música quilométrica por aí... Um dia saí da casa dos pais e comecei a vida por minha conta. Achei que ia ser um passeio por jardim florido num dia de sol. Liberdade pra fazer o que eu quisesse, do jeito que me desse na telha. A realidade veio logo me tocar a real. Foi quando percebi que ia ser difícil, que ia levar muita porrada, encarar muito beco sem saída. Foi quando a letra do Dylan — “You used to laugh about/ Everybody that was hanging out/ Now you don’t talk so loud/ Now you don’t seem so proud” — apareceu na memória e conversou comigo. Foi quando entendi porque os meus pais ouviam tanto a quilométrica música.
“Pais e filhos”, da Legião Urbana, começou a tocar no rádio no final dos anos 1980. Na época achei meio chata: essa conversa de gota d’água, de grão de areia, parecia muito abstrata para quem tinha vinte e poucos. Não me preocupava mais com o que ser quando crescer e o “posso dormir aqui com vocês” parecia algo de um futuro muito, muito distante. Vinte anos depois dei ao meu filho o nome mais bonito que havia e toda noite fico velando o sono dele, porque agora sei que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Na verdade não há.
No início dos anos 1980 tinha sempre uma rodinha de violão cantando “Pra não dizer que não falei das flores”. Eu, adolescente, achava essa conversa de “caminhando e cantando e seguindo a canção” coisa de uns caras meio sem noção, afinal estávamos deixando a ditadura e parecia óbvio que nunca voltaríamos a ela. Só um doido ia querer aquele desastre de volta. “Há soldados armados/ amados ou não/ Quase todos perdidos/ de armas na mão”, entoavam. Eu, adolescente, achava que o pesadelo tinha ficado pra trás de vez, a cantoria já não era mais necessária.
Hoje, Sete de Setembro, décadas depois, tem gente nas ruas querendo voltar no tempo, engatar a ré até 1964. Estão tão transtornados e confusos que pensam que a solução é o retorno da ditadura. A rodinha do violão sabia o que estava cantando, pena que a gente não prestou atenção.
SENADOR, Collor declara APOIO a BOLSONARO nas redes sociais e pede para a população ‘manter o otimismo’ | Sonar - A Escuta das Redes - O Globo
Senador Fernando Collor de Mello era o presidente do país | Jorge William / Agência O Globo
Pâmela Dias
O ex-presidente e atual senador Fernando Collor (Pros-AL) publicou um vídeo nas redes sociais, vestido com uma camiseta da seleção brasileira, se colocando ao lado do presidente Jair Bolsonaro durante a cerimônia do hasteamento da bandeira, em Brasília, nesta terça-feira, feriado da Independência do Brasil.
"Estou aqui para desejar a vocês um 7 de setembro cheio de alegrias, cheio de paz, com muita saúde e com muita liberdade. Nós todos estamos unidos para fazer deste Brasil um país cada vez mais forte. Vamos manter o nosso otimismo, nossas esperanças e nossa fé de que o Brasil será um país dos nossos sonhos", afirmou Collor.
Internautas rebateram com ironia a declaração de apoio do parlamentar, ao recordarem o pedido de Collor para que “todo o Brasil” fosse às ruas vestido de verde e amarelo durante o seu mandato, em 1992. O objetivo do ex-presidente era mostrar que os opositores de seu governo estavam em minoria. Contudo, em várias cidades do país as pessoas adotaram o preto, com roupas e bandeiras nas fachadas das casas e dos prédios em manifestações contra o ex-líder do executivo.
A reação popular impulsionou o movimento pelo impeachment de Collor, que foi afastado da Presidência da República em outubro. Em dezembro, antes de o Senado aprovar a perda de seu mandato, ele renunciou ao cargo para o qual havia sido eleito em 1989, em eleições acirradas contra o também ex-presidente Lula.
Fernando Collor foi o primeiro presidente eleito pelo voto popular após o fim do regime ditatorial brasileiro. Seu pedido de impeachment foi motivado após serem revelados escândalos de corrupção envolvendo seu tesoureiro de campanha e assistente pessoal, PC Farias. A insatisfação de civis também ocorreu depois da implementação do "Plano de Reconstrução Nacional", que confiscou as poupanças para tentar conter a inflação no país e fortalecer a nova moeda, que na época era o cruzeiro novo.
Em meio a atos de apoio a Bolsonaro, acampamento indígena amanhece sob clima de insegurança
Notícias falsas sobre invasão na madrugada e provocações de apoiadores do governo acenderam alerta
Indígenas em manifestação em frente ao Palácio do Planalto antes de julgamento no Supremo do marco temporal de demarcação de terras, em 27 de agosto Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
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BRASÍLIA — Desde agosto em Brasília, o acampamento dos povos indígenas amanheceu em clima de receio nesta terça-feira devido à manifestação de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios.
Informações falsas acerca de uma possível invasão movimentaram a madrugada do acampamento, localizado na Funarte, próximo a uma das vias que dá acesso à Esplanada que está sendo usada por apoiadores do presidente. A expectativa é que cerca de 4 mil indígenas de 150 povos passem nesta terça-feira pelo acampamento.
No início da manhã, um cordão de apenas cerca de 30 policiais protegia o acampamento externamente. Em meio ao congestionamento, manifestantes pró-governo fazem buzinaço, enquanto do lado de dentro do acampamento é possível ouvir gritos de "Fora, Bolsonaro".
O GLOBO perguntou à polícia qual o efetivo para proteção do acampamento, mas a corporação informou que "não informa o efetivo por questões de segurança".
— Vamos nos concentrar dentro do acampamento, e não do lado de fora, porque está dando problema para nós. Que toda delegação que tenha seus homens tenha tranquilidade para acalmá-los. Não está sendo fácil. Precisamos ter calma nesse momento para não aceitar essas provocações — pediu no microfone a responsável pela segurança do acampamento, Shirley Krenak.
Krenak pediu que os indígenas se concentrem dentro do acampamento e não fiquem no estacionamento próximo à via.
Desde o final de agosto indígenas montaram acampamento em Brasília para acompanhar o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a tese do Marco Temporal. A discussão é se para reconhecer uma área como propriedade de indígenas é necessário que haja comprovação de que esses povos ocupavam o território quando a Constituição de 1988 foi promulgada. As etnias protestam na Capital Federal contra esse entendimento. O presidente Jair Bolsonaro é contrário a novas demarcações indígenas.
Diante da tensão crescente, indígenas retiraram faixas de protesto da beirada da pista. Além do policiamento da PM, 25 seguranças particulares, os chamados "guerreiros", atuam na segurança do local. Portando lanças e outros artefatos indígenas, representantes das etnias ficam de prontidão para defender o grupo.
— Se (manifestantes bolsonaristas) vierem desacatar, alguém vai explicar que estamos fazendo nosso trabalho pacificamente. Somos indígenas e estamos correndo atrás dos nossos direitos. Se provocarem a violência ou quiserem desafiar, vamos ter que entrar no conflito — afirmou o líder Sérgio Muxi, da etnia Tembé, que também compõe a guarda.
Nesta terça, têm início as atividades da Segunda Marcha das Mulheres Indígenas, que acontecem até sábado no acampamento. Em um manifesto, as lideranças femininas indígenas reforçam a luta pela demarcação de terras e em defesa dos direitos dos povos originários.
— A gente está com muito cuidado. Estamos em estado de vigília permanente para monitorar as pautas que estão tramitando nos Três Poderes. E aqui também é vigília permanente, todos estamos alertas orientando a juventude para não responder a provocações — afirmou Sônia Guajajara, que é uma das coordenadoras da segunda marcha das mulheres Indígenas, narrando o episódio da madrugada: — Nessa madrugada, o que houve foi mais uma desinformação nas redes dizendo que eles estavam vindo em direção ao nosso acampamento. Nesse momento houve alvoroço geral, todo mundo se levantou. Colocamos as mulheres para ficarem todas juntas e os meninos ficaram acompanhando. Eles vieram na direção, mas aqui é livre, mas a polícia mesmo barrou. Aqui ninguém dorme, passamos a noite inteira cuidando da nossa segurança.
Segundo relatos de seguranças particulares que atuam na proteção do grupo, diante de movimentações ou barulhos suspeitos, os indígenas chegaram a se direcionar para os acessos ao acampamento com seus instrumentos de batalha.
"A força de um guerreiro não se encontra no ataque, mas, sim, na resistência", diz uma das faixas no acampamento.
De acordo com o texto, uma postagem só poderá ser moderada (ser apagada ou ter a distribuição limitada) quando se enquadrar em um dos casos listados. A maioria desses casos já faz parte das políticas de uso das plataformas, tais como nudez ou incitação a crimes. Uma série de outros ficaram de fora, e a aplicação das regras das plataformas nessas outras circunstâncias passa a ser proibida.
