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_________________________________________________A história de Halston, o designer que revolucionou a moda americana. _____ ok, mas, e ENDORA? _________________________________________________GÖBEKLI TEPE: o MISTÉRIO da CONSTRUÇÃO MAIS ANTIGA da HISTÓRIA que MUDOU ideias sobre ORIGEM das CIVILIZAÇÕES _________________________________________________

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_________________________________________________O mistério da construção mais antiga da história que mudou ideias sobre origem das civilizações - BBC News Brasil

  • Andrew Curry BBC Travel 6 novembro 2021
Göbekli Tepe
Legenda da foto, Göbekli Tepe, na Turquia, foi construída por um povo pré-histórico 6 mil anos antes de Stonehenge

Quando o arqueólogo alemão Klaus Schmidt começou a escavar no topo de uma montanha turca, há 25 anos, ele estava convencido de que as construções que descobriu eram fora do comum, até mesmo únicas.

No topo de um planalto de calcário perto de Urfa chamado Göbekli Tepe, que em turco significa "monte com barriga", Schmidt encontrou mais de 20 cercados circulares de pedra.

O maior tinha 20 m de diâmetro, um círculo de pedra com dois pilares de 5,5 m de altura esculpidos primorosamente no centro.

As colunas de pedra — figuras humanas estilizadas com as mãos juntas, um tanto sinistras, e cintos de pele de raposa — pesavam até 10 toneladas.

Esculpir e erguer estes pilares deve ter sido um tremendo desafio técnico para pessoas que ainda não haviam domesticado animais ou inventado a cerâmica, muito menos ferramentas de metal.

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As construções tinham 11 mil anos ou mais, fazendo delas as mais antigas estruturas monumentais conhecidas da humanidade erguidas não para servir de abrigo, mas para algum outro propósito.

Após uma década de trabalho, Schmidt chegou a uma conclusão surpreendente.

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Quando visitei a escavação na cidade velha de Urfa em 2007, ele — que trabalhava na época para o Instituto Arqueológico Alemão — me disse que Göbekli Tepe poderia ajudar a reescrever a história da civilização, explicando o motivo pelo qual os humanos começaram a desenvolver a agricultura e viver em assentamentos permanentes.

As ferramentas de pedra e outras evidências que Schmidt e sua equipe encontraram no local revelaram que os cercados circulares haviam sido construídos por caçadores-coletores.

Dezenas de milhares de ossos de animais que foram descobertos eram de espécies selvagens e não havia evidências de grãos ou outras plantas cultivadas.

Schmidt achou que esses caçadores-coletores haviam se reunido 11,5 mil anos atrás para esculpir os pilares em forma de T de Göbekli Tepe com ferramentas de pedra, usando a rocha calcária da colina sob seus pés como uma pedreira.

Esculpir e transportar as colunas teria sido uma tarefa hercúlea, mas talvez não tão difícil quanto parece à primeira vista.

Os pilares são esculpidos a partir das camadas naturais de calcário da base do monte.

O calcário é macio o suficiente para ser trabalhado com uma pedra ou até mesmo com as ferramentas de madeira disponíveis na época, com treino e paciência.

E como as formações de calcário da colina eram camadas horizontais com entre 0,6 m e 1,5 m de espessura, os arqueólogos que trabalham no sítio arqueológico acreditam que os antigos construtores tiveram que cortar o excesso das laterais, mais do que da parte de baixo.

Uma vez que um pilar era esculpido, eles o deslocavam algumas centenas de metros em direção ao topo da colina, usando cordas, vigas de madeira e vasta mão de obra.

Schmidt acreditava que pequenos bandos nômades de toda a região eram motivados por suas crenças a unir forças no topo da colina para projetos de construção periódicos, realizar grandes festas e depois se dispersar novamente.

O sítio arqueológico, argumentava Schmidt, era um centro de rituais, talvez algum tipo de cemitério ou complexo de culto à morte, em vez de um assentamento.

Era uma afirmação e tanto.

Os arqueólogos há muito tempo acreditavam que rituais complexos e religiões organizadas eram luxos que as sociedades desenvolveram apenas quando começaram a domesticar animais e cultivar plantações, uma transição conhecida como período Neolítico.

A ideia era que, uma vez que tivessem um excedente de comida, eles poderiam dedicar seus recursos extras a rituais e monumentos.

Situado na atual Turquia, Göbekli Tepe é um dos sítios arqueológicos mais importantes do mundo

Göbekli Tepe, Schmidt me disse, virou essa linha do tempo de pernas para o ar. As ferramentas de pedra no local, respaldadas por datação por radiocarbono, colocaram o sítio arqueológico firmemente na era pré-neolítica.

Mais de 25 anos após as primeiras escavações, ainda não há evidências de plantas ou animais domesticados por lá.

E Schmidt achava que ninguém morava lá em tempo integral. Ele chamava o local de "catedral em uma colina".

Se fosse realmente verdade, revelaria que os rituais complexos e a organização social teriam vindo, na verdade, antes dos assentamentos e da agricultura.

Ao longo de 1 mil anos, a necessidade de reunir bandos nômades em um único lugar para esculpir e mover enormes pilares em T e construir cercados circulares, teria levado as pessoas a dar o próximo passo.

Para organizar regularmente grandes reuniões, elas precisariam ter suprimentos de comida mais previsíveis e confiáveis, domesticando plantas e animais.

Os rituais e a religião, ao que parecia, teriam lançado a Revolução Neolítica.

No dia seguinte, dirigi com Schmidt até o topo da colina antes do amanhecer.

As estruturas circulares de Göbekli Tepe mudaram a forma como os arqueólogos olham para os primórdios da civilização

Vaguei perplexo e boquiaberto por entre os pilares enquanto Schmidt, com a cabeça envolta em um lenço branco para protegê-lo do sol escaldante, supervisionava uma pequena equipe de arqueólogos alemães e trabalhadores de um pequeno vilarejo na estrada.

Schmidt tinha acabado de publicar seus primeiros relatórios sobre Göbekli Tepe no ano anterior, deixando o pequeno mundo dos especialistas em arqueologia do Neolítico em alvoroço.

Mas o sítio arqueológico ainda passava uma sensação de adormecimento e abandono, com áreas de escavação cobertas por telhados improvisados ​​de aço corrugado e estradas de terra esburacadas serpenteando até o local de escavação no topo da montanha.

As teorias de Schmidt sobre os impressionantes pilares em T e as enormes "estruturas especiais" circulares do sítio arqueológico fascinaram seus colegas e jornalistas, quando foram publicadas pela primeira vez em meados dos anos 2000.

Reportagens de tirar o fôlego chamavam o sítio arqueológico de local de nascimento da religião; a revista alemã Der Spiegel comparou as pastagens férteis ao redor com o Jardim do Éden.

Logo, pessoas de todo o mundo estavam se aglomerando para ver Göbekli Tepe pessoalmente.

Em uma década, o topo da colina foi totalmente transformado.

Até a guerra civil na vizinha Síria que interrompeu o turismo na região em 2011, o trabalho no sítio arqueológico muitas vezes entrava em marcha lenta, à medida que ônibus lotados de turistas curiosos se aglomeravam em torno das escavações para ver o que alguns chamavam de "o primeiro templo do mundo", tornando impossível manobrar os carrinhos de mão pelas vielas estreitas.

Nos últimos cinco anos, o topo da montanha nos arredores de Urfa foi transformado mais uma vez.

Hoje, estradas, estacionamentos e um centro de visitantes podem acomodar viajantes curiosos de todo o mundo.

Em 2017, os galpões de aço corrugado foram substituídos por galpões de tela e aço de última geração, cobrindo as construções monumentais centrais.

O Museu de Arqueologia e Mosaico de Şanlıurfa, construído em 2015 no centro de Urfa, é um dos maiores museus da Turquia; ele apresenta uma réplica em tamanho real do maior cercado do sítio arqueológico e seus imponentes pilares em T, permitindo que os visitantes tenham uma ideia das colunas monumentais e examinem suas esculturas de perto.

Göbekli Tepe foi construído há mais de 11 mil anos, bem no limiar entre um mundo de caçadores-coletores e um mundo de agricultores

Em 2018, Göbekli Tepe foi adicionado à lista de Patrimônio Mundial da Unesco, e as autoridades de turismo turcas declararam 2019 como o "Ano de Göbekli Tepe", fazendo do antigo sítio arqueológico o rosto de sua campanha de promoção global.

"Ainda me lembro do sítio arqueológico como um lugar remoto no topo de uma montanha", diz Jens Notroff, arqueólogo do Instituto Arqueológico Alemão que começou a trabalhar no local como estudante em meados dos anos 2000.

"Mudou completamente."

Schmidt, que faleceu em 2014, não viveu para ver a transformação do sítio arqueológico — que de uma escavação empoeirada no topo da montanha virou uma grande atração turística.

Mas suas descobertas despertaram o interesse global pela transição neolítica — e nos últimos anos, novas descobertas em Göbekli Tepe e análises mais detalhadas dos resultados de escavações anteriores começaram a alterar as interpretações iniciais de Schmidt sobre o sítio arqueológico.

As obras para erguer as fundações necessárias para dar suporte à nova cobertura do sítio arqueológico exigiu que os arqueólogos cavassem mais fundo do que Schmidt já havia feito.

Sob a direção de Lee Clare, sucessor de Schmidt, uma equipe do Instituto Arqueológico Alemão cavou uma série de buracos até o alicerce rochoso do sítio arqueológico, vários metros abaixo do piso das enormes construções.

"Tivemos uma chance única", afirmou Clare, "de examinar as camadas e depósitos mais baixos do sítio arqueológico."

O que Clare e seus colegas encontraram pode reescrever a pré-história mais uma vez.

As escavações revelaram evidências de casas e assentamentos, sugerindo que Göbekli Tepe não era um templo isolado visitado em ocasiões especiais, mas uma vila próspera com grandes construções especiais em seu centro.

A equipe também identificou uma grande cisterna e canais para coletar água da chuva, fundamentais para oferecer suporte a um assentamento no topo seco da montanha, e milhares de ferramentas de moagem para processar grãos para preparar mingau e fazer cerveja.

"Göbekli Tepe ainda é um sítio arqueológico único e especial, mas os novos conhecimentos se encaixam melhor com o que sabemos de outros sítios históricos", afirmou Clare.

"Era um verdadeiro assentamento com ocupação permanente. Mudou todo o nosso entendimento do sítio arqueológico."

Enquanto isso, os arqueólogos turcos que trabalham na zona rural acidentada ao redor de Urfa identificaram pelo menos uma dúzia de outros lugares no topo da colina com pilares em T semelhantes — embora menores, que datam aproximadamente do mesmo período.

