9__________*( +1:MOISÉS): _______________________________________________ Físicos aprimoraram com sucesso um dispositivo ESSENCIAL para a PRODUÇÃO de ENERGIA de FUSÃO NUCLEAR
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(+1:MOISÉS): Físicos aprimoraram com sucesso um dispositivo essencial para a produção de energia de fusão _________________________________________________Uma VOZ da RAZÃO: por que CHRISTOPHER_HITCHENS é tão importante _________________________________________________Por que a ideia de ‘gênero’ está provocando reações negativas em todo o mundo? _________________________________________________
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_________________________________________________Documentário enquadra mistério da consciência em moldura quase mística - Virada Psicodélica
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Dentro de duas semanas psiconautas fluentes em inglês terão a chance de assistir a mais um filme sobre psicodélicos: “Aware – Glimpses of Consciousness” (em tradução livre, “Ciente – Vislumbres da Consciência”), de Frauke Sandig e Eric Black. O documentário só está em cartaz na Alemanha e nos EUA, mas “Aware” terá estreia no streaming em 10 de novembro (um trailer pode ser visto aqui).
O filme teuto-americano não trata exatamente de modificadores da consciência, mas da consciência em geral. Só que não: a psilocibina dos cogumelos “mágicos” entra como coadjuvante que acaba roubando a cena.
Repare no trecho do cartaz reproduzido acima. O rosto que aparece marcado pela cruz de luz laser vermelha é de Justine, voluntária em uma das mais de 600 sessões com psilocibina organizadas na Universidade Johns Hopkins pelo neurocientista Roland Griffiths, pioneiro da ciência psicodélica e talvez o maior responsável por manter vivo seu elo com a aura mística dos tempos do movimento hippie.
A moça conta no filme que, mesmo dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional para mapear sua atividade cerebral, a psilocibina a levou a conectar-se com pessoas queridas que já morreram. Disse que a experiência reforçou sua crença na vida além-túmulo e funcionou como um aprendizado para o futuro, dando-lhe segurança diante da morte.
Não será a primeira vez que este blog põe em dúvida a necessidade e a pertinência de preservar essa associação incômoda da ciência com misticismo. O filme não chega a embarcar na canoa esotérica, mas está lá no ancoradouro para dar boas-vindas a uma penca de pesquisadores e convertidos que têm um ou os dois pés nela.

Na entrevista para o documentário, Griffiths fala com desenvoltura sobre ensinamentos do budismo (“você não é o self”). Em sua interpretação, a psilocibina fornece uma via rápida para relaxar a chamada rede de modo padrão (ou DMN, default mode network em inglês), padrão de conexão cerebral da introspecção que se acredita estar na base do ego.
“Algo maior emerge”, diz o neurocientista no filme. “Uma abertura maior, para além das respostas habituais”, que estaria diretamente associada com o potencial terapêutico dos psicodélicos. Um estudo seu, aliás, mostrou forte correlação da intensidade da experiência mística vivida sob efeito da psilocibina com a melhora de sintomas de depressão.
Outros cientistas entrevistados vão mais longe. A mais desconcertante é Monica Gagliano, da Universidade de Sydney, que defende ampliar a noção de consciência difundindo-a pelo tecido da natureza –não só para incluir esboços da faculdade em primatas, cães, golfinhos e pássaros, como indicam alguns estudos, mas até as plantas.
Para Gagliano, vegetais são sencientes, ou seja, têm sentidos e sopesam informações do ambiente para aprender –meio caminho andado para a consciência. Seus experimentos indicam que brotos de ervilhas acham o caminho para fonte de água guiadas só pelo som gravado do líquido e que é possível reproduzir com plantas o condicionamento que Pavlov infligiu a cães (no caso vegetal, caules que se inclinam em busca de luz mesmo na ausência dela, após associar o som de uma ventoinha com a luz que se acende).

O documentário traz ainda um professor de filosofia, Richard Boothby (Universidade Loyola, Maryland, EUA), um agnóstico que deixa de sê-lo após ingerir cogumelos e se reconciliar como suicídio do filho. Dez anos depois de voluntariar-se para experimento com psilocibina, descreve a vivência como a mais significativa de sua vida, algo como sentir “o batimento cardíaco da realidade ela própria”.
A “aceitação amorosa” que lhe permitiu superar o luto revoltado seria a essência da vida, e não o medo ou defesas humanas. “A consciência não é nada mais que essa abertura”, diz. “Deus não é o destino, mas a jornada (…). Se Deus nos deu liberdade, ele não sabe o resultado. Nós somos os veículos [proxies] da própria vida de Deus.”
Previsivelmente, há também no filme um monge budista com doutorado em genética, Matthieu Ricard, e uma sacerdotisa maia, Josefa Kirvin Kulix. Nenhum deles economiza figuras expansivas para falar da consciência, que veem disseminada entre todos os seres e coisas –“como o vento, que não se pode aprisionar”, diz Josefa.

Mais surpreendente é ouvir Christof Koch, estrela da pesquisa sobre consciência no Instituto Allen criado pelo sócio de Bill Gates na origem da Microsoft, Paul G. Allen (1953-2018), quase exasperado com a impotência científica diante do desafio de capturar a natureza da consciência. “Só consigo ver mecanismos”, lamenta: “Como é que fazemos as águas do cérebro se transformarem no vinho da consciência?”.
Para Koch, a consciência é um traço fundamental do universo, como um mar que nos envolve. “Será que os peixes sabem que estão na água?” –pergunta. A julgar pelo título de seu livro de 2019, “A Sensação da Própria Vida – Por que a Consciência Está Disseminada, mas Não Pode Ser Computada” (The MIT Press), ele parece ter concluído pela impossibilidade de conhecer a consciência como um objeto exterior.