O Facebook, por exemplo, faz a verificação de notícias que são compartilhadas com agências de checagem e limita a distribuição de conteúdos que essas agências considerarem falsos. Com a MP, não será mais possível moderar fake news.
Ciência ignorada
As políticas de Covid-19 da maioria das plataformas que excluem postagens que promovem tratamentos sem respaldo científico também não poderão mais ser aplicadas. Postagens defendendo que a Covid pode ser prevenida com gargarejo de vinagre, por exemplo, passarão a ser livremente compartilhadas, chegando a milhões de pessoas.
Também não poderão mais ser aplicadas as políticas que moderam postagens que colocam em xeque a integridade das eleições, que vendem armas, que negam o holocausto ou que assediam pessoas.
Como se pode depreender dos exemplos acima, Bolsonaro está impedindo que as plataformas atuem para conter sua máquina de propaganda e violência. Bolsonaro, seus filhos e ministros já tiveram postagens moderadas e canais bolsonaristas já foram excluídos do YouTube. Com a nova norma, os bolsonaristas poderão compartilhar livremente conteúdo defendendo que não se use máscaras, promovendo teorias conspiratórias sobre vacinas, dizendo que as urnas eletrônicas foram fraudadas em 2018, assediando jornalistas ou promovendo o ódio.
Congresso pode agir
Como as políticas de uso das plataformas passam a ser limitadas ao que estabelece a MP, as redes sociais não poderão mais excluir contas que violem essas políticas, como fizeram com o ex-presidente Donald Trump após incentivar a invasão do Congresso americano.
O texto estabelece que as plataformas têm 30 dias para adequar suas políticas à nova norma. Até lá, a responsabilidade está com o Congresso, que pode corrigir ou rejeitar a MP. Com toda certeza, a medida será também contestada judicialmente pelas plataformas e por partidos da oposição.
A medida de Bolsonaro é publicada na véspera do 7 de Setembro e talvez seja a razão pela qual a propaganda bolsonarista tanto enfatizou que neste dia se faria a “defesa da liberdade”. Mas não se trata aqui do conceito de liberdade que todos defendemos, mas da liberdade de mentir, de atentar contra a saúde pública e de conspirar contra a democracia.
Manifestações são livres, mas não para atacar a democracia | Míriam Leitão - O Globo
Por Míriam Leitão
É preciso ficar claro que as manifestações são livres na democracia. Essa foi uma das conquistas com o fim da ditadura militar que vigorou no país de 1964 a 1985. Mas as de hoje foram convocada para uma pauta antidemocrática, para atacar um dos poderes, o Supremo Tribunal Federal, uma das bases da nossa democracia.
O Brasil, depois da ditadura militar, fez um pacto nacional: o de divergir dentro de parâmetros da democracia constitucional. Foi isso que os brasileiros concordaram em 1988. O que essa pauta reivindica, que é intervenção militar, é antidemocrático. E é bom lembrar que o presidente da República passou os últimos dias mobilizado para esse evento, utilizando todos os espaços, o período em que deveria estar trabalhando, no horário de expediente, para fomentar os atos de hoje. Ele não só vai ao evento, mas organiza o evento. Isso é o mais assustador.
São caravanas chegando de vários lugares do país e financiadas de forma obscura. Manifestações são livres, mas a democracia precisa se defender. Neste momento, ela está sendo atacada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.
Não por acaso também ontem o presidente editou uma Medida Provisória para alterar o marco civil da internet, que foi aprovado depois de sete anos de discussões no Congresso. Essa MP deixa em aberto a possibilidade de discursos de ódio, de ataques à democracia, de disseminação de mentiras. Nada disso está na lista de justas causas da MP, para retirada de conteúdo do ano. A MP é claramente ilegal, será derrubada, mas o que ele quer é que neste momento a internet vire um campo de mentiras às vésperas das manifestações.
O 7 de setembro é um dia de todos os brasileiros. Quando um presidente fala para um grupo apenas, não para o país, é um dia triste.
Ex-piloto de F1 e apoiador de Bolsonaro, Nelson Piquet dirige Rolls Royce do presidente | Sonar - A Escuta das Redes - O Globo
O ex-piloto de Fórmula 1 e bolsonarista Nelson Piquet foi o responsável por dirigir o Rolls Royce que conduziu o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a primeira-dama Michelle Bolsonaro à cerimônia de hasteamento da bandeira brasileira, neste feriado da Independência.
Nas redes sociais, internautas comentaram a atuação do ex-piloto, que tem se aproximado de Bolsonaro nos últimos tempos. Piquet foi chamado de 'mito' por bolsonaristas, mas entre os opositores foi visto como ‘hipócrita’.
A cerimônia ocorreu no Palácio da Alvorada e não contou com a presença de nenhum outro chefe de poder, como ocorre tradicionalmente. Centenas de apoiadores de Bolsonaro acompanharam o ato e seguirão em proposto por Brasília e outras capitais do Brasil.
Em Copacabana, bolsonaristas lotam orla com estrutura de oito carros de som, guindaste e telão
Enquanto eleitores do presidente fazem ato em Copacabana, manifestantes de esquerda protestam no Centro do Rio
Filipe Vidon, Diego Amorim e Marcello Neves
07/09/2021 - 10:43 / Atualizado em 07/09/2021 - 12:23
Apoiadores de Bolsonaram levaram um guindaste com a bandeira brasileira para Copacabana, Zona Sul do Rio Foto: Agência O Globo
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RIO — Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se reuniram, na manhã desta terça-feira, 7 de setembro, na Avenida Atlântica, em Copacabana, na Zona Sul, em manifestação contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional.
O ato, realizado também em outras cidades brasileiras, foi convocado pelo próprio presidente nas redes sociais e levantou preocupação pela possível participação de policiais militares. As manifestação ocorrem em meio a uma forte queda na popularidade do presidente, com alta da inflação, crise energética e com o país sob a pandemia da Covid-19 que já tirou a vida de 580 mil brasileiros.
Os manifestantes começaram a se concentrar no Rio de Janeiro volta das 10h, e, em sua grande maiori,a vestiam roupas nas cores verde e amarela. Muitos ignoravam a obrigatoriedade do uso de máscaras faciais de proteção contra a Covid-19.
No Rio, o protesto conta com pelo menos oitos carros de som entre os postos 4 e 5 de Copacabana. Faixas estendidas nos carros e carregadas pelos manifestantes pediam o fechamento do STF, a garantia “da liberdade do povo” e o voto impresso. Além disso, os participantes se posicionaram contra a CPI da Covid, que vem pressionando Bolsonaro com supostas denúncias de corrupção no Ministério da Saúde, e classificaram a comissão como uma “mentira” e “safadeza”. O apoio a uma intervenção militar é pauta de uma minoria no país. Pesquisas mostram que mais de 70% dos brasileiros defendem a democracia.
Nos carros de som, músicas como "Aquarela do Brasil", "Aquele abraço" e "Brasileirinho", adaptações de funks e também canções que exaltam Bolsonaro e criticam as últimas gestões do PT na presidência do país.
— A esperança de salvação desse país não pode acabar. Precisamos nos manter fortes para continuar defendendo o Brasil da força do mal que quer nos derrubar — disse, no alto do carro de som, um dos apoiadores do presidente — Hoje, vão ver a nossa força.
Também foi usado um guindaste para erguer uma grande bandeira do Brasil com a frase "Pátria Amada". Por volta das 11h20, centenas de motociclistas chegaram a Copacabana pelo Rua Nossa Senhora de Copacabana. Com um buzinaço, os apoiadores eram aplaudidos por outros manifestantes.
Além das camisas com frases que defendem o voto impresso e criticam a atuação do STF, bandeiras do Brasil e de Israel dão o tom na manifestação. Apoiadores do presidente carregavam cartazes com dizeres como “todo poder emana do povo” e “queremos uma nova Constituição”. Por volta das 9h50, fogos de artifício foram soltados por alguns participantes do protesto.
Em um dos carros, representantes do Clube Militar do Rio de Janeiro discursaram contra ministros da Suprema Corte. “Defendemos o fim da ditadura da toga alimentada pela corrupção. Também queremos das liberdades individuais”, dizia uma das faixas. Em outro carro, apoiadores do presidente criticaram o ministro Luis Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que saiu em defesa das urnas eletrônicas após movimentos políticos em defesa do voto impresso, e Alexandre de Moraes, relator no STF de inquéritos que investigam a participação de bolsonaristas em atos antidemocráticos e o financiamento de uma rede de propagação de fake news.
— Vamos nos livrar dessa ditadura da toga. Como podem prender pessoas apenas porque opinaram contra o Supremo. Devolvam a liberdade do povo.
Outras bases de apoio do chefe do Executivo também estavam presentes, como líderes evangélicos, fuzileiros navais da reserva, motociclistas e movimentos conservadores. Um telão móvel foi instalado no canteiro central da Avenida Atlântica, e também transmitia mensagens contra os magistrados do STF, a imprensa e o Congresso em inglês e português.
