_________________________* o CAOS ECONÔMICO começou. O FINAL deste PROCESSO pode ser algo SIMILAR ao que aconteceu com a ARGENTINA de Mauricio MACRI ou até PIOR", afirmou. _________________________* Estudo aponta QUEDA na DESIGUALDADE entre 2003 e 2015, mas Folha de São Paulo NÃO cita LULA, DILMA e PT _________________________*

_________________________________________________Eduardo Moreira: o CAOS ECONÔMICO começou. O FINAL deste PROCESSO pode ser algo SIMILAR ao que aconteceu com a ARGENTINA de Mauricio MACRI ou até PIOR", afirmou. _________________________________________________'Pedalada SEM CRIME de responsabilidade foi MAIS FORTE para IMPEACHMENT do que TODOS os CRIMES de Bolsonaro' _________________________________________________Quem MANDOU MATAR Leuvis Manuel Olivero?_________________________________________________Estudo aponta QUEDA na DESIGUALDADE entre 2003 e 2015, mas Folha NÃO cita LULA, DILMA e PT _________________________________________________Cuidado, Renan: fracasso em Haia pode sugerir absolvição de Bolsonaro  _________________________________________________

REFORMA TRABALHISTA: tiro no coração do trabalhador e na cabeça dos empresários _________________________________________________Festejada pela mídia liberal, a REFORMA TRABALHISTA quatro anos depois: “um verdadeiro DESASTRE” _________________________________________________Rousseau: da teoria à prática - Marilena Chauí _________________________________________________Favelas são fragmentos do PÓS-ESCRAVIDÃO: NÃO podemos NATURALIZAR a POBREZA _________________________________________________Pesquisadores criam loção, gel e creme que INIBEM INFLAMAÇÃO da PSORÍASE _________________________________________________Testes mostram MECANISMOS BIOLÓGICOS PROTETORES envolvidos na PSORÍASE _________________________________________________Super-homem bissexual divide o vôlei brasileiro e gera troca de 'indiretas' lideradas por Douglas e Maurício _________________________________________________Desigualdade de renda no Brasil caiu de 2002 a 2015, aponta estudo inédito

_________________________________________________O INSUPERÁVEL se SUPERA - Eric Nepomuceno

_________________________________________________Porta-voz da Globo, MERVAL PEREIRA pede o IMPEACHMENT de BOLSONARO 

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_________________________________________________O insuperável se supera - Eric Nepomuceno

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Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

A esta altura ninguém deveria sentir-se no direito de se surpreender com a incrível capacidade de Jair Messias expelir estupidezes cada vez que abre a boca. E no entanto ele continua exibindo dotes olímpicos para se superar de maneira formidável.

A mais recente das estupidezes expelida pela boca presidencial conquistou de saída o posto de insuperável em relação a todas as anteriores. Vamos ver até quando vai permanecer no pódio nada glorioso mas tão almejado pelo genocida psicopata.  

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Na noite da quinta-feira passada, na sempre patética transmissão que ele faz ao vivo nas redes sociais – a tal chamada live – Jair Messias mudou suas críticas enfermiças e enfermas à vacina contra Covid-19.

Agora, quem se vacina já não corre apenas o risco de virar jacaré, ou de mulher acordar com barba no rosto e homem passar a ter a voz fininha. Não, não: agora quem completa as doses de vacina pode rapidamente ter AIDS.

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Mais que mentira se trata de uma boçalidade sem limites. Segundo Jair Messias, estudos levados a cabo pelo governo britânico chegaram a essa tremenda conclusão.  

Foi de imediato desmentido pelo governo britânico, por médicos e cientistas de tudo que é lado, pela Organização Mundial da Saúde.  

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Dias depois, tanto o Facebook como o Instagram tiraram o vídeo de circulação. E agora deputados entram no Supremo Tribunal Federal com uma queixa-crime sobre o demencial mandatário.

E sobre sua mais que desequilibrada cabeça despencou uma avalanche de duríssimas críticas de médicos, pesquisadores e cientistas.

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Separei duas, que resumem o grau de indignação diante da atitude de Jair Messias.

Carlos Lula (nenhum parentesco, vale advertir, com o ex-presidente...), presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, que reúne representantes de todos os estados, fuzilou a afirmação de Jair Messias, classificando sua fala como “absurda, trágica, falsa, mentirosa e grotesca”.

Já o doutor Jamal Suleiman, infectologista mais que respeitado, enfatizou o absurdo da declaração presidencial, recordando uma obviedade estrondosa: a AIDS se transmite em relações sexuais ou no uso compartilhado de seringas, enquanto a Covid-19 se transmite pelo ar.

E tocou num ponto que certamente vai mexer com Jair Messias, que se apresenta insistentemente como macho-muy-macho: disse o doutor Suleiman que “o presidente tem uma fixação anal e deve ir para um divã”.

Farei aqui um tremendo atrevimento: não creio, estimado doutor Suleiman, que divã algum vá adiantar nesse caso específico. A solução está, primeiro, em camisa de força. E depois, confinamento permanente.

Enquanto isso, a expectativa minha e de todos nós é como o desequilibradíssimo mandatário conseguirá superar tamanha e tão patética estupidez. Pelos antecedentes, Jair Messias merece um voto de confiança.

Mas, cá entre nós, desta vez a disputa será especialmente difícil... 

_________________________________________________Reinaldo Azevedo - Ataque de Bolsonaro à vacina é militância típica da Al Qaeda do Neofascismo

Colunista do UOL

26/10/2021 07h05

A votação do relatório da CPI da Covid está marcada para esta terça-feira. Convenham: o evento se dá num momento emblemático. Facebook, Instagram e Youtube baniram o vídeo da live de quinta passada de Jair Bolsonaro. Num arroubo de delinquência moral, política e intelectual raro até para seus padrões, o presidente associou vacinas contra a Covid ao desenvolvimento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a AIDS. Trata-se, obviamente, de uma mentira estúpida.

A afirmação será incorporada ao texto de Renan Calheiros (MDB-AL), relator da Comissão, como mais uma evidência dos crimes cometidos pelo ogro que faz as vezes de mandatário. A verdade, caras e caros, é que a fala do presidente é hoje parte de uma rede. Estamos vendo a Internacional da extrema direita em ação — uma espécie, assim, de Al Qaeda do Neofascismo. Vamos ver.

Governo é um só; o papo de "alas" é tolice. E o tamanho da grana aos pobres

O episódio, obviamente, repercutiu no mundo inteiro e depõe, uma vez mais, contra a reputação do país, que passa por um processo de contínuo isolamento. E notem: estes são dias de relativa tranquilidade se nos lembrarmos que estamos entrando na reta das eleições. Se Bolsonaro é capaz de produzir tais indignidades fora da disputa, pode-se imaginar como será o embate eleitoral.

NOTÍCIA-CRIME
A bancada do PSOL na Câmara e um parlamentar do PDT entraram com uma notícia-crime no Supremo acusando o presidente de violar medida sanitária de combate à Covid (Artigo 268 do Código Penal); de expor a risco a saúde de terceiros (Art. 132); de violar o princípio da moralidade (Art. 37 da Constituição); de infringir a Lei de Improbidade Administrativa e de cometer crime de responsabilidade. O relator é o ministro Roberto Barroso, que já enviou, conforme a regra, a petição para a Procuradoria Geral da República.

Pois é... O que vai fazer a PGR? Será que a liberdade de expressão franqueia ao presidente, dadas as atribuições que lhe conferem a Constituição, o direito de mentir e de induzir as pessoas a evitar a vacina? Que se note: ainda que Aras, ou um preposto seu, recomende o arquivamento da notícia-crime, nada impede Barroso de determinar à Polícia Federal que abra um inquérito.

O Ministério Público é titular da ação penal; esta, sim, tem de contar com a concordância do órgão para ser aberta. Ainda assim, cumpre lembrar, o STF só pode fazê-lo se contar com o voto de pelos menos dois terços da Câmara. Havendo essa autorização e se a ação penal for mesmo aberta pelo Supremo, o presidente tem de se afastar até o julgamento, que tem de ocorrer em 180 dias. Se condenado, perde o mandato.

Cabe aqui uma outra lembrança importante: os crimes comuns de que Bolsonaro é acusado — no âmbito da CPI ou fora dele — não desaparecem com o fim do seu mandato. Se não for reeleito, os inquéritos que estiverem em curso obviamente continuam, com o deslocamento do foro: do Supremo para a primeira instância da Justiça Federal.

DESAFIO AO BOM SENSO OU MÉTODO?
Depois do pequeno terremoto que o presidente criou nos mercados com a decisão de furar (de novo, porque furado já estava) o teto de gastos, o razoável seria que não provocasse novas turbulências. Convenham: o quadro econômico é de desalento, e as perspectivas para este fim de ano e para o próximo estão em franca deterioração. O Itaú, por exemplo, antevê uma queda do PIB de -0,5% em 2022. Há menos de um mês, previa crescimento de 0,5%.

O preço dos alimentos segue nas alturas; os combustíveis difundem seu fel inflacionário na economia como um todo. Isso demanda que o Banco Central eleve a taxa de juros, o que, por sua vez, bombardeia as chances de crescimento. Fala-se abertamente num cenário de "estagflação", que é o pior dos mundos. Um líder que tivesse um compromisso mínimo com a sanidade, entendemos todos, evitaria provocar novas marolas. Pois é...

O presidente teme, obviamente, ser abandonado por suas hostes de extremistas. Afinal, até os fanáticos veem corroído seu poder de compra. Todos os candidatos a candidato da terceira via — exceção feita a Sergio Moro — são mais preparados do que ele próprio. Por isso, o homem tem de continuar a produzir bugigangas ideológicas para manter mobilizadas suas milícias digitais. Daí que, em vez de procurar a paz, tenha de investir permanentemente na guerra.

Há mais. Ainda que inexistam uma hierarquia ou uma vinculação funcional, há hoje uma Internacional da extrema direta nas democracias ocidentais — uma espécie, assim, de Al Qaeda do Neofascismo. E o bolsonarismo é parte dessa cultura. Um dos seus pilares, mundo afora, é a militância antivacina. Isso explica a sandice metódica, associada a uma visão de mundo que, pois, vai bem além do nosso território.

Isso impõe, diga-se, que se confira aos crimes do "Mito" — aos da "live" e aos demais — a devida gravidade. Precisam ser punidos com o rigor máximo previsto na lei. Não pensem que o bolsonarismo — tomado como um conjunto de valores — se esgotará com Bolsonaro. Essa postura de depredação da ciência, da racionalidade e do pacto civilizatório em nome do que esses delinquentes chamam "liberdade" será um mal permanente a atormentar as democracias.

Ou estas se defendem, com o devido rigor, ou serão corroídas por dentro.

_________________________________________________Opinião: Mauricio Stycer - Bonner critica fala "falsa e absurda" de Bolsonaro sobre vacinas e Aids

William Bonner: "Jair Bolsonaro fez uma relação completamente falsa e absurda entre a vacina contra a covid e a Aids" - Reprodução/Globoplay
William Bonner: "Jair Bolsonaro fez uma relação completamente falsa e absurda entre a vacina contra a covid e a Aids" Imagem: Reprodução/Globoplay
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25/10/2021 21h53

Atualizada em 26/10/2021 08h35

Num tom de irritação acima do normal, o apresentador William Bonner acusou o presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira de buscar "desacreditar vacinas e de desestimular a vacinação" no Brasil e classificou a fala em que ele associou vacinas contra covid a Aids como "falsa e absurda". O comentário foi feito no Jornal Nacional antes da exibição de uma reportagem sobre a live em que o presidente falou sobre o assunto.

Num texto repleto de adjetivos, bem mais próximo de um comentário do que da leitura de uma notícia, Bonner protestou:

JN muda o tom e divulga críticas a Guedes; Record diz que ministro balança

"O Facebook tirou do ar ontem à noite o vídeo em que o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fez uma relação completamente falsa e absurda entre a vacina contra a covid e a Aids. E hoje no fim da tarde também o You Tube decidiu suspender por uma semana o canal do presidente. Desde que foi publicada, essa nova iniciativa de Bolsonaro de desacreditar vacinas, de desestimular a vacinação, deixou incrédulas as comunidades médica e científica. E provocou críticas veementes também no meio político".

Ao longo de mais de oito minutos, o JN expôs a repercussão do fato. Mostrou os inúmeros desmentidos à fala de Bolsonaro. Além de médicos e especialistas, o telejornal deu enorme espaço a integrantes da CPI da Covid, que vão incluir o caso no relatório final. O senador Alessandro Vieira (Cidadania) considerou que Bolsonaro cometeu um crime de flagrante de informação falsa. O senador Randolfe Rodrigues (Rede) falou em pedir o banimento de Bolsonaro das redes sócias.

No Jornal da Record, o caso não mereceu uma notícia. Foi apenas citado, por 40 segundos, ao final de uma reportagem sobre a CPI da Covid. O telejornal informou que "senadores também decidiram pedir ao ministro do STF Alexandre Moraes que investigue o presidente Jair Bolsonaro no inquérito das fake news pela transmissão de uma live na última quinta-feira em que o presidente citou supostos estudos em que pessoas totalmente vacinadas desenvolveriam a síndrome de imunodeficiência adquirida muito mais rápido do que o previsto". E concluiu: "A informação não tem respaldo científico".

_________________________________________________Josias de Souza - 'Punição' do YouTube é ridícula diante do comportamento de Bolsonaro

Colunista do UOL 26/10/2021 09h31

As redes sociais estão sempre alguns passos atrás dos transgressores de suas normas internas. Nas pegadas do Faceboock e do Instagram, que retiraram do ar a live em que Bolsonaro disse que vacina provoca aids, o YouTube decidiu agir. Além de suprimir a barbaridade presidencial de sua plataforma, impôs a Bolsonaro a proibição de usar o seu canal de vídeos por uma semana. É pouco, é muito pouco, é pouquíssimo.

Bolsonaro frequenta as redes sociais como um moleque que experimenta a sensação do primeiro pré-humano que enfiou o dedo numa fava de mel. Ele lambe os dedos cada vez que se lambuza com a divulgação de notícias falsas. As companhias que comandam as redes deveriam funcionar como abelhas na proteção de suas colmeias contra a ação de intrusos. Mas hesitam em ferroar Bolsonaro pra valer.

É preciso reconhecer que o YouTube é menos leniente. Desde abril, j;a removeu 33 vídeos postados por Bolsonaro em seu canal. Mas passa da hora de analisar a sério a hipótese de impor ao presidente brasileiro sanções mais severas, compatíveis com os delitos que ele pratica. É preciso considerar a hipótese de repetir no Brasil banimento semelhante em que amarga Donald Trump nos Estados Unidos.


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Porta-voz da Globo, Merval Pereira pede o impeachment de Bolsonaro

De acordo com Merval Pereira, Jair Bolsonaro é o "pior presidente" da história do Brasil. "É pior porque, além de incompetente, coisa que muitos foram, não tem a dimensão da importância do cargo que ocupa", diz

(Foto: Reprodução - Agência Senado)

247 - Em sua coluna publicada no jornal O Globo, o jornalista Merval Pereira afirma que Jair Bolsonaro "precisava ser impedido de continuar no governo". 

De acordo com Merval, Bolsonaro "não tem a menor noção do cargo que ocupa por um desses azares da sorte, que fez com que o Brasil tivesse que enfrentar a maior calamidade de saúde pública em um século com o pior presidente de sua história". 

"É pior porque, além de incompetente, coisa que muitos foram, não tem a dimensão da importância do cargo que ocupa".

"O mais recente desvario do presidente foi divulgar um suposto estudo que afirmaria que os completamente vacinados contra Covid-19 estariam mais sujeitos a contrair Aids. Isso é de uma gravidade assustadora", continua.

O colunista destaca que Bolsonaro "fazer campanha contra vacinação é crime que deveria ser punido rigorosamente, como aliás pede o relatório final da CPI da Covid". 

"Provocar aglomeração de propósito é crime que tem como consequência mortes.

Dizer que quem se vacina pode virar jacaré vira piada na internet, mas é um ataque à saúde pública. 

Mas aproveitar-se de um estudo científico fajuto para dar cunho de verdade a uma mentira é demais, até mesmo para um irresponsável como Bolsonaro", diz.

_________________________________________________Presidente a ser impedido | Merval Pereira

O ex-presidente José Sarney cunhou a expressão “liturgia do cargo” para definir a responsabilidade perante a população de um presidente da República no cargo que ocupa. Das palavras ditas ao comportamento pessoal, tudo tem seu peso político. Mas há distinções entre comportamentos popularescos e aqueles espontâneos, especialmente quando a espontaneidade revela um político excêntrico, mas vencedor e com visão de história.

Não é o caso de Bolsonaro, que já posou para uma foto oficial de ministério com camisa pirata do Palmeiras, jogging e sandálias Rider. Ou ofereceu pão com leite condensado para um enviado oficial do governo dos Estados Unidos. Já divulgou fotos obscenas em seus aplicativos, já falou palavrão em público, enfim, fez de tudo para não respeitar a “liturgia do cargo”.

Nada disso, porém, é mais grave do que usar suas mensagens presidenciais para difundir notícias falsas, especialmente em época de pandemia como a que ainda vivemos. O mais recente desvario do presidente foi divulgar um suposto estudo que afirmaria que os completamente vacinados contra Covid-19 estariam mais sujeitos a contrair Aids. Isso é de uma gravidade assustadora.

O presidente da República fazer campanha contra vacinação é crime que deveria ser punido rigorosamente, como aliás pede o relatório final da CPI da Covid. Provocar aglomeração de propósito é crime que tem como consequência mortes. Dizer que quem se vacina pode virar jacaré vira piada na internet, mas é um ataque à saúde pública. Mas aproveitar-se de um estudo científico fajuto para dar cunho de verdade a uma mentira é demais, até mesmo para um irresponsável como Bolsonaro.

O mesmo ex-presidente Sarney disse uma vez que a cadeira é maior que o homem, referindo-se indiretamente a Bolsonaro. Ele de fato não tem a menor noção do cargo que ocupa por um desses azares da sorte, que fez com que o Brasil tivesse que enfrentar a maior calamidade de saúde pública em um século com o pior presidente de sua história. É pior porque, além de incompetente, coisa que muitos foram, não tem a dimensão da importância do cargo que ocupa.

Abre a boca, e a Bolsa cai, o dólar sobe, a economia vai para o buraco. Conversa no cercadinho como se estivesse num botequim, onde todo mundo pode dar palpite à vontade que não prejudica o país. Saído de seu mundo pequeno para a grandeza da tarefa que recebeu na eleição de 2018, Bolsonaro insiste em pensar pequeno, como se continuasse em seu mundinho do baixo clero.

Suas frases, seus hábitos, seus pensamentos fazem mal ao país, provocam mortes, contribuem para que o Brasil retroceda décadas em poucos anos. Valeu-se da leniência com que foi tratado desde que foi obrigado a sair do Exército, e depois durante 28 anos no Legislativo, para chegar ao Palácio do Planalto num conto de literatura mágica, impensável para o mais criativo dos escritores que quisesse descrever os descaminhos da América Latina.

Só tivemos presidentes improváveis desde a redemocratização, como escrevo em meu livro “Desafios da democracia”, recém-lançado pela editora Topbooks: Sarney, com a morte de Tancredo, presidente do PDS, partido de apoio à ditadura, que acabou vice do candidato de oposição; Collor, uma invenção nascida de uma mente doentia; Itamar Franco, Fernando Henrique, que meses antes do Plano Real não sabia se se elegeria deputado federal; Lula, que perdera três eleições seguidas e teve de inventar um personagem para se eleger; Dilma Rousseff; Michel Temer, e agora Bolsonaro.

Como se vê, nossa história é escrita por linhas tortuosas. Mas não há dúvidas de que Bolsonaro é o pior presidente que já tivemos, pelo conjunto negativo da obra. O mais perigoso também. Precisava ser impedido de continuar no governo. Mas o julgamento que começa hoje no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tudo indica, o poupará. Será absolvido mais um presidente indigno do cargo, com excesso de provas contra si.

Ouçam os comentários da rádio CBN:

_________________________________________________Monark defende o direito de Bolsonaro dizer que pessoas vacinadas estão contraindo Aids


26 de outubro de 2021, 08:35

247- O apresentador do Flow Podcast Monark saiu em defesa de Jair Bolsonaro, que teve sua live suspensa no Youtube após disparar fake news de que pessoas vacinadas estão se contaminando com Aids. 

Veja a postagem: 

Além de retirar o vídeo do ar, o Youtube também suspendeu por uma semana o canal de Jair Bolsonaro. Ele não poderá publicar novos vídeos nesse período. Caso ele volte a publicar um vídeo com desinformações em 90 dias, a suspensão dobrará de tempo.

Monark foi duramente criticado pela postagem.

Internautas ressaltam que liberdade de expressão não pode abrir precedentes para o disparo de fake news.  

_________________________________________________Em voto paralelo, Eduardo Girão defende jornalistas que espalharam fake news durante a pandemia

Eduardo Girão
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247 - O senador bolsonarista Eduardo Girão (Podemos-CE) defendeu nesta terça-feira (26), durante a sessão de votação do relatório final do colegiado, jornalistas e sites que difundiram fake news durante a pandemia de Covid-19.

Dentre os nomes citados pelo parlamentar, por meio de um voto em separado, estão o do jornalista Alexandre Garcia, que foi demitido recentemente da CNN Brasil por divulgar notícias falsas sobre o assunto durante uma transmissão ao vivo, e do site Brasil Paralelo, ligado à extrema direita.

Girão também criticou a atuação do relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), e as quebras de sigilo feitas pelo colegiado ao longo do andamento dos trabalhos da comissão. Ele também defendeu o "tratamento precoce”, por meio de remédios sem eficácia científica comprovada contra a Covid e a não investigação de estados e municípios. 

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Ainda segundo ele, "não foram encontradas quaisquer evidências da materialidade" sobre atos e omissões praticados por servidores públicos no enfrentamento à pandemia.

_________________________________________________Miriam Leitão cobra de Lira e Aras o fim da blindagem a Bolsonaro

Jornalista Miriam Leitão, procurador Augusto Aras e o presidente da Câmara, Arthur Lira
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247 - "Está cada vez mais difícil para Augusto Aras e Arthur Lira, os dois blindadores do presidente, continuarem fingindo que não viram nada", escreve a jornalista Miriam Leitão em sua coluna publicada pelo jornal O Globo. "Até quando vão proteger uma pessoa que não para de cometer crimes?", questiona.

"O que fará a Procuradoria Geral da República diante do pedido de investigação do STF sobre a live do presidente Jair Bolsonaro, em que associa as vacinas contra Covid à Aids?", continua.

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De acordo com a jornalista, "a boa notícia é que esta semana não haverá live semanal do presidente no Facebook". "A presidência tem imunidades. É a proteção do cargo. Não pode virar impunidade para cometer crimes reiterados, como tem acontecido no país".

_________________________________________________Augusto Nunes ataca Alexandre de Moraes e defende que ministro "tem que ser detido" (vídeo)

Augusto Nunes e Alexandre de Moraes

247 - Em comentário na Jovem Pan nesta segunda-feira (26), o bolsonarista Augusto Nunes disparou diversos ataques contra o ministro do STF Alexandre de Moraes ao criticar sua decisão de prender o blogueiro Allan dos Santos, investigado por orquestrar uma milícia digital. 

Em tom de ameaça, Nunes chamou Moraes de “ditador” e ainda defendeu que o ministro “tem que ser detido”. 

Após a fala, o nome do bolsonarista é um dos assuntos mais comentados do Twitter. 

_________________________________________________'Como cristão, acreditei que pudesse acontecer um milagre', diz gerente de funerária sobre pastor que prometeu ressuscitar no terceiro dia

Corpo de Huber Carlos Rodrigues foi velado por três dias até ser liberado nesta segunda-feira, por volta de meia-noite, para sepultamento que reuniu centenas de pessoas em Goiás
Carla Rocha e Raphaela Ramos
26/10/2021 - 08:39 / Atualizado em 26/10/2021 - 16:05
Pastor Huber Carlos Rodrigues Foto: Reprodução
Pastor Huber Carlos Rodrigues Foto: Reprodução

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RIO — "Como cristão, acreditei que pudesse acontecer um milagre. A gente vive e está todo dia aprendendo. Na Bíblia, está escrito que é possível. Aconteceu com Lázaro. A gente que tem fé acredita. Deus pode tudo, ele tira uma montanha de um lugar e coloca no outro, nada é impossível para ele. Mas infelizmente não aconteceu". Essas são palavras de José Dourado, gerente da Paz Universal, funerária onde o corpo de um pastor que prometia ressuscitar levou três dias sendo velado.

A família de Huber Carlos Rodrigues apresentou no estabelecimento um documento, assinado por duas testemunhas, em que o religioso pedia que não o sepultassem antes do prazo porque aconteceria um "Mistério de Deus". Huber, que teria morrido em decorrência de complicações da Covid-19, na sexta-feira (22), só foi enterrado nesta segunda (25), por volta de meia-noite, na cidade de Goiatuba, em Goiás, numa cerimônia que reuniu centenas de pessoas.

Por volta das 23h40 — quando o prazo estipulado pelo pastor se encerrou —, a mulher dele, Ana Maria de Oliveira Rodrigues, deu autorização para que o sepultamento fosse realizado.

Dourado conta que também é cristão e acredita que, para Deus, nada é impossível. Ele admitiu que a funerária, que existe há 44 anos, nunca tinha feito um sepultamento à noite, até porque o cemitério muncipal só funciona durante o dia. Apesar disso, a família, que mora no município de pouco mais de 35 mil habitantes, teria conseguido que um coveiro fizesse o serviço de madrugada.

— A gente fez a vontade da família, estamos aqui para atender da melhor maneira os parentes. Eles apresentaram um documento, com testemunha e tudo, em que o morto pedia para aguardar três dias pelo sepultamento. Lázaro também ressuscitou depois de três dias — acrescentou.

Foi a própria Paz Universal que procurou a Vigilância Sanitária. Na segunda-feira, o gerente do estabelecimento foi até a repartição pública pedir autorização para atender ao pedido da família do religioso para que não fosse sepultado antes de três dias. Ao se deparar com o pedido, o farmacêutico Luciano Borges Chaves, fiscal do setor na prefeitura, autuou o estabelecimento e abriu um processo administrativo, que pode levar à aplicação de multas de até R$ 250 mil. A funerária terá 20 dias para se defender no processo administrativo. De acordo com o farmacêutico, como Huber teve Covid-19 há cerca de dois meses, o corpo provavelmente já não oferecia maior risco sanitário para propagação da doença.

Segundo informações do G1, na declaração assinada em 2008, Huber afirmava ter tido divinas revelações do Espírito Santo e que passaria por um “mistério de Deus”, no qual ressuscitaria às 23h30, três dias após sua morte. O corpo do pastor ficou refrigerado em uma sala na funerária, a pedido da viúva, aguardando o fim do período estipulado, que terminou na noite de segunda-feira.

Huber morreu na última sexta-feira por complicações cardiorrespiratórias, após um período de internação em decorrência da Covid-19, em um hospital de Itumbiara, a 55 km de Goiatuba.

“Minha integridade física tem que ser totalmente preservada, pois ficarei por três dias morto, sendo que no 3ª dia, eu ressuscitarei. Meu corpo durante os três dias não terá mau cheiro e nem se decomporá, pois o próprio Deus terá preparado minha carne e meu cérebro para passar por essa experiência”, ele escreveu no documento, assinado por duas testemunhas, segundo o G1.

'Estão acreditando em experiências e narrativas'

Para Valdemar Figueredo, doutor em Ciência Política, pastor e membro do Instituto Mosaico, a situação causa um assombro por acontecer "em pleno século XXI".

— Mesmo quem é religioso leva um susto quando nos deparamos com pessoas que acreditam em algo dessa forma. Parece que remete ao texto bíblico, em que teve casos, como Lázaro, que estava morto e Jesus o chama à vida. Mas estamos falando de um tempo em que não tinha laudo médico, atestado de óbito, e de uma narrativa muito mais poética do que um texto objetivo.

Ele destaca que há muitos casos no país e no mundo de pessoas que buscam usar o sobrenatural para obter algum tipo de benefício financeiro com isso, mas acredita que não seja o que ocorreu nesse episódio:

— Pelos fatos noticiados, parece que não se tratava de alguém que queria ter benefício com essa experiência. Ele realmente acreditou na experiência que disse ter tido em 2008. E sua esposa também acreditou, assim como o grupo que ficou na porta da funerária até a última hora, pedindo que abrissem o caixão. Isso para mim, vendo de longe, é muito curioso. Me parece que estamos cheios desses casos, de pessoas que estão acreditando em experiências e narrativas e não necessariamente para ter um benefício financeiro. É algo que também pode ser visto como um tipo de transe — avalia Figueredo, e acrescenta: — Outra questão que se coloca é o que será que ele falava no dia a dia? Se ele foi capaz de chegar nesse extremo, podemos tentar imaginar o teor de seu discurso religioso.

