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Como o 11 de Setembro mudou os rumos do século 21 - BBC News Brasil

Poucos acontecimentos ganham lugar na história com o nome de sua data. Sem necessidade de dizer o que ocorreu naquele dia, o marco no calendário sugere uma nova realidade — por isso, muitos acontecimentos conhecidos dessa forma são marcos nacionais, como "o 4 de Julho" (independência dos EUA), "o 14 de Julho" (queda da Bastilha na França) ou, no Brasil, "o 7 de Setembro".
No século 21, um acontecimento é universalmente conhecido por sua data: o 11 de Setembro.
O nome refere-se ao dia 11 de setembro de 2001, quando os Estados Unidos sofreram o maior ataque a seu território desde o bombardeio japonês à base de Pearl Harbor (no Havaí, em 1941).
Na manhã daquela terça-feira de setembro, no primeiro ano do século 21, quatro aviões comerciais americanos foram sequestrados na costa leste do país.
Dois deles foram lançados contra as torres gêmeas do World Trade Center (WTC), na ilha de Manhattan, em Nova York, um chocou-se com o Pentágono (sede do Departamento de Defesa dos EUA, em Washington D.C.), e outro caiu numa área desabitada no Estado da Pensilvânia.
Ao todo, 2.977 pessoas foram mortas nos ataques, além dos 19 sequestradores dos aviões.
O 11 de Setembro é considerado o ataque com o maior número de mortos da história. Além disso, foi uma tragédia que mudou, em vários aspectos, os rumos do mundo.
A equipe da BBC News Brasil lê para você algumas de suas melhores reportagens
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Fim do Podcast
Os atentados começaram às 08h46, horário local, quando o primeiro avião — um Boeing 767 fazendo o voo 11, de Boston em direção a Los Angeles — atingiu a torre Norte do World Trade Center.
O complexo empresarial era então composto por sete construções, incluindo duas torres de 417 e 415 metros, os edifícios mais altos do mundo na época de sua inauguração, em 1973.
O incidente rapidamente ocupou as transmissões ao vivo de canais de TV mundo afora, que reproduziam imagens vindas de Nova York mostrando uma densa e escura fumaça saindo das laterais da torre Norte.
Apresentadores de TV e repórteres conversavam com testemunhas e especulavam sobre que tipo de aeronave teria se chocado com um dos prédios do World Trade Center. Àquela altura, a maioria acreditava que se tratava de um acidente.
Durante a transmissão, às 09h03, 17 minutos depois do primeiro ataque, um segundo Boeing 767 — o voo 175, que também saíra de Boston com destino a Los Angeles — chocou-se contra a torre Sul, numa cena vista ao vivo por milhões de pessoas ao redor do mundo.
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Lateral do Pentágono foi atingida num dos ataques
As suspeitas de um ataque se confirmaram e o caos aumentou em Nova York com a população tentando deixar a todo custo a área do centro financeiro da ilha de Manhattan.
Às 09h37, o terceiro avião, um Boeing 757 fazendo o voo 77, de Washington a Los Angeles, atingiu uma das laterais do Pentágono.
Sobre o quarto avião, um Boeing 757 que saíra de Newark (Nova Jersey) com destino a San Francisco no voo 93 e caiu na Pensilvânia às 10h03, as investigações inicialmente sugeriam que ele provavelmente se dirigia para a Casa Branca, residência oficial do presidente americano, em Washington D.C.
Posteriores relatos fornecidos por integrantes do grupo islamista radical Al-Qaeda, no entanto, indicaram que o alvo seria o Capitólio, a sede do Congresso, também em Washington.
A aeronave chocou-se com o solo depois que passageiros lutaram com os sequestradores dentro da cabine.
Colapso
Em Nova York, a torre Sul do WTC, atingida pelo segundo avião, desabou às 09h59, causando pânico generalizado em Manhattan, onde pessoas corriam na tentativa de fugir da fumaça que tomava as ruas.
Cerca de meia hora depois, às 10h28, desabou a torre Norte, a primeira a ser atacada.
Ambas foram destruídas pelo fogo provocado pelos combustíveis das aeronaves, que estavam com seus tanques cheios, tendo sido sequestradas logo depois da decolagem.
No final da tarde, outro prédio do complexo World Trade Center, o 7 WTC, desabou, depois de sua estrutura ter sido abalada pela destruição das torres gêmeas. Envolvidos em tentativas de resgates daqueles que estavam nas torres, 345 integrantes do Corpo de Bombeiros de Nova York morreram com a queda dos edifícios.
As vítimas
Entre as vítimas, havia centenas de estrangeiros, número que nunca foi determinado com precisão, já que muitos tinham dupla nacionalidade — eram tanto americanos como cidadãos de outros países.
Em cerimônias oficiais, como a que lembrou o quinto aniversário do 11 de Setembro, em 2006, foi feita referência a "mais de 90 nacionalidades" representadas entre os 2.977 mortos.
Três deles eram brasileiros: Anne Marie Sallerin Ferreira, de 29 anos, Sandra Fajardo Smith, de 37, e Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa, de 30.
Vários brasileiros que trabalhavam nas torres gêmeas sobreviveram.
Um deles, André Kamikawa, estava no 25º andar da Torre Norte, a primeira a ser atingida.
Em entrevista à BBC News Brasil, dias após os ataques, Kamikawa falou sobre os momentos após o impacto.
"Ouvimos um estrondo e sentimos um tremor, um movimento muito forte do prédio indo para trás e depois voltando."
Pela janela, ele viu destroços caindo. Em seguida, juntamente com colegas, dirigiu-se às escadas, por onde saiu da torre.
Outro brasileiro, Larry Pinto de Faria Júnior, trabalhava no mesmo andar que Kamikawa e também deixou o edifício pelas escadas.
Em 2011, dez anos depois dos ataques, ele disse à BBC News Brasil que sentiu realmente medo depois que a Torre Sul, a primeira a ser destruída, desabou, próximo a onde ele estava.
"Caiu do meu lado. Aí começou aquela poeira, todo mundo começou a correr. Corri como um louco."
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Bombeiros de Nova York estiveram entre as vítimas dos ataques de 2001
Além dos mortos nos atentados, o 11 de Setembro faria centenas de milhares de outras vítimas.
Os esforços de ajuda e resgate em Nova York contaram com a participação de cerca de 80 mil pessoas, entre bombeiros, policiais, profissionais de saúde e outros.
Todos eles e outras milhares de pessoas presentes nas imediações foram atingidas pela fumaça tóxica gerada pelos atentados — particularmente pelo desabamento das duas torres gêmeas do WTC.
Os ataques e as horas seguintes expuseram os presentes a diversos materiais tóxicos e até mesmo cancerígenos, como chumbo e amianto.