"Não é um templo único", disse a pesquisadora Barbara Horejs, do Instituto Arqueológico Austríaco, especialista em Neolítico que não fez parte das iniciativas de pesquisa recentes.

"Isso torna a história muito mais interessante e emocionante."

O ministro da Cultura e Turismo da Turquia, Mehmet Nuri Ersoy, foi mais longe ao dizer que esta área poderia ser chamada de "pirâmides do sudeste da Turquia".

Em vez de um projeto de construção de séculos que inspirou a transição para a agricultura, Clare e outros especialistas agora acreditam que Göbekli Tepe foi uma tentativa de caçadores-coletores se agarrarem a um estilo de vida que desaparecia à medida que o mundo mudava ao seu redor.

Evidências da região no entorno mostram que pessoas em outros lugares estavam fazendo experimentações com animais e plantas domesticados — uma tendência à qual as pessoas do "monte com barriga" poderiam estar resistindo.

Clare argumenta que as esculturas em pedra do sítio arqueológico são uma pista importante. Esculturas elaboradas de raposas, leopardos, serpentes e abutres cobrindo os pilares e as paredes de Gobekli Tepe "não são animais que você vê todos os dias", diz ele.

"São mais do que apenas imagens, são narrativas, que são muito importantes para manter os grupos unidos e criar uma identidade compartilhada."

Quando vaguei pelo local pela primeira vez, há mais de 15 anos, me lembro de uma sensação de grande distância.

Göbekli Tepe foi construída 6 mil anos antes de Stonehenge, e o significado exato de suas esculturas — assim como o mundo que as pessoas ali habitavam — é impossível de entender.

Isso, é claro, faz parte do tremendo magnetismo de Göbekli Tepe.

Enquanto milhares de visitantes se maravilham com um lugar que a maioria das pessoas nunca tinha ouvido falar uma década atrás, os pesquisadores continuarão tentando entender por que ele foi construído.

E cada nova descoberta promete mudar o que sabemos agora sobre o sítio arqueológico e a história da civilização humana.

"O novo trabalho não está destruindo a tese de Klaus Schmidt; ele existe graças a ele", diz Horejs.

"Houve um grande ganho de conhecimento, na minha opinião. A interpretação está mudando, mas é disso que se trata a ciência."

_________________________________________________Como um bando de gênios pré-históricos lançou a revolução tecnológica - BBC News Brasil

Nicholas R. LongrichThe Conversation* 20 fevereiro 2022

Legenda da foto, Há meio milhão de anos, alguns indivíduos engenhosos inventaram as ferramentas que nos permitiram avançar como espécie

Cerca de três milhões de anos atrás, nossos ancestrais fabricavam pedras lascadas e cortadores rudimentares. Há dois milhões de anos, bifaces.

Há um milhão de anos, os humanos primitivos às vezes usavam fogo, mas com dificuldade.

Até que, 500 mil anos atrás, a mudança tecnológica acelerou, à medida que surgiram as pontas de lança, a arte do fogo, os machados, as contas e os arcos.

Esta revolução tecnológica não foi obra de uma espécie só. As inovações surgiram em diferentes grupos — Homo sapiens moderno, sapiens primitivo, possivelmente até neandertais — e depois se espalharam.

Muitas invenções importantes foram exclusivas: peças únicas.

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Em vez de serem inventadas por pessoas diferentes de forma independente, elas foram descobertas uma vez e depois compartilhadas.

Isso implica que algumas pessoas inteligentes criaram muitas das grandes invenções da história.

E nem todas estas pessoas eram humanos modernos.

A ponta de lança

Há 500 mil anos, no sul da África, o Homo sapiens primitivo prendeu pela primeira vez lâminas de pedra a lanças de madeira, criando a ponta de lança.

As pontas de lança foram revolucionárias como armamento e como as primeiras "ferramentas compostas" — combinando componentes.

Crédito,

Getty Images

Legenda da foto,

As lanças com ponta de pedra foram as primeiras ferramentas que combinaram diferentes objetos

A ponta de lança se espalhou, aparecendo 300 mil anos atrás na África Oriental e no Oriente Médio — e há 250 mil anos na Europa, empunhada pelos neandertais.

Esse padrão sugere que a ponta de lança foi gradualmente transmitida de um povo para outro, percorrendo todo o caminho da África até a Europa.

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Há 400 mil anos, indícios de fogo, incluindo carvão e ossos queimados, se tornaram comuns na Europa, Oriente Médio e África.

Isso aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo em todos os lugares — em vez de forma aleatória, em lugares desconectados —, sugerindo que a invenção foi seguida de rápida disseminação.

A utilidade do fogo é óbvia, e manter o fogo aceso é fácil. Começar o fogo é mais difícil, no entanto, e foi provavelmente a principal barreira.

Neste caso, o uso generalizado do fogo provavelmente marcou a invenção do fogo por fricção — em que se gira um graveto contra outro pedaço de madeira para criar atrito, uma ferramenta usada ainda hoje por caçadores-coletores.

Curiosamente, a evidência mais antiga do uso regular do fogo vem da Europa — então habitada pelos neandertais.

Os neandertais dominaram a arte do fogo primeiro? Por que não? Seus cérebros eram tão grandes quanto os nossos; eles os usavam para alguma coisa e, por terem vivido durante os invernos da era glacial da Europa, os neandertais precisavam mais do fogo do que o Homo sapiens africano.

O machado

Há 270 mil anos, na África central, os bifaces começaram a desaparecer, sendo substituídos por uma nova tecnologia, o machado.

Os machados pareciam bifaces pequenos e gordos, mas eram ferramentas radicalmente diferentes.

Arranhões microscópicos mostram que eram presos a cabos de madeira — fazendo deles um verdadeiro machado com cabo.

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Os machados se espalharam rapidamente pela África, depois foram levados por humanos modernos para a Península Arábica, Austrália e, finalmente, Europa.

Ornamentação

As contas mais antigas têm 140 mil anos e são provenientes do Marrocos.

Foram feitas a partir de conchas de caracóis perfuradas, amarradas em sequência em uma corda.

Na época, o Homo sapiens arcaico habitava o norte da África, então seus criadores não eram humanos modernos.

As contas apareceram na Europa, entre 115 mil -120 mil anos atrás, usadas pelos neandertais, e foram finalmente adotadas pelos humanos modernos no sul da África há 70 mil anos.

Arco e flecha

As pontas de flecha mais antigas apareceram no sul da África há mais de 70 mil anos, provavelmente feitas pelos ancestrais dos bosquímanos, que vivem lá há 200 mil anos.

Os arcos se espalharam então para os humanos modernos na África Oriental, para o sul da Ásia há 48 mil anos, para a Europa há 40 mil anos e, finalmente, para o Alasca e as Américas, há 12 mil anos.

Os neandertais nunca adotaram arcos, mas o momento da propagação do arco significa que provavelmente foi usado contra eles pelo Homo sapiens.

Crédito,

Tecnologia da troca

Não é impossível que as pessoas tenham inventado tecnologias semelhantes em diferentes partes do mundo aproximadamente ao mesmo tempo e, em alguns casos, isso deve ter acontecido.

Mas a explicação mais simples para os dados arqueológicos que temos é que, em vez de reinventar tecnologias, muitos avanços foram feitos apenas uma vez e depois se espalharam amplamente.

Afinal, presumir menos inovações requer menos suposições.

Mas como a tecnologia se espalhou? É improvável que indivíduos pré-históricos tenham viajado longas distâncias, passando por terras mantidas por tribos hostis (embora tenha havido obviamente grandes migrações ao longo de gerações), então os humanos africanos provavelmente não conheceram os neandertais na Europa, ou vice-versa.

Em vez disso, a tecnologia e as ideias se difundiram sendo transferidas de um grupo ou tribo para outro, e assim por diante, em uma vasta cadeia ligando o Homo sapiens moderno, no sul da África, a humanos arcaicos no norte e leste da África e neandertais na Europa.

O conflito poderia ter impulsionado a troca, com pessoas roubando ou capturando ferramentas e armas.

Os nativos americanos, por exemplo, conseguiram cavalos capturando-os dos espanhóis.

Mas é provável que as pessoas muitas vezes apenas trocassem tecnologias, simplesmente porque era mais seguro e mais fácil.

Ainda hoje, os caçadores-coletores modernos, sem dinheiro, negociam — os caçadores hadzabe trocam mel por pontas de flechas de ferro feitas por tribos vizinhas, por exemplo.

Crédito,

Science Photo Library

A arqueologia mostra que este tipo de troca é antiga.

Contas de casca de ovo de avestruz da África do Sul, com até 30 mil anos, foram encontradas a mais de 300 quilômetros de onde foram feitas.

Há 200 mil - 300 mil anos, o Homo sapiens arcaico na África Oriental usava ferramentas de obsidiana (tipo de rocha)provenientes de 50-150 quilômetros de distância, mais longe do que os caçadores-coletores modernos costumam viajar.

Por fim, não devemos ignorar a generosidade humana — algumas trocas podem ter sido simplesmente presentes.

A história humana e a pré-história foram, sem dúvida, repletas de conflitos — mas, assim como agora, as tribos podem ter tido interações pacíficas — pactos, casamentos, amizades — e podem simplesmente ter presenteado seus vizinhos com tecnologia.

Gênios da Idade da Pedra

O padrão visto aqui — origem única, seguida pela disseminação das inovações — tem outra implicação notável.

O progresso pode ter sido altamente dependente de determinados indivíduos, em vez de ser o resultado inevitável de forças culturais mais amplas.

Vejamos o caso do arco. É tão útil que sua invenção parece óbvia e inevitável.

Mas se realmente fosse óbvia, teríamos visto arcos inventados repetidamente em diferentes partes do mundo.

Mas os nativos americanos não inventaram o arco — tampouco os aborígenes australianos, nem os povos da Europa e da Ásia.

Em vez disso, parece que um bosquímano inteligente inventou o arco, e depois todos o adotaram.

A invenção desse caçador mudaria o curso da história humana por milhares de anos, determinando o destino de povos e impérios.

O padrão pré-histórico se assemelha ao que vimos nos tempos históricos.

Algumas inovações foram desenvolvidas repetidamente — agricultura, civilização, calendários, pirâmides, matemática, escrita e cerveja foram inventados independentemente em todo o mundo, por exemplo.

Certas invenções podem ser óbvias o suficiente para surgir de forma previsível em resposta às necessidades das pessoas.

Mas muitas inovações importantes — como a roda, a pólvora, a prensa de impressão, os estribos, a bússola — parecem ter sido criadas apenas uma vez, antes de serem difundidas.

E, da mesma forma, um punhado de indivíduos — Steve Jobs, Thomas Edison, Nikola Tesla, os irmãos Wright, James Watt, Arquimedes — desempenharam um papel descomunal ao impulsionar nossa evolução tecnológica, o que implica que indivíduos altamente criativos tiveram um enorme impacto.