Figueredo pondera que por mais que exista uma crença religiosa, convivemos em um ambiente racional, científico, e "existem limites".

— Quer dizer, não vou deixar um corpo apodrecendo, sob pena de trazer prejuízos para a coletividade. Por mais que a pessoa seja respeitosa da religiosidade, está em uma sociedade que não necessariamente se guia pelos seus padrões religiosos. O Brasil está cheio disso, mas não é de agora, talvez haja mais visibilidade e espanto atualmente. O coletivo deve ser respeitoso, mas não pode se omitir diante de fatos tão contundentes — afirma.

_________________________________________________Patrocinadoras pedem ao Minas 'medidas cabíveis' contra postura homofóbica de Maurício Souza; Douglas comemora

Clube já se posicionou sobre o assunto, mas não elucidou atitudes que irá tomar
Maurício e Wallace fazem gesto do "17", número de Bolsonaro nas eleições. À frente, Douglas Souza Foto: Reprodução
Maurício e Wallace fazem gesto do "17", número de Bolsonaro nas eleições. À frente, Douglas Souza Foto: Reprodução

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Patrocinadoras do Minas Tênis Clube têm cobrado uma atitude da instituição em relação ao central Maurício Souza, que, ao longo deste último mês, tem publicado postagens com teor homofóbico. Principal apoiadora, a Fiat destacou ser contra a promoção de qualquer discurso de ódio.

"Em relação às recentes declarações do jogador Maurício Souza, da equipe de vôlei Fiat Minas Gerdau, a Fiat declara repúdio a toda e qualquer expressão de cunho homofóbico, considerando inaceitáveis as manifestações movidas por preconceito, ímpeto desrespeitoso ou excludente (...). A Fiat repudia qualquer tipo de declaração que promova ódio, exclusão ou diminuição da pessoa humana e espera que a instituição tome as medidas cabíveis e necessárias no espaço mais curto de tempo possível", disse a empresa, por meio de uma nota.

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A Gerdau, maior produtora de aço brasileira, também veio a público se opor às publicações de Maurício. 

“A Gerdau reforça o seu compromisso com a diversidade e inclusão, um valor inegociável para a companhia”.

No dia 12 de outubro, Maurício criticou a história em quadrinhos do novo Super-Homem, na qual o personagem aparece beijando outro homem. 

"Ah é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar...", escreveu o jogador.

E também criticou a decisão da TV Globo de usar pronome neutro nas novelas, reconhecendo pessoas que preferem não se identificar a um gênero específico.

O próprio Minas se manifestou sobre o assunto: na última segunda-feira, 25, o clube disse que a opinião de Maurício não representa o time, mas não elucidou se o central irá receber qualquer tipo de punição.

Abaixo, leia a nota do clube mineiro.

“O Minas Tênis Clube está ciente do posicionamento público do atleta Maurício Souza, do Fiat/Gerdau/Minas. Todos os atletas federados à agremiação têm liberdade para se expressar livremente em suas redes sociais. O Clube é apartidário, apolítico e preocupa-se com a inclusão, diversidade e demais causas sociais.Não aceitamos manifestações homofóbicas, racistas ou qualquer manifestação que fira a lei. A agremiação salienta que as opiniões do jogador não representam as crenças da instituição sócio desportiva. O Minas Tênis Clube pondera que já conversou com o atleta e tem orientado internamente sobre o assunto”.

Colega de elenco de Maurício no time olímpico, Douglas Souza agradeceu à montadora pelo posicionamento de repúdio ao discurso de ódio. Em outras ocasiões, o jogador, primeiro da seleção masculina brasileira de vôlei a se declarar gay, em 2018, já expressou que a postura discriminatória é algo comum no esporte.

_________________________________________________Após pedido de indiciamento na CPI, Barros apresenta notícia-crime contra Renan no STF

Senador Renan Calheiros e o deputado Ricardo Barros
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247 - No dia da votação do relatório final da CPI da Covid, o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, apresentou notícia-crime ao STF (Supremo Tribunal Federal) contra o relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), alegando abuso de autoridade e denunciação caluniosa.

"Ele [Renan Calheiros] simplesmente esquece o resultado da investigação dele e quer me indiciar. É abuso de autoridade", disse Ricardo Barros em entrevista ao UOL.

O motivo é porque o relatório que deve ser votado ainda nesta terça-feira (25) propôs o indiciamento de Barros em quatro crimes: incitação ao crime, advocacia administrativa, formação de organização criminosa e improbidade administrativa.

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Barros foi citado no depoimento do também deputado federal Luís Miranda (DEM-DF) como o nome apontado por Jair Bolsonaro como envolvido no esquema de compra da vacina indiana da Covaxin. 

O deputado promete que processará também quem votar a favor do texto. Na notícia-crime, que foi encaminhada ao presidente do Supremo, Luiz Fux, Barros contesta o fato de ter sido citado no relatório final da CPI da Covid e diz que o documento "não possui materialidade" e "está baseado em narrativas que foram desmontadas".


_________________________________________________Políticos repercutem remoção de live do Bolsonaro: 'Profeta da ignorância'

Facebook exclui das redes sociais uma live do presidente Jair Bolsonaro (sem partido); na transmissão, ele fazia uma falsa associação entre a vacina contra covid e a Aids - Reprodução
Facebook exclui das redes sociais uma live do presidente Jair Bolsonaro (sem partido); na transmissão, ele fazia uma falsa associação entre a vacina contra covid e a Aids Imagem: Reprodução

Do UOL, em São Paulo 25/10/2021 12h42 Atualizada em 25/10/2021 12h42

Após o Facebook remover das redes sociais uma live do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em que ele fazia uma associação falsa entre a vacina contra covid-19 e a Aids, políticos repercutiram a notícia nas redes sociais.

O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, escreveu que a decisão da rede social prova que Bolsonaro é "um profeta da ignorância". 

Ele ainda criticou o presidente por "insistir em mentiras" sobre a vacina, mesmo após a morte de mais de 600 mil brasileiros pela doença. "Uma vergonha para o país".

Jornal: Damares levou parentes de Michelle Bolsonaro para SP em voo da FAB

Na última quinta-feira, Bolsonaro leu uma notícia falsa, que dizia que as pessoas no Reino Unido, que foram vacinadas com as duas doses da vacina, estavam adoecendo com Aids.

"Recomendo que leiam a matéria. Não vou ler aqui porque posso ter problemas com a minha live", acrescentou.

Em nota, o Facebook diz que as políticas da plataforma "não permitem alegações de que as vacinas de covid-19 matam ou podem causar danos graves às pessoas".

A informação falsa já havia sido refutada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que reforçou a necessidade que portadores do vírus HIV se vacinem contra o coronavírus. Entidades como a SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e a Unaids, programa das Nações Unidas de combate à Aids, condenaram a fala de Bolsonaro.

O deputado federal Rogério Correia (PT) escreveu: "Quanta vergonha para o Brasil ter um presidente da República que tem live excluída por difundir mentiras absurdas".

A deputada estadual Luciana Genro (PSOL) defendeu que Bolsonaro "precisa ser responsabilizado por sua rede de mentiras e ódio".

Marcelo Freixo, deputado federal (PSB), afirmou que a associação falsa de Bolsonaro gera desconfiança e coloca a vida das pessoas em risco. "Não estamos falando de liberdade de expressão, mas de crime contra a saúde pública".

A deputada federal Erika Kokay (PT) afirmou que "as redes socia0is não podem mais aceitar esse tipo de prática nefasta".

Ontem, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) encaminhou requerimento para que a CPI da Covid informe ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a fala, para que avalie "conduta potencialmente criminosa" do presidente. Moraes é o responsável pelo inquérito das fake news.

_________________________________________________Leitura correta sobre desigualdade no Brasil está em jogo, dizem pesquisadores

Diagnóstico é importante para definição de políticas públicas e deve estar na campanha de 2022

São Paulo

Por isso, muitos estudos investigam as causas da desigualdade no país e das mudanças em sua trajetória. Eles são consideradas cruciais para embasar políticas públicas efetivas de combate ao problema.

"Olhar para mudanças na desigualdade nos permite avaliar as políticas sociais que foram feitas, como a expansão de programas de assistência e do salário mínimo, a regulação do mercado de trabalho e o aumento da escolaridade", diz a economista Cecília Machado, professora da FGV/EPGE, economista-chefe do Bocom BBM e colunista da Folha.

Mas como saber se as medidas adotadas por diferentes governos têm funcionado quando há dissenso entre os principais pesquisadores sobre a direção na trajetória dos dados?

"O que está em questão é um aspecto relevante da história do Brasil. O diagnóstico sobre o que aconteceu, de fato, com a desigualdade é muito importante", diz Laura Muller Machado, uma das autoras do novo estudo sobre o tema.

"Qual é a verdadeira história da desigualdade no Brasil? Ela caiu pela primeira vez por um bom período? Ou aumentou?", complementa Ricardo Paes de Barros.

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Além dos dois cenários mencionados por PB, como Paes de Barros é conhecido, há um terceiro, que se baseia nas conclusões de outro conjunto de estudos, segundo os quais houve relativa estabilidade no nível de concentração de renda brasileira nas últimas décadas.

Essa interpretação surgiu a partir do esforço de pesquisadores para aplicar em nações emergentes, como o Brasil, a metodologia que o economista francês Thomas Piketty desenvolveu para aprimorar o cálculo da renda dos mais ricos.

Considerada extremamente útil para objetivos como monitorar o mercado de trabalho, pesquisas domiciliares, como a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, subestimam os rendimentos mais altos.

Isso decorre de diversos fatores. Um deles é a própria compreensão do conceito de renda. Os entrevistados tendem a associá-lo ao salário, omitindo eventuais ganhos com aplicações financeiras. Também é comum que os mais ricos citem, propositalmente, rendimentos menores.

Piketty e seus coautores propuseram corrigir esses vieses reconstruindo as séries de distribuição de renda a partir da adição de outras bases de dados, como informações tributárias.

Seguindo esses passos, em uma análise que combinou informações da Pnad às da Receita Federal, os economistas Marcelo Medeiros, da Universidade Columbia, Pedro Ferreira de Souza, do Ipea, e Fábio Ávila de Castro, da Universidade de Brasília, chegaram a duas conclusões relevantes.

A primeira foi que a desigualdade brasileira era mais alta do que se imaginava até então. A segunda foi que ela não recuou entre 2006 e 2012.

Em 2017, em um estudo orientado por Piketty, o economista Marc Morgan chegou a achados parecidos, usando uma metodologia ainda mais precisa, por incluir dados das contas nacionais, o chamado PIB (Produto Interno Bruto).

"De acordo com a teoria, a renda total de todas as pessoas deve coincidir com o valor de toda a produção", diz o pesquisador Rodolfo Hoffmann, da USP (Universidade de São Paulo).

Por isso, os pesquisadores pinçam nas contas nacionais fatias de renda que estejam faltando após a combinação entre dados tributários e pesquisas domiciliares.

No PIB, é possível identificar, por exemplo, quanto foi recebido por acionistas de empresas sob a forma de dividendos, o montante de juros advindos de aplicações financeiras e o aluguel embolsado por proprietários de imóveis.

Esses pedaços foram inseridos por Morgan no cálculo da distribuição de renda brasileira.

O fato de que outras fatias significativas do PIB do país —como os recursos transferidos pelo governo para famílias de baixa renda em programas sociais— ficaram de fora de sua conta era alvo de críticas.

Mas a grande surpresa de economistas que estudam desigualdade foi a publicação de uma atualização dos cálculos de Morgan, no fim do ano passado, que indicavam um forte aumento da concentração de renda brasileira.

"A metodologia é apresentada de maneira bastante sumária. Há diversas correções muito arbitrárias", afirma Hoffmann.

NOVO ESTUDO CONSIDERA MAIS FONTES DE RENDA

Os pesquisadores do Insper dizem que seu estudo difere do feito por Morgan porque, além de já incluir, de forma detalhada, praticamente todas as rendas das contas nacionais, usa a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) como base da sua análise, no lugar da Pnad.

"Por ser uma pesquisa de orçamento familiar, os entrevistadores da POF são forçados a tentar achar a fonte de renda de todos os gastos declarados pelos entrevistados", diz Samir Cury, professor do Insper e um dos autores do estudo.

"Tudo que é pontual, dificilmente é capturado pela Pnad", completa ele.

Os quatro pesquisadores consideraram como renda o acesso a itens e serviços aos quais os brasileiros têm, mesmo sem pagar por eles.

PB explica que eles partem do conceito de que renda é o consumo máximo que você consegue ter sem reduzir seu patrimônio. Ao aplicá-lo, eles incluíram itens como os citados por Cury, mas também desconsideraram outros que aparecem como rendimento na POF. Um exemplo é o dinheiro aferido com a venda de um carro.

"O esforço deles [os autores] foi pegar a POF, combinar com o IR e as contas nacionais. Olhando a distribuição como um todo por esse lado, houve uma queda [da desigualdade]. Isso destoa da conclusão de Marc [Morgan] e é algo muito importante", diz Souza​, do Ipea, que é autor do livro "Uma História da Desigualdade".

Souza ressalta que os achados diferentes não são um problema, pois levam a uma discussão saudável sobre a melhor forma de mensurar a concentração de renda.

"Claramente, as diferenças entre as pesquisas estão nas escolhas metodológicas e a questão é entendermos qual delas será a melhor", diz.

Ele ressalta que a POF, por exemplo, tem a vantagem de capturar melhor a renda não monetária das famílias, mas a desvantagem de ser feita com muito menos frequência do que a Pnad.

"A gente vai acabar convergindo para um consenso. O importante é estarmos estudando a desigualdade, o que, após a pandemia, se tornou ainda mais importante no Brasil."

O registro da queda da desigualdade, entre 2002 e 2015, conforme constataram os pesquisadores do Insper, além de mudar a forma de contar a história recente de muitas famílias brasileiras, coloca um peso maior sobre a campanha eleitoral do ano que vem.

O período coincide com boa parte dos governos petistas e, por conta de problemas graves —como inflação, desemprego e queda de renda— atuais, os temas econômicos devem ser fortemente explorados pelos candidatos, inclusive pelo ex-presidente Lula (PT), que deve tentar voltar ao poder.


_________________________________________________Desigualdade de renda no Brasil caiu de 2002 a 2015, aponta estudo inédito

Resultado contraria pesquisas que mostravam estabilidade ou aumento da iniquidade neste século

São Paulo

Um novo estudo poderá mudar, pela terceira vez em menos de uma década, a interpretação do que tem ocorrido com a desigualdade de renda no Brasil desde o início deste século.

Feito por economistas do Insper, o trabalho inédito, ao qual a Folha teve acesso, mostra que a disparidade na distribuição de recursos no país caiu de forma ininterrupta entre 2002 e 2015, voltando a aumentar em 2016 e 2017, mas para um nível inferior ao da virada do milênio.

Os resultados do novo trabalho indicam que todas as fatias da população adulta brasileira —dividida em cem partes iguais, os chamados centésimos da distribuição— situadas abaixo dos 29% mais ricos tiveram crescimento em suas rendas anuais acima da média nacional de 3%, no período analisado.

Já as parcelas da população distribuídas acima desse corte aferiram crescimento médio anual de suas rendas entre 2,4% e 2,9%, inferior, portanto, à média do país. A exceção foram duas fatias próximas ao topo da pirâmide da riqueza do país.

Essa configuração estaria por trás da queda da desigualdade brasileira medida pelo índice de Gini, métrica que vai de 0 (patamar hipotético que refletiria uma sociedade onde os recursos são igualmente distribuídos) a 1 (nível também conceitual, que indicaria um extremo de iniquidade).

Os cálculos indicam que o Gini do Brasil recuou de 0,583 para 0,547, entre 2002 e 2017. O resultado, segundo os economistas, correspondeu à saída de 16 milhões de pessoas da pobreza no período.

  • Fome leva famílias a revirar lixo e buscar alimentos próximos do descarte

NOVOS RESULTADOS CONTRARIAM DIAGNÓSTICOS ANTERIORES

Os resultados obtidos pela equipe do Insper contrariam dois diagnósticos que já haviam mudado a percepção de que a concentração de renda no Brasil diminuía na esteira de fatores como ampliação do acesso à educação e programas de transferência de renda.

Ao obter um melhor retrato dos rendimentos dos mais ricos, o primeiro deles mostrava que a desigualdade brasileira tanto era mais alta do que se imaginava anteriormente, quanto permanecia em um nível de relativa estabilidade, não de queda.

Mais recentemente, uma segunda conclusão ainda mais preocupante surgiu.

Em uma nota técnica publicada em dezembro de 2020, os pesquisadores Mauricio de Rosa, Ignacio Flores e Marc Morgan, do World Inequality Lab, centro fundado e codirigido pelo reputado economista francês Thomas Piketty, apresentaram cálculos novos que indicavam um aumento da concentração de renda brasileira.

Os dados que mostram essa trajetória estão disponíveis no site do grupo, o WID.world, e alarmaram a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), um dos principais centros de diagnóstico sobre problemas econômicos e sociais da região.

"Em alguns casos, como os de Brasil e México, a desigualdade não apenas não caiu, como aumentou, gerando, portanto, um novo alerta para um olhar atento ao processo de distribuição efetiva de renda nos países da região", ressaltou o Panorama de Indicadores Sociais, publicado em março deste ano pela instituição, em referência ao trabalho dos três pesquisadores.

Em uma entrevista por email com a Folha, Morgan disse que esses resultados serão em breve revistos e que as séries de diferentes indicadores da desigualdade de renda brasileira serão substituídos. Segundo ele, os novos números incluem no cálculo da renda do país transferências do setor público para educação e saúde, que, até então, não eram consideradas nas metodologias do centro de Piketty.

Com isso, explica Morgan, o retrato da desigualdade brasileira será de maior estabilidade e, considerando um dos recortes —o da evolução da fatia da renda apropriada pelos 50% mais pobres do país—, ela, inclusive, recuará.

"A análise de impostos e transferências é um novo aspecto do nosso trabalho, que mostra a importância de transferências de renda sociais (como saúde e educação) para reduzir a desigualdade no Brasil", diz o economista.

Foi justamente a percepção de que os trabalhos de anos recentes tanto de Morgan quanto de outros pesquisadores falhavam na mensuração da renda dos brasileiros mais pobres que levou os professores do Insper Ricardo Paes de Barros, Laura Muller Machado e Samir Cury e o diretor da Oppen Social Samuel Franco a construir uma nova metodologia.

O resultado do trabalho que eles desenvolveram nos últimos quatro anos será apresentado publicamente, pela primeira vez, nesta segunda-feira (25), em um webinar promovido pelo Insper.

Assim como Piketty e seus colegas, os quatro especialistas brasileiros usaram uma combinação entre dados da Receita Federal, das contas nacionais e de entrevistas domiciliares.

Mas, além de detalhes metodológicos diferentes na apuração e análise dessas informações, a grande novidade do novo trabalho é o uso da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) e não da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) como o ponto de partida e a espinha dorsal no cálculo de construção da distribuição de renda do país.

Piketty inovou ao usar os dados de declarações tributárias para recalcular séries históricas, primeiro de países desenvolvidos e depois de emergentes, argumentando que eles capturam melhor os rendimentos dos mais ricos.

Esse diagnóstico é, hoje, praticamente consensual. Mas faltava corrigir uma nova distorção possivelmente causada pelo uso dos dados tributários: a subestimação da renda dos pobres.

Além de contabilizar como renda transferências como acesso à educação pública —o que Morgan explicou que está fazendo agora em seu trabalho—, o estudo do Insper e da Oppen Social também captura fontes não monetárias de recursos, como doações de cesta básica ou até extração de lenha para geração de energia.

"A POF oferece um ponto de partida melhor, porque parte importante da renda dos mais pobres é não monetária", afirma Paes de Barros, também conhecido como PB e considerado um dos expoentes brasileiros na pesquisa sobre pobreza, gastos sociais e educação e um dos idealizadores do Bolsa Família.

DEBATE PÚBLICO SOBRE DESIGUALDADE GANHA NOVO CAPÍTULO

Autor de vários estudos respeitados sobre distribuição de renda, o pesquisador Rodolfo Hoffmann, da USP (Universidade de São Paulo), será um dos debatedores no seminário que PB, Cury e Machado farão nesta segunda. Em setembro, ele já tinha assistido uma apresentação dos economistas sobre o trabalho.

"A metodologia é, sem dúvida, inovadora", afirma Hoffmann.

Ele também ressalta que o estudo é importante por "mostrar que correções com base nos dados do Imposto de Renda e Contas Nacionais não levam, necessariamente, a mudanças radicais no que se refere ao sentido da variação da desigualdade da distribuição da renda no Brasil".

Segundo Hoffmann, a subestimação da desigualdade em pesquisas feitas apenas com base na Pnad já era reconhecida por ele próprio e outros economistas há muitos anos.

"Mas levando em consideração outras informações (sobre consumo de diversos tipos de bens, por exemplo), me convenci de que houve queda da desigualdade no Brasil de 2001 a 2014".

Os achados de PB e seus coautores tendem a esquentar o debate público sobre o tema a um ano da eleição presidencial, em que a desigualdade certamente ocupará grande parte das discussões.

A crise causada nesta semana pela tentativa do governo de alterar as regras fiscais a fim de aumentar o benefício que será pago pelo Auxílio Brasil, programa que substituirá o Bolsa Família, já é um sinal disso.

Evidências recentes são de que, na esteira da crise econômica gerada pela pandemia e por ruídos políticos, a pobreza tem aumentado.

Para Cláudia Costin, diretora do Ceipe/FGV (Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais), a população antes das crises recentes podia perceber em seu cotidiano as melhoras na redução da desigualdade e no acesso à educação.

Ela, que também é colunista da Folha, ressalta, no entanto, que a desigualdade, que já vinha aumentando nos anos mais recentes, deve ficar ainda mais grave depois da pandemia. "A janela de saída, que o investimento em educação representa, vem ficando mais estreita."

"A educação como vetor para a redução da desigualdade não perdeu importância, apesar de tudo. Talvez essa perspectiva ruim se deva mais aos efeitos da pandemia e à falta de coordenação de uma política nacional para a educação", diz.

Rosely Mendes Couto, enfermeira que hoje trabalha com costura criativa, sentada ao lado da máquina de costura
Rosely Mendes Couto, enfermeira que hoje trabalha com costura criativa - Zanone Fraissat/Folhapress

O impacto positivo da educação que os economistas medem em seus estudos é percebido por Rosely Mendes Couto, 55, na prática. Apesar de todas as dificuldades, ela se move pelo futuro do neto John Lorenzo, de cinco anos, que ela ajuda a criar.

"Meus filhos não quiseram continuar estudando depois do ensino médio. Acho que eles estariam em condição melhor hoje se tivessem continuado, que é o que desejo para meu neto", diz ela, que já trabalhou como enfermeira, foi dona de pizzaria e, hoje, atua em eventos.

O filho de Rosely tem 31 anos e é tatuador, já a filha, de 28, que é mãe de Lorenzo, está desempregada.

A crença na importância da educação faz com que Rosely cite o acesso à creche pública do neto como uma das melhorias que percebeu no país nas últimas duas décadas.

"Ele agora está na escolinha, mas nunca faltou vaga para ele na creche. Na época dos meus filhos pequenos, não foi assim", diz.

_________________________________________________Sem mea-culpa, PT pode derrotar Bolsonaro, mas não o bolsonarismo | Opinião - O Globo

Por Pablo Ortellado

O PT está se organizando para enfrentar as acusações de corrupção que recaem sobre o partido mirando as eleições de 2022. Seus políticos estão sendo treinados para rebater as acusações, e o partido recentemente publicou um manual para treinar os militantes.

Se, por um lado, se trata apenas de uma estratégia (legítima) para disputar a opinião pública em período pré-eleitoral, nos seus efeitos a iniciativa dará sobrevida a um antipetismo radicalizado. O PT está olhando demais para os resultados eleitorais de curto prazo e muito pouco para como sua postura de não assumir os erros políticos alimenta a intolerância e radicaliza a direita.

O partido tem todo o direito de denunciar a perseguição judicial de que foi vítima, muito bem documentada na série de reportagens conhecida como Vaza Jato. Não foi à toa que as condenações do ex-presidente Lula foram anuladas. Mas também não há sombra de dúvida de que, durante as administrações petistas, houve conluio entre a Petrobras e um pool de empreiteiras que desviou bilhões de reais para políticos.

Não foi provado que Lula organizou ou mesmo que tinha ciência do desvio, mas seguramente o ex-presidente tem responsabilidade política por um ato de corrupção dessa magnitude ter acontecido durante seu governo.

A estratégia argumentativa que o PT está adotando é embaralhar os fatos, usando a perseguição judicial para jogar fumaça sobre a montanha de evidências de corrupção na Petrobras. Essa estratégia pode reduzir as resistências a Lula junto a alguns eleitores hesitantes, mas também enfurecerá e radicalizará bolsonaristas e outros antipetistas que já sentem que a anulação das condenações de Lula representa uma vitória da impunidade.

Por um lado, a estratégia ajuda o PT nas eleições de 2022; por outro, consolida a polarização política que envenena o país.

A polarização tem efeitos eleitorais relevantes, mas não é um fenômeno eleitoral. É uma dinâmica que toma a sociedade civil e faz com que dois segmentos do público se radicalizem, se fanatizem e se tornem intolerantes um com o outro. Nem sempre a polarização é simétrica, com os dois lados adotando posturas políticas antidemocráticas —mas ela sempre é relacional. Cada movimento de um campo repercute no outro. É por isso que as ações do PT têm enorme impacto na estruturação da extrema direita.

A postura que o PT decidiu adotar para as eleições de 2022 não é o único caminho —e certamente não é o melhor. O partido poderia reconhecer que houve corrupção grave durante seu governo e se comprometer a não deixar que isso volte a acontecer. Um mea-culpa honesto como esse não ganharia um único voto governista, mas distensionaria o ambiente e esmoreceria o antagonismo antipetista.

É preciso lembrar que a oposição tem uma dupla tarefa, uma eleitoral, outra com a sociedade civil. Não basta derrotar eleitoralmente Bolsonaro; é preciso também desmontar as condições políticas que fizeram a extrema direita emergir como força política relevante.

Pablo Ortellado - Assinatura

Por Pablo Ortellado

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Meirelles diz que Guedes “não funciona”

"O que é um problema dele com o Congresso, o que é falta de diálogo, falta de prática, de experiência administrativa, é difícil avaliar. O fato é que não está funcionando", diz Meirelles

(Foto: Reuters)
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247 - O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, criador do teto de gastos que o governo Bolsonaro agora quer furar, afirma que é difícil avaliar as circunstâncias que levaram o ministro Paulo Guedes à atual crise na pasta.

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"O que é um problema dele com o Congresso, o que é falta de diálogo, falta de prática, de experiência administrativa, é difícil avaliar. O fato é que não está funcionando", diz Meirelles em declaração ao jornal Folha de S.Paulo. 

Ele afirma que em sua experiência no cargo também sofreu pressões e questionamentos, mas resolveu com conversa franca, objetiva e firmeza.

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Eduardo Moreira: elite se revolta com furo no teto de gastos, mas não com a fome e a miséria

Eduardo Moreira
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247 - O economista Eduardo Moreira denunciou a elite brasileira, que prega o caos econômico após o furo no teto de gastos, mas não se indigna com a crise econômica e o aumento da miséria no Brasil. 

Em vídeo publicado no YouTube, ele cita dados que demonstram o aumento da procura por ossos, recordes de desmatamento, mais pessoas morando na rua, as mais de 600 mil mortes pela Covid-19, genocídio dos indígenas e o desemprego e inflação crescentes. 

"Nada disso foi capaz de indignar a nossa elite econômica, os bancos e os bilionários desse país como a notícia de que o teto de gastos ia ser furado", criticou o economista. "A revolta que a gente esperava ao perceber que a dor que a maior parte do país está vivendo por conta do que aconteceu nos últimos meses veio por conta de uma preocupação fiscal". 

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O discurso dos banqueiros e da mídia tradicional se resume a uma suposta preocupação com as pessoas. "Eles dizem que, na verdade, é uma preocupação com as pessoas, pessoas com as quais eles nunca se preocuparam", afirmou Moreira. 

"Isso diz muito sobre a nossa elite, sobre o nosso governo e, infelizmente, sobre o nosso país", completou. 

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“Mídia ganha muito dinheiro com a propagação de fake news”, diz Marcia Tiburi

Marcia Tiburi
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247 - A filósofa, professora e escritora Marcia Tiburi denunciou, em entrevista à TV 247, as redes de fake news bolsonaristas, que frequentemente enviam ataques e ameaças de morte contra ela. As tentativas de intimidação foram tantas que ela foi obrigada a se exilar em Paris, na França.

Segundo a professora da Universidade Paris VIII, o ódio nas redes fascistas e até mesmo em canais tradicionais, como a TV Globo, é impulsionado pelo fato de que se lucra muito com esse tipo de discurso. 