Anos depois, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos estimou que cerca de 400 mil pessoas haviam sido feridas ou expostas a materiais tóxicos no 11 de Setembro.
Até o final de 2018, mais de 2 mil pessoas morreram de doenças associadas à exposição a materiais perigosos naquele dia, particularmente de câncer.
Até 2019, 241 integrantes do departamento de polícia de Nova York, o NYPD, haviam morrido de doenças relacionadas a seu trabalho durante o 11 de Setembro.
O número é dez vezes maior do que o total de policiais da cidade mortos naquele dia, quando 23 perderam suas vidas.
Fora dos locais atingidos pelos atentados, o restante do dia 11 de setembro de 2001 foi marcado também pelo caos no transporte aéreo americano.
Cinco minutos depois do ataque ao Pentágono, às 09h42, a FAA (Federal Aviation Administration, agência de aviação federal do país) ordenou que todos os aviões comerciais nos Estados Unidos aterrissassem imediatamente, na pista mais próxima — medida também adotada pelo Canadá. Mais de 4 mil aeronaves aterrissaram.
Os voos comerciais permaneceram suspensos no país por três dias. Os ataques também praticamente paralisaram a vida dos americanos, com monumentos, atrações turísticas e sistemas de transportes fechados, e o país em alerta máximo.
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Local onde ficavam as torres do World Trade Center ficou devastado
Quando os voos foram retomados, a preocupação com a segurança foi extrema e acabou provocando a introdução de normas extras de segurança que até então não existiam e muitas estão mantidas até hoje, em aeroportos do mundo todo. Entre elas, estão a proibição de entrada com líquidos na bagagem de mão — podem conter algum tipo de explosivo — e a necessidade de passageiros separarem objetos pessoais, como cintos e sapatos, na passagem por equipamentos de raio-X no aeroporto, antes do embarque.
Investigações
As investigações sobre os atentados começaram imediatamente. Uma mala pertencente ao egípcio Mohamed Atta que havia ficado no aeroporto de Boston continha dados do egípcio e de seus companheiros e serviu de ponto de partida na identificação dos autores.
O FBI (Federal Bureau of Investigation, a Polícia Federal americana) rapidamente apontou 19 sequestradores, que estavam distribuídos em grupos de cinco em cada avião, com exceção do voo 93, tomado por quatro militantes.
Atta, identificado como o líder operacional dos atentados, pilotou o primeiro Boeing a atingir o World Trade Center.
Dos outros 18 sequestradores, 15 eram sauditas, dois eram dos Emirados Árabes Unidos, e um do Líbano.
As informações sobre os envolvidos obtidas pela polícia americana mostraram também quem, além dos 19 sequestradores, era o grande responsável pelos ataques.
As autoridades apontaram como idealizador da operação o saudita Osama bin Laden, líder do grupo islamista Al-Qaeda.
Na época baseado no Afeganistão, sob a proteção do então regime do Talebã, Bin Laden já era o mais perigoso e conhecido militante islamista do mundo.
Ele estava na lista dos dez fugitivos mais procurados pelo FBI como responsável pelos atentados a bomba contra as embaixadas americanas em Nairóbi (Quênia) e Dar es Salaam (Tanzânia), em 1998, que deixaram mais de 200 mortos.
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O saudita Osama bin Laden foi apontado como principai suspeito de ordenar os ataques
Antes mesmo dos atentados de 1998 na África, Bin Laden já havia publicamente defendido ataques contra alvos americanos. Em duas fatwas — mensagem proferida por alguma liderança religiosa pedindo que os muçulmanos sigam seu conteúdo —, o saudita havia conclamado fiéis a participar de seu movimento contra a maior potência mundial.
Em reportagem em 23 de agosto de 2016, a revista The Atlantic lembrou que, exatamente 20 anos antes, Bin Laden havia publicado sua primeira fatwa e que a data mostrava que a guerra entre Al-Qaeda e os Estados Unidos já durava duas décadas.
A fatwa, disse a revista, foi produzida meses depois de o saudita se instalar no Afeganistão, após a capital do país ter sido tomada pelo movimento islamista Talebã.
"Foi a primeira convocação pública de Bin Laden por uma 'jihad' global contra os Estados Unidos", escreveu a The Atlantic.
Como lembrou a revista, no documento de 30 páginas, intitulado Declaração de Guerra Contra os Americanos Ocupando a Terra dos Dois Lugares Sagrados, Bin Laden escreveu: "O povo do Islã sofreu com a agressão, a iniquidade e a injustiça impostas sobre eles pela aliança judaico-cristã e seus colaboradores".
O principal motivo apresentado por Bin Laden para sua revolta era a presença de tropas americanas na Arábia Saudita, onde estão as cidades de Meca e Medina, sagradas para os muçulmanos.
Tal presença começou em 1990, quando os sauditas permitiram a entrada dos americanos para lançar a guerra que expulsou as forças iraquianas de Saddam Hussein do Kuwait, e continuava em 1996.
Dois anos depois, em fevereiro de 1998, Osama bin Laden publicou uma nova fatwa, desta vez assinada em conjunto com outros quatro líderes associados à Al-Qaeda — entre eles Ayman al-Zawahiri, o egípcio que no futuro substituiria Bin Laden no comando da organização.
O documento, Declaração da Frente Mundial Islâmica por uma Jihad contra os Judeus e os Cruzados, reforçou o chamado por uma guerra global contra os Estados Unidos e seus aliados, visando alvos tanto militares como civis.
Ambos documentos foram publicados pelo jornal Al-Quds Al-Arabi, baseado em Londres, e enviados por fax para muçulmanos ao redor do mundo.
Os atentados de setembro de 2001 foram uma continuação da guerra conclamada por Bin Laden e a Al-Qaeda nos anos 1990, iniciada com os atentados no Quênia e na Tanzânia.
Foram também uma forma de atingir os Estados Unidos diretamente e em alvos estratégicos, tanto no campo econômico como político.
As torres gêmeas do World Trade Center simbolizavam a força do capitalismo americano, enquanto o Pentágono e o Capitólio representam, respectivamente, o poder militar e o poder político da maior potência do planeta.
Ao comentar os ataques de 11 de setembro, em sua Carta para a América, de novembro de 2002, Osama bin Laden voltou a acusar "as agressões cometidas contra muçulmanos em diversos países pela cruzada da aliança sionista e de seus colaboradores".
O líder da Al-Qaeda incluía ainda as "atrocidades cometidas pela Rússia na Chechênia, a presença de tropas americanas na Arábia Saudita e o apoio dado pelos Estados Unidos a Israel" entre os motivos que o levaram a executar os atendados.
Impacto imediato
Nos dias que se seguiram aos ataques, por todo o mundo ficou a sensação de que o 11 de Setembro era um acontecimento com potencial de mudar o mundo.