Isso sugere que as chances de acertar em uma grande inovação tecnológica são baixas.

Talvez não fosse inevitável que o fogo, as pontas de lança, os machados, as contas ou os arcos fossem descobertos quando foram.

Naquela época, como agora, um único indivíduo poderia literalmente mudar o curso da história, com nada mais do que uma ideia.

* Nicholas R. Longrich é professor de paleontologia e biologia evolutiva na Universidade de Bath, no Reino Unido.

Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).

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12 de outubro: como realmente era a América antes da chegada de Cristóvão Colombo? - BBC News Brasil

Haudenosaunee

As nações indígenas Mohawk, Onondaga, Oneida, Cayuga e Seneca, formavam o povo Haudenosaunee e viviam em áreas rurais densamente povoadas.

Mapa mostrando a extensão do território haudenosaunee no norte dos atuais EUA e Canadá

Suas aldeias eram extensas e ficavam próximas uma à outra, mas não havia uma capital específica.

“Dessa forma, todos ficavam mais próximos do suprimento de comida. Na América do Norte não havia animais de carga como o cavalo. Por isso, transportar alimentos até uma cidade grande era mais difícil”, diz Charles C. Mann.

Os haudenosaunee formavam uma confederação regida por um governo com leis aprovadas por um conselho em que homens e mulheres tinham poder de decisão, inclusive sobre as guerras.

Na prática, segundo especialistas, era um governo de consenso, como uma democracia sem partidos.

Isso impressionou os europeus que, quando chegaram à América, ainda viviam sob monarquias absolutistas em sociedades extremamente desiguais.

Ilustração canadense que mostra uma reunião de chefes das tribos Mohawk, Onondaga, Oneida, Cayuga, Seneca e Tuscarora

Reunião dos chefes das tribos Mohawk, Onondaga, Oneida, Cayuga, Seneca e Tuscarora; esta última se uniu aos haudenosaunee no século 18. Imagem: Getty

Atualmente, os haudenosaunee são a única nação indígena oficialmente reconhecida nos Estados Unidos como um povo originário que influenciou a constituição e a forma de governo americanas.

Charles C. Mann acredita que a semelhança entre o sistema político dos nativos e o atual é pequena, mas diz que o impacto cultural causado pela forma de vida dessa e de outras nações indígenas é inegável.

“Os europeus encontraram povos que não tinham medo de seus governos, que eram autônomos e que riam da ideia de que a nobreza era hereditária. Essas foram lições importantes que aprenderam com eles”, afirma.

Culturas mississipianas

As culturas mississipianas eram um grupo extenso de cidades que compartilhavam as mesmas práticas religiosas e visões de mundo.

Se estendiam pelo meio-oeste, o leste e o sudeste do que seriam atualmente os Estados Unidos, chegando até a fronteira com o Canadá.

Mapa mostrando a extensão territorial das culturas mississipianas nos Estados Unidos no período pré-colombiano

“Em seu apogeu, pouco antes do ano 1400, a extensão territorial desses povos era equivalente ao que chamamos de ‘cristandade’ na Europa na mesma época. Isso nos dá uma ideia de quão influente essa cultura foi na América do Norte”, explica Charles C. Mann.

As cidades mississipianas mais importantes tinham conjuntos de montículos de terra em forma de pirâmide ou plataforma, sobre os quais se construíam casas e templos.

Entre elas esteve a imponente Cahokia — já desabitada quando chegaram os colonizadores — e também Moundville, o segundo maior centro urbano daquela cultura.







 — e também Moundville, o segundo maior centro urbano daquela cultura.

Recriação artística de Moundvile, com templos e residências sobre montículos de terra e mississipianos tocando instrumentos e festejando

Em seu apogeu, Moundville tinha templos e residências sobre montículos de terra, como nessa recriação artística. Imagem: Caleb O’Connor, Museus de Universidade do Alabama

Mais que centros políticos ou comerciais, esses locais eram pontos importantes para a vida social e mística dos mississipianos. Alí aconteciam enormes festivais religiosos e sacrifícios em massa, segundo revelaram escavações arqueológicas.

No entanto, pouco antes da chegada dos europeus, Moundville, assim como outras antes dela, deixou de ser habitada e passou a ser um local reservado para enterros e peregrinação religiosa.

“Hoje se consideram duas possibilidades: uma delas, segundo os indígenas descendentes dos mississipianos, é que eles acreditavam que as cidades tinham uma missão e um ciclo de vida. Depois de algum tempo, saíam delas para que se transformassem em outra coisa. A segunda possibilidade é que abandonaram Moundville porque se cansaram de sua estrutura elitista e só mantiveram as cidades onde o poder era mais compartilhado”, diz Mann.

Culturas pueblo

Entre o que hoje é o sudoeste dos Estados Unidos e o noroeste do México havia mais de 20 comunidades com idiomas e etnias diferentes, mas com uma cultura e religião em comum.

Mapa mostrando a extensão territorial aproximada das culturas pueblo no período pré-colombiano, entre os atuais EUA e norte do México

Os espanhóis as chamaram de pueblos (vilarejos), mas algumas das comunidades eram tão grandes que os primeiros relatos escritos se referiam a elas como “reinos” e diziam que “se estendiam até onde a vista alcançava”.

É o caso de Zuni e Acoma, esta última uma cidade impressionante construída sobre um platô no atual Estado do Novo México, nos EUA.

Foto de 1927 mostrando uma vista aérea de Acoma

Acoma, visto desde cima nesta foto de 1927, era um dos pueblos mais importantes da região quando os europeus chegaram. Imagem: Getty

“Algumas cidades eram maiores do que outras, mas não havia uma dominante. Temos evidências de que em tempos de seca ou de fome as comunidades se deslocavam de uma cidade a outra e eram abrigadas pelos vizinhos, às vezes por anos, até que as condições melhorassem na sua área. As culturas aprendiam umas com as outras e as comunidades eram multinacionais”, explica à BBC News Brasil Kurtz Anschuetz.

Os pueblanos também eram agrônomos e agricultores talentosos, segundo Anschuetz.

Desenvolveram variedades de milho e tecnologias para poder cultivá-las em diferentes tipos de solo, em campos espalhados por todo o território. Isso garantia que teriam alimento suficiente para todo o ano, reservas para compensar colheitas ruins e também o necessário para cumprir seus rituais religiosos.

Mas, mesmo que não houvesse na Europa naquela época uma agricultura tão sofisticada em grande escala, a técnica e a eficiência dos nativos não impressionou os colonizadores.

“Os europeus estavam buscando riquezas minerais e almas para catequizar. Eles diziam que o solo americano era tão fértil que as pessoas não tinham que fazer nada, só semear e colher. Mas não era assim”, diz Anschuetz.

Império mexica

No final do século 15, o império mexica (que mais tarde muitos historiadores chamariam de asteca) estava em seu auge.

As cidades-estado de Tenochtitlán, Texcoco e Tacuba tinham formado uma poderosa aliança político-militar que tomou o poder dos tepanecas e conquistou a maior parte do centro e do sul do que hoje é o México.

Mapa mostrando a extensão do império mexica e situando as cidades de Tenochtitlán, Texcoco e Tacuba

Os mexicas não necessariamente tinham presença militar nos territórios conquistados, mas obrigavam seus novos súditos a enviar produtos e soldados a Tenochtitlán, a sede do império, como tributo.

Também se casavam com as filhas dos chefes locais para que seus herdeiros, educados na capital, comandassem as regiões no futuro.

Tudo isso lhes permitia manter um império hegemônico, mesmo que dentro dele se falassem muitos idiomas além do oficial, o náuatle.

“Em muitos sentidos, não era um sistema tão diferente do que se via na Europa nessa mesma época”, disse à BBC News Brasil a etnóloga Antje Gunsenheimer, da Universidade de Bonn, na Alemanha.

Gravura representando Moctezuma 2º

O zoológico que Moctezuma 2º tinha dentro de Tenochtitlán é um exemplo de como os mexicas ostentavam seu poder. Imagem: Getty

Assim como nos reinos europeus, os mexicas exibiam seu poder através da riqueza e do esplendor dos palácios e jardins de Tenochtitlán.

Quando os europeus chegaram, Tenochtitlán era uma cidade maior do que Paris.

Estima-se que ali podem ter vivido cerca de 250 mil pessoas, a maior densidade populacional da América.

Gravura do início do século 20 representando a praça principal de Tenochtitlán

Cada bairro de Tenochtitlán tinha sua própria estrutura política e religiosa, com seus templos, escolas e soldados, conta Gunsenheimer. Imagem: Getty

"Era uma cidade refinada, com banheiros públicos, mais de 30 palácios que tinham cerâmicas finas e tecidos elegantes. E ficava em meio a mais de 2 mil km² de lagos ricos em peixes, enquanto que a agricultura nos arredores era bastante produtiva e permitia sustentar a população da região”, disse à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Esteban Mira Caballos, doutor em História da América pela Universidade de Sevilha, na Espanha.

Mas, a capital era, acima de tudo, um triunfo da engenharia sem comparação.

Um sofisticado sistema de canais e represas construídos ao longo do tempo permitia regular a quantidade de água que chegava a Tenochtitlán das montanhas, por meio dos lagos. Dessa forma, evitava-se a inundação muito frequente da cidade em períodos de chuva intensa e se garantia o fornecimento de água doce para a população.

Gravura representando Tenochtitlán em meio aos lagos e canais

Apesar de ter sido construída em meio a um lago, a capital mexica não era inundada graças a um sistema de canais e represas. Imagem: Getty

“Os mexicas viviam num ambiente que parecia muito abundante, mas que era muito frágil e tinha que ser muito bem administrado. E eles faziam isso perfeitamente. Entendiam que, com tanta gente em uma só cidade, o risco de contaminação dos lagos era alto. Sabemos hoje que eles tinham profissionais que coletavam os excrementos e os levaram para a terra firme para que fossem usados como adubo orgânico nas plantações, por exemplo. A cidade era muito limpa”, diz Antje Gunsenheimer.

Depois da conquista, os espanhóis destruíram o sistema hidráulico de Tenochtitlán, que se transformou na Cidade do México, e o reconstruíram no estilo europeu. A partir daí, a cidade foi inundada mais vezes durante o século 16 e sofreu graves epidemias de tifo — prova de que o sistema original era melhor do que o implementado pelos conquistadores.

Império tarasco

Os arqui-inimigos dos mexicas são menos conhecidos porque sobraram menos registros da sua sociedade e relatos de como viviam antes do contato com os espanhóis.

No entanto, os tarascos tinham o segundo maior Estado da Mesoamérica quando os europeus pisaram pela primeira vez no continente.