Com ele concorda o filósofo Boothby: a vivência psicodélica não é engendrada pela droga, mas vem de algo maior fora dela e do indivíduo. A psilocibina se limitaria a abrir o obturador da percepção, permitindo uma exposição radical do sujeito à própria vida, como o mecanismo da câmera fotográfica que propicia a entra da mais luz.
Se conclusão houvesse no documentário “Aware”, seria esta: a consciência permanece um mistério. Sua opacidade resiste até aqui a todas as ferramentas manejadas pela ciência para desvendá-la. O recurso frequente de pesquisadores a vocabulário e conceitos holistas, esotéricos ou místicos, como documenta o filme, é mais um sintoma de descolamento de nossa retina cognitiva, que nos condena a apenas tatear o objeto descomunal na penumbra psicodélica.
Interessante notar algum paralelo entre essas ideias sobre a consciência –não seria uma prerrogativa humana; substâncias psicoativas permitem vislumbrar suas manifestações em outros planos– e elementos do que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro chama de perspectivismo ameríndio. Pajés e xamãs, afinal, usam psicodélicos ou quejandos para trocar de pele e transitar entre domínios em que todos os seres são humanos, por assim dizer, e vivem em sociedade.
“Aware”, o filme, é um bom exemplo do reconhecimento de que a consciência talvez só possa ser apreendida com ajuda de metáforas e poesia. Como o vento.
(Reprodução)
_________________________________________________Pistas para o colapso de uma civilização maia encontradas em fezes humanas antigas
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Mais Uma do Moisés (+1:MOISÉS): Físicos aprimoraram com sucesso um dispositivo essencial para a produção de energia de fusão

Por Michelle Starr
Publicado na ScienceAlert
Físicos que trabalham em um tipo de reator de fusão chamado stellarator estão cada vez mais perto de realmente aproveitar o poder da fusão nuclear.
De acordo com um novo estudo, o stellarator Wendelstein 7-X na Alemanha agora é capaz de conter calor que atinge temperaturas duas vezes mais altas do que as encontradas no núcleo do Sol. Isso significa que os físicos foram capazes de reduzir a perda de calor – um grande passo à frente na tecnologia estelar.
“É uma notícia realmente emocionante para a fusão o fato de que este projeto foi bem-sucedido”, disse o físico Novimir Pablant, do Laboratório de Física de Plasma de Princeton (PPPL), nos EUA. “Isso mostra claramente que esse tipo de otimização pode ser feito”.
A energia de fusão está no centro dos esforços para o desenvolvimento de energia em todo o mundo. Teoricamente, ela depende do aproveitamento da energia liberada quando os núcleos do plasma se fundem para produzir um elemento mais pesado: o mesmo processo que ocorre no coração das estrelas. Se pudéssemos conseguir isso, os benefícios seriam enormes – energia limpa e de alta produção que é praticamente inesgotável.
No entanto, é mais fácil falar do que fazer. A fusão é um processo extremamente enérgico e não é fácil contê-la. A energia de fusão foi estudada pela primeira vez na década de 1940; décadas depois, os reatores de fusão ainda não produzem tanta energia quanto perdem, por uma margem bastante significativa – embora a lacuna esteja diminuindo.
A tecnologia de fusão atualmente quebrando recordes de temperatura é o tokamak – um anel de plasma em forma de rosquinha preso em uma camada de campos magnéticos, acionado em alta velocidade em pulsos rápidos. A relativa simplicidade ajuda a contê-lo em altas temperaturas, mas apenas em rajadas.
Stellaratores, por outro lado, são baseados em uma configuração incrivelmente complexa de ímãs mapeados por uma IA que pode orientar o plasma para mantê-lo fluindo. Eles são muito difíceis de projetar e construir, o que resultou em stellaratores que vazam um pouco da energia produzida pela fusão, na forma de perda de calor.

Essa perda de calor é o resultado de um processo chamado transporte neoclássico, no qual íons em colisão em um reator de fusão fazem com que o plasma se espalhe para fora. Seu efeito é maior em stellaratores do que em tokamaks.
Como os tokamaks têm suas próprias ineficiências, os pesquisadores do PPPL e do Instituto Max Planck de Física do Plasma buscaram moldar os ímãs no W7-X para tentar reduzir os efeitos do transporte neoclássico. E agora as medições, feitas com um instrumento chamado espectrômetro de cristal de imagem de raios-X (XICS), mostraram temperaturas muito altas dentro do reator.
Estas são apoiadas por medições de espectroscopia de recombinação de troca de carga (CXRS), que são consideradas mais precisas do que as medições de XICS, mas não podem ser feitas em todas as condições.
Mas com os dois conjuntos de dados em acordo, parece que o stellarator foi capaz de atingir temperaturas de quase 30 milhões de Kelvin.
Isso só seria possível, descobriu a equipe, se houvesse uma redução acentuada no transporte neoclássico. Eles conduziram a modelagem para determinar quanto calor seria perdido por meio do transporte neoclássico se o W7-X não tivesse sido otimizado e descobriram que 30 milhões de Kelvin estavam fora do limite.
“Isso mostrou que a forma otimizada do W7-X reduziu o transporte neoclássico e foi necessária para o desempenho visto nos experimentos do W7-X”, disse Pablant. “Foi uma forma de mostrar a importância da otimização”.
Este resultado empolgante representa um passo significativo no aprimoramento do design do stellarator, que informará e moldará os esforços futuros.
É também um passo significativo em direção a um reator de fusão prático, embora haja muito mais trabalho a ser feito. Para um reator de fusão ser prático, ele precisa não apenas ter altas temperaturas, mas também a densidade certa de plasma e tempos de confinamento decentes. Enquanto os tokamaks esquentam mais, reduzir a energia perdida garante que a tecnologia estelar ainda possa ter uma vantagem.
“Reduzir o transporte neoclássico não é a única coisa que você precisa fazer”, disse Pablant. “Há uma série de outras metas que precisam ser mostradas, incluindo funcionamento constante e redução do transporte turbulento”.
Com diferentes tecnologias de reatores de fusão nuclear atualmente em desenvolvimento, parece apenas uma questão de tempo até que uma delas atinja tais metais. Ainda pode demorar um pouco até que a energia gerada pela fusão alcance nossas redes de energia, mas quando isso acontecer, pode muito bem mudar o mundo.
O W7-X está atualmente passando por atualizações e reiniciará as operações em 2022.
A pesquisa foi publicada na Nature.
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O Big Bang não foi o início? Equação quântica prediz que o Universo não teve um começo