Algumas mudanças foram práticas e quase imediatas. Outras, ainda imprevisíveis, apontavam para uma grande mudança no papel dos Estados Unidos como grande potência — uns dizendo que seu poder iria aumentar, outros acreditando que poderia diminuir.
A popularidade do presidente George W. Bush aumentou depois dos atentados
Politicamente, o então presidente americano, o republicano George W. Bush, viu seu índice de aprovação interna atingir 90%, com praticamente todo o país oferecendo seu apoio a futuras medidas de reação aos atentados.
Com isso, Bush conseguiu reunir com facilidade apoio político para as duas guerras que marcariam o seu governo: as invasões e ocupações do Afeganistão, ainda em 2001, e do Iraque, dois anos mais tarde.
O trauma sofrido pelos Estados Unidos no 11 de Setembro permitiu que esse apoio viesse inclusive dos políticos da oposição, representada pelo Partido Democrata.
As consequências na vida prática dos americanos envolveram especialmente o cuidado com a segurança e o impacto na privacidade do cidadão.
Pouco mais de um mês depois dos atentados, em 26 de outubro de 2001, o presidente Bush assinou o Patriot Act (Lei Patriótica), que facilitou operações de vigilância das autoridades, permitindo o monitoramento de comunicações via telefone e internet.
A nova lei também facilitou a troca de informações entre órgãos de segurança como o FBI e a CIA, após a identificação de falhas de comunicação que permitiram que os sequestradores concluíssem a realização dos atentados.
Outra significativa medida interna foi a criação, em novembro de 2002, do Department of Homeland Security (Departamento de Segurança Interna).
O novo departamento passou a reunir vários órgãos de áreas diversas, como segurança, transporte, agricultura e justiça.
Reações internacionais
A comunidade internacional também ofereceu apoio imediato ao governo americano.
Um dia depois dos ataques, em 12 de setembro, o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou por unanimidade a resolução 1368.
Ela condenou os atentados do dia anterior, reafirmou o compromisso da comunidade internacional de combate ao terrorismo e confirmou o direito de defesa contra ataques dessa natureza, com base na lei internacional.
Para o restante do mundo, o mais importante acontecimento resultante do 11 de Setembro foi a invasão do Afeganistão, por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos.
O conflito foi a ação mais visível do que o governo americano passou a chamar de "Guerra ao Terrorismo" — um estado de guerra contra grupos ou indivíduos, principalmente organizações islâmicas extremistas, por trás de ataques contra a população civil.
O misterioso Mulá Omar comandava o Talebã em 2001
O Afeganistão era governado pelo movimento islamista sunita Talebã, que havia tomado o poder na capital Cabul em 1996, e servia de base para Osama bin Laden e a Al-Qaeda.
Apesar disso, o Talebã, liderado pelo misterioso Mulá Omar, condenou oficialmente os atentados contra os Estados Unidos, numa declaração oficial divulgada em 12 de setembro de 2001.
O governo americano afirmava ter reunido evidências de que os atentados haviam sido planejados por Osama bin Laden e a Al-Qaeda.
Em 17 de setembro, George W. Bush disse em entrevista coletiva buscar a captura de Bin Laden. "Eu quero justiça. Existe um velho cartaz, no Oeste, que diz: 'Procurado — Vivo ou Morto'".
O presidente dos Estados Unidos então exigiu que o governo do Talebã entregasse Osama bin Laden e os integrantes da Al-Qaeda no Afeganistão às autoridades americanas, fechasse todas as bases de treinamento do grupo e desse aos Estados Unidos acesso a esses campos para verificar que estavam mesmo inativos.
O Talebã alegou precisar cumprir leis locais e costumes da cultura pashto de hospitalidade, que proibiam a expulsão do país de um convidado das lideranças locais.
Assim, recusou-se a cumprir as exigências americanas. Essa posição levou à operação militar internacional iniciada em 7 de outubro de 2001 — e batizada pelos Estados Unidos de "Operação Liberdade Duradoura".
A coalizão, liderada pelos americanos, contou desde o início com a participação do Reino Unido e acabou reunindo mais de 20 países em combates no Afeganistão.
A maioria dos países era integrante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a aliança ocidental que esteve diretamente envolvida na operação.
Também participou da guerra contra o Talebã a Aliança do Norte, um grupo afegão que já combatia o regime islâmico antes do 11 de Setembro, ainda como parte da longa guerra civil afegã, a partir do norte do país.
A guerra, além de servir de retaliação contra os atentados e tentativa de prender Bin Laden e outros líderes da Al-Qaeda, foi popular no Ocidente por buscar o fim do regime do Talebã.
Conhecido por seu radicalismo islâmico sunita, adotando uma versão extremista do Alcorão, o regime ficou famoso por proibir meninas de ir à escola e forçar mulheres a cobrirem todo o corpo, cabeça e o rosto.
A intolerância histórica e religiosa do Talebã — que em 2001 destruiu duas enormes estátuas de Buda do século 6 na província de Bamyan, no Afeganistão — também prejudicou a imagem internacional do grupo.
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Os EUA e seus aliados invadiram o Afeganistão em outubro de 2001
A derrubada do regime do Talebã em Cabul foi rápida. Em novembro de 2001, forças da Aliança do Norte e dos Estados Unidos tomaram a capital do Afeganistão.
Os líderes do Talebã fugiram para a região da cidade de Kandahar, no sul do Afeganistão, ou cruzaram a fronteira com o Paquistão.
O objetivo simbólico mais importante da operação, a captura de Osama bin Laden, não foi imediatamente alcançado. Os Estados Unidos tampouco conseguiram capturar o líder do Talebã, Mohammed Omar, conhecido como Mulá Omar.
Apesar da mudança de poder em Cabul, a guerra contra o Talebã no Afeganistão estendeu-se por anos e só veio a terminar ao final de agosto de 2021 com a saída dos militares americanos e tropas estrangeiras do Afeganistão. A presença dos EUA no Afeganistão pode ser marcada por diferentes fases e contabilizada por um alto custo, tanto financeiro como em vidas humanas.
Em meados de agosto, após lançar uma série de ofensivas contra forças do governo, o Talebã voltou a controlar o país.
O custo financeiro, para os Estados Unidos, seus aliados e para a região, atingiu trilhões de dólares.
Até meados de 2020, mais de 3.500 soldados de países que formaram a coalizão contra o Taliban haviam sido mortos no conflito. Os Estados Unidos haviam perdido 2.353 combatentes, e o Reino Unido, 456.
Estimativas indicam que pelo menos 40 mil civis foram mortos na guerra no Afeganistão desde 2001, e cerca de 25 mil no Paquistão — o país vizinho foi diretamente afetado pela operação militar contra o Talebã.