Mapa mostrando a extensão do império tarasco e sua fronteira com o império mexica

En sua mitologia, os mexicas se referiam aos tarascos como uma das tribos que saíram de sua terra ancestral, Aztlán, mas que não chegaram junto com eles a Tenochtitlán.

“Falar deles nesses termos ajudava os mexicas a justificar sua incapacidade de derrotar os tarascos e expandir sua fronteira até o noroeste. É como se eles dissessem: ‘eles são fortes assim porque são nossos parentes, é por isso que não conseguimos vencê-los’”, disse à BBC News Brasil Sarah Albiez-Wieck, da Universidade de Colônia, na Alemanha.

No final do século 15, a capital tarasca, Tzintzuntzan, tinha quase 30 mil habitantes e era parte de um centro de poder formado por três cidades-estado próximas a um lago, assim como no império mexica. Mas, nesse caso, os especialistas acreditam que o poder estava menos concentrado em uma só cidade.

Tzintzuntzan era a capital administrativa e tinha um grande centro religioso com edifícios e pirâmides de estrutura mista, retangular e circular, chamadas de yácatas. Nessas construções viviam os sacerdotes, se realizavam sacrifícios rituais e se acendiam fogueiras como sinal de que o império entraria em guerra.

Modelo reproduzindo o centro cerimonial de Tzintzuntzan

O centro cerimonial é a área mais bem conservada de Tzintzuntzan. Imagem: Getty

Em relatos dos mexicas e dos espanhóis, os tarascos também aparecem como respeitados metalúrgicos.

“O oeste do México foi o berço da metalurgía na Mesoamérica, e os tarascos são parte dessa tradição, que é anterior a eles. Mas eles foram os primeiros a organizar a extração e o trabalho com metais em nível estatal”, explica Albiez-Wieck.

Montagem com fotos de adorno e ferramenta de metal feitos pelos tarascos

Os tarascos conseguiram manter parte do seu poder político por mais tempo do que seus inimigos. Por meio de negociações com os espanhóis após a queda de Tenochtitlán, os líderes tarascos puderam continuar recebendo tributos e tendo subordinados até o início do século 17.

Civilização maia

No século 15, a maioria das grandes cidades maias, com suas pirâmides e monumentos imponentes — hoje atrações turísticas populares — já estavam em decadência. Mas algo revolucionário vinha acontecendo com essa civilização nos últimos séculos.

“Sabemos que o sistema de reis divinos desapareceu mais ou menos no século 9 e não ressurgiu. Então a administração das cidades maias passou a ser mais comunal. No século 15 não acho que chegasse a ser uma democracia, mas certamente mais pessoas participavam das decisões”, disse à BBC News Brasil Nikolai Grube, das universidades de Texas, nos Estados Unidos, e de Bonn, na Alemanha, um dos maiores especialistas em textos maias.

Como na Grécia antiga, o mundo maia sempre foi formado por cidades-estado que competiam e entravam em guerras umas com as outras, apesar de compartilharem a cultura, o idioma e a ideia de que pertenciam a um mesmo povo. Os reis tinham um forte controle sobre as rotas de comércio.

Mapa mostrando a extensão da civilização maia no período pré-colombiano

Quando o sistema controlado pela nobreza entrou em colapso, segundo Grube, as pessoas parecem ter aproveitado esse vácuo de poder para ter mais acesso a bens de luxo como as jóias feitas de jade e a cerâmica.

As rotas de intercâmbio com outros povos, agora livres, permitiram que produtos como o ouro e o cobre, entre outros, também chegassem ao mundo maia. “De certa maneira, as pessoas ficaram mais ricas em um mundo mais globalizado”, diz Grube.

Ao mesmo tempo, a arquitetura das cidades ficou mais modesta. Sem reis que organizassem o trabalho em obras gigantescas, chegou ao fim a era dos grandes monumentos e palácios. Os templos, feitos por famílias, passaram a ser menores.

Foto atual do sítio arqueológico de Mayapán, no México

Os templos mais modestos de Mayapán refletiam o momento em que se encontrava a civilização maia antes da chegada dos espanhóis. Imagem: Getty

Na península de Yucatán, no atual México, Mayapán foi a maior cidade maia antes da conquista, mas também já tinha sido abandonada quando os espanhóis chegaram. Nojpetén, capital dos Itzá Maia construída sobre um lago, foi tão poderosa que chegou a controlar todo o norte do que hoje é a Guatemala.

Essa mudança política e econômica também não foi a única revolução cultural da qual os maias participaram na América. No fim do século 15, eles já eram os astrônomos mais avançados do continente, baseados em um grande conhecimento matemático. Por causa deles, a humanidade conheceu o símbolo do zero.

Imagem do códice Dresden, onde se vê cálculos em escrita maia e, em destaque, o símbolo usado para o zero matemático

“Sabemos que na Mesopotâmia se faziam cálculos com a ideia do zero, mas sem um signo que o representasse. Mas os maias tinham isso e foram os primeiros”, explica Grube.

Apesar de que a ideia do zero já existia, um símbolo para o zero é importante porque facilitava representar números mais longos e, portanto, fazer cálculos muito mais complexos. Dessa forma, os maias desenvolveram um sistema de calendários que misturava crenças religiosas, o ano solar de 365 dias e outros fenômenos astronômicos como os ciclos de Vênus, da Lua e de outros planetas com enorme precisão.

Foram também os maias os únicos no continente — e um dos quatro povos da humanidade — a desenvolver a escrita de maneira independente.

O sistema de escrita maia era semelhante aos hieróglifos egípcios e permitia escrever todas as palavras de seu idioma. Hoje, no entanto, só quatro livros maias foram preservados, com textos cerimoniais e de astronomia, já que o resto foi perdido durante e depois das batalhas contra os espanhóis.

Por outro lado, o fato de que não terem um governo unificado também deu à civilização maia uma vantagem sobre os invasores — eles nunca foram completamente conquistados.

“A península de Yucatán e as regiões montanhosas da Guatemala estavam divididas em muitos Estados pequenos liderados por grupos ou por senhores. Apesar de alguns terem se unido aos espanhóis, grande parte não foi submetida ao controle do império colonial nem das autoridades mexicanas até pelo menos o início do século 20”, diz Nikolai Grube.

Império inca

No final do século 15, o império inca havia se tornado o maior do mundo — uma expansão só comparável com a do império romano.

Sua capital, Cusco, foi redesenhada pelo líder expansionista Pachacuti para ter a forma de um puma, um dos principais animais sagrados nos Andes.

Gravura do século 17 representando os líderes inca Pachacuti e Túpac Yupanqui

O inca Pachacuti (à direita) foi o principal líder expansionista do império, que chegou a ser, na época, o mais extenso do mundo. Imagem: Getty

No lugar onde estariam os órgãos genitais do animal ficava o Coricancha, ou templo do Sol, o mais importante do império.

“Era o Vaticano dos Andes”, disse à BBC News Brasil Sonia Alconini, da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos.

O império abarcava cerca de 3 milhões de quilômetros quadrados, do norte do atual Equador até a região central do Chile, e estava dividido em quatro grandes partes, cada uma com suas províncias.

Tudo isso era conectado por um sistema viário de pedra, bem construído e de uma escala que ainda impressiona pesquisadores. “Havia infraestrutura por todos os lados: pontes, escadas para subir as montanhas com lhamas. Muitas dessas estradas continuam sendo usadas”, diz Alconini.

Mapa mostrando a extensão do império inca e as principais estradas incas já descobertas

Pelas estradas do império circulavam as conchas do molusco spondylus, muito valorizadas como adornos, penas de aves tropicais, ayahuasca, folhas de coca, pimenta-aji, cobre e madeiras vindas da Amazônia.

O ouro e a prata, que cobriam as paredes de templos em Cusco, tinham uma importância mais ritual do que comercial: o ouro representava o sol e a prata, a lua. Por isso, só quem podia usá-los eram as elites, consideradas divinas.

Para conseguir dominar uma parte tão grande do continente, os incas tiveram que subjugar todos os povos da região, de tribos a Estados mais complexos, e estimulá-los a trabalhar em obras de infraestrutura — que não incluíam só as estradas, mas também templos, fortalezas e palácios.

Sem moeda e sem mercado, que mecanismos econômicos tornaram um império tão extenso viável?

A resposta, segundo Alconini, tem a ver com a sofisticada administração e distribuição de recursos feitas pelos incas, mas também com suas estratégias de soft power.

“Quando os incas chegavam a um centro ritual importante, como o oráculo de Pachacamac, construíam ali outros templos e incorporavam aquela divindade a seu panteão imperial. Levavam sua estátua a Cusco e a colocavam no Coricancha. Imagine o efeito que isso tinha nas comunidades”, explica.

Ao mesmo tempo, um dos aspectos mais importantes da conquista inca era a organização da economia da nova província. Para isso, eles faziam um censo dos recursos locais e de todas as pessoas, segundo idade e gênero, algo que permitia determinar o tributo que cada um tinha que pagar ao Estado — em forma de trabalho.

Gravura do século 16 mostrando um homem inca segurando um quipu

Os quipus guardavam a informação dos censos de todas as províncias imperiais. Imagem: Getty

Na capital havia bibliotecas de quipus que guardavam não só os dados administrativos de todo o império, mas também as linhagens das famílias reais — os diferentes tipos de informação eram organizados segundo o tipo de nó, sua posição, grossura, cor ou da extensão do quipu.

Uma vez feito o censo de uma nova província, todos os recursos disponíveis e produzidos ali a partir daquele momento eram divididos em três partes: um terço para o Estado, outro para o soberano e a família imperial e o último para as próprias comunidades.

Era o sistema chamado de mita.

O terço dedicado ao Estado funcionava como garantia de segurança para a população, já que em períodos de seca, por exemplo, a ajuda vinha daí.

Esse sistema também foi essencial para manter as obras e o movimento de soldados por toda a rede de caminhos do império. O Estado colocava comida, tecidos e sandálias nas callancas — armazéns construídos nas estradas em intervalos de um dia de caminhada — para que os soldados, e outros funcionários, pudessem viajar sem tanto peso.

Foto atual de uma callanca em Machu Picchu, no Peru

Os viajantes em missão oficial podiam se abastecer em “callancas” como esta, que encontravam nas estradas incas. Imagem: Getty

Em algumas regiões, as escavações arqueológicas sugerem que a conquista inca e seu sistema de redistribuição serviu para nivelar as condições de vida das elites e dos cidadãos comuns, segundo Alconini.

No entanto, isso não quer dizer que todos os povos aceitavam e gostavam de ser dominados pelos incas, que exigiam, entre outras coisas, que se falasse o quechua, idioma do império. Caso colaborassem, as comunidades recebiam terras melhores como compensação. Caso se rebelassem, eram transportadas, integralmente, a outras áreas.