Por Lisa Zyga
Publicado na Phys.org
O Universo pode ter existido para sempre, de acordo com um novo modelo que aplica uma possível correção quântica para complementar a teoria da relatividade geral de Einstein. O modelo também pode levar em conta a matéria escura e a energia escura, resolvendo vários problemas de uma vez.
A idade amplamente aceita do Universo, estimada pela relatividade geral, é de 13,8 bilhões de anos. No início, pensa-se que tudo o que existe ocupou um único ponto infinitamente denso – uma singularidade. Só depois que esse ponto começou a se expandir em um “Big Bang” é que o Universo começou oficialmente.
Embora a singularidade do Big Bang surja direta e inevitavelmente da matemática da relatividade geral, alguns cientistas a consideram problemática porque a matemática só pode explicar o que aconteceu imediatamente depois – não na ou antes – da singularidade.
“A singularidade do Big Bang é o problema mais grave da relatividade geral, porque as leis da física parecem quebrar nela”, disse Ahmed Farag Ali da Universidade de Benha e da Cidade de Ciência, Tecnologia e Inovação de Zewail, ambas no Egito, ao Phys.org.
Ali e o coautor Saurya Das da Universidade de Lethbridge em Alberta, Canadá, mostraram em um estudo publicado na Physics Letters B que a singularidade do Big Bang pode ser resolvida por seu novo modelo no qual o Universo não tem começo nem fim.
Velhas ideias revisitadas
Os físicos enfatizam que suas propostas de correção quântica não são aplicadas ad hoc na tentativa de eliminar especificamente a singularidade do Big Bang. Seu trabalho é baseado em ideias do físico teórico David Bohm, também conhecido por suas contribuições à filosofia da física. A partir da década de 1950, Bohm explorou a substituição da geodésia clássica (o caminho mais curto entre dois pontos em uma superfície curva) por trajetórias quânticas.
Em seu estudo, Ali e Das aplicaram essas trajetórias bohmianas a uma equação desenvolvida na década de 1950 pelo físico Amal Kumar Raychaudhuri na Universidade da Presidência em Calcutá, Índia. Raychaudhuri também foi professor de Das quando era aluno de graduação dessa instituição nos anos 90.
Usando a equação de Raychaudhuri com a correção quântica, Ali e Das derivaram as equações de Friedmann com a correção quântica, que descrevem a expansão e evolução do Universo (incluindo o Big Bang) dentro do contexto da relatividade geral. Embora não seja uma teoria verdadeira da gravidade quântica, o modelo contém elementos tanto da teoria quântica quanto da relatividade geral. Ali e Das também esperam que seus resultados se mantenham, mesmo se e quando uma teoria completa da gravidade quântica for formulada.
Sem singularidades, nem coisas escuras
Além de não prever uma singularidade do Big Bang, o novo modelo também não prevê uma singularidade do “Big Crunch”. Na relatividade geral, um destino possível do Universo é que ele comece a encolher até que se contraia sobre si mesmo em um grande colapso e se torne um ponto infinitamente denso mais uma vez.
Ali e Das explicam em seu estudo que seu modelo evita singularidades devido a uma diferença fundamental entre a geodésia clássica e as trajetórias Bohmianas. A geodésia clássica eventualmente se cruza e os pontos para os quais convergem são singularidades. Em contraste, as trajetórias Bohmianas nunca se cruzam, então as singularidades não aparecem nas equações.
Em termos cosmológicos, os cientistas explicam que as correções quânticas podem ser pensadas como um termo de constante cosmológica (sem a necessidade de energia escura) e um termo de radiação. Esses termos mantêm o Universo em um tamanho finito e, portanto, dão a ele uma idade infinita. Os termos também fazem previsões que concordam intimamente com as observações atuais da constante cosmológica e densidade do Universo.
Nova partícula de gravidade
Em termos físicos, o modelo descreve o Universo como sendo preenchido com um fluido quântico. Os cientistas propõem que este fluido pode ser composto de grávitons – partículas hipotéticas sem massa que medeiam a força da gravidade. Se eles existem, acredita-se que os grávitons desempenhem um papel fundamental na teoria da gravidade quântica.
Em um estudo relacionado, Das e outro colaborador, Rajat Bhaduri, da Universidade McMaster, Canadá, deram mais crédito a esse modelo. Eles mostram que os grávitons podem formar um condensado de Bose-Einstein (em homenagem a Einstein e outro físico indiano, Satyendra Nath Bose) em temperaturas que estavam presentes no Universo em todas as épocas.
Motivados pelo potencial do modelo para resolver a singularidade do Big Bang e explicar a matéria escura e a energia escura, os físicos planejam analisar seu modelo com mais rigor no futuro. Seu trabalho futuro inclui refazer seu estudo levando em consideração pequenas perturbações não homogêneas e anisotrópicas, mas eles não esperam que pequenas perturbações afetem significativamente os resultados.
“É gratificante notar que tais correções simples podem potencialmente resolver tantos problemas de uma vez”, disse Das.
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Cinco fatos extremos sobre estrelas de nêutrons
Estrelas de nêutrons têm merecido seus superlativos desde a sua descoberta em 1967.

Por Ali Sundermier
Publicado na Symmetry Magazine
Quando uma estrela massiva morre, expelindo a maior parte de suas tripas através do universo em uma explosão de supernova, seu coração de ferro, o núcleo da estrela, colapsa para criar a forma mais densa de matéria observável no universo: uma estrela de nêutrons.
Uma estrela de nêutrons é basicamente um núcleo gigante, diz Mark Alford, professor da Universidade de Washington.
“Imagine uma pequena bola de chumbo com algodão doce em torno dela”, diz Alford. – Isso é um átomo. Toda a massa está na bolinha de chumbo no meio, e há uma grande nuvem de elétrons à sua volta, que seria o algodão doce.
Nas estrelas de nêutrons, os átomos foram colapsados. As nuvens de elétrons foram todas sugadas e toda a coisa se torna uma única entidade com elétrons correndo lado a lado com prótons e nêutrons em um gás ou fluido.
Estrelas de nêutrons são muito pequenas, comparadas a outro objetos estelares. Embora os cientistas ainda estejam trabalhando para estimar seu diâmetro exato, eles estimam que elas tenham em torno de 20 a 30 km de diâmetro, algo em torno do comprimento de Manhattan. Apesar disso, elas têm cerca de 1,5 vezes a massa do Sol.
Se uma estrela de nêutrons fosse mais densa, ela se tornaria um buraco negro e desapareceria, diz Alford. “Ela está perto da última parada na linha”.
Esses objetos extremos oferecem intrigantes casos de teste que poderiam ajudar os físicos a entender as forças fundamentais, a relatividade geral e o universo primitivo. Aqui estão alguns fatos fascinantes para você conhecer:

1. Nos primeiros segundos após uma estrela começar sua transformação em estrela de nêutrons, a energia emitida em neutrinos é igual à quantidade total de luz emitida por todas as estrelas no universo observável.
A matéria ordinária contém números aproximadamente iguais de prótons e nêutrons. Mas a maioria dos prótons em uma estrela de nêutrons são convertidos em nêutrons – estrelas de nêutrons são compostas por cerca de 95% de nêutrons. Quando os prótons se convertem em nêutrons, liberam partículas chamadas neutrinos.
Estrelas de nêutrons são feitas em explosões de supernova, que são fábricas gigantes de neutrinos. Uma supernova irradia 10 vezes mais neutrinos do que partículas, prótons, nêutrons e elétrons no Sol.