Um dos carros de som reproduziu um áudio do pastor Silas Malafaia, líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que está em São Paulo para as manifestações na Avenida Paulista. Aliado do presidente Jair Bolsonaro, Malafaia discursou contra o STF e as recentes decisões do ministro Alexandre de Moraes.
“Supremo é o povo brasileiro que está buscando o fim da ditadura da toga de Alexandre de Moraes. A liberdade é a coisa mais cara da cidadania, essa é a verdade minha gente. E eles ainda dizem que essa manifestação é antidemocrática”, disse o pastor. O público respondeu com gritos de “eu vim de graça”.
“Ministros do STF não permitiram a quebra de sigilo de Adélio, mas querem a do presidente. Os membros da Suprema Corte, responsáveis por guardar a Constituição, estão fazendo justamente ao contrário”, exibia o telão.
Prisão de homem com arma branca
Apesar da manifestação seguir de forma pacífica, policiais militares do programa Copacabana Presente prenderam em flagrante um homem que portava uma faca, um soco inglês e materiais utilizados para fabricar coquetel molotov na Rua Bolívar, em Copacabana, onde acontece o ato a favor do presidente.
Os agentes da operação suspeitaram do homem que estava com um grande volume na roupa e após a abordagem flagraram os objetos além de uma máscara de Salvador Dalí.
O homem foi preso e conduzido para a 13ª DP (Ipanema).
Homem foi preso com faca em manifestação Foto: Diego Amorim / Agência O Globo
Luiz Fux avisou Planalto de que pedirá GLO se manifestantes ameaçarem sede do Supremo | Malu Gaspar - O Globo
Por Malu Gaspar
A invasão da Esplanada dos Ministérios na noite de segunda-feira (6) fez com que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, solicitasse reforços na segurança à Polícia Militar do Distrito Federal e acionasse o comandante militar do Palácio do Planalto, general Rui Yutaka Matsuda, para avisar: se os manifestantes colocassem a sede do tribunal em risco, ele pediria a Jair Bolsonaro o envio do Exército e a instalação de uma operação de Garantia da Lei e da Ordem ou GLO. O presidente da República foi avisado.
Fux confirmou ter tomado a iniciativa na noite de segunda-feira, após os manifestantes que chegaram a Brasília romperem as barreiras de contenção colocadas pela PM na entrada da Esplanada dos Ministérios para proteger a Praça dos Três Poderes.
As cenas deixaram bem tensos vários líderes no Congresso e mais ainda o serviço de segurança do Supremo, já que o tribunal é o foco principal dos protestos. Depois da invasão, o Batalhão de Choque da PM de Brasília reforçou a reforçado a segurança na área.
As GLOs são operações especiais de segurança do Exército, permitidas pelo artigo 142 da Constituição, constantemente invocado pelos bolsonaristas para defender intervenção militar no Brasil. O texto do artigo não abre espaço para a intervenção e nem justifica o Exército agir de moto próprio como um moderador dos poderes, como os bolsonaristas defendem, mas estabelece que cabe ao Exército, "destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem".
A questão é que o poder de convocar uma GLO cabe exclusivamente ao presidente. Portanto, Fux teria que requisitá-la a Jair Bolsonaro, que foi justamente quem convocou a manifestação contra o Supremo para este 7 de setembro. O presidente do Supremo, porém, acredita que, se houver um tumulto ou ameaça às instalações do tribunal, Bolsonaro não terá como negar a GLO.
Será uma situação delicada. Muitos oposicionistas temem que, ao convocar os atos, Bolsonaro queria mesmo provocar uma situação que justifique chamar o Exército e criar uma GLO que depois redundasse exatamente numa intervenção militar .
Nesta manhã, alguns manifestantes em Brasília já forçaram barreiras físicas na Esplanada e registrou-se um princípio de confusão. A Polícia Militar do Distrito Federal disparou bombas de gás para dispersar um grupo que havia soltado fogos próximo ao Palácio do Itamaraty, que fica bem próximo da sede do Supremo Tribunal Federal. Não são permitidos fogos de artifício no local.
Investigado, Bolsonaro faz ameaça golpista contra o Supremo e pressiona Fux
Preisdente disse que não se pode mais aceitar o que chamou de 'prisões políticas'; aliados do Palácio do Planalto foram para a cadeia por determinação do STF
André de Souza, Bruno Góes e Jussara Soares
07/09/2021 - 11:00 / Atualizado em 07/09/2021 - 12:48
Multidão assista ao discurso do Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios Foto: Agência O Globo
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BRASÍLIA — Em meio à queda de popularidade, Jair Bolsonaro voltou a adotar tom de intimidação e mandar recados ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em discurso durante os atos de 7 de setembro na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, o presidente afirmou nesta terça-feirade manhã que “uma pessoa específica" da Praça dos Três Poderes, onde fica a sede da Corte, não pode continuar "barbarizando”. Bolsonaro não citou nomes, mas nos últimos dias vem direcionando ataques ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, relator de duas investigações envolvendo o presidente.
— Não mais aceitaremos qualquer medida, qualquer ação ou sentença que venha de fora das quatro linhas da Constituição. Também não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos três Poderes continue barbarizando a nossa população. Ou chefe desse poder enquadra o seu ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos — disse Bolsonaro, que tem criticado membros do Poder Judiciário, chefiado pelo ministro Luiz Fux, presidente do STF.
Enquanto o presidente discursava em cima de um caminhão, apoiadores aglomerados na Esplanada criticavam Alexandre de Moraes. O ministro do STF é relator de inquéritos em que Bolsonaro e seus aliados figuram como investigados. Um deles apura uma suposta interferência na Polícia Federal. O outro investiga a existência de uma milícia digital voltada a espalhar notícias falsas e atacar as instituições.
Por decisões de Moraes, aliados do presidente como o ex-deputado federal e presidente do PTB, Roberto Jefferson, foram presos após atacar ministros do STF. Em seu discurso nesta terça-feira, Bolsonaro foi crítico ao falar sobre detenções de aliados.
— Não podemos mais aceitar prisões políticas no nosso Brasil. Nós todos aqui na Praça (dos Três Poderes, onde também fica o Palácio do Planalto), juramos respeitar a nossa Constituição. Quem age fora dela ou se enquadra ou pede para sair.
Em seu perfil no Twitter, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, defendeu "absoluto respeito" à democracia. "Nesse Sete de Setembro, comemoramos nossa Independência, que garantiu nossa Liberdade e que somente se fortalece com absoluto respeito a Democracia", escreveu o magistrado.
Em outro momento, o presidente voltou a falar em "ultimato" para a Praça dos Três Poderes, onde estão localizados, além do Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o STF.
— É um ultimato para todos na Praça dos Três Poderes. Todos devemos nos curvar à nossa Constituição — disse o presidente.
— Nós todos aqui na Praça dos Três Poderes juramos respeitar a nossa Constituição. Quem age fora dela, se enquadra ou pede para sair — afirmou.
Os atos em apoio a Bolsonaro ocorrem em meio à queda na popularidade do presidente, com alta da inflação, crise energética e com o país sob a pandemia da Covid-19 que já tirou a vida de 580 mil brasileiros.
Sob pressão, Bolsonaro criticou governadores e prefeitos por discordar de medidas de distanciamento adotadas durante a pandemia da Covid-19 e recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
— Muitos de vocês sentiram o peso da ditadura. Alguns governadores e prefeitos simplesmente ignoraram preceitos constitucionais. Muitos foram obrigados a ficar em casa. Vocês perderam o direito de ir e vir, ao trabalho. Imagine um desses ocupando a minha cadeira o que imporia à população — disse Bolsonaro.
Uma pesquisa do Datafolha divulgada no mês passado revelou que o presidente bateu recorde de rejeição: 51% dos entrevistados disseram considerar o governo ruim ou péssimo. O apoio a uma intervenção militar é pauta de uma minoria no país. Mais de 70% dos brasileiros defendem a democracia.
Mais cedo, por volta das 8h, o presidente já havia falado no Palácio Alvorada. Durante outro discurso, ele se autointitulou porta-voz do povo brasileiro.
— Hoje é o dia do povo brasileiro que vai nos dar um norte. Vai nos dizer para onde o Brasil deve ir. Eu apenas hoje quero ser o porta-voz de vocês. E dizer que o que falarmos a partir de agora estou falando em nome de vocês povo brasileiro.
Bolsonaro foge para a sua bolha | Míriam Leitão - O Globo
O recado de Gilberto Kassab foi claro. Ele disse na entrevista que me concedeu ontem que o PSD pode apoiar o impeachment do presidente Bolsonaro, se ele continuar a atual escalada contra a democracia. O que leva o líder de um partido de centro a fazer tal ameaça a um presidente em momento em que ele enche as ruas de apoiadores? É que no evento que Bolsonaro convocou para hoje ele parecerá forte, porque a manifestação será grande, mas estará, na verdade, mais isolado. Bolsonaro fugiu para a sua bolha, porque a sua popularidade está em queda. “Ele não vencerá nas urnas porque está mal avaliado e está mal avaliado porque faz um mau governo”, resume Kassab.