Segundo a ONU, entre 2009 e 2019 cerca de 3 mil civis foram mortos por ano, em média.
No final de 2020, negociações de paz envolvendo o governo afegão, o Talebã e os Estados Unidos continuavam em meio a fortes combates na província de Helmand, no sul do país. Em abril de 2020, representantes do governo do então presidente Donald Trump assinaram em Doha, no Catar, um acordo com lideranças talebãs que previa a retirada das tropas americanas.
Morte de Bin Laden
Aos poucos, os Estados Unidos e seus aliados conseguiram capturar ou matar os principais acusados de planejar e comandar os atentados do 11 do Setembro. Com a ajuda do serviço de inteligência paquistanês, os americanos prenderam no Paquistão, em 2003, o paquistanês Khalid Sheikh Mohammed, acusado de ser o arquiteto dos ataques.
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Khalid Sheikh Mohammed, acusado de ser o arquiteto dos atentados
Outros quatro acusados de ajudar os sequestradores na logística da operação — os iemenitas Walid bin Attash e Bamzi bin al-Shibh, o paquistanês Ammar al-Balushi e o saudita Mustafa al-Hawsawi — também foram presos no Paquistão, entre 2002 e 2003. Os cinco foram levados para a base americana de Guantánamo, na ilha de Cuba, onde o governo Bush montou uma prisão para acusados de terrorismo capturados ao redor do mundo.
O presídio foi motivo de grande polêmica, nos Estados Unidos e no exterior, por deixar seus detidos num limbo legal, sem o status de prisioneiros de guerra ou de criminosos comuns.
O presidente Barack Obama (2009-2016) chegou a anunciar um plano para fechar a prisão em Guantánamo, mas não encontrou um outro destino para mais de 40 prisioneiros.
No final de 2020, com o presídio ainda em operação, a previsão era de que os cinco acusados de envolvimento direto nos ataques do 11 de Setembro fossem julgados por um tribunal militar em 2021. Todos poderiam ser condenados à morte.
Osama bin Laden conseguiu frustrar as forças e os serviços de inteligência dos Estados Unidos e de seus aliados por muitos anos.
Apenas em maio de 2011, quatro meses antes do décimo aniversário do 11 de Setembro, o líder da al-Qaeda foi finalmente encontrado.
Bin Laden estava numa área de alto padrão na cidade de Abbottabad, no Paquistão, a 120 quilômetros da capital, Islamabad.
Ele se encontrava num prédio fortemente protegido, onde provavelmente havia vivido os cinco anos anteriores e que possivelmente fora construído especialmente para abrigá-lo. A casa ficava a cerca de um quilômetro de uma academia militar paquistanesa.
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O chefe da Al-Qaeda, Osama bin Laden, foi morto em 2011
Forças especiais da Marinha dos Estados Unidos, conhecidas como SEALs, realizaram uma operação militar contra a instalação, depois de partir em helicópteros saídos do Afeganistão.
O ataque ocorreu pouco depois da 1h da manhã do dia 2 de maio, e Bin Laden foi morto no local. Ele tinha 54 anos. Seu corpo foi levado pelas forças americanas para identificação e, segundo autoridades dos Estados Unidos, lançado ao mar menos de 24 horas depois de sua morte — como manda a tradição muçulmana.
A morte de Osama bin Laden foi anunciada pelo presidente Barack Obama horas depois, às 23h30 do dia 1º, pelo horário de Washington.
Após a morte do líder da al-Qaeda, continuava desconhecido o paradeiro do chefe do Talebã na época do início da guerra no Afeganistão, o Mulá Omar.
Em julho de 2015, o governo afegão informou ter descoberto que Omar havia morrido em 2013, após enfrentar problemas de saúde — segundo relatos, ele teria morrido de tuberculose. O Talebã confirmou que havia mantido a morte de Omar em segredo por dois anos.
Novo World Trade Center
A área onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center, na ilha de Manhattan, em Nova York, chamada desde o 11 de Setembro de "Ground Zero" (Marco Zero), passou por um complexo trabalho de limpeza e retirada de escombros ao longo de 2001.
Logo começaram conversas sobre como recuperar a área e que tipo de construção deveria ser erguida no local. Ficou decidido que uma única torre substituiria as antigas torres gêmeas no horizonte da cidade, e o projeto final ficou a cargo do arquiteto David Childs.
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O novo One World Trade Center substituiu as torres gêmeas na ilha de Manhattan, em Nova York
Depois do lançamento da pedra fundamental em 2004, a construção foi iniciada em 2006.
O novo prédio, chamado oficialmente de One World Trade Center, mas apelidado de "Torre da Liberdade", foi concluído em 2013, a um custo de quase US$ 4 bilhões.
Marcado por seu formato geométrico, em que as laterais são formadas por oito triângulos isósceles — quatro com suas bases no solo e outros quatro com as bases no topo —, o edifício é o mais alto dos Estados Unidos e de todo o hemisfério ocidental, com 541 metros de altura.
A torre começou a ser utilizada comercialmente em 2014, e a abertura do seu topo para visitação pública ocorreu em 2015.
Um memorial em homenagem às vítimas dos atentados e um museu também ocupam o local.
Com o novo One World Trade Center, Nova York e os Estados Unidos viraram a página de um dos mais trágicos acontecimentos de sua história, sem esquecer das milhares de vítimas e das enormes transformações causadas pelo 11 de Setembro.
Este artigo é parte da série "21 Histórias que Marcaram o Século 21", da BBC News Brasil.
Migração em alta escala divide a Europa e comove o mundo - BBC News Brasil

Foi uma imagem que não valeu apenas mil palavras. A cena, vista no mundo todo, em setembro de 2015, deixou milhões de olhos cheios de lágrimas.
A foto do corpo do menino sírio Alan Kurdi, de apenas 3 anos de idade, numa praia na Turquia, tomou as capas dos jornais, os noticiários na TV e as redes sociais. Comoveu políticos, celebridades e pessoas comuns de forma inédita. Fez Bono, cantor do U2, mudar a letra do sucesso Pride num show para falar do "menino arrastado pelo mar para uma praia vazia". Serviu de inspiração a artistas de várias partes do mundo.
Mais do que as milhares de reportagens sobre a crise dos refugiados que cruzavam o Mar Mediterrâneo, foi o retrato da morte de Alan o responsável por acordar a comunidade internacional para um dos mais graves problemas sociais do início do século 21.
Alan morreu afogado depois que o bote em que estava naufragou, pouco depois de iniciar viagem. Seu corpo foi encontrado nas primeiras horas da manhã do dia 2 de setembro de 2015, na costa turca, próximo à cidade de Bodrum.