2. Especula-se que se houvesse vida em estrelas de nêutrons, seria bidimensional.
As estrelas de nêutrons têm alguns dos campos gravitacionais e magnéticos mais fortes do universo. A gravidade é forte o suficiente para nivelar quase qualquer coisa na superfície. Os campos magnéticos de estrelas de nêutrons podem ser um bilhão de vezes a um milhão de bilhão de vezes o campo magnético na superfície da Terra.
“Tudo nas estrelas de nêutrons é extremo”, diz James Lattimer, professor da Stony Brook University. “Chega ao ponto de ser quase ridículo”.
Por serem tão densas, as estrelas de nêutrons fornecem o teste perfeito para a força forte, permitindo que os cientistas sondem a maneira que quarks e glúons interagem nestas condições. Muitas teorias preveem que o núcleo de uma estrela de nêutrons comprima nêutrons e prótons, liberando os quarks dos quais são construídos. Os cientistas criaram uma versão mais quente destes “quarks” liberados no Relativistic Heavy Ion Collider e no Large Hadron Collider.
A intensa gravidade das estrelas de nêutrons requer que os cientistas usem a teoria da relatividade geral para descrever as propriedades físicas delas. De fato, as medições de estrelas de nêutrons nos dão alguns dos testes mais precisos da relatividade geral que temos atualmente.
Apesar de suas incríveis densidades e gravidade extrema, estrelas de nêutrons ainda conseguem manter uma quantidade surpreendente de estrutura interna, crostas convidativas, oceanos e atmosferas. “Eles são uma mistura estranha de massa de estrela com algumas propriedades de planeta”, diz Chuck Horowitz, professor da Universidade de Indiana.
Mas enquanto aqui na Terra estamos acostumados a ter uma atmosfera que se estende por centenas de km, a gravidade extrema de uma estrela de nêutrons só permite que sua atmosfera se estenda a menos de 30 cm.

3. A estrela de nêutrons giratória mais rápida conhecida gira cerca de 700 vezes por segundo.
Os cientistas acreditam que a maioria das estrelas de nêutrons ou atualmente são ou em algum ponto foram pulsares, estrelas que emitem feixes de ondas de rádio conforme giram. Se um pulsar estiver apontado para nosso planeta, nós vemos estes feixes alcançar da Terra como a luz de um farol.
Os cientistas observaram pela primeira vez estrelas de nêutrons em 1967, quando um estudante de pós-graduação chamado Jocelyn Bell percebeu repetidos pulsos de rádio que chegavam de um pulsar fora do nosso sistema solar (o Prêmio Nobel de Física de 1974 foi para o seu conselheiro de tese, Anthony Hewish, pela descoberta).
Os pulsares podem girar dezenas ou centenas de vezes por segundo. Se você estivesse de pé no equador do pulsar mais rápido conhecido, a velocidade de rotação seria cerca de 1/10 da velocidade da luz.
O Prêmio Nobel de Física de 1993 foi para cientistas que mediram a taxa na qual um par de estrelas de nêutrons que orbitavam entre si estavam espiralando juntas devido à emissão de radiação gravitacional, um fenômeno predito pela teoria da relatividade geral de Albert Einstein.
Os cientistas do Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory, ou LIGO, anunciaram em 2016 que eles tinham detectado diretamente ondas gravitacionais pela primeira vez. No futuro, seria possível usar os pulsares como versões gigantescas e ampliadas do experimento LIGO, tentando detectar as pequenas mudanças na distância entre os pulsares e a Terra quando uma onda gravitacional passa.

4. O tipo errado de estrela de nêutrons poderia causar estragos na Terra.
Estrelas de nêutrons podem ser perigosas por causa de seus campos fortes. Se uma estrela de nêutrons entrasse no nosso sistema solar, poderia causar caos, tirando os planetas de suas órbitas e, se chegasse perto o suficiente, até mesmo levantando marés que rasgariam o planeta.
Mas a estrela de nêutrons mais próxima está a cerca de 500 anos-luz de distância. E considerando que Proxima Centauri, a estrela mais próxima à Terra, a pouco mais de 4 anos-luz de distância, não tem influência no nosso planeta, é improvável sentirmos esses efeitos catastróficos tão cedo.
Provavelmente ainda mais perigosa seria a radiação do campo magnético de uma estrela de nêutrons. Magnetares são estrelas de nêutrons com campos magnéticos mil vezes mais fortes que os campos extremamente fortes de pulsares “normais”. Repentinos rearranjos desses campos podem produzir flares parecidos com flares solares, mas muito mais poderosos.
Em 27 de dezembro de 2004, cientistas observaram um raio gama gigante do Magnetar SGR 1806-20, a cerca de 50.000 anos-luz de distância. Em 0,2 segundos o flare irradiava tanta energia quanto o Sol produz em 300.000 anos. O flare saturou muitos detectores de naves espaciais e produziu distúrbios detectáveis na ionosfera da Terra.
Felizmente, não conhecemos qualquer magnetar próximo poderoso o suficiente para causar qualquer dano.

5. Apesar dos extremos das estrelas de nêutrons, os pesquisadores ainda têm maneiras de estudá-las.
Há muitas coisas que não sabemos sobre estrelas de nêutrons – incluindo quantas delas estão lá fora, diz Horowitz. “Conhecemos cerca de 2000 estrelas de nêutrons em nossa própria galáxia, mas esperamos que haja bilhões. Sendo assim, a maioria das estrelas de nêutrons, mesmo em nossa própria galáxia, são completamente desconhecidas”.
Telescópios de rádio, raios-X e luz óptica são usados para investigar as propriedades de estrelas de nêutrons. A Neutron Star Interior Composition ExploreR Mission (NICER) da NASA, que está programada para ser anexada à Estação Espacial Internacional em 2017, é uma missão dedicada a aprender mais sobre esses objetos extremos. A NICER vai olhar para os raios-X provenientes de rotação de estrelas de nêutrons para tentar medir mais precisamente suas massas e raios.
Poderíamos também estudar as estrelas de nêutrons através da detecção de ondas gravitacionais. Os cientistas da LIGO esperam detectar ondas gravitacionais produzidas pela fusão de duas estrelas de nêutrons. Estudar tais ondas gravitacionais pode mostrar aos cientistas as propriedades da matéria extremamente densa das quais as estrelas de nêutron são feitas.
Estudar estrelas de nêutrons pode nos ajudar a descobrir a origem dos elementos químicos pesados, incluindo ouro e platina, em nosso universo. Há uma possibilidade de que quando as estrelas de nêutrons colidem, nem tudo é engolido em uma estrela de nêutron mais massiva ou num buraco negro, mas em vez disso uma fração é lançada e forma esses núcleos pesados.
“Se você quiser usar um laboratório do século 24 ou 25”, diz Roger Romani, professor da Universidade de Stanford, “estude as estrelas de nêutrons, é uma maneira de ver as condições que não podemos reproduzir em laboratórios na Terra”.
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'Petrobras vai valer zero daqui a 30 anos', diz Guedes, em defesa da privatização da estatal