“A mentira foi o combustível, junto com o ódio, e, ao mesmo tempo, foi a mercadoria. Temos que lembrar que todos os fascistas não estão trabalhando por amor à causa, e sim por dinheiro, muito dinheiro”, criticou. “Inclusive essa imprensa que trabalha com fake news ganha muito dinheiro. Inclusive a Rede Globo, na hora em que um William Bonner deixa o Bolsonaro fazer aquela grande fake news usando o livro de uma autora belga, do kit gay, em escala nacional, ganha-se muito dinheiro, mesmo que não seja direto”.

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O espalhamento das fake news e da desinformação traz graves ameaças à ordem democrática, ponderou a filósofa, que vê no Brasil o caso emblemático desse problema. “A mentira também cresce no contexto das interpretações. Quando a gente vê a mentira correndo solta, ela destrói o patamar básico a partir do qual a gente conseguiria instaurar a democracia. Se não houver busca pela verdade, sustentação da verdade, a gente não tem como ter democracia. Desde a construção do golpe de 2016, já havia o funcionamento da mentira”, avaliou ela.

Marcia Tiburi alertou ainda para o crescimento do “negócio do fascismo” no Brasil, onde o discurso de ódio vem gerando bons resultados eleitorais. “Temos que tomar cuidado com os candidatos a Hitler. Existem muitos candidatos a Hitler ou candidatos a Bolsonaro. No Brasil, o fascismo virou um bom negócio político. Tanto que eles se elegeram às pencas em 2018. Os discursos mais estapafúrdios e inadequados tiveram um tremendo efeito de poder”, completou.

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Quaquá diz que Freixo perdeu as condições de ser o nome da esquerda no Rio

Washington Quaquá
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247 – O voto do deputado Marcelo Freixo (PSB-RJ) contra a PEC 5, que ampliaria a composição do Conselho Nacional do Ministério Público, para tentar impedir abusos de poder dos procuradores, provocou abalos na relação com o PT. "Ele (Freixo) perde completamente as condições de ser o candidato de esquerda no Rio. É trágico alguém que se diz da esquerda votar a favor de que o Ministério Público tenha autonomia de fazer o que quiser sem ter o escrutínio da sociedade brasileira", disse o vice-presidente do PT, Washington Quaquá, ao jornal O Globo.

A presidente nacional do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann, declarou que "lamento que a PEC não tenha sido aprovada. Venceu a pressão corporativa e midiática. O CNMP continuará um órgão de defesa da corporação e não de controle externo. Sinto que uma parte do campo progressista e popular não tenha entendido isso. Mas esse fato não será determinante para as alianças políticas que temos de fazer para derrotar Bolsonaro e seus apoiadores"

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Procurado, Freixo minimizou o mal-estar e disse que o apoio petista à sua candidatura não foi afetado para 2022. "Divergências podem acontecer. Não tem atrito algum na aliança", afirmou.

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_________________________________________________Bolsonaro espalha fake news de que pessoas vacinadas estão desenvolvendo Aids

247 - Bolsonaro foi flagrado em sua última live propagando mais uma mentira a respeito da imunização contra a Covid-19. Ele se baseou em uma Fake news espalhada pelo site conspiracionista beforeitnews.com, que publica textos dizendo que as vacinas rastreiam os vacinados e que milhões de pessoas estão desenvolvendo a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida  (AIDS) muito mais rápido do que o previsto. 

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De acordo com o portal G1, o Departamento de Saúde e Assistência Social do Reino Unido afirma que a publicação é de um site que propaga 'fake news' e teorias da conspiração e diz que a história não é verdadeira. Zahraa Vindhani, oficial de comunicações da Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido, também afirma que "as vacinas contra a Covid-19 não causam Aids". "A Aids é causada pelo HIV."

O autor da mensagem falsa insiste na tese de que a queda da eficácia da vacina se deve a uma queda da imunidade porque o seu sistema imune está se deteriorando pelas vacinas. "Não faz nenhum sentido", diz Letícia Sarturi,  professora titular na Universidade Paulista.

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Ela explica: "Primeiro porque a queda da imunidade com o decorrer do tempo é natural. Isso vai acontecer, não só para vacina de Covid, mas para qualquer vacina, para qualquer tipo de imunidade contra infecção. Com o decorrer do tempo, a imunidade vai ser menor, vai diminuindo. As vacinas contra a Covid provocam a imunidade e a gente tem visto que os níveis de anticorpos começam a se reduzir geralmente pelo sexto mês, ou sétimo, depende muito da vacina. Porém, as células que respondem, as células de memória, elas continuam ali presentes. Então, isso é um fato importante, porque isso ainda continua garantindo uma certa proteção, uma certa imunidade, por um tempo. A gente está entrando, por exemplo, na terceira dose para idosos porque essa redução no nível de anticorpos pode comprometer, sim, a imunização dos idosos. Isso é natural. É natural que a imunidade se ative, que forme células de memória e, com o decorrer do tempo, fatores solúveis como os anticorpos, que estão diluídos no sangue, diminuam, se depurem. Então a gente espera, sim, que com o decorrer do tempo a pessoa tenha uma redução nesses fatores associados à imunidade. Porém, falar que você está perdendo, deteriorando seu sistema imune sem nenhuma prova... Ali [no texto] não se prova nada, tem porcentagens colocadas em uma tabela e não tem nenhum experimento, não tem nenhum gráfico experimental usando algum tipo de metodologia, não tem nenhum tipo de aprovação de comitê de ética ou qualquer tipo de desenho, delineamento do experimento para a gente ver como é que foi conduzido isso para se chegar, de fato, a esses dados. Parecem uns cálculos retirados aleatoriamente. Me parece uma coisa muito de opinião, muito subjetivo". Isso porque, de fato, tal estudo jamais foi feito.

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Como o enrolado parceiro comercial do filho de Bolsonaro tentou me silenciar com ameaça à minha família - Joaquim de Carvalho

Por Joaquim de Carvalho

Jair Renan Bolsonaro e o parceiro comercial Allan Lucena, suspeitos de Lobby, o BO e o print da conversa ameaçadora
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Eu fui até a casa do personal trainer Allan Lucena, parceiro comercial de Jair Renan, depois que tomei conhecimento de uma estranha denúncia que ele fez, em registro de BO em 16 de março deste ano na Polícia Civil de Brasília. Ele  relatou que estava sendo seguido. 

Um dia antes do registro do BO,  a imprensa tinha noticiado que a PF investigaria a suposta ação de lobby praticada por ele e Jair Renan junto ao governo federal, para beneficiar a Gramazini Granitos e Mármores Thomazini

A notícia dava conta de que Jair Renan Bolsonaro teria recebido um carro elétrico de presente do grupo empresarial.

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Segundo o BO, no dia 16 de março, Allan viu na garagem do prédio onde mora um carro preto com uma pessoa gravando imagens dele com celular. Era o mesmo carro que tinha visto segui-lo nois dias anteriores.

Allan mandou o porteiro fechar o portão da garagem e chamou a PM. Os policiais descobriram então que quem estava no carro e gravava as imagens era o policial federal Luís Felipe Barros Félix. Ele foi qualificado e disse que estava lá para encontrar uma garota de programa. Allan foi à delegacia para registrar a queixa , mas o agente da PF não compareceu.

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A Polícia apurou, então, que Barros Félix estava lotado na Presidência da República — trabalharia para a Abin. 

Como faço documentário sobre o caso da facada ou suposta facada em Jair Bolsonaro em Juiz de Fora, sabia que esse Barros Félix era um dos principais segurança de Bolsonaro naquele dia do suposto atentado na cidade mineira.

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Procurei Allan Lucena na quinta-feira desta semana (21/10) porque queria detalhes sobre o monitoramento de que tinha sido alvo. 

Na portaria, o funcionário, depois de interfonar, disse que Allan não estava, mais o havia autorizado a passar o número do celular dele. 

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Eu então, ali mesmo, na calçada do prédio, liguei para Allan e fiz a entrevista, gravada em vídeo.

Allan não deu a razão pela qual, uma semana depois de registrar o BO, renunciou ao direito de representar contra o policial federal. Disse que tinha sido orientação do advogado, mas que não sabia por que. 

À noite da mesma quinta-feira, eu recebo uma ligação dele, que não pude atender. Retornei pouco depois, e Allan disse que havia ligado por engano.

No dia seguinte (22/10/2021), às 10h58, ele me mandou uma mensagem com o print de uma conversa com alguém não identificado:

Na conversa, em letras maiúsculas, está o nome completo da minha esposa e também o de um dos meus filhos. Na conversa, ele dizia que o meu telefone estava em nome dos dois, além do meu, o que é uma absoluta inverdade.

Abaixo do print, numa frase dirigida a mim, Allan afirmou “Vocês poderiam parar de me ligar?”

Eu não estava mais ligando para ele — já tinha feito a entrevista.

Por que me dar conhecimento de que sabia do nome completo da minha mulher e do meu filho? Para mim, é uma intimidação, como se dissesse: “Sei quem são”.

Isso é inaceitável. 

Num país em que a vereadora Marielle Franco foi assassinada e muitos jornalistas, alvo de agressão, inclusive homicídio, não posso me calar. Tornar público o ocorrido é uma forma de proteger.

Continuarei apurando histórias que pessoas como Allan Lucena querem esconder. 

Por que um segurança que falhou no dia da facada (ou suposta facada) em Juiz de Fora foi levado para dentro do Palácio do Planalto, e fazia operações de arapongagem sensíveis de interesse específico da família Bolsonaro? 

É a resposta que busco.

Sobretudo porque sabemos que Gustavo Bebianno, numa entrevista ao Roda Viva, disse que Carlos Bolsonaro — que havia estado em Juiz de Fora, no único ato público de campanha de que participou em 2018 — queria montar uma Abin paralela.

Bebianno disse que, alguns dias depois da posse de Bolsonaro, Carlos lhe apresentou quatro nomes para formar uma Abin paralela.

Bebianno, na mesma entrevista, relatou ter afirmado a ele: “Isso dá impeachment do seu pai”..

Bebianno morreu de infartdo em no dia 14 de março de 2020, aos 56 anos de idade.

Eu já mostrei que outros dois agentes da Polícia Federal que organizaram o esquema de segurança de Bolsonaro em Juiz de Fora foram nomeados para a Abin, depois que Alexandre Ramagem assumiu a direção-geral.

Luís Felipe pode ser outro que passou a integrar o que Bebianno chamou ser o desejo de Carlos Bolsonaro, a Abin paralela. 

A mim, como me repórter, cabe apurar. É o que estou fazendo e ameaças desse tipo, como a que sofri em Brasília, não me intimidarão.

Bolsonaro e o agente da PF Luíz Felipe Barros Félix(Photo: Bolsonaro segura no ombro do agente da PF Luíz Felipe Barros Félix em Juiz de Fora)Leonardo Costa
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Super-homem bissexual divide o vôlei brasileiro e gera troca de 'indiretas' lideradas por Douglas e Maurício

Atletas das seleções masculina e feminina se dividem entre críticas e celebração ao anúncio de que o herói irá se envolver com um rapaz
Na próxima edição da HQ, o filho de Clark e Lois irá se envolver com um amigo Foto: Reprodução
Na próxima edição da HQ, o filho de Clark e Lois irá se envolver com um amigo Foto: Reprodução

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O anúncio da DC Comics de que o super-homem será bissexual na próxima edição da HQ repercutiu não só no mundo dos quadrinhos como também dos esportes. O vôlei brasileiro se dividiu entre os que criticaram a novidade e os que saíram em sua defesa.

Assim que a editora norte-americana fez a revelação, o central Maurício Souza, do Taubaté e da seleção, usou as redes sociais para questionar. "Ah é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar", postou o jogador, ao lado de uma imagem do super-homem beijando um rapaz.

A postagem de Maurício foi seguida de comentários de outros atletas do vôlei, como Sidão e Wallace. Este último escreveu "Misericórdia", como forma de endossar a crítica.

A postagem repercutiu bastante, seja entre quem concorda com a posição, seja entre os que viram ali uma manifestação de preconceito. Nesta sexta, Douglas Souza, companheiro de Maurício na seleção, decidiu também entrar no debate. Sem citar o colega de profissão, o ponteiro celebrou a escolha da DC pela bissexualidade do super-homem.

"Engraçado que eu não “virei heterossexual “ vendo os super-heróis homens beijando mulheres….. Se uma imagem como essa te preocupa, sinto muito mas eu tenho uma novidade para sua heterossexualidade frágil kkkkkkkk Vai ter beijo sim. Obrigado DC por pensar em representar todos nós e não só uma parte", publicou o jogador, primeiro da seleção masculina a falar abertamente sobre sua homossexualidade.

A postagem de Douglas também repercutiu. Em pouco tempo, ele ganhou o apoio de jogadoras da seleção feminina do presente e do passado e de atletas de clubes. Sheilla Castro, Fabi Alvim, Carol Gattaz, Erika Coimbra, Gabi Guimarães e Suelle Oliveira estão entre as que comentaram concordando com a publicação.

Após a repercussão, Maurício voltou a usar suas redes sociais nesta sexta. De forma enigmática, também escreveu sem dizer a quem se referia.

"Hoje em dia o certo é errado e o errado é certo... Não se depender de mim. Se tem que escolher um lado eu fico do lado que eu acho certo! Fico com minhas crenças, valores e ideias", escreveu.

Maurício faz questão de se posicionar publicamente como conservador e de direita. Apoiador do presidente Jair Bolsonaro, ele estava no grupo que, em 2018, declarou voto no então candidato durante uma partida da seleção. Eduardo, filho de Bolsonaro e deputado federal por São Paulo, também usou as redes sociais para falar sobre a bissexualidade do super-homem.

Filho de Clark Kent

A nova edição do super-homem será lançada em novembro e faz parte da série "Superman: Son of Kal-El #5" (Superman: filho de Kal-El). Lançada em julho nos EUA, ela acompanha a vida do jovem Jonathan Kent, filho de 17 anos de Clark e de Lois Lane. A história acompanha seu processo de assumir o posto de herói do pai. Desde que foi publicada, já mostrou Jon combatendo incêndios florestais causados pela mudança climática, frustrando um tiroteio em um colégio e protestando contra a deportação de refugiados em Metrópolis.

De acordo com a DC Comics, o filho de Clark Kent e Lois Lane vai se envolver romanticamente com um amigo, o ativista hacker Jay Nakamura. Na série, os dois se conheceram enquanto o novo Super- homem tentava estabelecer uma identidade secreta e frequentar o ensino médio. O primeiro beijo vai acontecer na quinta edição da série, publicada no próximo mês.

A bissexualidadde de Superman é um momento importante na história dos quadrinhos, já que este herói segue um modelo padrão de homem. Além de Jonathan Kent, outros personagens abraçaram a diversidade e estão envolvidos com questões sociais.  Numa das versões, o ajudante de Batman, Robin, reconheceu recentemente os sentimentos românticos por um amigo do sexo masculino.

Na edição mais recente de "Batman: urban legends", publicação escrita por Meghan Fitzmartin e com arte de Belén Ortega, o personagem Tim Drake assume sua nova orientação sexual. Junto aos dois, uma nova história em quadrinhos de Aquaman é estrelada por um homem negro gay que, provavelmente, se tornará o herói do título.

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Opinião: Matheus Pichonelli - Delfim Netto versão guru resume nossa incapacidade de produzir alternativas

Antônio Delfim Netto participa do UOL Entrevista - Reprodução/MOV
Antônio Delfim Netto participa do UOL Entrevista Imagem: Reprodução/MOV
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Matheus Pichonelli

Colunista do TAB

13/10/2021 13h48

Um amigo costuma dizer que Antonio Delfim Netto é uma espécie de Patati Patatá da economia.

A dupla de palhaços, para quem não sabe, intrigava crianças e, principalmente, os pais das crianças, fazendo apresentações em diferentes lugares ao mesmo tempo. Só então se descobriu que havia uma "matriz" (na verdade, duas, pois uma dupla) que licenciava a marca e autorizava os muitos clones artísticos a se espalharem pelos palcos do Brasil.

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O Delfim, jurava este amigo, devia ser pioneiro na reprodução de si mesmo em escala industrial. Só isso poderia explicar sua onipresença em jantares, entrevistas, aulas, palestras, noites de autógrafo (de livros escritos por ele, quase sempre), consultorias e encontros com presidentes e candidatos. Em todos os convescotes, parece estar à vontade, fantasiado de oráculo.

A impressão é que tem sido assim desde 1967, quando fez parte de decisões importantes relacionadas à política econômica no país. Muita coisa mudou depois disso. Mas algo permaneceu imutável: a chance de abrir qualquer jornal, às vezes mais de um, e encontrar Delfim Netto falando de temas que vão do teto de gastos a Francis Bacon.

Ex-ministro da Fazenda nos tempos da ditadura, quando ainda não tinha virado uma franquia (sempre segundo a hipótese do meu amigo), Delfim era um dos presentes à mesa de reunião que instituiu o AI-5, instrumento que marcou o período mais repressivo do regime, em dezembro de 1968. Talvez a pergunta que ele (ou seus clones) mais tenha respondido na vida foi se não se arrepende de ter votado, sem ressalvas, pelo ato institucional que fez adversários e opositores políticos serem dragados e engolidos.

A resposta a essa pergunta é sempre "não".

Em setembro, Delfim afirmou em entrevista ao UOL que voltaria, sim, a assinar o AI-5, porque "aquilo era um processo revolucionário". "As pessoas não conhecem história, ficam julgando o passado, como se fosse o presente. Naquele instante foi correto, só que você não conhece o futuro."

De passado o ex-ministro entende.

Dias atrás, em uma entrevista a Pedro Bial, Delfim (aparentemente, o original) foi instigado, com uma pergunta/afirmação, a falar sobre os candidatos que lideram a corrida para presidente em 2022. O tema da conversa eram os rumos da economia brasileira. Junto a eles estava o presidente de um banco.

"Fomos incapazes até agora de produzir alguma alternativa. As duas (candidaturas) são déjà vu, as duas já deram o que tinham que dar, são bananeiras que já deram cacho e precisamos encontrar outros caminhos", disse, aos 93 anos, o oráculo que está na pista desde os anos 1960.

As bananeiras, no caso, eram Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. O último é figura essencial para entender por que entra governo, sai governo, e a impressão que se tem é que Delfim Netto continua ali, numa espécie de pedra fundamental, e onipresente, de qualquer palácio.

Em dezembro de 2006, aos 61, o então presidente Lula causou celeuma ao declarar que quem passou dos 60 anos e ainda se dizia de esquerda tinha algum problema. Para mostrar que havia tomado a estrada de Damasco sem se perder, ele declarou ser amigo do Delfim Netto. "Passei 20 e tantos anos criticando o Delfim Netto e agora ele é meu amigo e eu sou amigo dele. Por que eu estou dizendo isso? Porque eu acho que é a evolução da espécie humana."

O autor daquela teoria da evolução política agora tem as bananas do cacho rejeitadas pelo companheiro Delfim, que havia sinalizado apoio a ele desde a eleição de 1998. Na campanha de 2006, Delfim chegou a subir no palanque ao lado de Lula. Mesmo com o padrinho político, ele não conseguiu se reeleger deputado federal —segundo Lula, por "preconceito das elites". Pouco depois, foi nomeado para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão.

Em sua delação premiada, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci afirmou que Delfim recebera R$ 4 milhões em um acerto de propinas, supostamente envolvendo o PT e uma construtora. Ele chegou a ser alvo de uma operação da PF na Lava Jato.

Por essas e outras, a declaração de Delfim a Pedro Bial repercutiu. Principalmente nas redes, onde não passou despercebido o lugar de fala do ex-ministro da ditadura para falar sobre o sequestro do futuro pelos representantes do... passado.

Delfim pagava, assim, com ingratidão a quem sempre lhe deu as mãos e os ouvidos.

Como sempre, a discussão sobre a frase se tornou uma discussão sobre por que tanta gente quer saber o que pensa Delfim Netto. Com anos de experiência em cobertura econômica, meu amigo Mario Sérgio Lima lembra que, a rigor, Delfim nunca deixou de ser ouvido.

O que, segundo ele, é uma coisa assustadora, já que ele não é, digamos, levado assim tão a sério pela academia — diferentemente dos governos petistas, que o recolocaram na primeira prateleira de conselheiros fundamentais das grandes decisões, sobretudo nos anos Dilma.

É o que permitiu chegar até aqui num moto-contínuo de quem tem muita opinião, já exerceu cargos de relevância, tem ainda ligações políticas e, principalmente, é sempre acessível a atender jornalistas.

Atesto e dou fé. Em 2006, logo depois da declaração de Lula, fui pautado para repercutir a polêmica com o próprio Delfim. Ele (ou um dos clones) estava em um evento na av. Faria Lima. Ao fim de sua palestra, perguntei o que ele tinha a dizer. Não lembro da resposta, mas lembro que ele parecia frágil, com uma gripe persistente que o fazia espirrar e assoar o nariz com o lenço, antes de concluir cada frase.

Voltei para a redação sem texto e com a sensação, compartilhada entre os amigos, de que aquela poderia ser uma das últimas aparições públicas do ex-ministro. Pois é. Sobre acertos e prognósticos, não posso acusar ninguém.

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Opinião: Matheus Pichonelli - O que a gargalhada de Flávio Bolsonaro diz sobre ele? E sobre nós?

20 out. 2021 - Senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) ironiza possível indiciamento do pai pela CPI da Covid - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
20 out. 2021 - Senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) ironiza possível indiciamento do pai pela CPI da Covid Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
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Os olhos vermelhos de Jair Bolsonaro, cansados de chorar no banheiro, querem sorrir.

Frustrado desde que o golpe ensaiado em 7 de Setembro foi barrado, provavelmente por algum interlocutor militar indisposto a se converter em brinquedo GI Joe, o presidente confessou, dias atrás, que deixa correr as lágrimas em seus momentos de intimidade — em segredo da companheira, para não mostrar fraqueza.

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Fato é que Bolsonaro, que quando quer chorar vai ao banheiro, como o amigo Pedro de Raul Seixas, gargalhou. Foi o que disse o senador Flávio Bolsonaro (qual seu partido agora mesmo?), ao comentar como o papai teria reagido ao saber que nove crimes haviam sido imputados a ele no relatório da CPI da Covid, entre eles o de charlatanismo.

O 01 foi além. Fez questão de interpretar, com entonação de cantor de ópera, a risada peculiar já vista em outras cenas, como quando o 00 imitou um doente terminal com falta de ar; quando insinuou que as pessoas estavam fingindo ter covid para buscar tratamento de ozônio via retal; ou quando mandou um eleitor comprar vacina na casa da mãe — para deleite de uma plateia qualificada e divertida.

Não fossem, ele e os filhos com mandato, cérebros de pretensões ginasiais presos em corpos amadurecidos, seria possível desconfiar que a família andou lendo Umberto Eco. No livro "O Nome da Rosa", há um diálogo profundo, e talvez inacessível para o clã, sobre o riso e o pecado.

Nas palavras do soturno personagem Jorge de Burgos, espécie de Damares Alves do mosteiro medieval, o riso libera o indivíduo do medo do demônio, tornando-o vulnerável às suas armadilhas. A risada levaria o homem a afrontar as autoridades humanas e divinas. Justo aquelas que o bordão da família prometeu colocar acima de todos.

"O que queremos nós, criaturas pecadoras, sem o medo, talvez o mais benéfico e afetuoso dos dons divinos?", discursa o velho monge da ficção.

Flávio, talvez vestindo a indumentária de Sean Connery no filme homônimo, queria "rir e dizer coisas ridículas, ainda que para humilhar seus próprios inimigos".

Os inimigos eram os integrantes da CPI que pedem a responsabilização do pai por ter feito exatamente o que eles dizem que ele fez. A lista é conhecida.

Só que a risada interpretada pelo filho era tão convincente quanto os princípios liberais de Paulo Guedes. O cacoete cômico não passaria na seleção de escola dramática. Flávio Bolsonaro é, antes de tudo, um mau ator.

Fora de cena, o que existiria, de verdade, naquele coração maltratado pela vida e que ri da própria desgraça e a dos compatriotas?

Seria então, aquela risada, um transtorno, como o riso nervoso em resposta ao estresse de saber que, das três opções dadas pelo 00 em seu discurso no 7 de Setembro (vitória, cadeia ou a morte), a cela é a que está mais próxima do horizonte presidencial?

Ou seria uma risada simulada à la Arthur Fleck no filme "Coringa"?

(O personagem, sim, sofre de "crise de epilepsia gelástica", um tipo raro de convulsão que se manifesta à revelia da vontade — segundo especialistas, acontece não quando a pessoa está feliz, mas desmotivada).

Involuntária a risada de Flávio Bolsonaro não é. Feliz ele também não estava. Seria um escape?

Fiz essa pergunta a um conhecido psiquiatra e psicanalista, para quem o único dado aparente é a perversidade. Uma característica que se manifesta também quando o irmão 03 posa de "sheik" enquanto os súditos caçam ossos ou quando o pai contém o riso ao mandar o paciente avesso a cloroquina tomar Tubaína.

Aquele riso, me garante o professor (que não vamos identificar), não é o riso de quem tem confiança na própria impunidade. É o riso de quem sabe que foi pego mas se diverte chocando os algozes e a plateia — que corre, quase sempre, para passar recibo manifestando repúdio e horror. Não aqui, Flávio.

No fim, o que ele quer é mostrar o desprezo e a relação mórbida com o pacto civilizatório e a lei, sobre a qual tenta o tempo todo demonstrar superioridade. É a estratégia do vilão do filme "Seven", que testa o bom-mocismo do personagem de Brad Pitt até ele explodir e provar que, no fundo, eles são iguais. Entre risos e lágrimas de crocodilo, o papel de vítima é o que a família faz de melhor quando a molecagem é repreendida.

Um amigo psicólogo, em conversa reservada, explica por que se sente impedido de opinar sobre a personalidade do 01 exposta naquela risada. Primeiro porque seria necessário acompanhar o paciente. Segundo porque, nesse caso, a relação seria sigilosa. De vez em quando um juiz pede uma avaliação a profissionais para saber se determinada pessoa tem desvio de personalidade ou condições de ocupar o cargo que ocupa.

Qualquer coisa fora disso seria buscar algo onde encaixar o personagem, numa manipulação da psicologia para buscar a explicação de um fenômeno que é social, político — e criminoso. Vem então a tentação de periciar o fato delitivo pela explicação médica, como se o delito fosse sempre patológico.

Noves fora, ele me recomenda ler o que Freud escreveu sobre personalidade perversa, aquela que goza no mal que faz. Pode ser um caminho para entender o jogo entre a risada perversa e a risada aflita de quem sabe que se deu mal. Freud e, nesse caso, Steve Bannon, o guru alfabetizado da turma, explicam.

Enquanto buscamos pistas, Flavinho seguirá rindo. Ou chorando. Tem banheiro na prisão?

_________________________________________________Estudo aponta queda na desigualdade entre 2003 e 2015, mas Folha não cita Lula, Dilma e PT

Dilma Rousseff e Lula
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247 - Uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo destacou um estudo que mostra a queda da desigualdade social nas gestões dos governos do PT. No entanto, em nenhum momento a reportagem revela que as políticas sociais foram aplicadas pelos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. 

“Feito por economistas do Insper, o trabalho inédito, ao qual a Folha teve acesso, mostra que a disparidade na distribuição de recursos no país caiu de forma ininterrupta entre 2002 e 2015, voltando a aumentar em 2016 e 2017, mas para um nível inferior ao da virada do milênio. Os resultados do novo trabalho indicam que todas as fatias da população adulta brasileira —dividida em cem partes iguais, os chamados centésimos da distribuição— situadas abaixo dos 29% mais ricos tiveram crescimento em suas rendas anuais acima da média nacional de 3%, no período analisado”, diz a reportagem, sem atribuir o mérito às gestões petistas.

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A deputada federal Gleisi Hoffmann condenou a postura do jornal: “Desigualdade de renda no Brasil ainda é muito grande. Mas este estudo mostra que pode ser diminuída e revertida, com políticas públicas adequadas e presença forte do Estado. O que espanta é que em nenhum momento falam que neste período era Lula, o PT, que governavam o Brasil”.

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Opinião: Matheus Pichonelli - Ofensa a casal vira caso de polícia e uma aula de como tratar um racista

Em mensagens privadas, Amanda Klimick leu absurdos sobre seu relacionamento com Jota Júnior, registrou tudo e foi à polícia - Instagram/Reprodução
Em mensagens privadas, Amanda Klimick leu absurdos sobre seu relacionamento com Jota Júnior, registrou tudo e foi à polícia Imagem: Instagram/Reprodução
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Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

09/10/2021 04h00

Amanda Klimick recebeu um comentário estranho de um desconhecido pelo Instagram. "Que vergonha", escreveu para ela Álvaro Hauschild, doutorando de filosofia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). O comentário foi seguido de um emoji vomitando.

A psicóloga enviou não um, mas cinco pontos de interrogação para entender o que aquilo significava. Hauschild explicou. Disse que ela deveria arrumar um namorado que não a fizesse passar vergonha. Referia-se a Jota Júnior, estudante de Políticas Públicas da mesma universidade.