Ele fazia parte de um grupo de 16 sírios que haviam partido de Bodrum durante a madrugada na tentativa de chegar à ilha de Kos, na Grécia. O objetivo final da família de Alan era o Canadá, onde uma tia do menino já vivia.
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Além de Alan, morreram seu irmão, Galib, de 5 anos, e a mãe dos garotos, Rehana. O bote inflável em que estavam transportava 16 pessoas, mas comportava apenas oito.
Segundo os testemunhos de sobreviventes, os passageiros inicialmente tinham coletes salva-vidas, mas o equipamento não funcionava.
Um segundo bote que partiu na mesma viagem também naufragou. Ao todo, as duas embarcações levavam 23 pessoas, das quais 12 morreram no duplo naufrágio - cinco delas eram crianças.
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Fim do Podcast
Alan e sua família eram sírios curdos - o sobrenome Kurdi foi usado por autoridades na Turquia e adotado desde então, mas o nome original da família era Shenu.
Eles vinham da cidade síria de Kobani, na fronteira com a Turquia e palco de fortes combates entre o grupo autodenominado Estado Islâmico (ISIS) e tropas curdas, durante a guerra civil na Síria, iniciada em 2012.
Fugiram várias vezes dos confrontos, mudando-se para outras cidades da região e cruzando a fronteira com a Turquia, onde se instalaram. Depois de mais um retorno a Kobani no início de 2015, novos ataques do Estado Islâmico os levaram a decidir deixar novamente a cidade, o país e, desta vez, também a região. A tentativa de chegar à Europa e, de lá, partir para o Canadá terminou nas águas do Mediterrâneo.
O pai de Alan, Abdullah Kurdi, foi um dos sobreviventes da tragédia. Um ano depois, em setembro de 2016, vivendo na região autônoma curda do norte do Iraque, ele deu uma entrevista à BBC News.
Falou sobre suas perdas e a onda de refugiados tentando chegar à Europa. "No início, o mundo estava disposto a ajudar os refugiados. Mas isso não durou nem um mês. Na verdade, a situação piorou. A guerra se agravou, e mais pessoas estão saindo." Sobre a morte de seus dois filhos, Alan e Galib, disse: "Penso neles todos os dias".
Seguidos naufrágios
A imagem do corpo de Alan na praia turca, sem vida, chocou o mundo. Seu rosto sobre a areia, levemente tocado pela água do mar, o calção azul e a camiseta vermelha molhados e os sapatos ainda nos pés reforçavam a crueldade da realidade que tirou sua vida.
Essa realidade, no entanto, já estava presente no Mediterrâneo havia alguns anos. Desde 2011, ano da chamada Primavera Árabe - revoltas contra regimes autocráticos no Mundo Árabe -, aumentara o fluxo de pessoas partindo em perigosas viagens no mar em direção ao sul da Europa.
A onda migratória era resultante da fuga de civis de guerras e da pobreza extrema nos continentes africano e asiático.
Em outubro de 2013, uma primeira tragédia de grandes proporções acendeu o alerta da comunidade internacional para o problema.
Um barco transportando mais de 500 pessoas, que partira da cidade de Misrata, na Líbia, naufragou a centenas de metros da ilha italiana de Lampedusa. A maioria dos ocupantes da embarcação era da Eritreia e da Somália.
Segundo relatos, o barco afundou após uma sucessão de eventos - o motor da embarcação parou de funcionar, alguns ocupantes atearam fogo em objetos para tentar chamar atenção de outros barcos, o fogo se espalhou, e o barco começou a afundar em maio ao pânico. Ao todo, 368 pessoas morreram, e 155 foram salvas.
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Naufrágio na costa da ilha italiana de Lampedusa matou mais de 300 pessoas
Antes do naufrágio, Lampedusa já sofria com os desafios provocados pela chegada de milhares de migrantes.
Com apenas cerca de 6 mil habitantes, a ilha italiana, localizada a apenas 120 quilômetros da costa da Tunísia, é um dos pontos da Europa mais próximos do norte da África.
Em julho de 2013, meses antes do grande naufrágio, o recém-eleito papa Francisco visitou Lampedusa para pedir mais atenção da comunidade internacional aos migrantes que chegavam ao local.
Como noticiou a BBC News à época, o papa condenou o que chamou de "indiferença" do mundo com os imigrantes. "Nós perdemos um sentido de responsabilidade fraterna", disse o pontífice.
Nos anos que se seguiram, a situação piorou. Balanço feito no início de 2015 pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) mostrou que, em 2014, "ao menos 218 mil migrantes e refugiados" haviam cruzado o Mediterrâneo por "rotas irregulares".
Segundo o Acnur, cerca de 3.500 pessoas haviam morrido naquele ano. Ainda segundo o órgão, os números mostravam uma tendência que deveria continuar em 2015, o que realmente aconteceu. Juntamente com a onda migratória, vieram novas tragédias de grande proporções.
Em fevereiro de 2015, mais de 300 pessoas morreram em mais um naufrágio perto de Lampedusa - a maioria afogada, mas alguns de hipotermia após terem sido resgatados.
Dois meses depois, ocorreu o mais grave naufrágio no Mediterrâneo até então. Mais de 800 pessoas perderam a vida, segundo informou na época o Acnur, depois que um barco com cerca de 850 migrantes, incluindo crianças, naufragou próximo à costa líbia.
O órgão da ONU disse que entre os ocupantes da embarcação, que partiu de Trípoli (Líbia), estavam cerca de 350 eritreus, além de originários de países como Síria, Somália, Serra Leoa, Mali e Etiópia. Apenas 28 deles sobreviveram e foram levados à cidade portuária de Catania, na Sicília (Itália).
Os resgates
As operações de resgate no Mediterrâneo intensificaram-se ao longo dos primeiros meses de 2015. Elas contavam com a participação da Marinha de países da região e de outras nações europeias, como Reino Unido, Espanha e Suécia.
Organizações Não-Governamentais contribuíam para esses esforços e realizavam complexas ações de resgate em alto mar.
O jornal britânico The Guardian citou um militar aposentado de Malta que participava das ações da entidade MOAS - Migrant Offshore Aid Station, ou Estação de Ajuda a Migrantes no Mar.
Ele disse ter ficado espantado com o tamanho do fluxo de pessoas. "Eu nunca havia tido contato com nada igual."
Também houve tragédias por terra, como no caso da descoberta dentro de um caminhão, em agosto de 2015, dos corpos de 71 "refugiados e migrantes", na definição do Acnur.
O veículo, um caminhão de refrigeração, havia sido abandonado na fronteira entre a Hungria e a Áustria.
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A Grécia tornou-se um dos principais pontos de chegada de migrantes na Europa
Ao longo de 2015, segundo o Acnur, 1.032.408 pessoas chegaram à Europa pela Grécia, Itália, Chipre, Malta e Espanha, número mais de quatro vezes o total de 2014 - quando 225.455 fizeram o mesmo caminho.