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BRASÍLIA — O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o Brasil precisa "tirar o petróleo" do subsolo rapidamente para usar os recursos em investimentos, educação e tecnologia antes que a Petrobras passe a valer nada. Isso, referiu-se o ministro, porque o mundo caminha no sentido da descarbonização de fontes de energia até 2050.
Na defesa pela venda da estatal, ele ainda destacou uma fala recente do presidente Jair Bolsonaro sobre o governo estudar a privatização, para justificar a forte alta nos papeis da companhia na Bolsa nesta segunda-feira.
— A Petrobras vai valer zero daqui a 30 anos. E o que nós fizemos? Deixamos o petróleo lá em baixo com um monopólio, uma placa de monopólio estatal em cima. O objetivo é tirar esse petróleo o mais rápido possível e transformar em educação, investimento, treinamento, tecnologia — afirmou durante evento de lançamento do Plano de Crescimento Verde nesta segunda-feira.
Como o GLOBO mostrou, o governo avalia encaminhar ao Congresso Nacional um projeto de lei que, na prática, permite a privatização da Petrobras, de acordo com integrantes da equipe econômica. O texto permitiria a venda de ações da estatal de modo que o governo perca o controle da empresa.
O tema foi mencionado por Bolsonaro durante uma entrevista a uma rádio nesta segunda. Para Guedes, a fala do presidente é a responsável pela elevação dos papeis da Petrobas, que subiram 6% na Bolsa.
— Bastou o presidente falar 'vamos estudar', e o negócio sai subindo e aparece R$ 100 bilhões. Não dá pra dar R$ 30 bilhões para os mais frágeis num momento terrível como esse, se basta uma frase do presidente para aparecer R$ 100 bilhões, brotar no chão de repente. Por que nós não podemos pensar ousadamente a respeito disso?
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Youtube suspende canal de Bolsonaro por uma semana após live em que ele associou Aids com vacina da Covid

247 - O Youtube retirou do ar na noite desta segunda-feira (25) a live semanal de Jair Bolsonaro da última quinta-feira (21), em que Bolsonaro espalhou uma mentira que alertava que "vacinados [contra a Covid] estão desenvolvendo a síndrome da imunodeficiência adquirida [Aids]".
"Removemos um vídeo do canal de Jair Bolsonaro por violar as nossas diretrizes de desinformação médica sobre a Covid-19 ao alegar que as vacinas não reduzem o risco de contrair a doença e que causam outras doenças infecciosas", disse o Youtube, em nota. O Facebook e Instagram fizeram o mesmo no domingo (24).
Além de retirar o vídeo do ar, o Youtube também suspendeu por uma semana o canal de Jair Bolsonaro. Ele não poderá publicar novos vídeos nesse período. Caso ele volte a publicar um vídeo com desinformações em 90 dias, a suspensão dobrará de tempo.
_________________________________________________Uma voz da razão: por que Christopher Hitchens é tão importante
Hitchens surgiu como uma voz de resistência que ecoou ao longo do século XXI. Ele é importante, hoje, porque o totalitarismo criou raízes na política mundial e novas ideias totalitárias estão em ascensão.

Por Fahad Zuberi
Publicado no Outlook
“Nunca seja um espectador da injustiça ou estupidez. O túmulo fornecerá muito tempo para o silêncio”. E tendo vivido fiel ao que disse por sessenta e dois anos, Christopher Eric Hitchens permaneceu fazendo de tudo, menos ser um espectador silencioso. Não seria exagero afirmar que uma voz tão forte e polêmica como a de Hitchens não se manifestou ao mundo desde sua morte em 2011. Neste ano¹, em 13 de abril, marcou o 70º aniversário de nascimento deste célebre ensaísta e crítico de nosso tempo – Hitch, como era carinhosamente chamado.
A brilhante combinação de incredulidade e integridade, de racionalidade e prosa, e de conhecimento e força na escrita que Hitch possuía é algo raro nas arenas da crítica política e cultural de hoje.
Hitch era um autoproclamado antiteísta – não simplesmente alguém que não acreditava em Deus, mas também que se opunha a esse conceito totalitário. Era um cruzado da racionalidade como Thomas Paine, Bertrand Russell, Demócrito, Omar Khayyam e Lucrécio – seus heróis. O trabalho de Hitch contribuiu para um legado de descrença e ceticismo, alcançando seu apogeu no livro “Deus não é grande – Como a religião envenena tudo”.
Foi membro ativo dos Socialistas Internacionais nos seus dias de estudante em Oxford – uma época que ele, enquanto descrevia sua juventude, chamava de “notória”. Seu desligamento com as organizações de esquerda começou nos anos 90, depois que ele criticou ferozmente a esquerda por sua posição contra Salman Rushdie durante a polêmica dos “Versos Satânicos”.

Ele se opôs à doutrina do Islã sem apologia – chamando-a de “violenta e perversa” e categorizando-a como uma das ameaças mais perigosas ao século XXI, uma vez que faz afirmações amplas e excludentes de si mesma como sendo a última e única religião verdadeira, rejeitando o pluralismo e sendo intolerante a qualquer crítica ou sátira. Ele opinou que, embora um muçulmano devoto tenha todo o direito de aderir rigorosamente à doutrina, sua reivindicação de direito de fazer os outros aderirem “oferece o aviso mais claro possível e prova de uma intenção agressiva”.
Embora se opusesse ao Islã radical por terrorismo, ele também defendeu os direitos dos muçulmanos bósnios durante um dos piores genocídios da comunidade na história da humanidade. Os princípios, para Hitch, era supremo, e ele nos ensinou que era possível acreditar em uma ideologia sem aderir aos binários políticos de esquerda e direita.
Como sua escrita era histórica e filosoficamente referenciada, Hitch foi implacável em suas opiniões. Para ele, a crítica aos supersticiosos não exigia nenhum véu de respeito. Dentre os incontáveis ataques à teocracia, destaca-se seu debate contra o movimento “A Igreja Católica é uma Força do Bem no Mundo”.
Ele fez a Igreja lembrar de seu genocídio em Ruanda e levantou questões abertamente sobre o cardeal Bernard Francis Law – o arcebispo de Boston responsável por proteger estupradores de crianças. Hitchens em seu humor supremo, afirmou que a Igreja Católica não deixa pedra sobre pedra para provar que estão enraizados em seu lema de “não deixar nenhum filho para trás” e que os filhos “já tiveram o ‘cuidado sacerdotal’” e agora devem ser mantidos longe da Igreja. Envolvida em tragédia e consequentemente em humor negro, essa provocação que desprende a oposição de todo respeito e liberta o crítico de qualquer apologia, é algo raro, hoje, em nosso discurso.
No entanto, esse crítico livre também costumava ser um camarada solitário. Hitchens foi provavelmente o homem mais desprezado depois de escrever “A Posição Missionária: Madre Teresa em Teoria e Prática”. O livro, por mais espirituoso que fosse com seu título, foi igualmente brutal com sua crítica, como Hitchens colocou: “provavelmente o ser humano menos criticado de todos os tempos”.
Ele passou a servir como Advocatus Diaboli (Advogado do Diabo) e testemunhar contra a canonização de Madre Teresa no Vaticano. Outras figuras públicas que entraram na mira de suas críticas incluem George W. Bush, Ronald Reagan, Henry Kissinger, Bal Thackeray e a muito celebrada princesa inglesa Diana. Os ataques de Hitch a essas figuras públicas resumem uma cultura de refutação dos cultos à personalidade e resistem à criação de outros mais novos – algo de que o mundo atual precisa seriamente. Hitch escreveu não para ser querido ou amado, mas para provocar e criticar, e para abalar e questionar.