“Os incas levaram gente da região do Equador para a Bolívia. O mesmo aconteceu no Chile. Isso mostra a capacidade enorme que eles tinham de mover, organizar e planejar a sociedade”, diz Sonia Alconini.

A mão de obra dos povos conquistados também serviu para expandir a fronteira agrícola do império. Graças à técnica dos terraços de cultivo, construídos nas montanhas andinas, conseguiram plantar milho e batatas, entre outros.

Foto atual de um "andén" inca, terraço de cultivo, em um sítio arqueológico no Peru

Esse sistema permitiu a expansão sem precedentes dos incas, mas não impediu as crises políticas provocadas pela sucessão de seus líderes. Uma delas causou a divisão que culminou na derrota do império para os espanhóis.

Império chimú

Até aproximadamente os anos 1470, o império chimú — que se estendia por cerca de 500 km desde o sul do atual Equador até a costa norte do Peru, talvez até Lima, segundo alguns pesquisadores — era um dos mais poderosos dos Andes.

Mapa mostrando a extensão do império chimú em relação ao império inca, que o conquistou

Chan Chan, sua capital, era uma das maiores e mais esplêndidas cidades em toda a América.

“Ela foi tão grande quanto Tenochtitlán ou até maior. Chan Chan tinha 24 km² de construção e se estima que em seu apogeu viveram entre 25 mil e 50 mil pessoas. Mas se contarmos todas as comunidades-satélite, facilmente poderíamos chegar a 100 mil habitantes”, disse à BBC News Brasil Gabriel Prieto, da Universidade da Flórida, nos EUA.

Dentro da cidade ficavam os enormes palácios reais, alguns com até 150 hectares de extensão e paredes de barro de 15 metros de altura. Um sistema de praças em ordem descendente dava acesso à parte mais íntima dos palácios, para enfatizar que nem todo mundo tinha acesso aos espaços da elite.

Os edifícios eram decorados com motivos marinhos porque, para os chimú, o mar não era apenas a principal via de intercâmbio com outros povos da costa andina, mas também seu lugar mitológico de origem.

Foto de um muro do sítio arqueológico de Chan Chan com detalhe mostrando uma ave marinha em alto relevo


Os chimú decoravam seus palácios com peixes e aves marinhas porque acreditavam ter nascido de um homem que veio do mar. Imagem: Getty

Mas, apesar de se considerarem gente do mar, o principal investimento dos chimú aconteceu em terra.

O império construiu um sistema de irrigação de zonas desérticas com canais feitos de pedra e barro que são considerados um exemplo do alcance da engenharia pré-colombiana.

“Essas pessoas conseguiram, sem ferramentas que hoje são básicas para a engenharia civil, manter uma variação de nível em seus canais de menos de um metro por cada quilômetro, algo essencial para que um sistema como esses funcione bem”, explica Gabriel Prieto.

A capital foi construída em um vale artificial criado a partir desse sistema: um canal principal trazia água de um rio a 80 km de distância, enquanto outros canais traziam água das montanhas. Hoje, essa região voltou a ser desértica.

Nas áreas residenciais de Chan Chan foram encontrados vestígios de muitas oficinas de tecelagem, cerâmica e metalurgia. Essa última foi um dos grandes legados dos chimú à região, já que foi a primeira vez que o metal passou a ser utilizado em larga escala pelas pessoas comuns, não apenas pelas elites, nos Andes.

“Eles eram basicamente uma máquina industrial de processar objetos de metal, especialmente de cobre e bronze arsênico (liga de cobre e bronze que pode ocorrer naturalmente ou ser produzida)”, diz o arqueólogo.

Fotografia de animal marinho feito em metal pelos chimú

Depois de conquistarem o império, os incas levaram os ourives e metalúrgicos chimú a Cusco para que eles ensinassem suas técnicas. Imagem: Getty

Para os chimú, o ouro e a prata representavam a dualidade complementar do mundo. Por isso, eram abundantes em seus palácios e mausoléus, onde os senhores mais poderosos eram enterrados com adornos extravagantes.

A ourivesaria chimú tinha tanto prestígio que os incas adotaram seu estilo e os espanhóis contabilizaram quantidades impressionantes de metais preciosos nas ruínas de suas cidades após a conquista.

O império perdeu força poucos anos antes da chegada dos europeus, quando entrou em um conflito definitivo com os incas, segundo os pesquisadores.

“Essa briga definiu o futuro da região andina porque os incas nunca tinham enfrentado uma organização política tão poderosa quanto os chimú, mas esses últimos não tinham o aparato militar que os incas tinham. No fim, os incas venceram e conquistaram todo o território norte”, diz Gabriel Prieto.

Povos amazônicos

Culturas dos Llanos de Moxos

Na atual Bolívia, arqueólogos encontraram indícios de uma cultura que desafia tudo o que se pensava sobre as pessoas que viviam na Amazônia até 1492.

“Nessa região havia muitas obras monumentais, algo que não se espera nem se diz da Amazônia. Sempre esperamos encontrar monumentos de pedra, mas, aqui, a monumentalidade é de terra”, disse à BBC News Brasil Carla Jaimes Betancourt, da Universidade de Bonn, na Alemanha.

Mapa situando a região dos Llanos de Moxos, na Bolívia

São estruturas arquitetônicas diferentes que pertenciam aos povos da área de planícies e floresta úmida dos Llanos de Moxos, na atual província do Beni.

Esses povos são chamados coletivamente de “cultura casarabe” ou “cultura hidráulica das lomas”.

As lomas em questão são o principal tipo de estruturas encontrado na região — montículos em forma de pirâmide que chegavam a medir até 20 metros de altura e eram conectados por canais e aterros. Eles eram usados em residências, cemitérios, áreas de cultivo e, os maiores, como centros cerimoniais ou casas para a elite.

Na foz do rio Madeira foi encontrada uma rede de 500 lomas. Estima-se que, em todo o Beni, chegaram a ser construídos até 20 mil desses montículos no total.

“Aparentemente essas pessoas marcavam a paisagem para mostrar hegemonia política e religiosa. Alguns sítios são maiores e se conectam com montículos menores, o que nos faz pensar que havia áreas de influência, como uma capital e seus satélites”, diz Betancourt.

Outras estruturas que nos mostram como viviam os povos nos Llanos de Moxos são as plataformas elevadas de cultivo de vários tamanhos encontradas no local — algumas de até 30 metros de largura e centenas de metros de comprimento, onde se plantava milho, mandioca, pimenta e abóboras.

Perto da atual fronteira com o Brasil estão os vestígios de outra sociedade, especializada na construção de valas que formavam geoglifos. No entanto, não eram simplesmente desenhos no solo. Eles serviam como trincheiras de três a quatro metros de profundidade que protegiam as aldeias, mas ainda não se sabem do que, nem de quem.

“São aldeias que impressionam pelo seu tamanho. Encontramos valas circulares delimitando áreas gigantescas, de 240 hectares. E havia uma aldeia ao lado da outra, separadas por um sistema de valas (…). Como na região viviam povos diferentes é possível que houvesse tensões entre eles, mas não sabemos exatamente que fenômenos aconteciam ali”, afirma a arqueóloga.

Foto aérea de uma das valas em um sítio arqueológico da região dos Llanos de Moxos

As valas circulares funcionavam como trincheiras para proteger as aldeias e tinham até quatro metros de profundidade. Imagem: Carla Jaimes Betancourt

Mas o mais importante é que criar todas essas estruturas requeria muita mão de obra, o que mostra que as sociedades do Beni eram mais complexas e muito maiores do que se imaginava.

“Para realizar essas construções era necessário uma organização social e política estável e muita gente. Estimamos que hoje em dia a população do departamento do Beni (cerca de 500 mil pessoas) seja cerca de 20% do que era antes da chegada dos europeus)”, diz Carla Betancourt.

E, apesar da grande quantidade de pessoas vivendo e mudando a paisagem local durante milhares de anos, o legado das culturas pré-colombianas foi um território rico em biodiversidade. “Comparado com o que estamos fazendo hoje com a Amazônia, com o desmatamento e a monocultura agrícola, o que eles fizeram é impressionante”, conclui.

Povos amazônicos

Povo do Xingu

O complexo de Kuhikugu é um dos sítios arqueológicos mais importantes e reveladores da Amazônia.

São 20 aldeias espalhadas em uma área de cerca de 20 mil km² na região do Alto do Xingu, no Centro-Oeste brasileiro, descobertas por Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, com a colaboração de profissionais brasileiros e indígenas locais.

Mapa localizando o Parque Indígena do Xingu e o sítio arqueológico de Kuhikugu

Elas provavelmente foram construídas pelos antepassados do povo kuikuro, que atualmente vive na região.

“Onde hoje há uma aldeia kuikuro havia 20 há 500 anos, e a maior de todas era cerca de 15 a 20 vezes maior do que a atual. Estimamos que cerca de 50 mil pessoas viviam nesse complexo em 1491”, disse o arqueólogo à BBC News Brasil.

O mais surpreendente para os pesquisadores, no entanto, foi a organização da área.

Kuhikugu, uma das maiores, tem um centro de mais de 50 hectares, possivelmente destinado a cerimônias, mas também a algumas residências, com uma enorme praça e rodeado por trincheiras.

Recriação artística da aldeia de Kuhikugu, com uma praça central e estradas que a conectavam a outras aldeias do complexo

Nessa recriação de Kuhikugu vê-se a praça principal, as áreas residenciais misturadas com a floresta e as estradas que a conectavam ao complexo de aldeias. Imagem: Luigi Marini

Outros sítios residenciais parecidos ficam dispostos em seus arredores: dois assentamentos grandes 5 km ao norte e ao sul e alguns menores à leste e à oeste. Entre todas estas aldeias, e em direção a outras próximas, havia um sistema de estradas com até 50 metros de largura, quatro pistas e até calçadas.

“Acreditamos que toda a região do Xingu estava conectada por esta rede. Algo assim não existia nem na Grécia antiga, nem na Europa medieval, onde havia grandes cidades, mas elas não estavam conectadas a outras comunidades de maneira tão precisa”, afirma Heckenberger.

O que foi encontrado na Amazônia brasileira, afirma Heckenberger, é um tipo de urbanismo diferente e único no mundo.

“Os indígenas descobriram há 800 anos que a natureza poderia ser incorporada às cidades. As áreas de ocupação humana se misturavam e se alternavam com a floresta, os pomares e as plantações.”

Durante muitos anos os pesquisadores assumiram que no interior da floresta amazônica pré-colombiana os povos eram nômades e caçadores-coletores, mas descobertas como a de Kuhikugu mostram que ainda há muito por entender.