Cerca da metade era de sírios, 20% vinham do Afeganistão, e 7% do Iraque - estes dois países enfrentavam conflitos sangrentos desde o início do século.
Estimativa da ONU mostrava que 3.735 migrantes que tentaram viajar à Europa apenas em 2015 haviam desaparecido, tendo provavelmente morrido afogados.
Segundo reportagem do jornal The Guardian, de junho de 2015, o número de refugiados chegando à Itália pelo Mediterrâneo já havia ultrapassado 50 mil. Destes, 5.800 haviam sido resgatados no mar - 3.480 em apenas um dia, passageiros em 15 barcos que haviam partido da Líbia (norte da África).
O país mais procurado como porta de entrada em 2015, porém, foi a Grécia. Em outubro de 2015, o Acnur informou que o total de pessoas chegando ao território grego naquele ano já alcançara 500 mil, 77% do total de 650 mil pessoas que haviam viajado à Europa por vias irregulares naquele ano até então.
A média diária era de 8 mil pessoas por dia. Ainda em outubro, foi instalado na ilha grega de Lesbos o primeiro centro de "recepção e registro" de migrantes e refugiados da União Europeia.
Reações da União Europeia
Diante da pressão migratória recebida por Grécia e Itália, em setembro de 2015, a União Europeia criou um plano para realocação de pessoas pelo continente.
O objetivo era transferir para outras nações do bloco, em dois anos, 160 mil migrantes que haviam chegado a território grego ou italiano. As pessoas precisariam ter boas chances de ser aceitas em futuros pedidos de asilo.
Em 4 de novembro, a transferência para Luxemburgo de seis famílias de sírios e iraquianos em busca de asilo - cerca de 30 pessoas, incluindo 19 crianças - marcou o início do programa.
Em dezembro de 2016, entretanto, a União Europeia divulgou um balanço do programa: em um ano, apenas 8.162 pessoas haviam sido realocadas em outros países.
O período de dois anos foi estendido até meados de 2018. Ao final do programa, segundo as Nações Unidas, 35.500 migrantes foram retirados da Grécia e da Itália e distribuídos entre os outros 25 Estados-membros da União Europeia - apenas 22% do objetivo original.
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Em 2016, protestos em cidades europeias defenderam os direitos dos refugiados
Um outro programa, para reassentamento, foi anunciado pela UE também em 2015 e contava com duas iniciativas.
A primeira visava aceitar a entrada no bloco de até 22 mil pessoas que pedissem asilo quando ainda estivessem fora do território europeu.
A ideia era incentivar que os interessados buscassem uma via legal para entrar na Europa, em vez de se arriscar em rotas irregulares e perigosas, como a travessia do Mediterrâneo.
A segunda iniciativa foi implementada em março de 2016, como parte de um acordo finalizado entre a UE e a Turquia - país que, segundo o Acnur, recebeu 3,63 milhões de sírios.
O acordo previa que todo refugiado cuja entrada ou pedido de asilo fosse negado seria imediatamente enviado de volta ao território turco.
Além disso, para cada refugiado sírio que tivesse chegado à Grécia e fosse impedido de ficar na UE, um outro sírio seria assentado no bloco, vindo diretamente da Turquia.
O acordo, que também estabeleceu uma contribuição de 6 bilhões de euros da UE à Turquia, levou a uma redução drástica no número de migrantes dirigindo-se à Europa por meio da rota entre Turquia e Grécia.
Na época, capitais europeias foram palcos de protestos em defesa dos direitos dos refugiados.
Com as medidas de reassentamento, 115.870 refugiados foram aceitos em países da União Europeia entre 2015 e 2019, segundo as Nações Unidas. Pouco mais da metade - 51% - tinha menos de 18 anos de idade.
O bloco também forneceu ajuda financeira à Grécia. Segundo a Comissão Europeia, entre 2015 e 2020 o país recebeu 2,77 bilhões de euros para poder lidar melhor com a chegada de centenas de milhares de pessoas a sua costa.
Entre as potências europeias, um país destacou-se em sua reação à crise dos refugiados de 2015: a Alemanha.
Em 25 de agosto de 2015, o governo alemão tomou a decisão de suspender, para o caso de refugiados sírios, os efeitos do chamado Protocolo de Dublin, ou Regulamento de Dublin.
A norma europeia, cuja nova versão é de 2003, prevê que um imigrante só pode pedir asilo ao país aonde ele chegou - e que inicialmente processou seus dados pessoais.
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Estado alemão da Baviera recebeu grande volume de refugiados
Com a suspensão, na prática a Alemanha abriu suas portas para a permanência de dezenas de milhares de migrantes da Síria que entraram em seu território após terem passado por outros países da UE.
Uma semana depois, numa entrevista coletiva, a chanceler Angela Merkel disse uma frase que entraria para a história recente do país: "Nós conseguimos" ou, numa tradução mais adaptada ao português, "Nós damos um jeito".
Ela respondia a uma pergunta sobre a onda migratória ao seu país e, na prática, sinalizou que a Alemanha não expulsaria os refugiados de seu território.
Ao final de 2015, segundo noticiou a agência alemã Deutsche Welle, cerca de 1,1 milhão de refugiados haviam chegado à Alemanha naquele ano. A maioria deles entrara no país pelo Estado alemão da Baviera, no sul, depois de cruzarem a região europeia dos Bálcãs.
Cerca de 160 mil ficaram na Baviera, enquanto o restante foi distribuído em outras regiões da Alemanha.
Impacto na política
A crise do refugiados permitiu que políticos e movimentos favoráveis a um maior controle sobre a imigração para o continente europeu elevassem o tom de seu discurso.
O maior exemplo dessa tendência foi visto no referendo sobre a saída do Reino Unido na União Europeia, ato batizado de Brexit, realizado em 23 de junho de 2016.
Os defensores do Brexit argumentavam ser necessário deixar o bloco europeu para acabar, dentre outras coisas, com a possibilidade de cidadãos de outros países-membros viverem e trabalharem em território britânico quando quisessem - a chamada "liberdade de movimento de pessoas".
Também afirmavam que, fora do bloco, o Reino Unido teria independência total para implantar políticas próprias de imigração e proteger o país da chegada descontrolada de refugiados.
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O conservador Boris Johnson liderou campanha em favor do Brexit
Segundo várias pesquisas reunidas pelo Observatório de Migração, da Universidade de Oxford (Inglaterra), a rejeição a imigrantes entre os britânicos era historicamente alta, mas vinha diminuindo nas últimas décadas.
Em 2016, levantamento do instituto Ipsos MORI mostou que a taxa estava em 49%.