— Não tenho o menor constrangimento de defender o impeachment, o presidente está chegando no limite com essas manifestações que atentam contra a democracia. Se ele subir mais alguns degraus, defenderei o impeachment e entendo que ele está subindo esses degraus —disse Kassab em entrevista no meu programa na Globonews.
Na semana passada, em longa conversa com um político do centro, ouvi o mesmo diagnóstico: Bolsonaro pode não chegar no segundo turno, pela má gestão da pandemia, pela crise econômica, pela queda da sua aprovação.
— Eu acho que ele não estará (no segundo turno). Comparando o resultado da eleição cidade por cidade, conversando com analistas, e eu mesmo analisando os dados, o que vejo é que ele cai a cada dia — afirmou Kassab.
Na opinião do presidente do PSD, o evento deste 7 de setembro, a maneira como foi organizado diretamente pelo presidente, decorre do seu declínio nas pesquisas. Bolsonaro radicaliza porque está acuado diante da possibilidade de perda nas urnas ou de enfrentar um processo de impeachment. O problema é que para se defender ele acabou ameaçando ainda mais a democracia. Hoje ele fará seu espetáculo, mas contraditoriamente vai se isolar um pouco mais. Até porque à mortandade na pandemia se soma agora a inflação e a crise hídrica. Ele tentará culpar governadores pelo preço da gasolina, culpará o STF pelo seu mau desempenho, procura culpado pela falta de chuvas, mas a inflação corrói renda, e o eleitor sempre conclui, com razão, que é culpa do governo. Já falei aqui do efeito bumerangue: sua histeria autoritária afeta a economia, o que agrava a crise, que tira popularidade do seu governo.
Bolsonaro ontem atacou diretamente o arcabouço legal do país ao baixar uma Medida Provisória que altera o Marco Civil da Internet, que levou sete anos sendo discutido. A MP limita o combate às fake news. O deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), que foi relator do marco civil, disse em entrevista a Alvaro Gribel, no meu blog, que os advogados do partido já estavam preparando uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) para entrar no STF. A MP é inconstitucional. Outro caminho pode ser a devolução da MP por não atender aos critérios de relevância e urgência. O doutor em Direito Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab, disse que “se as redes não puderem tirar do ar spam, discurso de ódio, assédio, bullying, desinformação, elas serão só ruído e não espaço de liberdade”. Para proteger seus seguidores, fortalecer sua máquina de mentiras e estimular atos contra a democracia, Bolsonaro fez uma MP inconstitucional e arbitrária. Fechou-se mais em sua bolha.
— É lamentável. O Brasil é o único país do mundo em que o governo não dá importância aos temas mais relevantes, a pandemia e a crise econômica. O presidente só se preocupa com motociatas. Gasta energia, a equipe de governo e o custo de transporte para isso. Nas últimas semanas, concentrou-se na organização e na mobilização para esse verdadeiro comício. A democracia pressupõe manifestação, mas não é isso que ele quer. O que está por trás é uma mobilização com outros interesses, ele está ameaçando as eleições. Nunca pensei que eu estaria em 2021 discutindo a sobrevivência da democracia, por conta de uma postura totalmente equivocada de um governo. Ele questiona esta eleição porque sabe que corre sério risco — disse Kassab.
Será um triste 7 de setembro. Em vez de data nacional a ser celebrada por todos, será o dia em que Bolsonaro tentará amedrontar o país convocando os seus radicais para as ruas e usando o aparato do Estado brasileiro, inclusive policiais militares. Isso para parecer forte, quando sabe que está cada vez mais fraco.
Não é normal ter data marcada para golpe de Estado. Situação-limite
Por Merval Pereira
Não é normal chegarmos ao ponto de ter data marcada com antecedência para um golpe de Estado. E, quando o dia chega, como hoje, não se sabe o que pode acontecer. É perigoso que se considere normal que um presidente da República faça ameaças aos componentes do Supremo Tribunal Federal, ao Congresso e que isso não seja motivo imediato para um processo de impeachment.
Ainda estamos na fase de ver no que vai dar o discurso antidemocrático de Bolsonaro, de achar que ele ainda não atravessou nosso Rubicão. Às vésperas dos 200 anos de Independência — hoje é o 199º aniversário —, já deveríamos ter superado essa instabilidade política.
Pela movimentação que vem sendo feita há tanto tempo e pelo engajamento do próprio presidente, os atos de hoje serão grandiosos, não no sentido de admiráveis, mas no de tamanho. Embora esteja caindo em popularidade, Bolsonaro mantém ainda um núcleo de apoiadores muito importante, cerca de 20%, 25%, e, se mantiver esse tamanho, tem lugar garantido no segundo turno da eleição presidencial do ano que vem.
Importante é saber se esses números se manterão. Durante a campanha, ele pode se desidratar mais, mas, no momento, tem muita gente ainda que segue seus pensamentos e acredita nele. Minha dúvida e meu temor são quanto à possibilidade de violência e arruaças, e esses sentimentos têm sobretudo uma responsável, a retórica agressiva do presidente Bolsonaro. Receio que, diante de uma multidão ensandecida, ele não se controle e incite o povo contra o Estado de Direito e as instituições democráticas, o que poderá ter consequências.
Bolsonaro avança contra marcos democráticos como liberdade de expressão e direitos humanos alegando estar defendendo essas mesmas liberdades, desconstruindo as palavras numa novilíngua que pretende transformar o indefensável em palatável, a anormalidade em novo normal.
O governo jogou tanta força da sua capacidade de mobilização nas manifestações que pode haver uma realidade contrária. Estão esperando muita gente — Bolsonaro chegou a falar em 2 milhões de pessoas nas ruas —, o que deve ser decepcionante para ele. Esse exagero numérico já o coloca como perdedor, pois, pelas modernas técnicas de medição do número de pessoas por metro quadrado, muitos eventos monumentais já foram desmoralizados.
Então a situação de Bolsonaro começará a ficar insustentável. Mas nada disso é admissível numa verdadeira democracia. Não é aceitável que se tenha de medir forças nas ruas para saber que rumo o país terá, fora do resultado de eleições diretas. O que Bolsonaro está fazendo é querer levar o resultado das urnas em 2022 para um plebiscito antecipado.
A intenção declarada é ter uma foto da multidão para mostrar ao mundo sua força popular, como se essa suposta força fosse suficiente para autorizá-lo a transgredir a lei. A minoria barulhenta e arruaceira que apoia Bolsonaro é o oposto da maioria nem tão silenciosa que se opõe a seu desgoverno. E também oposta à maioria que irá às ruas hoje, querendo participar de manifestação pacífica que pode se transformar em tragédia insuflada por radicais. Essa minoria quer impor sua vontade como se majoritária fosse, transformar a democracia representativa em letra morta.
Nem que fosse maioria, poderia impor sua vontade, pois a democracia tem mecanismos para proteger as minorias. Mas não as minorias que querem tomar o poder à força. Esse é o paradoxo que temos de enfrentar, uma minoria antidemocrática que não aceita os poderes que impõem a ela os limites democráticos.
O engano vem de longe, de quando Bolsonaro foi eleito com quase 58 milhões de votos e incorporou a seus apoiadores todos os que votaram nele, mesmo sem gostar. Ser antipetista não significa ser bolsonarista, e tanto um grupo quanto o outro têm de respeitar a regra democrática. Estamos numa situação-limite. Depois das manifestações, teremos uma visão clara do que pode acontecer no país.
"O 7 de setembro é um dia de compartilhar nossas conquistas: a melhoria da qualidade de vida e o crescimento que colocou o Brasil entre as seis maiores economias do mundo. Mesmo nos momentos difíceis era o dia de levar uma mensagem de fé e esperança na construção de um país soberano e mais justo, um Brasil verdadeiramente independente", diz Lula em vídeo (veja abaixo).
Ele segue afirmando que o papel de um Presidente da República é o de "manter acesa a confiança no presente e no futuro, mostrar que é possível superar os obstáculos". "Especialmente neste 7 de setembro de um ano tão difícil, era de se esperar um gesto assim de quem está governando o país", afirma Lula.
O petista também diz que era de se esperar que, no dia 7 de setembro, Bolsonaro confortasse as famílias vítimas da epidemia da Covid-19 e anunciasse um "plano para garantir vacina para todos, pondo fim a essa angústia que a população está vivendo".
"Mas ao invés de anunciar soluções para o país, o que ele faz nesse dia é chamar as pessoas para a confrontação, é convocar atos contra os poderes da República, contra a democracia que ele nunca respeitou. Ao invés de somar, estimula a divisão, o ódio e a violência. Definitivamente não é isso que o Brasil espera de um presidente", segue o ex-presidente.