Gravura do século 19 representando indígenas da região do Xingu

Como a maioria dos povos da região, os indígenas do Xingu sofreram uma queda de população após entrar em contato com os europeus. Essa representação é do século 19. Imagem: Getty

“As pessoas não perceberam que esses sistemas complexos existiam na Amazônia porque a expectativa era encontrar algo como uma grande cidade maia. Mas o fato de que isso não exista não quer dizer que a população não estivesse em um processo de urbanização, que não estivessem se organizando e administrando os recursos naturais de maneira sofisticada”, diz Heckenberger.

“Kuhikugu tem uma trincheira dupla ao seu redor que se estende por dois quilômetros, tem 15 metros de largura e cinco metros de profundidade. Eram construções enormes. Seria mais óbvio para nós se fosse uma pirâmide, mas uma vala como esta requeria a mesma mobilização de mão de obra.”

O trabalho daquela sociedade também se destinava a modificar a floresta: segundo estudos recentes, os indígenas praticavam uma forma de agroflorestação, escolhendo a forma e os locais mais convenientes para que determinadas espécies de plantas crescessem.

Nos últimos anos, novas escavações mostravam que havia sociedades complexas, densas e estabelecidas como a do Xingu nas principais bacias de rios amazônicos, segundo Heckenberger.

“Através dessas estradas, os povos de toda a bacia amazônica provavelmente se conectavam uns aos outros. Não vemos mais isso hoje porque o colonialismo jogou uma bomba nuclear em toda a sociedade que existia ali.”

Povos amazônicos

Aisuaris

Décadas depois da chegada dos europeus à América, muitos povos da Amazônia central permaneciam sem contato e, em alguns casos, protegidos das doenças que já atingiam outras comunidades do continente.

É o que parece ter acontecido com os aisuaris.

De acordo com os relatos dos primeiros padres espanhóis que entraram em contato com eles (Gaspar de Carvajal em 1540 e Cristóbal de Acuña em 1639), esse povo vivia em uma região densamente povoada — com pelo menos 30 aldeias só da sua cultura, sem contar os povos vizinhos — nas margens do rio Amazonas, perto da atual cidade de Tefé (AM).

Mapa mostrando os limites do território dos aisuaris segundo os relatos dos primeiros europeus

Os religiosos descreveram os nativos como povos compostos de milhares de guerreiros, com “caminhos bons e largos que saíam para as aldeias do interior” e que criavam animais como o tracajá (uma espécie de cágado).

Durante muito tempo acreditou-se que essas descrições eram exageradas, mas, nos últimos anos, arqueólogos brasileiros começaram a comprovar que, na verdade, elas se aproximavam da realidade.

“Os relatos diziam que os aisuaris tinham aldeias lineares nas barrancas dos rios. Nós encontramos sítios assim, de até um quilômetro de extensão, em um assentamento que ocupava um total de 18 hectares. E este lugar estava bastante degradado pela ação do tempo e do ambiente, o que nos faz pensar que a aldeia original devia ser muito maior”, disse à BBC News Brasil Rafael Lopes, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

Segundo Lopes, o antropólogo brasileiro Antonio Porro, especialista nos povos da Amazônia central, estima que a comunidade aisuari pode ter tido até 60 mil pessoas no final do século 15.

Gravura de Spix e Martius feita no século 19, mostrando uma aldeia indígena na margem do rio Japurá, no atual Estado do Amazonas

A ilustração dos cientistas alemães Spix e Martius mostra uma aldeia na margem do rio Japurá no século 19. Imagem: Getty

Os vestígios arqueológicos também parecem confirmar que os nativos domesticavam tracajás, algo que, novamente, desmonta a ideia de que as civilizações da região eram apenas caçadoras e coletoras.

“Isso garantia que eles teriam proteína em sua dieta, mas é importante mencionar que, ainda que tivessem muitas bocas para alimentar, separavam uma quantidade de tartarugas e liberavam o resto. Isso é fazer uma boa gestão de recursos naturais”, diz Eduardo Neves, do MAE-USP.

Outra prova dessa gestão está na própria floresta. Em 2019, o Grupo de Pesquisa em Arqueologia e Gestão do Patrimônio Cultural da Amazônia do Instituto Mamirauá, do qual Rafael Lopes faz parte, descobriu um castanhal de 400 a 500 anos de idade próximo a um sítio arqueológico na região. As árvores chegavam a quase exatos 500 metros da margem do rio. “Isso mostra que houve um trabalho humano para plantar e manter isso aqui”, diz o arqueólogo.

Segundo os relatos dos padres espanhóis, a cada 15 km nas estradas aisuaris havia abrigos rodeados de plantações para abastecer as pessoas que saíam em expedições comerciais a outras aldeias — um conceito semelhante ao das callancas dos incas. Esses detalhes, no entanto, ainda não foram confirmados.

Os aisuaris eram famosos na região pelo intercâmbio de peixe seco e de cerâmica, e recebiam principalmente adornos de ouro. As cerâmicas encontradas na região, diz Lopes, parecem confirmar que os nativos pertenciam a uma rica malha de intercâmbio comercial e cultural.

Montagem de fotos de urnas funerárias encontradas em sítio arqueológico na região do Médio Solimões

As urnas decoradas encontradas próximo de onde viviam os aisuaris indican que sua arte tinha influência de outros povos. Imagens: Erêndira Oliveira e GP Arqueologia do IDSM

As mesmas pessoas também nos permitem saber algo sobre a sua visão de mundo e conexão com o território. Um exemplo são as urnas funerárias dos séculos 14 a 16 encontradas pela equipe de Lopes em um sítio da região, que demonstram a existência de um ritual religioso complexo e importante.

O fato de serem pequenas, de no máximo um metro de altura, mostra que nem todo o corpo de uma pessoa era enterrado. Em geral, enterrava-se o corpo no solo primeiro, esperava-se sua decomposição e os ossos eram depois retirados da terra e colocados nas urnas, às vezes junto a ossos de animais, para serem enterrados novamente.

No final do século 17, o missionário jesuíta Samuel Fritz disse que encontrou somente poucas aldeias aisuaris onde antes havia dezenas. Como muitos povos da região, eles teriam sofrido um enorme declínio populacional após o contato com os colonizadores.

Povos amazônicos

Cultura santarém

As margens do Amazonas no extremo norte brasileiro, onde fica a atual cidade de Santarém (PA), foram o lar de uma civilização pré-colombiana cuja arte era tão valorizada que suas peças chegaram até o Caribe pelas redes de intercâmbio da região.

A cultura Santarém, como é chamada pelos pesquisadores, viveu seu apogeu entre os anos 1200 e 1400.

Seu centro era uma grande cidade de pelo menos 400 hectares com seções semelhantes a bairros, fileiras de casas ordenadas e construídas sobre montículos, na região onde fica a atual cidade de Santarém, no Pará.

Ali foram encontrados exemplares de um tipo de cerâmica e de adornos únicos nas Américas: entre eles, vasos e urnas, esculturas antropomórficas (especialmente de mulheres), pontas de lança e “muiraquitãs” — amuletos em forma de rã ou de outros animais, esculpidos em amazonita, usados como colares e que se espalharam por muitas regiões da Amazônia.

Foto de muiraquitã de amazonita encontrada no sítio arqueológico de Santarém

As muiraquitãs aparecem em muitas lendas amazônicas, e Santarém parece ter sido seu centro de produção. Imagem: Departamento de Arqueologia do Museu Nacional/UFRJ

A cultura Santarém também tinha um “culto de cremação”.

“Eles mumificavam os corpos, os guardavam, vestiam e saíam com eles na rua. Eles eram considerados seres vivos, como no caso dos incas. Mas as múmias se deterioravam. Por isso, a cremação era provavelmente a etapa final. As cinzas eram colocadas em vasilhas especiais e possivelmente diluídas em um tipo de chá, que as pessoas bebiam”, explica à BBC Brasil Anna Roosevelt, da Universidade de Illinois em Chicago (EUA), que escavou sítios em Santarém.

“É um ritual comum na Amazônia e significa reverência. Você está bebendo a alma, o poder e o status da pessoa.”

Essas cinzas, junto aos restos orgânicos das festas fúnebres, tiveram também um papel vital na fertilidade do solo amazônico. Juntos, eles produziam uma “terra preta”, que os indígenas transportavam para locais de cultivo.

“Basicamente era lixo orgânico que se transformava em adubo. Eles não o produziam especificamente para isso, mas era uma forma de usar esses resíduos, que deviam ser abundantes porque as populações eram grandes”, afirma Roosevelt.
Mapa situando a cidade de Santarém, no atual Estado do Pará

A terra preta é hoje uma das principais pistas encontradas em sítios arqueológicos que indica que, ao contrário do que se pensava, a Amazônia era bastante povoada.

Os primeiros europeus a chegar na região de Santarém, em 1542, foram padres que tiveram contato com o povo tapajó, que foi extinto tempos depois do encontro com os colonizadores.

Apesar de não haver, segundo Roosevelt, evidência arqueológica definitiva de que os tapajós eram parte da cultura Santarém, ela acredita que eles possam ter sido seus descendentes.

A continuidade das culturas dos povos amazônicos é impressionante. A maioria delas continua viva até hoje, apesar da colonização e da perda de território. Há povos que mantêm os mesmos símbolos, cerimônias e arte dos que viviam na região há milhares de anos”, afirma.

Mapuches

No início dos anos 1540, quando os espanhóis chegaram ao centro-sul do que hoje são Chile e Argentina, perto da Patagônia, encontraram uma organização social tão bem estruturada que nunca conseguiram dominá-la.

Tanto é assim que os mapuches resistiram com sucesso à conquista mais do que qualquer outro povo da América.

Mapa mostrando a extensão aproximada do território mapuche no período pré-colombiano

Os nativos daquela região foram os únicos com quem a Espanha teve que assinar um acordo de paz, garantindo que respeitaria os limites de seu território. Antes disso, os mapuches já tinham enfrentado os incas numa guerra sangrenta e perderam parte de suas terras no norte do Chile, mas impediram o avanço do império. Tudo isso sem um governo central.


“Os espanhóis estimaram o número de mapuches com base nas batalhas que tiveram com eles. Hoje sabemos que houve exageros, mas calculamos que havia provavelmente entre 1,2 e 1,3 milhão de pessoas no território deles na época”, disse à BBC News Brasil Tom Dillehay, da Universidade Vanderbilt, nos EUA e da Universidade Austral do Chile.

Gravura que mostra os mapuches em batalha contra soldados incas

Os incas conquistaram uma parte do território mapuche, mas não conseguiram avançar mais ao sul. Imagem: Felipe Guaman Poma de Ayala/Wikimedia Commons

Os povos mapuches eram comunidades confederadas, semelhantes a muitos dos nativos da América do Norte, unidos ideologicamente, culturalmente e para fins militares.

Mas há aspectos únicos da organização mapuche que, segundo Dillehay, foram essenciais para que eles pudessem resistir aos espanhóis por tanto tempo.