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Após mostrar a mensagem para o namorado, que é negro, o casal decidiu dar corda para ver até onde ia a conversa. E ela, sem censura, foi até onde prometia chegar.

Nas mensagens, às quais o jornal O Globo teve acesso, Hauschild descreveu Jota Júnior como um "palhaço de circo". Disse que ela era uma mulher bonita, "de família", e merecia "algo à tua altura". Ele perguntou se ela já tinha pensado como seriam seus descendentes caso eles tivessem filhos. Sugeriu que ela era de origem viking e que europeus teriam cérebro complexo e desenvolvido para as abstrações intelectuais, enquanto os negros seriam um "problema sério" nas sociedades desenvolvidas.

Ele também escreveu que pessoas negras exalam "um cheiro típico" e têm o "cérebro programado para fazer o máximo de filhos que puder" para "harmonizar bem na savana". Lá a natureza "dava cabo neles".

Os argumentos pareciam tirados de algum capítulo de "Mein Kampf", o livro recheado de teses racistas escrito por Adolf Hitler. Mas era "só" a página pessoal de um jovem branco brasileiro, morador de um país onde células neonazistas se espalham aos montes, e confortável ao compartilhar mensagens para confirmar seu supremacismo imaginário.

Amanda Klimick fez o que todo mundo que testemunha crimes do tipo deveria fazer: chamou a polícia e expôs o criminoso. Ao menos ali, a correia de transmissão foi cortada.

Como Hauschild, existe uma multidão de pessoas brancas que, em espaços reservados e supostamente protegidos, assinaria embaixo de cada linha do que escreveu o doutorando racista. Essas ideias seguem submersas como bloco de gelo de um iceberg do qual só vemos a ponta — quando um ataque direto vem à tona. A base desse iceberg geralmente permanece intacta porque opera em segurança. O racista é, antes de tudo, um covarde.

Nos círculos restritos a pessoas brancas, quantos filhos não ouviram dos pais e amigos conversas parecidas sobre namorados ou suas namoradas de pele escura? Quantas piadas não foram replicadas como numa chave de irmandade racista? Quantas pessoas brancas ficaram sem respostas ao pronunciar em voz alta seu incômodo com a presença de pessoas negras nas universidades ou com os ativismos que adoram chamar de vitimismo? Quantos não foram aplaudidos por fazer troça de símbolos da cultura afro ou com a conversa batida de que não deveria existir o dia da consciência negra, pois todos somos humanos, todas as vidas importam e coisas do tipo?

O caso me fez lembrar de que, quando criança, costumava ouvir de conhecidos brancos coisas horríveis sobre um certo árbitro negro de futebol. "Esse macaco sempre fode meu time", diziam, no conforto da TV e da audiência das pessoas ao redor da sala.

A ofensa não chegava aos ouvidos do juiz. Mas, velada, ela seguia viva e perigosa como um petardo.

No mesmo jogo, quando um atleta errava um passe, a fúria passava sempre pelo filtro da cor da pele. "Não é por nada, mas tinha que ser, né?"

O mesmo acontecia no trânsito. Ou quando algum profissional falhava e tinha a cor da pele apontada como a razão da petulância.

São típicos comentários que pessoas brancas costumam ouvir quando estão diante de quem, por alguma razão, se sente confortável para manifestar sua visão odiosa de mundo. Nessas horas, o mínimo a fazer é deixar claro que ali naquele espaço, em casa, no bar, no trabalho ou nas mensagens privadas de rede social, o racista, chamado pelo nome, não é bem-vindo.

Nada garantiria que ele não seguirá pensando o que pensa, mas se guardar para ele, pelo constrangimento ou medo da rejeição, ao menos as crianças da sala serão poupadas de sua idiotice. Elas ao menos não correriam tantos riscos de replicar o ódio naturalizado.

Foi o que Amanda Klimick fez. Quebrou a correia de transmissão ao tirar o racista do armário, onde se sentia protegido, e levá-lo a conhecer o caminho da responsabilização.

Como estamos cansados de saber (estamos?), não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. E isso exige brecar e constranger o racista no ambiente em que ele mais se sente confortável: as sombras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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Opinião: Matheus Pichonelli - Sem feijões e com fuzis, Brasil grita 'eu autorizo' para jogar seu Round 6

"Squid Game", a série sul-coreana da Netflix - AFP
'Squid Game', a série sul-coreana da Netflix Imagem: AFP
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Matheus Pichonelli

Colunista do TAB

16/10/2021 04h00

Em uma das cenas mais intrigantes do primeiro capítulo de "Round 6", a série sul-coreana que se tornou um fenômeno da Netflix, os sobreviventes de um jogo mortal, assustados com a carnificina que acabava de eliminar a tiros metade dos participantes, descobrem que podem encerrar a brincadeira macabra caso entrassem em acordo por meio de uma votação. Se a maioria aceitasse, a partida seria encerrada no primeiro round.

Uma urna de opção binária, com as opções sim ou não, é então levada até eles. O sufrágio tem início imediato.

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Se o segredo do sucesso da série foi ter assimilado o espírito do seu tempo, a cena capturava ali um impasse político central. O processo de votação naquela sala trancada, cheia de armas apontadas para os eleitores, ocorre sem qualquer debate mais aprofundado entre eles.

Como máquinas, eles se levantam, apertam o botão e voltam a seus postos. Alguns até justificam a escolha, mas sempre pela perspectiva individual que descambava em bate-boca.

Quem decidia continuar via naquele matadouro ao menos uma chance de vencer na vida. Uma chance que não existia do lado de fora, onde todos trafegavam solitários, endividados, socialmente julgados e previamente condenados.

A alegoria parece óbvia.

Enquanto a série faz sucesso, milionários da vida real se divertem em voos espaciais às custas da destruição observada abaixo da estratosfera. Espectadores sádicos riem das desgraças pessoais expostas em programas de entretenimento da tevê — "vamos reformar a sua casa, desde que você aceite pisar em todos esses pregos levando torta na cara".

Trabalho escravo é justificado como oportunidade.

Nações miram suas armas contra nações e suas próprias populações.

Ossos de animais são disputados a tapa onde a carestia se tornou a regra.

No filme "Em chamas", do também sul-coreano Lee Chang-dong, o protagonista de origem humilde está prestes a perder tudo o que tem para o personagem rico da história. Ele pergunta ao algoz o que este faz da vida para conseguir ostentar tanta riqueza e tanta segurança na vitória. "Eu jogo", ele responde.

A frase misteriosa parece ser a chave para entender o jogo de vitoriosos e vencidos da série conterrânea. Um jogo que também estava em cena em obras como "Parasita", vencedor do Oscar que se passa em uma mansão cheia de escadas e alegorias hierárquicas em Seul.

Não é difícil, para alguém do outro lado do mundo, se identificar com aqueles personagens. Estamos todos condenados.

Lá, como cá, os desejos de expansão foram surrados pela lógica da sobrevivência. Ela encurta e danifica muitas das possibilidades de saída. Exclusão e eliminação tornam-se, assim, palavras-irmãs.

Na pandemia, esse abatedouro em que só uns estavam supostamente predestinados a atravessar a linha ficou evidente. As regras de quem apitava o jogo também. Vai morrer gente? Vai. Paciência. Lamentamos, mas a vida é isso aí: quem tem histórico de atleta passa para a próxima fase. Quem não tem, azar. Todos vamos morrer um dia. E entre os alvos principais dos tiros, digo, do vírus, estava gente obesa ou com alguma comorbidade. Menos mal. Daqui a pouco vão querer viver até os 120 anos. O jogo apenas encurtou o sofrimentoVamos chorar até quando?

Naquela cena de "Round 6" é possível observar, em atos e discursos, a morte da mediação política para as saídas de impasses coletivos. Até para sobreviver é preciso ter mérito.

Antes de entender as razões de alguém apontar uma arma contra os próprios participantes do jogo é necessário entender por que alguém aceita se sujeitar a isso.

Essa sujeição é a etapa posterior à anulação daqueles personagens como sujeitos. Seong Gi-Hun, o participante interpretado por Lee Jung-Jae, é um zé-ninguém perante a mãe e a filha porque precisa de dinheiro emprestado para comprar um frango. Por não ter grana, ele (quase) nada pode fazer para impedir que a criança fosse tirada do seu convívio. O pouco que tem é disputado e pilhado por pessoas como ele. Curiosamente, o único presente que consegue dar à filha aniversariante é uma arma.

Como um sujeito solto em um conjunto disperso, Seong Gi-Hun vai sozinho à delegacia denunciar o absurdo que acabava de testemunhar. Sem outras testemunhas, o massacre é visto apenas como delírio de alguém que se desencontrou dos pares e do juízo.

Dentro do jogo, o que move os participantes convertidos em eleitores, como ele, não é (só) a vontade de vencer, representada pelo caminhão de dinheiro acima de todos. É o desespero. E, quando o desespero entra na conta, as armas deixam de ser um risco e se tornam uma baliza. Ao menos elas são visíveis e alguém está dizendo, sem meias palavras, que a regra é clara e violenta.

O resto é a barbárie.

No primeiro round, os participantes só podem caminhar em direção à linha de chegada enquanto um brinquedo-robô enorme, capaz de detectar qualquer movimento, toca os versos de uma inocente canção infantil: "batatinha frita, 1, 2, 3". Quem se mexer ao fim da música é alvejado.

Chama atenção, na cena, que boa parte dos eliminados apenas piscou ou tremeu os lábios antes de ter os corpos estraçalhados. Se fosse um jogo entre iguais, eles poderiam ao menos contestar a sentença. Essa possibilidade de defesa simplesmente não existe quando do outro lado da negociação está um fuzil. Os exemplos de quem se moveu em território vigiado e armado até os dentes e recebeu como alerta a pena de morte pululam na vida real.

Se vão morrer alguns inocentes, tudo bem, diria um filósofo da carnificina.

De 2018 para cá, o Brasil se tornou laboratório de um experimento sádico em que a plataforma eleitoral vitoriosa, torcida e retorcida, se resumia apenas a uma grande arma, acessível a quem tivesse condições, apontada aos participantes do jogo.

Num exercício de autoengano, topamos jogar o jogo porque não nos reconhecemos como possível alvo — nem do Estado nem das discussões no trânsito, da violência doméstica, dos ajustes de conta, das cobranças de dívidas.

A esperança, em ambos os jogos, é que só o outro seja eliminado.

Isso lá é esperança?

Vou tentar descobrir nos próximos capítulos.

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Opinião: Matheus Pichonelli - Delfim Netto versão guru resume nossa incapacidade de produzir alternativas

Antônio Delfim Netto participa do UOL Entrevista - Reprodução/MOV
Antônio Delfim Netto participa do UOL Entrevista Imagem: Reprodução/MOV
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Matheus Pichonelli

Colunista do TAB

13/10/2021 13h48

Um amigo costuma dizer que Antonio Delfim Netto é uma espécie de Patati Patatá da economia.

A dupla de palhaços, para quem não sabe, intrigava crianças e, principalmente, os pais das crianças, fazendo apresentações em diferentes lugares ao mesmo tempo. Só então se descobriu que havia uma "matriz" (na verdade, duas, pois uma dupla) que licenciava a marca e autorizava os muitos clones artísticos a se espalharem pelos palcos do Brasil.

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O Delfim, jurava este amigo, devia ser pioneiro na reprodução de si mesmo em escala industrial. Só isso poderia explicar sua onipresença em jantares, entrevistas, aulas, palestras, noites de autógrafo (de livros escritos por ele, quase sempre), consultorias e encontros com presidentes e candidatos. Em todos os convescotes, parece estar à vontade, fantasiado de oráculo.

A impressão é que tem sido assim desde 1967, quando fez parte de decisões importantes relacionadas à política econômica no país. Muita coisa mudou depois disso. Mas algo permaneceu imutável: a chance de abrir qualquer jornal, às vezes mais de um, e encontrar Delfim Netto falando de temas que vão do teto de gastos a Francis Bacon.

Ex-ministro da Fazenda nos tempos da ditadura, quando ainda não tinha virado uma franquia (sempre segundo a hipótese do meu amigo), Delfim era um dos presentes à mesa de reunião que instituiu o AI-5, instrumento que marcou o período mais repressivo do regime, em dezembro de 1968. Talvez a pergunta que ele (ou seus clones) mais tenha respondido na vida foi se não se arrepende de ter votado, sem ressalvas, pelo ato institucional que fez adversários e opositores políticos serem dragados e engolidos.

A resposta a essa pergunta é sempre "não".

Em setembro, Delfim afirmou em entrevista ao UOL que voltaria, sim, a assinar o AI-5, porque "aquilo era um processo revolucionário". "As pessoas não conhecem história, ficam julgando o passado, como se fosse o presente. Naquele instante foi correto, só que você não conhece o futuro."

De passado o ex-ministro entende.

Dias atrás, em uma entrevista a Pedro Bial, Delfim (aparentemente, o original) foi instigado, com uma pergunta/afirmação, a falar sobre os candidatos que lideram a corrida para presidente em 2022. O tema da conversa eram os rumos da economia brasileira. Junto a eles estava o presidente de um banco.

"Fomos incapazes até agora de produzir alguma alternativa. As duas (candidaturas) são déjà vu, as duas já deram o que tinham que dar, são bananeiras que já deram cacho e precisamos encontrar outros caminhos", disse, aos 93 anos, o oráculo que está na pista desde os anos 1960.

As bananeiras, no caso, eram Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. O último é figura essencial para entender por que entra governo, sai governo, e a impressão que se tem é que Delfim Netto continua ali, numa espécie de pedra fundamental, e onipresente, de qualquer palácio.

Em dezembro de 2006, aos 61, o então presidente Lula causou celeuma ao declarar que quem passou dos 60 anos e ainda se dizia de esquerda tinha algum problema. Para mostrar que havia tomado a estrada de Damasco sem se perder, ele declarou ser amigo do Delfim Netto. "Passei 20 e tantos anos criticando o Delfim Netto e agora ele é meu amigo e eu sou amigo dele. Por que eu estou dizendo isso? Porque eu acho que é a evolução da espécie humana."

O autor daquela teoria da evolução política agora tem as bananas do cacho rejeitadas pelo companheiro Delfim, que havia sinalizado apoio a ele desde a eleição de 1998. Na campanha de 2006, Delfim chegou a subir no palanque ao lado de Lula. Mesmo com o padrinho político, ele não conseguiu se reeleger deputado federal —segundo Lula, por "preconceito das elites". Pouco depois, foi nomeado para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão.

Em sua delação premiada, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci afirmou que Delfim recebera R$ 4 milhões em um acerto de propinas, supostamente envolvendo o PT e uma construtora. Ele chegou a ser alvo de uma operação da PF na Lava Jato.

Por essas e outras, a declaração de Delfim a Pedro Bial repercutiu. Principalmente nas redes, onde não passou despercebido o lugar de fala do ex-ministro da ditadura para falar sobre o sequestro do futuro pelos representantes do... passado.

Delfim pagava, assim, com ingratidão a quem sempre lhe deu as mãos e os ouvidos.

Como sempre, a discussão sobre a frase se tornou uma discussão sobre por que tanta gente quer saber o que pensa Delfim Netto. Com anos de experiência em cobertura econômica, meu amigo Mario Sérgio Lima lembra que, a rigor, Delfim nunca deixou de ser ouvido.

O que, segundo ele, é uma coisa assustadora, já que ele não é, digamos, levado assim tão a sério pela academia — diferentemente dos governos petistas, que o recolocaram na primeira prateleira de conselheiros fundamentais das grandes decisões, sobretudo nos anos Dilma.

É o que permitiu chegar até aqui num moto-contínuo de quem tem muita opinião, já exerceu cargos de relevância, tem ainda ligações políticas e, principalmente, é sempre acessível a atender jornalistas.

Atesto e dou fé. Em 2006, logo depois da declaração de Lula, fui pautado para repercutir a polêmica com o próprio Delfim. Ele (ou um dos clones) estava em um evento na av. Faria Lima. Ao fim de sua palestra, perguntei o que ele tinha a dizer. Não lembro da resposta, mas lembro que ele parecia frágil, com uma gripe persistente que o fazia espirrar e assoar o nariz com o lenço, antes de concluir cada frase.

Voltei para a redação sem texto e com a sensação, compartilhada entre os amigos, de que aquela poderia ser uma das últimas aparições públicas do ex-ministro. Pois é. Sobre acertos e prognósticos, não posso acusar ninguém.

_________________________________________________Opinião: Matheus Pichonelli - O que a gargalhada de Flávio Bolsonaro diz sobre ele? E sobre nós?

20 out. 2021 - Senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) ironiza possível indiciamento do pai pela CPI da Covid - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
20 out. 2021 - Senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) ironiza possível indiciamento do pai pela CPI da Covid Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

Os olhos vermelhos de Jair Bolsonaro, cansados de chorar no banheiro, querem sorrir.

Frustrado desde que o golpe ensaiado em 7 de Setembro foi barrado, provavelmente por algum interlocutor militar indisposto a se converter em brinquedo GI Joe, o presidente confessou, dias atrás, que deixa correr as lágrimas em seus momentos de intimidade — em segredo da companheira, para não mostrar fraqueza.

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Fato é que Bolsonaro, que quando quer chorar vai ao banheiro, como o amigo Pedro de Raul Seixas, gargalhou. Foi o que disse o senador Flávio Bolsonaro (qual seu partido agora mesmo?), ao comentar como o papai teria reagido ao saber que nove crimes haviam sido imputados a ele no relatório da CPI da Covid, entre eles o de charlatanismo.

O 01 foi além. Fez questão de interpretar, com entonação de cantor de ópera, a risada peculiar já vista em outras cenas, como quando o 00 imitou um doente terminal com falta de ar; quando insinuou que as pessoas estavam fingindo ter covid para buscar tratamento de ozônio via retal; ou quando mandou um eleitor comprar vacina na casa da mãe — para deleite de uma plateia qualificada e divertida.

Não fossem, ele e os filhos com mandato, cérebros de pretensões ginasiais presos em corpos amadurecidos, seria possível desconfiar que a família andou lendo Umberto Eco. No livro "O Nome da Rosa", há um diálogo profundo, e talvez inacessível para o clã, sobre o riso e o pecado.

Nas palavras do soturno personagem Jorge de Burgos, espécie de Damares Alves do mosteiro medieval, o riso libera o indivíduo do medo do demônio, tornando-o vulnerável às suas armadilhas. A risada levaria o homem a afrontar as autoridades humanas e divinas. Justo aquelas que o bordão da família prometeu colocar acima de todos.

"O que queremos nós, criaturas pecadoras, sem o medo, talvez o mais benéfico e afetuoso dos dons divinos?", discursa o velho monge da ficção.

Flávio, talvez vestindo a indumentária de Sean Connery no filme homônimo, queria "rir e dizer coisas ridículas, ainda que para humilhar seus próprios inimigos".

Os inimigos eram os integrantes da CPI que pedem a responsabilização do pai por ter feito exatamente o que eles dizem que ele fez. A lista é conhecida.

Só que a risada interpretada pelo filho era tão convincente quanto os princípios liberais de Paulo Guedes. O cacoete cômico não passaria na seleção de escola dramática. Flávio Bolsonaro é, antes de tudo, um mau ator.

Fora de cena, o que existiria, de verdade, naquele coração maltratado pela vida e que ri da própria desgraça e a dos compatriotas?

Seria então, aquela risada, um transtorno, como o riso nervoso em resposta ao estresse de saber que, das três opções dadas pelo 00 em seu discurso no 7 de Setembro (vitória, cadeia ou a morte), a cela é a que está mais próxima do horizonte presidencial?

Ou seria uma risada simulada à la Arthur Fleck no filme "Coringa"?

(O personagem, sim, sofre de "crise de epilepsia gelástica", um tipo raro de convulsão que se manifesta à revelia da vontade — segundo especialistas, acontece não quando a pessoa está feliz, mas desmotivada).

Involuntária a risada de Flávio Bolsonaro não é. Feliz ele também não estava. Seria um escape?

Fiz essa pergunta a um conhecido psiquiatra e psicanalista, para quem o único dado aparente é a perversidade. Uma característica que se manifesta também quando o irmão 03 posa de "sheik" enquanto os súditos caçam ossos ou quando o pai contém o riso ao mandar o paciente avesso a cloroquina tomar Tubaína.

Aquele riso, me garante o professor (que não vamos identificar), não é o riso de quem tem confiança na própria impunidade. É o riso de quem sabe que foi pego mas se diverte chocando os algozes e a plateia — que corre, quase sempre, para passar recibo manifestando repúdio e horror. Não aqui, Flávio.

No fim, o que ele quer é mostrar o desprezo e a relação mórbida com o pacto civilizatório e a lei, sobre a qual tenta o tempo todo demonstrar superioridade. É a estratégia do vilão do filme "Seven", que testa o bom-mocismo do personagem de Brad Pitt até ele explodir e provar que, no fundo, eles são iguais. Entre risos e lágrimas de crocodilo, o papel de vítima é o que a família faz de melhor quando a molecagem é repreendida.

Um amigo psicólogo, em conversa reservada, explica por que se sente impedido de opinar sobre a personalidade do 01 exposta naquela risada. Primeiro porque seria necessário acompanhar o paciente. Segundo porque, nesse caso, a relação seria sigilosa. De vez em quando um juiz pede uma avaliação a profissionais para saber se determinada pessoa tem desvio de personalidade ou condições de ocupar o cargo que ocupa.

Qualquer coisa fora disso seria buscar algo onde encaixar o personagem, numa manipulação da psicologia para buscar a explicação de um fenômeno que é social, político — e criminoso. Vem então a tentação de periciar o fato delitivo pela explicação médica, como se o delito fosse sempre patológico.

Noves fora, ele me recomenda ler o que Freud escreveu sobre personalidade perversa, aquela que goza no mal que faz. Pode ser um caminho para entender o jogo entre a risada perversa e a risada aflita de quem sabe que se deu mal. Freud e, nesse caso, Steve Bannon, o guru alfabetizado da turma, explicam.

Enquanto buscamos pistas, Flavinho seguirá rindo. Ou chorando. Tem banheiro na prisão?

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Palavrões de Chico Anysio e piadas do Pasquim chocaram censores da ditadura

O ator e humorista Chico Anysio em cena nos anos 1970: palavrões escandalizaram censor na plateia - Acervo UH/Folhapress
O ator e humorista Chico Anysio em cena nos anos 1970: palavrões escandalizaram censor na plateia Imagem: Acervo UH/Folhapress

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

15/09/2020 04h03

Atualizada em 15/09/2020 14h08

No dia 11 de agosto de 1977, uma censora da ditadura militar (1964-1985) foi até o Teatro da Lagoa, no Rio de Janeiro, assistir à peça "Ai? Quinto", de Chico Anysio, e saiu de lá "horrorizada" com o que viu. Em seguida, produziu um documento confidencial para o Serviço de Censura de Diversões Públicas, ligado à PF (Polícia Federal), em que relatou à chefia do órgão uma série de palavrões e críticas à situação social e política do país.

"Foi, sem dúvida, uma agressão à plateia no mais podre exercício linguístico de baixo calão", diz o documento no Arquivo Nacional, obtido pelo UOL.

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Após o relato, e por ordem do chefe, a censora voltou para ver o espetáculo no dia 8 de setembro com uma ameaça de que, se aquilo se repetisse, Chico teria a peça censurada. "Contactamos [sic] com o artista, que se desculpou de haver no dia de nossa informação ter, talvez, se excedido na pornofonia, por empolgação da plateia", diz outro documento, seguindo ao dizer que Chico foi "relembrado" dos trechos que estava autorizado a interpretar.

O exemplo é só um de tantos que mostram a perseguição dos militares a artistas que trabalhavam com humor no período mais duro da ditadura, a partir do AI-5 (Ato Institucional número 5), editado em 1968. Piadas, charges ou qualquer insinuação cômica sobre a situação do país ou mesmo algo que deturpasse a moral e os bons costumes na visão do regime deveriam ser banidos.

Documentos confidenciais lidos pelo UOL revelam como o tema era visto com preocupação pelos militares, que evitaram que personagens ficassem conhecidos do público.

"Amigo da esquerda", Ziraldo teve trabalho vetado em comercial da Caixa

ORG XMIT: 461101_0.tif Literatura : Jeremias, o Bom (1965) (segundo à esq.), personagem criado pelo jornalista e cartunista mineiro, Ziraldo, que completa 75 anos no dia 24 de outubro de 2007 e ganha um almanaque em celebração ao seu aniversário. (Foto Reprodução) - Reprodução - Reprodução
Ditadura vetou desenhos de Ziraldo em propaganda da Caixa com o personagem Jeremias, o Bom: autor era suspeito de simpatizar com a esquerda Imagem: Reprodução
Um outro exemplo disso está em arquivo confidencial de setembro de 1974, em que o Ministério da Justiça determina suspender um comercial da Caixa Econômica Federal que usava o personagem "Jeremias, o Bom" do cartunista Ziraldo.

O motivo alegado era que "o referido humorista é suspeito de atividades ou, quando muito, de simpatizar com movimentos esquerdistas."

Com a ideia de não levar adiante os comerciais, o ministério decide "recomendar à Caixa Econômica não autorizar a Agência MPM - Propaganda S/A a promover a reutilização do personagem 'Jeremias, o Bom'. Além disso, quer nos parecer que o humorista ZIRALDO não é o único a ter condições de influenciar o grande público a adquirir bilhetes da Loteria Federal", diz documento assinado por Paulo Emílio Queiroz Barcelos, então subchefe do gabinete da pasta.

Muitas eram as formas de amordaçar o humor. A partir de 1970, com a instalação da censura prévia, era comum que scripts de peças fossem lidos, alterados, e a liberação de espetáculos só ocorresse após censores acompanharem os ensaios e apresentações para ver se tudo estava nos conformes do regime.

Em 1979, a Polícia Federal cita a ação do Estado contra uma peça teatral do grupo "Teatro Livre da Resistência", formado pelo diretório do estudantes de direito da UFS (Universidade Federal do Sergipe). A peça intitulada "A História do Poder", pois se tratava de "uma sátira ao regime revolucionário do país".

O Pasquim, censurado por ofender a moral, na visão do regime militar

Capa de O Pasquim veiculada em outubro de 1973 - Divulgação - Divulgação
Capa de O Pasquim veiculada em outubro de 1973, com a travesti Rogéria em pose de Monalisa Imagem: Divulgação

Outro alvo era o jornal O Pasquim, formado por jornalistas e cartunistas. Em documento de agosto de 1970 localizado pelo UOL, o Ministério da Justiça revela descontentamento com reportagens do jornal que foi remetido ao Procurador-Geral da Justiça do Estado da Guanabara. Era comum que o folhetim, após sua edição já ter sido impressa, fosse recolhido das bancas.

Um dossiê sobre o jornal foi produzido, no qual os militares reconhecem que O Pasquim esteve "por dois períodos sob censura prévia" e teve "duas edições apreendidas (300 a 377) respondendo inquérito por atacar a moral e ofender o regime.

Mélanie Toulhoat é doutora em História pelas Universidades de São Paulo (USP) e Sorbonne Nouvelle, em Paris, e pós-doutoranda do LabEx HASTEC, na França, com tese sobre o humor gráfico no período da ditadura.

Segundo ela, os documentos da época mostram como os militares tentavam blindar o humor para manter uma imagem de mundo moralmente correto. "As anotações, feitas nos desenhos pelo censores, revelam muito a visão do mundo que os militares queriam proteger, e também revelam as contradições que o humor gráfico queria revelar", conta.

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A tese de Toulhoat é que os cartunistas entraram nas pequenas brechas que o governo concedeu para ampliar o espaço de atuação. Por isso, em muitos momentos, eles furaram a censura e emplacaram materiais. "Claro que isso irritava os militares, que às vezes toleraram algumas manifestações pensando que ia ser algo tranquilo, mas que não era", diz.

Várias coisas tiravam os militares do sério, diz a doutora. Ela cita, por exemplo, as piadas de cunho sexual, ou ainda sobre racismo, repressão política ou mesmo a crise econômica.

Um ponto que a tese dela destrói é a ideia de que os censores eram facilmente enganados. "Isso é um mito. Os cartunistas que entrevistei, de certa maneira, relatam isso, mas essa construção não é fiel à realidade dos censores, que eram qualificados.", diz Mélanie.

Ela lembra que após 1970, quando a censura prévia foi instaurada, os censores começaram a viver diariamente dentro das redações —e isso foi um baque para quem produzia informação. Quem trabalhava com humor, por exemplo, começou a buscar soluções para driblar as restrições.

"O que rolava muitas vezes, além da violência óbvia desta situação, era uma certa intimidade com o passar do tempo entre o censor e as pessoas das redações, que passavam a conhecer gostos, tendências, vícios. E muitos se aproveitavam disso", afirma.