"Basta sair na rua para ver que o brasileiro está sentindo na pele a destruição do país", continua Lula.
Ele diz ainda que a "fome, a pobreza, o desemprego e a desigualdade não são mandamentos divinos". "São resultados de erros que nós podemos e devemos corrigir para mudar essa situação. Mudar com coragem, com confiança na nossa gente e com democracia sempre. Eu sei que a vida nunca foi tão dura para a imensa maioria do nosso povo, mas eu aprendi a acreditar sempre na força dos brasileiros e das brasileiras", finaliza.
Leia a transcrição do pronunciamento do ex-presidente Lula:
"Meus amigos e minha amigas, tive a honra de presidir o Brasil durante oito anos. A cada 7 de setembro, eu procurava trazer uma mensagem de esperança para o povo brasileiro. Recordo que muitas vezes anunciei boas notícias nessa data, porque o Brasil naquele tempo era um país em que a vida das pessoas estava mudando para melhor.
A cada dia mais empregos eram criados, o salário cresciam, os jovens negros e filhos de trabalhadores chegavam à universidade. As oportunidades se abriam para quem precisava ter uma chance. Um passo de cada vez, mas sempre seguindo em frente. O 7 de setembro é um dia de compartilhar nossas conquistas: a melhoria da qualidade de vida e o crescimento que colocou o Brasil entre as seis maiores economias do mundo. Mesmo nos momentos difíceis, era o dia de levar uma mensagem de fé e esperança na construção de um país soberano e mais justo, um Brasil verdadeiramente independente.
Porque este é o papel de um Presidente da República: manter acesa a confiança no presente e no futuro, mostrar que é possível superar os obstáculos. Um presidente tem de saber somar forças e governar com esse sentimento permanente, porque é dele que vem o exemplo para o país.
Meus amigos e minhas amigas, especialmente neste 7 de setembro de um ano tão difícil, era de se esperar um gesto assim de quem está governando o país. Que ele desse uma palavra de solidariedade às famílias vítimas da pandemia e viesse anunciar um plano para garantir a vacina para todos, pondo fim a essa angústia que a população está vivendo. Era de ser esperar dele um plano para gerar empregos que desse um alento aos trabalhadores, que viesse dizer que a Petrobras vai voltar a vender gasolina pelo custo real e não mais pelo preço do dólar, porque foi essa política errada que fez disparar o preço dos combustíveis.
Que apresentasse medida para baixar o preço dos alimentos, para garantir um mínimo de dignidade a quem está na fila do osso. Mas ao invés de anunciar soluções para o país, o que ele faz nesse dia é chamar as pessoas para a confrontação, é convocar atos contra os poderes da República, contra a democracia que ele nunca respeitou.
Ao invés de somar, estimula a divisão, o ódio e a violência. Definitivamente não é isso que o Brasil espera de um presidente. Meus amigos e minhas amigas, eu não preciso dizer os números do custo de vida, do desemprego, da falta de investimento, da pandemia, da fome que voltou ao Brasil. Basta sair na rua para ver que o brasileiro está sentindo na pele a destruição do país.
Mas hoje eu estou aqui para dizer que apesar de tudo o Brasil tem jeito. Que é possível, sim, criar emprego novamente, que o salário deve crescer e ganhar a corrida contra a inflação, que é possível produzir comida saudável a preço justo para colocar na mesa das famílias outra vez. Porque o nosso povo tem toda a capacidade de recuperar esse país, de fazer o Brasil voltar a crescer e proporcionar vida com qualidade para todos.
Meus amigos e minhas amigas, o Brasil andou para trás porque o governo federal parou de investir no crescimento e nos programas que ajudam o povo. Cortaram as verbas das escolas, dos hospitais, da agricultura familiar, encolheram o Bolsa Família. E nenhum país do mundo, nenhum, vai para frente sem investimento público. Pararam as obras que geram emprego e fazem a economia crescer e, ao mesmo tempo, continuaram cobrando cada vez mais imposto do pobre do que dos ricos.
São essas injustiças que nós precisamos enfrentar novamente para colocar o Brasil de pé. Por isso, venho dizendo que a solução para o país é colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda.
Meus amigos e minhas amigas, a fome, a pobreza, o desemprego e a desigualdade não são mandamentos divinos. São resultados de erros que nós podemos e devemos corrigir para mudar essa situação. Mudar com coragem, com confiança na nossa gente e com democracia sempre. Eu sei que a vida nunca foi tão dura para a imensa maioria do nosso povo, mas eu aprendi a acreditar sempre na força dos brasileiros e das brasileiras.
E neste 7 de setembro, eu quero deixar registrado uma mensagem de esperança. É preciso continuar lutando para superar esse momento, como superamos tantas outras críticas no passado. Tenho fé que vamos reconstruir este país com justiça, soberania e oportunidades para nós, para nossos filhos e nossos netos. Acreditem: o Brasil tem jeito. Muito obrigado e viva o 7 de setembro!"
Semente da educação: André Baniwa, que lutou para estudar, lidera movimento que revolucionou a educação indígena
Camilla Freitas
De Ecoa, em São Paulo (SP)
Juliana Pesqueira/UOL
Eu nasci e cresci já tendo escola, mas meus pais não tiveram isso. Sou a terceira pessoa da família. Meus irmãos mais velhos estudaram e meu pai queria deixar os filhos estudarem para que a gente explicasse as coisas para ele. Nós somos um projeto dele. Tudo o que acontece através da gente, eu digo que é um projeto do meu pai.
Essa foi a minha motivação para estudar, procurar respostas que meu pai não tinha. Tudo o que eu aprendia na escola, mostrava para ele. E ele ia me dizendo se o que estava nos livros parecia ou não com as coisas da nossa cultura.
Se os livros e a escolaridade desvalorizavam nossos conhecimentos, penso que a gente pode usar esses mesmos instrumentos para fazer o oposto e valorizar a nossa cultura. Por isso a educação para mim é muito importante, não do jeito que ela é pensada e ofertada, mas da forma que podemos transformá-la em nosso benefício.
É como a tecnologia, podemos usá-la de uma forma que nos beneficie, que leve para outras pessoas nossos conhecimentos e nossa forma de viver.
(André Baniwa)
Arte Uol
Pai, eu quero estudar
André, que faz parte da curadoria de Ecoa sugerindo boas histórias para nosso site, divide a fala com um galo que canta ao fundo. Canta solto, aos oito cantos, enquanto ele conta sobre a infância. Na história, André é um menino bravo que desafia a professora. Ora, se fosse para escrever uma redação sobre a história indígena, ia escrever direito. Esculhambava — palavra que enfatiza — tudo o que diziam os livros. Mas ao invés de broncas, ganhava boas notas e convites para participar de eventos e falar sobre o que escrevia. "Tinha muitas coisas erradas nos livros sobre os indígenas", diz André Fernando Baniwa, que nasceu em 1971 na comunidade Tucumã Rupitáàs à beira do Rio Içana, na fronteira do Brasil com Colômbia e Venezuela.
Para estudar, André teve que sair de casa. Às margens do maior afluente do rio Amazonas, o rio Negro, ele foi alfabetizado por católicos e depois de terminar o terceiro ano, antiga segunda série, voltou com o pai à sua terra de origem.
Lá, continuou estudando. "Eu gostei de aprender, ler, escrever e cantar coisas da religião. Mas voltei a estudar com outros missionários, dessa vez evangélicos", lembra. Essa observação acerca de quais missionários o ensinaram, católicos ou evangélicos, faz toda a diferença quando pensamos nos baniwas.
Juliana Pesqueira/UOL
Os povos indígenas da região do Rio Negro conviveram com a presença de missionários católicos desde 1657. Entre as missões que se perpetuaram ao longo dos séculos está a Missão Salesiana. Para André, uma das partes negativas da presença dos salesianos é que eles proibiram a fala baniwa na região do rio Içana. Quando diz que foi alfabetizado na tenra infância por católicos, André quer dizer que ali aprendeu a ler e escrever em português.
Ao continuar os estudos já perto da família, André aprendeu com missionários evangélicos. "Eles nos ensinaram a ler e escrever na nossa língua. Traduziram a Bíblia e as músicas religiosas para a nossa língua também e isso foi uma coisa muito boa. A parte negativa fica a cargo do conhecimento da medicina, assim como os católicos, os missionários evangélicos diziam que nosso conhecimento era satânico, que nos levava para o inferno", explica.
Quanto aos estudos, não quis mais parar. Os irmãos mais velhos aprendiam em uma escola em Manaus e era para lá que André queria ir. Mas os pais o proibiram. Ver os irmãos longe da família não era só difícil para André, mas para seus pais também. Para eles, os filhos deveriam ficar na comunidade, perto da família. Dali por diante, nem ele e nem as irmãs iriam mais para a escola.