Muitos dos que faziam campanha pelo Brexit exploraram essa rejeição de metade da população de forma explícita, como o então líder do partido Ukip (Partido da Independência do Reino Unido), Nigel Farage.
Uma semana antes do referendo, em 16 de junho de 2016, Farage apresentou um enorme cartaz, do tamanho de um outdoor, com a foto de uma fila de refugiados cruzando uma fronteira no Leste Europeu.
No cartaz, as palavras "Breaking Point" - em português, algo como "No Limite".
Na tarde do mesmo 16 de junho, a parlamentar britânica Jo Cox, do Partido Trabalhista (oposição) e conhecida defensora dos direitos de imigrantes, foi assassinada no norte da Inglaterra por um homem com ligações com grupos nacionalistas de extrema-direita.
Enquanto a matava, com golpes de faca e três tiros, Thomas Mair gritou "Isto é pela Grã-Bretanha".
No dia 23, o Brexit foi aprovado em referendo - uma vitória apertada, por 51,9% a 48,1% -, o que levou à saída do Reino Unido da União Europeia, formalizada em 31 de janeiro de 2020.
Na Alemanha, depois das medidas do governo em 2015, adversários políticos de Angela Merkel a acusaram de abrir as portas do país a imigrantes de forma irresponsável.
As críticas aumentaram após um grave incidente no Reveillón de 2015, na cidade de Colônia, quando cerca de 80 mulheres disseram ter sido sexualmente atacadas durante as celebrações.
Segundo as autoridades, centenas de homens, de aparência árabe ou do norte da África, participaram dos ataques, que foram explorados por movimentos contrários à entrada de refugiados no país.
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Discurso da extrema-direita contra imigrantes de diferentes culturas dividiu a Alemanha
Nas eleições regionais de setembro de 2016, Merkel sofreu uma derrota de grande simbolismo na sua região eleitoral, o Estado de Mecklenburg-Vorpommern.
Seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), terminou em terceiro lugar, atrás do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), nacionalista de extrema-direita e anti-imigração. Os social-democratas ficaram em primeiro.
O avanço do AfD foi considerado um retrato do clima hostil a imigrantes que ganhava espaço em partes da Europa.
No ano seguinte, Merkel foi reeleita para um quarto mandato como chanceler, depois que seu partido venceu as eleições, com 33% dos votos.
O resultado, no entanto, mostrou enfraquecimento da líder alemã - em 2013 seu partido conseguira 41% - e comprovou o avanço da direita nacionalista. O AfD, que nunca havia conseguido eleger um representante no Parlamento, recebeu 13.5% dos votos, o que lhe garantiu 87 cadeiras no Bundestag.
Bloqueio italiano
O desafio enfrentado pela Itália, com a chegada de dezenas de milhares de migrantes à sua costa, também teve consequências políticas.
A campanha para as eleições gerais de março de 2018 foi dominada por um tema: imigração.
Quando as urnas foram abertas, a coalizão conservadora composta pelos partidos Liga e Força Itália, favorável a maior controle na entrada de imigrantes, obteve o maior percentual dos votos.
O movimento Cinco Estrelas, de plataforma populista, ficou em segundo, e a coalizão de esquerda, do então primeiro-ministro Matteo Renzi, em terceiro.
Depois de três meses de negociações, um novo governo conservador foi formado, liderado pela Liga e pelo Cinco Estrelas.
O independente Giuseppe Conte tornou-se primeiro-ministro. O líder da Liga, Matteo Salvini, assumiu como ministro da Justiça e vice-premiê, e o líder do Cinco Estrelas, Luigi Di Maio, ficou com a pasta da Indústria e também o título de vice-premiê.
Dias após a formação do novo governo, ficou clara a mudança de postura da Itália. Em junho de 2018, o ministro Salvini decidiu não permitir que o navio de resgate MS Aquarius, que levava 629 migrantes, a maioria originária da África subsaariana, atracasse no país.
O MS Aquarius era operado por uma ONG francesa, SOS Mediterranee, e havia resgatado o grupo próximo à costa da Líbia. Dezenas de crianças estavam à bordo.
O primeiro-ministro da Espanha, o socialista Pedro Sanchez, que também chegara ao poder havia poucos dias, concordou em receber a embarcação no porto de Valencia.
Salvini comemorou o fato como uma vitória política e uma drástica mudança na forma como a Itália lidava com o fluxo migratório.
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Ministro Salvini adotou linha-dura contra imigrantes na Itália
Semanas depois, o governo italiano anunciou que não mais resgataria barcos em dificuldades no mar, transferindo essa responsabilidade para as autoridades da Líbia.
A mudança na política italiana alterou a dinâmica migratória no Mediterrâneo. Segundo análise do Pew Resarch Center, em 2018 a rota entre Marrocos e Espanha, que até então aparecia em terceiro lugar entre os caminhos usados para cruzar o mar, superou as rotas África-Itália e Turquia-Grécia.
O levantamento do Pew mostrou que, de janeiro a agosto, 28 mil migrantes haviam chegado à Europa via Espanha, contra 20 mil via Itália e outros 20 mil via Grécia.
O governo italiano manteve bloqueado o acesso a seus portos por embarcações de resgate de entidades de ajuda humanitária. Matteo Salvini disse que a Itália não mais compactuaria com o que chamou de "contrabando ilegal de pessoas".
Entidades humanitárias, porém, tentaram reagir à decisão italiana. Em junho de 2019, a capitã de um navio transportando 40 pessoas, a alemã Carola Rackete, foi presa depois de atracar sua embarcação na ilha de Lampedusa.
O navio havia resgatado 53 migrantes na costa da Líbia, 13 dos quais haviam sido autorizados a desembarcar por motivos de saúde. As autoridades italianas, contudo, não permitiram que ela atracasse a embarcação, seguindo o bloqueio imposto pelo governo.
Salvini chamou a ação de Rackete de "ato de guerra" e "pirataria". A capitã do navio, que trabalhava para a ONG Sea-Watch, disse que tomou a decisão unilateral de levar a embarcação à ilha devido à perigosa situação à bordo, com alguns migrantes sob risco de suicídio.
Ela foi libertada dias depois. Navios de resgate de entidades como Sea-Watch e Médicos Sem Fronteiras continuaram sendo impedidos de atracar em portos italianos.
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A capitã Carola Rackette foi detida por contrariar as ordens das autoridades italianas
Em setembro de 2019, houve nova mudança no poder em Roma. O ministro Matteo Salvini voltou-se contra o governo da Itália após uma disputa interna e tentou forçar a realização de uma eleição geral.
Com sua base governamental desfeita, o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, renunciou ao cargo.