Em 1974, quando a censura prévia foi centralizada em Brasília, os títulos independentes passaram a ter mais dificuldade porque precisavam mandar suas obras para a capital federal. "Aí uma das estratégias foi colocar o conteúdo dentro de muitos papéis. Em vez de um cartunista mandar só as 10 charges que queriam passar, mandavam elas no meio de um material de 1.500 páginas, com muitas coisas que não tinham importância. Eles levavam em conta que os censores que não tinham tanto tempo assim e podiam deixar passar", explica.

_________________________________________________Descamação na pele pode ser PSORÍASE ou ECZEMA; entenda a diferença

Psoríase e eczema surgem de forma parecida, provocam descamação e podem ser confundidas na hora do diagnóstico - iStock
Psoríase e eczema surgem de forma parecida, provocam descamação e podem ser confundidas na hora do diagnóstico Imagem: iStock

Danielle Sanches

Do VivaBem, em São Paulo

04/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Psoríase e eczema costumam surgir na pele como placas vermelhas que provocam coceira e descamação, mas são doenças diferentes
  • No caso da psoríase, ela é uma doença inflamatória que pode atacar até as juntas, provocando artrite; já o eczema é provocado por dermatite
  • Ambos podem ser controlados com pomadas e cremes específicos, mas precisam ser diagnosticados corretamente para que isso aconteça
  • Hidratação e filtro solar são fundamentais para manter a barreira cutânea saudável e são considerados parte do tratamento em ambos os casos

Vermelhidão, uma coceira intensa e descamação são sintomas comuns de diversas doenças de pele. Mas, de acordo com a dermatologista Damaris Ortolan, especialista pela SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), 90% dos casos são provocados por dois tipos de problema: a psoríase e o eczema. No entanto, por serem visivelmente parecidos, eles podem demorar a ser diagnosticados corretamente, prolongando o incômodo e o sofrimento.

Isso porque, embora não sejam contagiosas, essas doenças deixam parte da pele exposta —como mãos e braços— descamando, prejudicando a autoestima da pessoa. "Elas são bastante estigmatizantes e, quando afetam crianças, podem torná-las alvo de bullying na escola", afirma Samuel Henrique Mandelbaum, coordenador do serviço de dermatologia da Santa Casa de São José dos Campos (SP).

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Ele explica que essas doenças geralmente afetam o sistema de renovação da pele —e, por isso, o aspecto descamativo das lesões. "Normalmente, as células novas 'sobem' para a superfície no processo de troca, que acontece a cada 24, até 30 dias", explica. "Essas doenças, no entanto, provocam uma alteração nesse processo, e a pele acaba se formando de um jeito anormal", diz.

O que é psoríase?

No caso da psoríase, por exemplo, esse processo de troca da pele acontece com maior frequência. Resultado: há a formação de placas grossas e avermelhadas na pele, com descamação, sensação de ardor e muita coceira.

As lesões podem aparecer em qualquer parte do corpo, mas são mais comuns nos cotovelos, nos joelhos e no couro cabeludo. É uma doença inflamatória, autoimune e considerada crônica, ou seja, não tem cura —mas pode ser controlada, melhorando a qualidade de vida da pessoa.

As causas são desconhecidas e ela é multifatorial: seu surgimento tem um componente hereditário importante, e pessoas predispostas acabam desenvolvendo a doença a partir de gatilhos como estresse emocional, trauma físico, consumo excessivo de álcool, tabagismo e ressecamento da pele.

De acordo com a SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), estima-se que 1 a 3% da população mundial conviva com o problema, sendo que, só no Brasil, ela acomete cerca de cinco milhões de pessoas.

Embora seja uma doença que se manifeste na pele, a psoríase pode ter outras consequências, já que a inflamação pode atingir as articulações, provocando a chamada artrite psoriática. "Além disso, ela está frequentemente associada a outros problemas de saúde, como pressão altacolesterol alterado e síndrome metabólica", afirma Ortolan.

O que é eczema?

Por outro lado, o eczema é um tipo de inflamação da pele provocado por outras doenças, como as dermatites e a disidrose. Na versão aguda, ele é caracterizado por lesões semelhantes a bolinhas de água que coçam bastante e se rompem, caracterizando a fase subaguda. Já na fase crônica, essas lesões começam a secar, formando crostas na pele que descamam e aumentam sua espessura.

As dermatites, por sua vez, são subdivididas em alguns tipos. O eczema provocado pela dermatite de contato é bastante comum e provocado pelo contato com um material que provoque uma reação alérgica (como níquel ou látex) ou ainda irritante (mas não necessariamente alérgica, como um ácido, por exemplo). Geralmente acomete áreas como mãos, rosto, pescoço e pés.

Já o eczema atópico ou dermatite atópica é um dos mais complexos, pois geralmente não tem causa aparente e envolve causas genéticas. "Esse tipo está frequentemente associado à asma e à rinite e provoca uma coceira bastante intensa", explica Ortolan. Nesse caso, as lesões descamativas surgem em áreas específicas do corpo, como rosto e dobras dos braços e das pernas.

Entendendo as diferenças

O fato de tanto o eczema quanto a psoríase surgirem como lesões avermelhadas e inflamatórias acaba dificultando o diagnóstico. Além disso, muitos pacientes acabam procurando o médico apenas na fase crônica, ou seja, quando a pele está descamando, tornando os dois quadros ainda mais parecidos.

Mas alguns fatores ajudam a identificar corretamente as doenças. As lesões causadas pela dermatite, por exemplo, costumam manter-se dentro de uma linha imaginária, enquanto as da psoríase comumente extravasam essa área.

Faixa etária, evolução clínica do quadro e distribuição das lesões pelo corpo também são indicadores levados em consideração —a psoríase, por exemplo, acomete a parte externa do cotovelo, enquanto a dermatite ocorre geralmente na dobra dele.

A partir do diagnóstico correto, é hora de determinar o melhor tratamento. No caso da psoríase, o uso de pomadas específicas e a fototerapia vão ajudar no controle das lesões. Já no caso das dermatites, é possível usar cremes com corticoides e, no caso de reações muito agressivas, é recomendado o uso de medicamentos via oral também. Todos eles devem ser feitos apenas com acompanhamento médico.

Ortolan lembra ainda que, especialmente nesses casos, os cuidados básicos com a pele devem ser levados a sério e considerados parte do tratamento. "Evitar banho quente, usar filtro solar e manter a pele sempre hidratada mantém a barreira cutânea saudável, melhorando o aspecto do tecido e ajudando na sua restauração", afirma.

_________________________________________________Pesquisadores criam loção, gel e creme que inibem inflamação da psoríase

Do Jornal da USP

02/05/2019 11h37

No Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, pesquisa propõe um novo método de tratamento para a psoríase, doença inflamatória que provoca vermelhidão, descamação e placas na pele. O estudo mostrou os benefícios da aplicação tópica na pele, na forma de loção, gel ou creme, de nanocarreadores, moléculas que contém compostos doadores de sulfeto de hidrogênio (H2S). Essas moléculas, chamadas de nanofármacos, inibem a produção de citocinas que estimulam a instalação do processo inflamatório - elas são produzidas em grandes quantidades em pacientes com psoríase ou outras inflamações crônicas.

As preparações farmacêuticas de doadores de H2S já foram patenteadas pelo grupo. Os efeitos farmacológicos do H2S na psoríase foram descobertos no laboratório dos professores Soraia Costa e Marcelo Muscará, do Departamento de Farmacologia do ICB. A equipe testou uma terapia com doadores de H2S por aplicação sistêmica (injeções intraperitoneais) para tratar a doença. A psoríase é uma doença inflamatória crônica e imunomediada, com manifestações cutâneas (vermelhidão, descamação e placas na pele) e sistêmicas (por todo o corpo).

A partir dos testes pré-clínicos, descobriu-se que a substância é capaz de atuar beneficamente no tratamento dessa inflamação, inibindo a produção de citocinas pró-inflamatórias. O passo seguinte foi integrar essa descoberta às pesquisas da equipe da professora Luciana Lopes, também do Departamento de Farmacologia, que se concentram na formulação de nanofármacos, visando à melhora da eficácia terapêutica e à redução dos efeitos adversos de fármacos. Foi nesta etapa que foi desenvolvida a estratégia de nanocarreadores com os compostos doadores de H2S.

Penetração na pele

"É um desafio atravessar o estrato córneo (parte mais externa) da pele para chegar às camadas onde se desenvolve a doença - por isso usamos os nanocarreadores", explica Luciana. "Por outro lado, dependendo da profundidade e extensão da penetração cutânea, pode haver absorção e efeitos sistêmicos (em todo o corpo). Assim, outro desafio foi localizar o fármaco na pele para obter apenas o efeito local", explica Luciana Lopes.

O tratamento tradicional para a psoríase envolve o uso de corticoides - medicamentos que apresentam uma série de efeitos colaterais indesejados. Com o uso prolongado desses fármacos, os pacientes podem desenvolver alguns quadros clínicos adversos, tais como a síndrome de Cushing (ganho de peso ao redor do tronco e perda de massa nos braços e pernas), maior suscetibilidade a infecções, diminuição da espessura da pele e até supressão da função das glândulas suprarrenais.

"Os nanofármacos de compostos doadores de H2S podem substituir ou diminuir o uso do corticoide em casos não severos de psoríase", esclarece Soraia. "Por exemplo, seria possível iniciar o tratamento com essa alternativa para controlar a doença e só aplicar o corticoide quando necessário. Isso evitaria ou reduziria os efeitos adversos que o uso prolongado destes medicamentos ocasiona". As pesquisas são fruto da dissertação de mestrado de Tuanny Schimidt e da tese de doutorado de Leandro Rodrigues. Os estudos foram orientados pela professora Soraia Costa.

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_________________________________________________Testes mostram mecanismos biológicos protetores envolvidos na psoríase

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Sebastião Moura Jornal da USP 23/10/2021 11h02

Experimentos em camundongos de laboratório realizados na Universidade de Zurique (UZH), Suíça, demonstraram que a citocina (proteína que modula a função de células) IL-12 tem um papel protetor na psoríase, doença dermatológica autoimune. Esse é o primeiro estudo que demonstra o mecanismo pelo qual a citocina IL-12 exerce um papel benéfico na doença, informação importante para orientar a prática clínica e entender a eficácia de diferentes medicamentos contra a doença.

Por muito tempo acreditou-se que a IL-12 tinha um efeito pró-inflamatório na psoríase, pois apresenta na sua estrutura uma proteína chamada p40, que tem sido alvo farmacológico com elevado sucesso terapêutico em pacientes com psoríase. Porém, estudos mais recentes demonstram que, na verdade, esse efeito se deve ao bloqueio de outra citocina, a IL-23, que compartilha essa mesma subunidade estrutural. O bloqueio farmacológico específico da IL-23 tem um efeito terapêutico superior ao bloqueio da subunidade compartilhada pelas duas citocinas.

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Além disso, estudos em modelos experimentais de psoríase demonstraram que o bloqueio específico da IL-12 exacerba a inflamação de pele, demonstrando que essa citocina, na verdade, desempenha um papel protetor na doença.

Esse novo estudo, publicado na revista científica Science Immunology e de coautoria do pesquisador Bruno Marcel Silva de Melo, mestre em Imunologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, explica o papel positivo da IL-12 durante a doença.

O teste consistiu em duas partes. A primeira foi localizar as regiões do organismo com maior presença de receptores da IL-12. Essa análise apontou aos pesquisadores dois subgrupos de células: as gama delta e os queratinócitos. Em seguida, eles usaram tecnologias de edição gênica para deletar especificamente o receptor da IL-12 nas células gama delta de um grupo de ratos de laboratórios e nos queratinócitos de outro grupo.

Os camundongos deficientes para o receptor de IL-12 nos queratinócitos apresentaram uma maior resposta inflamatória na pele, comparados aos animais deficientes para o mesmo receptor nas células gama delta ou nos animais controle, demonstrando que a IL-12 exerce um papel protetor na psoríase através dos queratinócitos, explica Silva de Melo, que participou dos experimentos como parte de seu doutorado-sanduíche na Universidade de Zurique (UZH), na Suíça, orientado pelos professores José Carlos Farias Alves Filho, da FMRP, e Burkhard Becher, da UZH.

A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, da Fundação Nacional de Ciência da Suíça, da Rede Suíça de Saúde Personalizada, do Centro Bern de Medicina de Precisão e da Universidade de Zurique.

Mais informações: e-mail brunomarcel@usp.br, Bruno Marcel Silva de Melo.

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OPINIÃO: Favelas são fragmentos do pós-escravidão: não podemos naturalizar a pobreza - 6 Minutos

Favelas são fragmentos do pós-escravidão: não podemos naturalizar a pobreza

Favelas são fragmentos do pós-escravidão: não podemos naturalizar a pobreza

, 6 Minutos - São Paulo
23/10/2021 - 06:40
  • 4 min

Estava eu, problematizando e ruminando questões simples da minha vida cotidiana, quando, de repente, vejo na televisão uma notícia sobre Paraisópolis – SP, e percebo o quanto até os dilemas que nos atormentam são determinados pelos nossos privilégios sociais, em meio a uma sociedade tão desigual. Digo, claro, que as questões que me atormentavam naquele sábado à tarde eram pertinentes para mim, mas quando ao ver que naquela comunidade estava ocorrendo um desabamento, e uma pessoa tinha perdido a vida, voltei a pensar no que realmente importa. Há pessoas no Brasil sem casa. Há pessoas no Brasil sem comida. Há pessoas no Brasil sem acesso a um bom sistema de saúde.

No dia seguinte, ainda buscando informações sobre o fato, pude ver em uma matéria do UOL, que 1.500 famílias, que moram irregularmente sobre um córrego, estavam correndo o risco de ficar desabrigadas. Bem, imediatamente, falei com o Gilson Rodrigues, líder comunitário de Paraisópolis e amigo de longa data, para entender de que forma eu poderia ajudar, o que poderia ser feito e, principalmente, como as lideranças políticas da cidade de São Paulo estavam contribuindo, atuando diante daquela situação de emergência.

Ainda nas minhas pesquisas, um trecho de uma das matérias que encontrei dizia, “De acordo com a prefeitura, o plano de urbanizar a região e fornecer as casas é antigo e foi retomado em abril. Ao reunir-se com lideranças comunitárias na manhã de hoje, Nunes voltou a propor o pagamento de um auxílio-aluguel de R$ 400 às 1.500 famílias sob risco, para só depois fornecer as novas residências.” Conheço de perto essa favela de São Paulo. Há cerca de quatro anos, estou presente em atividades com a comunidade, realizo palestras, faço a mentoria de uma das líderes comunitárias e, antes da pandemia, também visitei a lazer por diversas vezes, pois são inúmeros os eventos culturais e gastronômicos realizados lá.

Acredito que posso dizer – e que é mútuo – que tenho amigos em Paraisópolis. E por isso, fico imensamente triste em saber que semelhantes estão neste momento passando por uma situação tão difícil. Agora, não posso deixar de pensar no quanto naturalizamos a pobreza e a privação a direitos básicos.

Vejo as favelas no Brasil como um fragmento da escravidão, uma forma de ignorarmos, ou secundarizarmos, a privação de uma parcela da população. Segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, cerca de 78% dos mais pobres no Brasil são negros. No caso de Paraisópolis, especificamente, sei por conversas com o Gilson, que a ocupação iniciou-se a partir da década de 1950, com famílias de baixa renda, em sua maioria migrantes nordestinos, atraídos pelo emprego na construção civil. E que hoje grande parte da atual população, de 100 mil habitantes, é negra.

E aí me pergunto, como conseguimos dormir, cada um de nós, com a consciência tranquila, sabendo do abismo de desigualdades que temos no Brasil? O que não corrigimos até hoje enquanto país na esfera pública, terá que ser resolvido por cada um de nós, em ações individuais e coletivas, atuando junto as diversas lideranças comunitárias distribuídas por todo o país. Não há outra saída. Portanto, se você nunca esteve em nenhuma favela, recomendo que vá. Veja a face real do Brasil. Se não está atuando junto a nenhuma favela, comunidade, liderança comunitária, atue! Participe de projetos, faça doações, articule sua rede de parceiros, amigos, colegas de trabalho.

O cenário atual de pobrezas e desigualdades do Brasil é resultado de 388 anos de escravidão, e uma abolição que não focou em políticas de igualdade racial. A tão comentada Lei Áurea tinha somente dois artigos, que em resumo dizia: “vá e serás livre” e “é irrevogável”. Não havia políticas públicas de moradia, trabalho e em saúde. Resultado, 133 anos depois, seguimos falando no país, sobre mortes, por precariedade de moradia e saúde. Realmente, não dá mais para esperar. Te convoco e peço, vamos mudar esse cenário, hoje!

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Turquia ordena expulsão de embaixadores dos EUA e mais 9 países

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ordenou a expulsão de dez embaixadores que assinaram um apelo pela libertação do ativista Osman Kavala (Foto de arquivo) - Adem Altan/AFP
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ordenou a expulsão de dez embaixadores que assinaram um apelo pela libertação do ativista Osman Kavala (Foto de arquivo) Imagem: Adem Altan/AFP

23/10/2021 11h52

ROMA, 23 OUT (ANSA) - O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ordenou neste sábado (23) a expulsão de dez embaixadores que assinaram um apelo pela libertação do ativista e filantropo Osman Kavala, acusado pelo regime de participação no fracassado golpe de Estado de 2016.

"Ordenei ao nosso ministro das Relações Exteriores que declare esses 10 embaixadores como personae non gratae [plural de 'persona non grata'] o quanto antes", declarou Erdogan. Esse costuma ser o primeiro passo para a expulsão de um diplomata.

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Os signatários da carta em defesa de Kavala são os embaixadores de Alemanha, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Finlândia, Noruega, Nova Zelândia, Países Baixos e Suécia.

"Eles [os embaixadores] precisam conhecer e entender a Turquia.

Eles precisam ir embora daqui no dia em que não conhecerem mais a Turquia", acrescentou o presidente.

Kavala está preso desde outubro de 2017, apesar dos apelos ocidentais e de uma sentença da Corte Europeia de Direitos Humanos em defesa de sua libertação.

O filantropo havia sido detido inicialmente por envolvimento nos protestos de 2013, mas acabou absolvido em fevereiro do ano passado. Logo em seguida, no entanto, se tornou alvo de novas acusações, desta vez relativas à tentativa de golpe de 2016.

O levante daquele ano serviu de justificativa para Erdogan reforçar a repressão contra opositores e iniciar um expurgo no serviço público e nas Forças Armadas.

O anúncio do presidente chega a exata uma semana da cúpula do G20 em Roma, quando ele se reunirá com os líderes de alguns dos países signatários do apelo por Kavala.

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Wagner Moura detona Bolsonaro e diz que sofreu censura: 'Poço sem fundo'

Wagner Moura critica Bolsonaro no "Conversa Com Bial" - Reprodução/Globoplay
Wagner Moura critica Bolsonaro no 'Conversa Com Bial' Imagem: Reprodução/Globoplay

Colaboração para o UOL, em São Paulo

23/10/2021 13h42

Wagner Moura foi entrevistado ontem no programa "Conversa Com Bial" (TV Globo). Ele falou sobre o filme "Marighella", previsto para estrear no Brasil dia 4 de novembro. A obra já deveria ter sido lançada nacionalmente no início do ano, mas foi impedida.

"O filme estreou em Berlim em 2018. Financiar o processo foi dificílimo. O filme existe graças ao dinheiro do fundo setorial e à Globo Filmes. A filmagem também foi dura, em alguns momentos achávamos que ia faltar dinheiro. Sofremos ameaças de gente dizendo que ia invadir o set, que ia quebrar tudo, bater na gente", contou Moura.

"Passamos por tudo isso, no governo Temer. E o filme estrearia em 2019, no começo do governo Bolsonaro. Quando a gente quis estrear, dois pedidos da produtora foram inesperadamente negados pela ANCINE, que regula nossa atividade no Brasil. Esses pedidos são normais, feitos em várias outras produções e ocasiões. Quando foram negados, os filhos do Bolsonaro comemoraram na internet, essa direita Bolsonarista comemorou. Bolsonaro parou a vida dele, de presidente, pra gravar um vídeo falando mal de mim, do filme. Então a gente vê que o filme tem uma importância pra eles".

"E eu te digo aqui que nós fomos vítimas de censura", continuou o ator e diretor. "Não a censura que havia durante a ditadura, que tinha que mostrar o trabalho pro censor, mas uma censura que inviabilizou a existência do nosso cinema nacional, altamente independente. Nós não temos um cinema forte o suficiente pra existir sem as leis de incentivo, sem o controle que a ANCINE faz sobre a nossa atividade. Então eles inviabilizaram a nossa primeira estreia. Os produtores tomaram a decisão corajosa, e da qual eu fico muito feliz, de esperar sem esse dinheiro. Nós nunca ganhamos um tostão com esse filme. Apesar de todos nós, artistas, que fazem obras como essa, sermos chamados de ladrões da Lei Rouanet e essas canalhices".

Wagner Moura ainda compartilhou seus pensamentos sobre o momento atual que o Brasil vive: "É triste os relatos que eu escuto, são devastadores. A fome voltou ao nosso país, uma coisa da qual nós havíamos nos livrado. A gente vive em um país no qual 19 milhões estão passando fome e uma outra quantidade gigantesca está em insegurança alimentar. Mas eu sou pessimista em relação ao presente, mas otimista em relação ao futuro".

Apesar de tudo, ele acredita que este período servirá como lição.

"O nosso país começa no extermínio dos indígenas, na escravidão do povo preto, um país autoritário.

O Bolsonaro é um personagem com raízes profundas nessa história do Brasil. 

Que a maioria dos brasileiros tenha dito: 

'Esse homem nos representa e queremos que o Brasil seja conhecido por essa pessoa' é tristíssimo, mas é pedagógico. 

É bom que a gente possa encarar de frente o governo e o que ele está fazendo com o país.

Desse poço sem fundo a gente não vai passar".

_________________________________________________Pesquisadores confirmam chegada de vikings à América bem antes de Colombo - Gizmodo Brasil

Usando datação por radiocarbono e lascas de madeira, os cientistas estabeleceram uma data firme para a chegada dos vikings na América do Norte

Ingrid Oliveira 7 horas atrás Imagem: Glenn Nagel

Os vikings eram ativos em uma região do Canadá quase 500 anos antes de Cristóvão Colombo cruzar o Atlântico, sugere uma nova pesquisa.

Na ponta mais ao norte da península mais ao norte de Newfoundland, Canadá, é um assentamento viking pré-histórico conhecido como L’Anse aux Meadows. O local tem sido explorado por arqueólogos desde 1960, mas era difícil a definição de uma data exata.

Agora, uma nova pesquisa publicada na revista Nature está dando uma nova direção ao tema. Uma equipe liderada pelo arqueólogo Michael Dee, da Universidade de Groningen, na Holanda, fornece evidências de que os vikings estavam ativos em L’Anse aux Meadows em 1021 d.C. -exatamente mil anos atrás. Em um e-mail para o Gizmodo, Dee afirmou que as descobertas de sua equipe representam a “primeira e única data conhecida para os europeus nas Américas antes de Colombo”, que cruzou o Atlântico em 1492 d.C.

Que os vikings eram marinheiros competentes não é segredo. Acredita-se que os colonizadores nórdicos tenham chegado à Islândia no final do século 9 e à América do Norte no século 11, embora o momento exato da última conquista tenha permanecido uma questão de debate. Perguntado sobre por que demorou tanto para os arqueólogos datarem o local, Dee contou:

“Para datar sítios arqueológicos são necessários registros escritos contemporâneos ou um número considerável de artefatos que possam ser colocados dentro de um determinado intervalo de tempo”. E continuou: “L’anse aux Meadows não produziu nenhuma dessas coisas. O melhor método de datação científica é provavelmente a feita por radiocarbono, mas tende a ser capaz de fornecer apenas datas para os séculos mais próximos”, disse Dee, que acrescentou que o método usado no presente estudo só se tornou disponível nos últimos anos.

Até o momento, os pesquisadores analisaram três pedaços de madeira coletados no local, todos provenientes de árvores diferentes. Essas partes eram sobras do corte de madeira e associados à atividade Viking em L’anse aux Meadows; os distintos cavacos mostravam sinais de corte e fatiamento e eram claramente produzidos por ferramentas de metal, que os indígenas que viviam na área naquela época não eram conhecidos por possuírem.

A equipe então usou características distintas do registro de carbono atmosférico para restringir a datação por radiocarbono das árvores derrubadas. O incrível grau de precisão de datação foi possível devido a uma enorme tempestade solar que ocorreu em 993 d.C., que deixou uma assinatura de radiocarbono distinta em anéis de árvores ao redor do mundo.

As árvores sugam carbono da atmosfera e o canalizam para seus anéis de crescimento anuais. Recentemente, descobriu-se que um pico na concentração de anéis de crescimento de radiocarbono correspondia à tempestade solar.

Imagem microscópica de um fragmento de madeira encontrado em L’Anse aux Meadows. Imagem: Petra Doeve, Universidade de Groningen

“Medindo a concentração de radiocarbono dos anéis das árvores na madeira Viking, fomos capazes de encontrar esse mesmo pico”, disse Dee, o que significa que o anel se originou em 993 d.C. A partir daí, “bastou contar os anéis até a borda da casca para calcular quando o último anel fosse depositado”, ou seja, quando a árvore fosse cortada, explicou ele. Os pesquisadores aplicaram essa técnica a todas as três peças de madeira, com todos os resultados retornando uma data de corte de 1021 d.C.

“Nossa nova data estabelece um marco para a consciência europeia das Américas e representa o primeiro ponto conhecido em que os humanos perambulavam pelo globo”, escreveram os cientistas em seu estudo. Consequentemente, a nova pesquisa traz implicações para novas análises das primeiras atividades transatlânticas, como a troca potencial de material genético entre vikings e povos indígenas, a introdução de novas espécies vegetais ou animais e a disseminação de doenças.

Os vikings estavam presentes na América do Norte em 1021 d.C., mas muitas perguntas ainda permanecem. O número total de excursões ao continente não é conhecido, nem a duração total de sua estada. Ainda assim, não parece que os nórdicos tenham passado muito tempo na América do Norte.

“Eles provavelmente estavam lá procurando madeira e outros recursos para levar de volta à Groenlândia”, explicou Dee. “Havia talvez cem nórdicos no local. Sabemos por alguns vestígios de plantas encontrados na região que eles também se aventuraram mais ao sul nas Américas, mas não sabemos exatamente onde. Pela quantidade de lixo deixada e porque nenhum túmulo nórdico foi encontrado, a maioria dos arqueólogos pensa que eles estiveram em L’Anse aux Meadows por um curto período de tempo.”

Olhando para pesquisas futuras, Dee espera que os arqueólogos possam encontrar os restos de plantas mais exóticas, que apontem para outros locais da América do Norte explorados pelos nórdicos. Independentemente disso, a nova pesquisa atesta as realizações notáveis ​​dos vikings e seu amplo alcance global.

_________________________________________________Governo publica página em homenagem a 1.000 dias de Bolsonaro, mas esquece texto

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247 - O governo Jair Bolsonaro lançou, nesta sexta-feira, 15, uma página em comemoração aos 1.000 dias da gestão, mas deixou de redigir o texto e publicou parágrafos com o preenchimento de espaços padrão em materiais gráficos (lorem ipsum), informou o Painel da Folha de S.Paulo.

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A página "Mil Dias de um Governo Sério, Honesto e Trabalhador", nome da campanha lançada no último dia 27 nas redes sociais da Secretaria Especial de Comunicação Social, foi tirada do ar.

_________________________________________________A gramática da inclusão - Extra Classe

Arte de Fabio Edy Alves sobre foto de Freepik

Com a ideia de um português inclusivo para pessoas com orientação sexual não binária (masculino e feminino), que não se sentem contempladas pelo uso, principalmente, do masculino genérico, a chamada linguagem neutra aos poucos começa a aparecer fora de grupos sociais restritos. Quem nunca viu uma arroba (@) ou um xis (X) que agora dão lugar a letras como es para buscar a chamada “neutralidade de gênero” em algum texto ou saudação por aí?

Se “todes” usado no Museu da Língua Portuguesa reinaugurado em 12 de julho passado, em São Paulo, causou polêmica, – o secretário nacional de Cultura, Mário Frias, ameaçou “tomar medidas” para impedir o que chamou de “vandalização” da língua –, não é menor o barulho entre linguistas e até mesmo militantes das causas que envolvem transexuais, travestis, não binários ou intersexo.

Uma coisa é certa: o consenso está longe, mas a discussão posta. No debate, para uns a dita linguagem neutra é considerada um movimento social, parte da evolução da língua. Outros a encaram como um possível modismo.

Sírio Possenti, professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entende que não é possível ignorar as formas discriminatórias marcadas na língua: “A língua não funciona no vácuo”, diz.

Sírio Possenti, professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Sírio Possenti, professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp)

Foto: Antoninho Perri - SEC - Unicamp

É a mesma visão de outros importantes filólogos procurados por Extra Classe, mas alguns optaram em não aprofundar o tema e não participar da reportagem e nem mesmo autorizaram a publicação das justificativas de suas negativas. Medo de cancelamentos?