"Mas eu insisti, continuei estudando, e decidi estudar onde estavam meus irmãos", lembra. E lá foi ele. "Foi difícil. Eu falava muito mal o português naquela época. Meu pai não confiava muito em mim, dizia que eu ia desistir e voltar pra ele, mas eu consegui estudar. Levei um ano e meio para me acostumar com a escola. Mas passei quatro anos estudando", conta André.
Em 1991 o diploma veio. Agora, André estava formado na escola agrícola de Manaus. Formado no ensino fundamental profissionalizante com habilitação em agrozootecnia. Mais um ciclo se completava.
Juliana Pesqueira/UOL
O povo baniwa quer escola
André parou à porta. Não tinha como partir. Passara noites pensando na carta paterna. Agora, em São Gabriel da Cachoeira (AM), deveria ou não pegar o barco com os amigos rumo à escola em Manaus? Já passara seu período lecionando na cidade, conseguira um dinheiro. Mas o pai estava doente. Na carta, o patriarca dizia que se sentia fraco, que não sabia se ia aguentar. Mas e os estudos? E a possibilidade de se formar também no ensino médio? Ficou parado à porta da embarcação.
André não conseguiu partir, voltou para casa e cuidou do pai até que ele se recuperasse. Os estudos ficariam para depois.
"Naquele mesmo ano, meu povo criou uma organização indígena para lutar pelos seus direitos. Eu não entendia muito bem o que era isso, mas os caciques me pediram para ficar no grupo. Na assembleia do ano seguinte, ouvimos muito sobre a Constituição e os direitos dos povos indígenas e ajudamos a levantar propostas do que a comunidade baniwa queria enfrentar. Eu estava com 21 anos", conta.
Os baniwas queriam o mesmo que André: escola. Ele não ia negar isso a seu povo. Foi à prefeitura e até escreveu cartas ao Ministério da Educação. Mas ninguém o respondia. Decidiu-se, então, por outro caminho: com a ajuda de ONGs, conseguiu o que queria.
Liderou a reunificação de seu povo, de sua escrita e fala divididas por católicos e evangélicos. Ajudou a criar um curso de linguística. Uma gramática. Dicionários atualizados. Colocou para conversar os diferentes missionários. E teve mais.
Se antes não havia nenhum professor baniwa, com a criação do primeiro magistério indígena no Alto do Rio Negro, André conseguiu ajudar na formação de mais de 150 educadores de seu próprio povo. O próximo passo, então, seria a construção da escola.
Na escola dos missionários tinha que ter sapato azul, camisa branca, cabelo cortado. E eu dizia que para ser inteligente não precisa de tudo isso. A nossa escola é para a gente estudar e aprender. Nós podemos ser inteligentes mesmo não tendo essas roupas
André Baniwa, educador
A bicicleta de André deu carona para outros indígenas
"Um dia, um bispo da cidade nos disse que a gente não estava preparado ainda para a construção da escola, que isso era como aprender a andar de bicicleta. Você começa a andar, cai, levanta, cai mais uma vez, levanta. E ele disse que a gente precisava de alguém que nos ajudasse a não cair", André faz uma pausa e ri. "E eu respondi ?quanto tempo o senhor vai ficar ensinando a gente a andar na bicicleta? Isso já tem mais de 100 anos. Eu não quero essa bicicleta", e dá mais uma risada.
A Escola Baniwa e Coripaco Pamáali, na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), se tornou a nova bicicleta de André. Resultado de uma mobilização coletiva, ela começou a funcionar em 2000. Com professores formados pelo magistério indígena, agora a educação não seria mais guiada pelos missionários. Católicos ou evangélicos.
Juvencio da Silva Cardoso foi um dos primeiros alunos da escola e se destacou. Foi selecionado como monitor e fez coordenação da área de desenvolvimento das práticas de criação de peixe, abelhas e manejo florestal na instituição. Mais tarde, participou do magistério indígena e passou a ser contratado como professor. Hoje, mestre em ciências ambientais, é um dos acadêmicos e educadores da região.
"Estou feliz por ter participado desse processo de escolarização dentro do território baniwa e coripaco e é nessa perspectiva que minha formação vem sendo construída. Essa formação me despertou o interesse pela formação acadêmica", diz.
Acredito que a escola Pamaáli foi um ponto de partida para que a gente continuasse construindo os nossos sonhos de lutar pelo nosso direito à educação. Precisamos ter formação para poder lutar pelos nossos direitos e permanência em nosso território.
Orlando Andrade Fontes, estudante da Universidade Estadual de Campinas
Juliana Pesqueira/UOL
Assim como Juvêncio, a Escola Baniwa e Coripaco Pamáali também formou Orlando Andrade Fontes, que desde 2020 se tornou aluno da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A universidade inaugurou, em 2019, o vestibular indígena. "Colocar pretos, pardos e indígenas disputando as mesmas vagas não assegura a inclusão da população indígena que pode ter um tipo de escolarização diferente", explica José Alves de Freitas Neto, professor do departamento de história e coordenador executivo do vestibular da Unicamp (Convest).
Com a medida, a universidade saltou de sete indígenas para 72 aprovados no primeiro vestibular específico, conta o coordenador. Como o problema dos povos vulnerabilizados em universidades não é só o ingresso, mas também a permanência, a Unicamp dispõe de políticas para garantir que os estudantes indígenas possam continuar seus estudos.
Segundo o coordenador, a universidade possui programas de permanência estudantil que envolvem recursos financeiros, moradia e alimentação, além de aulas de reforço de português e ciências exatas. Enquanto esteve em Limeira, no interior de São Paulo, onde está cursando administração, Orlando pode desfrutar desses programas. No final de 2020, com a pandemia, ele retornou para casa e foi contemplado com auxílio dado pela universidade para o estudo remoto.
Assim como Orlando, cerca de 30% dos concorrentes no vestibular indígena de 2020 foram de São Gabriel da Cachoeira. A decisão pela cidade tem em vista ao fato do município ter o maior percentual de população indígena no Brasil. "Após a primeira edição, a Comvest confirmou que a decisão foi acertada já que a maior demanda de inscritos e aprovados foi exatamente de lá", em nota, explica a entidade.
A presença da escola indígena na região foi importante para esse resultado. A Pamaáli chegou a ser reconhecida como instituição de inovação e criatividade para a educação básica pelo Ministério da Educação. Hoje, contudo, enfrenta dificuldades.
"A escola sofreu com falta de recursos públicos e passa por um processo de reestruturação", conta Juvêncio. E essa reforma conta com a identidade de André. "Ele sempre foi nossa referência", completa o educador.
Reinaldo Azevedo - Verdades da antevéspera do dia seguinte. Ou: É grande o risco de violência
Colunista do UOL
06/09/2021 12h42
Pouco importa saber se serão 100 mil, 200 mil ou dois milhões. Já sabemos que a Bozolândia chamará a manifestação golpista de amanhã de "o maior evento político da Terra", visível até do espaço, o que, saibam, a Muralha da China nunca foi. Mas o que quer, afinal, Jair Bolsonaro? Trata-se de um esforço para transformar a opinião extremista de uma bolha — grande e fanática, reconheça-se — num falso consenso nacional. A demonstração de força tem o objetivo de contaminar a opinião pública, de modo a devolver o presidente ao jogo eleitoral. Hoje, como resta evidente, ele é apenas candidato a eleger Luiz Inácio Lula da Silva presidente da República. Em algumas simulações, isso poderia acontecer até no primeiro turno.
Uma nota rápida antes que retorne ao leito. As eleições ainda estão distantes, e muita coisa pode, com efeito, acontecer. Ocorre que os eventos vindouros, muito especialmente os da economia, são adversos para Jair Bolsonaro. A inflação está corroendo o ganho dos trabalhadores nas mais diversas modalidades de contratação e regime de trabalho. Ação do Banco Central na gestão das expectativas dos tais "agentes do mercado" só enxerga um remédio: elevar a taxa de juros. A elevação, como resta evidente, não devolve os preços que interessam ao seu leito e compromete o crescimento do ano que vem. Se, até havia dois meses, o presidente ainda contava com a retomada da economia como trunfo para uma eventual reeleição, bem, não conta mais. Isso ele não terá. E há o ônus adicional do que estava por aí fazia tempo, mas sem ainda se mostrar: a crise energética. Se o país fosse crescer ao ritmo prometido por Paulo Guedes, o apagão seria certo. Com o crescimento de 2022 deprimido, é apenas uma forte possibilidade. De resto, à sua maneira, já existe um apagão: aquele determinado pelo tarifaço, que não irá embora tão cedo. Voltemos ao leito.
Bolsonaro faz da viola um fuzil e do Brasil um cemitério também da decência
DE VOLTA AO LEITO Então é preciso mesmo fazer alguma coisa. Que Bolsonaro nunca teve apreço pela democracia e alimentava uma perspectiva golpista de exercício do poder, convenham, não é uma novidade. Setores expressivos da população, especialmente das "elites de renda", o escolheram como primeira alternativa ainda assim. Emprego a expressão entre aspas porque ela não circula por aí como um conceito econômico. E cumpre fazer uma pequena consideração a respeito.