Hitch relatou alguns dos momentos mais importantes da história do século XX. Seja a queda do ditador romeno Nicolae Ceauşescu, a Revolução de Veludo de Praga ou a ascensão de Bhagwan Rajneesh em Pune. Hitch estava presente e escrevendo sobre esses eventos no próprio local – entre os revolucionários na Romênia, com os rebeldes clandestinos em Praga, e disfarçado de membro do Ashram em Pune.
Escrevendo para a revista Vanity Fair de Amritsar (cidade da Índia), em agosto de 1997, Hitch chamou pela televisão a destruição da Babri Masjid (mesquita), em Ayodhya, de “uma desgraça suprema”. Ele apontou para a ameaça crescente do movimento “quase fascista” e “semicriminoso” do nacionalismo hindu na Índia. Com experiência tão orgânica e horizontes tão amplos, ele poderia citar referências, como fez, começando apenas com a letra ‘B’ de todo o mundo – de Beirute a Bombaim a Belfast e Bielo-Rússia.
Em uma era de crítica política, quando o juramento de lealdade a uma determinada ideologia política, grupo ou partido – uma desgraça que reduz um crítico a um porta-voz de realizações e um apologista de delitos – ainda é comum e bastante aceita, Hitch permaneceu enraizado na causa – ficando do outro lado do palco entre amigos, família e fraternidades. Ele defendeu a libertação da Palestina com a mesma intensidade que fez contra o antissemitismo. Ele acusou os EUA de crimes de guerra com a mesma repulsa e tristeza com que tratou o regime de Saddam Hussein no Iraque. Hitchens defendeu a independência dos curdos assim como defendeu os direitos dos índios do Norte durante os ataques xenófobos a eles em Bombaim (cidade da Índia).
Hitchens é importante porque a lealdade é uma anátema (maldição) para a crítica, e a crítica política precisa do abandono de lealdades. Ele é importante porque a superstição precisa ser evitada, os direitos humanos precisam ser defendidos de maneira impenitente, os perpetradores – aquele que comete crime ou delito – precisam ser levados à justiça e os cultos à personalidade precisam ser profanados. Na voz de Hitchens, encontra-se o verdadeiro espírito de um opositor – um escritor prolífico e um orador voraz, sempre investido na busca da verdade e da justiça.

No mundo contemporâneo de Trumps e Bolsonaros, uma voz como a dele faz muita falta. Refutando a si mesmo sobre o silêncio na sepultura, Hitchens surge como uma voz de resistência que ecoa através do século XXI.
Sua figura é importante, hoje, porque o totalitarismo criou raízes na política mundial, e novas ideias totalitárias estão em ascensão. Os ataques violentos aos direitos humanos, o declínio acentuado dos valores no discurso político e a desintegração dos princípios secularistas exigem uma voz implacável. Hitchens é crucial porque sua obra resume a expressão latina “Fiat justitia ruat caelum” (Faça-se justiça, ainda que os céus caiam).
Nota
[1] O texto foi publicado em 2019. Na época, o Christopher Hitchens completava 70 anos.
_________________________________________________Por que a ideia de ‘gênero’ está provocando reações negativas em todo o mundo? - Sara York
Por Sara York 23 de outubro de 2021, 14:23