Mais corajoso, Carlos Alberto Faraco, pelo menos, explica suas razões. “Eu estou evitando entrar nessa polêmica. Já me envolvi em muitas polêmicas linguísticas e resolvi não participar desta. Se publico, será inevitável o bate-boca”, afirma o ex-reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autor de um dos mais usados manuais de linguística, o Linguística Histórica. Uma Introdução ao Estudo da História das Línguas (Parábola).

Outro renomado linguista pede para omitir seu nome e é categórico: “Iiiiixi! Ninguém quer mexer com isso. É modismo que não cola”.

Será que é só modismo?

Laerte: “O modismo, quando está em vigor, pode não ser um modismo. Ele pode ser um processo de transformação”

Laerte: “O modismo, quando está em vigor, pode não ser um modismo. Ele pode ser um processo de transformação”

Foto: Arquivo Pessoal

A cartunista Laerte Coutinho não crava um prognóstico. “Se é um modismo, isso a gente só vai saber daqui a muito tempo (risos). O modismo a gente só fica sabendo a distância. Aquilo foi um modismo”, brinca.

Escolhida no último dia 23 de setembro para receber o troféu Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE) ao Intelectual do ano, Laerte, que se apresenta como uma pessoa transgênero, uma mulher trans, completa: “O modismo, quando está em vigor, pode não ser um modismo. Ele pode ser um processo de transformação”.

Já para Richard Miskolci, a “principal crítica é sobre a noção de cisgeneridade e a moda de se autodefinir como não binário”.

PHD em Sociologia, professor titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Miskolci é um dos precursores em pesquisas relacionadas à Teoria Queer no meio acadêmico brasileiro.

Em seu último livro, Batalhas Morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizada (Autêntica), o professor fala que existe em campo um conceito que “denota desconhecimento ou interesse em refutar as teorias sobre gênero em favor de políticas identitárias que são, ao mesmo tempo, anti-intelectuais e autoritárias”.

Um vocabulário para entender seu lugar no mundo

Para Miskolci, propostas de linguagem neutra podem, sim, ser vistas como expressão de demandas de igualdade. “Ter um vocabulário para compreender seu local no mundo é fundamental para que grupos historicamente subordinados possam demandar reconhecimento, mas tal vocabulário – compreendido aqui de forma sociológica e educacional – não necessariamente exige reformar a língua”, analisa.

Richard Miskolci

Richard Miskolci

Foto: Milla Pizzignacco/Divulgação

O professor fustiga: “Há línguas sem gênero, como o húngaro, o que não significa que ela é neutra, tampouco que não exista desigualdade de gênero na Hungria”. (Nota do Editor: leia entrevista complementar sobre este tema)

“Às vezes apoio, às vezes me cansa”

Movimentação que se iniciou globalmente por volta de 2012, no Brasil, a ideia de se buscar uma forma de não caracterizar o gênero no vocabulário já contempla diversas propostas. Se hoje ile e elu figuram como as mais fortes tendências para a nova composição de um pronome neutro, o uso da arroba (@) ou do xis (X) praticamente são consideradas ultrapassadas por dificultar a leitura e a vocalização.

Laerte Coutinho diz que “a arroba (@), o asterisco (*), essas coisas todas, o xis (X), são evidentemente recursos gráficos. No começo, ainda ninguém tinha tentado elaborar uma versão falada para essa questão dos novos pronomes”.

A cartunista tem uma resposta bem-humorada quando indagada sobre seu posicionamento a respeito da linguagem não binária: “Bom, a minha opinião é fluída, como os gêneros. Às vezes apoio, às vezes me cansa”.

Lentidão, discussão necessária e futuro incerto

Para a criadora dos Piratas do Tietê, entre outros personagens icônicos, “mudar a linguagem dessa forma que está se propondo, que é uma mudança no cotidiano, é uma coisa custosa. É uma coisa que demora. Uma coisa lenta”.

Sírio Possenti acha que é ainda impossível prever se essa nova forma de comunicação poderá ser incorporada à norma culta e às gramáticas no futuro e até mesmo o impacto que isso pode ter na educação.

É por isso os momentos de cansaço de Laerte Coutinho. Ela ainda acentua que “as novas disposições em relação às questões de gênero são maiores do que isso. Está havendo algum descompasso e uma certa área de tensão nessa parte dos pronomes”.

Para Laerte, as novas ideias quanto a gênero são completamente justificadas. “As pessoas que estão transitando ou que estão abordando novas possibilidades de gênero não querem ser só mulher ou homem. Querem abrir um leque de possibilidades. É muito interessante. Eu acho importante que isso aconteça”, registra.

Importante não superficializar o debate

Atena Beauvoir Roveda: filósofa, escritora e poetisa

Atena Beauvoir Roveda: filósofa, escritora e poetisa

Foto: Igor Sperotto

Atena Beauvoir Roveda, filósofa, escritora e poetisa trans, segue a mesma linha de pensamento. Salienta que a linguagem neutra não apaga a linguagem masculina ou feminina. “A gente encontra em outras línguas gêneros que não são masculinos ou femininos, como o grego clássico, onde criança não é definido como masculino ou feminino e, sim, um gênero neutro”, assinala.

Atena considera que as regras “podem se adequar às realidades porque elas são construídas por nós, seres humanos” e defende um amplo diálogo.

“Se hoje nós negarmos a discussão de qualquer tema de um determinado tipo de público, amanhã a gente vai estar negando outro tema de discussão e assim vai”, reflete. “Eu mesma não uso a linguagem neutra, até porque estou adequada na linguagem feminina – sou a Atena, sou a escritora, sou a mulher, sou a gaúcha, sou a brizolista –, mas eu não quero retirar o direito das pessoas que querem buscar a linguagem neutra para si de terem os seus direitos preservados”.

A mudança de tratamento é uma decorrência disso no entendimento de Laerte. “A gente vai ter que chegar a esse ponto em algum momento. Agora é isso. Tem uma área de tensão aí. Tem gente que fica nervosa”, diz.

Atena frisa que o importante no processo é também não superficializar a discussão. “Não negar e integrar todas as opiniões, divergentes ou convergentes sobre o tema. Acho importantíssimo nós abrirmos o espaço democrático sem nenhum tipo de imaturidade da nossa parte.”

Segundo a filósofa, o diálogo produtivo não se dará “de maneira inautêntica, levando na má-fé o assunto. A gente tem que propor uma boa-fé para discutir qualquer tema”.

Laerte também entende que não se deve evitar a polêmica. “A princípio, eu acho correto, estou de acordo com a necessidade de uma proposta de uma mudança em relação aos tratamentos. É um sinal de respeito. É tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas. Eu não gostaria de ser tratada no masculino. Pessoas que não se enquadram nem como masculino, nem como feminino também têm direito a propor uma forma de tratamento”, defende ao lembrar que “se a língua demora para mudar, ao mesmo tempo as pessoas têm o direito de serem tratadas ou tratades com respeito. Isso não é um absurdo”.

Apesar disso, Laerte diz que tem bem claro que esse respeito passa por “uma prática mais ou menos complicada”: a de usar um novo sistema de flexão de gênero. “A língua portuguesa tem disso. Tudo é generificado. Cadeira é feminino, enfim”, resigna-se.

Sobre como tratar isso, ela recorda que nos Estados Unidos se usa o pronome no plural, They. “Para mim, é mais estranho. Prefiro um pronome novo”, conclui.

Diferenças entre linguagem inclusiva e linguagem neutra

André Fischer, autor do Manual ampliado de linguagem inclusiva e outras obras voltadas às comunidades LGBTQI+

André Fischer, autor do Manual ampliado de linguagem inclusiva e outras obras voltadas às comunidades LGBTQI+

Foto: Felippe Moraes/Divulgação

O jornalista André Fischer, criador do portal MixBrasil, é autor de uma série de livros voltados à comunidade LGBTQI+, entre eles o Manual ampliado de linguagem inclusiva (Matrix).

Conforme ele, torna-se importante fazer a diferença do que é a dita linguagem neutra do que é uma linguagem inclusiva. Se, de um lado, existe o esforço na busca de um gênero neutro para mitigar o que os ativistas chamam de machismo do idioma, a linguagem inclusiva já faz uma diminuição de marcadores de gênero, com a vantagem de usar as palavras que já estão na gramática usada hoje no Brasil.

“A linguagem inclusiva busca não só essa questão de marcadores de gênero, mas também erradicar vocabulários racistas, capacitistas, etaristas, LGBTfóbicos. Eu, particularmente, acho que, em uma linguagem mais inclusiva, se tenta buscar o máximo de palavras que já são comuns para dois gêneros. Não tem que reforçar o feminino e ainda se criar um terceiro gênero. Basta substituir ou em uma saudação dar ‘bem-vindos e bem-vindas’, por exemplo”, exemplifica Fischer.

Para ele, ao falar em linguagem inclusiva, “se está pensando em algo maior que não é só essa questão de gênero, mas, também, em substituir um vocabulário que é preconceituoso”.

André não nega a importância das discussões sobre uma possível linguagem neutra. Compreende, no entanto, que é uma movimentação social que “não vai se concretizar nas cartilhas, nas gramáticas antes de 40, 50 anos, mesmo se for iniciado agora”.

Para o jornalista, em primeiro lugar, é necessário haver um consenso sobre qual seria esse gênero neutro. “A gente tem quatro sistemas propostos e, pelo menos, dois têm sido usados em meios distintos.”Registra o “pronome” ile que se vê muito no LinkedIn, usado mais no meio empresarial, e, nas escolas, “com a galera mais nova, o elu”.

Fischer lembra que, ao se fazer uma saudação “sejam bem-vindes” ou se referir a “todes”, para ser simpático, não é o gênero neutro. “O gênero neutro é você criar um terceiro gênero, que vai ter pronomes, que vai ter artigos. Você tem que ter o minhetue ou inhominho. Aí depende do pronome que você usar.”

Ele, para exemplificar, faz uma frase que considera engraçada: “Ile está na casa des avôes dile (ele está na casa dos avós dele). Porque para avô e avó, também tem que criar um avô neutro. Daí tem uma série de palavras. Tem que ter avôe. Avô, avó, avôe”, discorre ao apontar a inexistência de consensos.

“Tem gente que se sente incomodada com o uso de um ou outro pronome. Então, é uma questão que é muito complicada. Se a gente fala de linguagem inclusiva, já é outra coisa.”

Ao finalizar, sugere ainda ainda como ficaria a frase ‘eu falei com a mãe dele’, ao se usar o ile e o elu: “Eu falei com a mãe dile. Eu falei com a mãe delu”.

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Rousseau: da teoria à prática - Marilena Chauí

Por Marilena Chauí

Filósofo francês Jean Jacques Rousseau
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Por Marilena Chauí 

“O escrever sobre Política se situa também em um espaço intermediário entre um fazer e um calar-se. Ou ainda: um espaço que é limitado por duas figuras distintas do falar. Ou nos calamos porque fazemos – a palavra é, então, supérflua – ou nos calamos porque já não podemos fazer mais nada – a palavra é, então, inútil. Entre o território da ação eficaz e o da impossibilidade da ação, estende-se o domínio da escrita. Entre a figura do Príncipe ou do Legislador bem sucedido – Moisés, Licurgo – e a figura do político impotente, constitui-se o espaço do escritor político.” (L. R. Salinas Fortes, Rousseau: da teoria à prática).

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Do tácito ao expresso: o lugar do escritor político

O leitor deste livro será impelido a uma aventura que o deixará sempre em suspenso, pois o autor não recua nem concede diante dos riscos da empresa que assumiu: polemizar com a forma canônica da leitura da obra de Rousseau como obra incoerente e, por isso mesmo, inconsequente. A cada passo, uma dificuldade insuspeitada posta em evidência encontra uma solução que, logo a seguir, transfigura-se em dificuldade nova e maior que é preciso compreender e resolver. Travando um verdadeiro combate com Rousseau e com seus mais ilustres comentadores, Salinas vai apontando o lugar de origem das questões que palmilham seu percurso: o pensamento da política.

Atacando de frente a suposta incoerência de Rousseau – incoerência entre os escritos e a vida do filósofo, incoerência entre os próprios escritos – Salinas começa examinando e descartando as váriassoluções que os intérpretes encontraram para tal dificuldade. Uma primeira solução consiste em desenhar a figura de um Rousseau-Proteu, nascida do dilaceramento do indivíduo vítima da civilização, levando-o aos recursos ambíguos da dissimulação e até mesmo à pura contradição consigo mesmo. E disto resultaria a impossibilidade para totalizar de maneira homogênea a obra do filósofo. Outra solução oferecida surge na figura de um Rousseau-Mutilado.

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Agora procura-se recuperar a coerência da vida com a obra e desta consigo mesma, graças a um recorte seletivo de textos compatíveis entre si e que se agrupam por exclusão daqueles tidos como incompatíveis. A coerência é obtida graças a uma paciente separação do joio e do trigo. Enfim, (como não poderia deixar de ocorrer) a questão da incoerência é resolvida pela partilha equitativa daquilo que pertence ao Jovem Rousseau e daquilo que está sob a responsabilidade do Velho Rousseau. A cisão é operada pelo reconhecimento de que há no filósofo uma passagem da paixão radicalizadora à prudência reformista. Recusando as várias soluções apresentadas, Salinas afirma que não se trata de investigar o drama individual do homem dilacerado pela civilização, nem de selecionar partes compatíveis de sua obra, nem, muito menos, de pensar numa espécie de evolução do ardor revolucionário ao conformismo reformista.

Salinas opera, então, um deslocamento da questão para apreender a gênese da suposta incoerência de Rousseau. Partindo da distinção feita pelo filósofo entre o ser e o parecer, que marca o advento da cultura, Salinas indica como essa dissociação é reportada a uma cisão mais originária, de que a primeira seria um efeito. Trata-se da cisão entre agir falar. E se esta é a cisão fundamental, qual seria o lugar privilegiado de sua manifestação? O discurso político.

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“Não é, pois, o discurso político o lugar mais estratégico – ou, pelo menos, o mais didático – a partir do qual será possível começar a entender os paradoxos deste ‘homme à paradoxes’ e compreender a concepção da escrita que lhe é própria, assim como o uso multiforme que ele faz dela?”

Mas esta direção esconde novas dificuldades, pois a incoerência parece ressurgir quando se comparam textos como O contrato Social e as Considerações sobre o Governo da Polônia ou as Cartas da Montanha, pois agora a teoria (O Contrato Social) parece ser negada pelos discursos conjunturais. E o sentimento da dissimulação torna-se inevitável no leitor. A passagem do geral ao particular, da teoria à história, parece não cumprir-se e descamba para a contradição.

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Resolver essa dificuldade – a passagem da teoria à prática – é a tarefa a que se entrega Salinas. E para levá-la a cabo o Capítulo I deverá encarregar-se da compreensão do estatuto do discurso teórico, compreensão que conduz o autor a uma análise minuciosa do Ensaio sobre a Origem das Línguas, onde a questão da linguagem como fratura sucessiva do gesto e da fala, da fala e da escrita, da escrita persuasiva e da escrita convencedora reencontra a fratura, posta na Introdução, entre falar e agir. Dessa maneira, a teoria da linguagem recupera seu solo originário, que é um solo político. Com efeito, o que significa buscar a ajuda do discurso? O próprio Rousseau levanta o paradoxo: como o crítico das ciências e das artes poderá ser um escritor? Como o crítico do livro pode cumprir sua tarefa crítica, escrevendo livros também? A crítica radical dos malefícios da cultura (e, portanto, da escrita), para ser coerente, não deveria ser a escolha do silêncio?

Um dos maiores interesses do Capítulo I está na crítica que Salinas endereça a Derrida, preocupado em desentranhar as raízes metafísicas da crítica de Rousseau à escrita como suplemento perigoso da fala e da visão, muito mais próximas do Ser, proximidade que a escrita abole instaurando uma distância irreparável entre o homem e a natureza. A primeira crítica endereçada a Derrida consiste em mostrar que o intérprete não retira do próprio Ensaio os princípios que permitiriam a leitura dos demais textos de Rousseau, de sorte que, afinal, a teoria da linguagem assim encontrada aparece inevitavelmente como simples suplemento da relação imediata com a natureza e com a verdade. Salinas fará um percurso exatamente oposto a este, na medida que procura na teoria rousseauniana da linguagem os princípios para ler Rousseau. A segunda crítica aponta para certa cegueira do comentador francês que em instante algum procura ver se a distância estabelecida entre aquilo que Rousseau declara, de um lado, e aquilo que descreve, de outro, não é uma distância exigida pela própria lógica interna do discurso rousseauniano. O que Salinas demonstra ser efetivamente o caso. Enfim, uma terceira crítica revela que as premissas usadas por Derrida para ler o Ensaio já estão dadas pelo próprio Ensaio, de sorte que o intérprete estaria sendo vítima do poder do discurso que tenta criticar.

Essas três observações preparam a verdadeira crítica. Assim como anteriormente não se tratava de salvar Rousseau indo da paixão à prudência, agora não se trata de condená-lo por uma ambiguidade na crítica da metafísica a que ainda estaria preso. A cisão entre falar e agir revela que o lugar da discussão é outro. Qual seja: o de uma leitura política do Ensaio que poderá esclarecê-lo e esclarecer sua articulação necessária com as demais obras de Rousseau. Será esta a via percorrida por Salinas. Trata-se, pois, de desvendar a relação entre o Logos e o Poder.

“A história posterior a esta fratura, (visão-fala, gesto-fala, fala-escrita), a nossa história – de que o Discurso descreve a gênese – será uma história de novas fraturas provocadas pelos ecos-retardados da primeira explosão e que se somam à primeira fenda, acabando, pouco a pouco, por consumar, com o culto do livro, o desligamento definitivo dos dois universos (naturezae cultura; sensível e inteligível). Mais do que isto. Conduzindo a uma total inversão da situação inicial, pois o livro acaba por se substituir ao real, acaba por ser mais real do que o real. Reconstitui-se assim, de forma tirânica e em favor do inteligível a unicidade do olhar e a unidade do campo visual”.

Persuasão e convicção são formas do discurso político. Convencer é dominar o espírito, a vontade, o sentimento do outro – é tiranizá-lo. E o livro é uma forma tirânica. É, pois, num contexto eminentemente político que a questão da escrita deve ser examinada. É o contexto da prática humana no estágio em que a Razão capta as mensagens da natureza (antes captadas pela sensibilidade) que deve iluminar a questão da passagem pela escrita e o significado do discurso teórico.

Mas a dificuldade não se faz esperar. Se a razão, a teoria e a escrita se definem pelas necessidades presentes da atividade humana, representam contudo uma queda frente ao estado originário do homem no coração da natureza. Se o livro é tirânico e se tirânica é a cultura que o faz nascer, como pode Rousseau usar como instrumento de crítico o objeto da própria crítica? Nova incoerência? Não. A resposta a essa questão emerge quando se circunscreve o campo em que a escrita e a teoria se oferecem, pelo menos, como remédio para uma humanidade envelhecida e decaída. O discurso é remédio quando é discurso político.

“O escrever sobre Política – diz Salinas – se situa também em um espaço intermediário entre um fazer e um calar-se. Ou ainda: um espaço que é li­mitado por duas figuras distintas do falar. Ou nos calamos porque fazemos – a palavra é, então, supérflua – ou nos calamos porque já não podemos fazer mais nada — a palavra é, então, inútil. Entre o território da ação efi­caz e o da impossibilidade da ação, estende-se o domínio da escrita. Entrea figura do Príncipe ou do Legislador bem sucedido – Moisés, Licurgo – e a figura do político impotente, constitui-se o espaço do escritor político. Se Rousseau, antes de entrar na matéria, julga importante justificar-se, ele o faz não apenas com o propósito de tranquilizar os leitores eventuais, mas antes com a intenção de circunscrever rigorosamente o espaço de seu discurso. Esta preocupação pedagógica não é acidental; é uma expressão, no plano da política, da postura constante de Rousseau diante da ciência em geral ou da filosofia”.

Entre o silêncio da ação bem sucedida e o mutismo da impotência social e política, instala-se um discurso que visa alcançar a primeira e eliminar a segunda: o discurso da teoria política, que nasce quando todas as condições objetivas parecem aniquilar seu sentido. O livro político é aquele escrito quando tudo parece exigir silêncio. Mas, porque escrito quando a linguagem, e a escrita em particular, tornou-se inútil ou serva do poder vigente, o livro ganha uma significação nova que só é possível desvendar graças à crítica da cultura que o fez nascer. Assim, no lugar da suposta incoerência de Rousseau, vem colocar-se um discurso que é reflexão sobre sua própria origem e sobre sua destinação social e histórica.

Circunscrito entre dois silêncios, o ato de escrever aponta em seu próprio interior para a questão que o suscita: a passagem da teoria à prática, uma vez cumprida a passagem do tácito ao expresso: “O ponto de vista teórico, constitutivo do discurso da ciência do homem, apresenta-se, então, apenas como um momento necessário no interior de um saber e de um discurso eminentemente práticos. Momento necessário porque assim o exige nossa condição presente, essencialmente discursiva. Mas momento subordinado, na medida que esta ciência só se justifica no horizonte de uma prática. […] Assim como o princípio de utilidade serve de critério para o estabelecimento do programa de ensino de Emílio, autilidade para a prática aparece como princípio de delimitação do campo do saber: além do território compreendido pelos conhecimentos úteis para a prática, situa-se o perigoso domínio em que se dão os delírios da razão raciocinante”.

Três registros diferentes

Salinas examina a constituição do discurso teórico e de sua paisagem à prática em três registros diferentes.

O primeiro exame dessa constituição e dessa passagem é feito à luz da diferença na eficácia persuasiva dos discursos. O discurso teórico procura impor-se à razão do interlocutor; seu valor: a exatidão; sua tarefa: a explicitação de relações que constituem o objeto de que fala; seu pressuposto: a existência de uma ordem racional objetiva onde os interlocutores se defrontam; seu princípio de organização: o princípio do melhor. O discurso teórico imediatamente voltado para uma prática determinada, porém, visa outro tipo de persuasão cujo pressuposto não é a racionalidade do real e do interlocutor, mas a conveniência ou adequação da proposta ao interlocutor que a solicita. Salinas, examinando a diferença entre o O Contrato Social e textos como Considerações sobre o Governo da Polônia Cartas da Montanha, localiza a distinção dos discursos numa diferença de auditórios. É a partir do ouvinte, portanto, que os discursos políticos de Rousseau reencontrarão sua coerência.

A teoria política desenvolvida no Contrato dirige-se ao “ouvinte transcendental”. É uma política desenvolvida no plano da universalidade e das condições de possibilidade da criação do corpo político enquanto tal. Seu interlocutor: o Legislador. A teoria política responde à questão da origem do corpo político (origem não-empírica, evidentemente) respondendo à questão: o que é o direito de legislar? Por sua vez, os textos conjunturais inserem-se no contexto de um corpo político já existente e cujas necessidades são imediatamente práticas e estão inscritas nos avatares do mundo empírico. Seu destinatário: o “ouvinte empírico”, governantes e governados concretos, membros de um Estado particular cujas peculiaridades históricas, geográficas e morais devem ser consideradas pelo escritor.

Agora o discurso responde à questão: como e quando é possível legislar? A passagem da teoria à prática se oferece, assim, no interior de uma diferença de auditórios graças à qual a teoria passa à ação eficaz e oportuna, o transcendental vem investir-se na região do empírico e o universal penetra no particular pela passagem de um tempo abstrato (o do Contrato) ao Kairós das políticas presentes. Não há, pois, incoerência no escritor político Rousseau, mas, ao contrário, há nele uma extrema atenção à utilidade, ao interesse e à eficácia da ação de seu ouvinte particular, levando-o a retomar de maneira sempre diferenciada os universais postos no plano da pureza abstrata exigida pela teoria, enquanto política transcendental. A cada passo, Rousseau está atento para o público que solicita seu discurso, e este só encontra efetividade se souber acolher a particularidade de quem o ouve, acolhida que exige uma espécie de bom uso ou de uso oportuno daquilo que fora endereçado ao ouvinte transcendental.

Talvez o que leve a pensar numa incoerência de Rousseau, quando não se leva em conta sua atenção pelos auditórios, seja o fato dos intérpretes não perceberem que o filósofo rompe de maneira oblíqua com o ideal clássico da política. O ideal clássico parte do pressuposto de que há uma boa sociedade em si e que as sociedades existentes realizam bem ou mal esse modelo ideal, tendendo geralmente a corrompê-lo. Ora, os temas da boa-sociedade e da corrupção também se encontram em Rousseau, mas deslocados do contexto clássico. A boa-sociedade, a sociedade jovem, é a sociedade onde o Legislador não é apenas um ideal transcendental, mas uma figura concreta instauradora do corpo político legítimo. A má-sociedade, a sociedade velha e corrompida, não é aquela que desvirtuou o modelo ideal da boa-sociedade, mas a que nãoconsegue encontrar alguém que encarne a figura do Legislador. Não há uma cronologia da corrupção, mas uma espécie de bondade essencial ou de maldade essencial das formas políticas que são ou originariamente boas ou originariamente más. Estas últimas precisam de remédio. E o remédio só é eficaz se souber exatamente qual a moléstia que deve curar. Essa moléstia, só a atenção dada ao “ouvinte empírico” pode dizer ao escritor político como remediá-la.

O segundo momento do exame da passagem da teoria à prática é feito graças a um deslocamento operado por Salinas no critério tradicionalmente usado pelos comentadores de Rousseau. Estes supõem, de modo geral, que o corpo político nasce do pacto e que a política é pensada pelo filósofo em termos jurídicos. Salinas desloca a questão indagando: qual o terreno da possibilidade do político, não a partir do pacto, mas a partir da consciência coletiva. O fundamento da política não é jurídico (o pacto), nem empírico (a concórdia de todas as vontades), mas a consciência coletiva que se exprime como “vontade geral”.

Esse deslocamento fará com que a passagem da teoria à prática se revele mais dificultosa do que antes, mas permite, por outro lado, desfazer uma vez mais a suposta incoerência de Rousseau. Com efeito, costuma-se apontar como incoerência o fato de que, sendo o pacto, o fundamento do corpo político, como pode o filósofo falar em “morte do corpo político” ali onde o pacto ainda persiste? Salinas nos mostra que, justamente por não ser o pacto o fundamento do político, e sim a Vontade Geral, o corpo político estará morto sempre que a Vontade Geral tenha morrido, a despeito de certa inércia do pacto em sua permanência empírica. Salinas indica, pois, o verdadeiro lugar da política: o campo simbólico da Lei corporificada na Vontade Geral e cujo efeito é um pacto entre os homens.

A política não é o campo da violência pura e das forças nuas – quando estas se manifestam a política já morreu. A política também não é o terreno onde a vontade de todos se reconcilia numa paz perpétua que anula e mistifica os movimentos antagônicos do corpo social. A política se instaura com a instauração da região da Lei, poder que é poder da Vontade Geral, emblema do social e de suas articulações internas e necessárias. Dessa maneira, Salinas pode afastar uma nova incoerência imputada a Rousseau. Se o pacto é o fundamento do corpo político, costuma-se perguntar como, então, Rousseau discute o problema da legitimidade política e por que dá ao Legislador um papel inútil, visto que estaria encarregado de instaurar o que já existe? Ora, como bem mostra Salinas, o pacto não é o fundamento do corpo político, mas seu ponto de chegada enquanto Vontade Geral. O papel do Legislador é o papel do fundador político, na medida que sua ação instaura a Vontade Geral como Lei.

Como diz o autor, o Legislador constitui-se como vanguarda política criadora das condições para o exercício efetivo da política. A passagem da teoria à prática se explicita, então, na análise das ações daquele que deve fundar o político. Na lógica da ação do Sujeito Político, o discurso encontra o princípio de seu próprio saber e dos limites desse saber, limites que lhe são impostos pela prática do agente político. “[…] nem a sensibilidade, nem a razão pouco desenvolvida dos membros da associação podem constituir guias para a conservação do corpo político. Abandonados a si mesmos os membros da associação seriam incapazes de levar a bom termo o empreendimento que têm em vista ao se associarem. Para que o bem comum se transforme no polo diretor do seu comportamento é necessário que seja garantido e fixado, já que ninguém pode agir de acordo com o bem comum se não o conhecer e já que nem as luzes insuficientes, nem a sensibilidade particular permitem aos membros da associação um acesso espontâneo ao bem comum. […] Se as leis positivas são necessárias não é apenas porque devemos nos prevenir contrao vício da vontade, mas igualmente contra o erro do entendimento dos particulares. O corpo político deve tomar a forma de uma ordem jurídica e a vontade geral deve se explicitar através de leis, porque o homem, neste estágio, está naturalmente inclinado ao erro e ao vício. […] A invenção da máquina artificial do Estado é obra do Legislador. […] Por que, entretanto, o recurso a este personagem providencial? O próprio aparecimento em cena desta figura paternalista não contraria a soberania do povo afirmada anteriormente? […] O direito de elaboração das leis pertence ao povo. Nós já nos despedimos, entretanto, do plano do direito. De fato, o povo não dispõe do poder efetivo para se desincumbir desta tarefa, dadas as suas limitações. Não há contradição, mas mudança de plano: o povo real não é o mesmo que o povo ideal que participa do pacto primitivo. Entre um e outro, entre o povo e a multidão cega, existe um abismo a ser franqueado pela intervenção de um indivíduo excepcional”.