“Eles se organizavam em uma estrutura de parentesco que eu chamo de ‘telescópica’. Os grupos familiares relacionados a um antepassado masculino comum formavam um lof e esses lofs se uniam, em tempos de guerra, em outros grupos sob o comando de chefes militares chamados toquis. Regiões diferentes mandavam seus toquis a cerimônias públicas para que eles entrassem em acordo sobre estratégias para enfrentar os invasores”, explica.

Gravura do século 19 mostrando mulheres mapuches cozinhando em aldeia na Argentina

Durante os séculos de resistência à conquista, os mapuches expandiram seu território até o atual Uruguai. A gravura mostra mulheres em uma aldeia na Argentina no século 19. Imagem: Getty

Em épocas de conflito, as aldeias mapuches se especializavam de acordo com as necessidades do povo: algumas se responsabilizavam pela comida, outros por receber famílias desalojadas, outros por fornecer guerreiros, etc.

“Outra vantagem que eles tinham era a utilização de táticas de guerrilha. Atacavam em grupos pequenos e em áreas planejadas, de onde podiam sair rapidamente. A guerra móvel era seu ponto forte”, diz o arqueólogo.

A resistência dos mapuche teve sucesso até o século 19, quando os militares chilenos conseguiram conquistar seu território e submetê-los às autoridades do país. Hoje em dia, descendentes desse povo continuam mobilizados politicamente, especialmente no Chile.

_________________________________________________A história de Halston, o designer que revolucionou a moda americana

Expoente da era Disco e um dos primeiros estilistas-celebridade de legado inegável vira série da Netflix

14.05.2021 / Moda / por 
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De criador da moda americana à inspiração de Tom Ford, os títulos atribuídos a Roy Halston Frowick são muitos. Fato é que o designer mudou os rumos da moda enquanto modelo de negócio. E acaba de virar tema de uma nova série da Netflix.

Como qualquer produção cinematográfica baseada em fatos reais, algumas coisas são aumentadas e outras sequer aparecem – a família de Halston tem feito reclamações sobre a retratação do designer na produção. Por isso, hoje dissecamos a história e legado de Halston. 

Halston | Imagem: Reprodução
Halston | Imagem: Reprodução

O designer, que frequentemente é esquecido e teve sua história quase sufocada em meio a algumas polêmicas e escândalos, é, na verdade, uma das figuras mais importantes para a compreensão da moda norte-americana como a entendemos hoje e da era disco nova-iorquina dos anos 70 e 80. Nascido em Iowa, em 1932, Halston começou uma tímida trajetória na moda desenhando chapéus para as mulheres da sua família. Alguns anos depois, essa seria também sua porta de entrada para o seu estrelismo na moda. 

Aos 20 anos, Halston iniciou seu negócio de chapéus, ainda em Chicago, mas só posteriormente, em 1957, quando se mudou para New York, a marca começaria a se chamar “Halston” e o designer também se tornaria responsável pela chapelaria da Bergdorf Goodman’s. Mas o designer só realmente ganhou os holofotes em 1961, quando, na posse do marido, Jackie Kennedy apareceu usando um de seus chapéus, o modelo “pill box” e não demorou muito para que o nome de Halston se tornasse um dos mais quentes do momento. 

JFK e Jackie com a Pillbox

JFK e Jackie com a Pillbox

O AUGE

O fim da moda dos chapéus no final da década de 60 não abalou Halston, que lançava sua linha de outerwear que marcaria a geração do disco, com o uso do chiffon, silhuetas mais sensuais, vestidos fluídos que favoreciam a dança e, claro: um time de musas inspiradoras que amavam seus designs incluía Liza Minelli e Elsa Peretti – também amigas pessoais do designer. O casual chic e glamour da era disco, tão marcados pelo boate Studio 54 são pontos importantes da trajetória de Halston  que fizeram com que a moda estadunidense finalmente conseguisse competir com os designs parisienses.  

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Dentre suas criações mais marcantes estão o vestido-camisa de carmuça, que se tornou go-to do guarda roupa das americanas em 1970, os cafetãs, as hot pants e, é claro, o uso do chiffon. 

Em 1973, em uma das cenas emblemáticas retratadas na série, acontece a “Batalha de Versalhes”, momento histórico da moda, em que Halston foi uma das figuras principais. Em um evento organizado por uma das criadoras da NYFW, designers americanos e franceses “batalharam” suas criações, apresentando-as no Palácio de Versalhes. Segundo relatos da própria Liza Minelli, a plateia ficou fascinada com as criações de Halston. 

Halston e Liza Minelli

Halston e Liza Minelli

Halston foi o primeiro estilista-celebridade que temos memória. Entre amizades com o crème-de-la-crème nova-iorquino, presença nos hot spots mais interessantes da cidade e participação em diversos programas de TV –  entre os anos 60 e 90, a TV americana estava abarrotada da talk shows – não só suas criações como o próprio designer tinha todos os holofotes. 

As vendas acompanharam esse movimento, a marca de Halston era um sucesso absoluto e em pouco tempo ele passaria a produzir roupas masculinas, perfumes, óculos, luvas, malas, lingerie, roupa de cama e até uniforme para a equipe norte-americana nas Olimpíadas. 

Com tamanho sucesso e visibilidade, no princípio dos anos 80, ele surpreendeu mais uma vez: criou uma coleção de baixo custo com a JCPenny, loja de departamento da época. O que hoje é bastante comum, na época era uma novidade e a Bergdorf Goodman’s, onde ele havia trabalhado e ainda vendia seus produtos, retaliou, retirando tudo de Halston das araras. 

Talvez um dos grandes diferenciais de Halston: ele não tinha medo de ser comercial, na verdade, ele desejava isso, como dito pelo próprio, ambicioso: “Eu quero vestir todas as mulheres dos Estados Unidos”, ele amava a fama, a celebridade e ver todas as pessoas usando suas criações. Por outro lado, esse também pode ter sido um dos fatores que levaram à sua derrocada precoce. 

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Halston e suas halstonettes, como eram chamadas as modelos de seu casting.

A DERROCADA

Um pouco antes, Halston havia vendido a sua marca para a Norton Simon, por R$16 milhões de dólares – se hoje essa quantia pode parecer pouco para o sucesso do designer, imagine isso no final da década de 70. – sob a promessa que continuaria com total controle criativo das criações. Mas foi aí que os problemas começaram. Em 1983 a Norton Simon seria adquirida por outra empresa, a Esmark, que não honrou o contrato com Halston e o designer foi afastado da própria marca em 1984 após – supostamente – diversos atritos, brigas e diferenças inconciliáveis com os executivos. 

Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução

Além disso, Halston, que aproveitava sua vida de extremo luxo, também tinha gastos exorbitantes em nome da empresa, de flores à viagens em jatinhos privativos. 

Proibido de criar para sua própria marca, que continuava a usar seu nome e sem sua vida de luxos, Halston começou a se afundar no uso da cocaína – um hábito que mantinha desde o seu auge. Alguns anos depois, em 1988, Halston descobriu que havia contraído AIDS e voltou para São Francisco, para passar esses anos recluso, perto de sua família. O designer tristemente faleceu em 1990, aos 57 anos. 

O legado de Halston é, inegavelmente, marcante. O designer moldou a estética de uma década marcante e foi pioneiro em sua série de iniciativas e investidas que hoje são comuns, de parcerias com lojas de departamento, licenciamentos a aquisições por grandes empresas. No entanto, com esse pioneirismo, também seria um dos primeiros a sofrer os golpes baixos da indústria, mais uma lição e legado que deixou para as novas gerações de estilistas.

_________________________________________________12 coisas para saber sobre Halston » STEAL THE LOOK _____ mas, e ENDORA.?

Tema da nova minissérie do Netflix que estreia hoje, Roy Halston Frowick, conhecido apenas como Halston, foi um dos mais influentes estilistas da história e seu impacto continua décadas após seu falecimento precoce em 1990. Estrelada por Ewan McGregor e produzida por Ryan Murphy, o roteiro da produção é baseado no livro "Simply Halston" de Steven Gaines e ao curso de 5 episódios, reconta a trajetória fascinante e trágica do estilista, nascido em Iowa, que conquistou a América via Nova Iorque.

Fenômeno entre os anos 60 e 80, seus looks esvoaçantes, com contornos definidos eram os favoritos das celebridades para ferver na pista do Studio 54, a música disco era a trilha sonora perfeita para seu glamour nonchalante. Porém, vivendo na máxima do "live fast, die young", o designer teve uma carreira tão espetacular, quanto frenética com picos altíssimos e queda igualmente épica. No seu auge, foi o designer americano mais famoso do mundo, suas criações icônicas foram prenúncio da estética minimalista, sexy e prática que virou sinônimo da moda made in USA. Os excessos ausentes em seus designs, ficavam aparentes no estilo de vida, digno de rockstar, tanto pela fama conquistada, quanto pelos hábitos cultivados. Abaixo, listamos 10 coisas que você precisa saber sobre o incomparável Halston

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Foto: Halston (Reprodução)

_começou a carreira como milliner ou chapeleiro

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Foto: Jackie Kennedy (Reprodução)

Assim como Coco Chanel e Jeanne Lanvin,  teve seu start confeccionando chapéus para alta sociedade, antes de se aventurar no métier de roupas. Em 1961, foi responsável por desenhar o modelo usado por Jackie Kennedy, na posse de JFK como presidente dos E.U.A. O modelo pillbox, foi inventado nos anos 30, porém ganhou notoriedade depois da primeira dama elegê-lo para a data.

_o início

Habitante de Chicago, onde morava quando a fama bateu à sua porta, mudou-se para Manhattan aos 26 anos, com intuito de expandir sua visão criativa para outros horizontes. 

Em 1966 decidiu evoluir para roupas, primeiramente assinando coleções para Bergdorf Goodman, até que em 1968, lançou sua marca própria, dando início ao novo e decisivo capítulo de sua história.

Halston - Halston - netflix - outono - street style - https://stealthelook.com.br
Foto: Halston (Reprodução)

_design

Funcionalidade e glamour eram fatores inegociáveis e que conviviam muito bem em seus designs. Um dos hits iniciais, o vestido ultra suede, tinha shape inspirado em camisa masculina e se destacou pelo material pioneiro uma espécie de camurça sintética, que garantia o efeito do tecido, mas podia ser lavado na máquina, fácil e versátil, capturando perfeitamente as necessidades do guarda roupa da mulher moderna pós revolução sexual que entrava com tudo no mercado de trabalho, inaugurando o conceito de casual chique.