Chamo "elites de renda" parcela expressiva dos endinheirados brasileiros que, no entanto, não circulavam — em certa medida, não circulam ainda — nas altas rodas. Podem até ser formadores de opinião, mas essa opinião não consegue se expressar na imprensa ou mesmo em fóruns de representação classista. Tomo como exemplo os ultrarreacionários estratos da produção rural brasileira. Não chegam a imprimir a seus sindicatos e órgãos de representação o que realmente querem: golpe de estado, o poder centralizado na mão de ferro de um presidente e a repressão a demandas dos que estão à margem do processo produtivo. A rigor, a única entidade de representação que expressou, com sem-vergonhice escancarada, a sua adesão ao golpe foi mesmo a Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais). Imediatamente após, um grupo de empresários, incluindo o bolsonarista Salim Mattar, fez um manifesto em que prega apreço à democracia.
Assim, o autoritarismo de Bolsonaro e sua aspiração autocrática nunca constituíram segredo. A primeira manifestação de rua, incitada por ele, contra o Congresso e o Supremo, data de 26 de maio de 2019. Lembro que um dos alvos principais daquele ato era Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, que foi figura central na aprovação da reforma da Previdência, sem a qual o mercado teria feito picadinho do governo logo no primeiro ano. As negociações estavam em curso. O texto só seria promulgado pelo Congresso no dia 12 de novembro. Mesmo assim, o presidente da República instigava a cachorrada contra as instituições. O paroxismo do proselitismo golpista, naquela primeira jornada, se deu no dia 19 de abril de 2020, com um discurso do presidente num ato em favor da intervenção militar em frente do QG do Exército, em Brasília. O ânimo golpista do fanfarão só foi refreado pela prisão de Fabrício Queiroz, no dia 18 de junho daquele ano.
A SEGUNDA JORNADA Com os livramentos parciais e temporários com que a Justiça beneficiou tanto Fabrício como Flávio Bolsonaro, o presidente retomou a sua escalada. Ainda que ele tenha uma atuação destrambelhada e, muitas vezes, sem nenhum método, foi esperto o suficiente para perceber que só o Supremo poderia representar um freio a suas aspirações. O correto, legal e falsamente polêmico Inquérito 4.781, o das fake news, se transformou no seu tormento. Diante de uma PGR inerme e contando com a ajuda involuntária de alguns liberaloides do miolo mole -- que confundem crime com liberdade de expressão --, Bolsonaro percebeu que só há uma barreira de contenção às suas aspirações golpistas: o tribunal.
Notem: quando escrevo "só há uma barreira", observo que excluo de forma deliberada o povo que vai às urnas votar. Esse não aparece na conta de Bolsonaro porque o objetivo do golpe é justamente excluir a vontade popular da história. O ataque às urnas eletrônicas — na verdade, ao sistema eleitoral, mimetizando o que fez Donald Trump nos EUA; e lá sem voto digital — sempre foi o que essencialmente é: a criação de um fantasma que permita judicializar o resultado, impedindo que outro qualquer chegue à Presidência que não ele próprio.
GOLPISTA NÃO DEPENDE DE RESULTADO, MAS... Um golpista é um golpista, na saúde e na doença, na alegria ou na tristeza. Ainda que as perspectivas fossem as melhores possíveis -- como aos tontos pareciam em 2019, por exemplo --, não seria outro o intuito do ogro. Reitere-se: antes de completar seis meses de governo, suas tropas estavam nas ruas a defender golpe de Estado. E os tais "agentes econômicos" -- leiam-se: setores expressivos do capital produtivo e financeiro -- viam um futuro sorridente para o Brasil. Nem mesmo havia demandas explícitas a opor o Executivo ao Legislativo ou ao Judiciário.
Evidencio, assim, que o golpismo de Bolsonaro não decorre do insucesso de seu governo. Essa é sua natureza política, e existe uma parcela expressiva da população que aderiu a essa pauta. Ocorre que a gestão desastrada — e a pandemia extremou e escancarou a falta de rumo — tornou urgente o assalto às instituições. Com números virtuosos na economia, talvez o fanfarrão pudesse esperar um segundo mandato. Mas há o risco razoável — hoje, é o mais provável — de que ele não tenha uma segunda chance. Então é preciso fazer já.
FRUSTRAÇÃO Autoritários e tiranos mais poderosos e intelectualmente mais preparados do que Bolsonaro fizeram coisas estúpidas antes dele.
Uma pergunta: as caravanas de golpistas que se deslocam para São Paulo e, muito especialmente, para Brasília estão preparadas para voltar para casa no dia 8, começando a arrumar as malas ainda no dia 7, sem que o seu Napoleão de hospício tenha sido entronizado? O líder preparou seus sectários para a frustração? Tenho a impressão de que não. Há, na mentalidade estreita dos golpistas, a expectativa da apoteose. E não consta que ela virá. É grande — e não deixa de ser o único e possível desdobramento virtuoso de toda essa patuscada — a chance de que parte considerável dos fanáticos passe a ver o seu homem inoxidável com um tigre de papel.
Bolsonaro está, em suma, numa cartada para voltar a ser eleitoralmente competitivo, mas os sentimentos e a massa que mobiliza querem um desfecho rápido e violento, característica imanente a esses movimentos de inspiração fascistoide, que desprezam por princípio a política. A sua mentalidade, insisto na palavra, é do assalto ao poder. Especialmente porque — e esta e outra característica desse tipo de mobilização —, estarão nas ruas os que se sentem insultados e injuriados por Poderes que consideram ilegítimos. Bolsonaro os convenceu de que estão, na verdade, organizando um contragolpe. Os espertalhões sabem muito bem o que fazem. Mas a massa de fanáticos está convencida de que se entrega a uma luta por Justiça.
CONCLUO Mesmo com tudo o que há de estúpido, violento e insano no discurso de Bolsonaro, ele está numa jornada que ainda prevê uma gradação. O intuito é assustar os adversários e os Poderes com o seu exército -- na esperança de seduzir o outro, o com "E" maiúsculo -- para intimidá-los, arrancando concessões. Mas mobilizou uma horda de fanáticos impacientes, que buscam a vitória já.
Todo cuidado é pouco. É grande, sim, a chance de que essa gente tente tomar na unha o que lhe parece correto e justo, estimulada por seu guia. Que Supremo e Congresso tenham de estar, como estarão, protegidos por forças de segurança — vamos ver se suficientes — para que não sejam invadidos pelos partidários do presidente já indica, por si, o estado miserável a que Bolsonaro conduziu a democracia brasileira.
Nem precisamos ir muito longe. Independentemente do juízo que se faça do impeachment de Dilma, o fato é que as imediações do Congresso foram divididas em duas metades, cada lado ocupou o espaço que lhe foi reservado, e, em nenhum momento, se temeu pela integridade do prédio — simbolizando, nesse caso, o Poder Legislativo. No dia da votação na Câmara, o resultado era mais do que previsto. Já era dado como certo. Vitoriosos e derrotados jogaram dentro das regras, ainda que correntes de esquerda insistam na tese do golpe. Não debato isso agora porque não cabe. O fato: a guerra não aconteceu. Fez-se depois a luta política. E eis um Lula, de novo, favorito.
É que política é o avesso do golpe e da disrupção. E isso, fiquem certos, parcelas consideráveis do bolsonarismo jamais entenderão. Nunca quiseram vencer a divergência. O seu intuito, sob inspiração do líder, é eliminá-la. É grande, pois, o risco de que sua postulação degenere em violência contra as instituições e contra os adversários.
Polícia leva publicitário para delegacia por insultos e ameaças a Moraes
Pepita Ortega e Fausto Macedo
05/09/2021 19h07
Ameaças e insultos ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, por pessoas supostamente embriagadas que estavam no Clube Pinheiros levaram um segurança do magistrado a registrar um boletim de ocorrência por injúria na madrugada da sexta-feira, 3.
De acordo com o documento obtido pelo Estadão, um integrante da escolta pessoal do ministro disse ter presenciado um homem chamar Alexandre de "careca ladrão", "advogado do PCC", 'vamos fechar o STF" e "careca filha da puta".
Grupo evangélico tenta incentivar não adesão de fiéis a atos no feriado
O ministro havia chegado de Brasília e estava em seu apartamento, de onde ouviu impropérios dirigidos a ele.
O B.O. foi lavrado contra o agente publicitário Alexandre da Nova Forjas, que foi conduzido por policiais militares para a 14º Delegacia de Pinheiros. No local, ele alegou que estava assistindo um jogo de futebol no Clube Pinheiros, afirmando que havia várias mesas insultando o ministro do STF. Forjas disse que não conhecia tais pessoas e, questionado sobre os insultos e ameaças, negou.