O Legislador, razão encarnada, situa-se fora da sociedade enquanto esta se configura como multidão cega. E o veículo através do qual a razão pode penetrar na história humana. É o ocupante do lugar que pertence ao povo que ele próprio deve criar. Assim, o Legislador não se confunde com as figuras empíricas dos poderosos e dos oprimidos, mesclados nos conflitos da multidão cega. Seu lugar é simbólico: é o lugar do Poder, poder que é do povo enquanto corpo político, isto é, vinculado pelo bem comum a que a multidão cega deverá curvar-se pela obediência à Lei. O Legislador não é o legista. É o Sujeito Político por excelência: fundador e conservador do corpo político.

A partir dessas duas primeiras colocações, encontramos o terceiro registro do exame da passagem da teoria à prática. Salinas se detém, inicialmente, na distinção entre dois grandes momentos da constituição do discurso teórico: o primeiro momento é o da análise da constituição do social, e a questão do político só aparece nomomento seguinte com a figura do Legislador, destinado a constituir o corpo político pela instalação da Vontade Geral. A distinção desses dois momentos fará com que entre em cena algo que vinha implicitamente sustentando o percurso de Salinas, e que agora se explicita: a história. Não é o social (enquanto pacto), mas o político (enquanto consciência coletiva expressa na Vontade Geral) que põe em movimento a História. Agora a problemática se concentra no modo de articulação entre O contrato Social e o Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, isto é, entre uma teoria da boa-forma política e a genealogia do mal, ou, se quisermos, entre a boa-sociedade e a teodiceia às avessas.

Para que o Contrato não seja lido como elaboração abstrata de Leis, Salinas considera indispensável lê-lo tendo sempre presente o segundo Discurso. E para que não se veja incoerência entre o texto lógico (a política transcendental) e o texto genealógico (a história da perversão da natureza humana), é preciso pôr à luz a articulação entre política e história, isto é, entre política e economia (o advento da propriedade privada, a acumulação das riquezas, as desigualdades que se exprimem como dominação do fraco pelo forte, do pobre pelo rico, o vício do amor-próprio e a velhice social, a política rumando para o despotismo). “A história dos progressos da desigualdade […] é a história da contínua desagregação dos corpos políticos defeituosos constituídos pelo vício humano. […] Ao lado desta, há outra história possível, que para efetivar-se tem necessidade da colaboração do Legislador. Esta ação leva, pois, a adotar o caminho oposto ao que nos traça o segundo Discurso”.

Há pouco, comentávamos a maneira rousseauniana de se desfazer da política clássica da boa-sociedade e da história de sua queda. Agora essa afirmação torna-se mais clara. Se a história narrada pelo segundo Discurso é a história da queda e da desnaturação perversa é porque nela o corpo político nasce viciado, nasce do discurso do rico, da proposta de uma união de forças contra um suposto inimigo a quem se deve combater para que haja justiça. Ora, se o fraco e o pobre são suscetíveis de serem persuadidos por tal discurso, é porque estão corrompidos tanto quanto os fortes e os ricos. A genealogia é genealogia do mal porque o mal está no princípio constituinte dessa história perversa.

Ora, se há, como diz Salinas, outra história possível, essa nova história é história política. Embora já esteja mergulhada na desnaturação do homem, a política é uma boa desnaturação na medida que, como proporá o Contrato, a ação do agente político visa encontrar um princípio político oposto ao que se manifesta no segundo Discurso. Ou melhor, visa encontrar o lugar do político propriamente dito. Assim, em vez de uma contradição entre o Contrato e o segundo Discurso, encontramos uma transformação radical da problemática, na medida que seus registros não são idênticos. Na genealogia do mal, homens corrompidos querem ter o poder e exercê-lo pela violência. Na história política, não há homens – há o Povo e a Lei, o lugar do Poder e a ação do Legislador.

Como articular as duas obras, agora que surgem como discursos invertidos, mas escritos em dimensões diferentes? Pela mediação do Legislador que atua sobre a Vontade Geral e pela intensificação das relações sociais e econômicas, circunscreve-se o campo prático da política e da história, circunscrição que encontra sua teoria em O contrato social. O campo prático da política revela-se como campo de forças em luta e cujo maior risco é degenerar em violência e despotismo, isto é, em dominação total de um (ou de alguns) sobre todos. Se nessa luta a vitória couber à Vontade Geral, a prática política torna-se possível e outra história pode encontrar o caminho de sua efetividade. Se, ao contrário, a vitória couber à vontade individual, a política será impossível, o despotismo, inevitável, e o segundo Discurso, a única verdade sobre os homens.

Essa articulação dos dois grandes discursos de Rousseau permitirá a Salinas desvendar o subsolo da teoria política rousseauniana. Esta não é apenas uma tipologia das formas de governo, como sempre se imagina, mas antes uma tipologia das formas de ação política. A teoria passará à prática desde que se perceba seu verdadeiro objeto: a lógica da ação do Sujeito Político.

“Ao termo inicial, quando a instituição de um corpo político quase perfeito é ainda possível, corresponde a ação do Legislador propriamente dito, de Licurgo, Moisés, Numa. Ao termo final, quando já nada mais é possível fazer, corresponde a ação do Pedagogo. A ação se despolitiza, já não visa mais a cidade, mas um indivíduo isolado. Entre esses dois extremos, dois outros tipos poderiam ser distinguidos. De um lado, temos a figura do Legislador conselheiro, assessor técnico dos governantes. Seria o caso do próprio Rousseau, diante da Polônia ou da Córsega. De outro, o publicista ou o escritor político. Já não é mais aos governantes que ele se dirige, mas ao povo em geral ou ao público das grandes sociedades corrompidas”.

Trata-se, então, de saber como e por que essas figuras políticas passam à existência, pois cada uma dessas ações corresponderá a uma forma de organização, isto é, um sistema de leis diferentes. Assim, a tipologia das ações políticas e a tipologia das formas de governo desenham uma articulação inteiramente nova entre o Contrato e o segundo Discurso. No caso do Legislador, a questão gira em torno da possibilidade de realizar a ordem política onde a Vontade Geral seja soberana, a partir do estabelecimento de quatro variáveis fundamentais: duas variáveis temporais – a idade de um povo e o instante em que está apto a ser legislado – e duas variáveis espaciais – as dimensões da cidade e as relações com o exterior. Isto posto, é preciso, indagar, examinando a vida concreta dos povos, como essas variáveis se oferecem historicamente, para que sejam apanhadas no tempo oportuno.

Nesse ponto, o Contrato deve ser iluminado pelo segundo Discurso, pois tudo dependerá da relação estabelecida, em cada momento, entre as leis e os vícios dos homens. A legislação exige que os vícios tenham uma força mínima, estejam quase em seu grau zero. A pedagogia se instala, justamente, quando alcançaram o grau máximo de intensidade, o que corresponde, no segundo Discurso ao triunfo do despotismo e ao grau último das desigualdades – o corpo político, velho, está às portas da morte. A diferença política entre a velhice e a juventude é uma diferença moral: o povo jovem é o povo do amor de si e da benevolência, atento à voz da consciência, isto é, à presença de si ao outro; o povo velho é aquele que se tornou surdo à voz da consciência, pois nele o amor de si converteu-se em amor-próprio.

O conflito entre a força das leis e a força dos vícios decide sobre a juventude e sobre a velhice do corpo político, mas a origem desse conflito deve ser buscada na região em que a moral e a política são possíveis ou impossíveis, isto é, no interior das relações sociais. E novamente, aqui, o segundo Discurso oferece a via para a compreensão desse movimento de perda gradativa da moral e da política. Ora, o que é fundamental na interpretação de Salinas é a localização do momento em que a política é possível. Entre a instalação da propriedade, mas antes que a riqueza tenha se tornado valor dominante para todo o povo, nasce o campo político. Que significa esse nascimento? Qual a verdade que carrega? Antes da propriedade, a política é supérflua; depois da riqueza, a política é impossível.

Isto significa que o campo político só pode emergir quando o social se oferece dilacerado por uma divisão interna que pode converter-se numa luta sem tréguas pela dominação. E a divisão do social engendrada pela propriedade, que exige o advento das leis e do governo, pois a ordem social só poderá prevalecer se o movimento despótico do amor-próprio for contido e contrariado. A política nasce, pois, de uma desigualdade produtorado social, mas só é política se caminhar a contrapelo com relação ao movimento imanente à desigualdade que conduziria ao fim da política. Em suma: entre o isolamento anterior à propriedade e a dominação coletiva, entre o individualismo inicial e o despotismo final, uma outra história é possível, se a política for possível, isto é, se o estado de guerra da sociedade nascente puder ser canalizado para a instauração da Vontade Geral. E, em cada caso particular, o campo político assim posto genericamente deverá encontrar uma forma particular e uma prática particular. Mas, em todos os casos possíveis, a ação política eficaz se define pela capacidade de avaliar o grau máximo da força das leis e o grau mínimo da força dos vícios. Neste ponto, o Contrato e o segundo Discurso percorrem caminhos exatamente inversos, mas seu sentido é o mesmo do ponto de vista político.

Do ser ao parecer, do falar ao agir, do direito ao fato, do transcendental ao empírico, as dicotomias que deveriam sugerir as incoerências do pensamento de Rousseau, ao contrário, designam o sentido de sua obra filosófica como circunscrição do campo político e do discurso da política. Feito esse percurso, na Conclusão, Salinas retomará a pergunta colocada pela Introdução: há ou não incoerência entre os discursos políticos de Rousseau? Imediatamente a resposta será negativa, garantida pela compreensão dos princípios da política examinados ao longo do livro. Contudo, há uma segunda resposta, também negativa, mas obtida em um contexto novo, e que vem completar o sentido da primeira, pois se enraíza na problemática que o livro tematiza, qual seja, a passagem da teoria à prática.

Salinas interpreta, agora, as Considerações sobre o Governo da Polônia. Examinando o texto do Legislador conselheiro, verificando seus pontos de contato e sua distância frente ao Contrato, portanto, ao discurso do escritor político, Salinas aponta os paradoxos e incoerências que parecem percorrer a totalidade das Considerações, reforçando a interpretação tradicional de um Rousseau charlatão e oportunista. Contudo, subitamente, o leitor é levado a reler as Considerações para, afinal, compreender que não está diante de simples incoerências, mas de verdadeiras contradições. Porém, e este é o ponto essencial, Salinas faz com que descubramos que tais contradições não estão no discurso de Rousseau, mas na Polônia, objeto do discurso.

É, pois, o objeto político que é contraditório e não o discurso que o revela. Torna-se claro, então, porque desde o início do livro Salinas recusa a noção de incoerência, pois esta não é uma categoria política e não pode lançar a menor luz sobre os escritos de Rousseau, homme à paradoxes, isto é, pensador que alcança o universo da política como um universo governado por uma lógica paradoxal – uma lógica da contradição. Se é possível pensar a passagem da teoria à prática em Rousseau, é porque sua teoria é capaz de acolher a realidade política naquilo que a torna enigmática e exigente de uma práxis, isto é, em suas contradições. Eis porque nas Considerações a questão da forma do governo é quase secundária frente a uma outra questão fundamental: a da ação política formadora ou transformadora do corpo político.

*Marilena Chaui é Professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Contra a servidão voluntária (Autêntica).

_________________________________________________Cuidado, Renan: fracasso em Haia pode sugerir absolvição de Bolsonaro - Paulo Henrique Arantes

Por Paulo Henrique Arantes

Jurista Pedro Dallari e Jair Bolsonaro
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A torcida dos não-idiotizados quer Jair Bolsonaro fora do governo e dentro da cadeia. A busca de objetivos, contudo, costuma resultar em decepções menores quando ancorada em lucidez. Certos da inação do procurador-geral da República, o engavetador Augusto Aras, e portanto convencidos de que a PGR não denunciará os crimes do presidente, torcedores correm a dar como certa a condenação do capitão no Tribunal Penal Internacional de Haia, para onde o relatório de Renan Calheiros seguirá, segundo ele próprio.

Menos.

Para que Bolsonaro faça companhia a Muammar Gadaffi, Radovan Karadizic, Thomas Lubanga e Dragomir Milosevic, é preciso, antes de tudo, que se comprove o esgotamento dos processos contra ele no Brasil, sem o que Haia não instaura processos.

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Pedro Dallari, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP e ex-presidente do Tribunal Administrativo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), sabe que a jornada é complicada e demorada, além do que ainda não se sabe como o relatório da CPI caminhará no Judiciário brasileiro.

“O problema do acionamento do TPI reside no fato de que, por razões políticas, o Congresso Nacional e os órgãos do sistema de Justiça, em especial a PGR, optaram por não desencadear medidas efetivas contra Bolsonaro, sendo difícil que a Corte de Haia aceite suprir essa inação juridicamente válida de autoridades brasileiras”, explica o jurista. 

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Para Dallari, esses fatores não diminuem a importância política de se apresentar uma denúncia ao TPI - ou mesmo de enviar o relatório da CPI -, “mas é necessário distinguir o movimento político de uma medida processual internacional mais consistente, sob pena de uma eventual rejeição do TPI ao pedido de denúncia contra Bolsonaro soar como vitória - e absolvição - do presidente”.

De todo modo, Dallari acredita que o relatório terá consequências judiciais no Brasil, “pois há elementos muito robustos contra Bolsonaro”. Por tão evidentes, demonstrados e numerosos, os crimes de Bolsonaro escapariam à sanha omissiva do procurador-geral da República? A ver.

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Dallari, que foi o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, afirma que “a reiterada postura de Bolsonaro contra a existência dos indígenas ampararia a imputação de crime de genocídio pela CPI, a ser apurada em processo judicial posterior”, acusação que sumiu do relatório da Comissão por pressão do seu presidente, Osmar Aziz.

O relatório preparado por Renan Calheiros imputa ao presidente do Brasil os crimes comuns – que exigem denúncia da PGR ao Supremo Tribunal Federal – de epidemia (Artigo 277 do Código Penal), infração a medidas sanitárias preventivas (Artigo 268 do Código Penal), charlatanismo (Artigo 283 do Código Penal), prevaricação (Artigo 319 do Código Penal), emprego irregular de verba pública (Artigo 315 do Código Penal), incitação ao crime (Artigo 286 do Código Penal) e falsificação de documentos (Artigo 298 do Código Penal). A mão de Augusto Aras pode segurar tudo isso.

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Já os crimes de responsabilidade, que podem gerar processo de impeachment, dependem do ensaboado Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados. Enquadram-se nessa categoria criminosa, entre outras monstruosidades, a minimização dos efeitos da pandemia e a estimulação ao uso de medicação ineficaz.

Sob medida para o Tribunal Penal Internacional é a terceira modalidade criminal praticada escancaradamente pelo presidente do Brasil: os crimes contra humanidade. Nessa seara entram a falta de oxigênio nos hospitais de Manaus,  disseminação de protocolo clínico de uso de medicação para tratamento precoce da Covid (sabidamente ineficaz), a distribuição do famigerado “kit Covid” e ataques a populações indígenas mediante diversas ações e omissões.

_________________________________________________Quem MANDOU MATAR Leuvis Manuel Olivero?

Por Brian Mier

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Por Brian Mier 

(Publicado no site Brasil Wire)

Em 2011, Leuvis Manuel Olivero, um imigrante dominicano nos Estados Unidos formado em Estudos Internacionais pelo Trinity College em Connecticut, fez uma viagem ao Rio de Janeiro. Nas suas próprias palavras, Lu, como se referia a si próprio, “mergulhou nas emergentes cenas de vandalismo da cidade. No processo de pesquisa de uma das culturas de arte de rua mais vibrantes da América do Sul, ele explorou vários elementos da vida cotidiana no Rio. ”

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Ele decidiu ficar, apaixonou-se e teve uma filha. Em 2014 publicou seu primeiro livro, Graffiti City . Ele o descreveu como:

“Um mergulho no coração da cultura carioca através de seu prisma mais polêmico: as ruas. Percorrendo a linha entre arte e vandalismo, Graffiti City explora a relação entre Pixação e Graffiti (arte do graffiti), e como essas duas culturas distintamente carioca refletem o que significa ser carioca. Graffiti City examina as inúmeras formas de expressão visual que também lutam por espaço nas paredes do Rio e como as ruas se tornaram um verdadeiro espaço de diálogo. Graffiti City é o primeiro livro a apresentar uma linha do tempo histórica detalhada das artes urbanas do Rio e das culturas de vandalismo, e analisa as pressões sociais e políticas que ajudaram a moldar a arte e o vandalismo nas ruas do Rio. ”

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Olivero continuou sua vida na Zona Norte do Rio, lutando para sobreviver em uma cidade que não é fácil para os estrangeiros. Ele se envolveu cada vez mais com o movimento da Capoeira. Então, em uma explosão de criatividade, ele publicou 8 livros por conta própria em 2020. Na contracapa de seu livro de 420 páginas em outubro de 2020, Black Spaces White Faces: Um Ensaio sobre o Branqueamento da Capoeira no Rio de Janeiro , diz:

“Neste ensaio, foco a arte da capoeira, na cidade do Rio de Janeiro, como uma análise de caso de como ocorre o processo de branqueamento, dividindo o ensaio em três partes. A primeira parte apresenta o projeto teórico de como o contexto para o branqueamento foi criado; apontando sua gênese para o tráfico atlântico de africanos, enquanto a segunda parte do ensaio explora o processo de branqueamento. Por fim, a terceira parte deste ensaio explora as manifestações do branqueamento no mundo da capoeira. ”

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Pouco depois do aniversário de 2 anos do assassinato da vereadora carioca afro-brasileira socialista Marielle Franco, Olivero publicou Memoria Viva . Sua sinopse da contracapa diz:

“Era 14 de março de 2018. Tiros foram disparados naquela noite quente de verão. Só mais uma noite no Rio, se não fosse pela vítima, a vereadora Marielle Franco, baleada com violência, quando voltava para casa de um evento a apenas alguns quilômetros de distância. O perpetrador? Essa é a pergunta que ainda não tem resposta. “Memória Viva” explora o legado da vereadora Franco através do prisma das ruas. Ele examina o vandalismo e a arte do graffiti que mantêm sua memória viva. À medida que as investigações continuam e mais um aniversário de sua morte se aproxima, as perguntas permanecem, mas as ruas não esquecem, e essa demonstração de amor e apoio reflete o impacto de Marielle nesta cidade ”.

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Em novembro de 2020, publicou o livro em língua portuguesa, Enquanto o Ódio Governava, a Rua Falava, que descreveu da seguinte forma:

“Jair Bolsonaro é uma das figuras mais conhecidas e desprezadas do Brasil. Sua ascensão à presidência, na onda trumpiana iniciada em 2016, inaugurou uma retórica política nunca ouvida publicamente no Brasil. Mas as ruas do Rio de Janeiro responderam com uma onda de pichações anti-Bolsonaro, representando a resistência anônima dos cariocas contra a ascensão do fascismo brasileiro. Este livro é uma extensão da exploração contínua do projeto Aerosol Carioca sobre o graffiti e o vandalismo no Rio de Janeiro. Seu objetivo é claro: servir como uma voz de resistência visual à violência e ao ódio que o Brasil sofre hoje. ”Em abril de 2021, ele escreveu seu último livro, uma homenagem a sua filha chamada 3085 Dias e Contagem .

“Nos primeiros 3.085 dias de minha filha”, disse ele, “escrevi centenas de anotações no diário sobre como era ser pai. Conforme os dias passavam, eu anotava as entradas em pedaços de papel soltos, páginas de cadernos, em conversas do WhatsApp e onde mais eu pudesse, para não perdê-los. À medida que as notas se acumulavam, percebi que, se não escrevesse este livro agora, as memórias que tanto desejava que Sophia carregasse com ela seriam esquecidas. Perdido no tempo. Durante uma sessão de escrita de duas semanas, sentei-me e tentei condensar aqueles oito anos de memórias nas entradas encontradas neste livro. ”

No dia 10 de outubro, Olivero saiu de um restaurante de classe média, bairro da Zona Norte da Tijuca. Segundo testemunhas oculares, enquanto ele caminhava pela rua Baltazar Lisboa , vários homens armados dentro de um Hyundai HB20 abriram fogo, atingindo-o na cabeça e no abdômen. Quando o corpo de bombeiros chegou ao local, ele já estava morto. A Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu investigação de homicídio.

No dia 17 de outubro, um grupo de amigos protestou no local do crime, reiterando o mesmo que se fala em todo o mundo do assassinato ainda não resolvido de Marielle Franco: Quem mandou matar Leuvis Manuel Olivero?

_________________________________________________O crescimento do fascismo na Europa - Lejeune Mirhan

Por Lejeune Mirhan

Manifestação de integrantes do Forza Nuova em Roma
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O ponto central deste artigo é o crescimento do fascismo na Europa. Quando eu falo em crescimento, não é para deixar ninguém alarmado. O fascismo não vai vencer, ele está perdendo todas. Perdeu as eleições regionais em Portugal e na França. Mas, é um crescimento, é uma presença, eles põem a cara de fora. Neste novo ensaio dou um panorama geral da Europa.

Eles estão fortes na Espanha, onde eu vou começar a falar, na França, na Itália e, em Portugal, que são exatamente alguns dos países que, na década de 1930, do século passado, eram governadas por países de extrema-direita. 

No caso da França, em particular, durante a ocupação nazista, ela teve um chamado Governo de Vichy, liderado pelo marechal Philippe Pétain. Ele era amigo de Hitler e aceitou a ocupação de parte da França. A parte do país que não aceitou a ocupação, era liderada pela resistência do general Charles de Gaulle, que saiu do país e comandou a resistência de fora. 

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Ele foi para a Inglaterra, se reuniu com o Churchill e aderiu às articulações para preparar o desembarque na Normandia. Ele teve um grande papel e, posteriormente, se tornaria presidente da França.

Na Alemanha, que não mencionei aqui, porque já tratamos sobre ela duas semanas atrás, o grupo nazifascista, mais à extrema-direita, perdeu cadeiras nas últimas eleições. Eles recuaram 11 cadeiras, mas continuam fortes.

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O fascismo na Espanha

O que mais chama a atenção é o partido na Espanha chamado Vox que, em língua latina, significa voz. Ele foi fundado em 2013, tem oito anos de existência, mas não é pequeno. Ele é racha de um outro partido, que já era de direita, o Partido Popular, do José Maria Aznar, que foi primeiro-ministro da Espanha.

Imaginem então, o quanto é de direita. Aznar é de extrema-direita, mas não é fascista. Mas, o grupo do Vox é fascista, é um grupo extremista, “franquista”. Nas últimas eleições elegeram 52 deputados, o que representa 15% do Parlamento, que tem 350 deputados. 

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A Câmara dos Deputados no Brasil tem 513, se ele estivesse com este desempenho aqui, o número de parlamentares seria de 75 deputados. A bancada no Brasil com mais deputados é a do Partido dos Trabalhadores-PT, com 53 (10%). Então, com 75 eles teriam grande força.

O líder do Vox é chamado de Santiago Abascal, esse é fascista, ele é oposição ao governo da Espanha, que hoje é de centro-esquerda. 

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Eu quero contar sobre um fenômeno que aconteceu no dia 12 de outubro que, aqui no Brasil, comemora-se o Dia das Crianças. Nos livros de história, quando estudamos história geral, o que tem no dia 12 outubro? O “descobrimento” da América pelo genovês Cristóvão Colombo, que estava a serviço das cortes espanhola (Castelo) e portuguesa (Aragão). Eles eram praticamente uma coisa só. Teve um período na história que eles se fundiram e formaram o Reino de Castela (1), eram os reis católicos da Europa.

No ano em que Colombo chegou, em 1492, eles editaram normas cerceando a liberdade religiosa, dizendo para muçulmanos e judeus: se vocês não se converterem ao cristianismo terão que sair dos nossos dois países. Vejam só o grau de perseguição. Uma boa parte se converteu e a outra parte saiu, enfrentando todas as dificuldades, largando tudo.

Alguns que se converteram, a maioria, eles continuaram professando as suas crenças na intimidade dos seus lares, porque não tinha como saber. Boa parte deles trocou os seus nomes para se identificar. É o que o pessoal chama de “cristão-novo”, e está relacionado aos sobrenomes com a denominação de árvores frutíferas e animais: Oliveira, Figueira, Coelho, Lebre etc.

Dia 12, então, teve “grandes” manifestações na Espanha, semelhante, vamos dizer, às nossas do último dia 2 de outubro, que não foram tão grandes assim. Olhem só que interessante. “O partido Vox divulgou um cartaz em que Portugal (e as ex-colônias) estão integrados no ‘império dos mares’ espanhol, no âmbito do dia da Hispanidade, que é a ‘maior obra realizada por um povo’.” 

O sentimento de Hispanidad é um termo novo, pouco usado, onde eles se orgulham do que a Espanha fez na colonização da chamada “América Espanhola”, o que foi uma barbaridade, foi o genocídio dos povos originários. 

Eu prefiro este termo a “índios”. Evidentemente, que tinha índios, que são diferentes de nações, como por exemplo, os Astecas, os Incas e os Maias. Eles tinham impérios, eram civilizações avançadas. Só restaram os Maias no México. Incas e Astecas, que eu saiba, desapareceram completamente.

Então, esses eram povos originários, não dá para você chamar essas pessoas de indígenas, alguns deles já desenvolviam rudimentos da escrita e calendário próprio, rituais de purificação religiosos. 

Outra questão é que essa turma fala de descobrimento, como se fosse possível descobrir alguma coisa que a natureza colocou ali há um bilhão de anos. Na evolução da crosta terrestre, os continentes eram todos unificados e eles foram se afastando, que é a chamada Pangeia. Então, já existiam as Américas. A costa das Américas, do lado de cá, era igualzinha à costa da África, por aí ela se separou.

Do ponto de vista da primeira chegada de alguém no Continente, eles também acham que foram eles os primeiros. Mas, os chineses estiveram aqui, lá pelo século 15, com os almirantes chineses, Zhou Man e Hong Bao (2). E tem os Vikings, também que, nos séculos VIII conquistaram boa parte da Europa. 

Eles eram considerados bárbaros, porque eles não acreditavam no Deus dos católicos, eles têm a sua mitologia própria, seus deuses próprios, são os deuses de Asgard (3), que é a mitologia nórdica: Thor, Odin, Loki, Frigga, Bragi etc. era uma religião politeísta e, os Vikings que chegaram aqui, também fizeram as suas incursões, tem registros arqueológicos disso, como fósseis.

Então, isso há mais de 600 ou 700 anos, há muito mais tempo do que chegou Cristóvão Colombo. Talvez vocês tenham assistido ao filme “1492 a conquista do paraíso”. Tem uma música muito bonita do Vangelis: “The Conquest of Paradise Extended”, uma música triunfal, somado com as imagens do filme, quem faz Cristóvão Colombo é o ator francês Gérard Depardieu. 

Sugestão: Para quem gosta de boas séries históricas, tem um dos Vikings, que eu assisti três temporadas. Ela é baseada em fatos verídicos, mas é claro que o diretor de uma série dessas, tem a sua liberdade de criação e, às vezes, exagera e até falseia a história. 

A pior de todas as falsificações – e eu escrevi até uma crônica sobre isso –trata-se da série sobre os templários, cheia de erros, mas é bonita, bem-feita e com bons autores. Tem uma boa reconstrução de época e vários personagens são verdadeiros. Trata-se da série chamada Knightfall (4).

No caso, os Vikings são mais próximos da realidade, eles conquistam a Grã-Bretanha, Inglaterra, que não tinha esses nomes na época, pilham o país, vão lá várias vezes e, uma das últimas vezes, ficam mais tempo. 

Eles trazem de volta o único cara que era capaz de fazer a dublagem e que dominava a língua nórdica, dinamarquesa, trazem de volta com eles o padre Athelstan, que era cristão, no século IX não tinha protestantes ainda, todo mundo era católico. Aos poucos, esse padre vai fazendo a conversão de todos eles.

É interessante nesse aspecto, que até hoje, todos os países da região, os países nórdicos: Dinamarca, Noruega, Suécia, Suíça, Islândia, Finlândia, há uma diferença entre nórdicos e escandinavos, mas todos esses países têm em sua bandeira uma cruz. 

Eles são excessivamente cristãos, não são mais católicos, a maioria é de monarquia ainda, mas têm primeiro-ministro. Pela primeira vez também aquela região da Europa é toda governada por partidos de centro-esquerda. O que é positivo, isto é mais um argumento que eu tenho usado, de que os fascistas crescem, mas não ainda o suficiente e estão tendo derrotas em muitos lugares.