Desfile Halston - Halston - netflix - outono - street style - https://stealthelook.com.br

Foto: Desfile Halston (Reprodução)

_os looks

A primeira coleção de roupas, ficou conhecida pelo seu estilo minimalista e pela ausência de zíperes. Suas peças, atemporais e sofisticadas, se mantêm modernas até hoje. A simplicidade aliada aos designs impecáveis e fluídos, faziam parte de sua preocupação de vestir mulheres sem restringi-las, oferecendo opções para qualquer hora do dia, sem abrir mão da elegância e nem da comodidade. Durante as provas de roupas, perguntava às modelos se elas conseguiam se sentar e caminhar de forma confortável, caso a resposta fosse negativa, a peça era repensada. 

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Foto: Campanha Halston (Reprodução)

_marca registrada

Entre suas marcas registradas, vestidos frente única, assimetria, com destaque para ombro só e corte em viés que remetiam à nomes célebres da história da moda como Madame Grès e Vionnet, porém com twist perfeito para o clima dancing days através de metalizados, detalhes estratégicos e paetês. Um sex appeal permeado de elegância com decotes assimétricos, recortes estratégicos e silhueta clean.

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Foto: Halston (Reprodução)

_legado

O legado de Halston, influenciou nomes como Tom Ford e Donna Karan, e foi um dos primeiros a inserir o estilo athleisure e investir na moda hi-lo, mesclando bem toques de alta-costura através do glamour potente, mas o tornando acessível com roupas para vida real.  Utilizava materiais como cashmere para confeccionar vestidos longos, adorava macacão para ocasiões noturnas, kaftans e experimentava com tecidos como jersey de efeito matte, sempre buscando aprimorar sua visão da mulher moderna e antecipar seus desejos.

Pat Ast - Halston - netflix - outono - street style - https://stealthelook.com.br

Foto: Pat Ast (Reprodução)

_casting

Diversidade e um pensamento progressista surgiam de forma natural em suas escolhas de casting, as Halsonettes, apelido dado às suas modelos favoritas, eram um grupo variado de raças, tipos físicos e belezas. Pat Cleveland e Beverly Johnson, duas das primeiras top models negras, Anjelica Huston, famosa por seus traços singulares e Pat Ast, plus sizesuperstar de Andy Warhol e também uma das musas de Halston. Antes de lançar uma linha masculina, lançou coleções agênero.

Farrah Fawcett  - Halston - netflix - outono - street style - https://stealthelook.com.br

Foto: Farrah Fawcett (Reprodução)

_queridinho das celebs

Adorado por celebridades, de quem era amigo, sua loja, que ocupava um prédio inteiro nos anos 70,  funcionava como QG de encontros de nomes como Liza Minelli, sua bff, Elizabeth Taylor, Bianca Jagger e Cher. Os looks criados por Halston eram favoritos das estrelas de Hollywood e ele assinou alguns dos vestidos mais icônicos usados na cerimônia do Oscar, como o dourado de Farrah Fawcett e o arco-íris pastel de Candice Bergen.

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Foto: Halston (Reprodução)

_produtividade

Multifacetado, Halston era pop, além dos vestidos perfeitos para blacktie, desenhou uniforme da polícia de Nova Iorque, de escoteiros e também para a delegação americana nas Olimpíadas de 76. Seu nível de produtividade o levaram a criar 10 coleções por ano, ritmo insano, ainda mais naquele período. Essa sede por sucesso fez com que em 1973 vendesse sua marca, acreditando que seguiria no comando, fato que se confirmou por uma década até perder o controle da empresa. Passou o resto da vida tentando comprá-la de volta, infelizmente sem êxito.

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Foto: Halston (Reprodução)

_vanguardismo

Seu sonho era "vestir todas as pessoas da América" e essa ambição foi responsável por catapultá-lo à níveis extraordinários. O licenciamento na primeira metade dos anos 70 foi bem-sucedido e permitiu que a marca Halston se expandisse além de roupas e chapéus para acessórios e cosméticos, seu primeiro perfume, lançado em 1975, vendeu 85 milhões de dólares em dois anos, com frasco desenhado por Elsa Peretti, virou símbolo de status. 

Visionário, assinou um contrato com a gigante JC Penney para vender produtos assinados por ele com preços acessíveis. Muito avançado para a época, seus clientes de luxo não gostaram da popularização e ele acabou perdendo contratos com as grandes lojas de departamento. Se a experiência não teve final feliz para Halston, a atitude abriu o caminho para as inúmeras colaborações de fast fashion e grandes marcas que viriam anos depois, comprovando seu vanguardismo e visão.

Bianca Jagger - Halston - netflix - outono - street style - https://stealthelook.com.br

Foto: Bianca Jagger (Reprodução)

_sabia viralizar muito antes do termo existir

Autopromoção era talento nato. Sua capacidade de criar momentos perfeitos para gerar publicidade é lendária, foi ele o responsável pela inesquecível entrada de Bianca Jagger, em cima de um cavalo branco, em sua festa de aniversário de 30 anos em pleno Studio 54. Além disso, andava sempre acompanhado de entourage de amigas famosas e de suas Halsonettes, muitas vezes usando looks idênticos, ou variando cartela de cores, o que garantia um impacto visual irresistível e gerava ainda mais furor em torno da marca.

Battle of Versailles - Halston - netflix -      -      - https://stealthelook.com.br

Foto: Battle of Versailles (Reprodução)

_battle of versailles

Participou do desfile mais icônico da história, apelidado de "Battle of Versailles", ocorrido no monumental palácio de Versalhes, na França, em 1973. O evento reuniu cinco estilistas americanos, Halston, Oscar De La Renta, Bill Blass, Stephen Burrows e Anne Klein e cinco estilistas franceses: Hubert de Givenchy, Pierre Cardin, Yves Saint Laurent, Marc Bohan e Emanuel Ungaro. De proporções épicas, o acontecimento visava angariar fundos para a restauração do palácio e conseguiu a proeza de juntar 10 dos maiores estilistas de todos os tempos em uma ocasião.

_________________________________________________Quem é Halston? Conheça a chocante história real do estilistaIcônico designer de moda é interpretado por Ewan McGregor na produção de Ryan Murphy

PUBLICADO EM 5/15/2021 POR ALEXANDRE GUGLIELMELLI

Desde o lançamento de sua primeira série original, em 2013, a Netflix vem investindo bilhões de dólares na produção de conteúdo. A plataforma lançou algumas das suas séries mais bem sucedidas em 2020, e neste ano, a tendência não deve ser diferente – com o lançamento da aguardada Halston.

Já disponível na Netflix, a nova série de Ryan Murphy já está causando polêmica! A produção protagonizada por Ewan McGregor acompanha a ascensão e queda do famoso estilista, conhecido por escândalos e uma inegável contribuição ao estilo dos anos 70.

A produção foi acusada pela família do designer de moda de ser “imprecisa” e “sensacionalista” – o que só fez uma quantidade ainda maior de pessoas ficarem curiosas pela trama.

O site Editorialist revelou alguns dos aspectos mais importantes da história real de Halston; confira abaixo!

Quem foi Halston?

Halston, o designer de moda que tinha o sonho de “vestir o mundo todo”, foi eternizado como “o homem que redefiniu a moda dos Estados Unidos”. Antes de ser conhecido pela famosa alcunha, o estilista era Roy Halston Frowick – nascido em 23 de abril de 1932, filho de uma dona de casa e um contador.

O talentoso Halston desenvolveu um grande interesse por costura (graças à inspiração de sua avó) ainda na infância, quando costumava criar chapéus e consertar vestidos de membros da família.

O início da carreira de Halston

Em 1957, após fazer sucesso em Chicago, Halston mudou sua base de operações para Nova York e passou a trabalhar para a famosa modista Lilly Daché. 

Nessa época formativa, o estilista conheceu o “pessoal da moda” da cidade, convivendo com modelos, designers e editores da Vogue.

Devido ao seu carisma e contatos, Halston conseguiu galgar a escala social e foi contratado pela grife Bergdorf Goodman no posto de modista principal.

O estilista permaneceu no emprego por quase uma década, e pôde entender os gostos e desejos das mulheres ricas dos Estados Unidos – estabelecendo um estilo artístico único que chegou até mesmo ao guarda-roupas de Jackie Kennedy.

Fama em Nova York

Com a ascensão de sua grife e estilo, Halston passou a frequentar as “altas rodas” de Hollywood, produzindo vestidos para as mulheres mais ricas do país e festejando com artistas, astros do cinema e jornalistas de moda.

Em 1968, o designer inaugurou uma nova era de seu negócio, ao abrir sua primeira boutique na Madison Avenue. Halston também foi essencial para a substituição do estilo sério dos anos 50 por vestidos leves, que permitiam um maior movimento e se adequavam às curvas de suas clientes.

A mistura de opulência e praticidade atraiu a atenção de estrelas como Liza Minnelli, Elizabeth Taylor e Lauren Bacall. Com a aprovação dessas mulheres, Halston não vendia mais roupas, e sim um estilo de vida.

O que aconteceu com Halston?

Em 1973, Halston vendeu o nome de sua grife e toda a linha de produção para o empresário Norman Simon. Em troca, o executivo prometeu garantir o financiamento da marca e a manutenção de Halston como designer-chefe.

O relacionamento comercial foi um sucesso, e Halston expandiu sua marca com a inclusão de perfumes, moda masculina e produtos de decoração.

O estilista chegou até mesmo a criar os uniformes da delegação dos Estados Unidos para as Olimpíadas de 1976.

No entanto, a ganância tem um preço – preço este que nem mesmo o poderosos Halston foi capaz de pagar.

Em 1983, o estilista fechou um negócio com a empresa JCPenney (conhecida por roupas mais acessíveis). Em uma parceria de 5 anos, o estilista iria criar modelos exclusivos para serem vendidos em larga escala.

Porém, a maior quantidade de roupas produzidas acabou afetando a perfeição que cercava os projetos de Halston. Muitos especialistas consideraram que a parceria com a empresa de “fast fashion” desvalorizou a marca do designer.

Na mesma época, a Halston Limited foi adquirida pela empresa Eshmark Inc, e os novos diretores não aprovaram a maneira que o designer conduzia seus negócios.

Uma combinação do vício em drogas e frustração pela direção de sua marca fez Halston perder o controle. O estilista foi removido da empresa por se recusar a criar novas peças, e depois foi diagnosticado com HIV.

Roy Halston Frowick faleceu em 26 de março de 1990, aos 57 anos.

O legado de Halston

A marca Halston ainda existe! Após a morte do estilista, a companhia mudou de nomes várias vezes, e tentou em diversas oportunidades reviver a linha original criada pelo designer, além de criar empresas subsidiárias como a Halston Heritage – que consiste na realização de updates modernos em obras arquivadas.

Hoje em dia, Halston é uma propriedade da empresa XCEL Brands, e continua a produzir várias linhas de roupas voltadas para o público feminimo, mantendo a estética do designer viva e popular.

Halston já está disponível na Netflix. Veja o trailer abaixo!

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