Em Junho, o parlamento húngaro votou esmagadoramente para eliminar das escolas públicas todo o ensino relacionado com “homossexualidade e mudança de gênero”, associando os direitos e educação LGBTQI à pedofilia e à política cultural totalitária. Em finais de Maio, os deputados dinamarqueses aprovaram uma resolução contra o “ativismo excessivo” em ambientes de pesquisa acadêmica, incluindo estudos de gênero, teoria racial, estudos pós-coloniais e de imigração a sua lista de culpados. Em Dezembro de 2020, o Supremo Tribunal da Romênia derrubou uma lei que teria proibido o ensino da “teoria da identidade do gênero”, mas o debate que aí se desenrola é muito intenso. Os espaços livres de pessoas trans na Polônia foram declarados pelos transfóbicos, desejosos de purificar a Polónia, de influências culturais corrosivas vindas dos EUA e do Reino Unido. A retirada da Turquia da Convenção de Istambul, em Março, fez estremecer a UE, uma vez que uma das suas principais objeções era a inclusão de proteção para mulheres e crianças contra a violência, e este “problema” estava ligado à palavra estrangeira, “gênero”.
Os ataques à chamada “ideologia do gênero” cresceram nos últimos anos em todo o mundo, dominando o debate público alimentado por redes electrônicas e apoiado por amplas organizações católicas e evangélicas de direita. Embora nem sempre de acordo, estes grupos concordam que a família tradicional está sob ataque, que as crianças na sala de aula estão sendo doutrinadas para se tornarem homossexuais, e que “gênero” é uma ideologia perigosa, senão mesmo diabólica, que ameaça destruir famílias, culturas locais, civilização, e até o próprio “homem”.
Não é fácil reconstruir completamente os argumentos utilizados pelo movimento ideológico anti-gênero porque não se prendem a padrões de consistência ou coerência. Eles reúnem e lançam reivindicações incendiárias a fim de derrotar o que vêem como “ideologia de gênero” ou “estudos de gênero” por quaisquer meios retóricos necessários. Por exemplo, opõem-se ao “gênero” porque nega reputadamente o sexo biológico ou porque mina o caráter natural ou divino da família heteronormativa. Temem que os homens percam as suas posições dominantes ou fiquem fatalmente diminuídos se começarmos a pensar segundo a ideia de gênero. Acreditam que as crianças são aconselhadas a mudar de gênero, são ativamente recrutadas por gays e trans, ou pressionadas a declararem-se como gays em ambientes educativos onde um discurso aberto sobre gênero é caricaturado como forma de doutrinação. E preocupam-se que se algo chamado “gênero” for socialmente aceito, uma inundação de perversidades sexuais, incluindo bestialidade e pedofilia, será desencadeada sobre a terra.
Embora nacionalista, homo/transfóbico e misógino, o principal objetivo do movimento é o de inverter a legislação progressista alcançada nas últimas décadas tanto pelos movimentos LGBTQI como feministas. De fato, ao atacarem o “gênero”, opõem-se à liberdade reprodutiva das mulheres e aos direitos dos pais/mães solteiras/es/sos; opõem-se à proteção das mulheres contra a violação e a violência doméstica; e negam os direitos legais e sociais das pessoas trans, juntamente com uma gama completa de direitos legais e institucionais contra a discriminação de gênero, internamento psiquiátrico forçado, assédio físico brutal e homicídio. Todo este fervor aumentou durante o período pandêmico em que o abuso doméstico disparou e pessoas queers e as crianças trans foram privadas dos seus espaços de reunião em comunidades que sustentam a vida.
Estudos de gênero não negam o sexo; perguntam como é estabelecido o sexo, através de que quadros médicos e legais
É suficientemente fácil desmascarar e até ridicularizar muitas das alegações que são feitas contra estudos de gênero ou identidade de gênero, uma vez que se baseiam em caricaturas finas, e muitas vezes se aproximam do fantasmagórico. Se é importante (e esperemos que ainda o seja), não há um conceito único de gênero, e os estudos de gênero são um campo complexo e internamente diversificado que inclui uma vasta gama de estudiosos. Não nega o sexo, mas tende a perguntar como o sexo é estabelecido, através de que quadros médicos e legais, como isso mudou com o tempo, e que diferença faz para a organização social do nosso mundo desligar o sexo atribuído à nascença da vida que se segue, incluindo questões de trabalho e amor.
Geralmente pensamos que a designação sexual acontece uma vez, mas e se for um processo complexo e passível de revisão, reversível no tempo para aqueles que foram erradamente designados? Argumentar desta forma não é tomar uma posição contra a ciência, mas apenas perguntar como é que a ciência e o direito entram na regulação social da identidade. “Mas há dois sexos!” Geralmente, sim, mas mesmo os ideais do dimorfismo que regem as nossas concepções quotidianas do sexo são em muitos aspectos contestados pela ciência, bem como pelo movimento Intersexo, que tem mostrado como a atribuição de sexo pode ser incômoda e (in)consequente.
Fazer perguntas sobre o gênero, ou seja, como a sociedade está organizada de acordo com o gênero, e com consequências para a compreensão dos corpos, experiência vivida, associação íntima, e prazer, é envolver-se numa forma de pesquisa e investigação aberta, opondo-se às posições sociais dogmáticas que procuram parar e inverter a mudança emancipatória. E no entanto, “estudos de gênero” é oposto ao “dogma” por aqueles que se entendem ao lado da “crítica”.
Poderiamos continuar explicando, longamente, as várias metodologias e debates no âmbito dos estudos de gênero, a complexidade da área de estudo, e o reconhecimento que esta recebeu como um campo de estudo dinâmico em todo o mundo, mas isso exigiria um compromisso com a educação por parte do leitor e ouvinte. Dado que a maioria destes opositores se recusa a ler qualquer material que possa contradizer as suas crenças ou escolher a cereja de textos complexos para apoiar uma caricatura, como se deve proceder?
Ainda há aqueles que afirmam que o próprio conceito de “gênero” é um ataque ao cristianismo (ou, em alguns países, ao islamismo tradicional), e acusam os proponentes do “gênero” de discriminarem as suas crenças religiosas. No entanto, o campo significativo do gênero e da religião sugere que os inimigos não vêm de fora, e que o dogma se encontra de um lado, o dos censores.
Para este movimento reacionário, o termo “gênero” atrai, condensa e eletrifica um conjunto diversificado de ansiedades sociais e econômicas produzidas pela crescente precariedade econômica sob regimes neoliberais, intensificando a desigualdade social, e o encerramento pandêmico. Alimentados pelo medo do colapso das infraestruturas, pela raiva anti-migrante e, na Europa, pelo medo de perder a santidade da família heteronormativa, a identidade nacional e a supremacia branca, muitos insistem que as forças destrutivas do gênero, os estudos pós-coloniais e a teoria racial crítica são os culpados. Quando o gênero é assim considerado como uma invasão estrangeira, estes grupos revelam claramente que estão numa negociata de construção de uma nação. A nação pela qual estão lutando é construída sobre a supremacia branca, a família heteronormativa, e uma resistência a todo o questionamento crítico de normas que restringiram claramente as liberdades e imperiosamente as vidas de tantas pessoas.
O desaparecimento dos serviços sociais sob o neoliberalismo tem pressionado a família tradicional providenciando trabalho de cuidados, como muitas feministas têm argumentado com razão. Por sua vez, a fortificação das normas patriarcais no seio da família e do Estado tornou-se, para algumas, imperativa face aos serviços sociais dizimados, dívidas impagáveis, e perda de rendimentos. É contra este pano de fundo de ansiedade e medo que o “gênero” é retratado como uma força destrutiva, uma influência estrangeira infiltrando-se na política corporal e desestabilizando a família tradicional.