Antes de partir para uma nova eleição, entretanto, os políticos italianos iniciaram as negociações para a formação de um novo governo. Funcionou. Conte continuou como premiê, e a legenda populista Cinco Estrelas fez um acordo com um tradicional adversário, o Partido Democrata, de centro-esquerda.
A composição deixou Salvini e sua Liga fora do poder. Com o novo governo, vieram promessas de mudança na política para imigração.
O bloqueio italiano contra navios de resgate no Mediterrâneo, no entanto, continuou.
As imagens dramáticas de 2015 ficaram para trás, mas refugiados continuaram arriscando a vida para escapar de guerras e da pobreza extrema ao redor do mundo.
Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, mais de 20 mil pessoas morreram tentando chegar à Europa entre 2013 e 2020.
Em setembro de 2020, a Sea-Watch denunciou a apreensão de mais uma de suas embarcações pelo governo italiano, na Sicília, como uma medida de natureza política.
Em outubro, várias entidades humanitárias pediram o fim do bloqueio imposto pela Itália. Entre as embarcações impedidas de atracar ou apreendidas pelas autoridades italianas, estava um navio de bandeira da Alemanha, operado pela entidade alemã Sea-Eye.
O nome da embarcação era uma homenagem àquele que desde 2016 simboliza o drama dos refugiados que tentam cruzar o Mediterrâneo: Alan Kurdi.
Belarus e Canal da Mancha
Em 2021, o número de pessoas cruzando o Mediterrâneo continuou baixo em relação à crise de seis anos antes, mas a realidade mostrava um significativo agravamento em comparação a 2019 e 2020.
Segundo o Alto Comissariado da ONU, 111.455 pessoas chegaram a países da União Europeia vindos de sua fronteira sul, com 105.842 chegando pelo Mediterrâneo e 5.613 por terra (à Grécia e aos enclaves espanhois no norte da África).
Já segundo a Frontex, agência europeia de fronteiras, até o fim de outubro houve 160 mil prisões de pessoas tentanto entrar ilegalmente na UE por meio de suas fronteiras externas - o que não inclui aeroportos.
O número representava um aumento de 70% em relação a 2020 e de 45% em comparação com 2019.
"O aumento mais significativo foi registrado nas rotas do Leste, o oeste dos Bálcãs e o Mediterrâneo Central", afirmou a Frontex, que mencionou um dos principais palcos do drama de refugiados no continente em 2021: "A fronteira da UE com Belarus continuou sendo a mais afetada pelo fluxo de migração em 2021".
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A fronteira de Belarus com a Polônia recebeu milhares de imigrantes, grande parte do Iraque
A disparada no fluxo migratório a partir de Belarus tornou-se uma crise política. Em agosto, os governos de Polônia e Lituânia pediu ajuda ao comando da União Europeia devido a um súbito aumento na chegada de pessoas vinda do país vizinho, governado por um regime autoritário.
Em apenas dois dias, no início de agosto, 133 pessoas foram paradas pelas autoridades polonesas na fronteira da Polônia com Belarus, noticiou a rede Aljazeera, em comparação com 122 ao longo de todo o ano de 2020.
Enquanto a entrada de imigrantes na Polônia e na Lituânia parecia ter sido facilidade pelas autoridades de Belarus, o regime bielorrusso reforçava sua fronteira para impedir que os países da UE devolvessem as pessoas que haviam cruzado a fronteira.
A União Europeia passou a acusar o regime de Belarus de usar os refugiados como peça em suas disputas políticas com o bloco - que condenava sua repressão interna de cidadãos e movimentos dissidentes.
Em novembro, imagens mostravam centenas de imigrantes sendo levados por seguranças de Belarus para a fronteira com a Polônia.
Na segunda metade de novembro, a crise diminuiu: o regime de Belarus desmantelou os campos de refugiados que haviam sido montados na fronteira com a Polônia, e centenas de iraquianos aceitaram ser repatriados, em um voo que partiu de Minsk e deixou seus passageiros nas cidades de Erbil e Bagdá.
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A iraquiana Maryam Amin tentava chegar ao Reino Unido para se reunir com seu noivo
No outro extremo da União Europeia, em sua fronteira do oeste, outra crise formou-se ao longo de 2021.
Partindo da costa francesa, um número recorde de pessoas atravessou o Canal da Mancha para chegar ao Reino Unido.
Os perigos envolvidos na viagem sugeriam a ocorrência de tragédias semelhantes às vistas no Mediterrâneo anos antes, o que se materializou de forma dramática no fim de novembro.
Um bote improvisado naufragou durante a tentativa de travessia, causando a morte de 27 pessoas, incluindo sete mulheres, uma delas grávida, e três crianças.
Duas pessoas sobreviveram, uma do Iraque e outra da Somália. Várias das vítimas fatais eram iraquianas, como a primeira pessoa a ser identificada, Maryam Nuri Mohamed Amin, de 24 anos, vinda da região do Curdistão, no norte do Iraque.
"É um pecado fazer pessoas passarem por esse sofrimento", disse à BBC News o pai de Maryam, Nuri Hamadamin. O noivo de Maryam, que vive no Reino Unido, chegou a trocar mensagens com ela por meio do celular durante o naufrágio.
A tragédia deu uma face humana a uma realidade muitas vezes discutida apenas em números, que no caso do Reino Unido dispararam em 2021.
Em 11 de novembro, 1.185 pessoas chegaram à costa da Inglaterra após cruzarem o Canal da Mancha, um recorde histórico.
Até o final de novembro, mais de 25 mil pessoas haviam cruzado a faixa de oceano entre a Grã-Bretanha e a França, o triplo do total de 2020, de 8.404.
Como o Reino Unido não faz mais parte da União Europeia, o país deixou de ter um acordo com o bloco para a devolução de pessoas que cruzem o canal.
O agravamento da situação levou a uma crise política entre Reino Unido e França, cujos governos se acusavam mutuamente de não fazer tudo o que podia na busca de soluções.
Paris chegou a retirar o convite feito anteriormente à ministra da Justiça britânica para participar de um encontro com outras autoridades europeias sobre a crise no Canal da Mancha, depois que o premiê britânico, Boris Johnson, divulgou publicamente uma mensagem em que exigia medidas específicas por parte da França.
Os riscos enfrentados por imigrantes para obter uma vida melhor expôem o tamanho de seu desespero para fugir de guerras, repressão política ou pobreza extrema.
Maryam Amin, Alan Kurdi e dezenas de milhões de outros refugiados ao redor do mundo representam um problema acentuado a cada ano pela desigualdade entre países, por velhos e novos conflitos e pelas mudanças climáticas.
Essa dramática realidade continuará desafiando a comunidade internacional ao longo do século 21.
Este artigo é parte da série "21 Histórias que Marcaram o Século 21", da BBC News Brasil.
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