Eu li uma notícia de que na Noruega, um homem matou cinco pessoas com arco e flecha, não é aquele comum, mas aquela besta que tem um tiro fortíssimo, deixando dois feridos. Foi na cidade de Kongsberg, a 67 km de Oslo. Já tinha tido uma chacina em 22 de julho de 2011, onde morreram 77 pessoas. Tem um filme chamado U-July 22 que reproduz tudo em detalhes. O assassino é Anders Behring Breivik, empresário norueguês de 32 anos, que está preso, com a pena máxima: 21 anos. Lá não tem pena de morte.

A gente nota que é um país com alto índice de desenvolvimento, alto poder aquisitivo, alto índice de escolaridade, quase zero de analfabetismo, mas produz fenômenos como o desse massacre.

Estou dizendo tudo isso para registrar esse movimento acontecido dia 12, na Espanha, altamente preocupante. Eles, então, procuram fortalecer aquele sentimento de Hispanidade o que, na verdade, é um sentimento de saudosismo do colonialismo espanhol. 

Outro filme maravilhoso que eu recomendo é A missão, com Robert de Niro, com uma música maravilhosa do grande Ennio Morricone. O filme mostra o massacre que os índios sofreram. O padre jesuíta Gabriel, contado na história, sai em defesa dos índios, eu não sei se é uma alusão ao Bartolomeu de Las Casas, mas é um filme que eu recomendo e que mostra a crueldade da colonização cristã. Eles levavam a civilização a povos não civilizados.

E, esse movimento na Espanha, ocorreu basicamente na Catalunha, que é uma das regiões que sonha em se separar da Espanha. É a região mais industrializada e desenvolvida. Eles querem se separar. Eles falam outra língua. 

É claro que todos são bilíngues, falam o espanhol, mas têm a língua própria, como tem outras duas regiões que também querem se separar: a Galícia, que fica na fronteira com Portugal, são os galegos. A linguagem deles é uma mistura de espanhol com português, que dá para compreender fluentemente. 

Eu tive muito contato com eles nos eventos internacionais em que eu participava. E, tem o país Basco, que tem aquele grupo famoso que foi guerrilheiro e hoje renunciou à luta armada, o ETA.  Esta sigla, na língua basca, significa “Pátria e Liberdade”. Nenhuma dessas regiões vai desmembrar da Espanha, podem tirar o cavalo da chuva. Acho muito improvável que isso aconteça, mas não é impossível.

A extrema direita nos principais países 

Esse movimento fascista na Europa tem um pezinho na Itália, onde o grupo se chama Forza Nuova. O líder deles é Roberto Fiore. Ele é um fascista assumido, inclusive houve um pedido no Parlamento italiano para o primeiro-ministro Mario Draghi dissolver o grupo, porque eles são fascistas, mas não são da linha do Mussolini.
Portugal – Em Portugal tem um grupo também, esse perdeu as eleições regionais. O grupo chama-se Chega!, é como se fosse no Brasil: Basta!. O líder desse movimento Chega! é André Ventura. Eles tiveram 10% da votação. É surpreendente! Mas, felizmente, perderam.

França – O pior de todos eles é esse movimento na França liderado por um político de 63 anos, Éric Zemmour. Ele é nascido na Argélia, país que foi colônia da França por décadas. Quem nascia na Argélia, até uma certa época, tinha a cidadania francesa, hoje não tem mais. Mas, na verdade, ele é de uma família judaica, nascido num país árabe. Então ele é um judeu árabe. Isso é possível já que ele é um judeu que nasceu em um país árabe.  

O Éric Zemmour, para se ter uma ideia, é islamofóbico, ele odeia muçulmanos, ele é pela deportação de todos os imigrantes. O partido mais à extrema-direita na França, que é “Front Nationale”, ao qual pertence Marine Le Pen, uma fascista, mas ela não defende a expulsão dos imigrantes, ela defende cotas de entrada e defende não conceder cidadania. 

Portanto, eles não teriam acesso a vários direitos. Ela, perto do Zemmour, foi empurrada para o espectro ideológico mais ao centro-direita, porque o espaço da extrema-direita que era dela foi ocupado por esse fascista.

Eu costumo dizer no Brasil, quando nós analisávamos o cenário político, antes desse fascista eleito presidente por um partido que ninguém conhecia, o recém-criado PSL, ao qual ele já não está mais filiado, que ele abandonou, mas na época era o partido mais à extrema-direita no país. 

Quando esse grupo chega no Brasil, os partidos de extrema-direita, que eu sempre classifiquei desta forma, que é o DEM e, um pouquinho mais ao centro, o PSDB, que não é um partido social-democrata verdadeiro. É um partido de direita, é um partido entreguista, pró submissão do Brasil ao imperialismo estadunidense. É um partido que se submete ao capitalismo financeiro e aos banqueiros.

Então, quando chega o fascismo lá ocupa o espaço, nesses casos mais ao centro. Hoje, a gente quando fala assim o que é que eles são, uns dizem: direita republicana, outros dizem: centro-direita e outros dizem: direita neoliberal e outros: direita não fascista. 

Porque, de fato, eles não são extremistas e não defendem o fim da democracia no Brasil ou, pelo menos, o seu enfraquecimento com as instituições de Estado. Eles tiveram um papel importante no golpe da presidente Dilma. E agora, aos poucos, estão voltando a retomar o seu papel nas chamadas instituições da sociedade. 

O TCU está tendo um bom posicionamento, o Supremo também e, até a Procuradoria da República, com o Augusto Aras, que dorme em berço esplêndido e não abre nenhum processo. Ele começou a abrir alguns e começou a se mexer, ele já viu que talvez não vá para o Supremo Tribunal Federal-STF. Então, ele vai entrar nesse segundo mandato dele de dois anos com uma certa autonomia.

Na França a Marie Le Pen está constrangida, porque Zemmour é muito de extrema-direita, ela não estava acostumada com isso. Então, ela se deslocou, mas é forte candidata. 

E o Emmanuel Macron, que é candidato à reeleição do ano que vem, ele foi eleito em 2017, o mandato lá é de cinco anos. Ontem ele anunciou um plano de 30 milhões de Euros para investir na França, até 2030. Eu acho estranho. 

Se ele for eleito no ano que vem (2022) o mandato dele vai até o dia 2027 e ele faz um plano para até 2030. Mas, é claro que ele está tentando fazer isso do ponto de vista eleitoral, ele está se mexendo, ele se deslocou mais ao centro ainda. Então, temos na “briga”: Macron, Le Pen e Zemmour.

Lembrando que em 2017, no segundo turno, pela primeira vez uma fascista, Marine Le Pen, que não é da direita tradicional francesa. Eles chamam de “direita tradicional francesa”, os gaullistas, como Jacques Chirac e outros. 

Ela foi para o segundo turno e, à época, ela era a mais à direita que tinha. O que aconteceu no segundo turno? Toda a esquerda francesa, ou digamos, 95% dela, votou com Macron, não por ele, mas para impedir que o mal pior vencesse.

É assim que funciona nos países com dois turnos. No primeiro turno você vota com o coração e no segundo turno você vota com a razão, você vota naquele que é menos ruim e que tem condição de barrar o que você não quer de jeito nenhum. Quem já participou de discussões políticas sabe que se raciocina assim. 

No ano que vem, o candidato, que quase foi para o segundo turno, mas perdeu em 2017, Jean-Luc Mélenchon, não está bem. O Partido Socialista-PSB, que é um partido social-democrata, não é verdadeiramente socialista, vai lançar um candidato, também não está bem. Os “verdes” também não estão bem. Então, está despontando na pesquisa, o Macron, a Le Pen e a extrema-direita, com Zemmour. Pode-se ver que a situação da França é muito particular.

Nós temos que ficar monitorando tudo isso. Eu quero finalizar dizendo que esse Éric Zemmour, além de ser islamofóbico, ele é absolutamente contra o aborto, por exemplo. É um retrocesso. A Espanha tem o aborto legalizado há décadas. Ele também é contra o movimento LGBT e é contra qualquer tipo de imigração. Ele quer o fechamento das fronteiras.

Hoje eu fui pesquisar sobre a vida dele e descobri que ele defende a reedição de uma lei de 1803. Esta lei dizia que nenhuma pessoa nascida na França pode ser registrada com o nome que não seja de origem francesa. Etienne, Anne, Desirée, e outros. Mas, Abdalla, Emir, Youssef, Mohamed, esses não podem. Vejam que absurdo, os pais não poderem decidir sobre o nome do filho ou da filha, isto para que a sonoridade de nomes estrangeiros não prevaleça no país. Esta lei foi revogada e ele está defendendo a sua volta.

Youtuber fascista

Na semana passada uma obscura jornalista, uma youtuber fascista, de extrema-direita, ela era do Vox, Cristina Segui, atacou Lula e o PT, dizendo que o partido é ligado ao Foro de São Paulo, que é ligado ao narcotráfico. Isto é uma barbaridade.

É evidente que a imprensa brasileira não deu bola para isso. Mas, como nós vivemos numa fase de mentiras, uma fase de pós-verdades, a Rede Record de Televisão, que apoia o fascismo no Brasil, deu grande espaço para essa fascista. As mídias bolsonaristas repercutiram esta reportagem que não tem nenhum fato concreto, apenas na cabeça da fascista. É isto que nos espera nas eleições do ano que vem.

Alemanha

Quando eu escrevi sobre a Alemanha, no início de outubro, a eleição foi no dia 26 de setembro, o tema rendeu um ensaio com 11 páginas e 44 notas de referência. Eu explanei longamente que o SPD venceu as eleições, é o partido social-democrata da Alemanha, que tinha deixado de ser esquerda desde 1918, quando os comunistas e marxistas leninistas saíram.

Eu vou falar da coligação que está se formando. Eu desenhei, quando fiz essa análise, uma coligação que juntasse os “verdes” e os sociais-democratas e mais um partido de esquerda pequeno, chamado de Link, que significa “à esquerda”. Ele elegeu só 39. A soma dos três daria 363 deputados. Para ter maioria, visto que o Parlamento subiu para 735, que é um número móvel. Mas, esta possibilidade não está se concretizando, porque faltam 15 deputados. 

Mas, depois que eu fiz esta análise, dizendo que o SPD vai formar governo, vários outros analistas vieram depois e me contestaram, dizendo que a Merkel iria manobrar o SPD para se juntar com a turma dela, que é uma Federação de dois partidos: CSU-CDU. Merkel é de direita, mas não é de extrema-direita, não são fascistas 

Isso não se verificou. A Merkel, com todo o seu prestígio, não conseguiu dobrar o Olaf Scholz, líder do SPD, para compor com a turma dela. E, com quem que ele vai compor? Vamos ver. Eu já tinha “previsto” e deixou de fora esse pequeno de esquerda com 39 deputados chamado Die Linke e procurou um partido chamado Partido Liberal-Democrata-PLD, que é de centro, vamos dizer assim.

Só que esse partido elegeu 92. Somados aos 206 deles, mais os 118 dos “verdes”, ele tem folgadamente 416. Se isso se concretizar, nós não vamos esperar até o Natal para ter um novo governo na Alemanha. Desta forma, o país voltaria para as mãos da Social-Democracia. 

Nesse ensaio que eu mencionei, eu escrevi que se as negociações demorassem para acontecer, isso é só resolveria em dezembro. Nesse ensaio também, eu conto desde o pós-guerra de 1945, todo o período que a social-democracia voltou a governar a Alemanha, que vai de 1945, ela passa por Willy Brandt, Konrad Adenauer, os políticos da reconstrução da Europa e da Alemanha, sociais-democratas capitalistas, evidentemente até que Helmut Kohl, do CDU e da Baviera, ganha a eleição. Eu escrevo sobre todos esses períodos, até os últimos 16 anos da Ângela Merkel, que volta o CDU ao poder. 

Agora, eu desenho um período novo da social-democracia. Toda a imprensa europeia, quando fala SPD escreve: centro-esquerda. Eu não acho que eles chegam a tanto. Essa classificação: centro-esquerda, centro, centro-direita e extrema-direita.

É igual àquela: classe média, classe média alta, classe média baixa, não vale nada. Mas, a pessoa tem uma referência. Quando se fala centro-esquerda, aquela turma que quer a transformação, sabe que se está falando de um grupo mais moderado. O SPD, chamado de centro-esquerda é um exagero. 

Agora, não tem a menor dúvida, e nisso eu me contraponho a outros analistas, e a internet está cheio deles. Dos canais que acompanho: TVT, TV247 e TVDCM, tem vários analistas e eu sou um deles. E nem sei se estou entre os melhores.  

Então, tem gente que é fera e tal eu até aprendo com elas. Então, eles dizem que esse governo desse possível primeiro-ministro Olaf Scholz (SPD) vai ser um governo moderado e que não vai mudar. Eu não estou de acordo com isso. 

A Merkel teve aspectos interessantes, ela não piorou a destruição do Estado Nacional, retirou sim alguns direitos, mas preservou outros. Abriu o diálogo com a Rússia e com a China, sob a pressão dos Estados Unidos para que não fizesse isso. Ela é uma mulher de direita, mas não é fascista nem nazista, mas não joga no nosso campo.

O Olaf vai ser um pouquinho diferente, provavelmente melhor. Fica este registro. Eles estão chamando esta Coligação, que tudo indica que será formada, como eu havia “previsto”: Coligação Semáforo, por quê? Vermelho, porque muitos colocam o SPD como vermelho, verdes e o amarelo, dos liberais democratas.

Notas

1. Reino de Castela - O Reino de Castela foi um dos antigos reinos da Península Ibérica formados durante a Reconquista, na qual começou por ser um condado do Reino de Leão até se tornar independente. As capitais eram: Toledo e Burgos. Foi fundado em 1065 e dissolvido em 1230. Seu regime era monárquico (Fonte: Wikipedia);

2. A 'descoberta' chinesa: Há quase duas décadas, no entanto, uma história alternativa da "descoberta" das Américas se espalhou: a de que, ao contrário do consenso historiográfico, frotas encabeçadas por dois almirantes chineses, Zhou Man e Hong Bao, haviam navegado da África até a foz do Rio Orenoco, na atual Venezuela, descendo depois por toda a costa do continente até o do Estreito de Magalhães, ao sul da América do Sul, ainda no ano de 1421 — portanto, 71 anos antes da viagem de Cristóvão Colombo. Eles tinham sido treinados e eram liderados pelo grande navegador chinês daquela época: o eunuco muçulmano Zheng (Fonte: Wikipedia);

3. Asgard é o reino dos deuses, os Æsir, na mitologia nórdica, mundo separado do reino dos mortais, Midgard. Asgard era, originalmente, conhecido como Godheim, pois os primeiros investigadores da mitologia (Fonte: Wikipedia);

4. Mais informações sobre a série pode ser lida neste site <https://bit.ly/3aVnotr>.

_________________________________________________'Pedalada SEM CRIME de responsabilidade foi MAIS FORTE para IMPEACHMENT do que TODOS os CRIMES de Bolsonaro'

Marcia Tiburi e Jair Bolsonaro
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247 - A filósofa Márcia Tiburi criticou, no Twitter, que “uma pedalada sem crime de responsabilidade foi mais forte para um impeachment do que todos os crimes praticados pelo genocida”, em referência ao golpe contra Dilma Rousseff em 2016 e os diversos crimes de responsabilidades reais cometidos por Jair Bolsonaro.

“As 600 mil mortes que, em grande parte, poderiam ter sido evitadas, foram programadas. A CPI foi mais que uma cena de machões histéricos?”, questionou Tiburi. 

_________________________________________________Eduardo Moreira: o caos econômico começou

Eduardo Moreira / Paulo Guedes
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247 - O economista Eduardo Moreira comentou nesta quinta-feira (21) as demissões de auxiliares de Paulo Guedes no Ministério da Economia. Para o economista, o movimento pode deflagrar uma crise econômica sem precedentes no País.

"O que aconteceu foi muito sério e mostra que a gente pode ter hoje pode lembrar por muito tempo como o começo de um caos total na nossa economia, levando a gente no final deste processo a algo similar ao que aconteceu com a Argentina de Mauricio Macri ou até pior", afirmou. 

O secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, e o secretário do Tesouro Nacional, Jefferson Bittencourt, pediram demissão de seus cargos no Ministério da Economia.

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Deixaram ainda o governo a secretária especial adjunta do Tesouro e Orçamento, Gildenora Dantas, e o secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Rafael Araújo.

Segundo Moreira, o que aconteceu nos últimos dias foi uma "perda de controle total" de Guedes em relação ao rumo econômico do País. "E não é à toa que isso acontece nas semanas seguintes ao escândalo do Pandora Papers", disse o economista, citando o caso que revelou que Paulo Guedes mantém R$ 53 milhões numa conta offshore nas Ilhas Virgens Britânicas.

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"Guedes nos últimos dias viu sua imagem de guardião da austeridade fiscal e do teto de gastos desmoronar completamente e está sem força, porque está se vendo chantageado pelo Centrão, que sabe da sua fraqueza", afirmou.

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_________________________________________________STF derruba trecho perverso da reforma trabalhista sobre acesso à Justiça gratuita

Corte declarou inconstitucionais os artigos da reforma de Temer que obrigava trabalhador que perder ação trabalhista a pagar custos do processo; centrais sindicais celebram a decisão

Por Ivan Longo 21 out 2021 - 16:25
Foto: Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas

Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu, na noite desta quarta-feira (20), o julgamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) e, com isso, derrubou artigos da reforma trabalhista aprovada em 2017, durante o governo de Michel Temer, que restringia o acesso de trabalhadores mais pobres à Justiça gratuita.

A reforma que prometeu gerar mais empregos mas que, na verdade, precarizou ainda mais as relações de trabalho e contribuiu com a alta do desemprego, instituiu que os trabalhadores que têm direito à Justiça gratuita, isto é, aqueles que recebem salário igual ou inferior a 40% do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social, teriam que arcar com os custos do processo (honorários advocatícios e perícia) caso perdessem uma ação trabalhista.

Foi exatamente essa medida que o STF analisou e tornou inconstitucional, tornando-a, assim, sem efeito. “Verifica-se, a partir de tais restrições, uma possibilidade de negar-se direitos fundamentais dos trabalhadores”, afirmou, por exemplo, o ministro Edson Fachin.

Ao final do julgamento, o placar ficou em 7 votos a 3 pela inconstitucionalidade do trecho que obriga o trabalhador a pagar as custas do processo caso seja a parte vencida. Os ministros determinaram, ainda, que o trabalhador só terá que pagar os honorários advocatícios de ação trabalhista caso não compareça às audiências.

Centrais sindicais celebram decisão

Em nota conjunta, 10 centrais sindicais (CUT, Força Sindical, UGT, CTB, NCST, CSB, CSP-Conlutas, Central da Classe Trabalhadora, Central do Servidor e Intersindical) celebraram a decisão do STF.

“O julgamento representa grande vitória da classe trabalhadora e atendeu aos anseios das Centrais Sindicais manifesto na Nota divulgada no dia 18 de outubro e encaminhada a todos os Ministros e Ministras do STF, na qual se denunciava o sequestro do Direito pela economia porque propunha um cálculo de ‘custo dos Direitos’ a partir de princípios de eficiência e acumulação de renda e riqueza dos mais poderosos. Quem pode paga e quem não pode fica sem direito. E afinal, quanto custa não ter Direitos?”, diz um trecho da nota.

Confira, abaixo, a íntegra.

_________________________________________________Reforma Trabalhista: tiro no coração do trabalhador e na cabeça dos empresários

E o que Guedes e Bolsonaro têm a oferecer é precarizar ainda mais as relações de trabalho.

Por Sindicato Popular 27 jan 2021 - 14:27

Em entrevista à BBC, o ex- caminhoneiro Dedeco além de tecer duras críticas ao governo Bolsonaro, à reforma da previdência e de denunciar como a greve dos caminhoneiros foi organizada por ruralistas, afirma: “Veja o preço do óleo diesel hoje, chega a estar R$ 4,40, R$ 4,50. Na época que nós fizemos paralisação, nós paramos porque o diesel estava R$ 3,30. O caminhoneiro, lá em 2015, no governo Dilma, parou porque o diesel estava R$ 2,80. Hoje, o diesel já está quase R$ 5 em alguns lugares. E o caminhoneiro está lambendo esse governo.”

Essa sensação que é um misto de traição, decepção e frustração vem tomando conta não apenas dos mais de 14 milhões de desempregados, quase 10 milhões de desalentados e muitos milhões de precarizados que ampliam a fila dos trabalhadores sem direitos com a reforma trabalhista, que supriu mais de 100 artigos da CLT.

A promessa tanto da reforma trabalhista como a da reforma da previdência era gerar empregos. O resultado visivelmente na realidade concreta da classe trabalhadora é o oposto disso.

Balanço de 3 anos da reforma trabalhista

Guedes e Bolsonaro responsabilizam as tentativas de isolamento de governadores e prefeitos, para evitar a ampliação da epidemia, por todas as mazelas do Brasil. Mas são eles os responsáveis diretos pela depressão econômica em que estamos mergulhados: privatizaçõescorrupção em compras superfaturadas envolvendo pastores, militares, esquema de laranjas, políticas de desindustrialização (aqui e aqui). Guedes e Bolsonaro são sinônimos de retrocesso econômico.

Esta semana, Carta Capital entrevistou o advogado trabalhista  Antônio Vicente Martins, ex-presidente da Associação Gaúcha de Advogados Trabalhistas e integrante da Rede Lado, organização de escritórios trabalhistas que realizam debate público sobre as reformas. Para Carta Capital ele foi categórico ao afirmar: “Empresários que defenderam a reforma trabalhista deram um tiro na própria cabeça“. O advogado lembra que o primeiro ato do governo Bolsonaro foi a extinção do Ministério do Trabalho o que implica na inseguridade jurídica das relações de trabalho, mas também nas políticas de desenvolvimento nacional, prejudicando as empresas nacionais.

Tal afirmação se sustenta ao analisarmos o desastre econômico em que se encontra o país, após 3 anos de Reforma Trabalhista. Em 3 anos houve um aumento de uma imensa massa de trabalhadores precarizados, sem acesso a direitos ou à Justiça do Trabalho, sem acesso ao consumo e sem poder contribuir com INSS e que precisa cada vez mais das políticas do estado, do SUS. O Estado, por sua vez, com o trabalho intermitente, pjotizado e outras formas de precarização não recolhe nem dos trabalhadores e nem das empresas. Resultado: não consegue suprir as demandas vindas da sociedade: “A precarização das relações de trabalho no Brasil vai em direção à África. Nem nos Estados Unidos é tão precário. O que tem de ser pautado é a renda mínima, como defendida pelo vereador Eduardo Suplicy (PT-SP). As relações de trabalho são relações de dignidade humana.

E o que Guedes e Bolsonaro têm a oferecer é precarizar ainda mais as relações de trabalho.

2020 o ano que não acabou

A Pandemia do Covid-19 apesar de matar milhões no mundo inteiro não foi democrática ao vitimar as pessoas. A maioria dos mortos são pobres, indígenas, quilombolas, negros, mulheres, moradores de territórios sem saneamento básico e condições mínimas de isolamento.

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A pandemia ampliou a desigualdade social, os mais pobres perderam renda, a massa salarial diminuiu, os mais ricos não apenas se recuperaram em tempo recorde, como acumularam mais ainda.

Em seu Relatório Anual da desigualdade a Oxfam mostra que “Em apenas nove meses, as 1.000 maiores fortunas do mundo já haviam recuperado as perdas econômicas causadas pela pandemia”.

Diante deste cenário o impeachment de Bolsonaro é apenas o primeiro passo. Sem renda mínima, sem auxílio emergencial a fome será ainda maior no Brasil.

Sem recuperarmos o mínimo de civilidade entre as relações Capital- Trabalho, sem política de desenvolvimento e geração de emprego, sem recuperar nossa tradição de mais de 120 anos em campanhas de imunização, sem taxar grandes fortunas, para que o Estado possa financiar políticas públicas de acesso universal, não apenas os trabalhadores brasileiros serão cidadãos de segunda classe, mas a indústria nacional desaparecerá e o número de vidas perdidas será imenso.

____________________________________________________Festejada pela mídia liberal, a reforma trabalhista quatro anos depois: “um verdadeiro desastre”

Desemprego, crescimento da informalidade entre outros; ex-ministros do Trabalho comentam para a Fórum os efeitos da reforma; reportagem lembra ainda o apoio de colunistas

Por Julinho Bittencourt 7 out 2021 - 11:45
Foto: Agência Brasil

Na época em que a reforma trabalhista entrou em vigor, em 11 de novembro de 2017, o governo de Michel Temer chegou a alardear que o pacote de medidas criaria dois milhões de vagas em dois anos, e seis milhões em dez anos.

Quase quatro anos depois, dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que, ao contrário disso, o desemprego disparou. No trimestre terminado em julho de 2021, a taxa de desocupação ficou em 13,7%. Esse número é quase dois pontos percentuais a mais que os 11,8% registrados no último trimestre de 2017. No período, o total de desempregados subiu de 12,3 milhões para 14,1 milhões.

“Quero concordar com a sua afirmação […] de que os nossos ministros [da Fazenda, Henrique] Meirelles e [do Trabalho] Ronaldo Nogueira exageraram nas suas previsões”, disse Michel Temer no ano passado, em um evento no Paraná.

Outra das promessas de Temer que falhou com a reforma foi a propalada diminuição da informalidade. No trimestre encerrado em outubro de 2017, antes das novas regras, a taxa de informalidade era de 40,5%, de acordo com o IBGE. O instituto aponta que, entre maio e julho de 2021, a proporção de pessoas ocupadas trabalhando na informalidade ficou em 40,8%.

Um verdadeiro desastre

Para Ricardo Berzoini (PT), ex-ministro da Previdência e do Trabalho, “quatro anos depois, infelizmente, os fatos confirmaram todos os nossos avisos”. De acordo com ele, “a reforma, como ocorreu em outros países, não gerou empregos. Ao contrário, aumentou a precarização e a informalidade”.

Berzoini diz ainda que “a pandemia agravou esse quadro, mas antes mesmo de março de 2020, já identificamos os sinais de deterioração do mercado de trabalho. O trabalho intermitente, a ampliação das possibilidades de terceirização e o enfraquecimento dos sindicatos provocaram a perda de renda e a ampliação do percentual de trabalhadores sem proteção previdenciária”. Para ele, a reforma trabalhista foi “um verdadeiro desastre que nós anunciamos e que foi agravado com a reforma da previdência”.

Outro ex-ministro do Trabalho que comentou a efeméride foi Luiz Marinho (PT). Para ele, como já era previsto, “essa reforma trabalhista tinha um único objetivo: retirar direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, sem gerar uma única vaga de emprego”. Marinho disse ainda que “o que vemos hoje é desemprego nas alturas, precarização total dos direitos e nosso povo desesperado, sem empregos, sem direitos, na miséria, com fome, na fila por um pedaço de osso e pé de galinha e escravizado”, lamentou.

“São quatro anos de precarização e retiradas de direito, resultado disso é desemprego recorde, achatamento salarial e, consequentemente, perda de poder aquisitivo da massa assalariada, recessão e inflação”, pontuou Carlos Lupi, também ex-ministro do trabalho e atual presidente nacional do PDT.

A imprensa liberal

É sempre bom lembrar que o alarde que o governo fez em torno da reforma trabalhista contou com o apoio de vários setores da chamada grande imprensa. Apesar da impopularidade de Temer na época, não foram poucos os colunistas que a defenderam com unhas e dentes.

Miriam Leitão, por exemplo, apontou o que ela chamava de “pontos positivos” do pacote, entre eles, “o fim do imposto sindical”. Além disso, ela também considerou a flexibilização da jornada de trabalho – chamada eufemisticamente de contrato intermitente – como “muito positiva”.

Contrato intermitente, é bom lembrar: o empregado contratado presta serviço somente quando é chamado pela empresa e recebe apenas pelas horas trabalhadas. Ele também pode firmar contrato com mais de uma empresa ao mesmo tempo.

Em um tuíte que chama para seu texto, a colunista da Globo diz ainda que a “proposta de reforma trabalhista tem defeitos, mas modernizar as leis é agenda do país, não do governo”.

Merval Pereira também se mostrou entusiasmado com a reforma já aprovada, em texto de dezembro de 2017. De acordo com ele, na época, “o governo Temer custou a encontrar o tom certo para esclarecer a população. Agora parece ter corrigido o rumo e está distribuindo uma cartilha com explicações dos principais pontos que são controvertidos, além de uma campanha publicitária que centrou a mensagem na ideia de que a reforma é contra privilégios, justamente das corporações de servidores públicos que têm força política para pressionar o Congresso”.

Carlos Alberto Sardenberg, por sua vez, já defendia a reforma um ano antes da sua aprovação. Em comentário na rádio CBN, em setembro de 2016, ele também fez a defesa do contrato por hora trabalhada. Para ele, “propostas como contrato por hora trabalhada e por produtividade reduzem os custos e estimulam investimentos”.

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