O segurança de Alexandre de Moraes relatou à polícia que foi acionado por "vigilantes particulares" que lhe informaram sobre as ameaças e injúrias que teriam sido feitas ao ministro do STF no Clube Pinheiros. Ele se dirigiu até o local, disse que "constatou da calçada e por meio da grade do clube quatro indivíduos em uma mesa falando alto e ingerindo bebidas alcoólicas" e pediu para um funcionário do clube que orientasse o grupo que insultava Alexandre para que parasse com as ofensas.
O integrante da escolta pessoal do magistrado disse ainda que permaneceu no local até cerca de uma hora da manhã, quando os "ânimos se acalmaram", e em seguida deixou o Clube. No entanto, antes de chegar na sua base operacional, o segurança foi avisado novamente pelos funcionários que os indivíduos novamente passaram a ameaçar e ofender Alexandre.
O segurança afirma que, quando chegou na portaria do Clube Pinheiros, presenciou Forjas xingar o ministro de "careca ladrão", "advogado do PCC", "vamos fechar o STF" e "careca filha da puta". Ainda de acordo com o B.O., uma outra testemunha também presenciou os fatos.
Opinião: Entendendo Bolsonaro - Covardia democrata permitirá 7 de Setembro golpista
25 ago. 2021 - Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia pelo Dia do Soldado, em Brasília Imagem: Mateus Bonomi/Agif - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo
* Vinícius Rodrigues Vieira
Quaisquer que sejam as consequências das manifestações de ultradireita deste 7 de Setembro, elas devem entrar para a história como a expressão máxima do reacionarismo de massas no Brasil. Quem acompanha o bolsonarismo de perto dificilmente não chega à conclusão de que a principal bandeira da "setembrada" -- como alguns ingênuos céticos têm se referido aos atos desta terça -- é a defesa de um país ancorado no fundamentalismo religioso e na aplicação da força aos opositores/inimigos do regime.
Nesse sentido, a "setembrada", se bem-sucedida, entrará para a narrativa da nação evangélico-miliciana que se avizinha como o novo dia da independência. O sucesso, neste caso, significará de imediato o enquadramento do Supremo Tribunal Federal (STF) nas quatro linhas da Constituição -- o que, na linguagem bolsonarista, significa satisfazer a vontade da parcela do povo que ainda apoia o atual desgoverno e liberar o discurso de ódio nas redes, visando a tornar Lula inelegível, tal e qual ocorreu em 2018, sob a tutela do então comandante do Exército, general Villas Bôas, com o respaldo do Alto Comando do Exército.
Por falar em 2018, foi ali que o golpe começou. Considerar o impeachment de Dilma Rousseff -- legítimo, embora controverso, -- como marco da ruína institucional que nos sufoca serve apenas como narrativa para o PT voltar triunfante ao poder. Se o partido vier a ser bem-sucedido em tal tarefa, pouco importa neste estágio. Tarefa mais urgente é derrubar Bolsonaro. Ainda assim, o bolsonarismo como movimento político sobreviverá como um fantasma a assombrar nossa democracia caso ela venha a ser reconstruída antes de uma provável ruptura.
Tudo indica que, na terça (7), o presidente terá a tão sonhada foto com a qual imagina: multidões em Brasília e na Avenida Paulista bradando que "Supremo é Povo". De qual povo estamos falando, porém? Trata-se da base social do bolsonarismo: seu corpo são membros das forças de segurança, inclusive milicianos, e indivíduos da base do agro (fazendeiros e caminhoneiros), além de alguns pequenos comerciantes dos grandes centros que, cansados da bandidagem, não se importam de serem achacados por PMs em troca de, por exemplo, lanches gratuitos. Seu espírito é o segmento evangélico (aliado com alguns católicos conservadores) que se considera imbuído da missão de salvar o país de tudo aquilo que não é visto como cristão.
Um corpo podre em espírito de porco: eis o resumo do bolsonarismo e quiçá do Brasil atual. Caro morador da Zona Sul carioca e da Zona Oeste paulista: faça um exame de consciência (mas sem a ajuda de seu psicanalista cuja consulta não sai por menos de R$ 500) e pense nas inúmeras vezes em que você se sentiu superior a sua empregada doméstica evangélica, zoou quem liga para o Fala que Eu te Escuto (programa de proselitismo religioso da Record TV), e achou que todo PM é canalha.
Chegou a hora da vingança: a empregada e o PM podem estar prestes a passar fome (se é que já não estão com o estômago vazio), mas terão seu espírito alimentado pelo bolsonarismo que conquistou a batalha de corações e mentes -- não da maioria, mas de um número suficiente de brasileiros para levar adiante uma ruptura institucional. Podemos morrer de fome, mas todos estaremos livres do "comunismo" do STF e da oposição graças à figura do capitão ungido pelo Deus dos medíocres que até hoje ironizamos.
Não as empregadas, mas seus pastores; não os soldados, mas seus coronéis e generais chegaram ao poder e, neste 7 de Setembro, pretendem consolidá-lo. Senão neste Dia da Pátria, têm todas as condições de fazê-lo num golpe de fato, apoiado por praças da PM e alguns oficiais que já deixaram claro que, entre os governadores e o presidente, ficarão de lado do Chefe Supremo das Forças Armadas.
O erro das elites mais esclarecidas (não obstante todo seu racismo e mediocridade intelectual, elas existem) foi achar que Bolsonaro se curvaria a seus controles e que, caso não se submetessem aos Donos do Poder, o presidente acabaria como Jânio Quadros e Fernando Collor. O primeiro, em 1961, esperava que o povo lhe apoiaria num autogolpe. O segundo, em 1992, convocou a população às ruas para apenas descobrir que o Brasil tinha o abandonado para iniciar seu processo de impeachment semanas depois.
O que Bolsonaro confirmará neste 7 de Setembro? Muito provavelmente que não conta com a maioria, mas, sim, com uma base aguerrida e armada o suficiente para colocar o Brasil aos seus pés ou, numa hipótese ainda mais macabra, no rumo de sua primeira guerra civil em escala nacional. Não bastaram as quase 600 mil vidas ceifadas pela covid. Bolsonaro quer mais sangue, os tais 30 mil mortos citados na entrevista de 1999.
O que se segue não é uma opinião, mas uma análise -- ou seja, não é o que eu defendo, mas a mais fria constatação dos fatos à luz da história. Talvez tenhamos passado do ponto em que não seja mais possível nos livrarmos de Bolsonaro e neutralizarmos o bolsonarismo dentro das quatro linhas da Constituição. Procurem na internet a expressão "General Lott", acompanhada por "Retorno aos Quadros Constitucionais Vigentes" e vocês entenderão o que estou falando.
Diante da covardia de Rodrigo Maia entre 2019 e 2021 e, depois, de Arthur Lira, seu sucessor como presidente da Câmara dos Deputados, entra para o cenário um impeachment aprovado a toque de caixa e costurado com o apoio de comandantes militares. Tal como o impedimento dos presidentes Café Filho e Carlos Luz em 1955, talvez essa seja a solução a ser pactuada pelas elites para nos livrar de um mal maior.
Como bem relata a Agência Senado, "a diferença entre os casos de Luz e Café e os de Collor e Dilma é que nos episódios de 1955 não se seguiu a Lei do Impeachment (Lei 1.079/1950). Os deputados e os senadores entenderam que a situação era extremamente grave, com risco de guerra civil, e finalizaram os julgamentos em poucas horas, sem dar aos presidentes o direito de se defenderem na Câmara e no Senado".
Café Filho (presidente da República) e Carlos Luz (presidente da Câmara, que substituiu Café Filho por motivo de saúde) se articulavam para impedir a posse de Juscelino Kubitscheck, então presidente eleito. Hoje, Bolsonaro ameaça ministros do STF e diz que não reconhecerá a muito provável derrota em 2022. Há mais de seis décadas, o golpe foi adiado em oito anos.
O atual presidente pode deixar o poder por uma via ou outra, mas as forças antidemocráticas que o sustentam continuarão a nos assombrar pelo menos até o fim desta década. O golpe está em marcha. Seu sucesso ou não, seja neste 7 de Setembro ou daqui a alguns anos, dependerá menos da coragem bolsonarista que da covardia dos democratas.
* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e leciona na FAAP e em cursos MBA da FGV.
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Narloch, você é muito fraco, seus comentários são sempre superficiais e levam a um certo maniqueísmo que apenas desinforma. Não forma. Uma falsa dicotomia disfarçada de lucidez. Aprofunde-se mais, explore melhor as contradições. Nesse mergulho, talvez você conclua que críticas ao STF não ensejam ruptura institucional. E que, no fundo, o problema é de espelho, empatia com o líder que você parece ter simpatia, o resto é cortina de fumaça e alienação. Na qual você faz tempo colabora...