De fato, o gênero vem a representar, ou estar ligado a todo o tipo de “infiltrações” imaginadas do organismo nacional — migrantes, importações, a perturbação da economia local através dos efeitos da globalização. Assim, o “gênero” torna-se um fantasma, por vezes especificado como o próprio “diabo”, uma pura força de destruição que ameaça a criação de Deus (e não, segundo julgo saber, as alterações climáticas, que seria um candidato muito mais provável). Um tal fantasma de poder destrutivo só pode ser subjugado através de apelos desesperados ao nacionalismo, anti-intelectualismo, censura, expulsão, e fronteiras mais fortemente fortificadas. Uma razão, portanto, mais do que nunca, precisamos de estudos de gênero e dar sentido a este movimento reacionário.
O movimento ideológico anti-gênero atravessa fronteiras, ligando organizações da América Latina, Europa, África, e Ásia Oriental. A oposição ao “gênero” é expressa por governos tão diversos como a França de Macron e a Polónia de Duda, circulando em partidos de direita naItália, aparecendo nas principais plataformas eleitorais na Costa Rica e na Colômbia, proclamadas com grande barulho por Bolsonaro no Brasil, e responsáveis pelo encerramento de estudos de gênero em vários locais, o mais infame na Universidade Europeia em Budapeste em 2017, antes da sua relocação para Viena.
Na Alemanha e em toda a Europa Oriental, o “genderism” é comparado ao “comunismo” ou ao “totalitarismo”. Na Polônia, mais de uma centena de regiões declararam-se “zonas anti-LGBT”, criminalizando uma vida pública aberta para qualquer pessoa percebida como pertencente a essas categorias, forçando os jovens a abandonar o país ou a passar à clandestinidade. Estas chamas reacionárias foram alimentadas pelo Vaticano, que proclamou “ideologia de gênero” “diabólica”, chamando-lhe de uma forma de “imperialismo colonizador” originário do norte e suscitando receios sobre a “inculcação” da “ideologia de gênero” nas escolas.
Os movimentos anti-gênero não são apenas tendências reacionárias mas fascistas, do tipo que apoiam governos autoritários
De acordo com Agnieszka Graff, co-autora com Elzbieta Korolczuk da Política Anti-Gênero no Momento Populista, as redes que amplificam e circulam o ponto de vista anti-gênero incluem a Organização Internacional para a Família, que conta com milhares de participantes nas suas conferências e a Plataforma online CitizenGo, fundada na Espanha, que mobiliza pessoas contra palestras, exposições e candidatos políticos que defendem os direitos LGBTQI. Eles afirmam ter mais de 9 milhões de seguidores, prontos para se mobilizarem num instante (mobilizaram-se contra mim no Brasil em 2018 quando uma multidão furiosa queimou a efígie da minha “imagem” fora do local onde eu iria falar). A terceira é a Agenda Europa, composta por mais de 100 organizações, que lança o casamento gay, os direitos trans, a liberdade reprodutiva, e os esforços anti-discriminação LGBTQI como ataques ao cristianismo.
Os movimentos anti-gênero não são apenas tendências reacionárias mas fascistas, do tipo que apoiam governos cada vez mais autoritários. A inconsistência dos seus argumentos e a sua abordagem de igualdade de oportunidades às estratégias retóricas da esquerda e da direita, produzem um discurso confuso para uns, um discurso convincente para outros. Mas são típicos dos movimentos fascistas que distorcem a racionalidade para se adequarem a objetivos hiper-nacionalistas.
Insistem que o “gênero” é uma construção imperialista, que é uma “ideologia” que agora se impõe às culturas locais do Sul global, recorrendo espantosamente à linguagem da teologia da libertação e à retórica descolonial. Ou, como afirma o grupo italiano de direita Pro Vita, o “gênero” intensifica os efeitos sociais do capitalismo enquanto que a família heteronormativa tradicional é o último baluarte contra a desintegração social e o individualismo anômico. Tudo isto parece decorrer da própria existência de pessoas LGBTQI, das suas famílias, casamentos, associações íntimas, e formas de viver fora da família tradicional e dos seus direitos à sua própria existência pública. Também decorre de reivindicações legais feministas à liberdade reprodutiva, exigências feministas para acabar com a violência sexual, bem como a discriminação econômica e social contra as mulheres.
Ao mesmo tempo, os opositores do “gênero” procuram recorrer à Bíblia para defender os seus pontos de vista sobre a hierarquia natural entre homens e mulheres e os valores distintivos do masculino e do feminino (embora os teólogos progressistas tenham salientado que estes se baseiam em leituras discutíveis de textos bíblicos). Assimilando a Bíblia à doutrina da lei natural, eles afirmam que o sexo atribuído é divinamente declarado, sugerindo que os biólogos e médicos contemporâneos estão curiosamente ao serviço da teologia do século XIII.
Não importa que as diferenças cromossômicas e endocrinológicas compliquem o binarismo do sexo e que a atribuição de sexo seja passível de revisão. Os defensores anti-gênero afirmam que os “ideólogos do gênero” negam as diferenças materiais entre homens e mulheres, mas o seu materialismo rapidamente se devolve à asserção de que os dois sexos são “fatos” intemporais. O movimento anti-gênero não é uma posição conservadora com um conjunto claro de princípios. Não, como tendência fascista, mobiliza uma série de estratégias retóricas de todo o espectro político para maximizar o medo de infiltração e destruição que vem de um conjunto diversificado de forças económicas e sociais. Não luta pela coerência, pois a sua incoerência faz parte do seu poder.
Na sua conhecida lista dos elementos do fascismo, Umberto Eco escreve, “o jogo fascista pode ser jogado de muitas formas”, pois o fascismo é “uma colagem … uma colmeia de contradições”. De fato, isto descreve perfeitamente a ideologia anti-gênero de hoje. É um incitamento reacionário, um feixe incendiário de reivindicações e acusações contraditórias e incoerentes. Eles banqueteam-se com a própria instabilidade que prometem conter, e o seu próprio discurso apenas proporciona mais caos. Através de uma série de reivindicações incoerentes e hiperbólicas, eles inventam um mundo de múltiplas ameaças iminentes para defender o governo autoritário e a censura.
Esta forma de fascismo manifesta instabilidade mesmo quando procura afastar a “desestabilização” da ordem social provocada pela política progressista. A oposição ao “gênero” funde-se frequentemente com o furor e o medo anti-migrante, razão pela qual se funde frequentemente, em contextos cristãos, com a islamofobia. Também os migrantes são considerados como “infiltrando-se”, envolvendo-se em actos “criminosos”, mesmo quando exercem os seus direitos de passagem ao abrigo do direito internacional. No imaginário dos defensores da ideologia anti-gênero, o “gênero” é como um migrante indesejado, uma mancha de entrada, mas também, ao mesmo tempo, um colonizador ou totalitário que deve ser expulso. Mistura discursos de direita e de esquerda à vontade.
Como uma tendência fascista, o movimento anti-gênero apoia formas de autoritarismo cada vez mais fortes. As suas táticas encorajam os poderes estatais a intervir em programas universitários, a censurar a arte e a programação televisiva, a proibir às pessoas trans os seus direitos legais, a proibir as pessoas LGBTQI a estarem nos espaços públicos, a minar a liberdade reprodutiva e a luta contra a violência dirigida às mulheres, crianças e pessoas LGBTQI. Ameaça a violência contra aqueles, incluindo migrantes, que foram lançados como forças demoníacas e cuja supressão ou expulsão promete restaurar uma ordem nacional sob coação.
É por isso que não faz sentido para as feministas “críticas de gênero” aliarem-se com poderes reacionários na mira de pessoas trans, não binárias/queers, e com maior perspectiva de gênero. Vamos todas/es/os ser verdadeiramente críticos agora, pois não é o momento de nenhum dos destinatários deste movimento se voltarem uns contra os outros. O tempo da solidariedade anti-fascista é agora.
Judith Butler ( Berkeley University) seu último livro é The Force of Nonviolence (A Força da Não-Violência)




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